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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Augusta Clara Como o "Prós e Contras" acabou em beleza
Ontem deu-me um especial prazer assistir à resposta que o Prof. Alexandre Quintanilha, a terminar o programa "Prós e Contras", deu a um maquiavélico saloio dos PaFs, cujo nome nunca consegui fixar nem me interessa, que se convenceu de que uma pessoa por ser genuína e se reivindicar duma certa ingenuidade pode facilmente ser apanhada pelas rasteiras dos trapaceiros de intelecto rígido e raciocínios pouco elaborados.
Pensava a criatura que metia o pé à frente e o Prof. Quintanilha ia revelar tudo o que se passa nas negociações do PS com o PCP e o BE.
Levou uma resposta de mestre de quem possui uma longa experiência de vida em lutas contra maquinações e vandalismos noutas partes do mundo. Foi magistral a sua última declaração (cito de cor): "Vivi 20 anos da presidência de Ronald Reagan. Fiquei farto de neoliberalismo. Não quero mais"
Diário de Notícias, 9 de Outubro de 2015
"Mulher é a pior coisa que se pode chamar a um homem." O sarcasmo é de um entrevistado (homossexual) na primeira reportagem que fiz sobre discriminação dos homossexuais, em 1993, nos EUA, acerca da respetiva exclusão das Forças Armadas e da ideia de que os homossexuais seriam "medrosos" e "incapazes" - "como mulheres", em suma.
Passaram 22 anos, e muita coisa passou: o Massachusetts, onde fiz a reportagem, foi a segunda jurisdição do mundo a legalizar o casamento das pessoas do mesmo sexo, em 2003; em 2011 Obama acabou com a exclusão dos homossexuais das FA e em 2012 assumiu a causa do casamento. No mundo civilizado (há um mundo não civilizado, lamento) a luta pela igualdade independentemente da orientação sexual deixou de ser de "maluquinhos"; tornou-se institucional. E a homofobia - que engloba todas as formas de discriminação em função da orientação sexual - é hoje um labéu temido.
Ainda bem. E ainda bem que ontem, perante a indignação nas redes sociais face à atuação de José Rodrigues dos Santos no Telejornal de quarta - lançou uma peça sobre os novos deputados fazendo referência ao mais velho dentre eles (Alexandre Quintanilha, homossexual) como "eleito ou eleita" -, a RTP se apressou a publicar um comunicado assumindo o ocorrido como "erro" e pedindo desculpas. Denota isso algo de muito importante: a RTP e Rodrigues dos Santos (tenha este feito o que fez deliberadamente ou não) querem certificar que não são homofóbicos.
Infelizmente, esta atitude contrasta com a adotada no caso da promoção (decerto deliberada) do mesmo canal sobre as comemorações da República. Aí, a estátua da dita - feminina - é mimoseada, por voz off masculina em tom grosseiro, com uma série de dichotes sexistas. Como no caso Quintanilha, houve indignação nas redes e queixas à RTP, e esta retirou a promo do ar e até do YouTube. Mas, ao contrário do que se passou com Quintanilha, nenhum comunicado a reconhecer o disparate e a pedir desculpa.
O contraste é tanto mais curioso quando a homofobia é uma derivação do sexismo, vulgo machismo - como bem o meu entrevistado de há 22 anos frisou. Mas, de algum modo, apesar de a luta das mulheres pela igualdade ser muito mais antiga do que a luta contra a homofobia, é como se esta tivesse elidido aquela. A ponto de tanta gente, a propósito do caso Quintanilha, afirmar que chamar mulher a um homem é "insultuoso" sem se dar conta do implícito insulto às mulheres (como se reagiria se alguém, apelidado de homossexual, se dissesse insultado?). A ponto de a RTP correr a pedir (e bem) desculpa pelo "erro" do pivô mas não pela promo. Donde se conclui que se o apodo de homofóbico preocupa o canal público, o de machista fá-lo encolher os ombros: "Lá estão as histéricas das feministas." Afinal, para a RTP (e muitos dos que reclamam?), faz todo o sentido pedir desculpa por ter chamado, mesmo sem intenção, mulher a um homem; é que, como se constata, as mulheres não lhe merecem respeito.
Alexandre Quintanilha (cientista) e Richard Zimler (escritor) Um testemunho de vida
Porto Olhos nos Olhos, 3 de Fevereiro de 2015
AQ: Os primeiros 16 anos da minha vida foram em Maputo. Moçambique era muito longe e o Salazar não estava tão preocupado em limpar a cabeça das pessoas lá como estava noutros sítios. Talvez por isso, tive professores extraordinários. Depois estive nove anos na África do Sul, a fazer a licenciatura em Física Teórica. Quando acabei o doutoramento, fui directamente para os Estados Unidos. Estávamos em 72. As minhas irmãs, ambas mais velhas uns vinte anos, estavam em Portugal. Eu comecei a vir cá também. A primeira reunião a que vim, deve ter sido em 75, foi organizada por Carvalho Guerra, que era director da Católica. Nessa altura conheci o Corino de Andrade, o homem que descobriu a doença dos pezinhos. Ele andava à procura de uma pessoa para fazer uma equipa. A partir dessa altura comecei a vir cá dar uma semana de aulas, às vezes um mês. Já mais tarde, depois de conhecer o Zimler, vínhamos os dois quase todos os anos. Passar uma semana, duas, quatro. Portanto, aos poucos, começámos a penetrar no meio do Porto e a sentir-nos muito confortáveis aqui. As pessoas ainda iam a casa umas das outra à noite passar o serão. Para nós foi uma espécie de segunda família. Claro que o Porto era o terceiro mundo nessa época. Nós tínhamos medo de ir às casas de banho nos restaurantes, as manivelas estavam um nojo, o chão cheio de beatas. Havia uma meia dúzia de sítios super chiques onde não se via isso, mas a maioria não. Era um sítio muito medieval. Mas na área da baía de São Francisco, onde morávamos, as coisas estavam más. A partir do início dos anos 80, essa zona começa a ser muito afectada pela Sida. E portanto, em 85, por exemplo, era impossível estar num almoço onde não houvesse sempre alguém que tivesse uma outra pessoa na família ou no grupo de amigos com o HIV. Nos anos 80 era uma pena de morte, não havia qualquer tratamento. São Francisco, a cidade da libertação e de descoberta, começou a tornar-se deprimente. Era permanente. Todas as semanas sabíamos que havia mais uma pessoa que estava infectada. E não eram só gays. Em 89, o irmão do Zimler morre com a doença. Foi muito traumático. Eu não tive essa experiência, mas tive uma análoga. Em dois dias diferentes da mesma semana, vêm dois jovens do centro que estava a dirigir falar comigo para me dizer que têm Sida. Ela uma jovem australiana, ele um jovem de Boston. Ambos extraordinários, a nata da nata. Chegam ali para me dizer que iam ter mais seis meses de vida. Começámos ambos a sentir-nos afogados na área da baía. Não eram só os outros. Estava a aproximar-se muito. A morte pairava sobre nós. Eu costumo dizer que tivemos muita sorte em nos termos conhecido em 78. Se não tivesse acontecido podíamos perfeitamente não estar cá hoje. Esta sensação tornou-se de tal forma forte que precisámos de sair. E como havia este convite repetido todos os anos do Corino de Andrade...Foi uma decisão de um mês para o outro. Vínhamos por dois anos. Íamos perceber se era possível adaptar-nos. Foi muito duro. Sobretudo para ele. Eu ainda falava português, ele não.
RZ: Eu ia arranhando… Como vínhamos todos os anos, sabia como pedir um chá e coisas desse género. Mas não falava português. Vim dar aulas para a Escola Superior de Jornalismo e o Salvato Trigo, que era o director, tinha-me dito que podia dar as aulas em inglês. Eu estava nervoso porque nunca tinha dado aulas e ia fazê-lo num país estrangeiro... Mas preparei-me bem durante o Verão e acalmei. Quando cheguei ao primeiro dia de aulas, percebi que o nível de inglês dos alunos era miserável. Estávamos no início dos anos 90. Percebi logo que ia ter de mudar para uma mixórdia de inglês e português. Então aprendi dez verbos — só no presente, claro — e cinquenta substantivos muito rápido. E assim me desenrasquei. Aprendi sozinho, mas com ajuda do Alex.
AQ: Não foi muita a ajuda. A dificuldade maior foi mesmo passar de uma área como a baía de São Francisco ¬— super evoluída, uma comunidade com muito pouca discriminação — para o Porto. Foi como sair do século XXII e chegar ao XVI.
Tiago Reis E se os Seres Humanos tivessem Super-Poderes?
Alexandre Quintanilha vai ao ICBAS/FFUP debater os avanços científicos que possam permitir o melhoramento das capacidades humanas
A pergunta parece saída do cinema ou dos livros de banda desenhada, mas é com e sobre Ciência que o Núcleo de Estudantes de Bioquímica da Universidade do Porto (NEBQUP) desafia todos os que passarem na quinta-feira, dia 18 de Abril, pelo Anfiteatro 2 do complexo do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar /Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto (ICBAS/FFUP). O pretexto será a segunda edição da tertúlia “Mito ou Realidade”, onde irão ser exploradas as aplicações de Super-Poderes em Seres Humanos no contexto científico atual.
Poderão os homens ter super-poderes? Em que é a Ciência poderá promover esse conhecimento? São questões que vão ser respondidas por dois professores que dispensam apresentações área da Biologia Molecular e Celular: Pedro Moradas Ferreira (professor catedrático do ICBAS) e Alexandre Quintanilha (professor catedrático e presidente do Comité Permanente das Ciências da Vida e do Ambiente da Fundação Europeia para a Ciência). A estes juntar-se-á um convidado surpresa para uma conversa informal com a audiência.
Ao longo da tertúlia serão então discutidos os avanços tecnológicos e científicos nas áreas da genética, biofísica, bioquímica, entre outras, que possam permitir o melhoramento das capacidades físicas humanas, bem como as limitações destas práticas.
Com início marcado para as 18h30, esta sessão destina-se a estudantes e professores de qualquer área académica com curiosidade pelo tema, assim como à comunidade em geral. A entrada é livre.
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