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Jardim das Delícias



Terça-feira, 03.08.21

Poesia - Adão Cruz

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Adão Cruz  Poesia

 

vale de cambra 9 de julho de 2018 (2).jpg

 

 

   É muito difícil saber o que é a poesia, e eu duvido de quem diz que sabe o que é a poesia. Tenho ouvido as mais variadas explicações e definições, mas o horizonte que me transmitem é sempre nebuloso. Isto não impede, contudo, que tenhamos o direito à manifestação do nosso pensamento e da nossa razão.
Pessoalmente, sem ter a veleidade de pretender procurar definições de poesia, senti sempre a necessidade de perceber o que é, necessidade de a entender e de me entender no seu complexo e maravilhoso mundo. Por isso, ao longo de tantos anos de reflexão, fui dando comigo a pensar que a poesia não é mais do que um sentimento como outro qualquer. Assim sendo, prefiro chamar-lhe sentimento poético. Um sentimento como o sentimento do amor e do ódio, o sentimento da alegria e da tristeza, o sentimento da coragem e do medo, o sentimento da felicidade e da infelicidade, bem como o magnífico sentimento da liberdade, sobretudo da liberdade interior, a liberdade do pensamento e da razão, as maiores riquezas do ser humano. Um sentimento, não no sentido sentimentalista mas no sentido neurobiológico do termo, um sentimento muito subtil, uma espécie de brisa mágica perpassando pela nossa mente, uma essencialidade rítmica e harmoniosa da vida, provavelmente de uma neuronalidade muito específica e delicada, quase uma ascese ética e estética que nos transporta à mais nobre e sublime expressão da realidade, através das mais impressivas, expressivas e sugestivas formas da nossa linguagem. Eu penso que a sua arte reside na combinação da palavra justa com a adequada sensibilidade e energia sinestésica que fazem o poema acordar. A poesia não é uma emoção porque a emoção não é consciente, embora a emoção poética seja o caminho obrigatório e quase instantâneo para o sentimento, o sentimento poético, esse sim, consciente. Não é, contudo, um sentimento de cópia da realidade mas de simbolização, a evocação e a invocação ao mais alto nível, da beleza e da nobreza da realidade. O fenómeno poético poderá ser entendido como uma harmonia verbal e mental em que todos os materiais fonéticos e simbólicos se fundem num resultado de suprema fruição estética para quem o vive de forma profunda. O chamado poema, considerado a matriz literária onde habitualmente nasce e germina a poesia, pode até ser estéril, pode não passar de uma espécie de andaimes da construção poética, ou ser mesmo a negação da poesia. A poesia, o sentimento poético percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, podendo mesmo ter uma presença mais viva num texto em prosa do que num poema, ou ser muito mais sentida numa pintura ou numa peça de música do que em qualquer forma de expressão literária. Por isso, em minha opinião, qualquer forma de expressão artística, qualquer obra de arte só o é se contiver dentro de si a poesia do sentimento artístico, o sentimento poético.
Daniel Barenboim dizia que a música não é o som. De facto, todos sabemos que a música se exprime através do som, mas o som, em si mesmo, não é música, é apenas o meio físico através do qual é possível transmitir a mensagem mental da música. Todos conhecemos as notas musicais, todos somos capazes de as dedilhar nas teclas de um piano, mas daí a gerar um sentimento poético e artístico musical vai um abismo. Todos conhecemos as letras e as palavras, todos somos capazes de as juntar e com elas comunicar, de forma primária ou erudita, mas daí a criar arte literária ou sentimento poético vai um abismo. Criar poesia pode não ser apenas entrelaçar palavras dentro de uma construção ou estrutura chamada poema, pode não ser encastelar versos uns em cima dos outros, fazer frases labirínticas que ninguém entende, engendrar rimas e outras coisas que não passam, muitas vezes, de execuções sumárias da poesia. Assim sendo, a poesia pertence á nossa área neuronal, à esfera das emoções, sentimentos, consciência e afectos. Ao fim de uma vida de interrogações e reflexões, eu posso dizer que encontrei as minhas verdades, que sempre o serão até me provarem e convencerem de que o não são, o que não tem acontecido. Para quem, como eu, materialista convicto, não aceita qualquer dualismo corpo-espírito mas apenas o todo uno e indivisível do ser humano, essas verdades ou pelo menos algumas delas até poderão ser a Verdade.
Todos nós possuímos no nosso cérebro o mesmo esquema neural de um sentimento, já que é o esquema neural da nossa espécie. Mas o padrão neural desse sentimento que vai encaixar no nosso esquema neural é diferente em cada um de nós. Todos, de uma maneira geral, temos o mesmo esquema de vida. Todos nos levantamos, todos tomamos banho, vamos para o trabalho, andamos de carro, fazemos férias, todos rimos e choramos, mas as nossas vidas, os nossos padrões de vida podem ser muito diferentes, desde a simples camisa à profundidade do nosso íntimo. Os sentimentos não se constroem, não aparecem nem se manifestam aleatoriamente de um dia para o outro. Além disso, os sentimentos são o resultado de uma infinidade de factores que interagem entre si e os tornam tão intimamente ligados que só de forma artificial e académica tentamos separá-los e individualizá-los. Todos nós nascemos, como disse, com os esquemas neurais dos sentimentos da nossa espécie. Mas assentes nesse terreno genético, cada um de nós vai criando os padrões dos seus próprios sentimentos, através de uma curva de vivência e aprendizagem de uma vida inteira. Uma pessoa que tenha tido uma vida repleta de amor, que tenha vivenciado o amor na sua plenitude, adquire um padrão do sentimento do amor muito diferente do sentimento do amor de uma pessoa que nunca amou ou nunca foi amada. Uma pessoa que toda a vida viveu na miséria, no meio de agruras e dificuldades de toda a ordem, terá provavelmente um sentimento de carência que pode ser totalmente diferente do sentimento da pessoa que nunca teve dificuldades e viveu toda a vida na abundância. Dentro do nosso esquema neural já haverá, porventura, embriões dos diversos sentimentos que vão nascer connosco, que depois crescem, se desenvolvem e se vivenciam, e que a epigenética vai moldando, construindo, estruturando, apurando e afinando dentro de cada um. Para o bem e para o mal. Assim acontece com o amor, o ódio, a alegria, a tristeza, o medo, a coragem, sentimentos do nosso dia-a-dia. Não acontece tão facilmente, penso eu, com o sentimento poético e o sentimento artístico porque eles, a meu ver, não são vividos nem desenvolvidos pela globalidade das pessoas. Apenas os vivem aqueles que deles sentem necessidade e por eles se sentem atraídos, aqueles que os vão apurando, que os enobrecem e que com eles se habituaram a conviver como metabolitos essenciais da sua vida. Como é óbvio, mesmo assim, de formas diferentes em cada um de nós.
Então, poderemos tentar dizer, cautelosamente, o que será um poeta. Eu penso que ser poeta é, antes de tudo, ser possuidor de um sentimento poético profundo e muito apurado, construído através de uma vivência de amor, atracção e dedicação à poesia, vivendo-a de uma forma indissociável do viver da vida. Mas para além desta aprendizagem de uma vida inteira, creio que é fundamental na construção do sentimento poético uma formação cultural global do ser humano tão sólida quanto possível, uma visão humanística e livre do mundo e das coisas, a par de uma bem estruturada formação ética e estética. Só assim se entende, como parece comprovado através de estudos psicológicos, sociológicos e neurobiológicos, que o sentimento poético e o sentimento artístico enriquecem e enobrecem todos os nossos processos de humanização, criam grandes afinidades com a consciência, aproximam-nos de todos os mecanismos de identificação da verdade, melhoram e purificam todos os outros sentimentos, ajudando-nos no caminho do equilíbrio, da harmonia e da justiça. Penso ainda que muito daquilo que andamos para aqui a fazer e a que chamamos poesia, não passa, tantas vezes, de arremedo, de ilusão e desilusão. E também penso que é um erro pretender que o sentimento poético chegue às pessoas por artes mágicas. Dito por outras palavras, julgo que é um erro pretender levar às pessoas a poesia ou sentimento poético como se de uma actividade lúdica ou de prenda banal se tratasse. Dizia Schiller que o vulgar é tudo aquilo que não desperta outro interesse que não o sensível. A arte e a poesia não podem descer ao puramente sensível, à mera receptividade sensorial, à fugaz captação de estímulos incapazes de serem vividos condignamente nas complexas oficinas neuronais da nossa mente. Não é a poesia e a arte que têm de ir ao encontro das pessoas, não é a poesia e a arte que têm de descer ao comum dos mortais, mas é o ser humano que tem de ascender ao sentimento artístico e poético através de políticas culturais e condições sociais que a todos permitam sentir a necessidade da poesia e da arte como um elemento essencial da vida.

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por Augusta Clara às 00:25


2 comentários

De Anónimo a 03.08.2021 às 12:43

A poesia é como a música. Compreendo-o. E a Baremboim. Tive ouvido e perdi-o. Recuperação do som, do ouvido, da música e da poesia é também um ato de vontade. Obrigada pelo belo texto, Adão Cruz. E também à Augusta, que o divulgou, os meus agradecimentos. Bom, começar o dia, com a vossa inteligência.
Inês

De Augusta Clara a 03.08.2021 às 14:38

Pela minha parte obrigada Inês. Bj

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    A poesia é como a música. Compreendo-o. E a Baremb...

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