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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
«GRÉCIA: MERKEL DERROTADA. PASSOS COELHO ENGANADO PEDIR-LHE-Á INDEMNIZAÇÃO PARA PORTUGAL?» - texto de «O ECONOMISTA PORTUGUÊS»
O Economista Português, 10 de Julho de 2015
48 horas antes de o Sr. Tsipras escrever o seu plano para Bruxelas, já a imprensa portuguesa sabia que ele continha a derrota moral do ras grego: manchete do Diário de Notícias de anteontem, anunciando que a Grécia «cedeu». Mas afinal quem cedeu foi a Madrinha, a Srª Merkel. Ou de como somos levados à certa pelos nossos mass media. E o DN nem é dos piores.
Quando o Presidente Barack Hussein Obama lembrou à engenheira química Angela Merkelque, no meio da guerra fria com a Rússia, era má ideia entregar a Grécia a Moscovo, o destino da senhora estava resolvido: passava do Departamento do Tesouro para o Pentágono. O Fundo Monetário Internacional (FMI) já começara a tocar-lhe o Kindertoetenlieder, mas ela é dura de ouvido e escapou-lhe a mensagem da música. Diz-se que o Engº Guterres tinha aprendido a infalível ciência de governo: seguir as sondagens. Sabe-se que a Srª Merkel descobriu um sistema ainda mais perfeito, simples e barato: para governar o mundo basta-lhe ler todos os dias o canto superior direito da primeira página do Financial Times, que publica o índice da bolsa de valores. Ora a Grécia é uns 2% do PIB europeu e as bolsas apenas piscaram o olho perante as maldades que o Sr. Varoufakis ministrou à nova Cariátide (claro que a Srª Merkel ignora o efeito de uma queda acumulada de 1% num plano de investimento em bolsa e por isso considera 1% uma ninharia). Coitada. Sic transit gloria mundi. O Economista Português pede também ao leitor um pensamento bom em intenção do Sr. Sigmar Gabriel, o socialista alemão que andou a fazer a publicidade da chancelarina e a dizer umas verdades duras aos helenos.
A questão grega resolveu-se, como O Economista Português sempre previu, e perde assim muito do seu interesse pois resume-se agora a saber em que medida seremos prejudicados face aos gregos: medida grande? medida pequena? Mas esta questão interessará a alguém em Portugal? Haverá uma oposição responsável que queira governar e tenha um plano de governo? Haverá uma opinião pública minimamente informada em matéria económico-financeira?
Com efeito, é certo que a Srª Merkel perdeu e os gregos ganharam. Só os mais bacocos elementos do batalhão de semicomentaristas oficiosos das nossas televisões e jornais se deixam enganar pelos eufemismos com que a propaganda alemã começou ontem a mimosear-nos, para ornamentar a sua derrota: «aliviar» (uma linda metáfora de casa de banho) a dívida grega e não reestruturá-la, muito menos perdoá-la. A propaganda dos credores colocou hoje nos jornais uma fuga do pedido grego que exagera a austeridade e, para agradar a Berlim, declara que o perdão da dívida será curto, mas sem o quantificar. Só segunda feira começaremos a medir a exctensão da derrota alemã. Falando a sério: ainda ontem, no Palais Bourbon, um chefe da direita francesa pedia a Hollande e a Berlim piedade para Portugal e por extensão para a Espanha e a Irlanda quando perdoassem a Grécia. Deus o ouça.
O Dr. Passos Coelho acreditou e verbalizou que a Alemanha não cederia e por isso enfileira entre os derrotados de hoje. Acreditou com a fé cega que põe nos mitos urbanos. Donde lhe brotava tão comovente fé? Só podia nascer dos lábios flexuosos da chancelarina os quais lhe tinham dado a saber que não cederia aos gregos, que nunca por nunca ser lhes cederia. A Srª Merkel disse em segredo ao Dr. Coelho o que nos disse a todos em público e ele, por beber do fino e o suposto segredo lhe quadrar ao simplismo mental em matéria económico-financeira, acreditou. Coelho acreditou acompanhadíssimo: grandes nomes da estratégia portuguesa, incluindo do PS, outros políticos com nome na praça asseguraram-nos publicamente que ela não cederia, que os gregos perderiam, que a política da troika era o 11º mandamento que Ieová dera a Moisés no deserto para a salvação da classe política portuguesa.Enganaram-se. Prestaram-se às manobras da nova Cariátide. Fizeram que o nosso país desempenhsse nesta última farsa da Eurozona o divertido papel do Arlequim da commedia del arte. Nunca repararam que a Srª Merkel é tão fértil em ultimatos como é úbere em recuos perante as putativas consequências desses mesmos Diktate? Nunca viram que ela tem a ameaça fácil e a fuga lépida? Os ludibriados, a começar pelo Sr. Chefe de Governo, têm um plano B para compensar Portugal pelos prejuízos do logro em que nos fizeram cair, prejuízos resultantes de termos abraçado alianças internacionais nocivas aos nossos interesses de nação devedora? Veremos.
... com o objectivo de derrubar o Governo grego, campanha a que a comunicação social não se tem fartado de dar voz, Alexis Tsipras dirigiu-se ontem aos gregos com as seguintes palavras (tradução em inglês):
Allocution du premier ministre A. Tsipras au peuple grec. La choix au peuple souverain . Référendum, par Vangelis Goulas
27 de Junho de 2015
Nous avons livré un combat dans des conditions d’asphyxie financière inouïes pour aboutir à un accord viable qui mènerait à terme le mandat que nous avons reçu du peuple. Or on nous a demandé d’appliquer les politiques mémorandaires comme l’avaient fait nos prédecesseurs. Après cinq mois de négociations, nos partenaires en sont venus à nous poser un ultimatum, ce qui contrevient aux principes de l’UE et sape la relance de la société et de l’économie grecque. Ces propositions violent absolument les acquis européens. Leur but est l’humiliation de tout un peuple, et elles manifestent avant tout l’obsession du FMI pour une politique d’extrême austérité. L’objectif aujourd’hui est de mettre fin à la crise grecque de la dette publique. Notre responsabilité dans l’affirmation de la démocratie et de la souveraineté nationale est historique en ce jour, et cette responsabilité nous oblige à répondre à l’ultimatum en nous fondant sur la volonté du peuple grec. J’ai proposé au conseil des ministres l’organisation d’un référendum, et cette proposition a été adoptée à l’unanimité.
La question qui sera posée au référendum dimanche prochain sera de savoir si nous acceptons ou rejetons la proposition des institutions européennes. Je demanderai une prolongation du programme de quelques jours afin que le peuple grec prenne sa décision.
Je vous invite à prendre cette décision souverainement et avec la fierté que nous enseigne l’histoire de la Grèce. La Grèce, qui a vu naître la démocratie, doit envoyer un message de démocratie retentissant. Je m’engage à en respecter le résultat quel qu’il soit. La Grèce est et restera une partie indissoluble de l’Europe. Mais une Europe sans démocratie est une Europe qui a perdu sa boussole. L’Europe est la maison commune de nos peuples, une maison qui n’a ni propriétaires ni locataires. La Grèce est une partie indissoluble de l’Europe, et je vous invite toutes et tous à prendre, dans un même élan national, les décisions qui concernent notre peuple.
Traduction:Vassiliki Papadaki
Texto publicado em: http://syriza-fr.org/2015/06/27/allocution-du-premier-ministre-a-tsipras-au-peuple-grec-la-choix-au-peuple-souverain-referendum/
Nota: Pode ler aqui uma tradução portuguesa surgida depois desta em francês.
Foto de Left.gr.
O governo de Atenas divulgou as intervenções, as propostas e as análises que foram apresentadas aos ministros da zona euro, nas quais o executivo de Alexis Tsipras rejeita uma extensão do programa de austeridade que condenou o país a uma verdadeira crise humanitária.
Esquerda.Net, 18 de Fevereiro de 2015
O conjunto de documentos engloba as intervenções feita pelo ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, durante o Eurogrupo extraordinário de dia 11 de fevereiro e de dia 16 de fevereiro.
Além disso, o executivo helénico faculta ainda a lista de propostas que a Grécia apresentou no dia 11, bem como documentos oficiosos da autoria tanto do governo Syriza como do Eurogrupo. As propostas de comunicados, que acabaram por não ser adotadas, da reunião da passada segunda-feira constam deste lote.
No que respeita aos compromissos assumidos perante os parceiros europeus, Varoufakis frisa peremtoriamente que os gregos rejeitaram o papel da troika na Grécia, contudo, sublinha que o executivo helénico pretende manter a “via do diálogo e da total cooperação” com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, “enquanto país membro da União Europeia, da Zona Euro e do Fundo”.
Assegurando o seu compromisso no que concerne a manter as finanças públicas sólidas, o ministro das Finanças reitera ainda o empenho do governo Syriza em apoiar e acelerar “as reformas estruturais previamente acordadas com os parceiros do Eurogrupo” no que diz respeito, por exemplo, à cobrança tributária, gestão das finanças públicas e reforma da administração pública.
Os gregos comprometem-se também a implementar “medidas sem precedentes” para combater a corrupção e a evasão fiscal e a tornar os concursos públicos mais transparentes.
Nos documentos tornados públicos, Varoufakis assume que o governo do Syriza quer “retomar projetos de infraestrutura com investidores públicos e privados e com o apoio da UE”.
No que respeita às privatizações, o executivo liderado por Alexis Tsipras afirma-se “totalmente não dogmático”. “Estamos prontos e dispostos a avaliar cada projeto pelos seus próprios méritos. Notícias como aquelas que anunciam a reversão da privatização do porto Pireus não poderiam estar mais longe da verdade”, adianta o ministro das Finanças grego, esclarecendo que o “investimento estrangeiro direto será incentivado, desde que o Estado garanta um fluxo de receitas a longo prazo e tenha uma palavra a dizer no que concerne às relações de trabalho e questões ambientais”.
As alienações públicas ao desbarato não merecem o apoio do executivo helénico, que pretende criar um banco de desenvolvimento, no qual incorporará ativos do Estado, a serem utilizados como garantia para assegurar o financiamento do setor privado grego.
A implementação de medidas adicionais para limpar os créditos improdutivos por forma a permitir que os bancos sejam capazes de apoiar as PME e as famílias é outro dos objetivos do governo Syriza.
A Grécia propõe, por outro lado, um saldo primário de apenas 1,5% do PIB, contra os 4,5% exigidos pela troika, convidando o FMI a trabalhar em conjunto para avaliar a sustentabilidade da dívida grega.
Varoukakis fez questão de congratular a recente declaração de Dijsselbloem sobre o facto de o Eurogrupo ser “o fórum adequado para atuar como uma conferência permanente da dívida europeia, abordando os problemas da dívida nos Estados membros da zona euro”.
Sobre o 'financiamento ponte', o ministro das Finanças pede que o Eurogrupo desembolse os 1,9 mil milhões de euros de lucros do BCE com dívida grega referentes a 2014, permitindo o pagamento das obrigações imediatas do país.
Uma extensão do programa de austeridade é linearmente rejeitada pelo governo grego. O executivo de Alexis Tsipras contrapõe com “uma parceria que vincule o país a uma reforma mais profunda mas também reconheça e responda à hedionda crise humanitária, à inexistência de crédito, mesmo para as empresas lucrativas, e à necessidade urgente de crescimento baseado no investimento”.
Leia aqui a entrevista de Varoufakis à Spiegel
Carta Aberta de Alexis Tsipras aos Leitores do Handelsblatt
Publicado no original em 13 de Janeiro de 2015 e traduzido pelo Aventar
A maior parte de vós, caros leitores do Handelsblatt, terá já uma ideia preconcebida acerca do tema deste artigo, mesmo antes da leitura. Rogo que não cedais a preconceitos. O preconceito nunca foi bom conselheiro, principalmente durante períodos em que uma crise económica reforça estereótipos e gera fanatismo, nacionalismos e até violência.
Em 2010, a Grécia deixou de conseguir pagar os juros da sua dívida. Infelizmente, as autoridades europeias decidiram fingir que o problema poderia ser ultrapassado através do maior empréstimo de sempre, sob condição de austeridade orçamental, que iria, com uma precisão matemática, diminuir drasticamente o rendimento nacional, que serve para pagar empréstimos novos e antigos. Um problema de insolvência foi tratado como se fosse um problema de falta de liquidez.
Dito de outro modo, a Europa adoptou a táctica dos banqueiros com pior reputação, que não reconhecem maus empréstimos, preferindo conceder novos empréstimos à entidade insolvente, tentando fingir que o empréstimo original está a obter bons resultados, adiando a bancarrota. Bastava bom senso para se perceber que a adopção da táctica “adiar e fingir” levaria o meu país a uma situação trágica. Em vez da estabilização da Grécia, a Europa estava a criar as condições para uma crise auto-sustentada que põe em causa as fundações da própria Europa.
O meu partido e eu próprio discordamos veementemente do acordo de Maio de 2010 sobre o empréstimo, não por vós, cidadãos alemães, nos terdes dado pouco dinheiro, mas por nos terdes dado dinheiro em demasia, muito mais do que devíeis ter dado e do que o nosso governo devia ter aceitado, muito mais do que aquilo a que tinha direito. Dinheiro que não iria, fosse como fosse, nem ajudar o povo grego (pois estava a ser atirado para o buraco negro de uma dívida insustentável), nem sequer evitar o drástico aumento da dívida do governo grego, às custas dos contribuintes gregos e alemães.
Efectivamente, passado menos de um ano, a partir de 2011, as nossas previsões confirmaram-se. A combinação de novos empréstimos gigantescos e rigorosos cortes na despesa governamental diminuíram drasticamente os rendimentos e, não só não conseguiram conter a dívida, como também castigaram os cidadãos mais frágeis, transformando pessoas que, até então, haviam tido uma vida comedida e modesta em pobres e mendigos, negando-lhes, acima de tudo, a dignidade. O colapso nos rendimentos conduziu milhares de empresas à falência, dando um impulso ao poder oligopolista das grandes empresas sobreviventes. Assim, os preços têm caído, mas mais lentamente do que ordenados e salários, reduzindo a procura global de bens e serviços e esmagando rendimentos nominais, enquanto as dívidas continuam a sua ascensão inexorável. Neste contexto, o défice de esperança acelerou de forma descontrolada e, antes que déssemos por ela, o “ovo da serpente” chocou – consequentemente, os neo-nazis começaram a patrulhar a vizinhança, disseminando a sua mensagem de ódio.
A lógica “adiar e fingir” continua a ser aplicada, apesar do seu evidente fracasso. O segundo “resgate” grego, executado na Primavera de 2012, sobrecarregou com um novo empréstimo os frágeis ombros dos contribuintes gregos, acrescentou uma margem de avaliação aos nossos fundos de segurança social e financiou uma nova cleptocracia implacável.
Recentemente, comentadores respeitados têm mencionado a estabilização da Grécia e até sinais de crescimento. Infelizmente, a ‘recuperação grega’ é tão-somente uma miragem que devemos ignorar o mais rapidamente possível. O recente e modesto aumento do PIB real, ao ritmo de 0,7%, não indica (como tem sido aventado) o fim da recessão, mas a sua continuação. Pensai nisto: as mesmas fontes oficiais comunicam, para o mesmo trimestre, uma taxa de inflação de -1,80%, i.e., deflação. Isto significa que o aumento de 0,7% do PIB real se deveu a uma taxa de crescimento negativo do PIB nominal! Dito de outro modo, aquilo que aconteceu foi uma redução mais rápida dos preços do que do rendimento nacional nominal. Não é exactamente motivo para anunciar o fim de seis anos de recessão!
Permiti-me dizer-vos que esta lamentável tentativa de apresentar uma nova versão das “estatísticas gregas”, para declarar que a crise grega acabou, é um insulto a todos os europeus que, há muito, merecem conhecer a verdade sobre a Grécia e sobre a Europa. Com toda a frontalidade: actualmente, a dívida grega é insustentável e os juros não conseguirão ser pagos, principalmente enquanto a Grécia continua a ser sujeita a um contínuo afogamento simulado orçamental. A insistência nestas políticas de beco sem saída, e em negação relativamente a simples operações aritméticas, é muito onerosa para o contribuinte alemão e, simultaneamente, condena uma orgulhosa nação europeia a indignidade permanente. Pior ainda: desta forma, em breve, os alemães virar-se-ão contra os gregos, os gregos contra os alemães e, obviamente, o ideal europeu sofrerá perdas catastróficas.
Quanto a uma vitória do SYRIZA, a Alemanha e, em particular, os diligentes trabalhadores alemães nada têm a temer. A nossa tarefa não é a de criar conflitos com os nossos parceiros. Nem sequer a de assegurar maiores empréstimos ou, o equivalente, o direito a défices mais elevados. Pelo contrário, o nosso objectivo é conseguir a estabilização do país, orçamentos equilibrados e, evidentemente, o fim do grande aperto dos contribuintes gregos mais frágeis, no contexto de um acordo de empréstimo pura e simplesmente inexequível. Estamos empenhados em acabar com a lógica “adiar e fingir”, não contra os cidadãos alemães, mas pretendendo vantagens mútuas para todos os europeus.
Caros leitores, percebo que, subjacente à vossa “exigência” de que o nosso governo honre todas as suas “obrigações contratuais” se esconda o medo de que, se nos derem espaço para respirar, iremos regressar aos nossos maus e velhos hábitos. Compreendo essa ansiedade. Contudo, devo dizer-vos que não foi o SYRIZA que incubou a cleptocracia que hoje finge lutar por ‘reformas’, desde que estas ‘reformas’ não afectem os seus privilégios ilicitamente obtidos. Estamos dispostos a introduzir reformas importantes e, para tal, procuramos um mandato do povo grego e, claro, a cooperação dos nossos parceiros europeus, para podermos executá-las.
A nossa tarefa é a de obter um New Deal europeu, através do qual o nosso povo possa respirar, criar e viver com dignidade.
No dia 25 de Janeiro, estará a nascer na Grécia uma grande oportunidade para a Europa. Uma oportunidade que a Europa não poderá dar-se ao luxo de perder.
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