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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 11.12.19

Sobre a mesa branca da Europa - Adão Cruz

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Adão Cruz  Sobre a mesa branca da Europa

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(Adão Cruz)

 

Sobre a mesa branca da Europa
um copo de vinho à saúde
e o mar imenso
e o silêncio profundo
onde morrem sem eco todos os gritos do mundo.
Sobre a mesa branca da Europa
e uma toalha vermelha de sangue
vermelho como o mar
onde milhares morrem em vão
afogados em milhões de olhos
desta patética civilização.
Sobre a mesa branca da Europa
um copo de vinho à saúde
dando ares de que respiramos
e cada vez mais nos afogamos
no profundo mar da podridão.
Na mesa branca da Europa
um copo de vinho à saúde
da vida abusivamente longa
ou estupidamente curta
que não depende da liberdade
nem do sol nem da justiça
mas do verso mais perverso da crueldade.
Sobre a mesa branca da Europa
um copo de vinho à saúde
deste mundo infame de criminosos
que fazem da morte o ideal sistema.
Sobre a mesa branca da Europa
Um copo de vinho à saúde
da vida derretida à flor da pele
que nada mais permite às palavras
do que o profundo vazio de um poema.
um copo de vinho à saúde
do incerto amanhã da humanidade
como verso perdido
de um poema que bateu no fundo.

 

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por Augusta Clara às 18:21

Segunda-feira, 09.12.19

Os meus sonhos - Adão Cruz

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Adão Cruz  Os meus sonhos

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(Adão Cruz)

 

Repousa na almofada a minha cabeça cansada
de tanto amar os peixes verdes dos poemas
que há nos olhos dos meus sonhos.
Repousa na almofada a minha cabeça cansada
da luz dos corais incendiados
nos olhos verdes dos meus sonhos.
Repousa na almofada a minha cabeça cansada
do verde brilho do mar
que há nos olhos incendiados dos meus sonhos.
Repousa na almofada a minha cabeça cansada
do inquieto desalinho que a lua tece
entre as algas e os sedentos olhos dos meus sonhos.
O amor não tem limites
na utopia dos gestos simples
e das cores dos olhos d’água dos meus sonhos
mas eles acordam na última estrela da madrugada
que se esfuma com o erguer do sol.
E a beleza perde-se
entre o botão da primeira folha verde
e a saudade dos meus sonhos.
E a cabeça cansada de acordar repousa na areia
entre os lábios secos de uma noite de amor.

 

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por Augusta Clara às 11:44

Quarta-feira, 27.11.19

O nosso segredo - Adão Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Adão Cruz  O nosso segredo

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(Adão Cruz)

O mais belo segredo da minha vida
onde o horizonte foge contra o tempo
é só nosso e de mais ninguém.
Onde as sombras negras desaparecem
ele procura ver-me na janela dos teus olhos
e tenta falar-me no silêncio do desdém.

Mais além veste-se de negro
de alma enorme e de pão quente
do eco de tudo à volta do teu ninho
de purpúreos reflexos de sol poente
de vermelho sangue em coração de gente.

Não consigo ver-te assim ausente
sem calor no deserto que aqui mora
sem o dilúvio do desejo permanente
que enche os verdes rios do meu segredo
e adormece sempre nos alvores da aurora.

Tudo me encaminha para os teus braços
quando te sentas à porta da minha idade
nesta entrada de enganos e algemas.
Mas o segredo que encarna a vida
presa nas mãos livres e serenas
veste de beleza a mentira da verdade.

Quase me obriga a pedir ao vento
uma lufada de Primavera e sentimento
mas as palavras fazem ninho
no mais doce recanto do sofrimento
e adormecem de mansinho.

Vou embora…
são horas de saber se a vida vale a pena
no dobrar dos avessos e fantasias.
Junto ao rio que os sentidos fazem e desfazem
vou correr para o lado da nascente
sabendo que o rio me arrasta para o fim da tarde
na implacável força da corrente.

Ainda bem que esta margem é clara e amena
e do outro lado é tudo escuro quase negro
mas quando o fogo queima o pensamento
até o segredo azul de um pálido coração
escondido no ventre dos pinheiros
parece verde como o verde da ilusão.

 

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por Augusta Clara às 19:20

Sábado, 23.11.19

Monte das oliveiras - Adão Cruz

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Adão Cruz  Monte das oliveiras

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(Adão Cruz)

 

Não sei o que entra em mim
no cálido fim desta tarde alentejana.
Não sei ao certo o que me diz
o silêncio aberto destes campos sem fim
nem sei se procuro o lugar seguro
para abrir o pensamento.
Há qualquer coisa para lá do horizonte
entre a angústia e a Esperança
estranha esperança de futuro
no silêncio aberto destes campos sem fim.
Qualquer coisa que arde no cair da tarde
entre a magia da vida
e a dor contida no monte das oliveiras.
Para lá do horizonteno fim de La Codozera
não havia ninguém à minha espera
no cálido fim desta tarde alentejana.
Nesta tarde alentejana
feita de silêncio aberto
e de campos sem fim
parei o carro na berma da estrada
que vinha do nada de onde parti
à procura da cidade
com as ruas que há dentro de mim.
Há anos que não me adormecia um sono tão profundo
nem o sol trigueiro me dourava a figura
quase azul
pintando um sonho perdido no fim do mundo.

 

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por Augusta Clara às 19:12

Segunda-feira, 18.11.19

Se eu fosse um avião - Adão Cruz

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Adão Cruz  Se eu fosse um avião

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(Adão Cruz)

Se eu fosse um avião
tinha um motor em cada mão
e voava…
Não sei para onde
mas voava para fora deste mundo…
Não há nada como um cabritinho assado
à beira da pista
com dois copos de tinto ali à mão
a força que levanta do solo
a alma de qualquer artista.
Ah! Ah! Ah!
Aquele avião amarelo
do lado de lá
mesmo á vista de quem está
do lado de cá…
Ai se eu fosse um avião
com um copo em cada mão
não esperava por malinhas de rodas
e voava…
não sei para onde
mas voava…
para fora da ilusão.

 

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por Augusta Clara às 17:05

Sexta-feira, 15.11.19

Minha Mãe Terra - Adão Cruz

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Adão Cruz  Minha Mãe Terra

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(Adão Cruz)

 

Agora sei que minha mãe terra
é esta terra de barro e planície
este chão de sol vermelho
e pedras de silêncio sem história.
Sei agora que minha mãe terra
dorme nas tímidas cores do horizonte
no interminável mundo de paletas impossíveis.
Agora sei que minha mãe terra
é o irrevogável rosto do passado
entre braços vazios e vozes que não se ouvem.
Sei agora que minha mãe terra
vive no eco das palavras ditas
ao longo de ruas sem qualquer sentido.
Agora sei que minha mãe terra
é o fim desta terra interminável
das palavras que ninguém ouve
e das cores que ninguém vê.
Sei agora que minha mãe terra
não é o calor do caminho da manhã
mas o frio das horas magoadas
nos dias que nascem sem nome.
Agora sei que minha mãe terra
é o lugar entre o sonho e a miragem
recriado no tormento deste barro
moldado sem memória.
Sei agora que minha mãe terra
é segunda infância sem futuro
esta inocência singular
de uma pintura sempre inacabada.
Agora sei que minha mãe terra
é o amor perdido no granito
incendiado pelo fulgor do sol poente.
Sei agora que minha mãe terra
é o chão desta planície muda
adormecida nos frágeis sonhos da madrugada.
Agora sei que minha mãe terra
é a saudade de tudo o que era… e não é nada.

 

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por Augusta Clara às 18:21

Domingo, 10.11.19

A Maria - Adão Cruz

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Adão Cruz  A Maria

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(Adão Cruz)

Os olhos vindos do outro lado do mundo, fundos de ausência,
casavam o branco e o negro para dizerem o que a boca não
conseguia.
O nariz afilava de um só traço o rosto magro, e os cabelos
errantes fugiam da testa cada pedaço para seu lado.
A pele transluzia uma imagem por detrás dos vidros, imagem
baça do avesso da vida.
Uma dor subtil desenhava os lábios maduros, finamente
trémulos, como se estivessem prestes a chorar.
Nunca alguma lágrima por eles correu ou voou algum beijo,
apenas o cigarro acendia e consumia a sua virgindade.
A Maria olhava-me sempre fixamente, olhos cravados nos
meus, como que a dizer: tu entendes-me tu és capaz de me
compreender.
Ela percebia o sim do meu silêncio por baixo dos olhos
vencidos.
Conheci duas mulheres iguais à Maria, fotocópias da Maria,
ambas se chamavam Maria, uma brasileira e outra francesa,
uma pisava o teatro outra o anfiteatro.
Inquilina de soleiras e vãos, a Maria pisava a grande cidade
da noite.
As mulheres da fama e da ciência derivavam a vida por
entre a lanugem dos cardos e a tangência do sentimento, a
mulher da vida era vertical e secante como folha de piteira.
A Maria mijona não tinha idade nem tempo, nem antes nem
depois, era apenas instante.
Nunca se sentara na mesa do canto fugindo de si mesma,
escolhia sempre a mesa central, desafiando os olhares e
vidrando o espaço em seu redor.
Comia a sopa, o prato de sempre, como quem tocava violino.
Apesar da mão trémula, nem um pingo deixava cair no
desbotado regaço, sumido de cores pelo uso e abuso.
Se moedas cresciam da sopa, não dispensava o brande, sua
única bebida.
Por detrás do corpo sujo de Maria mordiscava uma beleza
intrigante, tivesse ela banheira e emergiria da espuma como
sereia das águas.
Penso que nunca vi a Maria fora deste retrato, para cá da
sombra.
Por outro lado, tenho a certeza de que já dormi com ela...ou
terá sido um sonho?
A Maria nunca mais apareceu.
A última vez que a vi não tinha olhos nem boca nem cigarro,
não tinha sopa nem brande, apenas falta de ar. Engolira
o violino, e a música era uma dispneia sibilante, cântico
fúnebre gemido pelas entranhas.
Toquei-lhe no ombro e ela percebeu que eu queria levá-la.
Levantou a ponta de um sorriso e esboçou um gesto negativo
com a mão.
Afastei-me, com a sensação de que tinha profanado um
sacrário.
A Maria nunca mais apareceu.

 

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por Augusta Clara às 19:54

Quarta-feira, 06.11.19

Ao redor do vento - Adão Cruz

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Adão Cruz  Ao redor do vento

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(Adão Cruz)

 

Não me encontraste
mas eu sei que vieste ao meu encontro
porque pedalavas suavemente ao longo do rio
tão levemente
que os teus olhos mo diziam
e nem as gaivotas fugiam.
Outrora o sol nascia pachorrento
a esta hora em que me davas um beijo de alento
e eu corria rio fora em direcção ao vento.
Os veleiros rodavam em círculo
inchando as velas brancas e amarelas
e também azuis como o poema.
Eu sei que vieste ao meu encontro
mas não me viste
porque o sol de hoje nasce de forma alheia
e os veleiros já não dançam
porque deles é o vento e de ti também.
Eu sei que vieste ao meu encontro
e tudo em redor mo leva a crer
mas os teus olhos perderam-me
porque são de vento as horas de me ver.

 

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por Augusta Clara às 16:37

Segunda-feira, 04.11.19

Quando levas um seio ao vento - Adão Cruz

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Adão Cruz  Quando levas um seio ao vento

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(Adão Cruz)

 

Quando levas um seio ao vento
e me dás a beber campos e cidades
glorifico a pouca luz que ainda me resta.
Se os lobos se atravessam no caminho para a tua cabana
o vento ergue-me nos ares
e o coração aprende a não ter medo de cair.
Descobridor de sonhos
de amanhãs que riem e de estuários...
continuo a pintar o vento ainda que nele te vás.

 

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por Augusta Clara às 15:28

Quarta-feira, 30.10.19

Canções antigas - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Canções antigas

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(Adão Cruz)

 

Na recordação das canções antigas
veste-se meu coração das verdes folhas do desejo
e entoa na fragrância dos campos
a melodia dos olhos pendurados na profundidade do céu.
Na sombra da figueira diz-me adeus o sol
em acenos de azul e violeta
por entre os ramos e os sons
de uma flauta de lábios doces
que por ali poisou entre sonhos infinitos do lusco-fusco.
As primeiras chuvas do verão
humedecem como lágrimas
as palavras ditas e não ditas
no silêncio dos caminhos perfumados de terra e folhas molhadas.
E nada se reconhece na lembrança muda das tardes
que para sempre morreram
mas os passos ecoam em silêncio por entre os pés das oliveiras
onde outrora floriram mil risos de criança.
Que fez de mim este crepúsculo azul
como flecha espetada no vento
ferindo de morte toda a vida de meu sonho-menino?
Onde está a pedra que se fez montanha
o regato que se fez rio
a tripla chama da vida
luz e verdade
que se apagou na alma nua
quando sagradas selvas e misteriosas crenças de punhal à cinta
quiseram que fosse santa?
Meu coração peregrino de seu perdido tesouro
entre o sol e as desgarradas nuvens de infinitos céus
ainda hoje se arrasta entre a razão e o abismo
em pálido reflexo de ouro
para ser criança na hora de partir.

 

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por Augusta Clara às 17:12



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