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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 16.09.20

Fleurs de Rocailles - Eva Cruz

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Eva Cruz  Fleurs de Rocailles

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(Adão Cruz)

 

   “Scent of a Woman”, fragrância exalada de flores de jasmim, de cravo, lírio do vale, violeta que eleva os sentidos à frescura e à beleza dos campos e os enche daquela plenitude indefinível que perdura e leva a acreditar que o céu é feito de perfume.

Foi no Musée du Parfum no centro de Paris que recebi o meu primeiro perfume “Fleurs de Rocailles”, tinha eu dezoito anos, e que guardei religiosamente durante uma vida. Um frasquinho pequenino, esguio, da Caron, criado em 1933. Musée du Parfum ou Fragonard  Musée, em homenagem ao pintor hedonista Fragonard do século XVIII da cidade de Grasse, dos campos de lavanda, do ouro azul, abertos ao infinito, que perfumam as terras provençais, paisagens mágicas que seduziram poetas, escritores, pintores como Van Gogh, Cézane, Picasso, Camus e tantos outros artistas, que por ali encheram a alma de alfazema, rosas, lírios e jasmins.

“Fleurs de Rocailles”, quase no fim de “ PERFUME DE MULHER”, mostra bem, sobretudo a partir do olfacto apurado de um cego, o coronel Frank Slade, que um bom perfume é mais do que um cheiro, é parte integrante de uma personalidade.

Como o sofrimento interior pode escamotear a bondade, aprendeu-o até ao desespero o jovem e inexperiente estudante Charlie, aluno de um dos Colleges da Universidade de Princeton.  A abnegação e a força da amizade irascível de um amante dos prazeres da vida em todos os sentidos criaram em Frank, durante uma curta viagem a Nova York para celebrar o feriado de três dias do Thanksgiving , de Acção de Graças, o novo sentido da vida e a utopia dos últimos sonhos. Charlie, com a frescura virgem e pueril da sua bondade e compaixão enternecedoras, abriu-lhe o caminho para o alento e para um novo sentido e uma nova força de viver, traduzido no arrebatamento estonteante e pungente de um tango dançado por um cego à volta de um etéreo perfume.

A dramática beleza da violência poética, terminando com uma preciosa lição sobre a força da escola na estruturação do carácter, pôs a nu a hipocrisia de muitas escolas de elites, onde o dinheiro é deus e senhor, mais empenhadas no amestramento, como paradigma do cidadão formatado para o sistema, do que na educação de gente com coluna vertebral.

A referência a “Fleurs de Rocailles” perfumou-me inesperadamente a memória e caiu como um bálsamo nas minhas longínquas lembranças, fazendo-me recuar ao “Scent of a Woman” dos meus dezoito anos.

 

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por Augusta Clara às 22:59

Quarta-feira, 19.08.20

A dívida - Adão Cruz

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Adão Cruz  A dívida

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(Adão Cruz) 

   Adoro ir a restaurantes antigos, clássicos, velhos, modestos mas excelentes, que não troco, de forma alguma, pelo mais requintado gourmet. Há sempre uma cena, uma história que o acaso nos oferece como deliciosa sobremesa. Neste restaurante a que fui com um grupo de amigos, onde a vitela assada no forno não tem comparação com outra qualquer, aconteceu o seguinte: no fim da refeição, pedi a conta, e um dos donos do restaurante disse-me que estava tudo pago. Tanto eu como os meus amigos ficámos de boca aberta. Perguntei o que se passava, quando ele me respondeu: Senhor Doutor, isto não é para pagar nada, mas eu tenho uma dívida para com o Senhor Doutor há mais de vinte anos. O Senhor não se recorda, mas vai lembrar-se depois de eu contar. Há vinte e tal anos diagnosticaram-me, em Lisboa, uma leucemia e deram-me seis meses de vida. Indicaram-me todos os tratamentos e cuidados a ter e mandaram-me para a minha terra, dizendo que gozasse o melhor possível o tempo que tinha de vida. Quando cheguei à minha aldeia alguém me disse para consultar o Dr. Adão, e eu assim fiz. O Senhor Doutor ficou meio triste e disse-me compreender a minha angústia, mas que não eram coisas das suas mãos de cardiologista. No entanto, iria recomendar-me um grande amigo, hematologista, o Prof. Arnaldo Mendonça, pois não via melhor pessoa a quem me entregar.

Abro aqui um parêntesis para dizer que o Arnaldo Mendonça, ainda hoje meu grande amigo, foi meu colega no Internato Geral do Hospital de Santo António, seguindo depois para o Hospital de S. João, onde fez a especialidade de hematologia e se doutorou.

Andei no Prof. Arnaldo Mendonça durante doze anos, continuou o dono do restaurante. Ao fim deste tempo, ele mandou-me para casa e recomendou-me que fizesse a vida normal e tentasse viver o mais possível, nada impedindo, dentro do que lhe dizia respeito, de durar até aos cem anos de idade. Como vê, Senhor Doutor, um almoço não é nada comparado com a minha vida.

A mim, confesso, soube-me muito melhor esta sobremesa do que a oferta de mil almoços.

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por Augusta Clara às 23:31

Domingo, 16.08.20

Canções antigas - Adão Cruz

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Adão Cruz  Canções antigas

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(Adão Cruz)

Na recordação das canções antigas
veste-se meu coração das verdes folhas do desejo
o entoa na fragrância dos campos
a melodia dos olhos pendurados na profundidade do céu.
Na sombra da figueira diz-me adeus o sol
em acenos de azul e violeta
por entre os ramos e os sons de uma flauta de lábios doces
que por ali poisou entre sonhos infinitos do lusco-fusco.
As primeiras chuvas do verão humedecem como lágrimas
as palavras ditas e não ditas
no silêncio dos caminhos perfumados de terra e folhas molhadas.
E nada se reconhece na lembrança muda das tardes
que para sempre morreram
mas os passos ecoam em silêncio por entre os pés das oliveiras
onde outrora floriram mil risos de criança.
Que fez de mim este crepúsculo azul
como flecha espetada no vento
ferindo de morte toda a vida de meu sonho-menino?
Onde está a pedra que se fez montanha
o regato que se fez rio
a tripla chama da vida nua
quando sagradas selvas e misteriosas crenças de punhal à cinta
quiseram que fosse santa?
Meu coração peregrino de seu perdido tesouro
entre o sol e as desgarradas nuvens de infinitos céus
ainda hoje se arrasta entre a razão e o abismo
em pálido reflexo de ouro para ser criança na hora de partir.

 

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por Augusta Clara às 23:16

Terça-feira, 04.08.20

Concerto Nº. 21 de Mozart - Maria João Pires

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Maria João Pires   Concerto para piano Nº. 21 de Mozart

 

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por Augusta Clara às 00:33

Sábado, 29.02.20

In limine - Adão Cruz

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Adão Cruz  In limine

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(Adão Cruz)

 

Pelos caminhos de prantos e sorrisos
dentro de um tempo farto de horas sem minutos
a vida vai colhendo flores que murcham
por não serem simples flores ou flores simples
sem exigências de estufa ou jardim
flores de terra húmida
céu por cima e sol de permeio.
Em tudo o que me é vida
interfere a vergonha de ser adulto.
Descortino as janelas
que me disseram haver dentro dos homens
e só vejo muralhas.
Nada de crianças.
Os homens comeram as crianças
os homens comeram-se crianças
os homens pariram-se adultos.
Os pongídeos chegaram a homens.
Quinze milhões de anos
para o homem ser bicho…!
Bicho erecto
rastejo de púrpura.
Eu nasci na erva e dormi no feno
e acordei com a voz dos melros e rouxinóis
e saltitei com os pardais
vesti-me de sol e despi-me de luar
estreei o mundo no abraço das árvores e no beijo dos rios.
Meus olhos dormidos casavam a noite e o dia
no mesmo silêncio de sonho-menino.
A vida viveu em mim
crescendo todos os tamanhos
e medindo todos os céus.
Também eu fui criança
e matei em mim a criança que procuro
ao pensar que eram de amor
as mãos que a mataram.
Passei a vida a correr tropeçando nas sombras
arrumei ao canto da luz mil horas vazias
sangradas a curricular futuros
para ser gente na praça dos homens.
Pisei os passos pequeninos nos avessos da verdade
e palmilhei léguas vagarosas a tossir poeira.
Vestido de ausências
fui renascendo de amor pela vida fora
nos infinitos da fantasia
que outros foram matando lentamente
com fruído prazer.

 

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por Augusta Clara às 22:06

Segunda-feira, 03.02.20

RAFAL OLBINSKI (Polónia, 1943-)

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Iris

 

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por Augusta Clara às 03:17

Segunda-feira, 20.01.20

Mãos de hoje que foram de sempre - Adão Cruz

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Adão Cruz   Mãos de hoje que foram de sempre

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(Adão Cruz)

 

Na noite que já não é noite de madrugadas
perpassa em doce silêncio por entre os dedos dormentes
uma brisa dolente
esquecendo as mãos na paz adormecida.
Por entre os frágeis dedos da quietude e do silêncio
vagueia agora em suave melancolia
o magro regato da secura da vida
arrastando em seu leito rugoso
a triste canção de um tempo sem cor nem movimento.
O lento gesto do abrir destas mãos de tantos anos vividas cai agora em pesado silêncio por entre as malhas da sombra
no impiedoso vazio das mãos cheias de nada.
Foi-se embora a madrugada das manhãs perdidas
no tempo em que o sol sorria entre os sonhos
e as mãos cantavam a força da vida
com ondas do mar por entre os dedos frementes.
No penoso abrir e fechar de mãos
deste plangente gesto do fim do dia
feito canção de tão gélido silêncio
apenas a saudade se aninha em negro fundo
para morrer sozinha.


 

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por Augusta Clara às 22:24

Segunda-feira, 06.01.20

A tua mão - Adão Cruz

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Adão Cruz  A tua mão

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(Adão Cruz)

 

 

Como simples aves
damos as asas a caminho do sol
para fugir às lágrimas que a terra espreme.
A luz incendeia a vontade de fugir
mas a mão serena abre o coração à esperança
onde a angústia cresce
por entre músicas perdidas e restos de flores.
Eu continuo o caminho dos lábios que deixaram de suspirar
e dos olhos que pararam de girar
confundidos entre lágrimas e risos.
Eu sigo o longo caminho das sombras
onde as plantas não falam
nem as fontes nem os pássaros.
Mas a mão apertada
mesmo que incrédula
murmura baixinho
que os prados se estendem a nossos pés.
As brandas ondas do mar
deslizam suavemente sobre a areia
cobrindo de espuma o teu corpo sonâmbulo
que à noite desperta
por entre o labirinto dos meus sonhos.
E pelos claustros do vento impaciente
os cabelos de fogo vencem a idade
em que o coração treme sem casa para morar.
 

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por Augusta Clara às 01:06

Segunda-feira, 30.12.19

O gato e o presépio - Eva Cruz

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Eva Cruz  O gato e o presépio

 

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   Sempre, desde criança, eu via no presépio, para além da Sagrada Família, os três Reis Magos, alguns pastores, a vaca e o burro aquecendo a manjedoura com o seu bafo, e cá fora duas ou três ovelhinhas, pastando na erva húmida salpicada de neve, à beira de um pequeno regato.

Cada presépio foi-se adaptando aos tempos modernos, e agora há-os em vidro, em porcelana, em madeira, em tecido e até em prata ou ouro. Porém, para mim, não há presépio mais lindo do que o de terracota da minha infância. Todos os anos lá está ele, já meio gasto e desbotado, a alimentar a fantasia dos mais novos e a aquecer a saudade da canção verde e vermelha do pinheirinho de Natal.

Este ano, uma vizinha da aldeia, fez um presépio a rigor, com musgo arrancado ao muro da fonte, um regato a serpentear por entre pedras roladas trazidas do rio, bem como luzinhas e pequenos enfeites, frutos da modernidade. Claro que não faltaram a vaquinha, o burrinho e as ovelhas, nos mesmos lugares que a tradição, desde há séculos, se encarregou de lhes destinar.

Mas um gato?!

Sim, um gato amarelo e branco dos muitos que andam à solta pelo quintal decidiu alapar-se todas as noites no presépio, mesmo ao lado do burro, bem em frente ao Menino Jesus. E o mais curioso é que não muda de lugar, e ao acenar da noite, lá está ele todo enroladinho sempre na mesma posição.

Não faço a mínima ideia do que vai na cabeça do gato. Não sei se foi atraído pelas luzinhas, pelo aconchego, pela beleza do presépio, pela companhia, por achar que dele se esqueceram na tradição, ou se até cumpre alguma intuição religiosa.

Fiquei a pensar.

Nos tempos que correm, há pessoas que têm tanto apego aos animais que os tratam como gente. Há quem lhes dê beijinhos na boca, quem durma com eles, quem os vista com roupa de marca, quem lhes pinte as unhas e lhes faça madeixas no pêlo… eu sei lá!

Não admira, pois, que os gatos comecem a entender e a reivindicar alguma coisa sobre direitos dos animais, nomeadamente comer à mesa do dono, dormir na cama do dono ou mesmo fazer parte integrante de um presépio.

Gosto de animais, trato-os bem, mas animais são animais, não são seres humanos. No entanto, confesso que me encanta ver aquele gato a dormitar e a ronronar todas as noites ali ao lado do Deus Menino.

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por Augusta Clara às 22:17

Quarta-feira, 27.11.19

O nosso segredo - Adão Cruz

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Adão Cruz  O nosso segredo

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(Adão Cruz)

O mais belo segredo da minha vida
onde o horizonte foge contra o tempo
é só nosso e de mais ninguém.
Onde as sombras negras desaparecem
ele procura ver-me na janela dos teus olhos
e tenta falar-me no silêncio do desdém.

Mais além veste-se de negro
de alma enorme e de pão quente
do eco de tudo à volta do teu ninho
de purpúreos reflexos de sol poente
de vermelho sangue em coração de gente.

Não consigo ver-te assim ausente
sem calor no deserto que aqui mora
sem o dilúvio do desejo permanente
que enche os verdes rios do meu segredo
e adormece sempre nos alvores da aurora.

Tudo me encaminha para os teus braços
quando te sentas à porta da minha idade
nesta entrada de enganos e algemas.
Mas o segredo que encarna a vida
presa nas mãos livres e serenas
veste de beleza a mentira da verdade.

Quase me obriga a pedir ao vento
uma lufada de Primavera e sentimento
mas as palavras fazem ninho
no mais doce recanto do sofrimento
e adormecem de mansinho.

Vou embora…
são horas de saber se a vida vale a pena
no dobrar dos avessos e fantasias.
Junto ao rio que os sentidos fazem e desfazem
vou correr para o lado da nascente
sabendo que o rio me arrasta para o fim da tarde
na implacável força da corrente.

Ainda bem que esta margem é clara e amena
e do outro lado é tudo escuro quase negro
mas quando o fogo queima o pensamento
até o segredo azul de um pálido coração
escondido no ventre dos pinheiros
parece verde como o verde da ilusão.

 

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por Augusta Clara às 19:20



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