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Jardim das Delícias


Domingo, 27.11.16

A violência na política e o politicamente correcto - António Ribeiro

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António Ribeiro  A violência na política e o politicamente correcto

 

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   A violência na Política é um tema recorrente e ganhou presença e intensidade nos Media e nas redes sociais com a morte de Fidel Castro. Não gostava de deixar passar o assunto em claro num momento destes, em que vejo tantos neo-pacifistas a verterem lágrimas sobre algumas vítimas de Castro, tendo eles mesmos branqueado com o seu silêncio as vítimas dos fascismos europeus, as vítimas das primaveras árabes, as vítimas da intervenção imperialista no Médio Oriente e na Líbia, as vítimas do apartheid na África do Sul, as vítimas dos algozes que destruíram as sociedades do Chile, da Argentina e do Brasil há não muitos anos. E nem recordo as nossas próprias vitimas do Tarrafal, de Pidjiguití, de Batepá, de Wiriamu, que são tão discretamente nossas e tão privativas... Onde andavam esses humanistas da 25ª hora quando as tragédias aconteciam e eles se refugiavam no "não sei o que se passou", no "deve ser exagero", ou no famigerado desabafo apaziguador do "a guerra é muito injusta"? Eu sei o que se passava e conto-vos. Desgraças e violências longe da nossa casa são pimenta e refresco no cu dos outros. A nossa cultura judaico-cristã é aliás exímia na segmentação da violência política, ou, melhor dizendo, da "violência na Política". Mas a violência sempre fez parte da Política e não começou propriamente no nosso tempo, com a dureza da ditadura castrista em Cuba, que aliás tinha boas razões para não poder ser muito mansa. Essa violência vem muito de trás. Das Cruzadas. Da Revolução Francesa. Do Colonialismo em África e nas Américas. Do esclavagismo, que é componente fundadora dos EUA modernos e parte integrante da desgraçada história da América Latina. Da revolução soviética e da chinesa. Da luta anti-imperialista. Do sofrimento dos palestinos. E da resistência legítima dos trabalhadores e sindicalistas, dos comunistas perseguidos, dos camponeses sem terra, das mulheres esmagadas pelo machismo, e das minorias LGBT. A violência é uma espécie de legitimação pragmática das soluções políticas de quem não pode ir a votos. Eu sou contra a violência na Política em Democracia, mas não sou contra toda a violência na Política em sistemas que ignoram os direitos mais básicos das pessoas e onde não existem válvulas de escape. Quando um agrário é abatido por um sem-terra nos confins da Rondônia brasileira, depois de ele mesmo ter morto muitos camponeses antes disso, eu também verto por ele uma furtiva lágrima, mas compreendo. Quando Fidel mandou abater o general Ochoa, que andara por Angola a amassar fortunas e a conspirar, eu também verto por ele uma furtiva lágrima, mas acho que só teve o único castigo possível. Mas não me venham agora, a propósito da morte natural de Fidel Castro, com essa conversa de mau-pagador, de quem se esqueceu de que a História avançou com sangue, suor e lágrimas e com muitas vítimas inocentes enterradas em valas comuns. Lembrem-se da Bósnia, lembrem-se de Aleppo, lembrem-se do que se passa agora nas Filipinas, lembrem-se disso tudo e mais do quem aí com Trump & amigos. E denunciem sempre os hipócritas do politicamente correcto e da memória curta. Sou Democrata, mas não sou parvo. A violência é uma coisa muito chata, mas às vezes faz muita falta. Sem ela, a História tinha parado há mil anos e não havia sequer Democracia nos dias de hoje. 

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por Augusta Clara às 14:35

Quinta-feira, 17.03.16

Brasil: a grande manobra da direita contra Lula da Silva - António Ribeiro

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António Ribeiro  Brasil: a grande manobra da direita contra Lula da Silva

 

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       Incomodam-me alguns com a história de Lula da Silva. Mesmo amigos que respeito, aparecem por aí desembestados com esta porcaria toda, como nunca o estiveram com Collor de Melo ou com (por cá também temos disso) um Dias Loureiro, um Paulo Portas, um Zeinal Bava ou um Henrique Granadeiro; ou com qualquer um dos vários banqueiros que nos estão a custar os olhos da cara.

Não conheço pessoalmente Lula. Nem tenho interesses pessoais no Brasil. Mas viajei extensamente por esse grande país da lusofonia, grande em recursos e em capacidades. Não sei sequer se Lula roubou ou não alguma coisa no exercício das funções públicas. E se for culpado, que o condenem. A Lei deve ser igual para todos. Mas mesmo para todos, não apenas para alguns! E constato que há uma parte ruidosa, embora minoritária, do Brasil que não gosta dele. Cerca de dez por cento. Desde logo porque nasceu humilde e trabalhou numa cidade industrial do estado de São Paulo, onde foi operário.

Mas há mais razões para tanto incómodo e excesso de zelo das elites. É que o país (qualquer país) tem recursos finitos e necessidades infinitas. E quando alguns estão no poder apropriam-se da maior parte do rendimento nacional. Mas quando, finalmente, um ex-quase pé-descalço consegue chegar ao Poder, com credenciais modestas mas fortes convicções, e opera uma redistribuição do rendimento nacional em benefício dos mais pobres, logo começa o escândalo. Cá em Portugal também se passa isso, com a modesta redistribuição operada por aquilo a que depreciativamente alguns despeitados chamam "a geringonça"; ou com o ódio profundo que esses mesmos nutrem a um ex primeiro-ministro mais "fontista" e reformador do que todos os outros e que pretendem condenar a todo o custo.

O Brasil é um país muito rico, mas ao mesmo tempo muito pobre. Foi historicamente pilhado por uma minoria profundamente corrupta, por uma pequena elite que dispôs de todos os seus recursos e se apropriou prolongadamente dos dinheiros públicos e com eles construiu fortunas impensáveis.

Essa gente, enquanto há desenvolvimento, aquieta-se. Por isso Lula e o seu governo conseguiram tirar da pobreza, em poucos anos, 60 milhões de brasileiros que passaram a integrar uma pujante classe média. Gente que antes vivia na miséria e que passou a ter uma vida digna. Mas, quando os preços dos hidrocarbonetos caem e a crise financeira aperta, o Brasil fica a descoberto, é apanhado em contra-pé, e a oligarquia do costume logo salta indignada, pronta a jurar vingança, a humilhar e esmagar o pobre que ousou um dia alterar o ancestral estado das coisas. Para que sirva de exemplo, para que nunca mais alguém ouse fazer o mesmo!

Custa ver o que se passa no Brasil por estes dias. Num país que alimenta uma tamanha cultura de corrupção - que faz parte do ADN nacional, nem que seja por desporto - não é de estranhar tanta indignação por alegados favorecimentos (não provados) de um ex-Presidente a um grupo de empreiteiros? Isso num país onde toda a gente sabe que os votos dos Senadores se compram para operar reformas legislativas e emendas constitucionais ao preço de várias dezenas de milhões de dólares por voto. Se não sabem, pois que leiam "Notícias do Planalto", um livro sobre os escândalos da época de Fernando Collor de Melo e que levaram á sua demissão.

Essa gente que agora anda tão indignada, até apela aos militares que intervenham e reinstalem a Ditadura, como o fizeram, nos anos sessenta, outros militares-criminosos com o Acto Institucional Nº 5, que colocou o Brasil sob uma mordaça fascista e o o submeteu à mais formidável pilhagem de que há memória.

Antes de se indignarem com as supostas patifarias de Lula, que leiam e que se informem. Mas não venham falar do que não sabem. E, sobretudo, sendo Portugueses, que não venham fazer a política de cá através dos problemas de lá. Porque é aí mesmo que querem chegar. Não nasci ontem.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 12.03.16

Benvindos ao marcelismo-leninismo! - António Ribeiro

 

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   Para quem pensava que já não havia nada para inventar em matéria política e ideológica, o dia 9 de Março trouxe uma imensa novidade a Portugal e ao Mundo: o maravilhoso mundo novo do Marcelismo-Leninismo!

O facto é que esta velha Nação de quase 900 anos, cuja História o novo Presidente tanto incensou logo no dia da inauguração do seu "buffet" político, continua a dar novos mundos ao mundo e a apontar os caminhos da mais criativa dialética.

Quem podia adivinhar que seria um herói nado e criado nos naperons e nos "frous" do Ancien Régime, e suavemente educado pelas Tias fofinhas do Movimento Nacional Feminino, a assaltar em 2016 o nosso quartel de Moncada e a fazer a diferença em Belém, esse palácio mítico que evoca o berço de Jesus. Qual Fidel, qual Che, vocês já foram! Agora, o que está a dar... dá pelo nome de Marcelo Rebelo de Sousa!

Deus seja louvado! Fosse o Padrinho ainda vivo e ficaria orgulhoso da volta que isto deu. Acabou a luta de classes! Malta da Quinta da Marinha e do Bairro do Cerco, unidos venceremos! Alexandre Soares dos Santos e Zé Chunga, o bar fica aberto dia e noite! Fado e tintol, sem dúvida, mas também muitos coiratos e chutos de seringa! E futebol, muito Futebol acima de tudo, para que o Braga se faça também uma Nação!

lô Trump, alô Putin, alô Merkel, alô Kim Jong-un. Olhem para Portugal. Venham cá beber uns penáltis e comer umas sandochas com o Professor Marcelo mais a malta. Deixem-se dessas merdas que vos dividem, quem tem Marcelo tem tudo e o admirável mundo novo já cá chegou primeiro. Bem feita para vocês todos!

Sim, porque Portugal sempre andou muito à frente. Nas Cruzadas, nos Descobrimentos, no Colonialismo, e na Revolução em que os canos das espingardas viraram floreiras de cravos.

Dá gosto viver aqui neste país gentil. Dá gosto aprender com o Professor que sabe tanto. Dá gosto saber que o Palácio do Poder se transformou de repente na Casa de Nós Todos. E dá gosto poder abraçar o Patrão disto tudo e poder dizer-lhe “Eh pá, estás muita baril!”

Quem quer cá saber se o Marcelismo-Leninismo é a Esquerda da Direita ou a Direita da Esquerda? Ou nem Direita nem Esquerda, mas antes pelo contrário? Bah, isso são tudo minudências e trocos ideológicos.

Agora vamos ser todos felizes e amigos. Não emigrem mais, aproveitem a curtição que vem aí. Depois de tudo o que nos aconteceu, também já merecíamos um barrete decente. Perdão, uma boina decente.

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por Augusta Clara às 19:06



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