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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 11.10.19

O prémio "em obséquio ( ex aequo)" - Eva Cruz

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Eva Cruz  O prémio em obséquio ( ex aequo)

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(Adão Cruz)

   O tempo estava abafado e o ar sufocava. O céu toldado ameaçava trovoada. Gaivotas, coisa ali nunca vista, soltavam pios estranhos e roucos. O posto médico estava cheio, cheio de gente e de doença. A doença por si só é deprimente, mas a granel sufoca ainda mais do que o ar abafado. Todos se queixavam disto ou daquilo e também do tempo destemperado e do tempo de espera pela vez tardia. O mau humor era visível nos rostos e nos modos. Apenas as empregadas de atendimento mostravam alguma simpatia natural ou humanamente forçada. É preciso salvar o posto de trabalho, e nestas situações o que há mais é gente a reclamar. O vigor com que se defendem os direitos, perante alguém que pouco tem a ver com o sistema, é bem diferente da covardia manifesta perante a luta que se impõe, quando esta é a sério. As conversas encadeavam-se como as cerejas, e entre as banalidades normais de uma sala de espera, um homem de meia-idade tinha como interlocutora uma mulher que aparentava ser um pouco mais velha. Dizia-lhe ele que tinha uma nora muito prendada, técnica de maquillage. Maquilhava tudo, gente do jet-set e noivas. Era tão boa na matéria que até ganhou um prémio juntamente com outra, em obséquioUm kit de maquillage.

Observei todos os companheiros de espera.

Sempre amei a beleza, mesmo quando ela se esconde por detrás dos conceitos. Por ali tudo era feio, os rostos e os corpos. No ar, um cheiro a pobreza e a doença. Predominava o cinzento. Algumas manchas de cor em T-shirts garridas, provável presente de algum parente emigrado que veio de férias. À toi pour toujours, escrito no meio de muitas flores, New York forever e a  Estátua da Liberdade em fundo.

A voz do altifalante soou e fez erguer um idoso trémulo, apoiado numa canadiana, sem ninguém para o ajudar. Seguiu com dificuldade pelo corredor fora, deixando ver nas costas da sua T-shirt preta, a palavra Fuck. Tudo levava a crer que não fazia a menor ideia do que significava.

Sorri.

Naquela palavra feia encontrei a real beleza do preto e branco de uma sombria sala de espera.

 

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por Augusta Clara às 12:58

Terça-feira, 01.10.19

Uma andorinha do Árctico - Adão Cruz

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Adão Cruz  Uma andorinha do Árctico

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(Adão Cruz)

 

Abri as janelas do meu peito

a uma andorinha do Árctico

trazia um sonho no bico

sonho que eu perdi não sei onde nem quando

não sei se na vida errando

não sei se dentro de ti.

Vinda das auroras de frescura

trazia em cada asa um poema

e um abraço de ternura

no cortante gume de um dilema.

Abri o peito a uma andorinha do Árctico

e com abraços quentes como tâmaras

fundimos nosso enlace num poema.

 

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por Augusta Clara às 13:06

Quinta-feira, 26.09.19

Fechou-se a janela - Eva Cruz

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Eva Cruz  Fechou-se a janela

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(Adão Cruz)

 

 

   Ia fazer noventa e três anos. Foi ao cimo da calçada que a casita empoleirada lá no alto sobre a adega deixou sair, pela janela sempre aberta, para a noite escura, os primeiros gritos de dor e de socorro. Nada havia a fazer. A morte bateu-lhe finalmente à porta. Não se esqueceu dela como tantas vezes me confessou.

Era uma das resistentes da aldeia cada vez mais despovoada, uma daquelas a quem retribuía o meu afecto, repartindo umas coisitas doces pela Páscoa e pelo Natal, aquela que nas noites quentes de Verão ou na noites claras de Inverno lá estava à janela a contemplar o fim do dia, a lua e as estrelas até que a madrugada rompesse o ventre da noite.

Sempre amarrada à terra e à vida, apesar de esta nunca lhe ter sorrido, não era mulher de gastos, vivia com pouco e tinha raiva a quem esbanjava. Sempre austera consigo própria e com os outros, evitava não só o supérfluo mas também o necessário. De sensibilidade sacudida criava facilmente atritos com quem no dia-a-dia convivia. Comigo sempre se dera bem, apesar de eu ser para ela “uma pessoa ilustrada.”

Gostava de flores e em vida presenteou-me com algumas do seu quintal, mas sempre achou que flores num funeral eram um desperdício de dinheiro. Mesmo assim, enviei-lhe por alguém uma flor, alguém em quem ela mandava como se algum direito lhe assistisse. Limitei-me, sem ninguém ver, a fazer-lhe uma festa no rosto no edital colado junto às alminhas no portão de zinco gasto e desengonçado. Foram essas as exéquias que lhe prestei, singelas, sinceras, só entre mim e ela.

À noite quando subi a calçada, estava fechada a janela que eu vira sempre aberta, com as portadas de dentro trancadas. Recordei “o azevinho” que me ofereceu e que deu bolinhas vermelhas no Natal. Só que para a “Micas” não haverá mais Natal e a janela fechou-se para sempre às estrelas e ao luar.

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por Augusta Clara às 20:08

Segunda-feira, 19.08.19

Adão Cruz, Agosto 2019

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Adão Cruz

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por Augusta Clara às 16:51

Sexta-feira, 07.06.19

Adão Cruz - O Médico Pintor, Carlos Gomes

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Textos e fotografias do Blogue do Minho, 6 de Junho de 2019

Exposição na Ordem dos Médicos de Viana

É uma realidade bem evidente, os médicos, normalmente, têm uma acentuada tendência para a escrita, para as artes e para a cultura em geral: Abel Salazar, Miguel Torga, e Fernando Namora, no seu tempo, eram médicos e foram grandes escritores, tal como hoje o é Lobo Antunes, que também já exerceu a medicina. Nas artes, entre vários, podem-se destacar, Abel Salazar, uma figura eminente da medicina e da cultura portuguesa, Celestino Gomes e Mário Botas. E a atestar que a arte toca muito de perto os médicos, a Ordem dos Médicos, através das suas diversas delegações regionais, promove regularmente exposições de médicos artistas. No ano em curso, em Viana, a OM quase só vai fazer exposições com médicos, em várias especialidades artísticas.

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E foi aqui que, no sábado passado, dia 01, mais uma mostra foi inaugurada, desta vez com Adão Cruz, um médico cardiologista, com um longo percurso ligado às artes e à escrita, com inúmeras exposições realizadas, particularmente em Portugal e Espanha, representado em oito países, com 12 livros publicados, na área da literatura e da pintura. Segunda afirma, pinta e escreve com a mesma paixão com que exerceu a medicina, que ainda hoje pratica de forma voluntária, apesar de dez bem sentidas décadas de vida. Como a justificar o seu percurso pelos caminhos da arte diz “que sempre amou a liberdade de pensamento e da razão, a verdadeira riqueza do ser humano e que foi com este amor que sempre sonhou libertar-se ao longo da vida, também pelos caminhos da ciência, da escrita e da pintura”.

Adão cruz apresenta 22 quadros com pintura em acrílico, com laivos expressionistas, predominância de cores quentes e onde perpassa, em muitos deles, uma acentuada crítica social. Diz que nem sequer gosta de atribuir títulos para os seus quadros, com a preocupação de que seja o observador a interpretar o que passou para a tela. Atribuir nomes aos quadros pode não se conjugar com a visão de quem os aprecia, afirma. Presente na cerimónia, Emerenciano, um pintor de referência no contexto da arte em Portugal, salientou o facto de Adão Cruz, apesar de não ser um pintor de escola, ter feito uma carreira de permanente aprendizagem na pintura, sempre com a preocupação

de ver para além da estética em cada quadro que produz.

A exposição vai estar patente até a o dia 30 do corrente mês na Galeria da Ordem dos Médicos, sita na Rua da Bandeira, 472, aberta ao público às terças e quintas-feiras, das 17, 30 às 19, 30 horas e aos sábados, das 9,00 às 13,00 horas.

Gonçalo Fagundes Meira

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por Augusta Clara às 15:18

Segunda-feira, 27.05.19

CONVITE

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Exposição de pintura de Adao Cruz na sede da Ordem dos Médicos de Viana do Castelo de 1 a 30 de Junho de 2019

 

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ADÃO CRUZ
Médico cardiologista
Nasceu em Vale de Cambra há oito décadas.
Sempre amou a liberdade do pensamento e da razão, a verdadeira riqueza do ser humano. Foi com este amor que sempre sonhou libertar-se ao longo da vida, também pelos caminhos da ciência, da escrita e da pintura.
Tem doze livros publicados, na área da literatura e da pintura, e fez várias
exposições, sobretudo em Portugal e Espanha.
Tem quadros em oito países.

O QUE PENSO
O sentimento poético e o sentimento artístico são irmãos gémeos. Ou trigémeos, se os irmanarmos com a sua própria essência, o sentimento da beleza. Quase místicos, quase indefiníveis, eles geram a sublimidade da mente, a força incontida do desejo de ser-se de outra forma, a necessidade de fugir do não autêntico, um quase sentir a verdade total e a dimensão universal.

Sem eles, dificilmente uma obra será uma obra de arte, dificilmente poderá adquirir a grandeza em que todos os processos formais serão ofuscados pelos seus próprios efeitos, dificilmente terá tantas estórias quantos os olhos que a contemplam. Contudo, ao fim de uma vida, o futuro vai-se naturalmente dissolvendo, entre a razão e o sentimento, dentro de um ser humano preso à sua natureza antropocêntrica. A desilusão, como subtil nevoeiro, vai invadindo todos os cantos e recantos onde antes havia sol.

Ao fim de uma vida, o ser humano vai-se desprendendo dos caminhos da arte e da poesia, principais sentimentos que sempre o conduziram à interface entre o Homem e a sua dimensão universal, sem qualquer sentido místico ou metafísico. Contenta-se com a restrita paisagem de um dia de Primavera, atrás das grades da sua ‘mente cultural’. Ele sabe que isso o derrota e, paradoxalmente, o alivia. Ele sabe ainda que são escassos os dias de Primavera, mesmo que a parte sã da humanidade procure tecer o ciclo da vida com fios de esperança. Ele sabe que há dias de penoso inverno que a parte mais podre da humanidade aproveita para romper o ciclo da vida rasgando a esperança. Ele sabe, ao fim de uma vida, que o estatuto de cada ser humano assenta num contexto de vivências e memórias que fazem o futuro e o desfazem na altura própria, sendo o último suspiro o momento mais democrático da nossa existência.

Por isso as lágrimas secam e os olhos passam a ver a vida humana com outros “olhos”. Por isso, esta singela exposição de pequenos gestos que se alimentam de corpos e sentimentos, na procura de uma última homeostasia entre a natureza humana e a humanização da vida.

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por Augusta Clara às 17:00

Terça-feira, 30.04.19

GUINÉ- IRKUTSK - Adão Cruz

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Adão Cruz  GUINÉ- IRKUTSK 

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(Adão Cruz)

 

 

   Não chovia, mas o céu ameaçava desfazer-se em água. Era plúmbeo, presumivelmente a oeste, e carregado de negro do lado oposto. Uma faixa mais clara nascia por cima de Irkutsk e desfibrava-se ao longo do rio Angorá. Mais parecia um quadro de Fiódor Vasiliev ou de Ivan Aivasovsky.
 
Como a vida tem tantas formas de circularidade, sentei-me num banco de jardim à beira do rio, e dei ordens à memória para me buscar aquele rapaz soviético que, há muitos anos, num ardente dia de sol, as nossas tropas aprisionaram no norte da Guiné. Era de Kiev, mas tinha nascido em Irkutsk, na Sibéria.
 
Técnico de máquinas automáticas, oferecera-se, como voluntário e internacionalista, para ajudar os guerrilheiros do PAIGC a combater as tropas colonialistas.
 
Na pequena sala onde funcionava a secretaria do nosso aquartelamento, estava o prisioneiro como que pregado a uma cadeira. Tinha na sua frente o capitão da nossa Companhia, o capitão da Companhia de intervenção que o capturou, dois ou três sargentos e outros tantos alferes, e eu.
 
Os lábios do jovem soviético nascido em Irkutsk estavam gretados de sede e de sol. Um sorriso feito de água, terra, fogo e ar, iluminado por um sol negro de melancolia, denunciava um grande medo dos homens que tinha na sua frente.
 
O capitão foi buscar um copo de água e entornou-a lentamente a uma mão travessa da boca do rapaz. Os olhos quase saltaram das órbitas. Pedi ao capitão que me desse o copo, enchi-o de água e raiva e dei-o a beber ao prisioneiro. Valeu-me a firmeza com que o fiz e o facto de ser médico.
 
Se algum dia a minha vida pudesse ser música!…
 
Desconfiado, levou o copo à boca…
 
Ainda hoje eu não sei falar de tudo o que treme nas mãos de uma criança!
 
O céu arrependeu-se de chover. Seguimos para o lago Baikal, a maior reserva de água doce do mundo. Segundo os cálculos, daria para matar a sede à humanidade durante oitocentos anos. Quando senti nas mãos a água fria das margens lembrei-me de um copo de água lá nos confins da Guiné.
 
Eu não sou capaz de crescer para as palavras, mas dava tudo para cruzar os tempos que ainda são tempo, e mostrar ao mundo a dimensão que o homem é, e a pequenez que usa por força da fraqueza.
 

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por Augusta Clara às 11:10

Sexta-feira, 26.04.19

Ensinar Abril - Adão Cruz e Joaquim Furtado

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por Augusta Clara às 01:33

Quinta-feira, 25.04.19

Adão Cruz

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por Augusta Clara às 17:56

Segunda-feira, 11.03.19

Adão Cruz em inauguração de mais uma exposição da sua autoria em S. João da Madeira

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Adão Cruz não poupa críticas às "máscaras" das "sociedades ditas civilizadas"

(por Gisella Nunes)

 

labor.pt, 9 de Março de 2019

   Depois de ter exposto “talvez umas três ou quatro vezes” em S. João da Madeira (SJM), o médico Adão Cruz voltou esta última sexta-feira à cidade onde tem família e consultório aberto para inaugurar mais uma exposição.

Integrando o programa da Campanha Poesia à Mesa que está a decorrer em SJM desde o passado dia 1 de março, “…como um dia de primavera nos olhos de um prisioneiro” é uma mostra de pintura e poesia repleta de sentimento(s) que pode ser apreciada na Biblioteca Municipal Dr. Renato Araújo até 20 de abril. A entrada é gratuita.

O ato inaugural contou com uma intervenção emocionada do próprio Adão Cruz. O cardiologista natural de Vale de Cambra assumiu não saber “se esta exposição ainda é algum ato de sobrevivência ou se é mais uma máscara”. Sim, porque, em seu entender, “vivemos hoje quase exclusivamente de máscaras para esconder a realidade e mascaramo-nos para ver a realidade”.

Trata-se de “máscaras que escondem as máscaras de carne viva como a Palestina, o Iémen, os milhares de refugiados afogados no Mediterrâneo, os milhões de crianças que morrem, em pele e osso, de fome”, referiu o pintor e escritor, acrescentando: “Tudo isto criado pelas sociedades ditas civilizadas”.

(Ler mais na edição da próxima semana)

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por Augusta Clara às 18:59



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