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Jardim das Delícias



Quinta-feira, 07.01.16

Ready-made Man - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  Ready-made Man 

 

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   Tolstói entendia a depressão como a distância entre a consciência do indivíduo e a sua praxis. Crendo nele, não custa aceitar que filósofos, artistas, românticos e outros pescadores de águas fundas estejam entre os que mais arriscam a falência anímica. Uma sociedade como a de hoje, que evapora o longo alcance na câmara ardente da sobrevivência, não põe lugar na mesa para espíritos indagadores da sua própria natureza.

Mais fácil, pois, do que tirar o apetite a quem depende da fome para existir é fazer da fome a sua consciência. E assim, para esses, acaba-se a depressão, pelo menos enquanto houver comida.

Que, nos tempos mais recentes, filósofos, artistas, românticos e outros pescadores de águas fundas se tenham convertido a esta receita, eis a parte mais complicada de mastigar. A verdade, porém, é que de diferentes instâncias autenticadas do saber emergem tendências alérgicas a uma defesa da ética e da moral como elementos estruturantes da consciência.

Encostada às cordas desde o fim da Guerra Fria, a esquerda tem sido o alvo privilegiado desses socos retardatários, talvez porque a conjuntura actual seja propícia a que ela reanime. Então, mal ganha expressão social o apelo aos valores humanos, de pronto se levanta um modelo de intelectual muito em voga, intitulado de politicamente incorrecto, reduzindo o fenómeno a um “regresso da mentira da esquerda”. Com este conceito, pretende relembrar-nos de que enquanto uma pessoa de direita diz o que sente, uma pessoa de esquerda diz o que gostaria de sentir.

Trata-se de um discurso cujo fogo alastra tanto mais depressa quanto a palha é o pão dos nossos dias. Mais ai de quem diga uma coisa destas, mesmo não sendo o que gostaria de sentir. Vem imediatamente o veredicto: “As pessoas de esquerda acham-se moralmente superiores”.

Eu não cinjo a vida das ideias a uma contenda entre esquerda e direita. Penso o que penso. E sou, claro, parte do problema. Quando digo que a palha é o pão dos nossos dias, ainda sinto vestígios dela entre os dentes. Mas há uma coisa que eu não confundo: o burro com a burrice.

Ora, quem preconiza uma sociedade baseada num conceito de honestidade segundo o qual cada indivíduo se comporta de acordo com aquilo que sente deve assumir claramente a mensagem que transporta: se nascemos burros, burros devemos continuar.

A mim parece-me que, mais do que se acharem moralmente superiores, as tais pessoas de esquerda acham moralmente superiores os ideais por que se sacrificam até à depressão. E isso, sob um prisma individualista, faz delas burras. Mas talvez seja útil dizer a quem queira produzir juízos nesse plano de análise que ele não se ajusta minimamente ao contexto em que todos vivemos.

A civilização, tanto quanto a vejo, é um conceito evolutivo que visa não apenas harmonizar as vivências individuais e colectivas de um todo social, mas também criar as condições mais propícias ao seu desenvolvimento. Ser civilizado é, pois, defender a espécie.

Antes, porém, de defendermos alguma coisa, devemos imaginá-la, concebê-la, querer senti-la. Do meu ponto de vista, uma sociedade em que cada um diz e faz apenas o que sente tem um valor inestimável enquanto utopia. Não seria sequer o tecto da casa humana, era o céu. Agora, apontá-la hoje como terapia instantânea é o retrato fiel do pensamento individualista contemporâneo: curto, desintegrado. Para se ter o mundo na mão, tem de se dar a mão ao mundo.

A mim, não há depressão que me desvie do caminho.

 

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por Augusta Clara às 17:00




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