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Jardim das Delícias


Sábado, 29.03.14

O Silêncio dos Corações - Aldora Amaral

 

Aldora Amaral  O Silêncio dos Corações

 

 

(Oscar Nyemier)

 

 

   Naquele tempo um bater suave e profundo expressava a paz sentida. Não, não vivia num qualquer céu, repleto de harpas e vestes suaves cobrindo corpos ondulados e belos, de longos cabelos loiros. Não, naquele tempo os corações falavam e os espaços tinham faces conhecidas. O tempo era um aliado e companheiro. Os ritmos, outros.

Lembra-se das longas conversas entre batimentos tão próximos. Falava-se de amor, da amizade, de alegria mas também das tristezas, dos sofrimentos que cada um sentia ou sabia habitar um outro. Sim, porque naquele tempo de proximidade, qualquer arritmia, qualquer movimento era por todos sentido, tal era a empatia existente entre esses órgãos fundamentais da vida física, símbolos poéticos de existências solteiras do que quer que seja ou mergulhadas em laivos de lucidez mais ou menos constantes.
À medida que os ritmos cardíacos se afastavam cresciam as distâncias entre corações. Com o tempo, essas distâncias foram reforçadas por couraças cada vez mais sofisticadas. A respiração viu-se obrigada a reforçar a intensidade das trocas que constituem a sua natureza. O cansaço instalou-se.
Com a distância veio também a solidão. Corações couraçados ocuparam o lugar dos outros: os desprevenidos, os guerreiros de Shambala cujo coração sangra de sensibilidade, os corações escancarados, aqueles que detêm a paz, a liberdade, a alegria pura.
De couraça em couraça, vão esquecendo quem são e as interligações que estabelecem. Vivem no silêncio das mortes lentas, anunciadas. Falam línguas de fogo, com que queimam as esperanças. Decidem sobre as vidas dos outros esquecendo de que matéria são feitos. Tornam-se duros. Pulsam para si próprios. Vivem sob a capa opaca, pesada, do medo. Adoecem precocemente, param subitamente.
Como em todos os tempos, há os que resistem, numa teimosa mas firme certeza de que foram feitos para o amor, para batimentos conjuntos. Recordam algures o tempo dos encontros entre corações e sabem que esse tempo existe, ainda, perdido no universo. Procuram outros e reconhecem-nos, se param para os escutar. Esses encontros, pródigos em linguagens ricas e verdadeiras, tendem a mostrar a beleza de tudo o que existe. O tempo, esse aliado e companheiro de corações que o entendem, que o aceitam, que lhe dão a mão e com ele bailam a dança da vida, está bem presente e mostra-lhes a disponibilidade dos grandes espaços. No encontro, entre corações a alegria descobre-se, o amor despe-se de todas as escravidões. Soltam-se amarras e a viagem rumo ao amor em liberdade tem início, sem nunca ter tido fim.
É no silêncio dos corações que a morte habita, negra, hirta, gelada.
Hoje, neste tempo de mortes lentas e anunciadas vou aquecer o meu coração, pintá-lo de branco e atirá-lo ao alto, como um balão colorido que desperta a alegria nas crianças e o desejo, esquecido, reprimido, de brincar, que nem os corações couraçados alguma vez perderam. O tempo, esse aliado, chega então de mansinho e avaria os relógios. O homem ri, rebola-se na relva junto do menino que persegue o cão. A lua aparece no horizonte, empurrando o sol para o outro lado do planeta.
O mundo cala-se. Faz-se silêncio. Dos corações renasce a luz das vozes inaudíveis.

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por Augusta Clara às 14:00

Quarta-feira, 12.03.14

A compaixão das coisas simples - Maria Amaral

 

Maria Amaral  A compaixão das coisas simples

 

 

(Michel Gantner)

 

 

Caridade vivia no fundo da rua
lá onde ninguém ia
rua vazia, rua vadia.
Rua perdida no meio do nada
de morte abraçada.
Rua estilhaçada.

Uma noite de inferno,
cinzenta e molhada
chega à tal viela,
entra p’la janela,
o vento Suão,
anunciando o verão.
Caridade sorriu,
medrou e saiu
para o abraçar.
Ele assim o fez.
Afagou-lhe a tez,
soprou-lhe ao ouvido
belas esperanças
sonhos e mudanças,
no fundo da rua.
Recetiva e nua
deixa Caridade
Suão embalar
seu corpo ondulante.
Bailando flutua,
sorri para a lua
parte p’ra voltar.

Suão carinhoso
terno e dengoso
traz-lhe o que é preciso,
para alegre a ver!
Um amor assim
caridade em mim,
o que for em vós,
cheiro de alecrim
flor de jasmim
é pátria dos sós.

E ao fundo, a rua,
lá onde ninguém ia,
não mais foi vazia.
Escolheu ser vadia
e no meio do nada
tudo ser um dia.

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sábado, 25.01.14

Até ser Primavera - Aldora Amaral

 

 

Aldora Amaral  Até ser Primavera

 

 

Maria Aldora Barros do Amaral, nasceu em 1955 na vila do Luso/Portugal mas viveu na capital Moçambicana desde a infância até jovem adulta. Aos 18 anos inicia atividade profissional na aviação comercial, como assistente de bordo. Regressa a Lisboa, em 1980, ingressando pouco depois no INETI. No final dessa década decide partir e durante três anos viaja, em trabalho, pelos fiordes noruegueses que marcam definitivamente a sua sensibilidade. De volta a Portugal reingressa na Administração Pública, conhece o Budismo, inicia a prática da meditação e faz alguns trabalhos de voluntariado com crianças. É Bacharel em Ação Social, e Pós-Graduada em Técnicas Expressivas. Ensina meditação a adultos e crianças. Em 2011, após um retiro Arte Zen, começa a escrever poesia e a partilhar o que escreve no http://sonambulismosonline.blogspot.pt/. É atualmente membro da direção da União Budista Portuguesa.

Ama as palavras desde menina

 

 

   Na primavera da vida todos os sonhos são possíveis. O ano, este bissexto, detestava particularmente esta apreciação. Por que carga de água (esta mais frequente no inverno e no verão dependendo da geografia do lugar), teria a primavera direitos que às outras estações eram negados? No mais fundo de si próprio, o ano bissexto, sentia-se como aquela mãe para quem, preferir um filho a outro era incompreensível. Cada um era o que era, dava e tomava de si diferentes emoções e sensações, mas a todos queria com a mesma intensidade. E sonhos, sonham-se em todas as estações ou melhor, sonhar é brincar com a vida que é um assunto muito sério.

Assim, o ano bissexto decidiu convocar todas as estações para refletirem sobre o problema e juntos encontrarem forma de mostrarem aos humanos que as estações do ano não são responsáveis pelos seus sonhos ou ausência deles.
Nesse dia a confusão instalou-se. O inverno foi o primeiro a chegar, era a sua estação. O dia acordou gelado. Todos se cobriam de agasalhos, mas de repente foi preciso tirar os gorros e as luvas pois o sol despontou suave e luminoso. Sempre pontual, a primavera que chegava sob o olhar incrédulo, dos que passavam por parques e jardins da cidade, perante o desabrochar das flores ou o seu crescimento a um ritmo nunca visto. A natureza parecia estar louca.
Ainda mal se tinham recomposto daquela súbita manifestação primaveril, em pleno inverno, já o verão se mostrava no seu esplendor decidido a chegar a horas à reunião. Flores murcharam de sede e as esplanadas encheram-se de gente e de roupagens despidas, ali mesmo, e penduradas em cadeiras. Até as praias viram as suas areias repletas de banhista, desprevenidos, deixando as botas à beira mar e mergulhando os pés no oceano.
Os jornais não falavam de outra coisa. O dia caminhava pelas estações do ano deixando perplexos os homens e as mulheres, as crianças, os animais e os vegetais. A vida confundia-se ao ritmo da chegada das estações à reunião urgente.
Ao longe o outono anuncia-se e as folhas caiem. Ventos fustigam a cidade e os habitantes recolhem as roupas, já temerosos do que o dia ainda lhes poderia reservar. Alguns diziam que um tempo assim não era bom sinal, outros lembravam que o tempo apenas manifestava o desprezo que a humanidade mostrava ter pelo planeta. Ninguém se entendia.
Finalmente as quatro estações estavam reunidas na casa do inverno que espalhou por todo o lado alguns flocos de neve como que agradecendo a presença de todos, na tradição de bem receber. Na rua tudo voltou ao normal. As gentes finalmente sentiam-se protegidas pela normalidade. Afinal estávamos em janeiro.
O bissexto abriu a sessão, feliz por ver os filhos reunidos. Primavera alega nunca ter influenciado os humanos na atribuição, a si, do sonhar da vida mas não se admirava de tal pois as suas manhãs, luminosas e calmas, e a harmonia das suas temperaturas chamavam à melancolia e ao sonho. Afinal ela anunciava o fogo do verão. O fogo é tumultuoso, chama à preguiça, pelo muito que desgasta. O outono talvez seja demasiado cinzento para os sonhos desejados e o inverno, esse nem se fala, quem é que pensa em sonhar com chapéus-de-chuva a voar e poças de água a cada passo?
A discussão parecia não ter fim mas o ano bissexto, mais maduro, chamou à razão os seus filhos querendo ouvir o que cada um tinha para dizer. Assim, o verão, suado, mostrou o seu lado brilhante e o conforto das suas noites de ventos mornos e pares de namorados à beira-mar, olhando a lua. Assim se sonha no verão.
O outono lembrou a beleza das folhas caídas, pintando as terras, as estradas, afagando as bases das árvores, aquecendo-as em camas coloridas, verde limão e laranja tijolo, chamando ao recolhimento e ao sonho de uma natureza que humildemente se despoja, sabendo que desse despojamento nascerá a vida, renovada. Assim de sonha no outono.
Já o inverno olha-se e recorda que consigo, á noite, as lareiras ardem em alentos que confortam. As bebidas quentes e as comidas fortes juntam as famílias, que se resguardam. Consigo, belos são os campos repletos de neve e os farrapos caindo das árvores. Tudo se cobre sob um manto branco de candura e nas montanhas os homens brincam como meninos. Assim se sonha no inverno.
Fez-se silêncio. Afinal o sonho não era apanágio da primavera. Há sempre razões para sonhar, se desperto se está. 
Bissextos e os filhos resolveram então tomar uma atitude. Era preciso colocar o sonho no lugar que lhe pertencia, o de não ter um lugar em particular. Chamaram todas as forças da natureza. Falaram com o deus sol e a deusa lua e todos os deuses e deusas do firmamento. Pediram-lhes que se unissem para juntos mostrarem aos humanos que a primavera da vida não tinha época, que a vida era indivisível, inseparável da morte, que todas as estações da vida são parte dela e que o homem sonha porque é homem.
Todos os deuses de uniram. Dali até à primavera, a natureza, nas suas mais variadas formas, enviou mensagens subtis a todos os homens e mulheres que davam como perdida a primavera da vida.
Nesse ano bissexto, foram muitos os que realizaram sonhos esquecidos e a primavera sorriu em pleno inverno.

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por Augusta Clara às 17:00



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