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Jardim das Delícias



Quarta-feira, 23.07.14

O perigo de voar na TAP - Clara Ferreira Alves

 

 

Clara Ferreira Alves  O perigo de voar na TAP

 

 

Expresso, 19 de Julho de 2014

 

Se um avião da TAP cair será uma catástrofe imputada a este governo

 

   A TAP deixou de ser uma companhia segura. Não se trata de um palpite. Ou do episódio da explosão de um reator sobre Lisboa. Tenho a certeza que só o sangue-frio e perícia dos pilotos evitaram um desfecho mortal. Nos últimos meses, as avarias técnicas, aterragens de emergência, atrasos, vieram denunciar o que é claro: o governo falhou redondamente a gestão política da TAP.

Há anos que se fala na privatização da companhia, desejável se feita em condições de transparência e competência. A TAP é uma companhia descapitalizada, com intuitos monopolistas que não são servidos por uma frota decente ou capital para a comprar. É uma companhia cara. E é uma companhia que perdeu pilotos, pessoal de bordo e técnicos para companhias melhores e mais ricas, que oferecem menos incerteza e ameaças de cortes. A hemorragia afeta o serviço e a TAP enfrenta ainda problemas de manutenção técnica e de escassez de aviões. A última vez que voei na TAP o voo de ida atrasou cinco horas e o da volta atrasou cinco, seis, quase sete horas. Na ida, o avião vinha do Brasil, atrasado. Na volta, vinha de Angola, atrasado. Não há aviões suficientes, disse-me o pessoal de terra. A simpatia e competência do pessoal de bordo e dos pilotos que restam não compensam as falhas técnicas e políticas do dossiê TAP. No Expresso, li a semana passada que a TAP está à espera de aviões da Jazeera Airways, da TAM (obsoletos A340, neste momento em manutenção) e da Air India. A TAP está a tornar-se uma companhia de Terceiro Mundo, com destinos africanos incompreensíveis exceto por imposição política, como a Guiné Equatorial (membro da CPLP e salvadora do Banif) e o Mali (pensa-se que exista um enorme afluxo de passageiros portugueses para Bamako). Além de ser uma companhia africana, com aviões em segunda mão, a TAP nunca cuidou dos destinos asiáticos, estrategicamente mais interessantes, e o Presidente da República foi à China pela Emirates. Inaugurámos com pompa e circunstância o aeroporto de Macau, antes da entrega de 99, anunciando que Macau serviria as rotas da TAP para a China e o Oriente. Como se sabe, Hong-Kong construiu um aeroporto maior e melhor e a TAP deixou de voar para Macau, que se tornou um aeroporto secundário. O Brasil e Angola tornaram-se a missão da TAP, mas é uma missão mal cumprida. Os aviões são pequenos e poucos e os preços são ridículos. Para voar de um continente para outro, há muito que deixei de usar a TAP. Para a Europa, uso em último recurso.

Os cancelamentos e atrasos de voos têm atingido recordes nos últimos meses. O silêncio da administração sobre estes problemas é revelador. O dossiê TAP, tal como o dossiê RTP (outro problema bicudo e adiado) foram entregues a essa sumidade da estratégia pessoal e da negociata chamada Miguel Relvas. No caso da TAP, com a assessoria preciosa do advogado António Arnaut-Goldman-Sachs e do BES, duas fontes de credibilidade. A possível venda a esse homem de negócios “extraordinaire” chamado Efromovitch, senhor de trinta passaportes, e a inclusão de uma companhia aérea europeia na carteira de investimentos do dono de uma companhia de quarta ordem no Brasil, a pré-colombiana Avianca, só não foi avante, diz-se, porque o governo recuou na 25ª hora. Diz-se também que por ordem direta de Dilma Rousseff, que recusou dar o OK antes de analisar o negócio. Intermediário? O doutor Relvas. Efromovitch, que gastou milhares de euros em operações de marketing (incluindo a viagem de um grupo de jornalistas ao Brasil, para aferir a excelência do negócio para Portugal) ficou de mãos a abanar, embora continue a rondar a TAP como um abutre. A TAP, descapitalizada dia a dia, faz o que pode mas não tem a solução política que lhe permita livrar-se destes sarilhos. Entretanto, companhias sérias como a Emirates, a Lufthansa e outras, deixaram de mostrar interesse na TAP. O pessoal da TAP queixou-se da falta de transparência do processo de privatização. Houve greves desconvocadas. Muitos foram embora.

Um cavalheiro americano com quem falei num voo da TAP de Nova Iorque para Lisboa, especialista de aeronáutica e dono de empresas internacionais do sector, gabou o esforço de Fernando Pinto na penúria, e acrescentou que os pilotos portugueses são dos melhores do mundo mas que a companhia precisa urgentemente de injeção de capital. De ser reestruturada. Mesmo que o aeroporto que não chegámos a construir impeça a TAP de ter uma frota de superaviões para o Brasil e Angola, os A380 e os Boeing 787 Dreamliner, deve adquirir aviões novos que voem em condições e não deixem cair peças de reatores a arder sobre a cidade de Lisboa. Se um avião da TAP cair será uma catástrofe imputada a este governo, e será o fim da TAP, como a queda de um velho Boeing de Nova Iorque para Paris foi o fim da TWA. A decadência da TAP é um espelho dos erros de gestão dos governos de Portugal. 

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por Augusta Clara às 11:00


3 comentários

De Beatriz Santos a 24.07.2014 às 15:57

concordância absoluta. Mata-se mais uma das nossas relíquias. Não a vendemos, encontra-se outra forma de a aniquilar. Não será propositado...mas até parece.

O que nos irá acontecer quando não tivermos nada, nem o orgulho nacional, nem o amor à terra, nem liquidez...talvez se esvaiam também os sentimentos, as emoções, a humanidade que persiste em cada homem.

E será outro mundo. E chamar-se-á outra coisa. E tantos como eu que até ocupam pouco espaço e nem fazem muito barulho, que só desejam viver, ficam sem lugar.

De Anónimo a 15.07.2015 às 23:39

Boa noite, fiquei supreendido com a quantidade de dados incorrectos fornecidos nesta pseudo noticia/cronica ou desabafo. Entao vamos por pontos para ver se comecamos a falar das coisas correctamente.
sangue frio do piloto evita catastrofe? Eles sao treinados e pagos para pilotar, logo faz parte do trabalho deles enfrentar este tipo problemas e quanto ao reactor ter explodido uma das fans foi uma falha catastrofica rara que aconteceu com o aviao da tap como podia ter acontecido com outra qualquer e dou-lhe o exemplo do aviao da virgin atlantic a fazer a aterragem de emergencia em gatwick devido a problemas no trem de aterragem (o aviao tem 15 anos e é um 747).
A tap esta a espera dos novos a 350 que sao maiores que o boeing 787 dreamliner e nao podem comprar o a380 devido ao preco unitario andar a volta dos 400 milhoes de euros, o aeroporto de lisboa nao tem capacidade para o receber nas taxiways e stands e alem disso a tap iria ver-se aflita para o encher todos os dias ( exemplo air france tem normalmente a lotacao a rondar os 60%).
Relativamente aos atrasos a tantos aspectos tecnicos que podem ser apontados para explicar um simples atraso. Como por exemplo se o aviao partir atrasado de lisboa para lhr com 20 minutos perde o slot de aterragem e vai ter que ficar em terra ate ter um novo slot e depois esse aviao nao é usado para voltar para lppt e vai para o porto e assim comeca um ciclo de atrasos (bristish airways todos os dias tem atrasos em lgw e nao é por isso que deixa de ser uma companhia de topo).
Quanto a emigracao dos quadros qualificados é natural que aconteca devido aos congelamentos dos ordenados e perda de algumas regalias, mas mais uma vez nao é problema unico da tap todas as companhias aereas europeias perderam milhares de quadros qualificados para as companhias asiaticas e do golfo persico (exemplo qatar, emirates).
Quanto aos voos para o asia, a tap tem avioes com range suficiente para la chegar é o caso do a340-300 so que simplesmente nao era uma operacao rentavel e ja existe uma concorrencia demasiado forte nesse mercado (singapore airlines, ba, asiana, entre outras).
Quanto a parte de incorporar avioes em segunda mao, é a coisa mais normal neste sector (a british airways no ano passado alugou em modo de leasing 20 a320 com 12 anos e mais uma vez nao é por isso que tem problemas)
Para terminar so quero dizer que nao trabalho na tap, mas trabalho no mundo da aviacao e quando falo de assuntos que nao sao da minha area de especializacao tenho cuidado para nao dizer asneiras porque assim ninguem pode apontar o dedo e dizer que estou redondamente enganado e obrigado por fazer-me rir com tanta asneira junta num so artigo de opiniao num blog que descobri por acidente. Bons voos

De Augusta Clara a 16.07.2015 às 01:34

Bom, mas este artigo foi publicado originalmente no semanário Expresso onde a jornalista Clara Ferreira Alves escreve todas as semanas.
Talvez valesse a pena enviar a sua crítica ao próprio jornal, embora a agradeça na mesma.

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