Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Eva Cruz Senhora do Desterro

(Foto de Adão Cruz)
O cansaço invadiu os dias rotineiros que vivemos. Parece que depois do confinamento obrigatório, se perdeu a vontade de sair à rua. O tempo quase sempre chuvoso e cinzento também não convida a pôr os pés fora de casa. Dá ideia que o hábito ao isolamento nos cortou a vontade de manter os laços sociais. Se saímos, ninguém nos conhece e quase não conhecemos ninguém atrás da máscara. Afastamo-nos o mais possível uns dos outros, atravessamos para o outro lado da rua se alguém tosse ou espirra, andamos assustados, temerosos, desconfiados. Passamos os dias colados ao computador ou à televisão esperando números e resultados para matutar sobre a quantidade de mortos e infectados graves.
De vez em quando lá me meto no carro e vou até à aldeia, respirar o ar puro, o cheiro a verde, ouvir os pássaros, ver o nascer e o crescimento de algumas “novidades” há pouco plantadas, e que os pombos-rolos não param de depenicar. Pequenos e grandes prazeres para quem desde criança “se vestiu de sol e despiu de luar.” Oiço as pessoas do campo e outras que por lá encontro e todas ditam sentenças sobre o vírus que nos assusta. Para uns, isto já estava nas Escrituras, para outros, é a Eutanásia que todos desejavam “- queriam a Tanásia, ela aí está”. Há quem acredite que é um castigo de Deus, que eu, em vão, tento contestar. Outros acham que a ciência não sabe nada e que nada resolve. Quando lhes digo que acredito na ciência e só ela nos pode resolver os problemas, por mais argumentos que use, não os convenço. Para eles, só a Senhora do Desterro nos pode valer. Só ela pode desterrar este mal para “monte maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira.” E com isto me calo.
Quando era menina fui muitas vezes à romaria da Senhora do Desterro, uma capelinha no cimo da serra, com meia dúzia de casitas de pedra solta aninhadas ali à volta. O farnel era para mim o ponto alto da festa. Lembro-me de lá ter deixado, a mando de minha mãe, um porquinho de cera para pagar o milagre de ter salvado um porco da peste, uma vez que, nesse tempo, perder um porco era grande prejuízo para a economia familiar. Era de tal modo importante a ceva que me recordo de ouvir contar que uma devota prometera dar os brincos pela salvação de dois porcos. Como só um foi garantidamente salvo, deu apenas um brinco, esperando que o outro sobrevivesse para entregar o par que restava. Antes prevenir que remediar.
Crenças de outros tempos, mas que ainda hoje permanecem. O desânimo e a pouca esperança são de tal ordem que, pelo sim e pelo não, até aconselhei, que, movidos de tal crença, levassem à Senhora do Desterro, não um porquinho, como eu fiz quando era menina, mas uma velhinha de cera, para ver se a Senhora desterra para sempre este vírus que tanto “gosta” de pessoas idosas. Tal como Santa Bárbara com a trovoada, empurrando-a para” lugar maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira ou bafinho de menino”.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.