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Jardim das Delícias



Sábado, 12.05.18

Poema do desgaste e do contraste - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Poema do desgaste e do contraste

 

001-2014a.jpg

(Adão Cruz)

 

Há muito que não saía à rua

há muito que não saía fora de mim

em direcção ao meu corpo abandonado

estendido em fria paleta sem cor

sobre um manto de poemas carcomidos

ruídos de musgo e manchas de bolor.

 

Há muito que não saía à rua

há muito que não sentia a dor

do desprezo da poesia

feita espuma de coisas impalpáveis

escaldantes, abertas e sangrantes

no sofrido labirinto da alma vazia.

 

Há muito que não saía à rua

há muito que não me apercebia

um só momento

do cantar bronco do poeta

em perpétuo e estúpido invento.

 

Há muito que não saía à rua

há muito que não dobrava a porta

deste corpo abandonado

na escuridão de uma noite peregrina

de lacrimosas horas perdidas

em poemas de cinza em cada esquina.

 

Há muito que não saía à rua

há muito que não sentia o abrigo dos lençóis

e pisava o chão purulento do degredo

na lama fria dos poemas e do medo

que rompiam as cadeias do meu corpo.

 

Há muito que não saía à rua

há muito que as linfas secaram a felicidade

mudando o cair da noite e o nascer do dia

em matéria grosseiramente física

de versos telúricos, celulósicos, iónicos

sem poesia nem liberdade.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 16:25


4 comentários

De Anónimo a 12.05.2018 às 19:56

Um bom poema desanimado tem um destino, talvez procurado: o de também desanimar, mais ainda quem já estiver-andar desanimado.

Como é o caso.

Abração!
Magalhães dos Santos

De Anónimo a 13.05.2018 às 12:07

"há muito que não saía à rua..."
e não via os movimentos do pincel
burilando o quadro da vida
despejada de si
tão nua...

o nosso abraço
bravo, caro Adão!

De Anónimo a 13.05.2018 às 23:20

quando o próximo livro?

De Augusta Clara a 14.05.2018 às 16:47

Por favor, assinem os comentários. Não há nada mais desagradável do que ler textos anónimos.
Já protestei junto do sistema por não estar a deixar as pessoas identificarem-se. Entretanto, agradeço que acrescentem os vossos nomes no fim dos escritos.

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