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Jardim das Delícias



Quarta-feira, 26.02.14

Servo sem dor ... - Fernando Pessoa

 

Fernando Pessoa

 

(Henri Matisse)

 

Servo sem dor de um desolado intuito,

De nada creias ou descreias muito.

O mesmo faz que penses ou não penses.

Tudo é irreal,  anónimo  e fortuito.

 

Não sejas curioso do amplo mundo.

Ele é menos extenso do que fundo.

E o que não sabes nem saberás nunca

É isso o mais real e o mais profundo.

 

Troca por vinho o amor que  não terás.    

O que 'speras, perene o 'sperarás.

O que bebes, tu bebes. Olha as rosas.

Morto, que rosas é que cheirarás?

 

Vendo o tumulto inconsciente em que anda

A humanidade de uma a outra banda,    

Não te nasce a vontade de dormir?

Não te cresce o desprezo de quem manda?

 

Duas vezes no ano, diz quem sabe,

Em Nishapor, onde me o mundo cabe,

Florem as rosas. Sobre mim sepulto    

Essa dupla anuidade não acabe!

 

Traze o vinho, que o vinho, dizem, é

O que alegra a aIma e o que, em perfeita fé,

Traz o sangue de um Deus ao corpo e à alma.

Mas, seja como for, bebe e não sê.

 

Com seus cavalos imperiais calcando

Os campos que o labor 'steve lavrando,

Passa o César de aqui. Mais tarde, morto,

Renasce a erva, nos campos alastrando.

 

Goza o  Sultão de amor  em quantidade.    

Goza o Vizir amor em qualidade.

Não gozo amor nenhum. Tragam-me vinho

E gozo de ser nada em liberdade.

 

(in Novas Poesias Inéditas, Edições Ática)

 

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por Augusta Clara às 17:00




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