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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
José Goulão SÃO AS PESSOAS, ESTÚPIDOS!
(Foto de Alfredo Cunha)
Mundo Cão, 25 de Abril de 2015
“É a economia, estúpido!”, garantiram um dia a Bill Clinton como recomendação infalível para se tornar um perfeito chefe do império, qual ovo de Colombo empinado com maestria sobre a secretária da sala oval. Ele tirou-se dos seus pecadilhos democráticos e percebeu a recomendação, pouco depois estava a bombardear escolas no Afeganistão, laboratórios de produtos farmacêuticos no Sudão e a verdade é que, com ele, o neoliberalismo campeão ganhou novo alento universal, quase fazendo esquecer as sagas pioneiras de Reagan, Thatcher e do patriarca da família Bush.
“É a economia, estúpidos!”, cacarejam ainda hoje as aves de arribação afinadas pelos maestros do arco da governação, vulgo arco da exploração, largando os seus ovos de Colombo saltitando de poleiro em poleiro, de coluna impressa para microfone de rádio, daí para uma televisão, e outra, e outra, numa vertigem maluca. Graças a elas hoje sabemos quanto a economia vai crescer enquanto se apaga, se o mercado está ou não suficientemente flexibilizado, se o emprego desceu zero vírgula qualquer coisa por cento ao contrário do que diz a malandragem da oposição ao assegurar que continua a crescer, que a nossa dívida vai baixar porque tudo o que sobe descerá um dia, não se sabe é quando. Graças a elas discute-se em economês nos cafés nos intervalos dos gozos e arrelias da bola, arenga-se em economês nos jantares de família, no meio dos lamentos sobre os achaques, as peripécias da novela e as indiscrições sobre os próximos divórcios, sentencia-se em economês nos supermercados, nos transportes públicos, os taxistas metem conversa com os passageiros no seu mais vernáculo economês. Em suma, abreviando, aprendemos economês, deixámos de ser estúpidos, graças a Deus… Graças a Deus não, graças ao omnipresente arco da governação, vulgo arco da austeridade, e suas aves de arribação poedeiras.
Foi nisto que se transformou o 25 de Abril, nascido há 41 anos para cuidar das pessoas depois de quase cinco décadas em que o país tratou de meia dúzia de famílias. Hoje o país trata da economia, as pessoas podem continuar a esperar. Os senadores do arco da governação, vulgo arco da trapaça, e respectivos herdeiros começaram por engavetar o socialismo, depois engavetaram o espírito de Abril, a seguir, de passinho insidioso em passinho insidioso, foram engavetando a democracia reduzindo-a a um reles cavaco, a um coelho tinhoso; e não tarda, se os ventos da Ucrânia e vizinhanças continuarem a soprar como sopram, estarão a engavetar pessoas por atacado. Não ouvimos nós uma senhora eurodeputada tão da esquerda que só visto, que até sabia dos aviões da CIA e coisas assim, dizer que esteve em Kiev nestes dias negros para a Europa e garantir que aquilo na Praça Maidan é democrático a valer? Não foi o seu novo chefe quem entregou a algumas eminências domésticas do ultraliberalismo, Centenos & companhia, a produção do programa eleitoral do seu partido, provavelmente porque os militantes e quadros ainda não falam o economês com a necessária fluência?
A verdade é que o arco da governação, vulgo arco da censura, não encontrou melhor maneira de celebrar o aniversário do 25 de Abril do que apresentar um projecto de “regulamentação prévia” da próxima campanha eleitoral que tresanda a lei da rolha, pelos vistos achando que a censura em curso, praticada em economês, ainda não é suficiente.
O 25 de Abril está assim, 41 anos depois. Mas por ter havido 25 de Abril aprendemos que uma coisa, mesmo parecendo invencível, felizmente é derrotável.
Um bom princípio será demonstrar que o tal ovo de Colombo apresentado a Clinton ainda na pré-história da ditadura do mercado, e tão do agrado das domésticas aves de arribação poedeiras, era podre de nascença.
É altura de restaurar o que o 25 de Abril prometeu ao país: “são as pessoas, estúpidos!”
Adão Cruz 25 DE ABRIL
(Foto de Carlos Gil)
Um cravo vermelho e luminoso
Um cristal de vida no céu de chumbo
Cada dia um mundo limpo e perfumado
Graças a ti flor da minha idade
Graças a ti caminho da esperança às portas da cidade
Todo o mel e todos os frutos ali à mão
Graças a ti cravo vermelho que venceste a solidão
Veio o tempo ao nosso encontro
E a manhã despertou agitando as árvores
E a noite se fez de estrelas
Que desceram aos cantos do jardim
Um cravo vermelho e quente
Mais que tudo amando a vida
Em qualquer língua entendida
O mundo tinha o sabor de uma maçã
E os olhos inacabados eram cravos vermelhos
Não havia cárceres nem torturas
Apenas o calor de uma fogueira
Na praça do entusiasmo
E uma jovem mulher dormindo um sono de criança
Nos telhados da revolução
O seu rosto era uma nuvem
Dourada pelo sol e pela lua
Os cabelos trigueiros uma seara
Nos lábios a canção de Abril
Que gloriosa encheu a rua.
Lídia Jorge "O dia dos prodígios"
(Foto de Alfredo Cunha)
(...)
Maria Rebôla parou no postigo da porta. Ofegante como uma posta.
— O que faz vossemecê nessa triste posição? No dia em que se acaba de saber que soldados e grandes chefes fizeram uma revolta?
E como José Jorge Júnior se erguesse sobre os joelhos.
— Não sabe ainda que em Lisboa os soldados fizeram uma revolução para melhorarem a vida de toda aquela gente? Uma re vo lu ção? Um grande golpe?
E que todos os sinais do céu agora têm sentido?
-— Um golpe? Perguntou José Jorge Júnior. No governo de Lisboa? Duvidoso pela sua mouquidade. Escarranchado sobre os joelhos das suas pernas. Os soldados. Deve haver muito sangue nas valetes dessa terra, a esta hora, oh Maria. Deve haver. Gente morta por toda a parte. Ai deles se se levanta a peste com este sol da primavera. E cinco vezes abriu as mãos disposto a levantar-se. Quem matou quem?
— Olhe, tio José Jorge. Se alguém matou alguém deus ressuscitou a todos, porque estão a dizer que não houve nenhuma baixa. E as maravilhas nessa terra são tantas que dizem. Afirmam a pés juntos. Que só há música, flores e abraços. Dizem. Que de repente os ausentes estão a chegar. Os cegos vêem sem óculos nem outro aparelho. Os coxos deixaram de dar saltinhos, ficando as pernas da mesma altura. Mesmo os manetas tocam violino. De repente. To cam vi o li no. Tio José Jorge. Mas agora não faça mais perguntas que todas são a mais. É tudo o que sei, isto que acabo de contar.
Por isso arrancou do chão dois baldes de água cinzenta, e abalou com pressa. Redonda de talho, avental debaixo do braço. No portal calcou os sapatos, pendurando tudo o que era bocha e mama disse.
— E agora vou-me embora, porque só isto é sabido. E embora todos falem da mesma coisa, ninguém se atreve a inventar uma parcela que seja, por respeito ao fundamento da verdade. Da pura verdade.
José Jorge Júnior sentou-se à porta sobre uma cadeira de tabua. Fundo côncavo. E com o assento aí enterrado foi abalado por um remoçamento a partir dos pés. Esperancinha, tira o lenço que vou falar contigo. E ele mesmo lho arredou da cara. Houve em Lisboa um grande golpe de es ta do. Quem lá vai, ou está, fica pasmado de tanta ousadia e decisão. Pas ma do. Um alvoroço muito intenso e inquieto lhe encheu o espírito. Se procurasse um pauzinho para a mão esquerda, ajudado pelo bordão da direita, encostando o ombro pelos muros e valados, chegaria rápido. Quando ouvisse mais gente falar e correr como Maria Rebôla.
(...)
(in O Dia dos Prodígios, Dom Quixote)
Maria Teresa Horta VINTE E CINCO DE ABRIL
Este é um poema
com saudade da festa...
Dias de vermelho
de damasco e de riso
Das horas de alegria
e de bandeiras, de cravos
rubros postos no vestido
Este é um poema
feito de memória
Da pressa incontida
no passo corrido
De fala crescida
de prisões abertas, de escrita
liberta descobrindo o sentido
Este é um poema recordando
a mudança, da esperança
e do sonho acontecido
Com palavras
do corpo e de lembrança
Exigindo o futuro
a promessa e o grito
Este é um poema
cantando
a liberdade
De lágrimas costuradas
suturando o sorriso
Ousando dizer da ambiguidade
da estranheza do novo
misturado ao antigo
Este é um poema
torneando o avesso
Da luz da madrugada
de uma noz de vidro
Do voo das gaivotas
junto à pele das águas
fazendo do Tejo o seu precipício
Este é um poema
de visitar a História
Da revolução
o ganho
e também o perdido
Da viagem e do mar
da língua portuguesa
onde na paixão me encontro comigo
Maria Teresa Horta, inédito
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