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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 11.11.19

Pranto pelo dia de hoje - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  Pranto pelo dia de hoje

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(Almada Negreiros)

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

(in Livro Sexto, Obra Poética II, Caminho)

 

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por Augusta Clara às 19:36

Sexta-feira, 13.06.14

Dia de Santo António

 

Fernando Pessoa  Santo António

 

 

(Almada Negreiros) 

 

 

Nasci exactamente no teu dia —

Treze de Junho, quente de alegria,

Citadino, bucólico e humano,

Onde até esses cravos de papel

Que têm uma bandeira em pé quebrado

Sabem rir...

Santo dia profano

Cuja luz sabe a mel

Sobre o chão de bom vinho derramado!

 

Santo António, és portanto

O meu santo,

Se bem que nunca me pegasses

Teu franciscano sentir,

Catholico, apostólico e romano.

 

(Reflecti.

Os cravos de papel creio que são

mais propriamente, aqui,

Do dia de S. João...

Mas não vou escangalhar o que escrevi.

Que tem um poeta com a precisão?)

 

Adeante ... Ia eu dizendo, Santo António,

Que tu és o meu santo sem o ser.

Por isso o és a valer,

Que é essa a santidade boa,

A que fugiu deveras ao demónio.

És o santo das raparigas,

És o santo de Lisboa,

 

És o santo do povo.

Tens uma aureola de cantigas,

E então

Quanto ao teu coração —

Está sempre aberto lá o vinho novo.

 

Dizem que foste um pregador insigne,

Um austero, mas de alma ardente e anciosa,

Etcetera...

Mas qual de nós vae tomar isso à lettra?

Que de hoje em deante quem o diz se digne

Dexar de dizer isso ou qualquer outra cousa.

 

Qual santo! Olham a árvore a olho nu

E não a vêem, de olhar só os ramos.

Chama-se a isto ser doutor

Ou investigador.

 

Qual Santo António! Tu és tu.

Tu és tu como nós te figuramos.

 

Valem mais que os sermões que deveras pregaste

As bilhas que talvez não concertaste.

Mais que a tua longínqua santidade

Que até já o Diabo perdoou,

Mais que o que houvesse, se houve, de verdade

No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,

Vale este sol das gerações antigas

Que acorda em nós ainda as semelhanças

Com quando a vida era só vida e instincto,

As cantigas,

Os rapazes e as raparigas,

As danças

E o vinho tinto.

 

Nós somos todos quem nos faz a história.

Nós somos todos quem nos quer o povo.

O verdadeiro titulo de gloria,

Que nada em nossa vida dá ou traz

É haver sido taes quando aqui andámos,

Bons, justos, naturaes em singeleza,

Que os descendentes dos que nós amámos

Nos promovem a outros, como faz

Com a imaginação que ha na certeza,

O amante a quem ama,

E o faz um velho amante sempre novo.

 

Assim o povo fez contigo

Nunca foi teu devoto: é teu amigo,

Ó eterno rapaz.

 

(Qual santo nem santeza!

Deita-te noutra cama!)

Santos, bem santos, nunca têm belleza.

Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...

Tira lá essa capa!

Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico

Em fantasia, promoveu-te a mangerico.

 

És o que és para nós. O que tu foste

Em tua vida real, por mal ou bem,

Que coisas, ou não coisas se te devem

Com isso a estéril multidão arraste

Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,

Essa prolixa nullidade, a que se chama historia,

Que foste tu, ou foi alguém,

Só Deus o sabe, e mais ninguém.

 

És pois quem nós queremos, és tal qual

O teu retraio, como está aqui,

Neste bilhete postal.

E parece-me até que já te vi.

 

És este, e este és tu, e o povo é teu —

O povo que não sabe onde é o céu,

E nesta hora em que vae alta a lua

Num plácido e legitimo recorte,

Atira risos naturaes à morte,

E cheio de um prazer que mal é seu,

Em canteiros que andam enche a rua.

 

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,

Sê sempre assim!

Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,

Esquece a doutrina e os sermões.

De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.

Foste Fernando de Bulhões,

Foste Frei António —

Isso sim.

Porque demónio

É que foram pregar contigo em santo?

 

(in Fernando Pessoa, Os Santos Populares, Edições Salamandra e Casa Fernando Pessoa)

 

 

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por Augusta Clara às 15:00

Quinta-feira, 27.03.14

E agora o que é que resta? - Manuel Alegre

 

Manuel Alegre  E agora o que é que resta?

 

 

(Almada Negreiros)

 

 

E agora o que é que resta? Agora que

está tudo como dantes e nós a mais?

Havia um continente e uma guitarra

a nossa vida foi de luta (não te esqueças)

agora que está tudo como dantes.

 

E por isso perguntas para quê

para quê as renúncias os exílios

o heroísmo até? Ah é verdade: o sonho.

«Eles não sabem que o sonho». Por isso

não estão a mais. E tudo como dantes.

 

Nós é que não. Homens de guerra (dizes)

antigos combatentes um tudo nada

românticos. Talvez nostálgicos da própria

nostalgia. Agora que

está tudo como dantes. E nós a mais.

 

Nós que fomos do não quando era o sim

e não caímos nunca em tentação.

Amen. Terá sido por isso que pecámos?

Tudo afinal está como dantes. E nós a mais.

 

Havia o sonho. Etc. e tal. Como despi-lo

agora que não há sequer lugar

para a memória? Paixão da História.

Ou o sentido estético da vida. Agora que

está tudo como dantes. Nós é que não.

 

Porque entretanto temos brancas. Vê:

no cabelo e na alma. Pior ainda:

o que sabes não pode partilhar-se

o que sabes é tua vida: fraternidade

intransmissível. Por isso está a mais.

 

Agora que está tudo como dantes

e não temos senão ó vilanagem

esta página branca onde o poema

continua a bater-se até ao fim.

Agora que

 

(in Babilónia, O Jornal)

 

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por Augusta Clara às 19:00

Segunda-feira, 08.04.13

Almada Negreiros teria feito ontem 120 anos

 

"Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria." (Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro)

 

.

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por Augusta Clara às 17:00



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