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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Augusta Clara de Matos África versus Mahler

(Adão Cruz)
Carlos de Matos Gomes A Europa só tem um problema: os seus bancos!
Refugiados? Um caso de polícia. As coisas são como são. Prioridades de atuação traduzem opções de vida, carácter e moral. Política.
Em 2011, a Europa teve de enfrentar a possibilidade de falências dos seus bancos, os seus especuladores estavam aflitos. A União Europeia sobressaltou-se e tomou medidas de emergência, nomeando um ditador para as finanças: Schauble. Estabeleceu um programa: austeridade para os povos e transferência de riqueza pública para os privados. Montou uma Inspeção Geral de Finanças: a troika, com um banco europeu, um cônsul da União e uma entidade de controle mundial, o FMI.
O assunto das finanças, da manutenção do sistema de especulação, da transferência de riqueza era o problema sério da União Europeia e tinha de ser tratado pelos melhores especialistas e com os melhores remédios. Schauble passou a ser o senhor Europa, acolitado por uma corte, o Eurogrupo.
A União Europeia concentrou os seus meios no objectivo principal: finanças.
Em 2015, a Europa enfrenta a maior onda de refugiados desde a IIGM. Em parte pela política de extracção de matérias primas em bruto de África e do Médio Oriente que praticou desde a Conferência de Berlim, no século XIX, em parte pelos ventos que semeou desde a invasão americana do Iraque, já no século XXI. Os resultados das brilhantes acções no Iraque, na Síria, na Líbia surgem agora nas fronteiras da Europa. Os Estados Unidos, entretanto, tiraram o seu cavalinho da chuva. Para qualquer pessoa de algum senso trata-se de um complexo e gigantesco processo político, que tem origem no modo como o Ocidente se relaciona com outras áreas do planeta, que afeta a segurança presente e futura da Europa.
Para a União Europeia, estas massas humanas são números, números de afogados, número de resgatados, número de migrantes, divididos por regiões de origem. São insetos em movimento. A questão é grave? Parece que não. A mesma União Europeia que nomeou o senhor Schauble ditador das finanças tem tratado o assunto como um caso de ordem pública e assistência social. Umas reuniões dos ministros das polícias de França e de Inglaterra, em Calais, umas reuniões com os ministros das polícias da Grécia e de Itália. Umas barreiras de protecção. Uns muros. Uns ouriços de arame farpado. Umas bastonadas e umas granadas de fumos. Umas patrulhas no Mediterrâneo.
A União Europeia criou algum Eurogrupo de ministros do interior, ou dos negócios estrangeiros, ou da defesa? Os chefes de governo já reuniram para tratar do assunto? Talvez lá para Novembro. A União Europeia já chamou os Estados Unidos para assumirem a parte da responsabilidade que lhes cabe nesta tragédia? Há algum Schauble nomeado para os refugiados? Há algum Schauble nomeado para enfrentar a ameaça do ISIS? Entretanto, a NATO, que reúne a força militar dos Estados Unidos e da Europa, está hirta, atenta e vigilante, em alerta, de olhos no inimigo russo! Ou faz exercícios em Portugal, que tem bom clima e fica longe dos conflitos. Cuidado com os russos!
José Goulão África, um "Campo de Batalha" da NATO
Mundo Cão, 16 de Abril de 2015
África vive o colonialismo de terceira geração, se quiserem, o pós-neocolonialismo, desta feita através do expansionismo militar norte-americano levando atrás o aparelho da NATO para garantir a devastação neoliberal do continente a pretexto de – quanto a isso, nada de novo – da “segurança colectiva” e da guerra contra o terrorismo.
Nos gabinetes do Quartel-General da NATO, em Bruxelas, dizer que a África “é um campo de batalha” não é cometer uma inconfidência ou um exagero do discurso. A frase corresponde à realidade do terreno e limita-se a reproduzir os ecos dos jogos de guerra delineados na pátria do império, seja em Washington, na Florida, onde quer que o Pentágono decida renuir os representantes aliados, melhor seria dizer os subordinados.
Desde que em 2008 os Estados Unidos deram asas ao AFRICOM, o seu comando operacional para África, as intervenções militares norte-americanas transformaram-se num dos quotidianos do continente.
Só durante o ano passado, tropas norte-americanas participaram em 674 operações, quase duas por dia, um aumento de 300 por cento em comparação com a situação que se vivia antes de 2008 – isto de acordo com números oficiais.
As razões invocadas no discurso dos chefes militares são as ameaças representadas pelo radicalismo islâmico, sobretudo na África do Norte e Central, sem esquecer o Corno de África e toda a costa do Índico. Organizações como o Boko Haram da Nigéria, o Al Shabab da Somália, a Al Qaida do Magrebe, no Mali e outros países e, principalmente, o reforço do Estado Islâmico (Isis ou Daesh) e a respectiva aliança com o Boko Haram, recentemente anunciada, alimentam a verborreia militarista e securitária.
Atrás dos aliados ou subordinados da NATO, os Estados Unidos arrastam tropas de países como a Argélia, Senegal, Mali, República Centro Africana, Marrocos, Líbia (ou o que resta do país), Camarões, Turquia, Tunísia e Egipto – por aqui se percebe como as “primaveras árabes foram rapidamente adaptadas ao novo espírito colonial.
Os comportamentos repugnantes de entidades como o Estado Islâmico, o Boko Haram e aparentados justificam o inflamado militarismo? À primeira vista, sim. Pelo menos, é quanto basta para alimentar as confortáveis teses de articulistas, observadores, analistas, politólogos e outros papagaios da propaganda. A observação do fenómeno, porém, não ficará completa se não lhes juntarmos alguns elementos relevantes. Grupos aliados da NATO na Líbia, por exemplo milícias radicais islâmicas ligadas às redes da Al Qaida e do Estado Islâmico, abastecem com mercenários e armas uma miríade de unidades terroristas que espalham a barbárie desde a Síria à Nigéria. Esconder esta realidade não a apaga do mapa.
À boleia desse pretexto, Washington estendeu até 2044 a presença na base estratégica de Lemmonier, no Djibuti, e instalou postos avançados, pequenas bases e aeródromos em toda a margem Sul do Mediterrâneo e também no Senegal, Mali, República Centro Africana, Burkina Faso, Níger, Chade, Sudão do Sul, Uganda, Quénia e Etiópia. Sem esquecer o constante patrulhamento marítimo do Mediterrâneo e das costas africanas por navios militares dos Estados Unidos e outros países da NATO.
“Onde os interesses nacionais nos impelem a inclinar os pratos da balança para o nosso lado e a aumentar a segurança colectiva teremos de dar o nosso melhor, seja em conjunto com os aliados seja de modo unilateral”, confessa David Rodriguez, o comandante do AFRICOM. Como em qualquer discurso colonial dos séculos XVII ou XIX, não é difícil perceber, nas linhas e entrelinhas das palavras deste falcão norte-americano do tempo da guerra das estrelas, os mesmos objectivos de sempre em relação a África e aos africanos: saque, rapina, exploração.
Nota de edição: Este é o primeiro de dois artigos sobre o conflito no Mali. Amanhã será publicado o segundo. A decisão de publicar os dois prende-se com o facto de, apesar das posições dos seus autores não serem absolutamente coincidentes, principalmente na apreciação da intervenção francesa, ambos nos exporem valiosos raciocínios de forma a podermos estruturar a nossa própria reflexão sobre os acontecimentos.
John Pilger A invasão real da África não está nos noticiários
Uma licença para mentir como prenda de Hollywood
Uma invasão da África de grandes proporções está em andamento. Os Estados Unidos estão a instalar tropas em 35 países africanos, a começar pela Líbia, Sudão, Argélia e Níger. Isto foi informado pela Associated Press no Dia de Natal, mas ficou omisso na maior parte dos media anglo-americanos.
A invasão pouco tem a ver com "islamismo" e, quase tudo a ver com a aquisição de recursos, nomeadamente minérios, e com um acelerar da rivalidade com a China. Ao contrário da China, os EUA e seus aliados estão preparados para utilizar um grau de violência já demonstrado no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Iémen e Palestina. Tal como na guerra-fria, uma divisão de trabalho exige que o jornalismo ocidental e a cultura popular providenciem a cobertura de uma guerra sagrada contra um "arco ameaçador" de extremismo islâmico, não diferente da falsa "ameaça vermelha" de uma conspiração comunista mundial.
A recordar a Luta pela África no fim do século XIX, o US African Command ( Africom ) construiu uma rede de pedintes entre regimes colaboracionistas africanos ansiosos por subornos e armamentos americanos. No ano passado, o Africom ensaiou a Operação Esforço Africano (Operation African Endeavor), com as forças armadas de 34 países africanos a nela tomarem parte, comandadas por militares estado-unidenses. A doutrina "soldado para soldado" do Africom insere oficiais dos EUA a todo nível de comando, desde o general até o primeiro-sargento.
É como se a orgulhosa história de libertação da África, desde Patrice Lumumba até Nelson Mandela, estivesse destinada ao esquecimento por uma nova elite colonial negra ao serviço do mestre cuja "missão histórica", advertiu Frantz Fanon há meio século, é a promoção de "um capitalismo desenfreado embora camuflado".
Um exemplo gritante é o Congo Oriental, um tesouro de minerais estratégicos, controlado por um grupo rebelde atroz conhecido como M23, o qual por sua vez é dirigido pelo Uganda e o Ruanda, os procuradores de Washington.
Planeada há muito como uma "missão" para a NATO, para não mencionar os franceses sempre zelosos, cujas causas coloniais perdidas continuam em prontidão permanente, a guerra à África tornou-se urgente em 2011 quando o mundo árabe parecia estar a libertar-se dos Mubaraks e outros clientes de Washington e da Europa. A histeria que isto provocou em capitais imperiais não pode ser exagerado. Bombardeiros da NATO foram despachados não para Tunis ou Cairo mas sim para Líbia, onde Muammar Kadafi dominava as maiores reservas petrolíferas da África. Com a cidade líbia de Sirte reduzida a escombros, as SAS britânicas dirigiram as milícias "rebeldes" para o que se revelou como um banho de sangue racista.
O povo nativo do Saara, os tuaregues, cujos combatentes berberes Kadafi havia protegido, fugiu através da Argélia para o Mali, onde os tuaregues desde a década de 1960 reivindicam um estado separado. Como destaca o sempre vigilante Patrick Cockburn, é esta disputa local, não a Al-Qaida, que o Ocidente mais teme no Noroeste da África... "por pobres que possam ser, muitas vezes os tuaregues vivem em cima de grandes reservas de petróleo, gás, urânio e outros minérios valiosos".
Quase certamente a consequência do ataque francês/estado-unidense ao Mali em 13 de Janeiro, o cerco a um complexo de gás na Argélia que acabou de forma sangrenta, inspirou em David Cameron um momento 11/Set. O antigo relações públicas da Carlton TV enfureceu-se acerca de uma "ameaça global" que exigiria "décadas" de violência ocidental. Ele queria dizer a implementação dos planos de negócios do Ocidente para a África, juntamente com a violação da Síria multi étnica e a conquista do Irão independente.
Cameron agora ordenou o envio de tropas britânicas para o Mali e enviou para lá um drone da RAF, enquanto o seu prolixo chefe militar, general sir David Richards, dirigiu "uma mensagem muito clara a jihadistas de todo o mundo: não nos provoquem e não nos embaracem. Trataremos disto de forma robusta" – exactamente o que jihadistas querem ouvir. O rastro de sangue de vítimas do terror do exército britânico, todos muçulmanos, seus "sistémicos" casos de torturas actualmente a caminho do tribunal, acrescenta ironia às palavras do general. Certa vez experimentei os meios "robustos" de sir David quando lhe perguntei se lera a descrição da corajosa feminista afegã Malalai Joya do comportamento bárbaro de ocidentais e seus clientes no seu país. "O senhor é um apologista do Taliban" foi a sua resposta (posteriormente desculpou-se).
Estes comediantes lúgubres são extraídos directamente [do escritor] Evelyn Waugh e permitem-nos sentir a estimulante aragem da história e da hipocrisia. O "terrorismo islâmico", que é a sua desculpa para o roubo continuado das riquezas da África, foi praticamente inventado por eles. Já não há qualquer desculpa para engolir a linha da BBC/CNN e não conhecer a verdade. Leiam Secret Affairs: Britain's Collusion with Radical Islam de Mark Curtis (Serpent's Tail) ou Unholy Wars: Afghanistan, America and International Terrorism, de John Cooley (Pluto Press) ou The Grand Chessboard de Zbigniew Brzezinski (HarperCollins) que foi o parteiro do nascimento do moderno terror fundamentalista. Com efeito, os mujahedin da Al-Qaida e os Talibans foram criados pela CIA, o seu equivalente paquistanês, o Inter-Services Intelligence, e o MI6 britânico.
Brzezinski, conselheiro de segurança nacional do presidente Jimmy Carter, descreve uma directiva presidencial secreta em 1979 que principiou aquilo que se tornou a actual "guerra ao terror". Durante 17 anos, os EUA deliberadamente cultivaram, financiaram, armaram e fizeram lavagem cerebral a extremistas da jihad que "saturaram de violência uma geração". Com o nome de código Operation Cyclone, este foi o "grande jogo" para deitar abaixo a União Soviética mas que deitou abaixo as Torres Gémeas.
Desde então, as notícias que pessoas inteligentes e educadas tanto distribuem como ingerem tornou-se uma espécie de jornalismo Disney, fortalecido, como sempre, pela licença de Hollywood para mentir e mentir. Está para ser lançado o filme Dreamworks sobre a WikiLeaks, uma trama inspirada por um livro de tagarelices pérfidas de dois jornalistas do Guardian que se enriqueceram, e há também o Hora negra (Zero Dark Thirty), filme que estimula a tortura e o assassínio, dirigido pela ganhadora do Oscar Kathryn Bigelow, a Leni Riefenstahl do nosso tempo, que promove a voz do seu mestre tal como fez a realizadora de estimação do Fuhrer. Este é o espelho de sentido único através do qual nós mal vislumbramos aquilo que o poder faz em nosso nome.
O original encontra-se em http://johnpilger.com/...
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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