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Jardim das Delícias


Domingo, 24.04.16

Concerto para Violino (2015) - António Pinho Vargas

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António Pinho Vargas  Concerto para Violino

 

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por Augusta Clara às 17:45

Sábado, 31.10.15

"O que é que mais detesto em Cavaco?" - António Pinho Vargas

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   O que é que mais detesto em Cavaco? Nem sequer é propriamente o político, em sentido estrito. Mas antes o facto de sermos todos, sobretudo os nascidos nos seus consulados de 80 e 90, "filhos de Cavaco". Entendam-me, por favor. Que valores transmitiu? Que formas insidiosas conseguiu fazer penetrar nas nossas formas de vida? Que estragos provocou? O mais feroz individualismo, a ideia fixa de conseguir sucesso a qualquer preço, a corrosão do carácter, a razão profunda que conduziu muitos às maiores vigarices, aos maiores assaltos aos bancos e ao enriquecimento acima de tudo o resto, a incultura colossal, a ausência de qualquer pensamento de amizade, de amor, de solidariedade, de respeito pelo outro, sempre pronto a ser reduzido a nada à cotovelada, a cedência aos interesses mais mesquinhos como regra, tudo isto se espalhou na nossa sociedade como um vírus, como uma doença mortal, como uma desgraça colectiva, da qual apenas sobrevivem e mal aqueles que tiveram por trás de si, ou dentro de si, uma força quase impossível de passar à prática perante uma tal intoxicação semi-voluntária, semi-imposta sem nos darmos conta. Em suma, uma profunda crise moral, que, concedo, surgiu em muitos lugares do mundo a par com o triunfo do neoliberalismo, ideologia que apenas deixa livre a possibilidade de querer vencer, enriquecer, humilhar e ignorar tudo o resto e todos os vencidos.

É uma ideologia nefasta de todos os pontos de vista - nem na economia funcionou dada a sua ligação intrínseca à crise de 2008, a crise mundial do dinheiro virtual, do crédito a 0%, do endividamento tresloucado com o qual só alguns lucraram, crédito que, antes e depois de ser considerado mal-parado, provocou em 3 ou 4 décadas o aumento brutal das desigualdades no mundo. Não a inventou mas em Portugal foi o seu introdutor e principal instigador até hoje. Desta herança nunca poderá ter nenhuma espécie de desculpa ou de atenuante.

Sem perdão.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 28.07.15

Dança dos Pássaros - António Pinho Vargas

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António Pinho Vargas  Dança dos Pássaros

 

 

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por Augusta Clara às 21:00

Sexta-feira, 10.04.15

"Depois de ouvir uma gravação da 10ª Sinfonia de Shostakovich..." - António Pinho Vargas

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António Pinho Vargas  "Depois de ouvir uma gravação da 10ª Sinfonia de Shostakovich..." 

 

 

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   Depois de ouvir uma gravação da 10ª Sinfonia de Shostakovich não há nada a dizer. A não ser que agradecemos a este homem ter existido e que fomos lamentáveis na forma como o tratámos, uns, ou negligenciámos, outros. Este plural aplica-se aos homens deste micro-mundo, em geral, e a alguns em particular que, durante a Guerra Fria, de combate entre duas visões da "cultura", actuaram de forma duplamente estúpida. Na União Soviética, Shostakovich foi criticado, humilhado, obrigado a retractar-se dos seus erros em público, banido das salas de concertos em dois momentos da sua vida, sendo a razão principal das críticas o seu "formalismo" burguês e decadente, como diziam, o facto de não corresponder totalmente à ideia dos "directores da cultura" de então e à sua visão da atitude estética correcta, o chamado "realismo socialista", aplicado com alguma dificuldade à música. Mas isto - que é sabido por muitos - não é o pior. O pior foi que, no mesmo momento, em particular na segunda fase terrível que teve de enfrentar - final dos anos 40 até 1953 (morte de Estaline) - no Ocidente a sua música era igualmente mal tratada, criticada, vilipendiada, exatamente pelas mesmas razões, só que vistas ao contrário, invertidas. Se na União Soviética era acusado de 'formalismo', no Ocidente 'democrático' era acusado de não ser suficientemente 'formalista', de não estar à altura das "responsabilidades que o estado da linguagem musical" lhe deveria impor, lançando-o nos caminhos da vanguarda supostamente representativa da liberdade da arte nas 'democracias' - este era o objectivo político, totalmente secreto e oculto na época, para os ingénuos que éramos e continuámos sendo por largos anos - sendo neste caso o papel desempenhado por outros "directores da cultura", menos impositivos em aparência, mas igualmente eficazes durante um tempo.

Quem é que no meio desta querela aparentemente estética, mas verdadeiramente política, dos dois lados e não apenas de um, esteve à altura do artista e da sua música? Não os administradores da cultura, mas o público - que vertia lágrimas no andamento lento da 5º Sinfonia na estreia em 1937 em Leninegrado, sabendo bem porque é que aquela música era como era, como nos conta Taruskin - e alguns, uns poucos artistas do ocidente, corajosos e livres, que perceberam o essencial: por um lado "que limitar a arte é anulá-la" e, por outro, que aquela música era, acima de tudo, absolutamente extraordinária não obstante todas as condições em que foi muitas vezes composta e que, percebendo-a, ouvindo-a, admirando-a, a incluíam nos seus programas. Por isso viva este homem livre - no seu sofrimento real, nas suas contradições (era um homem) - que usava a sua cabeça e não a de outros de cujos nomes já não nos lembramos, conseguindo o milagre raro de ser heterodoxo dos dois lados da batalha entre os administradores da cultura opostos, mas iguais na sua desprezível incapacidade de perceber a arte. Há-os em quantidade.
APV

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quarta-feira, 01.04.15

Elogio da música - António Pinho Vargas

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António Pinho Vargas  Elogio da música 

 

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   A relação entre a filosofia e as artes, a música acima de todas, foi sempre uma relação de combate, agónica, como diziam os antigos gregos. Começou logo mal: Platão decretou a expulsão da Cidade de todos os poeta-actores e da música apenas deixou a militar. Séculos mais tarde Nietzsche rompeu estrondosamente com Wagner e Heidegger considerou esse momento "o corte necessário da nossa história". A filosofia, a sua pretensão de pensar o mundo sempre esbarrou com a música cuja especificidade lhe escapava por entre os conceitos. Depois há uma coda: o curto episódio Adorno. Chamo-lhe episódio porque acabou mal: primeiro com mais decretos platónicos e depois um fim infeliz, um choque brutal e auto-destrutivo entre uma teoria radical e chamar a polícia. Depois contradições em quantidade astronómica como dizer que a música, uma música só era autêntica na primeira audição, sendo todas as outras inautênticas, ou que nem precisava de ser tocada bastando ler uma partitura como se não houvesse mais mundo além do europeu.

Esta querela profunda explica parcialmente o facto de hoje, não apenas filósofos, mas escritores, poetas, pintores, arquitectos etc., não serem capazes de redigir mais que umas poucas linhas e, mesmo assim, pouquíssimas no conjunto dos escritos, na maior parte dos casos não sobre a música, mas sobre a experiência de a ouvir, traduzível em palavras. Não há apenas a querela original entre a filosofia e a poesia e, em parte, ainda a representação mimética que Aristoteles tentou e conseguiu salvar da exclusão platónica; há uma outra, tão secreta e sem saída que ninguém dá propriamente por ela. Mesmo o famoso caso Wagner teve lugar e poderoso impacto porque nele havia drama, palco, representação, pintura e poesia. Houvesse apenas música - não obstante, central nele - e mais de metade do caso nem teria ocorrido.

A música intimida, assusta. Ou se lança para a função original mítico-religiosa, ou hoje para a função ancestral ligada à dança própria do novo "entertainment" ou dos fundos obscuros do medo social do silêncio. Não sabemos, mesmo nós, exatamente o que dizer. Por isso é tão frequente produzirmos discursos pomposos, por vezes ridículos na sua pretensão, aparentemente discursos complexos, apenas destinados a especialistas, técnicos, de um vocabulário cerrado e incompreensível, que procuram disfarçar o seu próprio vazio, um vazio óbvio para quem o pode descodificar, tentando ocultar a dificuldade maior: Qual é o seu sentido?

Por isso todos falamos pouco de música e alguns de nós, os mais sensíveis a ela, rompemos em lágrimas. O indizível, o misterioso, é, há séculos, aquilo que a filosofia se esforça por compreender - o mundo, o ser, a morte, ou, em tempos, um além suspeitado - nos seus eternos recomeços. Cada filósofo começa sempre do início. A música não se esforça por compreender nada. Produz sentido, uma realidade sensível e, sem quaisquer palavras, caem lágrimas.

APV

 

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por Augusta Clara às 15:00

Sábado, 21.03.15

As máximas vergonhas de Portugal. A moral da UE. A desgraça do estar-vivo nisto - António Pinho Vargas

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António Pinho Vargas  As máximas vergonhas de Portugal. A moral da UE. A desgraça do estar-vivo nisto

 

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   Portugal podia ter tido a crise-pretexto para sacar dinheiro às populações, podia ter o governo mais à direita que existiu, podia ter desempregados na desgraça e velhos maltratados e jovens emigrantes em grande quantidade, podia ter o mais ridículo presidente, podia até não ter Syrisas nem Podemos, nem nada. Podia mas não devia. Mas, ainda por cima, ter toda esta pouca vergonha que se sucede, caso após caso, episódio após episódio, que nos faz desconfiar de que nos antros do poder, de todos os poderes financeiros, políticos e judiciais, circula uma grande uma enormíssima quantidade de vigaristas, de esquecidos das próprias vigarices, de irrevogáveis e quejandos, de inúmeros casos de tráfico de dinheiro em direcção aos próprios bolsos, que nos faz ver claramente visto que "as reformas" dos discursos eram apenas conversa fiada para justificar tudo o que foi feito quando, afinal, a reforma que devia ter sido feita era varrer toda esta gente que se tem em alta consideração - mesmo quando mente descaradamente - e ela, essa gente, é que era o problema principal do país: as elites financeiras, políticas e económicas, com umas pouquíssimas excepções. Ninguém tem vergonha de nada, e por isso, tudo junto, um e outro dia, sem parar, torna-se verdadeiramente insuportável.

Ninguém se pode admirar que eu vá sabendo das coisas pelos jornais - chega perfeitamente - e não veja televisão. Não quero ver o espectáculo desta miséria, nem a miséria deste espectáculo, que mais parece um polvo, no sentido mafioso do termo, a falar por múltiplas bocas. Mas até uma máfia deve mostrar alguma competência; se não mostra nenhuma deixa de ser digna do seu nome: máfia.

Nem isso conseguem ser: é uma "coisa" mais desorganizada, mais incompetente, mais idiota, mais inculta - mas quão inculta nos seus fatos de bom corte e cabeças ocas e vazias - do que os famosos italianos. 

Como foi possível que o enorme dinheiro que veio da Europa para cavaco parecer competente e que foi parar aos primordiais bolsos corruptos e hoje apenas se possa contemplar quando vemos umas auto-estradas? Todo o resto foi mal gasto, mal aplicado, gasto em boas roupas enquanto houve dinheiro para ir ao bar pós-moderno da moda ou, provavelmente em mais casos, desapareceu talvez nas Ilhas Caimão, ou em Cabo Verde ou nos milhares de offshores do, mais que alguma vez foi, imoral capitalismo actual. Não há ponta por onde se pegue. Perante as medidas do governo grego, justas e urgentes para muitos dos que lá vivem, a Europa, ou melhor dizendo, aquela associação de malfeitores conhecida pelo nome de "credores" tremem: ai que o nosso dinheirinho que tão generosamente lhes oferecemos, para ser gasto em aviões, submarinos e privatizações futuras, vai servir para pagar a electricidade de quem não tem dinheiro para a pagar. Bandidos! Comunistas! O dinheiro é nosso e das nossas ilustres instituições financeiras. Enquanto levámos estes países para a desgraça colectiva dizíamos: "estão no bom caminho", "as reformas vão no bom caminho". Agora, dinheiro tão ilustre, tão fino, tão puro na sua original sujidade intrínseca, nas mãos de umas velhotas gregas na desgraça? Pode lá ser!.

É esta a "moral" da UE.

APV

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 26.02.15

Um Império e um pequeno Império - António Pinho Vargas

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António Pinho Vargas  Um Império e um pequeno Império 

 

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   Creio que muitos estarão de acordo sobre o domínio imperial do capitalismo financeiro global, sem rosto, semi-invisível, constituído pelos poderosos do mundo, os chamados 1%. A mais recente evidência é a de que a região do mundo chamada Europa e um núcleo dela que dá pelo nome de União Europeia, não passa de um eufemismo para designar um pequeno Império no qual a entidade imperial é a Alemanha, o Imperador-informal é Schauble, sendo os restantes países assistentes e/ou colaboradores activos dessa dominação imperial.

Que isto se passe numa chamada União só pode ser uma piada. Manifesta-se através do discurso austeritário já conhecido, através do qual se fez da UE o laboratório eficaz do empobrecimento desta região do mundo, para salvaguarda das entidades financeiras globais - FMI, BM, OMC, etc - e dos bancos alemães, fortemente penalizados pelos investimentos que tinham feito antes da crise do subprime - para os quais foram lançados triliões nesses anos - e realizar o plano da passagem da antiga Europa do ex-Estado Social para o actual Estado austeritário, de elevado desemprego e de baixos salários, dominado pelas regras definidas pela cidade do Imperador e seus acólitos.

Que uma democracia, aparentemente como as outras, eleja um governo contra as regras do pequeno império europeu, no qual o Parlamento Europeu faz a figura do Senado romano a partir de Augusto - ou seja, mantem-se para parecer que existe - e um conjunto de burocratas e ex-membros de bancos, logo passados a novos membros, como Vitor Gaspar, ou ex-membros como Mario Draghi, que seriam totalmente impotentes se porventura quisessem ser potentes. Não apenas não querem negociar (provavelmente ainda haverá por lá dinheiro que precisam de recuperar - por exemplo dos submarinos que lá venderam) como, se o quisessem fazer, não o conseguiriam sem o prévio polegar para cima do imperador.

Na realidade são meros colaborantes e permitem com prazer a autoridade máxima da nova entidade imperial dominante.

O resto é 1) uma actividade política democrática ela própria há muito tempo com pouquíssima participação das populações (já mais sábias do que os sábios que falam e analisam) - excepto quando julgam que valerá a pena - destinada a disfarçar o real domínio e 2) entreter as "massas" com acontecimentos vários (os seus produtos, na maior parte, são concebidos e difundidos pelos EUA: chamam-lhe "entertainment"). Se era este o plano secreto dos encontros de Bildergerg, está consumado.

Mas é melhor saber que se vive num Império do que o logro de pensar que se vive em democracias. O capital neutralizou a política, no seu verdadeiro sentido.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 23.02.15

"Só falta convencer os portugueses a acreditar em Portugal" - António Pinho Vargas

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António Pinho Vargas  "Só falta convencer os portugueses a acreditar em Portugal"

 

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   Já disse que não irei continuar a fazer o papel de porta-estandarte no que respeita à música portuguesa da tradição erudita. O que havia a fazer está escrito, está dito e redito. Mas entra-me pela casa dentro de vários modos uma problemática desse tipo que afecta toda a cultura portuguesa. Neste caso uma frase, chamada a título, no jornal Público de hoje, da entrevista de Luiz Schwartz, editor brasileiro que criou a ...Companhia das Letras Portugal, do grupo Penguin Random House. Diz então: "Vejo, pelas minha visitas que só falta convencer os portugueses a acreditar em Portugal. Os espanhóis, os americanos e agora um brasileiro acreditam". Primeiro envergonho-me, depois tento pensar. Trata-se neste caso da questão da edição literária e o seu estado semi-moribundo. Deste modo reaparece "o medo de existir" de José Gil, a querela identitária interna e a sua particular presença na actividade artística neste país que a torna uma dificuldade, uma heroicidade, nos piores casos, uma existência quase clandestina.

Mas como julgo que não existe uma identidade facilmente isolável ou definível como sendo "os portugueses", julgo que "estes" portugueses de que fala o editor, são as ditas "elites culturais". Mais um problema. Porquê?

Segundo Fernando Pessoa, nos anos 20/30, "as cidades onde há mais provincianos são Lisboa e Porto" e "caracterizam-se pelo fascínio pelas grandes metrópoles europeias". Prossegue agora este provinciano: "Ring the bell?" ou a avestruz que há em nós, prefere não ouvir os sinos e continuar com a sua particular visão do que é um "cosmopolita"?.

Só para irritar alguns destes, direi que nas músicas populares dos vários matizes muito mais facilmente se estabelecem relações de afecto e admiração intensa com os seus artistas. Nem preciso de os citar. É algo que faz parte das evidências.

O resto é fácil de concluir: identifica e localiza, dentre as práticas artísticas, aqueles "portugueses" do título e as suas funções: "não acreditar" como signo de requinte espiritual para uso de saloios disfarçados. Verifica-se igualmente na política a mesma parolice servil como agora foi muito claro.

Se dirão Viva a Alemanha! eu responderei: Viva Varoufakis!

APV

 

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por Augusta Clara às 17:00

Terça-feira, 23.12.14

Teremos perdido de vez a capacidade do riso? - António Pinho Vargas

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António Pinho Vargas  Teremos perdido de vez a capacidade do riso?

 

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         Não seria caso para grande admiração face às desgraças do mundo e do nosso mundo. Há muitos filósofos ainda vivos que admiro mas aquele que parece ser o único capaz de me fazer rir é Peter Sloterdijk. Vejamos esta passagem: "A crítica moderna da ideologia [a crítica iluminista contra as velhas crenças] separou-se funestamente das poderosas tradições do riso do saber satírico que mergulham as suas raízes filosóficas no kinismós antigo [de Diógenes, por exemplo]. A crítica moderna da ideologia arvora a peruca da seriedade e enverga até o fato e a gravata, mesmo no marxismo, e sobretudo na psicanálise, para não lhe faltar em matéria de respeitabilidade burguesa. Despojou-se da sua essência crítica para conquistar o seu lugar nos livros como "teoria". Abandonou a forma viva de uma polémica calorosa para se acoitar às posições de uma guerra fria das consciências" (Crítica da Razão Cínica. p. 44 da tradução portuguesa do meu velho amigo Manuel Resende, que não vejo há mais de 20 anos).

Julgo que o lado mais negro da situação actual em Portugal, para além das verdadeiras desgraças e dos dramas que temos de passar - que tiram a vontade de rir ao mais pintado - reside no facto de quase só haver riso quando ele é estabelecido à priori, como já instituído, nos programas de humor. Perde em espontaneidade e em eficácia. Faz lembrar as gargalhadas pré-gravadas de programas de humor americanos, não vá o público não perceber as piadas, não perceber que "aquilo" era para ter piada. Na maior parte dos casos não tem piada nenhuma. Mas, por aqui, a maior parte deles não me faz rir, por uma razão simples. Ando tão mal disposto que já não os vejo sequer. Tornei-me cinzento sendo que a minha música, se é capaz de alguma coisa, é de fazer chorar, pela via misteriosa das emoções que desencadeia em alguns.

Para além do inesquecível dia 15 de Setembro de 2012, a outra iniciativa que recordo organizada pelo grupo "Que se lixe a troika" - que no seu próprio nome tinha a data marcada - foi a das gargalhadas quando ouviam uma gravação de Cavaco. Este foi um acto subversivo. Aqui reside um assunto sério: o marxismo de fato e gravata tornou-se previsível e sempre sério, nas suas lutas dentro de limites muito bem traçados. Se ganhou "credibilidade", como estes agora gostam de dizer, se "enquadrou as lutas", como dizem outros, perdeu seguramente em capacidade de "subverter". Subverter é uma arte difícil de praticar. Mas para dar um exemplo que me diz respeito, pensar que a música portuguesa é subalterna e algum dia poderia deixar de o ser, mereceria da vossa parte uma enorme gargalhada como resposta e alguns comentários: "O tipo está maluco? Alguém o poderá levar a sério?" Na verdade seria totalmente merecida essa gargalhada cínica. Terei talvez enlouquecido de facto com "a teoria".

Este governo e uma boa parte da oposição seria igualmente bem tratada dessa forma: à gargalhada subversiva. Enquanto que noutros países, Espanha e Grécia, a austeridade desencadeou alterações de vulto do panorama partidário, em Portugal apenas se vislumbra timidamente. Peppe Grilo, por sinal, no país da comédia napolitana por excelência, foi o único que não se aguentou provavelmente porque não tinha substância política nem grande sentido de humor. A fixidez em Portugal talvez derive, ou seja um efeito secundário, do marxismo de fato e gravata descrito por Sloterdijk. O "fato e gravata" de Sloterdijk é uma metáfora de "ser teoria" e não tem nada de literal. Um marxismo que prossegue na sua luta com algumas palavras de ordem com dezenas de anos. Gritadas com a máxima convicção. Há um lado meu que sente sincera admiração nesses momentos. Mas há outro que vê a ineficácia, o adiamento 'sine die' de qualquer transformação, no meio do que é dito com sincera e militante convicção pelos sindicatos, por exemplo. No entanto o empobrecimento está consumado.

Mas nunca se riem e o riso - tipo "que se lixe a troika" - talvez fosse mais subversivo do que aquela repetição séria, para não falar de algumas ameaças que pudemos ouvir várias vezes: "Se não vai a bem, vai a mal". Não foi, nem a bem nem a mal. Mas valera não o terem dito se não tinham meios para avançar para o "ir a mal". Foi apenas retórica da ocasião e, nesses casos, quem se ficou a rir foi Passos e Portas, este, o maior comediante que aqui existe. Voltou a rir-se com a prescrição dos submarinos. De cada vez que ele fala, com o seu fato de estadista, se nos desatássemos todos a rir, talvez ele não achasse graça nenhuma e mais não mereceria. O facto de termos de o continuar a levar a sério é o máximo exemplo da degradação da nossa vida pública e o sinal da nossa incapacidade de subverter o horrível-cómico que nos afecta. Horrível porque os vários tipos de sofrimentos reais não tem graça nenhuma, tal como o empobrecimento de todo um país e de meio continente, com as conhecidas excepções milionárias. Cómico porque consegue continuar a actuar como que se fosse sério, o que é cómico em si mesmo. Espero sinceramente que perca a vontade de rir nas próximas eleições. Não faço ameaças - tipo "vai a mal" - porque todos sabemos (julgo) que não seria verdade. Tenho apenas uma expectativa de uma mudança qualquer.

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 02.12.14

"Shostakovich compôs o seu Concerto para Violino nº 1 em 1944-45" - António Pinho Vargas

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António Pinho Vargas  "Shostakovich compôs o seu Concerto para Violino nº 1 em 1944-45"

 

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   Shostakovich compôs o seu Concerto para Violino nº 1 em 1944-45. Guardou-o na gaveta até 1955. Ele sabia porquê. Caso a obra tivesse sido estreada/tocada naqueles anos, banido que estava, Estaline teria mandado prender e fuzilar imediatamente o compositor como fez com muitos outros artistas, velhos bolcheviques ou meros suspeitos da imensa população que pereceu. Sabia que ninguém aguentaria então ouvir o Nocturno (I) nem a Passacaglia (III) sem ouvir/sentir imediatamente o mais nítido retrato do medo aterrorizado - individual e colectivo - tão perigoso como a beleza transcendente, insuportável para ele, que da obra emana. Então esperou na antecâmara do suicídio que considerou como hipótese, disseram amigos.
Ouvir uma tal peça, seria ouvir um grito impossível de aguentar para Estaline e o seu regime, ainda por cima com outros dois andamentos, o Scherzo (II) e a Burlesque (IV) verdadeiros equivalentes das gargalhadas de Nietzsche ou de Foucault. As gargalhadas dos filósofos (ou dos compositores) são atemorizadoras para os ditadores, tal como a beleza ou o sublime o era. São demais para quem tem medo, um tipo de medo paranóico, muito diferente do medo simplesmente humano de Shostakovich.
APV

 

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por Augusta Clara às 16:30



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