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Jardim das Delícias


Terça-feira, 23.02.21

Recordar Zeca Afonso - Eva Cruz

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Eva Cruz  Recordar Zeca Afonso

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(Dorindo Carvalho)

   Faz anos a 23 de Fevereiro que morreu Zeca Afonso. Surgiu na vida académica de Coimbra duas gerações antes da minha passagem por lá. No entanto, tive a sorte de o ouvir cantar ao vivo, ainda novo, numa serenata monumental no largo da Sé Velha, junto à casa onde viveu. Lá está o azulejo a lembrar: “ Nesta casa viveu o trovador da liberdade José Afonso (o Zeca)”. Juntamente com ele cantou Luiz Goes (Luís Góis), o inesquecível trovador de Coimbra, com a sua inconfundível voz de barítono.
 
Há momentos que a memória nunca apaga, como o último concerto do Zeca no Coliseu do Porto, quando as forças já lhe faltavam, e se viu obrigado a sentar-se num banquinho à boca de cena. Invadiu-nos a tristeza, mas todos cantámos. A última memória viva do Zeca para quem lá esteve. Inesquecível foi também o seu funeral, milhares e milhares de pessoas acompanhando a urna envolvida num pano vermelho sem símbolos como pedira, levada pelos amigos cantores até à campa rasa.
 
O Zeca, ainda no Liceu, já era conhecido pelo “bicho que canta bem”. “Bicho” era o nome dado aos estudantes do Liceu que também estavam sujeitos à praxe. O cantar bem livrou-o das maldades das trupes. O Zeca viveu intensamente a vida académica, as farras, as praxes, a boémia coimbrã. Tal como Adriano e Góis fez parte do Orfeão Académico. Foi balador, trovador, cantor, compositor notável. Soube adaptar a música popular portuguesa, os temas tradicionais e a poesia à palavra de protesto com a mestria de um génio. Juntamente com Adriano encarna a lenda coimbrã do combate ao fascismo e ao salazarismo na luta pelos ideais da liberdade, tendo sido o mentor da canção de intervenção em Portugal. Trilhou sempre um percurso de coerência até que uma doença incurável lhe roubou a vida, tão novo, quando tinha ainda tanto para dar à vida.
 
Pelo seu talento e genialidade, Zeca Afonso está acima do ser humano comum e devia ser lembrado sempre, não só em Abril. Com mais convicção e frequência é homenageado, celebrado, lembrado e cantado fora do nosso país. Não foi por acaso que disse um dia:” A Galiza é para mim uma espécie de Pátria espiritual”.
 
Por toda a Galiza há associações culturais e musicais recheadas de espólio do Zeca. Em Ourense, onde actuou ainda durante a ditadura de Franco, no célebre Liceo Ourensano, é admirado como um dos seus melhores músicos e cantores. “Cantigas de Maio” é uma espécie de tesouro que alguns dos nossos amigos guardam em disco por ele autografado. Na Sardenha, curiosamente, o dia Vinte e Cinco de Abril é também o dia da libertação do regime fascista de Mussolini. Um grupo de cantoras costuma entoar “Grândola Vila Morena” de Zeca Afonso em sardo ou sardenho “Grândola Bidda Morisca”.
 
A minha admiração por Zeca Afonso leva-me a pensar que as gerações mais novas deviam ser ensinadas, na Escola, a aprender com a sua grandeza e coragem a perseguir o sonho e a utopia. Na riqueza das suas letras, na beleza da sua música, na força da sua palavra há um mundo de aprendizagem que vai da poesia e da música à Literatura, à Filosofia, à História, à Vida político-social e à Fraternidade. José Afonso foi também professor e até por isso devia ser lembrado. Para além do que ensinou aos seus alunos, deixou-nos a todos uma grande lição de vida. Por isso, nunca devia ficar atrás de outros escritores e poetas que fazem parte dos currículos escolares.
 
Zeca Afonso morreu… mas… “a sua voz perdurará para lá de todos os chacais.”

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por Augusta Clara às 00:28

Sábado, 05.12.20

África versus Mahler - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  África versus Mahler

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(Adão Cruz)

 

   Tinha pensado escrever sobre África mas, vergonhosamente tarde, descobri Mahler. E a minha felicidade disparou.
Quem opta pela dor perante o prazer?
Fui arrastada, arrasada, por esse fragor e fiquei à deriva. Uma ampla asa metálica levou-me pelos espaços e esqueci-me do discurso que tinha engendrado sobre aquela penosa realidade.
Não se pode ser feliz ao mesmo tempo que se constata a dor dos outros. É da natureza humana.
O que Ki-Zerbo defendia, também, era a felicidade para África. Não sabia era para quando.
Joseph Ki-Zerbo desmistificou a África exótica, dos cheiros e das cores, cujo rasto apenas encontrou na História da Europa, a propósito do comércio de escravos, quando estudava na Sorbonne.
O que ele queria para essa parte do mundo, onde a Humanidade se descobriu a si própria, à sua fala, à sua escrita, à sua música, era o reconhecimento duma genuinidade, ao contrário da vil classificação de Pré-História para todo o seu percurso vivencial. Pré-História da História Europeia, claro está, à qual não deixaria mais de estar ligada, mas apenas como um apêndice.
Joseph Ki-Zerbo não era um nostálgico da África pré-colonial, mas soube reconhecer como, ao interromper os fluxos comerciais e culturais entre a África Central e os povos do Norte do continente, o colonialismo enfraqueceu deliberadamente o progresso que se processava de forma harmoniosa para os povos das sociedades africanas. Cidades como Tombuctu, nos séculos XIII e XIV, tinham um desenvolvimento cultural maior que muitas cidades da Europa, a ela afluindo professores universitários e alunos de além Sara. Essa foi a evolução que o colonialismo travou.
Ele não repudiava o desenvolvimento das tecnologias de informação e de outras tecnologias de ponta. O que constatava era que a importação pura e simples dessas tecnologias tal como eram concebidas nos países do Norte não servia os genuínos objectivos das sociedades africanas no seu todo. Haveria que, aproveitando esses valiosos instrumentos, pô-los ao seu serviço mas impedindo que minassem os valores intrínsecos dessas sociedades por ele identificados como o amor, a descoberta de uma verdade científica, a amizade, a estética ou a música. Para ele “o mundo dos valores é uma imensidade que ultrapassa de longe o mundo material”.
Pelos auscultadores, entra-me, agora, o “Adagietto” da 5ª.Sinfonia, considerado já como um dos mais preciosos trechos da música clássica. A mim, analfabeta musical, soa-me a beleza em estado puro. Thomas Mann, “A Morte em Veneza”, Visconti. Quando as imagens se associam o prazer é mais intenso
O que esse velho sábio burquino, nascido no antigo Alto Volta, queria era o contrário do que está a acontecer hoje: a África há séculos saqueada das suas matérias-primas, vê-as, agora, irem-se tornando progressivamente inúteis pelo desenvolvimento tecnológico dos seus predadores de sempre. Exemplo deste facto é o aparecimento da fibra óptica que arruinou a Zâmbia substituindo o cobre que era a sua principal matéria-prima. Não quereria ter visto o desenvolvimento erróneo de uma classe média despolitizada, perdida da sua cultura original e transformada em presa consumidora de marcas das transnacionais em fuga às zonas mundiais em crise.
Mas eis os violinos, em massa, em uníssono, em apoteose. Verdadeiro sortilégio.
O meu cérebro suspendeu-se. Só pulsa o coração e muitas outras fibras de que não sei a designação anatómica.
Estou em morte cerebral. Passei para outro mundo.
África fica para depois. A felicidade não se pode adiar. Não se deve. Puro egoísmo humano? Que me perdoem os deuses mas a vida é curta. Não chega para tanto.
Também, tem tempo. Poucos africanos se terão apercebido bem do que Ki-Zerbo desejava. Uns porque ainda não têm condições para isso; outros porque nem o desejam mesmo. Há visões mais tentadoras de imediato.
Quanto a mim, Mahler, o avassalador Mahler fez-me apaixonar. Quando estiver saciada deste prazer, logo volto a pensar.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
1. Joseph Ki-Zerbo (entrevista de René Holenstein), Para Quando África?, Campo das Letras, 2006.
2. Jean-Christophe Servant, “A Miragem das Classes Médias Africanas”, Le Monde Diplomatique, edição portuguesa, Agosto de 2010.

 

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por Augusta Clara às 21:26

Terça-feira, 01.12.20

Maradona - Eva Cruz

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Eva Cruz  Maradona

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(A. Jansson)

   Que sei eu de futebol? Que sei eu de Maradona? Eu própria me sinto estranha ao tentar abordar tal assunto, ao falar de um jogador de futebol. Nada percebo de futebol, apesar de ter vivido sempre rodeada de gente falando de golos, de campeonatos e coisas que tais. Alguns nomes me foram inculcados nos neurónios, sem que para tal eu tenha feito qualquer esforço: Eusébio, Pelé, Maradona…Gente pobre, nascida em colchão de palha, dormida em berço de pau, criada em bairro de lata, com direito a sonhos que mais não eram do que utópicas fantasias. Alguns acreditaram na sua potencial e cósmica realização, e persistiram tenazmente nessa ideia de que era possível fazer rolar o sonho dentro de uma bola imitando o rolar do mundo. De forma inata, nem de outra forma podia ser, atravessaram a dureza da vida, jogando descalços com bola de trapos, até levarem o génio e a força do engenho ao arrebatamento de multidões, soltando lágrimas do mais fundo dos olhos.
Confesso que é um fenómeno que não consigo entender. Seja arte ou não, poesia ou alucinação, arroubo ou ascese, nada arrebata o ser humano como o relvado de um campo de futebol. Apenas uma bola. Dá que pensar!
O futebol é hoje uma máquina mundial emergindo do mais profundo oceano da baixeza humana até ao mais alto céu da glória. Maradona, pelo pouco que procurei saber da sua vida, foi um menino pobre, o pobre Diego. A máquina da glória ergueu o seu génio à altura do céu e a máquina trituradora levou-o às portas do inferno. Não chegou a entrar porque era humilde, nunca se pôs em bicos de pés e nunca se ajoelhou nem esqueceu o mundo do humanismo que veste a alma de qualquer ser humano autêntico, seja ele do relvado, da passadeira de púrpura ou de qualquer campo de terra batida. O seu génio e o seu coração foram, sem dúvida, os braços que levaram as multidões a erguê-lo ao altar dos imortais.

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por Augusta Clara às 00:47

Sábado, 07.11.20

Aos Pássaros - Miguel MT

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Miguel MT  Aos Pássaros

 

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por Augusta Clara às 22:30

Quarta-feira, 07.10.20

Águas Passadas Movem Moinhos - Eva Cruz

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Eva Cruz  Águas Passadas Movem Moinhos

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(Leonor Fini) 

   Sobe do rio um murmúrio de águas mansas, coado por entre os verdes plátanos, agarrados às margens pelas grossas e velhas raízes que há séculos por ali os alimentam. Espreguiçando-se pela manhã ou caloroso e manso pelo fim da tarde, o sol sempre se esgueira, aqui e ali, em jogos de luz, brincando ao sabor da brisa nas frondosas copas da árvores ou cintilando como pérolas de luz na água do rio.

Patos bravos seguem ao jeito da corrente, mergulhando em ginástica acrobática, ensinando os filhos ainda pequenitos que lhes vão no encalço, em ninhadas bem ordenadas e conduzidas. Pequenas manchas castanhas, salpicando a nudez do rio animam as águas quase paradas.

O pensamento também cai no rio e os olhos mergulham fundo até às suas entranhas. O mesmo rio, o mesmo leito, as mesmas margens, as mesmas árvores, as mesmas raízes. Só as águas não são as mesmas, apesar de parecerem paradas. Nem é mesma a vida que nelas corre.
 
Os olhos mergulham bem fundo, saudosos de momentos de outros dias. A mesma imagem do palácio cor-de-rosa, reflectido nas águas do rio, toma agora a cor de pedra, simples miragem do passado, iludindo o presente.
 
Assim aconteceu com D. Quixote, lutando contra moinhos de vento. Moinhos que o vento move, águas movidas pela saudade.
 
“Let bygones be bygones”, passado é passado, “it´s just water under the bridge”, é apenas água por baixo da ponte. Águas passadas não movem moinhos, mas nem tudo leva a corrente.
 
 

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por Augusta Clara às 22:39

Terça-feira, 06.10.20

A garça do Cais do Ouro - Adão Cruz

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Adão Cruz  A garça do Cais do Ouro

 

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por Augusta Clara às 22:41

Sábado, 03.10.20

Adão Cruz - Exposição naTaberna do Doutor, 2020

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EXPOSIÇÃO DE PINTURA

 

ADÃO CRUZ, Exposição
 
   O meu amigo Zé Carlos, dono da Taberna do Doutor, olhou-me bem nos olhos e disse-me: por que é que você tem os quadros no corredor encostados à parede, em vez de os expor aqui na Taberna? Eu respondi: na Taberna…? Oh!...
 
A mais bestial das galerias! Eles aí estão. São 21.
 
Por baixo deste quadro que aqui reproduzo, aquele com que verdadeiramente me identifico, expus o meu resumo curricular. Só me esqueci de referir, no final, que o vinho verde tinto, na minha aldeia e na minha infância, foi o meu segundo leite.
 

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ADÃO CRUZ
 
- Nasceu em Vale de Cambra há oito décadas.
- Licenciado em Medicina e Cirurgia pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.
- Médico generalista em Vale de Cambra durante seis anos.
- Médico na Guerra Colonial da Guiné.
- Médico cardiologista, subespecializado em Eco-Doppler cardíaco, tendo sido um dos pioneiros desta técnica em Portugal. Foi quem adquiriu o primeiro Ecocardiógrafo Bidimensional que entrou em Portugal.
- Ex-Assistente Hospitalar de Cardiologia graduado em Chefe de Serviço.
- Fez o essencial da sua formação no Porto, Lisboa, S. Paulo, Madrid, Barcelona, Corunha, Santiago de Compostela, Paris, Roterdão e Bordéus.
- Sócio da Sociedade Portuguesa de Cardiologia.
- Foi sócio da Sociedade Europeia de Cardiologia, com cartão de Cardiologista Europeu.
- Ex-sócio da Sociedade Portuguesa de Cuidados Intensivos.
- Sócio e colaborador do Sindicato dos Médicos do Norte.
- Sócio da Sociedade Portuguesa de Escritores e Artistas Médicos.
- Escreve desde jovem e pinta desde a década de oitenta.
- Frequentes colaborações em jornais, revistas e blogues.
- Tem doze livros publicados, entre poesia, contos e pintura, e mais um sobre assuntos de cardiologia.
- Tem quadros seus a ilustrar capas de livros de outros autores.
- Convidado para três bienais.
- Fez diversas exposições individuais e colectivas em Portugal e fora de Portugal.
- Tem quadros seus em sete países.
- Vem referido e comentado na Parte II, Vol. V, da enciclopédia “O Mundo Fascinante da Medicina”, ilustrando os seus quadros outros volumes, nomeadamente uma boa parte do Volume II da mesma Parte II.
- Convidado com poesia e pintura para o livro comemorativo dos noventa anos da BIAL.
- Convidado com texto e pinturas para o livro comemorativo dos vinte e cinco anos da abertura da Unidade de Cuidados Intensivos de Cardiologia do Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia.
 

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por Augusta Clara às 21:10

Quarta-feira, 16.09.20

Fleurs de Rocailles - Eva Cruz

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Eva Cruz  Fleurs de Rocailles

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(Adão Cruz)

 

   “Scent of a Woman”, fragrância exalada de flores de jasmim, de cravo, lírio do vale, violeta que eleva os sentidos à frescura e à beleza dos campos e os enche daquela plenitude indefinível que perdura e leva a acreditar que o céu é feito de perfume.

Foi no Musée du Parfum no centro de Paris que recebi o meu primeiro perfume “Fleurs de Rocailles”, tinha eu dezoito anos, e que guardei religiosamente durante uma vida. Um frasquinho pequenino, esguio, da Caron, criado em 1933. Musée du Parfum ou Fragonard  Musée, em homenagem ao pintor hedonista Fragonard do século XVIII da cidade de Grasse, dos campos de lavanda, do ouro azul, abertos ao infinito, que perfumam as terras provençais, paisagens mágicas que seduziram poetas, escritores, pintores como Van Gogh, Cézane, Picasso, Camus e tantos outros artistas, que por ali encheram a alma de alfazema, rosas, lírios e jasmins.

“Fleurs de Rocailles”, quase no fim de “ PERFUME DE MULHER”, mostra bem, sobretudo a partir do olfacto apurado de um cego, o coronel Frank Slade, que um bom perfume é mais do que um cheiro, é parte integrante de uma personalidade.

Como o sofrimento interior pode escamotear a bondade, aprendeu-o até ao desespero o jovem e inexperiente estudante Charlie, aluno de um dos Colleges da Universidade de Princeton.  A abnegação e a força da amizade irascível de um amante dos prazeres da vida em todos os sentidos criaram em Frank, durante uma curta viagem a Nova York para celebrar o feriado de três dias do Thanksgiving , de Acção de Graças, o novo sentido da vida e a utopia dos últimos sonhos. Charlie, com a frescura virgem e pueril da sua bondade e compaixão enternecedoras, abriu-lhe o caminho para o alento e para um novo sentido e uma nova força de viver, traduzido no arrebatamento estonteante e pungente de um tango dançado por um cego à volta de um etéreo perfume.

A dramática beleza da violência poética, terminando com uma preciosa lição sobre a força da escola na estruturação do carácter, pôs a nu a hipocrisia de muitas escolas de elites, onde o dinheiro é deus e senhor, mais empenhadas no amestramento, como paradigma do cidadão formatado para o sistema, do que na educação de gente com coluna vertebral.

A referência a “Fleurs de Rocailles” perfumou-me inesperadamente a memória e caiu como um bálsamo nas minhas longínquas lembranças, fazendo-me recuar ao “Scent of a Woman” dos meus dezoito anos.

 

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por Augusta Clara às 22:59

Quarta-feira, 19.08.20

A dívida - Adão Cruz

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Adão Cruz  A dívida

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(Adão Cruz) 

   Adoro ir a restaurantes antigos, clássicos, velhos, modestos mas excelentes, que não troco, de forma alguma, pelo mais requintado gourmet. Há sempre uma cena, uma história que o acaso nos oferece como deliciosa sobremesa. Neste restaurante a que fui com um grupo de amigos, onde a vitela assada no forno não tem comparação com outra qualquer, aconteceu o seguinte: no fim da refeição, pedi a conta, e um dos donos do restaurante disse-me que estava tudo pago. Tanto eu como os meus amigos ficámos de boca aberta. Perguntei o que se passava, quando ele me respondeu: Senhor Doutor, isto não é para pagar nada, mas eu tenho uma dívida para com o Senhor Doutor há mais de vinte anos. O Senhor não se recorda, mas vai lembrar-se depois de eu contar. Há vinte e tal anos diagnosticaram-me, em Lisboa, uma leucemia e deram-me seis meses de vida. Indicaram-me todos os tratamentos e cuidados a ter e mandaram-me para a minha terra, dizendo que gozasse o melhor possível o tempo que tinha de vida. Quando cheguei à minha aldeia alguém me disse para consultar o Dr. Adão, e eu assim fiz. O Senhor Doutor ficou meio triste e disse-me compreender a minha angústia, mas que não eram coisas das suas mãos de cardiologista. No entanto, iria recomendar-me um grande amigo, hematologista, o Prof. Arnaldo Mendonça, pois não via melhor pessoa a quem me entregar.

Abro aqui um parêntesis para dizer que o Arnaldo Mendonça, ainda hoje meu grande amigo, foi meu colega no Internato Geral do Hospital de Santo António, seguindo depois para o Hospital de S. João, onde fez a especialidade de hematologia e se doutorou.

Andei no Prof. Arnaldo Mendonça durante doze anos, continuou o dono do restaurante. Ao fim deste tempo, ele mandou-me para casa e recomendou-me que fizesse a vida normal e tentasse viver o mais possível, nada impedindo, dentro do que lhe dizia respeito, de durar até aos cem anos de idade. Como vê, Senhor Doutor, um almoço não é nada comparado com a minha vida.

A mim, confesso, soube-me muito melhor esta sobremesa do que a oferta de mil almoços.

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por Augusta Clara às 23:31

Domingo, 16.08.20

Canções antigas - Adão Cruz

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Adão Cruz  Canções antigas

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(Adão Cruz)

Na recordação das canções antigas
veste-se meu coração das verdes folhas do desejo
o entoa na fragrância dos campos
a melodia dos olhos pendurados na profundidade do céu.
Na sombra da figueira diz-me adeus o sol
em acenos de azul e violeta
por entre os ramos e os sons de uma flauta de lábios doces
que por ali poisou entre sonhos infinitos do lusco-fusco.
As primeiras chuvas do verão humedecem como lágrimas
as palavras ditas e não ditas
no silêncio dos caminhos perfumados de terra e folhas molhadas.
E nada se reconhece na lembrança muda das tardes
que para sempre morreram
mas os passos ecoam em silêncio por entre os pés das oliveiras
onde outrora floriram mil risos de criança.
Que fez de mim este crepúsculo azul
como flecha espetada no vento
ferindo de morte toda a vida de meu sonho-menino?
Onde está a pedra que se fez montanha
o regato que se fez rio
a tripla chama da vida nua
quando sagradas selvas e misteriosas crenças de punhal à cinta
quiseram que fosse santa?
Meu coração peregrino de seu perdido tesouro
entre o sol e as desgarradas nuvens de infinitos céus
ainda hoje se arrasta entre a razão e o abismo
em pálido reflexo de ouro para ser criança na hora de partir.

 

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por Augusta Clara às 23:16



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