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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Adélio Martins Guardado está o bocado...
(Adão Cruz)
Nota: o autor é médico cardiologista
Durante cerca de dez anos fui médico de uma simpática velhinha, de rosto muito belo, olhar cândido, que julgava viver com dificuldades. Cobrava-lhe um mínimo, e ela compensava-me contando-me histórias da sua vida. Tinha vivido no Brasil, os pais fizeram fortuna, e no regresso de barco, pelos seus vinte anos, conheceu um rapaz por quem se apaixonou loucamente, e com quem queria casar. Seus pais, pensando que não a merecia, rejeitaram o casamento, o rapaz emigrou para Angola, desconsolado, e ela permaneceu apaixonada para sempre, vivendo um amor platónico. A religião era como um escape para os seus sentimentos. Só confio em si e no padre Manuel, dos meus sobrinhos nem quero ouvir falar, são uns interesseiros...A nossa relação era interessante, e as suas consultas eram leves como o algodão em rama...Mas acontece que a certa altura a doente deixou de vir ao meu consultório, e cheguei a pensar o pior...Um ano após, voltou, pedindo desculpa pela ausência, que justificou pela necessidade que teve de ir ao Brasil, onde possuía vários apartamentos, tendo ido de propósito para ofertar a Nossa Senhora dois que tinha em Copacabana...Trataram-me muito bem, dizia ela referindo-se aos que receberam tão avultada doação...Eu pensei para comigo, bolas, estou eu aqui a fazer de samaritano, e dei ordem à empregada para aumentar ligeiramente o preço da consulta que era ridículo. A senhora teve um esboço de reação, mas aceitou bem. Passados poucos meses, veio-me procurar muito emocionada, para me fazer uma confidência e pedir um conselho. Trazia consigo uma carta escrita pelo seu punho, dirigida ao padre Manuel, onde com todo o respeito lhe pedia para lhe devolver o dinheiro que este lhe tinha retirado da sua conta bancária, no valor de três mil contos, aproximadamente. Disse-me que lhe iria entregar a carta pessoalmente. Foi nessa altura que fiquei a saber que o tal padre todas as quartas feiras lhe papava um almoção, tipo buffet livre no Hotel Ipanema...Esperei por noticias que chegaram no dia seguinte. A senhora estava assustada, tremia-lhe a voz e o corpo todo...O padre Manuel está possuído do demónio senhor doutor...Mal leu a carta na sacristia, começou aos pontapés às cadeiras, e chegou mesmo a tombar uma mesa que lá estava. Aos berros, dizia que eu era uma impostora...À noite telefonou-me a ameaçar-me, e eu não sei que fazer à minha vida, por favor ajude-me...Aconselhei-lhe um advogado de quem tinha a melhor das impressões, para lhe dar apoio, porque o caso já se estava a tornar perigoso...Gostei muito do seu amigo advogado, disse-me a senhora dias depois, ele vai-me ajudar...Efetivamente o jurista, num encontro casual que teve comigo, falou-me da senhora com ternura filial, e eu fiquei descansado...Passados dois anos deixei de ter noticias da senhora, e o advogado disse-se que esta estava a viver num lar no Entroncamento e que inclusivé tinha aproveitado uma viagem a Lisboa para a ir visitar. Que simpatia, fazer um desvio até ao Entroncamento para visitar a minha paciente não é para qualquer um, tem de se ter um bom coração, e subiu ainda mais na minha consideração o advogado...Passaram-se talvez oito longos anos, as preocupações foram-se renovando e a memória destes fatos foi-se esbatendo. Há cerca de três meses recebi o jurista no meu consultório para fazer um eletrocardiograma. Tinha cinquenta anos e havia que olhar pela saúde. Está ótimo, disse-lhe eu com uma palmada nas costas, daquelas que só se dão a quem muito se considera, daquelas que fazem estalo...Dr. Adélio, meu bom amigo, quero informá-lo que vou fechar o consultório, já não preciso de trabalhar mais...O quê? retorqui, saiu-lhe a sorte grande? Bem ,disse-me ele, é que eu herdei a maior jazida de mármore do Alentejo...Lembra-se daquela velhota que me mandou ao consultório? Foi ela...que ma doou...Não sou pessoa de ter inveja de ninguém, mas quando ele virou as costas apeteceu-me dar-lhe um pontapé no traseiro!
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