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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Adão Cruz Adriano, um canto em forma de Abril


Adão Cruz Para o Adriano


Eva Cruz Trova do vento que passa

A lareira a crepitar, a árvore de Natal ao lado a tremeluzir, e a saudosa voz de ADRIANO libertando-se de um antigo LP de vinil, a rodar no velho gira-discos Dual, trazido da Alemanha pelos amigos Margitte e Jürgen.
Trova do vento que passa…!
Deixei-me levar nas asas do vento que passa, e no infindo écran da memória vi-me a percorrer a calcetada e estreita Rua do Loureiro, na velha Alta Coimbrã, tão estreita que nela mal cabia a largura de um carro. Os peões tinham de se enfiar na ombreira das portas para lhe dar passagem. Na esquina com a travessa da Matemática, lá estava o número 16, a casa da Dr.ª Virgínia Gersão, tia da escritora Teolinda Gersão e como ela também escritora e interventora parlamentar com trabalhos sobre o Ensino. Fora a grande paixão do Menano. Ficara solteira para criar dois sobrinhos que cedo se tornaram órfãos de pai e mãe. Recebia como hóspedes meninas universitárias. Paralela à Rua do Loureiro, na Rua da Matemática, morava o ADRIANO, no número 6, na Real República do RásTe parta. Com ele várias vezes me cruzei e lembro-me de ter votado na lista para a Associação Académica que incluía o seu nome. Ainda a Velha Academia era perto das Escadas de Minerva, iniciando-se a sessão com três pancadas de martelo. Acompanhava-me sempre a grande amiga Lídia Gama que infelizmente já partiu. Minha companheira de quarto, foi mais tarde médica pediatra no Hospital da Estefânia. Mais velha do que eu, muito com ela eu aprendi. Uma personalidade que se impunha naquela sociedade machista dos anos sessenta, em que as estudantes ficavam queimadas se eram vistas duas vezes na Baixa. A Lídia era um exemplo de inteligência, sabedoria, ética e estética. Uma mulata esguia, linda, de olhos amendoados, angolana, filha de pai branco da alta sociedade. Era da JUC, mais tarde do Graal, sendo através dela que conheci a engenheira Lurdes Pintassilgo.
Trova do vento que passa…!
Na Rua do Loureiro, para além da nossa casa, havia de um lado a casa mãe, onde tomávamos banho e eram servidas as refeições, e do outro lado os quartos das estudantes. Havia ainda a casa de um médico, o Dr. Castela, primo da Lídia, e a casa de um explicador de matemática de cujo nome já não me recordo. Entre os restantes havia gente humilde e pobre. O Sr. Luís sapateiro que me fazia o nó da gravata sempre que eu vestia o traje académico e a pobre Sofia, com uma ninhada de filhos de um amante, que herdaram o sobrenome do marido. No casebre do rés-do-chão lá estava sempre uma chupeta de pano atada com um cordel, e ao lado uma pequena malga com açúcar para a adoçar e calar o mais pequenito. A própria Lídia, pessoa muito respeitada, ao passar a caminho da Faculdade, se via o puto a chorar, entrava, metia a chupeta no açúcar, enfiava-lha na boca e a criança calava-se. No nosso quarto havia um gira-discos que tocava para a rua toda. Logo pela manhã, a Lídia abria a janela e punha o som no máximo. No quarto, quase não nos ouvíamos, de tão alta a música. Édith Piaf, Charles Aznavour, Gilbert Bécaud, André Claveau, Jacques Brell, Yves Montand. Canções como La vie en rose, Milord, Mourrir d´Aimer, Et maintenant, Dominó, La chanson des vieux amants, Les feuilles mortes voavam pelo ar enchendo a rua de lés-a-lés.
Trova do vento que passa… !
Na travessa da Matemática morava a Hermengarda, mesmo em frente a uma das janelas do nosso quarto, uma das conhecidas prostitutas da Alta Coimbrã. A Lídia chegou a ir a casa dela dar-lhe injecções. A Hermengarda punha um vaso à janela sempre que estava ocupada. Nas noites cálidas de Verão, quando só era possível estudar de noite, ouviam-se vozes aqui e além, sem se saber de onde, a ler e reler as velhas páginas da sebenta. A Hermengarda, de vestido de veludo preto sem mangas, saía com um cântaro de barro à cabeça a buscar água à Torre de Anto, perto do célebre Quebra Costas e dizia: - Boa noite doutor. Como ninguém lhe respondia, ela replicava: - Ai Universidade, Universidade, que educação dás tu a esta gente!
Coimbra foi e é realmente Uma lição de sonho e tradição…
Trova do vento que passa…!
A lareira crepitava cheia de lume, e o disco ainda rodava como que tocado pelo vento. Ouvi então a serenata na Rua do Loureiro, tangida por um grupo de capas negras, iniciada pelo estilhaço provocado por uma pedra que alguém atirou ao lampião, ficando a rua às escuras, apenas com o luar bem aberto no céu negro. Era da praxe apagarem-se as luzes, e assim fizemos na nossa casa. Um sussurro nas escadas e um murmúrio de vozes no nosso quarto aos primeiros acordes da guitarra. Reconheceram na noite a voz do ADRIANO amparada pela guitarra do OCTÁVIO. O Octávio Sérgio, brilhante guitarrista de Zeca Afonso era amigo daquele que um dia veio a ser o meu marido. Cantaram, entre outras canções, a Senhora do Almortão. Quando se ouviu minha maçã camoesa criada no Paraíso, todas disseram que a serenata era para a Eva. Mais tarde vim a confirmar que sim. Um estudante algarvio, de medicina, que me perseguia quase há um ano e que muito me intrigava fora o autor da proeza. Muito alto, de olhos verdes, sempre de capa e batina, fumava cachimbo Mayflower, escrevia versos para a Via Latina e Briosa. Diziam que era do reviralho. Falava-me em cortina de ferro e eu só conhecia cortinas de pano, dizia-se ateu, e eu era menina da JUC, de comunhão diária. Ele achava-me uma criança e dizia que o atraía o meu ar angelical. Para mim, ele era o diabo em figura de gente. Anos mais tarde voltou a Coimbra, telefonou lá para casa e logo reconheci a sua voz quente e meiga. Disse-me que viera a Coimbra em romagem de saudade e que ia partir para a guerra de Angola. - Peço-lhe que me deseje boa sorte. Se morrer, lá a encontrarei nesse céu em que a Eva acredita e eu não. Constou que mais tarde fora parar ao Tarrafal.
Trova do vento que passa…!
…Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.
…e o vento passou… e com ele levou o ADRIANO, mas o vento não teve força para enfrentar a força da melodia dessa voz que nunca nos deixou.
Adriano Correia de Oliveira Trova do vento que passa
(poema de "Praça da Canção" de Manuel Alegre agora reeditado)
(O ensaio geral - fotografia de Carlos Gil)
Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também.
José Afonso
(«Traz Outro Amigo Também»)
E houve uma noite antes dessa noite. Muitas noites, mas uma em particular, porque teve a emoção das vozes multiplicadas por outras vozes, vozes gémeas, vozes sem medo do lume das palavras. Eram os últimos dias de Março de 1974 e todas as salas eram pequenas para acolher a alegria tensa dos que reclamavam mudança. Falo do que sei, do que vivi, como cantor e como homem. Eu sei que não podias estar lá para ver, para sentir, mas em algum lugar havias de estar, por certo inquieto com o que pudesse acontecer. Eras assim e não sabias nem podias ser de outra maneira. Estávamos a 29 de Março, a menos de um mês da noite que mudaria as nossas vidas. O Manuel Freire vinha de Ovar, o Zeca Afonso de Setúbal, o Fanhais de parte incerta, eu de muito perto, como quase todos os outros, de uma Lisboa impaciente e grave. Cantava-se ou não se cantava? Os homens do mando policial garantiam que não, que não haveria cantigas, desse lá por onde desse. E tinham cães e matracas e prisões anunciadas, e nem se atreviam a ter medo, porque tinham a força do seu lado. Mas nós tínhamos as palavras das canções e muita gente para as cantar. Nada mais, e já era muito. Era quase tudo.
Cantava-se ou não se cantava? Claro que se cantava, pois nada havia já a perder, e havia o gosto febril de arriscar, por se sentir que a liberdade andava perto, quase ao virar da esquina, ali mesmo à mão de semear, de se cantar.
Imagino os teus temores, pai, se tivesses visto, nessa noite, o Coliseu apinhado, quase a transbordar, e as ruas cheias de polícias e de cães, e milhares de olhos postos num palco ao mesmo tempo exíguo e imenso, de onde iriam brotar, como papoilas esquivas, as canções da esperança dessa noite.
"Desculpa, Zeca, mas tens que ser tu a fechar".
"Mas, porquê eu? Qualquer um de vocês o fará melhor do que eu".
"Não, tens que ser tu, porque tu é que representas tudo aquilo que temos para dizer, e é a ti que as pessoas querem ver e ouvir".
"Deixem-se de tretas tutelares. Aqui não há bonzos nem chefes. Cada um faz a sua parte e acabou-se. Mesmo que nos deixem cantar só metade de cada canção, vamos até ao fim".
E fomos mesmo, acontecesse o que acontecesse. E guardou-se o "Grândola" para o fim, não se sabe bem porquê. Podia ter sido o "Venham Mais Cinco" ou "O Que Faz Falta", mas foi aquela porque falava de fraternidade, de amizade e porque era a menos amputada de todas as que poderiam ser cantadas, nessa noite de reprimido júbilo.
O Fanhais ficou sentado na primeira fila, porque era padre, porque, sendo padre e cantor, era ainda mais perigoso, e, por isso, nem o direito lhe foi concedido de subir ao palco com os outros. E, mesmo assim, cantou e comoveu-se com o canto dos outros a crescer no palco como uma sentença, como um aviso, como uma promessa. Tão unidos que nós estávamos ainda nessa noite, nesses dias, sem as armadilhas da ideologia a porem cada um para seu lado. Não havia comunistas, nem esquerdistas, nem anarquistas. Havia somente a força exaltada e solidária da malta das cantigas e milhares de vozes a dar-lhe espessura de multidão e sentido de mudança. E era só isso que contava. Nada mais. Já tinha sido assim no Barreiro, na Marinha Grande, em Ferreira do Alentejo, em Alhos Vedros, em Coimbra, em salas apinhadas de estudantes, em cooperativas de consumo, clubes de campismo e em cineclubes. Já era assim há vários anos. Eu estava lá e vi. Por isso posso contar.
"Ai, filho, e se a polícia vem e os prende a todos? O que vai ser das vossas vidas, dos vossos cursos, dos vossos trabalhos?". Tu não estavas lá para perguntar, mas eu sei que era esta a pergunta que me farias se tivesses conseguido chegar com vida a esse dia de Março.
Na assistência havia militares, os que aguardavam a partida para mais uma comissão em África, os que há mais de um ano preparavam, numa vagarosa clandestinidade, a noite de todas as noites.
O primeiro dos meus filhos tinha meses, muito poucos, e estava em casa a dormir. A minha mulher e a minha mãe estavam nas primeiras filas, no meio da assistência, a ver, a ouvir e a sofrer. Já não havia espaço nem tempo para se ter medo. Jogava-se ali, naquela noite de Março, mais uma cartada, uma daquelas que marcam as memórias de uma vida. Depois, é certo, podiam vir as prisões e os transtornos, como sempre acontecia nas vésperas do 1° de Maio, mas que importava? Tudo estava já em movimento, como se um grande comboio se tivesse posto em marcha sobre os carris de um tempo que não admitia renúncia ou retrocesso.
O palco foi pequeno para cabermos todos, ombro com ombro, braço dado, voz colada às outras vozes, a sussurrar o nome de um mês prestes a inundar as ruas e o sono estremunhado das casas.
Não, pai, já não havia motivo para teres receio, porque a máquina da alvorada estava em andamento e tudo se combinava, numa insólita harmonia, para que os homens e as vozes chegassem finalmente ao seu destino.
Eu estava lá e vi, e ouvi, e cantei. Já lá vão tantos anos e é como se tivesse sido ainda ontem. E havia a presença morna e envolvente de uma fraternidade que guardava em si todos os outros valores, todas as outras certezas. Ninguém disputava nada a ninguém, nem espaço, nem fama, nem fortuna. Era a adversidade que nos unia e o sonho que nos exaltava, e fosse lá alguém tentar explicar o que isso era e como podia ser traduzido em palavras. Não havia maneira de se verbalizar o que era somente pressentimento e vontade. E houve quem chorasse no meio da assistência. E houve quem gritasse algumas das palavras proibidas, como se tentasse fazer o ensaio geral e definitivo da noite de todas as noites que estava para chegar, com o embalo contagiante das cantigas.
O Zeca levantava, como sempre fazia, o indicador da mão direita para nos dizer que as vozes altas se deviam erguer ainda mais, de forma presente e audível, na partilha do refrão: "O povo é quem mais ordena/ dentro de ti ó cidade ". E já faltava tão pouco para que essas palavras fossem a senha e a chave da noite que estava para vir, com soldados misturando-se com a treva e com flores de júbilo a beberem a água que as manteria viçosas até ao fim de todas as quimeras.
Já podias dormir descansado, pai, que o perigo, aparentemente, tinha passado. Viola no saco, voltávamos para casa, com a certeza de que se acrescentara mais um dia na contagem decrescente dos nossos destinos por cumprir.
(in José Jorge Letria, Uma Noite Fez-se Abril, Hugin)
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