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Jardim das Delícias


Sábado, 29.02.20

In limine - Adão Cruz

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Adão Cruz  In limine

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(Adão Cruz)

 

Pelos caminhos de prantos e sorrisos
dentro de um tempo farto de horas sem minutos
a vida vai colhendo flores que murcham
por não serem simples flores ou flores simples
sem exigências de estufa ou jardim
flores de terra húmida
céu por cima e sol de permeio.
Em tudo o que me é vida
interfere a vergonha de ser adulto.
Descortino as janelas
que me disseram haver dentro dos homens
e só vejo muralhas.
Nada de crianças.
Os homens comeram as crianças
os homens comeram-se crianças
os homens pariram-se adultos.
Os pongídeos chegaram a homens.
Quinze milhões de anos
para o homem ser bicho…!
Bicho erecto
rastejo de púrpura.
Eu nasci na erva e dormi no feno
e acordei com a voz dos melros e rouxinóis
e saltitei com os pardais
vesti-me de sol e despi-me de luar
estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios.
Meus olhos dormidos casavam a noite e o dia
no mesmo silêncio de sonho-menino.
A vida viveu em mim
crescendo todos os tamanhos
e medindo todos os céus.
Também eu fui criança
e matei em mim a criança que procuro
ao pensar que eram de amor
as mãos que a mataram.
Passei a vida a correr tropeçando nas sombras
arrumei ao canto da luz mil horas vazias
sangradas a curricular futuros
para ser gente na praça dos homens.
Pisei os passos pequeninos nos avessos da verdade
e palmilhei léguas vagarosas a tossir poeira.
Vestido de ausências
fui renascendo de amor pela vida fora
nos infinitos da fantasia
que outros foram matando lentamente
com fruído prazer.

 

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por Augusta Clara às 22:06

Segunda-feira, 03.02.20

RAFAL OLBINSKI (Polónia, 1943-)

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Iris

 

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por Augusta Clara às 03:17

Segunda-feira, 20.01.20

Mãos de hoje que foram de sempre - Adão Cruz

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Adão Cruz   Mãos de hoje que foram de sempre

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(Adão Cruz)

 

Na noite que já não é noite de madrugadas
perpassa em doce silêncio por entre os dedos dormentes
uma brisa dolente
esquecendo as mãos na paz adormecida.
Por entre os frágeis dedos da quietude e do silêncio
vagueia agora em suave melancolia
o magro regato da secura da vida
arrastando em seu leito rugoso
a triste canção de um tempo sem cor nem movimento.
O lento gesto do abrir destas mãos de tantos anos vividas cai agora em pesado silêncio por entre as malhas da sombra
no impiedoso vazio das mãos cheias de nada.
Foi-se embora a madrugada das manhãs perdidas
no tempo em que o sol sorria entre os sonhos
e as mãos cantavam a força da vida
com ondas do mar por entre os dedos frementes.
No penoso abrir e fechar de mãos
deste plangente gesto do fim do dia
feito canção de tão gélido silêncio
apenas a saudade se aninha em negro fundo
para morrer sozinha.


 

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por Augusta Clara às 22:24

Segunda-feira, 06.01.20

A tua mão - Adão Cruz

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Adão Cruz  A tua mão

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(Adão Cruz)

 

 

Como simples aves
damos as asas a caminho do sol
para fugir às lágrimas que a terra espreme.
A luz incendeia a vontade de fugir
mas a mão serena abre o coração à esperança
onde a angústia cresce
por entre músicas perdidas e restos de flores.
Eu continuo o caminho dos lábios que deixaram de suspirar
e dos olhos que pararam de girar
confundidos entre lágrimas e risos.
Eu sigo o longo caminho das sombras
onde as plantas não falam
nem as fontes nem os pássaros.
Mas a mão apertada
mesmo que incrédula
murmura baixinho
que os prados se estendem a nossos pés.
As brandas ondas do mar
deslizam suavemente sobre a areia
cobrindo de espuma o teu corpo sonâmbulo
que à noite desperta
por entre o labirinto dos meus sonhos.
E pelos claustros do vento impaciente
os cabelos de fogo vencem a idade
em que o coração treme sem casa para morar.
 

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por Augusta Clara às 01:06

Segunda-feira, 30.12.19

O gato e o presépio - Eva Cruz

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Eva Cruz  O gato e o presépio

 

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   Sempre, desde criança, eu via no presépio, para além da Sagrada Família, os três Reis Magos, alguns pastores, a vaca e o burro aquecendo a manjedoura com o seu bafo, e cá fora duas ou três ovelhinhas, pastando na erva húmida salpicada de neve, à beira de um pequeno regato.

Cada presépio foi-se adaptando aos tempos modernos, e agora há-os em vidro, em porcelana, em madeira, em tecido e até em prata ou ouro. Porém, para mim, não há presépio mais lindo do que o de terracota da minha infância. Todos os anos lá está ele, já meio gasto e desbotado, a alimentar a fantasia dos mais novos e a aquecer a saudade da canção verde e vermelha do pinheirinho de Natal.

Este ano, uma vizinha da aldeia, fez um presépio a rigor, com musgo arrancado ao muro da fonte, um regato a serpentear por entre pedras roladas trazidas do rio, bem como luzinhas e pequenos enfeites, frutos da modernidade. Claro que não faltaram a vaquinha, o burrinho e as ovelhas, nos mesmos lugares que a tradição, desde há séculos, se encarregou de lhes destinar.

Mas um gato?!

Sim, um gato amarelo e branco dos muitos que andam à solta pelo quintal decidiu alapar-se todas as noites no presépio, mesmo ao lado do burro, bem em frente ao Menino Jesus. E o mais curioso é que não muda de lugar, e ao acenar da noite, lá está ele todo enroladinho sempre na mesma posição.

Não faço a mínima ideia do que vai na cabeça do gato. Não sei se foi atraído pelas luzinhas, pelo aconchego, pela beleza do presépio, pela companhia, por achar que dele se esqueceram na tradição, ou se até cumpre alguma intuição religiosa.

Fiquei a pensar.

Nos tempos que correm, há pessoas que têm tanto apego aos animais que os tratam como gente. Há quem lhes dê beijinhos na boca, quem durma com eles, quem os vista com roupa de marca, quem lhes pinte as unhas e lhes faça madeixas no pêlo… eu sei lá!

Não admira, pois, que os gatos comecem a entender e a reivindicar alguma coisa sobre direitos dos animais, nomeadamente comer à mesa do dono, dormir na cama do dono ou mesmo fazer parte integrante de um presépio.

Gosto de animais, trato-os bem, mas animais são animais, não são seres humanos. No entanto, confesso que me encanta ver aquele gato a dormitar e a ronronar todas as noites ali ao lado do Deus Menino.

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por Augusta Clara às 22:17

Quarta-feira, 27.11.19

O nosso segredo - Adão Cruz

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Adão Cruz  O nosso segredo

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(Adão Cruz)

O mais belo segredo da minha vida
onde o horizonte foge contra o tempo
é só nosso e de mais ninguém.
Onde as sombras negras desaparecem
ele procura ver-me na janela dos teus olhos
e tenta falar-me no silêncio do desdém.

Mais além veste-se de negro
de alma enorme e de pão quente
do eco de tudo à volta do teu ninho
de purpúreos reflexos de sol poente
de vermelho sangue em coração de gente.

Não consigo ver-te assim ausente
sem calor no deserto que aqui mora
sem o dilúvio do desejo permanente
que enche os verdes rios do meu segredo
e adormece sempre nos alvores da aurora.

Tudo me encaminha para os teus braços
quando te sentas à porta da minha idade
nesta entrada de enganos e algemas.
Mas o segredo que encarna a vida
presa nas mãos livres e serenas
veste de beleza a mentira da verdade.

Quase me obriga a pedir ao vento
uma lufada de Primavera e sentimento
mas as palavras fazem ninho
no mais doce recanto do sofrimento
e adormecem de mansinho.

Vou embora…
são horas de saber se a vida vale a pena
no dobrar dos avessos e fantasias.
Junto ao rio que os sentidos fazem e desfazem
vou correr para o lado da nascente
sabendo que o rio me arrasta para o fim da tarde
na implacável força da corrente.

Ainda bem que esta margem é clara e amena
e do outro lado é tudo escuro quase negro
mas quando o fogo queima o pensamento
até o segredo azul de um pálido coração
escondido no ventre dos pinheiros
parece verde como o verde da ilusão.

 

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por Augusta Clara às 19:20

Domingo, 17.11.19

Ensaio de Amália Rodigues e Alain Oulman sobre o poema "Soledad" de Cecília Meireles

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Ensaio de Amália Rodigues e Alain Oulman sobre o poema "Soledad" de Cecília Meireles

 

 

 

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por Augusta Clara às 21:51

Sábado, 16.11.19

NORAH JONES - Somewhere over the rainbow

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NORAH JONES - Somewhere over the rainbow

 

 

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por Augusta Clara às 19:50

Domingo, 23.06.19

Miniatura persa

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Miniatura persa

 

miniatura persa.jpg

 

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por Augusta Clara às 01:42

Sexta-feira, 01.02.19

Discurso na secção de perdidos e achados - Wislawa Szymborska

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Wislawa Szymborska  Discurso na secção de perdidos e achados

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(fotografia de Carlos R.)

Perdi umas quantas deusas a caminho do sul para o norte
E muitos deuses a caminho do oriente para o ocidente.
Apagaram-se-me de vez algumas estrelas, abre-se-lhes o céu!
Afundaram-se-me uma ilha, outra ilha.
Nem sei bem onde deixei as minhas garras,
quem veste o meu pêlo, quem mora na minha carapaça.
Morreram-me os irmãos quando rastejava da água para a terra
e só um ossinho festeja em mim o aniversário.
Pulava para fora da pele, não poupava vértebras nem pernas,
inúmeras vezes perdia os sentidos
Há muito fechei a tudo isto o terceiro olho,
abri disso barbatana, encolhi os galhos.

Sumiu-se, perdeu-se, o vento levou.
Eu própria me admiro, quão pouco de mim restou:
do género por enquanto humano, pessoa singular
que ontem no eléctrico um guarda-chuva deixou ficar.

 

(tradução do polaco de ELZBIETA MILEWSKA e SÉRGIO DAS NEVES)

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por Augusta Clara às 20:19



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