Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Quarta-feira, 25.04.18

A nossa liberdade e a dos outros - Augusta Clara de Matos

a cor do sonho1.jpg

 

Augusta Clara de Matos  A nossa liberdade e a dos outros

 

eu7.jpg

 

   No dia em que celebramos a nossa libertação do regime fascista de Salazar e Caetano não consigo alhear-me da malvadez e da cobardia que assola outros povos e outros homens justos tratados, neste momento, como criminosos de alta perigosidade enquanto os verdadeiros crápulas gozam de liberdade vestindo a pele de carrascos.

O caso de Lula da Silva é paradigmático e torna-se desnecessário explicar o que já foi repetidamente explicado por conceituados advogados e outras personalidades do próprio Brasil e de todo o mundo. Não cessa a actuação fascista dos juízes, um que o condenou sem provas, o bandalho Moro, outra a juíza que tem proibido, contra a Constituição brasileira e contra todas as leis em vigor, as visitas a Lula até de advogados seus e de uma comissão do poder legislativo a quem é proibido impedir a fiscalização das condições em que um preso se encontra.

Em Espanha, onde os franquistas no poder já investem contra tudo o que mexe, até contra o amarelo das camisolas dos catalães, chega-nos hoje a notícia de que Cristina Fuentes, a presidente da região autónoma de Madrid, se viu obrigada a demitir-se pela revelação de um vídeo de 2011 a roubar cosméticos num supermercado, depois de já ter sido alvo de acusações sobre a obtenção fraudulenta de um mestrado. Assim marcha a política de Rajoy e do seu bando pró-franquista a favor da unidade do reino de Filipe VI.

Mas o que mais me revirou o âmago foram as notícias sobre a Síria.

Seguindo o padrão das descaradas guerras-negócio dos últimos tempos em que primeiro entra em cena o cartel das armas com todos os milhares de vítimas necessários ao lucro, segue-se o cartel da reconstrução. E, então, ouvi eu, a Síria “já” conta com donativos de quatro (4) milhões de dólares para se reerguer das cinzas. Também há Jonets das guerras.

Com toda a tristeza, raiva e revolta que me assalta, a única boa sensação é a de que a Síria resistiu à usurpação dos casposos do Ocidente.

Os povos sempre resistem à tirania, sempre. Na Síria, como na Catalunha, no Brasil e em Portugal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 18:26

Quarta-feira, 25.04.18

25 de Abril - Adão Cruz

a cor do sonho1.jpg

 

Adão Cruz  25 de Abril

 

001.JPG

 

 

   O Vinte e cinco de Abril é um poema universal.

É muito difícil entender a alma quase cósmica dos valores, dos princípios, e dos magníficos versos deste profundo poema. Recordar o 25 de Abril não é relembrar apenas o facto concreto de um golpe militar e de uma revolução popular, com mais cartazes ou menos cartazes, mais foguetes ou menos foguetes, mais canções ou menos canções, ainda que de iniciativa extremamente louvável. Recordar e comemorar Abril é ensinar em tudo quanto é lugar, na escola, na rua, no trabalho, que o 25 de Abril foi um portentoso fenómeno universal de iluminação das consciências, de abertura das catacumbas fascistas, um glorioso hino à liberdade com repercussão e geração de profundas mudanças sociais e mentais não só em Portugal mas em muitos países do mundo.

O vinte e cinco de Abril foi um dos fenómenos político-sociais de maior importância pedagógica dentro de uma sociedade encarcerada em mitos, preconceitos, obscurantismos e grilhetas mentais que formataram e aviltaram a vida até meados do século passado. Os seus valores intrínsecos, mal entendidos e mal interpretados por muita gente, mesmo gente de cultura, foram repensados e desenvolvidos ao longo dos anos e percorreram o mundo de lés-a-lés, renascendo e reproduzindo-se como elevados conceitos de deveres, direitos, dignidade e justiça do cidadão no seio de um colectivo humano. Mas este entendimento, infelizmente, apenas fazia parte daquela humanidade sonhadora e senhora da mentalidade saudável do homem cidadão e do político sério, honesto, social e bem intencionado. Pondo de lado a ignorância, a incultura, o obscurantismo de qualquer espécie de que muita gente não era culpada mas vítima de grupos organizados a partir de altas instâncias poderosamente perversas, por mais cru que nos pareça, não devemos escamoteá-lo: uma boa parte da humanidade sempre foi podre e continua podre. Gente podre do ponto de vista da desumanidade, da desigualdade, da perda de consciência, da honra e dignidade, da crueldade, do ódio, da vingança, da sede de sangue, do deus dinheiro acima de tudo, do poder a qualquer preço, da ganância, da guerra e da morte como indústria. E do cancro que gera todas estas metástases, a eterna corrupção. Corrupto significa podre. Estes sim, sempre foram e continuam a ser os inquisidores dos grandes sonhos, os mesmos de sempre, desde a morte de Giordano Bruno até à fogueira dos belíssimos versos do magnífico poema que abriu as nossas almas no vinte e cinco de Abril.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 01:59

Sábado, 21.11.15

O meu PREC - Augusta Clara

a cor do sonho1.jpg

 

Augusta Clara  O meu PREC

 

082 a1.jpg

 

(Adão Cruz)

 

 

   Os bons livros de História, que nos caracterizam com rigor científico a evolução do mundo e das épocas, nunca nos darão a sentir a vivência dos que por elas passaram e foram protagonistas dos acontecimentos.

Ao ler a Visão desta semana ainda fiquei mais ciente disso. O artigo sobre os 40 anos do 25 de Novembro retrata um PREC - Período Revolucionário em Curso - que não foi o meu: ameaças de golpes, reuniões secretas de altas figuras, formação de associações de partidos "esquerdistas" a preparar golpes - que eu me lembre, a FUR, aqui tão falada, durou pouco mais de uma semana - e um sem número de outras negociações que acabaram na "democratização" do país, ajudada pela CIA de Frank Carlucci, que só não eliminou da cena muita gente porque Jaime Neves não teve autorização para fazer o gosto ao dedo.

E o povo português, nós todos? Neste artigo não existimos. Não sei quem é o jornalista que o escreveu. Muito provavelmente não terá vivido este período tão exaltante no dia-a-dia e na convivência humana, incomensuravelmente mais saudável do que a que hoje vivemos, e na criatividade com que procurávamos dar forma a um outro tipo de sociedade.

O meu PREC é o do Zeca Afonso, o dum povo a construir a sua História.

A ninguém que não a viveu é possível compreender como era feliz essa maneira de estar. Não vivíamos em pé de guerra, vivíamos em luta. Tínhamos muito a fazer, como as formigas, cada um por si e em grupos. Vivíamos agitados mas acreditávamos no futuro.

Chorei no 25 de Novembro, esse dia maldito da derrocada da esperança, que nos trouxe até aqui.

Fizeram bem os partidos da esquerda na Assembleia da República em não se associarem às comemorações de tão aziaga efeméride.

Por isso me lembrei, e puxo aqui a propósito, do trabalho que a Adriana Costa Santos está a fazer em Bruxelas junto dos refugiados de guerra. Nem ela imagina o quanto os relatos das suas crónicas são valiosos para se escrever a História destes dias.

Daqui a uns tempos ninguém se lembrará do jovem militar iraquiano que teve de fugir do país com a mãe e as irmãs, as agressões e as ameaças por que passaram até chegarem junto da Adriana que dele, e doutros, nos deixa o rasto para o futuro.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 19:30

Quinta-feira, 19.11.15

Mulheres sem nome nem voz - Adriana Costa Santos

a cor do sonho1.jpg

 

Adriana Costa Santos  Mulheres sem nome nem voz

 

Adriana Costa Santos, mulheres.jpg

 

 

Chegada à Paz (Visão), 5 de Novembro de 2015

A voz das refugiadas e a minha voz, todas as vozes dizem que Anan é o nosso futuro

 

   A pequena Anan tem sete anos. Não para quieta. Quando lhe digo que não pode vir para o pé de mim, trepa o balcão e passa para o meu lado. Nunca está com os pais, vejo-os poucas vezes. Passo por ela no corredor e salta para o meu colo, dando-me um abraço tão forte, que não sou capaz de a pôr no chão. Vai ter comigo para a levar à casa de banho e anda às minhas cavalitas para todo o lado. Adora mexer-me no cabelo e pede-me sempre que lhe faça uma trança igual à minha.

Penso no seu futuro com um sorriso, acredito que vai ser ela uma mulher entre as pioneiras da grande transformação já iniciada neste mundo da desigualdade. Desejo que alcance todos os seus objetivos. Espero que nunca deixe de ser desobediente. Eu também sou, à minha maneira. E não passei, até hoje, por metade das mudanças repentinas de vida que ela, em sete anos de história, já sofreu.

Às primeiras horas do dia, apareceu-me no centro uma mãe síria com três crianças, perdida e enfraquecida pela história, pela injustiça, pela guerra e pelos milhares de quilómetros que percorreu nos últimos dias. Não tive tempo de lhe conhecer o nome. O marido morreu, ela resolveu partir sozinha e trazer os filhos para a paz. Percebi que foi atravessando fronteiras em carros particulares, até que o último a deixou na Bélgica. O condutor esperou que os passageiros saíssem do carro e arrancou, com a bagagem e todo o dinheiro dos refugiados, deixando esta mulher no meio da estrada, ferida e sem chão, sem teto, sem norte. Levei as crianças ao médico e ela ficou numa sala, resguardada da confusão, para se recompor. Tremia de frio e medo. Não voltei a vê-la.

Na sala de espera dos Médecins du Monde, à tarde, está uma senhora de olhos negros, brilhantes, com um bonito lenço dourado a cobrir-lhe os cabelos. Há de ter quarenta e poucos anos, espera por um filho de dez, que está a ser visto pelo médico, e tem ao seu lado outro, da minha geração. Vieram os três do Iraque.

"Fizemos a mesma viagem que todos os que estão aqui", revela-me, "com a pequena diferença de que, para mim, sendo mulher, foi mais doloroso correr e trepar, passar por barreiras de arame farpado, andar à chuva e ao frio. Não estou habituada a estas coisas. Foi muito doloroso. O mais pequenino fez metade da viagem com febre e eu doente fiquei, só de o ver assim".

Por ficarem para trás nos grandes grupos, a senhora e os filhos foram várias vezes apanhados pela polícia e estiveram presos, por uma noite, na Bulgária e na Sérvia. Mas a mulher sem nome sorri, tranquila, quando conclui: "agora já cá estamos, já passou".

Tenho muito pouco contacto com mulheres, neste centro de refugiados. Por questões culturais, a sua vida social é anulada. Os homens é que tratam das necessidades da família e são raras as que encontro uma segunda vez. Comunicamos por olhares e sorrisos, aproximo-me sempre a pretexto de me meter com os bebés, a quem faço festinhas na cabeça e digo uma das poucas palavras que sei em árabe: habibi, meu querido. As mães agradecem com ternura e afastam-se rapidamente, sempre de olhos no chão.

Há uns dias encontrei uma senhora a chorar, na casa de banho. Não pensei muito e dei-lhe um abraço. Sorriu, surpreendida, e limpou logo as lágrimas, respirando fundo. Não sei como se chama e também não a voltei a ver.

Um dia destes, estava na Cruz Vermelha e uma mãe explicou-me, por gestos, que precisava muito de umas cuecas. Piscou-me o olho, à procura de cumplicidade, mas eu, como ela só falava árabe, e tendo todo o cuidado de dizer que precisava de roupa, de um modo geral, para não a comprometer, pedi a um colega meu que lhe explicasse que tínhamos de ir ao Hall Maximilian buscar o que ela queria. Quando ele reproduziu em árabe o que eu disse, a senhora ficou tão embaraçada que acabou por lhe dizer que só queria tomar um duche. Continuava a piscar-me o olho, enquanto se dirigia para a casa de banho. Peguei num papel e desenhei rapidamente um mapa para lhe dar, na esperança de a encontrar mais tarde e poder resolver-lhe o problema. Nunca voltou a aparecer.

Quando tento interagir com as mães de família que visitam o centro, peço sempre a amigos que sirvam de intérprete e é interessante ver como eles se dirigem, imediatamente, aos maridos para colocar as minhas questões. "Posso entrevistar a tua mulher?", perguntam primeiro. Infelizmente, são muitas vezes os homens quem acaba por responder. Custa-me esta condição subalterna em que as encontro, mas não deixo de fazer a minha parte, sem julgar nem me cansar, grão a grão vai-se mudando qualquer coisa. Que fique dito e escrito, que sou tão defensora dos direitos das mulheres, como da tolerância e do respeito pela diferença. Acredito que, com tempo e paciência, podemos mudar as ideias, educando-nos uns aos outros.

Também faz parte do meu trabalho dar o exemplo. Mostrar como, "apesar de" ser mulher, me comporto, ensinar a todos com que me relaciono que temos de nos aceitar uns aos outros como iguais, independentemente das nossas diferenças.

Com o passar do tempo, fiz amigos e constituí aqui uma família provisória, uma necessidade também por estar longe da minha. A verdade é que, muitas vezes, sinto que estou a receber mais do que aquilo que dou. Tenho aprendido tantas coisas sobre a vida, o mundo e as pessoas, sobre a comunicação e as relações humanas, que devo um grande agradecimento aos que agora fazem parte dos meus dias.

Os rapazes da minha idade, os meus companheiros, ajudantes e tradutores incansáveis, não aumentaram só o seu nível de inglês e francês, aprenderam também como é ser rapaz e rapariga neste novo mundo. Agora também eles podem ensinar isso àqueles que chegam.

Nada pode ser exigido à força, à pressa, repito-me, é preciso tempo para a adaptação, para que a integração aconteça, no verdadeiro sentido do termo. Ponho-me na pele deles e parto para a reflexão mais básica: e se fosse ao contrário? Se eu tivesse de fugir para um dos seus países, com os costumes da minha terra e o estilo de vida que adquiri ao longo da minha história? É certo que iria ser difícil adaptar-me, ninguém me perguntaria se eu era ou não a favor disto e daquilo, e isso, nestas circunstâncias , pouco interessa.

Se queremos ensinar a respeitar, defendo que devemos respeitar primeiro. Faço isto e o resultado tem sido incrível. Sorrio, converso, desafio, interpelo, tomo a iniciativa... E já não encontro os olhares com que fui recebida nos primeiros dias, de desconfiança e fascínio, de algum desprezo e curiosidade, até de provocação. Agora recebo sorrisos e as minhas vontades são respeitadas. Somos todos feitos do mesmo, raparigas, mulheres, rapazes e homens. Os recém-chegados aprendem isso mais rapidamente, com os que já lá estavam.

É isto o que penso e que vejo, apresento-a na humildade de quem sente, sem estudar a teoria. A História escreve-se devagar, com letrinhas de criança como as que Anan desenha no meu caderno. Mas escreve-se, sempre. E a minha escrita continua, talvez para daqui a uns dias ter mais histórias de mulheres guerreiras. Ainda não desisti de lhes dar um nome e uma voz.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:00

Domingo, 15.11.15

O frio que todos sentimos - Adriana Costa Santos

a cor do sonho1.jpg

 

Adriana Costa Santos  O frio que todos sentimos

 

Adriana Costa Santos, cruz vermelha.jpg

 

 

Chegada à Paz (Visão), 14 de Novembro de 2015

Hoje, há pessoas a dormir na rua, que passaram o dia em filas para ouvirem dizer que se tinha acabado a comida, as camas, as roupas, o direito de asilo, a esperança e a paciência

   Este homem acabou de chegar. Chama-se Ahmed. Conseguiu acolhimento na Cruz Vermelha, mas está muito nervoso porque ficou num quarto sozinho com desconhecidos e a sua mãe e irmãs foram colocadas noutro, onde também dormem homens. Ele tem medo, mas peço-lhe que seja compreensivo. O caos está à vista de todos, os dias estão cada vez mais frios e difíceis de passar. Caiu a noite e o importante, agora, é que todos tenhamos um teto e um cobertor. Ao amanhecer as prioridades serão outras, logo se vê.

Ahmed tem 31 anos e era soldado no exército iraquiano, quando o tentaram assassinar e acabou ferido numa perna. Passado pouco tempo, partiu para a Turquia com a mãe e duas irmãs mais novas. Trabalhou, durante seis meses, para ganhar dinheiro e pagar o resto da viagem. Foram de barco até à Grécia e de autocarro para a Macedónia, tendo parado ali uma semana, porque ele não conseguia caminhar.

Mais à frente, no meio da multidão que percorria a estrada entre a Sérvia e a Hungria, perdeu a irmã, de 23 anos. A rapariga apareceu, três dias depois, no hospital, vítima de um acidente de que não se recorda. Esperaram que ela recuperasse e apanharam um táxi até à Áustria. Ali, estiveram presos durante sete dias. Foram então encaminhados para um centro, em que seriam registados os seus dados e impressões digitais, mas conseguiram aproveitar uma distração do funcionário para escapar e correr até à estação mais próxima, onde apanharam um comboio para o Luxemburgo. Se se tivessem registado teriam que ficar na Áustria. Aquele não era o seu destino: para além dos entraves legais que são colocados ao pedido de asilo, a estada na prisão mostrou-lhes que não queriam lá ficar.

Gastaram nos bilhetes o último dinheiro que tinham. Em desespero, Ahmed pediu ajuda num grupo do Facebook, em que os refugiados vão trocando informações e pedidos: precisava de um transporte para a Bélgica. A resposta não tardou, um homem contactou-o, oferecendo-se para os levar de carro, mas, à hora combinada, exigiu ter sexo com uma das irmãs. Envolveram-se numa briga e Ahmed levou uma facada.

Encaminharam-se para o hospital e, há males que vêm por bem, o seu principal problema foi resolvido: preferiram "livrar-se" de Ahmed, não o atender e levá-los a todos de ambulância para a Bélgica. Chegando a Bruxelas, deixou a mãe e irmãs na fila e foi tratado pelos Médecins du Monde. Está incomodado com a questão dos quartos, mas aliviado por aqui estar. A viagem chegou ao fim e a sua família está a salvo. Amanhã vou tentar ajudá-lo, prometo, e desejo-lhe uma noite descansada.

São nove da noite e estou sentada em frente à Cruz Vermelha. Tenho frio, mas quero desenhar um retrato à vista, longe do conforto do sofá de minha casa, onde posso descalçar as botas, respirar fundo e deixar de ser forte, estar triste à vontade, detestar o mundo. Aqui, posso limitar-me a descrever a dura realidade que observo, sem interrupções, do passeio em que me sento, do outro lado da estrada.

À entrada do grande edifício da Cruz Vermelha, há uma fila de refugiados que esperam ainda por um local para dormir. Quando aqui passei, ao fim da manhã, contavam-se mais de quatrocentas pessoas, numa serpente sem fim. Sacos de plástico e malas cheias de recordações, homens, mulheres e crianças, expressões de desespero e cansaço, olhos tristes, algumas carinhas alegres, principalmente entre rapazes da minha idade, sempre numa espera mais leve, com mais energia e poder de encaixe. Agora vejo uma fila com menos de cem homens. Melhorou, é positivo, mas não chega.

Embrulhados em cobertores cinzentos, mais de uma dezena de refugiados já desistiu e veio dormir na relva atrás de mim. Há um casal deitado em cima de uma mesa de piquenique, como se fosse um beliche, com as crianças por baixo. Outras pessoas dormem encostadas à parede do edifício, à procura de calor.

Nos últimos três dias, chegaram cerca de mil novos refugiados a Bruxelas. A situação está cada vez mais grave, o governo não intervém e os meios de que dispúnhamos no Hall Maximillian tornaram-se insuficientes, os espaços, os serviços, a comida e as roupas escasseiam e é possível observar que até os voluntários estão a ficar cada vez mais ansiosos, menos serenos. Esta realidade era já esperada, sabíamos que a situação só estava "controlada" por pouco tempo.

Desde que escrevi aqui pela última vez, recebemos uma avalanche de pessoas que exigiu de todos nós o triplo da organização e das horas de trabalho, na procura de espaços para as alojar, na distribuição de comida, esperança e cobertores.

Inicialmente, os refugiados foram divididos por três espaços públicos, onde dormiriam no chão, mas protegidos do frio. Separámo-nos em equipas e eu fiquei numa estação de comboios, a famosa Gare du Nord. Depois de fechar o Hall Maximilian, encaminhámo-nos para lá com um grande grupo de afegãos e sírios, distribuímos sopa, sanduíches e mantas. Passado pouco tempo veio a polícia, pediram-nos para retirar toda a gente, porque a estação tinha de fechar durante a noite. Dormiram ao ar livre e isso tirou-me o sono.

Nos dias seguintes, foram enviadas mensagens a todas as famílias belgas que antes receberam refugiados, a pedir uma ajuda de emergência. Neste momento, o meu amigo Mohamed acaba de chegar de uma igreja aqui perto. Foi lá deixar cinco famílias. Outras foram levadas para a universidade e as pessoas que restam ainda estão aqui à porta. Talvez a Cruz Vermelha arranje camas para mais umas dezenas.

Entre uma solução e outra, só hoje consegui ter tempo para escrever. Espero na próxima semana poder organizar-me melhor, mas os últimos dias e noites foram difíceis de viver. Desejo ansiosamente que os Estados europeus se mobilizem para tomar decisões sérias, o inverno é rigoroso e os nossos esforços serão insuficientes. A esperança que tenho é alimentada por todos aqueles que encontro com vontade de ajudar. Somos muitos e temos energia e ideias, mas pouco mais.

Hoje, há pessoas a dormir na rua, que passaram o dia inteiro em filas, para que finalmente chegasse a sua vez e lhes dissessem que tinham acabado os atendimentos no centro de imigração, a comida, as camas, as roupas, o direito de asilo, a esperança e a paciência.

A pequenina Tere aperta a minha mão com força. Está divertida a mergulhar as galochas nas folhas secas caídas das árvores, não percebeu bem o que se está a passar. Ainda bem. Já não escrevo mais porque a tenho ao colo, não me posso envolver demasiado, tenho de manter a distância, não posso perder a serenidade, mas não consigo conceber a hipótese de ela dormir na rua. Voltei para casa quando os pais a chamaram e me deu um beijinho à pressa. Conseguiram um lugar na Cruz Vermelha.

O cansaço cresce entre todos os que trabalham comigo. As emoções são fortes, o trabalho é duro, se não fosse a esperança e a solidariedade que vivemos, não sei como faríamos, refugiados também nesta realidade paralela, de mãos atadas numa Europa de olhos fechados.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 31.10.15

Miúdos como os nossos - Adriana Costa Santos

a cor do sonho1.jpg

 

Adriana Costa Santos  Miúdos como os nossos

 

Adriana Costa Santos1.jpg

 

Uma criança, é uma criança, é uma criança.

 

   Chegada à Paz (Visão), 30 de Outubro de 2015

   Hoje, o pequenino Ahmed venceu a timidez e veio perguntar-me o meu nome. Há uma semana só abanava a cabeça, quando me metia com ele, enquanto se escondia atrás do tio. Já fala francês, aprendeu aqui no centro com a professora Cécile, e estava cheio de vontade de me mostrar. Com um grande sorriso, continua a conversa, dizendo-me o seu nome, que vem da Síria e gosta de jogar futebol no parque. Tem 8 anos. Elogiei-o e fiz uma apresentação do mesmo género, disse-lhe de onde vinha, nome, idade, e que gostava de desenhar.

Desenhei vários animais e ensinei-lhe os seus nomes. Pegou na folha e repetiu-os, contente. Omar, 6 anos, veio juntar-se a nós, intrigado, e ergueu a mãozinha muito esticada para que eu lhe desse "mais cinco". Riu-se muito, puxou a fita que me prendia o cabelo e desatou a correr com ela na mão, maroto. Fui atrás dele, quando o apanhei, virei-o de pernas para o ar e pu-lo a rodopiar. "Ai ai ai", disse-lhe. Passou o resto do dia a repeti-lo. Passava por mim, com um sorriso reguila, puxava-me o braço e dizia "Adriana, ai ai ai".

As crianças dão cor e alegria ao centro de refugiados do Hall Maximillian. É paradoxal o que sinto: custa-me vê-los, tão pequeninos, nesta situação de vida, mas também me alegra constatar a facilidade com que se adaptam a novos ambientes, o facto de não terem memórias longas e a espontaneidade com que se riem de uma brincadeira qualquer.

Afinal, para uma criança, a vida é uma novidade. Não falamos a mesma língua, mas podemos passar horas a rir, a brincar e a comunicar, sem palavras. Talvez não saibam o que significa ser refugiado, apesar de o sentirem, eu isso vejo. Têm uma perceção do exterior mediada pelos sentimentos dos adultos que cuidam deles, sendo assim tocados pela incerteza, instabilidade e insegurança.

Este tempo será de certeza mais fácil para as crianças que viajam em família. Nem quero pensar no que sentem os muitos que foram separados dos pais, entregando-se a outros colos que os trouxeram até aqui, em nome da sobrevivência. Quero acreditar que com imaginação e vivacidade, a sua integração será mais fácil. Como também dará força, cor e esperança aos adultos que com eles caminharam para a paz. Isso vê-se já, aqui no centro.

Tenho observado com interesse que grande parte das doações que chegam ao centro são artigos para crianças. Brinquedos, material de desenho, livrinhos, roupas, carrinhos de bebé e fraldas, para além de sacos de guloseimas e bolachinhas. As pessoas tendem a proteger os mais pequenos, as crias, como se também fossem suas. Ainda bem. Com as crianças é tudo mais fácil, até a solidariedade. Não só são indefesas, como não têm idade para "ter culpa". Ninguém desconfia de que são terroristas, ninguém as vê como ameaças aos nossos empregos, nem sequer têm uma religião diferente. Podemos por isso ser naturalmente solidários e soltar o nosso instinto inconsciente de salvar aqueles que asseguram a continuidade da espécie. Só espero, no entanto, que não nos esqueçamos de que cuidar das crianças é cuidar das suas famílias, que são essenciais ao desenvolvimento e bem-estar destes miúdos fugidos da violência.

O ambiente aqui no centro é emocionalmente confuso e conto com os mais pequenos para manter alguma normalidade e alegria. Hoje, ao fim da tarde, fruto da acumulação de emoções fortes, fome, cansaço, frio e desconforto, houve um desentendimento entre dois homens. Começaram a ouvir-se gritos na casa-de-banho e muita gente se juntou à volta deles para observar a briga.

Corri para ir buscar as crianças, muita violência já elas viram, levei-as para o meu balcão e distribuí sacos de pipocas. Atilhos desatados, mãozinhas afundadas naquela textura agradável e desvaneceram-se as caras de choque, com que fui encontrá-los a todos.

Os sorrisos estavam de volta. Omar lembrou-se logo de atirar pipocas às pessoas, fazendo todos os outros rir. Quando chegou ao fim do pacote, as suas mãos pequeninas não conseguiam recolher as últimas migalhas. Mandei-o abrir a boca e virei o saco ao contrário. Adorou a ideia, pegou nos saquinhos dos outros meninos e tentou despejá-los da mesma forma, fazendo chover pipocas por todo o lado.

Ao fim do dia, a princesinha Aisha, de 2 anos, presenteia-nos a todos com uma grande birra na casa das roupas. Quer escolher ela. A mãe, de bebé ao colo, está evidentemente cansada e desiste. Eu deixo a filha mexer em tudo à sua vontade. Muitas manhãs, quando eu tinha esta idade, a minha mãe passava por tormentos assim. Mesmo com a roupa já escolhida na noite anterior, eu mudava de ideias e só queria vestidos ou t-shirts cor-de-rosa. Depois de uma longa negociação, lá chegávamos atrasadas à escola e ao trabalho. Somos todas iguais.

Aisha sai, já no carrinho, com uma mochila da Hello Kitty, meias cor-de-rosa e uns sapatinhos de princesa, de aspeto altamente desconfortável. Da secção das roupas até à saída do centro, apanhei do chão e voltei a calçar-lhe os sapatos cinco vezes. Tenho a certeza de que não chegou calçada ao sítio onde passam a noite, mas é capaz de ter adormecido pelo caminho.

Um pai iraquiano apresentou-me hoje a sua linda filha de cabelos encaracolados. A menina debruçou-se do colo para me abraçar. “Falas inglês?”, perguntou-me o homem. Quando lhe disse que sim, riu-se muito. “Eu não. Só falo árabe”. Um outro refugiado aproxima-se para traduzir e peço-lhe que lhe diga que a menina é muito bonita. “Tem três anos. Ele pergunta se a queres adotar”. Rio para não chorar e digo-lhe que não posso, que as meninas bonitas têm de ficar com os seus pais. Dá uma grande gargalhada e enche a filha de beijinhos. Fiquei sem saber se ele estava a falar a sério.

Neste sítio onde a esperança é a última a morrer, acabamos todos por ser pais e filhos uns dos outros.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 29.10.15

Que dia é hoje? - Adriana Costa Santos

a cor do sonho1.jpg

 

Adriana Costa Santos  Que dia é hoje?

 

Adriana Costa Santos2.png

 

 

Oda sonha com o derrube do regime sírio, mas não tem vontade de voltar à pátria.

 

Chegada à Paz (Visão), 28 de Outubro de 2015 

 

   Oda e eu somos filhos da mesma fornada. Em junho de 1994, a minha mãe e a dele chegaram ao fim da gravidez e prepararam-se para trazer mais um bebé a este mundo, ambas com algumas reticências quanto à conjuntura política do mundo, mas nada que lhes tirasse a felicidade própria da ocasião.

Desde que aprendi a falar, a minha família ensinou-me a pensar, a refletir e a contestar aquilo que não achasse justo, o meu avô sempre se orgulhou do meu lado revolucionário, característica que, no meio em que cresci, foi tão incentivada como alvo de brincadeiras e piadas sem maldade. No caso deste meu contemporâneo, a sua capacidade de questionar e reivindicar não pôde ser vista com tanta ligeireza. Nos anos da adolescência, juntou-se a um grupo de rebeldes como ele, que acreditavam na mudança e espalhavam uma mensagem de contestação e luta pela liberdade. Tornou-se oficialmente inimigo do Estado sírio aos dezasseis anos. Um terrorista.

Não quis entrar em pormenores, contou-me apenas que tinham matado todos os seus amigos, depois de serem perseguidos, presos e torturados. Aos dezassete, fugiu com a família para o Egito, entrou para a faculdade de engenharia no Cairo e, passados dois anos, o seu passaporte caducou. Foi à embaixada para renovar os documentos, mas o funcionário estava a par da sua situação criminal. Negaram-lhe a documentação, ordenaram-lhe que regressasse à Síria. Só tinha uma alternativa: fugir.

Oda deixou a família na capital egípcia e partiu para a costa, onde apanhou um barco ilegal que o levaria a ele, com mais trezentos, para Itália. Conhecemos, em Lisboa, essas imagens. Pagou três mil e quinhentos dólares e, navegadas poucas milhas, a embarcação cedeu por excesso de peso e má qualidade dos materiais. O naufrágio tirou a vida a mais de metade dos passageiros.

Oda sobreviveu, conseguiu chegar à costa e durante dois dias andou perdido no deserto. Se a polícia o apanhasse, seria preso por ter embarcado ilegalmente e logo deportado para a Síria, onde a morte, ou pior, o esperava. Conseguiu regressar ao Cairo, arranjar trabalho e juntar dinheiro para a viagem seguinte.

A família, de classe média, reunia também condições para ajudar o filho a sair do Egito. O total da passagem para a paz viria a ultrapassar os 10 mil euros. Da Turquia, Oda partiu para as ilhas gregas, num barco pequenino com o dobro do número aconselhável de passageiros. De Atenas viajou para a Macedónia e foi a pé até à Sérvia. Conta-me isto tudo com uma calma que me surpreende.

Atravessou a caótica fronteira húngara a pé, com milhares de desconhecidos. Conseguiu um táxi para Budapeste, dali um carro particular até Viena e por fim um comboio para Bruxelas, onde nos encontrámos. Já cá está há três meses e meio. Dorme em casa de um primo e passa o dia no centro para ter comida e uma muda de roupa.

"Amanhã vemo-nos de certeza", diz-me à despedida, "eu estou sempre aqui, farto desta vida, desta espera, não faço ideia se hoje é terça, domingo ou sexta-feira."

A verdade, que me dói, é que não mudaria nada se Oda soubesse que dia é hoje. O meu amigo quer continuar a estudar e voltar para a família, no Egito, onde tinha uma vida. Sonha com o fim do atual regime sírio, mas não tem vontade de regressar à sua pátria. “Se a guerra acabar nada me resta, tudo foi destruído, já não há nada de bom para ver. Foi-se tudo, já não existe nada do que me faria voltar”.

Oda e eu temos a mesma idade. Temos alguns sonhos em comum, mas oportunidades de vida assustadoramente distantes. Demo-nos bem, trocámos uma história triste, mas também muitos sorrisos. No fim da conversa, ele tinha os olhos brilhantes, quis confortá-lo, mas nunca hei de saber o que dizer. Ele também não saberia. Sorri-lhe. “Temos de esperar, vai tudo resolver-se”, foi o melhor que me saiu. Oda e eu temos a mesma idade.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:00



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos