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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 09.07.21

Uma Rapariga Enlouquecida - W. B. Yeats

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W. B. Yeats  Uma Rapariga Enlouquecida

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(Adão Cruz)

Essa rapariga enlouquecida improvisando a sua música,
A sua poesia, dançando sobre a praia,
Com a alma de si mesma dividida
Trepando, caindo sem saber aonde,
Escondendo-se entre a carga de um vapor,
De joelhos esfolados, essa rapariga, eu a declaro
Algo de majestoso e belo, ou algo
Perdido heroicamente, heroicamente achado.
Ocorresse o que ocorresse
Ela deixava-se envolver pela desesperada música
E envolvida, envolvida, construía o seu triunfo
Onde os fardos e os cestos não produzem
Qualquer som comum inteligível
Mas cantavam: «Ó faminto mar, mar esfomeado.»
 
(in "Os Pássaros Brancos e outros poemas", Relógio D'Água)
 
 

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por Augusta Clara às 21:35

Sábado, 26.06.21

Preso à cidade - Adão Cruz

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Adão Cruz  Preso à cidade

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(fotografia de Manel Cruz)

 

Preso à cidade
nesta inquietante angústia das sombras
ao redor de um tudo-nada que nos prende e constrange
cai dos telhados o pó cinzento de uma neblina estranha
que definha as ruas e arrasta as horas na lentidão dos passos.
Lá atrás
uma réstia de luz presa ao vidro de um candeeiro partido
sob as janelas podres
lembra que se alma houvesse
seria fácil presa de um qualquer rígido corpo
enjoado de farsas e falácias amontoadas no lixo.
A noite caiu de forma estranha sobre a cidade sem corpo
definhada de luz e consciência
deixando atrás de si os últimos passos de uma existência
presa a todas as obscurantistas ordens estabelecidas.
Até o vento se foi
para não arrastar a neblina estranha
e para não calar o pesado silêncio que se prende ao corpo
como mortalha do tempo que desfaz a réstia de luz
presa ao vidro de um qualquer candeeiro partido.
Ainda ontem era dia nos braços do trabalho
e nas carnes que não conheciam o exílio
recusando morrer fora dos sonhos e da vida
e o vento varria o silêncio
para libertar o corpo e a mente
da neblina das noites pegajosas.
Havia certezas por entre os tremores da indecisão
havia sorrisos verdades e ilusões
e havia brisas sonâmbulas calando os medos
e havia rios arrastando as paredes negras
e todas as sombras dos candeeiros partidos.
Preso à cidade
na tristeza que nos envolve e nos liberta o pensamento
cai dos telhados a poeira do tempo
que cala as ruas e prende as horas na lentidão dos passos
e abre no chão quadriculado um espelho negro
com um menino tocando o céu azul
rodeado de pássaros e flores e rios cristalinos
e nos estende a mão num gesto de paz que nos acalma e nos perdoa
e carinhosamente
e sigilosamente
nos devolve ao nada por um caminho oculto
irreversível.

 

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por Augusta Clara às 23:38

Segunda-feira, 24.05.21

O menino de brilho nos olhos - Adão Cruz

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Adão Cruz  O menino de brilho nos olhos

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(Adão Cruz) 

 

O menino corria
corria atrás do sol no correr de cada dia
e no doce brilho dos olhos toda a alma se lhe via.
O menino corria
corria atrás da lua que se erguia
entre estrelas e magia
e no brilho dos olhos toda a alma luzia.
O menino corria
corria atrás do vento
que fugia para lá do tempo
e nos olhos do menino o vento se perdia.
O menino corria
corria atrás da chuva
e quanto mais água caía
mais o brilho dos olhos se acendia.
O menino dormia
dormia no reino dos sonhos e da fantasia
e nos olhitos dormidos o brilho se escondia.
O menino acordava
acordava no alvor de cada dia
e a vida renascia no abrir dos olhos
onde a alma luzia.
Até que um dia…
Uma nuvem negra
muito negra
tombou do céu e se fez gigante
de longas barbas e olhar perfurante
com um relâmpago em cada mão.
Roubava o brilho dos olhos
e nas entranhas do trovão se desfazia.
O menino tremia
tremia sem saber o que acontecia.
O menino chorava
chorava sem saber a razão.
O menino fugia
fugia
mas algo lhe dizia que de nada valia.
Chamou as pombas
rouxinóis e cotovias
sardões
caracóis e libelinhas
enlaçou-se de gavinhas
abraçou as árvores beijou a terra
e tudo o que nele vivia.
Mas ninguém lhe respondia
todos o olhavam com tristeza e melancolia.
Perdera o menino o brilho dos olhos
porque neles a inocência morria.

 

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por Augusta Clara às 02:23

Sábado, 20.03.21

Acordei esta noite - Adão Cruz

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Adão Cruz  Acordei esta noite 

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(Adão Cruz)

 

Acordei esta noite com o gotejar da chuva
monótono
sonolento.
Dormia comigo a saudade e comigo acordou
amargando horas sem raízes
no tecer de angústias e desânimos.
Pura fantasia a textura dos sentimentos!
Os galos cantavam ao longe no romper da madrugada
e a claridade incerta da janela
abria mansamente os meus olhos que sonhavam.
Ousei tocar a tua mão branca
sabendo que tocava o lado esquecido da vida.
Tinhas morrido
já na véspera o sabia
mas esqueceu-mo o dormir.
Fugi para a cidade
vagueei pelas ruas adormecidas
até os galos calarem o seu cantar
e por baixo de um céu de chumbo
levei meus passos para o lado do mar.
As ondas abriam-se nos rochedos negros
e eu não tive medo
deixei que as pernas me pesassem ao longo da praia
arrastando na areia os ossos do meu segredo.

 

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por Augusta Clara às 21:41

Terça-feira, 23.02.21

Recordar Zeca Afonso - Eva Cruz

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Eva Cruz  Recordar Zeca Afonso

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(Dorindo Carvalho)

   Faz anos a 23 de Fevereiro que morreu Zeca Afonso. Surgiu na vida académica de Coimbra duas gerações antes da minha passagem por lá. No entanto, tive a sorte de o ouvir cantar ao vivo, ainda novo, numa serenata monumental no largo da Sé Velha, junto à casa onde viveu. Lá está o azulejo a lembrar: “ Nesta casa viveu o trovador da liberdade José Afonso (o Zeca)”. Juntamente com ele cantou Luiz Goes (Luís Góis), o inesquecível trovador de Coimbra, com a sua inconfundível voz de barítono.
 
Há momentos que a memória nunca apaga, como o último concerto do Zeca no Coliseu do Porto, quando as forças já lhe faltavam, e se viu obrigado a sentar-se num banquinho à boca de cena. Invadiu-nos a tristeza, mas todos cantámos. A última memória viva do Zeca para quem lá esteve. Inesquecível foi também o seu funeral, milhares e milhares de pessoas acompanhando a urna envolvida num pano vermelho sem símbolos como pedira, levada pelos amigos cantores até à campa rasa.
 
O Zeca, ainda no Liceu, já era conhecido pelo “bicho que canta bem”. “Bicho” era o nome dado aos estudantes do Liceu que também estavam sujeitos à praxe. O cantar bem livrou-o das maldades das trupes. O Zeca viveu intensamente a vida académica, as farras, as praxes, a boémia coimbrã. Tal como Adriano e Góis fez parte do Orfeão Académico. Foi balador, trovador, cantor, compositor notável. Soube adaptar a música popular portuguesa, os temas tradicionais e a poesia à palavra de protesto com a mestria de um génio. Juntamente com Adriano encarna a lenda coimbrã do combate ao fascismo e ao salazarismo na luta pelos ideais da liberdade, tendo sido o mentor da canção de intervenção em Portugal. Trilhou sempre um percurso de coerência até que uma doença incurável lhe roubou a vida, tão novo, quando tinha ainda tanto para dar à vida.
 
Pelo seu talento e genialidade, Zeca Afonso está acima do ser humano comum e devia ser lembrado sempre, não só em Abril. Com mais convicção e frequência é homenageado, celebrado, lembrado e cantado fora do nosso país. Não foi por acaso que disse um dia:” A Galiza é para mim uma espécie de Pátria espiritual”.
 
Por toda a Galiza há associações culturais e musicais recheadas de espólio do Zeca. Em Ourense, onde actuou ainda durante a ditadura de Franco, no célebre Liceo Ourensano, é admirado como um dos seus melhores músicos e cantores. “Cantigas de Maio” é uma espécie de tesouro que alguns dos nossos amigos guardam em disco por ele autografado. Na Sardenha, curiosamente, o dia Vinte e Cinco de Abril é também o dia da libertação do regime fascista de Mussolini. Um grupo de cantoras costuma entoar “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso em sardo ou sardenho “Grândola Bidda Morisca”.
 
A minha admiração por Zeca Afonso leva-me a pensar que as gerações mais novas deviam ser ensinadas, na Escola, a aprender com a sua grandeza e coragem a perseguir o sonho e a utopia. Na riqueza das suas letras, na beleza da sua música, na força da sua palavra há um mundo de aprendizagem que vai da poesia e da música à Literatura, à Filosofia, à História, à Vida político-social e à Fraternidade. José Afonso foi também professor e até por isso devia ser lembrado. Para além do que ensinou aos seus alunos, deixou-nos a todos uma grande lição de vida. Por isso, nunca devia ficar atrás de outros escritores e poetas que fazem parte dos currículos escolares.
 
Zeca Afonso morreu… mas… “a sua voz perdurará para lá de todos os chacais.”

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por Augusta Clara às 00:28

Sábado, 05.12.20

África versus Mahler - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  África versus Mahler

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(Adão Cruz)

 

   Tinha pensado escrever sobre África mas, vergonhosamente tarde, descobri Mahler. E a minha felicidade disparou.
Quem opta pela dor perante o prazer?
Fui arrastada, arrasada, por esse fragor e fiquei à deriva. Uma ampla asa metálica levou-me pelos espaços e esqueci-me do discurso que tinha engendrado sobre aquela penosa realidade.
Não se pode ser feliz ao mesmo tempo que se constata a dor dos outros. É da natureza humana.
O que Ki-Zerbo defendia, também, era a felicidade para África. Não sabia era para quando.
Joseph Ki-Zerbo desmistificou a África exótica, dos cheiros e das cores, cujo rasto apenas encontrou na História da Europa, a propósito do comércio de escravos, quando estudava na Sorbonne.
O que ele queria para essa parte do mundo, onde a Humanidade se descobriu a si própria, à sua fala, à sua escrita, à sua música, era o reconhecimento duma genuinidade, ao contrário da vil classificação de Pré-História para todo o seu percurso vivencial. Pré-História da História Europeia, claro está, à qual não deixaria mais de estar ligada, mas apenas como um apêndice.
Joseph Ki-Zerbo não era um nostálgico da África pré-colonial, mas soube reconhecer como, ao interromper os fluxos comerciais e culturais entre a África Central e os povos do Norte do continente, o colonialismo enfraqueceu deliberadamente o progresso que se processava de forma harmoniosa para os povos das sociedades africanas. Cidades como Tombuctu, nos séculos XIII e XIV, tinham um desenvolvimento cultural maior que muitas cidades da Europa, a ela afluindo professores universitários e alunos de além Sara. Essa foi a evolução que o colonialismo travou.
Ele não repudiava o desenvolvimento das tecnologias de informação e de outras tecnologias de ponta. O que constatava era que a importação pura e simples dessas tecnologias tal como eram concebidas nos países do Norte não servia os genuínos objectivos das sociedades africanas no seu todo. Haveria que, aproveitando esses valiosos instrumentos, pô-los ao seu serviço mas impedindo que minassem os valores intrínsecos dessas sociedades por ele identificados como o amor, a descoberta de uma verdade científica, a amizade, a estética ou a música. Para ele “o mundo dos valores é uma imensidade que ultrapassa de longe o mundo material”.
Pelos auscultadores, entra-me, agora, o “Adagietto” da 5ª.Sinfonia, considerado já como um dos mais preciosos trechos da música clássica. A mim, analfabeta musical, soa-me a beleza em estado puro. Thomas Mann, “A Morte em Veneza”, Visconti. Quando as imagens se associam o prazer é mais intenso
O que esse velho sábio burquino, nascido no antigo Alto Volta, queria era o contrário do que está a acontecer hoje: a África há séculos saqueada das suas matérias-primas, vê-as, agora, irem-se tornando progressivamente inúteis pelo desenvolvimento tecnológico dos seus predadores de sempre. Exemplo deste facto é o aparecimento da fibra óptica que arruinou a Zâmbia substituindo o cobre que era a sua principal matéria-prima. Não quereria ter visto o desenvolvimento erróneo de uma classe média despolitizada, perdida da sua cultura original e transformada em presa consumidora de marcas das transnacionais em fuga às zonas mundiais em crise.
Mas eis os violinos, em massa, em uníssono, em apoteose. Verdadeiro sortilégio.
O meu cérebro suspendeu-se. Só pulsa o coração e muitas outras fibras de que não sei a designação anatómica.
Estou em morte cerebral. Passei para outro mundo.
África fica para depois. A felicidade não se pode adiar. Não se deve. Puro egoísmo humano? Que me perdoem os deuses mas a vida é curta. Não chega para tanto.
Também, tem tempo. Poucos africanos se terão apercebido bem do que Ki-Zerbo desejava. Uns porque ainda não têm condições para isso; outros porque nem o desejam mesmo. Há visões mais tentadoras de imediato.
Quanto a mim, Mahler, o avassalador Mahler fez-me apaixonar. Quando estiver saciada deste prazer, logo volto a pensar.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1. Joseph Ki-Zerbo (entrevista de René Holenstein), Para Quando África?, Campo das Letras, 2006.
2. Jean-Christophe Servant, “A Miragem das Classes Médias Africanas”, Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, Agosto de 2010.

 

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por Augusta Clara às 21:26

Terça-feira, 01.12.20

Maradona - Eva Cruz

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Eva Cruz  Maradona

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(A. Jansson)

   Que sei eu de futebol? Que sei eu de Maradona? Eu própria me sinto estranha ao tentar abordar tal assunto, ao falar de um jogador de futebol. Nada percebo de futebol, apesar de ter vivido sempre rodeada de gente falando de golos, de campeonatos e coisas que tais. Alguns nomes me foram inculcados nos neurónios, sem que para tal eu tenha feito qualquer esforço: Eusébio, Pelé, Maradona…Gente pobre, nascida em colchão de palha, dormida em berço de pau, criada em bairro de lata, com direito a sonhos que mais não eram do que utópicas fantasias. Alguns acreditaram na sua potencial e cósmica realização, e persistiram tenazmente nessa ideia de que era possível fazer rolar o sonho dentro de uma bola imitando o rolar do mundo. De forma inata, nem de outra forma podia ser, atravessaram a dureza da vida, jogando descalços com bola de trapos, até levarem o génio e a força do engenho ao arrebatamento de multidões, soltando lágrimas do mais fundo dos olhos.
Confesso que é um fenómeno que não consigo entender. Seja arte ou não, poesia ou alucinação, arroubo ou ascese, nada arrebata o ser humano como o relvado de um campo de futebol. Apenas uma bola. Dá que pensar!
O futebol é hoje uma máquina mundial emergindo do mais profundo oceano da baixeza humana até ao mais alto céu da glória. Maradona, pelo pouco que procurei saber da sua vida, foi um menino pobre, o pobre Diego. A máquina da glória ergueu o seu génio à altura do céu e a máquina trituradora levou-o às portas do inferno. Não chegou a entrar porque era humilde, nunca se pôs em bicos de pés e nunca se ajoelhou nem esqueceu o mundo do humanismo que veste a alma de qualquer ser humano autêntico, seja ele do relvado, da passadeira de púrpura ou de qualquer campo de terra batida. O seu génio e o seu coração foram, sem dúvida, os braços que levaram as multidões a erguê-lo ao altar dos imortais.

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por Augusta Clara às 00:47

Sábado, 07.11.20

Aos Pássaros - Miguel MT

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Miguel MT  Aos Pássaros

 

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por Augusta Clara às 22:30

Quarta-feira, 07.10.20

Águas Passadas Movem Moinhos - Eva Cruz

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Eva Cruz  Águas Passadas Movem Moinhos

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(Leonor Fini) 

   Sobe do rio um murmúrio de águas mansas, coado por entre os verdes plátanos, agarrados às margens pelas grossas e velhas raízes que há séculos por ali os alimentam. Espreguiçando-se pela manhã ou caloroso e manso pelo fim da tarde, o sol sempre se esgueira, aqui e ali, em jogos de luz, brincando ao sabor da brisa nas frondosas copas da árvores ou cintilando como pérolas de luz na água do rio.

Patos bravos seguem ao jeito da corrente, mergulhando em ginástica acrobática, ensinando os filhos ainda pequenitos que lhes vão no encalço, em ninhadas bem ordenadas e conduzidas. Pequenas manchas castanhas, salpicando a nudez do rio animam as águas quase paradas.

O pensamento também cai no rio e os olhos mergulham fundo até às suas entranhas. O mesmo rio, o mesmo leito, as mesmas margens, as mesmas árvores, as mesmas raízes. Só as águas não são as mesmas, apesar de parecerem paradas. Nem é mesma a vida que nelas corre.
 
Os olhos mergulham bem fundo, saudosos de momentos de outros dias. A mesma imagem do palácio cor-de-rosa, reflectido nas águas do rio, toma agora a cor de pedra, simples miragem do passado, iludindo o presente.
 
Assim aconteceu com D. Quixote, lutando contra moinhos de vento. Moinhos que o vento move, águas movidas pela saudade.
 
“Let bygones be bygones”, passado é passado, “it´s just water under the bridge”, é apenas água por baixo da ponte. Águas passadas não movem moinhos, mas nem tudo leva a corrente.
 
 

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por Augusta Clara às 22:39

Terça-feira, 06.10.20

A garça do Cais do Ouro - Adão Cruz

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Adão Cruz  A garça do Cais do Ouro

 

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por Augusta Clara às 22:41



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