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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 27.10.16

O meu irmão João - António Lobo Antunes

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(Morreu hoje o neurocirurgião João Lobo Antunes)

 

António Lobo Antunes  O meu irmão João

 

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Visão, 15 de Setembro de 2008

Agora, há uma semana, sucedeu aquilo do Pedro e de novo te admirei, mano, a tua eficiência, a tua capacidade de decisão, o teu valor, a rapidez pragmática do teu afecto, eu que de pragmático, pobre de mim, nada tenho

   É talvez a pessoa que conheço melhor no mundo e todavia quase não falamos. Para quê? São desnecessárias as palavras entre nós, passámos mais de vinte anos, acho eu, no mesmo quarto, num silencioso princípio de vasos comunicantes que até hoje se mantém. Para além do muito amor que raramente lhe manifestei tenho uma imensa admiração por ele e um orgulho sem limites. Herdou do nosso pai (herdaste do pai, sim, tem paciência) a honestidade, o carácter, a coragem e o horror à mentira. Desde criança foste sempre valente. Se assim à má fi la me ordenassem que dissesse duas características tuas respondia logo a valentia e o pudor, formas supremas da elegância. E isto desde que te conheço, tu que nasceste vinte meses depois de mim (o número vinte deu-lhe para me perseguir hoje) que era cobarde e despudorado e custou-me tanto ver-me livre dessa ganga nojenta, zangado de vergonha comigo. Foste sempre digno e discreto contigo mesmo e com os outros e bem sei, sem mo teres dito, as difi culdades e as dores que sofreste, a carne viva que escondes e eu vejo, a compaixão que não mostras e eu sinto. E a tua oculta e bondosa generosidade. O rigor também, a falta de complacência para com a ingratidão, a pulhice, os sentimentos rasteiros. Claro que tens defeitos: alguns divertem-me, outros enternecem-me, nenhum me incomoda, talvez por serem os defeitos das tuas qualidades da mesma maneira que um automóvel possui os travões adequados à potência do motor. Se fosse Deus não mudava grande coisa em ti: talvez trocasse um móvel de posição, alterasse uma jarra, substituísse um quadro. Na casa não mexia: agrada-me que seja como é. E depois claro que te foi dada uma inteligência superior e isso não vale a pena mencionar porque no meu caso não me serve de nada, ninguém é tão estúpido como um homem inteligente e muitas das asneiras que fi z conhece-las de ginjeira. Lembras-te da mãe - Tão inteligentes para umas coisas, tão estúpidos para outras mas eu canalizei tudo para a escrita, construí-me para isso e os teus interesses são mais variados que os meus. E no meio disto somos tão ingénuos ambos, sensíveis à lisonja, por vezes completamente parciais, cegos em relação aos amigos, de julgamento turvado quando os afectos se misturam nele. É curioso como, sendo diferentes, temos coisas idênticas. O pai não queria filhos, queria campeões de karaté. Conseguiu-os e o preço disso foi uma parte nossa amputada e uma sede de amor sem limites, em ti cuidadosamente escondida. A gaita é que eu sou desbocado e tu não, vivo nas nuvens e tu só às vezes, porque eu vivo nas nuvens e das nuvens e tu tens de confrontar-te com uma realidade imediata que te dá um peso específico maior que o meu e uma relação necessariamente pragmática com certos aspectos do quotidiano. Estou para aqui a escrever isto e a pensar na educação que recebemos, normativa, implacável, no limite da impiedade e da dureza. Quantas vezes nos revoltámos contra ela e, no entanto, que importante foi. Um pai que competia connosco e, mais tarde, te invejava. É terrível a relação do fi lho com o pai, julgando-se mutuamente numa ferocidade sem doçura. Nunca foi doce. Nem tolerante. Que egoísmo horrível naquele homem. E por baixo disso tudo uma vaidade em nós, ou antes uma vaidade nele dado imaginar (a imaginação não era o seu forte, nem o sentido de humor, nem a criatividade) que nos havia feito peça a peça e não fez. Não nos poupava mas poupava-se a si. Dito desta forma parece que lhe quero mal. Não quero. Só que não me acho em dívida: o preço foi alto. Levou a vida que quis, como quis, e impunha-nos à força a sua vontade. É curioso, João: dá-me pena que tenha morrido. Movia-se por paixões, entusiasmava-se e gostava de nós através das nossas filhas por lhe ser impossível amar-nos abertamente. E contudo, mau grado o que acabo de dizer, não duvido do seu amor e de um orgulho genuíno nos filhos, que fazia os possíveis por disfarçar. Estou a ser injusto, de longe em longe descuidava-se. E apesar do que afi rmo, gaita, era, é o nosso pai. Não esqueço as palavras de Herculano a propósito de Garrett que ele repetiu dúzias de ocasiões ao longo dos anos - Por meia dúzia de moedas o Garrett é capaz de todas as porcarias, menos de uma frase mal escrita ou da ordem de Filipe Segundo ao arquitecto do Escorial - Façamos qualquer coisa que o mundo diga de nós que fomos loucos e como esses dois preceitos se gravaram na gente. Isto foi importante para além do que declarei a teu respeito e herdaste dele de facto: a honestidade, o rigor e a coragem. É bom ser filho de um homem desta têmpera e essas qualidades nasceram contigo. Talvez com outro pai houvesses sido igual, não sei. Capaz de todas as porcarias menos de uma frase mal escrita: para mim foi um tiro na mouche. Em cheio. E estou-lhe grato por isso. Estou-lhe grato também pelos irmãos que foram aparecendo, a chorarem como uns danados até aos dois anos, raios os partam. À mãe igualmente claro, de quem a avó nos dizia - Vocês matam a vossa mãe numa convicção que me confundia. Via-nos a apunhalá-la com a faca do pão, a da serrilha grande, e ela a torcer-se na cozinha. Felizmente sobreviveu à faca e segue viva da costa. Agora, há uma semana, sucedeu aquilo do Pedro e de novo te admirei, mano, a tua efi ciência, a tua capacidade de decisão, o teu valor, a rapidez pragmática do teu afecto, eu que de pragmático, pobre de mim, nada tenho. Quando acabaste de operá-lo apeteceu-me beijar-te. Claro que não beijei mas sabes que beijei: és o meu irmão João. Aquele a quem me une um silencioso princípio de vasos comunicantes. E com que alegria repito isto dentro de mim: o meu irmão João. O meu irmão João para sempre.

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por Augusta Clara às 18:30

Segunda-feira, 19.09.16

Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa - António Lobo Antunes

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António Lobo Antunes  Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa

 

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   Este final de setembro, o mês dos meus anos, tem-me custado. Perguntas sobre perguntas acerca de mim mesmo e a angústia do sentido da vida e da forma como me relaciono com ela. O que posso fazer, o que devo fazer? Há um livro a sair agora, trabalho noutro: e depois? Que significa isso para mim? Os meus defeitos aparecem-me de forma muito clara e dolorosa. Não só os meus defeitos: as minhas insuficiências, os meus erros. Sempre imaginei que um livro resgatava tudo: não resgata. E no entanto continuo a escrever, como se esse acto contivesse em si a minha salvação. Sei bem que chegará um tempo em que apenas os livros hão-de contar porque eu, enquanto pessoa, não tenho importância alguma, às vezes nem para mim mesmo. Vou-me olhando de forma cada vez mais distanciada e sem indulgência. A impressão, melhor: a certeza de haver falhado. O quê? Não estou deprimido, não me sobra tempo para depressões, sou apenas um homem, diante do seu espelho interior, que não gosta do que vê. O que poderia ter feito? O que deveria ter feito? Esta permanente tortura que a gente disfarça. A ideia recorrente que aquilo, quer dizer que a única coisa que a vida nos dá é um certo conhecimento dela que chega tarde demais, sempre  tarde demais. Grandes cães pretos que se entredevoram dentro de mim. Estas crónicas têm-se tornado um itinerário paralelo aos livros. Do ponto de vista da Arte recebi muito mais do que poderia ter dese­jado e no entanto trago as mãos vazias. Agora dei duas entrevistas, coi­sa que nunca deveria ter feito. Não ponho em causa a competência e a honestidade dos jornalistas mas não me revejo em nada daquilo, não sou assim e não sou capaz de exprimir aquilo que sou. Os livros falam muito melhor que eu. O que aparece é um estranho e até as fotogra­fias são mentiras porque não me pareço comigo. Acho-me cansado desses jogos. Apetece-me desaparecer atrás das palavras, ser de facto o ninguém que sou: um nome apenas, numa capa. E deixar o resto para mim, dado que não tem nenhuma importância colectiva.

Agora é manhã e está sol. Nenhum ruído à minha volta. Se pudes­se passar a vida a limpo, como diz Drummond, corrigia quase tudo. Que pena não podermos emendar os dias, o que fizemos, o que somos. Um demónio qualquer distorceu-me tudo ou fui eu que dis­torci? Acabando esta crónica retomo a correcção do livro na esperança de, ao emendá-lo, emendar-me. Fui sempre honesto a escrever. E nas outras coisas? Estarei a ser pretensioso ao julgar que sim?

Agora é manhã e está sol. Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lis­boa, escreveu Fernando Assis Pacheco. Tão linda a minha cidade com sol, tão lindo o meu país com sol. Vem aí o outono, o inverno, o cin­zento dos dias que desbota para nós. Não me apetece nada o frio, a chuva. Se eu fosse Deus parava o sol sobre Lisboa. Sinto-o na rua, mesmo com estes vidros baços.

- Está solzinho, que horas são?

perguntava o cego. Diminutivos de que tanto gosto. Maravilhosa língua tão plástica, tão dúctil. Que sorte escrever em português. Fernão Lopes: esta minguada maneira de meu escrever. Esta minguada maneira de todos nós escrevermos. Nem há vento. Gatos e pombos. Fernão Lopes ou Fernão Mendes Pinto? Acabar a crónica, voltar ao livro na minha minguada maneira. Oxalá o sol continue parado sobre Lisboa, parado sobre mim e eu embalsamado nele. Vestido dele. Afo­gado nele. Se eu fosse Deus. Se eu fosse Deus era uma carga de traba­lhos, não lhe invejo a sorte. Ontem jantar em casa da minha mãe, com os meus irmãos. Valha-me isso. Umas noites saio dali mais em paz, outras numa guerra imensa comigo, levando todo o passado às costas, que alegra e dói. Nada mudou e tudo mudou: como eu gostava de ser pragmático em lugar de viver numa nuvem cujos limites, aliás, distingo mal. Ou então a nuvem sou eu. Gasoso. De que raio de subs­tância sou feito? Estou a deixar a caneta correr ao gosto dela, sem poli­ciar nada. Que faça o que lhe apeteça. O sol desapareceu, voltou. Regresso ao papel. Está solzinho, que horas são? O Júlio Pomar

- Como estás tu?

e a lata de me perguntar isto a mim que nunca sei como estou, nunca soube como estava.

- Como estás tu?

é a pergunta mais difícil de responder do mundo. Na tropa tínha­mos um dentista que era um soldado a quem ensinaram a arrancar dentes. A gente sentava-se numa cadeira de braços, ele pegava num ali­cate, dizia

- Frime-se

e começava a puxar. Estou a vê-lo tirar um molar ao capelão, com o joelho no peito dele porque o molar não vinha. Para o fim chorava o dentista, chorava o padre, secavam as lágrimas, o alicate avançava de novo

- Frime-se meu capelão

o capelão todo agarradinho aos braços da cadeira, o joelho imenso nas costelas, o barulho arrepiante do dente a quebrar-se, a ceder, a sair e o capelão branco como papel cavalinho a cambalear na parada. Nos momentos de desespero ordeno-me

- Frima-te

e começo a puxar o primeiro dente da alma que apanho, de joelho apoiado em mim mesmo. De modo que é o que vou fazer agora, neste final de setembro que tanto me tem custado. Ao princípio escrevi: o que posso fazer, o que devo fazer. Pois bem, devo ordenar-me

- Frima-te

e tirar a minha chuva interior a alicate. Se com o capelão deu resul­tado por que bulas não há-de dar comigo? E depois de jogar aquilo tudo no balde

(- Quer ver o seu dentinho meu capelão?)

ser Deus por uns minutos e parar o sol sobre Lisboa. Ora aí está a solução: parar o sol sobre Lisboa, parar o sol sobre mim

- Frima-te António

até deixar de ter precisão de frimar-me.

(in Quarto Livro de Crónicas, D. Quixote)

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 12.09.16

D'este viver aqui neste papel descripto. Cartas de guerra - António Lobo Antunes

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António Lobo Antunes  D'este viver aqui neste papel descripto. Cartas de guerra

 

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"(...) No meio disto tudo começam a sobressair alguns personagens lendários. Um dos mais representativos é o Major, o segundo comandante, gordo e grande, senhor de máximas lapidares. Uma delas, que o retrata por inteiro, é a seguinte: «criada em que o patrão não se ponha nunca chega a criar amor à casa». Como prova, o facto de a sopeira se ter ido embora assim que ele veio para o Ultramar. A essa criada («muito boa») ofereceu ele umas meias pretas («nº. 9, com pontos e vírgulas») com a condição de ela as vestir à sua frente. Chama a isso «acção psico-social» e diz que melhora imenso os almoços. À criada anterior deu ele, num momento de euforia, uma palmada no rabo, dizendo ao mesmo tempo "dá cá uma beijoca». A serva saiu aos gritos, voltou no dia seguinte com a mãe indignada, e a mulher do major esteve um mês sem lhe falar. Divide o acto segundo o qual a face do homem entra em contacto com o baixo-ventre da mulher em três categorias «picotage», «chaffurdage e «toute la langue», e é capaz de beber 3 garrafas de vinho rosé ao jantar e de cantar toda a Madame Butterfly. Gosta de ver as raparigas de meias pretas e cuecas encarnadas, «as cores da artilharia», e quando foi chefe da polícia da Madeira deitou todas as putas locais no sofá («de couro preto») do escritório. Às pretas, e como a carapinha lhe causa uma repugnância invencível, «ponho-lhes a cabeça debaixo do braço mas primeiro dou-lhes banho durante meia hora, ensaboo-as muito bem».

Como vês, pessoas de alto nível espiritual não me faltam. A máxima, então, é deliciosa. A palavra que ele emprega mais é «à ganância», que quer dizer grande quantidade. Mulheres «à ganância», tiros «à ganância", etc.(...)"

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por Augusta Clara às 18:30

Sexta-feira, 22.01.16

As mulheres têm fios desligados - António Lobo Antunes

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António Lobo Antunes  As mulheres têm fios desligados

 

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(Adão Cruz)

 

   Há uns tempos a Joana,
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
- Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
- Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 22.10.15

Mãezinha - António Lobo Antunes

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António Lobo Antunes  Mãezinha

 

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Visão, 16 de Outubro de 2015 

 

Praticamente não falava e desobedecia o mais que podia. Julgo que, na sua ideia, era uma espécie de vagabundo a-social em botão. A minha passagem pela faculdade foi calamitosa e, se acabei o curso, foi devido à teimosia do meu pai e ao auxílio do meu irmão João

   Fez agora um ano que a minha mãe morreu e surpreende-me o que ela tem mudado depois de se ir embora. Não falo de idealização, não falo de saudades, falo de transformações reais. Parece-me que nada se alterou em mim em relação a ela, acho apenas que se modificou com o tempo. A nossa relação não foi sempre pacífica, muito poucas vezes foi pacífica, comecei logo por a minha mãe quase ter morrido, com uma eclampsia, quando nasci e, daí para a frente, as suas preocupações comigo não pararam. Meningite, tuberculose, cancros, isto no que diz respeito à saúde, no que diz respeito ao resto mau aluno, mal educado, o meu percurso escolar envergonhava-a, contava que ia ao liceu pedir aos professores que me pusessem na primeira fila visto que eu não ligava nenhuma às aulas, contava que, durante a prova escrita do exame de admissão, enquanto os outros meninos escreviam eu estava sentado ao contrário na carteira, a olhar para o tecto.

- E por aí percebi logo o que ia ser a vida dele

acrescentava, já a ver-me vender Bordas d'Água e pensos rápidos nas esplanadas. Depois era desobediente, malcriado, mentiroso, passava o tempo a ir buscar papel almaço de trinta e cinco linhas para escrever, lia livros que nada tinham em comum com aqueles que devia estudar e roubava-lhe cigarros para fumar às escondidas na janela da casa de banho, todo inclinado para fora por causa do cheiro. Praticamente não falava e desobedecia o mais que podia. Julgo que, na sua ideia, era uma espécie de vagabundo a-social em botão. A minha passagem pela faculdade foi calamitosa, eu que queria trabalhar nas bibliotecas itinerantes da Gulbenkian e, se acabei o curso, foi devido à teimosia do meu pai e ao auxílio do meu irmão João. Faltava às aulas, ia para o cinema encostar, ou deixar que senhoras que nem via encostarem a perna à minha, apresentava-me aos exames com uma ignorância virginal. Para o fim, desesperada, a minha mãe prometeu que me dava a carta de condução se eu fizesse os exames todos na primeira época e, daí para a frente, a partir do quarto ano, passei a fazer os exames todos na primeira época para ter mais tempo de férias para escrever. Aí, na praia, passava quase o verão inteiro fechado no quarto a fabricar obras-primas que deixavam de o ser mal as lia e acabavam, rasgadas com ódio, no lixo. Consciente da minha ausência de talento proclamava com modéstia

- Vou ser o maior génio do mundo

e recomeçava depois de queimar aquilo junto à figueira do quintal. (O meu irmão Pedro apanhava as sobras. Se calhar achava-me um génio igualmente, sei lá, e fazíamos concursos de chichi a ver quem atirava o jacto mais longe.)

Enquanto isto a minha mãe suspirava

- Oh filho

a abanar a cabeça com desgosto, tentava levar-me para o caminho da virtude, alto e fragoso, mas no fim doce, suave e deleitoso (Camões) e eu insistia nas redações, desesperado

- Ainda não é isto, ainda não é isto

sempre com vontade de desistir mas insistindo numa paciência de boi. A minha mãe lá ia aturando estas e outras desgraças, eu considerava-a intolerante e injusta, ela considerava-me uma criatura estranha (estou a ser simpático para comigo) mas, a partir de certa altura, comecei a olhá-la de uma maneira diferente. Trabalhava como uma moura para educar aquele rebanho de filhos, ocupava-se de tudo e, lentamente, começou a acreditar um bocadinho (pouco) em mim. O meu pai não era um homem fácil, nós não éramos muito fáceis, a sua vida não era fácil, o dinheiro não abundava, ela procedia diariamente à multiplicação dos pães e dos peixes (pães e peixes de toda a ordem) e, estranhamente, comecei a desconfiar que gostava dela mas nunca lho mostrei muito nem fui suficientemente grato. Não sei porque misteriosa razão era, muitas vezes, desagradável para ela, brusco, esquivo. Perto do fim comecei a dizer-lhe poemas, eu que já não os escrevia há que tempos (a minha mãe adorava poesia), a ser, de longe em longe, terno para ela, a, imaginem, beijá-la. Depois houve o episódio horrível da morte do Pedro, que continua a doer-me irremediavelmente. Fomos dizer à mãe, a mãe disse

- Tenham misericórdia de mim

a mãe acrescentou

- Uma mãe não tem o direito de estar viva quando um filho morreu

e, passado pouco tempo, desejosa de se ir embora para estar com o filho de novo, faleceu de tristeza. E principiou a aparecer diante de mim uma mulher inteligente, forte (ela que era pequenina e fisicamente frágil), decisiva na formação dos filhos (foi ela, por exemplo, que ensinou a ler), séria, honesta, de uma dignidade exemplar. Agora sim, conversamos às vezes. Agora sim, compreendo o pouco que recebeu da vida, sem queixumes (nunca foi azeda). Agora sim, compreendo que capaz de amar. Isto tudo ganhou depois de morrer e, claro, o que declarei ao princípio estava errado: não foi você, mãe, que mudou. Mudámos os dois. Quer dizer, deixemo-nos de tretas: mudei eu. Tenho o seu retrato na sala, grande, tão no género da maior parte dos seus filhos. Não no meu que saí à família do meu pai. Mas não faz mal, não é? Vim tanto de si como os meus irmãos e metade do sangue que derramei a escrever esta crónica pertence-lhe.

 

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por Augusta Clara às 18:00

Segunda-feira, 03.08.15

A lição de anatomia - António Lobo Antunes

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António Lobo Antunes  A lição de anatomia

 

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 (Rembrandt)

  

Visão, 7 de Maio de 2015

   Eu tinha dezasseis anos quando me matriculei em Medicina, as aulas começavam mais ou menos um mês depois de completar dezassete e nunca havia posto o olho em cima de um cadáver quando o ensino prático, no teatro anatómico, começou. Depois de esperar com os colegas, de bata e luvas, arrepiadinho de medo, num compartimento que dava para uma sala enorme, cheia de pias compridas, de pedra, os mortos começaram a entrar numa espécie de macas metálicas, com rodas que chiavam, nus, de dedo grande do pé munido de um cartão com o nome, amarelos, direitos como paus. Uns empregados, com uma espécie de guarda-pó, também de luvas, transferiam-nos para as pias num pivete de formol. O que parecia o chefe dos empregados, o senhor Joaquim, gordo e bexigoso, veio anunciar

- Está a sopa na mesa

e nós lá fomos, acanhadíssimos, tentando não olhar (pelo menos eu tentava não olhar, numa vontade louca de fugir a sete pés)

à medida que nos iam distribuindo pelas pias, em redor daqueles corpos amarelos, com o formol a encher-nos de lágrimas. Lembro-me do senhor Joaquim perguntar

- Que tal a sopinha meus senhores?

a um rebanho de miúdos mais ou menos apavorados, a quem ele vendia os esqueletos que era necessário comprar para estudar os ossos. Não comprei nenhum: o meu pai conserva­va em casa, numa mala de vime, os ossos que arranjara em estudante, recordo-me do maxilar inferior ainda com dentes, da caveira, dos ossos mais delicados da cabeça, embrulhados em papel de seda para não se quebrarem, de um monte de costelas e de tíbias, perónios, fémures, destinados a uma aprendizagem decen­te, consoante me recordo da desilusão do senhor Joaquim comigo, porque tinha um negócio de venda daquelas coisas aos estudantes, que lhe arre­dondava os fins de mês. Um sócio dele, coveiro, entregava-lhos no cemitério, à percentagem, o senhor Joaquim, que morava numas águas furtadas, punha a mercadoria a secar no telhado, até perder os fiapos de tendões e músculos que sobravam, limpava-os, lavava-os, secava-os, juntava-os em sacos que nos vendia e lá se apanhava o autocarro a chocalhar aquilo. Perguntei-lhe como fazia para separar os ossos da cabeça e o senhor Joaquim, engenhoso, ex­plicou-me que, pelo buraco occipital, enchia os crânios de favas, despejava-lhes água dentro, tapava o buraco com uma espécie de rolha e os ossos iam-se afastando uns dos outros à medida que as favas inchavam. Continuo sem entender a razão pela qual os vizinhos não protestavam com o fedor: se calhar todo o Campo de Santana, onde ele habitava, colaborava nos esquele­tos, não sei, a realidade era que o senhor Joaquim não parecia viver em conflito com ninguém. Tinha um filho que o visitava às vezes, todo torcido, e ele nos apresentava com orgulho

- O meu rapaz, parkinsonista

dava ideia que contente com a doença:

- Não é para qualquer um.

No meio disto apareciam os assistentes, que nos distribuíam bisturis a fim de começarmos a familiarizar-nos, numa pestilência de formol, com corpos com séculos de frigorífico em que tudo se confundia num lodo castanho, ao pé do qual o parkinsonista me parecia muito mais elegante que o Apoio Musageta ou a Madona da Caldeirinha. O teatro anatómico durava das duas às seis da tarde

(seis ou sete?)

até eu o trocar por um cinema de sessões contínuas na Praça do Chile

(numa rua por trás da Praça do Chile)

com um colega que conhecia a senhora que vendia os bilhetes. Pedia à senhora

- Dê-me dois lugares bons

a senhora, com um piscar de olhos entendido, colocava-nos ao lado de espectadoras solitárias, da idade da minha mãe, que encostavam docemente os joelhos aos nossos no escuro e nos davam a mão durante os filmes. Habitavam nas redondezas e convidavam-nos a acompanhá-las até casa para um chazinho, onde nos faziam festas na cara, nos davam beijos e introduziam dedos sábios nos intervalos dos botões da camisa, a suspirarem

- Ai menino, menino

e a experimentarem-nos a pele da barriga

- Que suave

enquanto a maior parte dos meus colegas se debatiam com os cadáveres no teatro anatómico, procurando a artéria radial numa lama confusa. A pouco e pouco, eu que não queria muito ser médico, queria escrever apenas, interessei-me pelo barro de que aqueles corpos eram feitos, pelo barro de que eu era feito, barro, mau cheiro, repugnância, e custava-me admitir que tudo aquilo tivesse vivido da maneira que eu vivia, até um dia me metamorfosear numa criatura de nudez horrível, cujos olhos abertos escutavam o vazio, não observavam o vazio, escutavam o vazio em que se tornaram, cortados pelos bisturis dos assistentes.

A evidência da minha morte arrepiava-me: apenas uma questão de algum tempo e ossos, músculos, articulações, nada. Não um defunto: nada. Ficariam os livros que eu imaginava ir escrever, não ficaria, se calhar livro nenhum. Nem um dedo de senhora

- Que suave

a explorar-me a pele da barriga numa altura em que já não teria pele: apenas o que fora um corpo, com um cartão com o meu nome amarrado ao dedo do pé. Um nome que não dizia fosse o que fosse a ninguém, retalhado, inútil, explicando aos alunos o absurdo que eu era, deitado no telhado do senhor Joaquim, de ossos brancos ao léu e, no interior do meu crânio, favas a rebentarem com os pombos de Lisboa em torno.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 31.03.15

Carta aos meus pais - António Lobo Antunes

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António Lobo Antunes  Carta aos meus pais

 

antónio lobo antunes2.png

 

Visão, 19 de Março de 2015

 

   Em primeiro lugar quero dizer que estou farto de ser orfão, eu que, em criança, tantas vezes desejei a vossa morte, durante umas horas, quando ralhavam comigo ou não me deixavam fazer o que me apetecia e obrigavam-me a actos desnecessários tais como lavar os dentes, comer sopa ou pegar nos talheres como deve ser. A ordem

- Pega nos talheres como deve ser

ainda ecoa, horrível, dentro de mim, tal como a sinistra pergunta

- Não lavaste as mãos antes de vir para a mesa?

ou a resposta

- Um dia falamos sobre isso

quando calhava interessar-me pelo modo como as crianças apareciam dentro da barriga das mães. Apesar de tudo eu tinha alguma cultura: sabia, claro, que os rapazes faziam chichi pela pilinha, que as meninas por um buraquinho mas um dia vi uma mulher de cócoras no pinhal em Nelas e fiquei banzo: fazia por uma escova. Naturalmente interessei-me:

 - Porque é que as mulheres fazem por uma escova?

e os meus pais primeiro banzos também e depois a lutarem para ficar sérios. Não me explicaram nada e vários mistérios subsistiram durante muito tempo. Primeiro, porque é que as mulheres têm uma escova ali. Segundo, porque é que as escovas, que passei a olhar com desconfiança, fazem chichi. Terceiro, isto acontecerá ao conjunto das meninas, ao crescerem, ou só àquela? Quarto, o exame minucioso a que submeti todas as escovas que encontrei em casa não me deu nenhum resultado esclarecedor: não havia uma que não estivesse seca. As de escovar a roupa, as de escovar o cabelo, as de esfregar o chão. E os meus pais sem responderem. A minha mãe ainda abriu a boca mas não chegou a falar, embaraçadíssima. O meu pai não abriu a boca mas qualquer parte dele parecia divertir-se às escondidas, quando qualquer parte dele parecia divertir-se às escondidas a minha mãe a censurá-lo

- João

e ele logo sério, ausente, a interessar-se pelos meus estudos que, em geral, o desgostavam porque os meus resultados escolares costumavam roçar o trágico e constituíam uma preocupação constante para a família. O facto de eu ser escritor

(sempre fui escritor desde que me conheço e a minha mãe previa-me um futuro de miséria negra)

não desagradava inteiramente ao meu pai, que tinha um respeito sagrado pelos artistas, mas os meus resultados escolares preocupavam-no, queria que eu tivesse uma profissão sólida que me amparasse as veleidades criativas. Para ele, a única profissão sólida e digna era ser médico

 - E depois, nos intervalos, escreves

como Júlio Dinis ou Duhamel. Acabei por lhe fazer a vontade, pai, tornei-me médico, mas o meu curso foi um tormento para ele: reprovações, notas baixíssimas, os seus colegas, professores também, lá me iam deixando passar por amizade. Lembro-me que no fim da prova de Medicina Operatória o catedrático me disse com bonomia, diante do anfiteatro cheio:

- Olha, filho, tens treze e diz lá ao pai que não pôde ser mais.

Isto para além de cartas que ele me mostrava com desgosto, género

O seu rapaz esteve aqui e não sabia nada

ou, comparando-me com o meu irmão

- O Lobo Antunes tem dois filhos, um é bom, o outro é uma nódoa.

Ainda me espanta a razão pela qual o meu pai não me matou. Mas sei que lia às escondidas o que eu escrevia e tinha muitas esperanças literárias no filho, embora nunca me tivesse falado nisso, porque não era dado a confidências ou elogios. A mim não me disse nada mas dizia aos meus irmãos

- O António tem faísca, o António tem faísca

e que, quando comecei a publicar, se orgulhava dos meus produtos. Eu acho que os meus irmãos e eu tivemos muita sorte com os nossos pais, que eram pessoas de uma honestidade irrepreensível, inteligentes, cultas, complexas, rigorosas, com qualidades muito superiores aos defeitos que obviamente também possuíam. Tivemos muita sorte, manos. Agora somos orfãos e não tenho jeito para orfão. Eles também não. E depois perdemos há pouco o Pedro que será sempre uma ferida aberta para nós. E depois da morte do Pedro a nossa mãe informou que não tinha o direito de estar viva com um filho morto. E morreu de puro desgosto, sem doença. Somos orfãos do Pedro também. Sobramos cinco e eu não quero que nenhum deles morra antes de mim. Gostamos uns dos outros sem palavras, com o imenso pudor que herdámos dos nossos pais. Não suporto a ideia da morte do João, do Miguel, do Nuno, do Manuel, como continuo a não suportar a ideia da morte do Pedro. Vou dizer uma coisa. Não devia dizer mas vou dizer. Quando fomos contar à nossa mãe que o Pedro se tinha ido embora ela pronunciou só uma frase:

- Tenham misericórdia de mim.

Sentada na sua cadeira, na sua sala:

- Tenham misericórdia de mim.

Agora está com o nosso pai, a contar, entre muitos outros episódios

- Lembras-te daquela história da escova?

e o meu pai a responder

- Ah

que, no seu caso, às vezes, era um discurso muito comprido. Esta crónica saiu toda descosida e mal feita. Não importa, de que outra forma podia fazê-la? É a minha maneira aselha de pedir que tenham misericórdia de mim, porque não sou o adulto que pensam. Peguem-me ao colo. Às vezes tenho tão poucos anos nos meus anos todos e fico tão leve nessas alturas.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 26.12.14

O herói - António Lobo Antunes

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António Lobo Antunes  O herói

 

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   Visão, 20 de Novembro de 2014

   Tinha estado em África, numa guerra que quase toda a gente esqueceu, e voltou de lá virado do avesso. Magrinho, penteadinho, sempre de gravata, com um andar lento, solene, quando lhe vinha a guerra à ideia mudava por completo: desatava a combater, pontapeando caixotes do lixo e insultando as pessoas, isto já com uma pinguita a estimular-lhe os entusiasmos bélicos, agredia paredes, passava rasteiras a prédios, se por acaso descobria um africano avançava de peito feito a disparar com a boca, ferindo as pessoas de cuspo, e toda a gente sabe, a começar pelas cobras, como o cuspo é mortal, até que, de repente, estacava, o corpo esvaziava-se-lhe como um balão furado, e sentava-se no passeio a chorar por si mesmo. Comia, aqui e ali, o que lhe davam por esmola, ao fumar comia o cigarrito também, e disparava-me em cima uma carga letal de emboscadas, minas, canhões sem recuo, camaradas agonizantes e aldeias a arderem:

-  Matei tudo o que pude

afiançava ele, a bater a palma no peito

- Caiam-me os olhos em gotas no chão se não matei tudo o que pude

na certeza, entre todas nobre, de salvar Portugal do comunismo ateu.

-  O mal foi a revolução explicava-me

-  Olhe a porcaria em que este país se tornou porque

-  0 que não faltava aqui eram traidores de Moscovo e a polícia do Salazar a fingir que não via

porque

-  Sempre fomos brandos, percebe?

enquanto ele e os camaradas dele davam o corpo ao manifesto em África, a morrerem que nem tordos

-  Que nem tordos, amigo a dignificarem a Pátria (palavras dele)

- Ninguém me agradece ter dignificado a Pátria, entende?

e continuar a dignificá-la assaltando a pontapé os sacos de plásticos de restos, que as pessoas deixavam à porta, com inimigos dos portugueses, muito agachadinhos, escondidos lá dentro.

Dormia na entrada dos prédios, umas velhotas piedosas ajudavam-no com trocos que o vinho

Comia, aqui e ali, o que lhe davam por esmola, ao fumar comia o cigarrito também, e disparava-me em cima uma carga letal de emboscadas, minas, canhões sem recuo, camaradas agonizantes e aldeias a arderem:

- Matei tudo o que pude afiançava ele, a bater a palma no peito

- 0 vinho, para os combatentes como eu, devia ser de graça 

anda pela hora da morte e, quer a gente queira quer não, sempre estimula as artérias e clareia o pensamento, se o deixassem, mas não deixavam, já não há alma nesta gente, tornava a partir lá para baixo

-  É lá em baixo, na primeira fila, o meu lugar, não é aqui, amigo e lá em baixo, na selva, metia o mundo nos eixos e o mundo

-  Não se está mesmo a ver? incluindo os americanos

- Os americanos de joelhos diante da gente, que remédio têm eles

com receio das caravelas de antigamente e da sua valentia de agora.

A mulher abandonou-o ao voltar, farta de bravura e copos

-  Umas jibóias é o que elas são, umas jibóias, amigo

Abraçava-me, dado que os verdadeiros heróis são sensíveis

- Aperte-me estes ossos

e, realmente, eram só ossos que eu apertava, empurrava-me com desconfiança

- Não é maricas por acaso, você?

jurava-lhe que não, ele recuava um passo a fim de me avaliar melhor

-  Há os que são e não parecem

consentia

- Pronto, vá lá, aperte os ossos, seja o que Deus quiser

seguido de

 - Não me paga uma sopinha, por acaso?

interrompia-se a meio da sopinha, levantando a cabeça

-  Não os ouve, amigo? eu ouvia colheres contra dentes, ele mais ruídos suspeitos, todo de orelhas alerta

- O batuque

dado que, antes dos tiros, os pretos se estimulavam com tambores em homenagem aos deuses obscuros mas, ao que parece, eficazes em matéria de matanças, explicou-me com simplicidade

- Se por acaso ganham depois comem a gente

após o que regressava, tranquilo, à sopa, pedindo um pão a fim de o esfregar na tigela e aproveitar o que sobrava, o alumínio do prato até brilhava sem necessitar de lavagem, saíamos os dois e sentávamo-nos no passeio

- É melhor ficarmos aqui um bocadinho, pelo sim pelo não, a espiar

ambos acolá na esquina, a tomarmos conta de Portugal até que me agarrava de súbito o ombro

- Camarada

Numa cumplicidade que crescia, com ele a fitar-me, a meia pálpebra

- Se calhar pensa que eu sou maluco não é?

e não pensava, limitava-me a espreitar a possibilidade de me ir embora, que ele interrompia para informar

- Sou um pobre

numa voz sumida, triste

- Não passo de um pobre

a exibir-me o desgaste das solas

- Um pobre

a aperfeiçoar a definição

- Um pobre que não tem ninguém

nem mulher nem filhos, ninguém a não ser a guerra, os cadáveres dos camaradas, as emboscadas, um Portugal grandioso afinal tão estreito, a sua vidinha de loucuras e esmolas

- Um pobre

o fatito, a gravata, o lenço que tirou do bolso, a assoar-se, e nunca vi ninguém assoar-se durante tanto tempo.

- Não acha?

Perguntou-me ele. 

 

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por Augusta Clara às 18:30

Sábado, 11.10.14

O encontro entre António Lobo Antunes e George Steiner

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O encontro entre António Lobo Antunes e George Steiner

 

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quarta-feira, 30.04.14

Crónica da pomba branca - António Lobo Antunes

 

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por Augusta Clara às 08:00



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