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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 17.02.20

Tu vens - Adão Cruz

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Adão Cruz  Tu vens

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(Adão Cruz)

 

Tu vens
eu acredito que vens
neste céu de cabelos soltos e seios ao vento
nesta fome de corpo e pensamento.
Tu vens
eu sei que vens
é hora de vires
nesta vespertina voragem de felicidade
neste céu da cor da angústia.
Tu vens construir a Primavera
em teu vestido branco de espuma
dominar meu indómito cabelo
com jogos simples dos teus dedos.
Eu quero acreditar que tu vens
pegar docemente nas minhas mãos cegas
e delas fazer uma flor de acácia
com que amacias os lábios
e abres o cofre dos teus seios de fogo.
Tu vens
eu sei
por isso sou feliz no meu silêncio

 

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por Augusta Clara às 16:18

Quinta-feira, 13.02.20

No coração da manhã - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  No coração da manhã

QA 2a.jpg

(Adão Cruz)

 

Abro a janela de par em par
para entrar o rio
e o cio do amanhecer.
O sol desnuda as telas
e as cores que fizeram a noite
mergulham no frio
das águas fundas do rio.
Pelos tectos de penumbra
das vidas que vivem na sombra
às escondidas da madrugada
voam pedaços de nevoeiro
e gaivotas bailando.
Sobem no ar gemidos e dores
Vapores, desejos e cores
das gargantas secas da noite acabada.
Retomo os pincéis
e a tortura das tintas sem cor
e a dor de não conceber a textura
onde pintei o amor.
Nada mais quero além do sol e do rio
e a fecunda sensação de não ter frio.

 

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por Augusta Clara às 17:00

Segunda-feira, 03.02.20

Daqui te escrevo - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Daqui te escrevo

daqui te escrevo1.jpg

 

(Adão Cruz)

 

Daqui te escrevo
onde o mar não existe
onde as mãos do silêncio
não tardam a entrar
no silêncio da tarde.
Daqui te escrevo
nesta tarde de silêncio
onde a memória da tarde
arde em silêncio
no mar das tuas mãos.
Daqui te escrevo
onde o deserto é imenso
e a sede do mar cresce em silêncio
no silêncio da tarde.
Daqui te escrevo
onde o mar não existe
e o deserto é imenso.
Daqui te escrevo
desta tarde sem fim
onde arde a cidade sem mar.
e o deserto sem cidade.
Daqui te escrevo
onde arde em silêncio
na tarde das tuas mãos
todo o silêncio da tarde.

 

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por Augusta Clara às 18:58

Sábado, 25.01.20

Na palma da mão - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Na palma da mão

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(Adão Cruz)

 

Na palma da mão tenho sonhos de liberdade e silêncio
para enfrentar a morte.
A música treme na palma da mão
como incerteza de futuro e paisagem.
Quem dera adivinhar a cor desta canção cinzenta
que se dissolve no ar que respiro.
Neste verão diferente do outro
eu quero vestir a primavera
sem medo dos tiranos e da moral burguesa.
Quero escolher as palavras do poema
que faz chorar os olhos azuis
e abrir o sonho à luz do meio-dia.
Quero renascer dos versos
que dentro de mim acendem as estrelas
e clamam por outros seres e outros mundos.
Quero seguir quem me chama para outros mares
onde o sol sempre nasce e ilumina.
Creio que a terra ainda é minha
e de espirais de estrelas o meu regresso.
O sol arde nas nuvens
e o mar verde leva-me para habitar contigo
onde quer que estejas.
Não sei aprender a morrer
fora das linhas desta mão incerta
onde as flores de verão deixaram raízes no inverno
que hão-de desabrochar na manhã de sol em que partirei.

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por Augusta Clara às 16:47

Segunda-feira, 20.01.20

Mãos de hoje que foram de sempre - Adão Cruz

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Adão Cruz   Mãos de hoje que foram de sempre

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(Adão Cruz)

 

Na noite que já não é noite de madrugadas
perpassa em doce silêncio por entre os dedos dormentes
uma brisa dolente
esquecendo as mãos na paz adormecida.
Por entre os frágeis dedos da quietude e do silêncio
vagueia agora em suave melancolia
o magro regato da secura da vida
arrastando em seu leito rugoso
a triste canção de um tempo sem cor nem movimento.
O lento gesto do abrir destas mãos de tantos anos vividas cai agora em pesado silêncio por entre as malhas da sombra
no impiedoso vazio das mãos cheias de nada.
Foi-se embora a madrugada das manhãs perdidas
no tempo em que o sol sorria entre os sonhos
e as mãos cantavam a força da vida
com ondas do mar por entre os dedos frementes.
No penoso abrir e fechar de mãos
deste plangente gesto do fim do dia
feito canção de tão gélido silêncio
apenas a saudade se aninha em negro fundo
para morrer sozinha.


 

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por Augusta Clara às 22:24

Segunda-feira, 06.01.20

A tua mão - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Adão Cruz  A tua mão

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(Adão Cruz)

 

 

Como simples aves
damos as asas a caminho do sol
para fugir às lágrimas que a terra espreme.
A luz incendeia a vontade de fugir
mas a mão serena abre o coração à esperança
onde a angústia cresce
por entre músicas perdidas e restos de flores.
Eu continuo o caminho dos lábios que deixaram de suspirar
e dos olhos que pararam de girar
confundidos entre lágrimas e risos.
Eu sigo o longo caminho das sombras
onde as plantas não falam
nem as fontes nem os pássaros.
Mas a mão apertada
mesmo que incrédula
murmura baixinho
que os prados se estendem a nossos pés.
As brandas ondas do mar
deslizam suavemente sobre a areia
cobrindo de espuma o teu corpo sonâmbulo
que à noite desperta
por entre o labirinto dos meus sonhos.
E pelos claustros do vento impaciente
os cabelos de fogo vencem a idade
em que o coração treme sem casa para morar.
 

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por Augusta Clara às 01:06

Sábado, 28.12.19

Poema do desgaste e do contraste - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Poema do desgaste e do contraste

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(Adão Cruz)

 

Há muito que não saía à rua
há muito que não saía fora de mim
em direcção ao meu corpo abandonado
estendido em fria paleta sem cor
sobre um manto de poemas carcomidos
ruídos de musgo e manchas de bolor.

Há muito que não saía à rua
há muito que não sentia a dor
do desprezo da poesia
feita espuma de coisas impalpáveis
escaldantes
abertas e sangrantes
no sofrido labirinto da alma vazia.

Há muito que não saía à rua
há muito que não me apercebia um só momento
do cantar bronco do poeta
em perpétuo e estúpido invento.

Há muito que não saía à rua
há muito que não dobrava a porta deste corpo
abandonado na escuridão de uma noite peregrina
de lacrimosas horas perdidas
em poemas de cinza em cada esquina.

Há muito que não saía à rua
e pisava o chão purulento do degredo
na lama fria dos poemas e do medo
que rompiam as cadeias do meu corpo.

Há muito que não saía à rua
há muito que se apagou a felicidade
mudando o cair da noite e o nascer do dia
em matéria grosseiramente física
de versos telúricos
sem poesia nem liberdade.

 

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por Augusta Clara às 17:31

Terça-feira, 24.12.19

Entre as mãos e o sonho - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Entre as mãos e o sonho

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(Adão Cruz)

Entre as mãos e o sonho
nascem as coisas
e as coisas são de pedra e água
dor e alegria
cor e sombra
realidade e fantasia.
E também são de poesia
as coisas que nascem
entre as mãos e o sonho.
A criação não precisa de donos
mas de sentimentos
de encontros e desencontros
no desenrolar de cada dia.
As coisas não nascem por destino
mas de acasos
nascem das horas sem tempo
dos dias vividos
entre o ontem e o amanhã
entre a realidade e absurdo
do hoje e agora.
A eterna beleza permanece
entre as mãos e o sonho
a sua luz incendeia a esperança
onde vive a angústia
e o que somos por dentro
desnuda a forma das coisas.
Entre as mãos e o sonho
um vale profundo
uma montanha mágica de silêncio
uma calma harmonia do mar
que nos fazem emigrar
para fora do mundo.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 23.12.19

O limoeiro - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  O limoeiro

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(fotografia de Adão Cruz)

   A florescência prometia muitos frutos mas não tantos como os que o limoeiro veio a carregar. Dizem que é aneiro, ano sim, ano não, produz mais limões ou menos limões. Logo a seguir à flor, a pequena árvore começou a mostrar muitos botões pequeninos que pareciam piorras de eucalipto. Foram crescendo ao ritmo da natureza e deram tantos, tantos frutos que pareciam mais do que as folhas. A pobre da árvore acabou por derrear e alguns ramos esgaçaram e ficaram pousados no chão, alimentados apenas por uma pequena tira de casca. Logo a sabedoria popular escorou o limoeiro com cinturas de arame sobre bocados de borracha, a fim de impedir que o ferro se enterrasse no seu corpo. Mesmo assim, era o ver dos olhos, e nas rancas pousadas no chão lá iam amarelecendo os limões, inclinados para o sol que lhes dava de nascente.

Nestes últimos dias, a natureza revoltada fustigou a terra com chuva e ventos fortes, a que deram nomes de mulher e homem, talvez para tentar pôr culpas em alguém. Rajadas mais violentas levaram pelos ares a cobertura de um casebre, antes feita de linda e velha telha, posteriormente substituída por folha de zinco. Por acasos que ninguém entende, levou o pobre do limoeiro com a folha de zinco em cima, a qual abateu limoeiro e limões.

Um fenómeno como qualquer outro, nada de tragédias, mas que me impressionou pelo facto de nunca antes ter visto aquele limoeiro assim tão carregadinho de frutos. Até mereceu uma fotografia pela sua imponência.

A chapa de zinco foi retirada, deixando a descoberto os destroços da árvore com seus frutos. Completamente derreado e depenado, ficou o limoeiro apenas com o tronco e dois bracitos com alguns limões ao dependuro. Espero que mesmo assim resista, e, apesar de aneiro, dê para o ano alguns limões, ainda que poucos.

Se não resistir, assim se despede, como tudo na vida, daquele cantinho de terra onde há tantos anos estava enraizado. Aconteça o que acontecer, esta será sempre para mim a apoteose e o apogeu do meu velho limoeiro.

 

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por Augusta Clara às 17:02

Quarta-feira, 18.12.19

Vinho verde - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Vinho verde

98a.png

 

(Adão Cruz)

 

O vinho verde, já o disse muitas vezes, foi o meu segundo leite.
Lembro-me muito bem daquelas cheirosas pipas da adega, com torneiras de madeira que chiavam ao verterem nos copos o denso e espumoso verde tinto.
Ainda criança, que bem me sabiam as sopas de cavalo cansado, uma malga de vinho verde tinto com pão de trigo ou boroa migada com açúcar!
Levantavam a alma de um morto, dizia-se.
Hoje acordei às oito e quarenta e cinco, Patxi Andión estava vivo.
Dez minutos depois, às oito e cinquenta e cinco, morreu num acidente de viação em Sória.
Pouco tempo depois, telefonou-me um amigo, e ambos nos queixámos, mutuamente, das nossas próstatas.
A próstata é uma pequena noz que, fisiologicamente, quando se é jovem, tem o papel fundamental de criar o líquido onde os espermatozóides nadam até ao óvulo.
Quando se é velho não serve para nada.
Só serve para chatear.
Para além de outras perrices desagradáveis, obriga-nos a mijar quando não queremos e não nos deixa mijar quando queremos.
Eu e o meu amigo, como medida analgésica e anestesiante, combinámos ir comer aquele leitãozinho que muito apreciamos, logo que possível.
Ainda bem que a próstata, ou “crosta”, como dizia um paciente meu, não se queixa muito com estas escapadelas, por vezes mais eficazes do que silodosinas e finasterides.
Entretanto, como hoje é dia de cozido à portuguesa, acompanhado de verde tinto, eu não posso resistir.Ao meu lado, num daqueles restaurantes dos velhinhos a que por vezes me tenho referido, um a mesa de seis, qual deles o mais serôdio.
Antes de pedirem o cozido, os aperitivos resumiram-se a uma conversa pegada sobre análises, ressonâncias magnéticas e TACs, tudo isto afogado de imediato com a chegada de duas bojudas canecas de tinto.
Dizia um que, no cozido, não havia nada que chegasse à orelheira.
Para outro era o focinho.
Um terceiro afirmava que nada superava a couvinha e a cenoura.
O verde tinto, o segundo leite da minha infância, continuava a fazer milagres, mesmo nesta idade.
Já não para o Patxie Andión, infelizmente, mas para aqueles que, como nós, ainda não chegaram às oito e cinquenta e cinco.
Se isto não é poema, o que é a poesia?

 

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por Augusta Clara às 17:01



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