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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 03.07.20

Serra Mágica - Eva Cruz

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Eva Cruz  Serra Mágica

   A Serra da Gralheira é uma catedral de pedra e xisto, estendendo-se ao longo dos céus por entre quatro contrafortes, a Serra da Freita, a Serra da Arada, a Serra do Arestal e a Serra de S. Macário. Cordilheira de côncavos e convexos, berço e leito de rios e riachos, tecida de uma rara e abundante fauna e flora, rasgada pela rudeza das lajes e das fragas, vestida pelas mil cores das plantas rasteiras, urze, giesta e carqueja ou pelo manto luxuriante de soutos, carvalhos, pinheiros, medronheiros, azevinhos, em matas cerradas onde quase não entra o sol.

Aninhadas nas dobras dos montes ou nas íngremes encostas, cresceram desde remotos tempos pequenas aldeias ou povoados, junto a ribeiros mansos, ora rebeldes e tumultuosos, que se enroscam e furam por entre pedregulhos e fragas, à procura de irmãos mais velhos que os hão-de levar ao mar. Merujal, Albergaria da Serra, Mizarela, Manhouce, Cabreiros, Bouceguedim, Rio de Frades, Covêlo de Paivô, Regoufe, Drave, Aldeia da Pena, Covas do Monte, Coelheira, Candal são algumas entre as muitas que por lá vivem, algumas recuperadas, bem tratadas e com belos recantos de sossego e lazer.

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Foi Rio de Frades que levou estes quatro amigos a tão longínquas paragens, guiados pelas mãos hábeis do nosso amigo condutor do jeep, subindo e descendo por rendilhados fios de estreitíssimas estradas, profundos vales e altas montanhas, ajudado de mapas e GPS, o qual, no meio de tal labirinto, muitas vezes perdeu o tino, e já baralhado, se reduziu ao silêncio, provavelmente a pensar onde se meteu e a descobrir como sair dali.

Rio de Frades foi um importante Couto Mineiro, no tempo das duas Grandes Guerras Mundiais, essencialmente explorado por alemães. Para ali se deslocaram mineiros, capatazes, exploradores, por caminhos de cabra, a pé, a cavalo ou de carro de bois. Não havia electricidade. Geradores forneciam a energia necessária às minas e à povoação. Munidos de brocas e martelos esventravam as montanhas, cavando galerias e furando túneis, para arrancar às suas entranhas o tesouro branco de quartzo, encastoado de volfrâmio, o minério ou ouro negro como lhe chamavam, usado na têmpera e blindagem de armamentos como canhões e endurecimento de munições. Um quilo de volfrâmio chegava a valer mil escudos, uma verdadeira fortuna para aquele tempo. Muitos lá morreram e por lá sepultaram os seus sonhos. Meu avô materno foi um deles. Era capataz, juntamente com um alemão, e ali perdeu a vida com toda a sua família, incluindo os seus dois filhos mais velhos, ele com dezanove anos e ela com dezassete, vítimas da pneumónica. Salvou-se a menina mais nova, com dez anos, nossa mãe. Ali morreu também o alemão e a família. O nosso avô e o alemão tiveram direito a sepultura. Todos os outros foram enterrados na vala comum. Ainda hoje lá se encontram as casas quase arruinadas onde viveram o meu avô e o alemão.

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Regoufe, não muito longe dali, a cerca de cinco quilómetros, foi outro Couto Mineiro. A Companhia Portuguesa de Minas explorava juntamente com os ingleses os filões do minério. Curiosamente, os alemães e ingleses entendiam-se bem no campo da exploração do volfrâmio, apesar de inimigos. Hoje, Regoufe é uma cidade fantasma feita de esqueletos de casas, lavarias, tanques e túneis. Mais tarde, com a segunda Grande Guerra, foi aberta uma estrada de macadame pelos alemães e levada a electricidade às minas. A iluminação era tal que Rio de Frades e Regoufe pareciam cidades. Enquanto em Rio de Frades as casas já estão muito adulteradas, em Regoufe tudo está mais preservado, conservando a sua autenticidade. Por lá se mantêm ainda de pé muitos esqueletos do passado, quase intactos.

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“À la recherche du temps perdu”, quase tivemos a sensação de recuperar aquele espaço fantasma e encontrar o tempo perdido daquelas ruínas, nos meandros da memória, da lembrança, da reflexão e dos trilhos da arte. Sentir a Arte é também encher a alma de saudade e os olhos de beleza, a beleza daquela Serra Mágica.

Terminámos a viagem, entremeada por um excelente farnel saboreado nas margens cristalinas do Rio Paivô, oferecido pelo casal nosso amigo, assim entoando de novo o hino à amizade de muitos anos.

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por Augusta Clara às 15:03

Domingo, 21.06.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 13:09

Sábado, 20.06.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 16:04

Sexta-feira, 12.06.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 22:13

Sexta-feira, 22.05.20

Senhora do Desterro - Eva Cruz

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Eva Cruz  Senhora do Desterro

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(Foto de Adão Cruz)

 

   O cansaço invadiu os dias rotineiros que vivemos. Parece que depois do confinamento obrigatório, se perdeu a vontade de sair à rua. O tempo quase sempre chuvoso e cinzento também não convida a pôr os pés fora de casa. Dá ideia que o hábito ao isolamento nos cortou a vontade de manter os laços sociais. Se saímos, ninguém nos conhece e quase não conhecemos ninguém atrás da máscara. Afastamo-nos o mais possível uns dos outros, atravessamos para o outro lado da rua se alguém tosse ou espirra, andamos assustados, temerosos, desconfiados. Passamos os dias colados ao computador ou à televisão esperando números e resultados para matutar sobre a quantidade de mortos e infectados graves.

De vez em quando lá me meto no carro e vou até à aldeia, respirar o ar puro, o cheiro a verde, ouvir os pássaros, ver o nascer e o crescimento de algumas “novidades” há pouco plantadas, e que os pombos-rolos não param de depenicar. Pequenos e grandes prazeres para quem desde criança “se vestiu de sol e despiu de luar.” Oiço as pessoas do campo e outras que por lá encontro e todas ditam sentenças sobre o vírus que nos assusta. Para uns, isto já estava nas Escrituras, para outros, é a Eutanásia que todos desejavam “- queriam a Tanásia, ela aí está”. Há quem acredite que é um castigo de Deus, que eu, em vão, tento contestar. Outros acham que a ciência não sabe nada e que nada resolve. Quando lhes digo que acredito na ciência e só ela nos pode resolver os problemas, por mais argumentos que use, não os convenço. Para eles, só a Senhora do Desterro nos pode valer. Só ela pode desterrar este mal para “monte maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira.” E com isto me calo.

Quando era menina fui muitas vezes à romaria da Senhora do Desterro, uma capelinha no cimo da serra, com meia dúzia de casitas de pedra solta aninhadas ali à volta. O farnel era para mim o ponto alto da festa. Lembro-me de lá ter deixado, a mando de minha mãe, um porquinho de cera para pagar o milagre de ter salvado um porco da peste, uma vez que, nesse tempo, perder um porco era grande prejuízo para a economia familiar. Era de tal modo importante a ceva que me recordo de ouvir contar que uma devota prometera dar os brincos pela salvação de dois porcos. Como só um foi garantidamente salvo, deu apenas um brinco, esperando que o outro sobrevivesse para entregar o par que restava. Antes prevenir que remediar.

Crenças de outros tempos, mas que ainda hoje permanecem. O desânimo e a pouca esperança são de tal ordem que, pelo sim e pelo não, até aconselhei, que, movidos de tal crença, levassem à Senhora do Desterro, não um porquinho, como eu fiz quando era menina, mas uma velhinha de cera, para ver se a Senhora desterra para sempre este vírus que tanto “gosta” de pessoas idosas. Tal como Santa Bárbara com a trovoada, empurrando-a para” lugar maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira ou bafinho de menino”.

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por Augusta Clara às 14:47

Sexta-feira, 22.05.20

Mãe - Adão Cruz

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Adão Cruz  Mãe

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(Adão Cruz)

 

Mãe
a palavra universal
a palavra mais consensual da humanidade.
Nem Deus…
Deus é de uns e não de outros
Deus é conceito de muitos
e negação de outros tantos.
A mãe é de todos sem excepção
a mãe é de todos e é só nossa
a mãe é do crente e do ateu
a mãe é do pobre e do rico
do sábio e do ignorante.
A mãe é dos poetas
dos filósofos e artistas
dos bons e dos maus
a mãe é do amigo e do inimigo.
Não há mãe de uns e não de outros
não há ninguém sem mãe
e não há mãe de ninguém.
A mãe é de toda a gente
a mãe é de cada um
a mãe é do mundo inteiro
e do nosso mais pequeno recanto.
A mãe é do longe e do perto
da água e do fogo
do sangue e das lágrimas
da alegria e da tristeza
da doçura e da amargura
da força e da fraqueza.
A mãe é certeza e aventura
medo e firmeza
dúvida e crença
a haste que se ergue no céu
ou se aninha rente ao chão
para que a morte a não vença.
A mãe é a outra parte de nós
sem mãe somos metade
sem mãe nada é exacto
igual a um
igual a infinito
onde se tocam princípio e fim
onde os tempos se encontram
sem presente passado e futuro.
A mãe é a lágrima que não seca
no sorriso que não se apaga
a nuvem que chove no sol que aquece
a mensagem da luz e da harmonia
e dos acordes matinais
com que abre o nosso dia.
A mãe levanta-se nas lágrimas da noite
e mesmo cansada
não perde a voz nem a cor da madrugada.
A mãe é a voz que se não teme
a voz que se confia
a voz que tudo diz
nas consoantes do grito
nas vogais do silêncio
nos abismos da agonia.
Mãe
primeira palavra a nascer
a última palavra a morrer.
A mãe é sempre a mesma
a mãe nunca é outra
na sua infinita diferença.
A mãe é criação
a mãe é sempre o fim
da obra-prima inacabada
a mãe nunca é ensaio
nem esboço nem projecto.
A mãe é um milagre
no milagre do mundo
o único milagre concebido
real e concreto.
Chora para que outros riam
ri para que a dor a não mate
mistura-se com a luz das estrelas
para vencer a escuridão
devora as nuvens por um raio de sol.
A mãe é beleza e poesia
aurora fulgurante
aurora adormecida
a mãe é bela porque é simples
porque nasce da silenciosa lógica da vida.
A mãe é fragilidade da semente
a força do tronco
a beleza da flor
a doçura do fruto
o dom de renascer.
A mãe é tudo numa só coisa
AMOR.

 

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por Augusta Clara às 13:34

Terça-feira, 19.05.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 17:58

Terça-feira, 19.05.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 17:47

Sexta-feira, 01.05.20

Adão Cruz, 2020

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por Augusta Clara às 18:57

Quarta-feira, 29.04.20

Já não entendo este mundo - Adão Cruz

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Adão Cruz  Já não entendo este mundo

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(MANEL CRUZ)

 

Não entendo este mundo moribundo
este mundo escuro
nascido sem sol e sem luar
já não entendo esta onda de sismos e cifrões
esta dor de milhões de cabeças rolando como esferas
para o fundo dos abismos.
Não entendo este mundo dilacerado e sem vida
já não aguento este frio de quatro paredes
este jogo no vazio cemitério da história
este profundo alarido
este diabólico mistério de morte concebido
esta vida sem sentido a que chama mercado
e “democracia”
a argentária escória.
Não entendo este mundo de olhos vendados
com barras de ferro
este silêncio absorto e abstracto
no assalto impune a soberanas nações
este mundo de vidas e almas sem direitos nem justiça
este mar de sangue escorrendo
pelas garras dos algozes
este rasgar de corações
este martírio dolorosamente tatuado na pele dos inocentes
por tanques e aviões
este mundo ameaçado por mísseis e canhões.
já não entendo tantas metástases
deste cancro da guerra
este perigo sistémico diariamente arquitectado
esta inelutável evolução para a desordem suprema.
Já não sou capaz de aguentar
o peso do crime chamado superlucro
brilhando como a luz do inferno na ponta dos punhais.
Não entendo este mundo
escorraçado para as bermas da fome
por esta infame corrida para um podium inglório
por entre as malhas da ganância enlouquecida
neste imparável caminho do caos e da fatalidade
na ensanguentada bandeira erguida para o nada
no constante apunhalar da liberdade.
Já não entendo este mundo apodrecido
na secura do grande rio da esperança.
Já não acredito no sonho do poeta
quando subiu a colina
para admirar o céu povoado de estrelas.

 

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por Augusta Clara às 22:16



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