Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Jardim das Delícias



Quarta-feira, 02.07.14

O parto - Adão Cruz

 

Adão Cruz  O parto

 

 

O Adão Doutor - 1967

 

   Quando cheguei à Guiné, uma das primeiras preocupa­ções que tive foi começar a conhecer as pessoas e os costumes.

Para além de ser uma tarefa aliciante, era a melhor forma de me libertar do medo da guerra e da perspectiva pouco animadora de um regresso encaixotado.

Conhecer um povo, ainda que pequeno, originário de quarenta grupos étnicos, fragmentado e encurralado física e psicologicamente em zonas estanques por impo­sição de uma violenta guerra de guerrilha, não era fácil e a desvirtuação constituia um perigo possível.

Tentei iniciar a penetração neste novo mundo através da abertura que a minha missão de médico facultava e facilitava.

Com o tempo as janelas foram-se abrindo e hoje revejo com alguma saudade o imenso painel de mil cores, esse mar de sensações e vivências que nenhuma memória pode esquecer.

As mulheres de Begene e não só de Begene, pariam no mesmo local onde defecavam, uma pequena cerca de esteiras nas traseiras da tabanca, longe da vista- das pessoas e sobretudo dos homens, como se o acto de parir fosse indigno e imprudente, obrigando ao mais submisso recato.

Como se não bastasse, uns dias antes da data prevista para o parto atulhavam a vagina com bosta de vaca, a qual sofria pútridas fermentações que exalavam o cheiro mais nauseabundo que imaginar se pode.

Os tétanos, quer da mãe quer do recém-nascido, eram extremamente graves e frequentes, soube eu mais tarde. Neste primeiro contacto fiquei boquiaberto e decidi actuar. Não seria difícil imaginar a resistência destas pessoas a qualquer tipo de reforma dos costumes, se não fosse tido em conta um facto importante.

Ao contrário do que se diz e do que se pensa, os negros, sejam eles homens ou mulheres, são muito espertos, nada ficando a dever aos brancos e superando-os em muitas coisas dentro da mesma escala de cultura.

Estou disposto a comprová-lo através de exemplos sérios nascidos da minha experiência.

Só assim foi possível a rápida aceitação e compreensão dos esclarecimentos que fiz na tabanca àcerca de infec­ções e higiene, àcerca do papel da mãe, da dignidade do parto e das vantagens de este ser efectuado na nossa enfermaria, ainda que pequena e modesta.

Não demorou muito tempo a aparecer a primeira parturiente.

Era uma linda mulher grávida de termo que não falava nada que se percebesse.

Não sou capaz de precisar nesta altura a etnia, mas lembro-me que nem os outros negros entendiam o seu dialecto.

Mas o seu sorriso, apesar das dores, era tão aberto e confiante que não precisávamos de melhor forma de comunicação e entendimento.

Até os olhos do meu enfermeiro Pimentinha brilharam de entusiasmo, entusiasmo que o levou a ler de ponta a ponta a minha sebenta de obstetrícia e a transformar-se em pouco tempo num habilidoso parteiro e carinhoso puericultor.

Nas minhas mãos um pouco trémulas eu segurava o fruto do primeiro parto que assisti na Guiné.

Era um belo rapazinho que, apesar da pobreza alimentar daquela gente, nasceu bem nutrido e de uma cor rosa-marfim.

Os negros nascem brancos, como se sabe.

Uma deliciosa ironia anti-racista da natureza.

Embora as nossas dificuldades logísticas e económicas fossem grandes, lá consegui oferecer-lhe o alimento, sob a forma de leite condensado, indispensável aos primeiros meses de aleitamento, pois a mãe parecia ter esgotado todas as reservas das suas entranhas ao gerá-lo de ma­neira tão eutrófica e tão perfeita.

Umas semanas após o nascimento vem ter comigo o Chefe de Posto e diz-me sorridente:

"Doutor, vou dar-lhe uma linda notícia que a mim, pes­soalmente, me enterneceu.

A mãe daquele catraio... aquele primeiro parto que o doutor fez, lembra-se?...

A mãe veio registá-lo há dias, oficialmente, com o nome de ADÃO DOUTOR".

 

(in Vem Comigo Comer Amendoim)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:00


4 comentários

De Rodrigues Costa a 02.07.2014 às 15:54

Um texto excecional de um Homem que já era grande, mesmo sem ter idade para isso.
Uma recordação. Há alguns anos estava numa das ilhas dos Bijagós. Já tinha o cabelo branco. Um Bijagó ao falar comigo disse-me: Tu és um Homem grande, mas eu só maior. Dizia-me, simplesmente, que era mais velho do que eu.
Mas o que mais me toca em África são os olhos e os sorrisos das crianças.
O que mais me desgostou: o constatar, quando fui para a guerra, da imensa mentira que tinha sido a "grande missão civilizadora portuguesa"

De Anónimo a 26.08.2020 às 17:37

Como eu o entendo, Amigo Rodrigues Costa!

De Anónimo a 26.08.2020 às 17:38

O anónimo sou eu, Adão Cruz

De Augusta Clara a 02.07.2014 às 16:29

Sempre me encantou este texto

Comentar post




Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Podem me fazer análise do poema? Yema etc

  • Anónimo

    LINDO!!!!

  • Anónimo

    Foi esquecimento a identificação do autor do texto...

  • Anónimo

    Uma beleza o texto, prosa poética com certeza. A E...

  • Augusta Clara

    Olha, Eva, não tinha visto a tua resposta e vim pr...


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos