Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Segunda-feira, 20.01.20

Mãos de hoje que foram de sempre - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Adão Cruz   Mãos de hoje que foram de sempre

unnamed1.jpg

(Adão Cruz)

 

Na noite que já não é noite de madrugadas
perpassa em doce silêncio por entre os dedos dormentes
uma brisa dolente
esquecendo as mãos na paz adormecida.
Por entre os frágeis dedos da quietude e do silêncio
vagueia agora em suave melancolia
o magro regato da secura da vida
arrastando em seu leito rugoso
a triste canção de um tempo sem cor nem movimento.
O lento gesto do abrir destas mãos de tantos anos vividas cai agora em pesado silêncio por entre as malhas da sombra
no impiedoso vazio das mãos cheias de nada.
Foi-se embora a madrugada das manhãs perdidas
no tempo em que o sol sorria entre os sonhos
e as mãos cantavam a força da vida
com ondas do mar por entre os dedos frementes.
No penoso abrir e fechar de mãos
deste plangente gesto do fim do dia
feito canção de tão gélido silêncio
apenas a saudade se aninha em negro fundo
para morrer sozinha.


 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 22:24

Segunda-feira, 06.01.20

A tua mão - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Adão Cruz  A tua mão

126a.jpg

(Adão Cruz)

 

 

Como simples aves
damos as asas a caminho do sol
para fugir às lágrimas que a terra espreme.
A luz incendeia a vontade de fugir
mas a mão serena abre o coração à esperança
onde a angústia cresce
por entre músicas perdidas e restos de flores.
Eu continuo o caminho dos lábios que deixaram de suspirar
e dos olhos que pararam de girar
confundidos entre lágrimas e risos.
Eu sigo o longo caminho das sombras
onde as plantas não falam
nem as fontes nem os pássaros.
Mas a mão apertada
mesmo que incrédula
murmura baixinho
que os prados se estendem a nossos pés.
As brandas ondas do mar
deslizam suavemente sobre a areia
cobrindo de espuma o teu corpo sonâmbulo
que à noite desperta
por entre o labirinto dos meus sonhos.
E pelos claustros do vento impaciente
os cabelos de fogo vencem a idade
em que o coração treme sem casa para morar.
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 01:06

Segunda-feira, 30.12.19

O gato e o presépio - Eva Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Eva Cruz  O gato e o presépio

 

presépio1.jpg

 

   Sempre, desde criança, eu via no presépio, para além da Sagrada Família, os três Reis Magos, alguns pastores, a vaca e o burro aquecendo a manjedoura com o seu bafo, e cá fora duas ou três ovelhinhas, pastando na erva húmida salpicada de neve, à beira de um pequeno regato.

Cada presépio foi-se adaptando aos tempos modernos, e agora há-os em vidro, em porcelana, em madeira, em tecido e até em prata ou ouro. Porém, para mim, não há presépio mais lindo do que o de terracota da minha infância. Todos os anos lá está ele, já meio gasto e desbotado, a alimentar a fantasia dos mais novos e a aquecer a saudade da canção verde e vermelha do pinheirinho de Natal.

Este ano, uma vizinha da aldeia, fez um presépio a rigor, com musgo arrancado ao muro da fonte, um regato a serpentear por entre pedras roladas trazidas do rio, bem como luzinhas e pequenos enfeites, frutos da modernidade. Claro que não faltaram a vaquinha, o burrinho e as ovelhas, nos mesmos lugares que a tradição, desde há séculos, se encarregou de lhes destinar.

Mas um gato?!

Sim, um gato amarelo e branco dos muitos que andam à solta pelo quintal decidiu alapar-se todas as noites no presépio, mesmo ao lado do burro, bem em frente ao Menino Jesus. E o mais curioso é que não muda de lugar, e ao acenar da noite, lá está ele todo enroladinho sempre na mesma posição.

Não faço a mínima ideia do que vai na cabeça do gato. Não sei se foi atraído pelas luzinhas, pelo aconchego, pela beleza do presépio, pela companhia, por achar que dele se esqueceram na tradição, ou se até cumpre alguma intuição religiosa.

Fiquei a pensar.

Nos tempos que correm, há pessoas que têm tanto apego aos animais que os tratam como gente. Há quem lhes dê beijinhos na boca, quem durma com eles, quem os vista com roupa de marca, quem lhes pinte as unhas e lhes faça madeixas no pêlo… eu sei lá!

Não admira, pois, que os gatos comecem a entender e a reivindicar alguma coisa sobre direitos dos animais, nomeadamente comer à mesa do dono, dormir na cama do dono ou mesmo fazer parte integrante de um presépio.

Gosto de animais, trato-os bem, mas animais são animais, não são seres humanos. No entanto, confesso que me encanta ver aquele gato a dormitar e a ronronar todas as noites ali ao lado do Deus Menino.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 22:17

Quarta-feira, 27.11.19

O nosso segredo - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Adão Cruz  O nosso segredo

amor.png

(Adão Cruz)

O mais belo segredo da minha vida
onde o horizonte foge contra o tempo
é só nosso e de mais ninguém.
Onde as sombras negras desaparecem
ele procura ver-me na janela dos teus olhos
e tenta falar-me no silêncio do desdém.

Mais além veste-se de negro
de alma enorme e de pão quente
do eco de tudo à volta do teu ninho
de purpúreos reflexos de sol poente
de vermelho sangue em coração de gente.

Não consigo ver-te assim ausente
sem calor no deserto que aqui mora
sem o dilúvio do desejo permanente
que enche os verdes rios do meu segredo
e adormece sempre nos alvores da aurora.

Tudo me encaminha para os teus braços
quando te sentas à porta da minha idade
nesta entrada de enganos e algemas.
Mas o segredo que encarna a vida
presa nas mãos livres e serenas
veste de beleza a mentira da verdade.

Quase me obriga a pedir ao vento
uma lufada de Primavera e sentimento
mas as palavras fazem ninho
no mais doce recanto do sofrimento
e adormecem de mansinho.

Vou embora…
são horas de saber se a vida vale a pena
no dobrar dos avessos e fantasias.
Junto ao rio que os sentidos fazem e desfazem
vou correr para o lado da nascente
sabendo que o rio me arrasta para o fim da tarde
na implacável força da corrente.

Ainda bem que esta margem é clara e amena
e do outro lado é tudo escuro quase negro
mas quando o fogo queima o pensamento
até o segredo azul de um pálido coração
escondido no ventre dos pinheiros
parece verde como o verde da ilusão.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 19:20

Domingo, 17.11.19

Ensaio de Amália Rodigues e Alain Oulman sobre o poema "Soledad" de Cecília Meireles

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Ensaio de Amália Rodigues e Alain Oulman sobre o poema "Soledad" de Cecília Meireles

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 21:51

Sábado, 16.11.19

NORAH JONES - Somewhere over the rainbow

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

NORAH JONES - Somewhere over the rainbow

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 19:50

Domingo, 23.06.19

Miniatura persa

a noite fez-se para amar 1a.jpg

Miniatura persa

 

miniatura persa.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 01:42

Sexta-feira, 01.02.19

Discurso na secção de perdidos e achados - Wislawa Szymborska

a noite fez-se para amar 1a.jpg

Wislawa Szymborska  Discurso na secção de perdidos e achados

foto de carlos r..jpg

 

(fotografia de Carlos R.)

Perdi umas quantas deusas a caminho do sul para o norte
E muitos deuses a caminho do oriente para o ocidente.
Apagaram-se-me de vez algumas estrelas, abre-se-lhes o céu!
Afundaram-se-me uma ilha, outra ilha.
Nem sei bem onde deixei as minhas garras,
quem veste o meu pêlo, quem mora na minha carapaça.
Morreram-me os irmãos quando rastejava da água para a terra
e só um ossinho festeja em mim o aniversário.
Pulava para fora da pele, não poupava vértebras nem pernas,
inúmeras vezes perdia os sentidos
Há muito fechei a tudo isto o terceiro olho,
abri disso barbatana, encolhi os galhos.

Sumiu-se, perdeu-se, o vento levou.
Eu própria me admiro, quão pouco de mim restou:
do género por enquanto humano, pessoa singular
que ontem no eléctrico um guarda-chuva deixou ficar.

 

(tradução do polaco de ELZBIETA MILEWSKA e SÉRGIO DAS NEVES)

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 20:19

Quinta-feira, 24.01.19

Ao redor do nevoeiro - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

Adão Cruz  Ao redor do nevoeiro

IMG_5886a.jpg

 

(Adão Cruz)

 

Hoje sou eu que vou ao teu encontro
por dentro deste nevoeiro denso que tudo esconde.
Não sei onde estás nem sinto os teus cabelos de incenso.
Sei que moras para lá do tempo entre dálias e gerânios
entre memórias e sonhos de um segredo...
mas o coração diz-me para seguir em frente e não ter medo.
Sem saber ao certo quem sou levo comigo a razão
único caminho que rasga o nevoeiro e rompe as algemas
e me deixa ver a luminosa transparência do teu corpo
para lá das algas e dos peixes verdes dos poemas.
Tu estás do outro lado de um beijo
e eu quero abraçar-te pela cintura
neste apagado incêndio dos sentidos
ainda que seja demasiado tarde
para a verde ternura de um desejo.
Hoje sou eu que vou ao teu encontro
em meu corpo de terra antiga que já não seduz.
Vou dar um passo em falso no nevoeiro
para lá dos olhos sem luz.
Assim o decidi ao ver-te perdida
na altura em que o nevoeiro sem sentido
caía pesadamente sobre a rua.
Mas não eras tu…
era uma chama de lábios e lume
ardendo em estranho leito nupcial
de um qualquer tempo já perdido.
Foi então
que no ventre do nevoeiro inventei a noite entre lençóis de neve
mordidos de uma luz oblíqua que não era minha nem tua
e se perdia na pele branca de um qualquer corpo que eu não sentia.
Era como se um rio cantasse
entre a lua as águas e o nada…
e fosse demasiado tarde
para ser música no violino da madrugada

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 23:10

Quinta-feira, 10.01.19

Maria Helena Vieira da Silva

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Maria Helena Vieira da Silva

 

34e3ff71241ff425e099c24139182de4a.jpg

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 21:22



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Augusta Clara

    Anónimo, quem és tu? (lembrei-me do "Frei Luís de ...

  • Anónimo

    Texto excelente. Bem escrito, bem documentado e be...

  • Anónimo

    Texto de excelente e deliciosa "prosa poética"!...

  • Anónimo

    Bravo, plenamente de acordo!

  • Anónimo

    Eu agradeco-lhe a ideia de transcrever aqui este b...


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos