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Jardim das Delícias



Quarta-feira, 25.10.17

Sobre Ana Margarida de Carvalho - Adão Cruz

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Adão Cruz  Sobre Ana Margarida de Carvalho

 

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   O texto transcrito em baixo, intitulado “Epipostáfio”, é da escritora Ana margarida de Carvalho, autora dos livros “Que importa a fúria do mar” e “Não se pode morar nos olhos de um gato”, ambos premiados pela APE (Sociedade Portuguesa de Autores). A amarga beleza deste texto, que se refere à tragédia dos incêndios, bem como a leitura dos livros, faz-me sentir, como leitor, na obrigação de dizer alguma coisa sobre esta grande escritora.

Tive a honra de assistir a uma conversa com Ana Margarida de Carvalho, na Unicepe, conversa em que intervim com uma curta síntese do pensamento que exponho no pequeno texto que se segue.

Perante a massificação e o facilitismo de tanta coisa que para aí se escreve e consome, ou não consome, porque pouca gente lê, caíram-me nas mãos estes dois livros, por um feliz acaso. No meu entender, a vida é uma inequívoca sucessão de acasos, uns bons e outros maus, e não há forma de fugir a este rumo incerto e a estes altos e baixos da nossa existência. Foi portanto um bom acaso proporcionado pelo meu amigo Dr. Rui Vaz Pinto que me telefonou de Amarante a confessar-se deslumbrado com a leitura do segundo livro.

Cada um de nós tem as suas verdades, as quais, eventualmente, até podem ser verdade. Eu penso que um grande escritor, um escritor de primeira água tem de ser uma alma grande. E o que será, no meu entender, uma alma grande? Sem introduzir aqui quaisquer conceitos ou critérios de moralidade, eu julgo que uma alma grande é a que consegue atingir aquela espécie de fronteira ou interface que separa a natureza a que podemos chamar antropocêntrica do ser humano e a sua natureza universal, ainda que esta dimensão universal não seja mais do que um belo dia de primavera nos olhos de um prisioneiro atrás das grades. Aquela paisagem onde residem o verdadeiro sentimento artístico, o verdadeiro e autêntico sentimento poético, e a mais elevada relação humana com a dignidade, a solidariedade e a fraternidade.

Um grande escritor, bem como um grande artista, seja qual for a sua forma de expressão, introduz dentro da sua obra, muitas vezes de forma mais ou menos inconsciente, toda a sua alma, tudo aquilo que é, toda a sua vida, toda a sua estrutura mental e cultural, todos os seus sucessos e frustrações, todas as suas alegrias e tristezas, todas as suas realidades e utopias, toda a sua visão do mundo e das coisas. Como dizia Saramago, há uma coisa sem nome que existe dentro de nós que é aquilo que somos. Ao mesmo tempo, um escritor de primeira água tem de possuir uma grande capacidade de alteridade, isto é, uma grande capacidade de entrar na pele do outro, de entender, compreender, lidar e trabalhar com os mais diversos padrões neurais do ser humano, uma enorme capacidade de entendimento das mais variadas emoções que pela ordem natural das coisas levam aos mais diversos sentimentos que vão estruturar as mais complexas consciências sobre as quais se exercem todas as reflexões que conduzem às mais variadas decisões.

Só assim e não de outra forma, eu entendo a sua poderosa escrita, considerando que só uma alma grande pode criar obras desta envergadura, obras de grande peso, de corpo denso e avassalador, corpo que Ana Margarida conseguiu vestir com um estilo linguístico francamente inovador que sobressai, como disse, muito acima da massificação, da vulgaridade e do facilitismo. Pela minha parte foi com alegria e satisfação que usufruí o prazer literário que me deram estas duas grandes obras.

Porto, 24 de Outubro de 2017

Adão Cruz 

 

Epipostáfio, Ana Margarida de Carvalho

   A minha infância é um esgoto atravancado de detritos. A minha infância tem cheiro a fumo nos cabelos e cinzas debaixo das unhas. Um cansaço granítico, uma velhice súbita nos pés. Não sei se estou dentro ou fora, se saí de ti, se entrei em ti, desconheço-te tão bem quanto te conheço. Perco-me cá dentro, entre restos, sobras, remanescências vãs, numa casa sem bússola, mas se conseguisse subir ao sótão talvez avistasse de lá a serra e a neve no cume, e reconhecia-te outra vez. Como se mantem a vista se não existe janela para me debruçar… Como me agarro ao corrimão de uma escada que já não há… Como avanço pelo corredor de sustos e escuridão, se ele está a céu aberto e não tem princípio só fim… Como caminho nesta inexistência de chão, feita de vidros, pedras trituradas e pregos - foi o que restou... Como se faz para soterrar algo que me inclui… Como me desvio para atalhos se todas as minhas correntes sanguíneas vão ter aí… Tenho de reportar a minha infância ardida e dão-me um formulário da Protecção Civil. Tenho de preservar a memória dos meus avós, dos avós dos meus avós, e pedem-me apólices, metros quadrados e cadernetas prediais. Eu era capaz de as encontrar, senhor vereador, de certeza na segunda gaveta da secretária do meu avô, onde ele guardava os papéis importantes. No escritório onde tudo se manteve, com o passar dos séculos, no seu devido lugar. Inalterável, como num museu. Indiferente aos ruídos do mundo cá de fora, a duas guerras mundiais, um holocausto, uma bomba nuclear, uma revolução de Outubro, outra de Abril, primaveras árabes, tempestades nos desertos, violações em massa na Macedónia, o erguer e o derrube de torres gémeas, o espelho que ocupava a parede nunca deixou de mirar gerações que lhe passavam em fila, o tio-bisavô de bigodinho, na moldura bordada a pérolas, continua a lançar um olhar de viés a estes descendentes que lhe esqueceram o nome, o pisa-papéis alinhado com a caneta de aparo e cubinhos de vidro e prata de tinta seca, a menina de cinco olhos com que se espancavam, selváticos, os meninos, o busto de Chopin, a santa de oratório, esculpida em marfim, com as mãos decepadas pelos franceses… A saleta de costura com a salamandra e as fotos de casamentos, muito se casou nesta família…Tudo no seu devido lugar. Como num museu, mas sem as etiquetas. Nenhum óbito a reportar, graças a Deus, senhor vereador, e no entanto, uma multidão insepulta. Não lhe imagino a agonia, e ninguém sabe, ninguém viu. Neste andar de cego, os passos não me obedecem, faltam-me as esquinas, os pontos de referência, os desvãos, as passadeiras, as maçanetas de portas ausentes … Como lhe hei-de explicar isto, senhor presidente de Junta, o silêncio de uma casa carbonizada. Quanto tempo demoram a regressar os pássaros que fazem ninho nos beirais desaparecidos … E os ratos que nos infernizavam as noites com a ansiedade roedora tão bem-vindos, afinal… E os cardumes de moscas que entravam por uma janela de verão e percorriam as funduras ondulantes dos corredores … E o cheiro enjoativo a vinho da adega, sempre gélida, onde não entrava fio de luz, agora esventrada e inundada de sol intruso. Uma casa tão misteriosa e solene, tão encantadora e assustadora, tão vergada pelo tempo, agora uma cratera sem mistério, óbvia, nua, escancarada, despudorada… O enxovalho de se revelar nas entranhas, o indecoro de canalizações retorcidas, a injúria do metal fundente vergado à vilania da fornalha, a lama peçonhenta, de cinzas e chuva irónica, que larga nas bermas e vai descendo lenta pela ladeira. Vê como sangra, senhor presidente de Junta, como se derrama em líquido lamento, solitário e mudo. Esvai-se e ninguém que saber, ninguém tem compaixão por cascalhos sem nexo nem valor. O declínio e a dissolução desagradam à vista, embaraçam a freguesia, desfeiam paisagem. A perdição dos outro incomoda as consciências. Nenhum óbito a declarar, graças a Deus, ninguém, nada, nem um gato aflito esquecido dentro de portas, nem uma ovelha, nem uma galinha… Graças a Deus, apenas um pedaço de existência que se foi para sempre.

 

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por Augusta Clara às 16:38




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