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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 06.08.20

O Pássaro Azul - Eva Cruz

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Eva Cruz  O Pássaro Azul

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(imagem de autor desconhecido)

   Hoje decidi ir ver nascer o sol.
Braços de uma luz ainda débil espreguiçam-se por entre a serra negra e o céu azul. Lentamente, uma franja de sol ofusca os olhos, e de repente ele nasce como uma criança do ventre da mãe natureza.
Os pássaros e toda a bicharada acordam. Das copas das árvores e dos ninhos sai uma chilreada sem fim, saudando o dia luminoso e quente. Debandam pelo céu fora sobre os campos verdes para os lados do rio à procura de água e comida. Com este afã começa o seu trabalho.
Comtemplo o céu, e o azul tem a transparência da água e é tão fundo que não lhe adivinho o fim. Por mais que prenda os olhos à lonjura, perco-me nesse desconhecido a que chamam infinito.
Passam bandos de estorninhos, de pardais, de pombos e pássaros que nunca vi, pássaros pretos de asas vermelhas. Estarei a sonhar? Eu sei desde criança que mesmo acordada, a natureza sempre nos convidou ao sonho. Mas não, são mesmo asas vermelhas ou então será o sol a dar-lhes de frente. Ou a ilusão a voar. A natureza anda muito estranha, e surgem por ali pássaros que há muito desapareceram e outros nunca vistos.
Os melros são à farta, mas esses voam rasos pelos campos fora. Não precisam de ir mais longe. Têm comida à mão de semear. Algumas carriças, pequeninas e redondas, empoleiradas na ramada, olham-me bem nos olhos, não sei se com estranheza ou simpatia. Pelo menos não se mostram assustadas.
Nos abetos, praguejam as pegas e os gaios numa linguagem estridente que destoa do chilrear ameno dos outros pássaros. Talvez seja um aviso, um alerta, um alarme porque de repente enxergo um milhafre a planar por ali, em voo ameaçador.
No bico da pereira, já a mostrar as peras criadas, os meus olhos dão com um pássaro azul, de papo cinzento, tão lindo e tão diferente que me pareceu um pombo-rolo ainda novinho. Mexia a cabecita, com o bico virado para o meu lado. Aproximo-me da grade do varandim para o ver mais de perto e ele desaparece. Fugiu, pensei. Sento-me de novo e volto a vê-lo poisado no bico da pereira. Repito o mesmo acto e novamente desaparece tornando a vir. Então assento bem os olhos na árvore e reparo que as folhas e os galhos desenham um pássaro azul, tão belo e tão estranho, o mesmo que eu via do meu lugar, sentada. Uma brisa leve agita as folhas, e a luz, dando-lhe vida, faz com que se movimente e vire a cabeça para o meu lado.
Tive plena consciência da ilusão. Mesmo assim, voltei a sentar-me e passei a tarde a contemplar aquele pássaro azul no bico da pereira.

 

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por Augusta Clara às 13:33

Quarta-feira, 05.08.20

Um bramido de raiva - Adão Cruz

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Adão Cruz  Um bramido de raiva

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(pormenor de quadro de Adão Cruz)

Senti um frio arrepiante e um buraco negro nas entranhas,
tão fundo como a silhueta daquele maldito comboio da
inglória velocidade rebentando a dor direito à morte que está
em pé na berma do cais, pela mão de uma criança.

 

O pai, nos braços de um escombro deste mundo sem sol
e sem lua, destino bárbaro e cruel da perda total, de mão dada
com o filho contra a majestade de um gélido cadafalso de
ferro, parido pela força de um desumano progresso contra o
qual se esmagam os pobres e desamparados que vivem em
contramão.

 

Meu menino sonâmbulo, de olhos negros e pálida doçura
quase luminosa, firme, terna, inocente, confiante na verdade
desfeita em sangue pela mentira das mãos fatalistas de uma
sociedade podre.

 

Podia ser um menino nascido no berço do lado, ao colo de um
pai ou de um avô milionário, desiludido porque a sua fortuna
não havia atingido o limiar do absurdo, o que não deixava de
ser triste, mas a vida filha da puta, meu menino pobre, nada
mais te deu do que um pai sem nada, sem prendas, sem força
nem entreactos que te enxergassem melhor sorte do que a
morte.

 

O monstruoso comboio entra na tua boca a toda a brida, o
ar louco sai em turbilhão do teu pequenino peito sem eco, a
vida estilhaça-se em ruidoso estrondo e o teu corpo frágil
cai em pedaços sobre os bonecos das tuas meias, no pavoroso
silêncio dos teus olhitos redondos.

 

E o mundo continua como se nada tivesse acontecido.

 

Quando vi que eras tu o menino que estava no curto
caminho da morte pela mão de um pai que não dominava
a fome, e não tinha dinheiro para te comprar uma bola, um
pai que não sorria nem cantava para ti porque a alma se
perdeu na praça do medo com o sol congelado na boca, senti
um bramido de raiva e uma louca vontade de pedir contas a
Deus.

...

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por Augusta Clara às 14:39

Terça-feira, 04.08.20

A Máscara - Eva Cruz

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Eva Cruz  A Máscara

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(máscara dos médicos da peste negra) 

 

   Só de pensar na desilusão ou nihilismo de Shakespeare e Macbeth “… A vida não é mais do que uma sombra errante, um pobre actor que se pavoneia e se esforça no seu momento sobre o palco, e que depois ninguém mais ouve… uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria significando nada…” apetece-me deixar cair a máscara.

Estou cansada deste ritual que me tapa a boca e o nariz e me impede de respirar o ar fresco da manhã e mostrar a cara que a vida me deu. Estou cansada de sentir que não sou eu. Gosto de ser eu, gosto de sorrir e ver o sorriso dos outros. À minha volta todos me parecem iguais, sem expressão, sem rosto, sem dono. A cor pode variar, preta, azul ou branca, mas não deixa de ser … nada.

Protecção, disfarce ou adereço, a máscara esconde a identidade de quem a usa para os fins que entender. A arte também se serve da máscara para, de uma forma catártica ou lúdica, exprimir melhor sentimentos do Bem ou do Mal. Na dança, no teatro é um símbolo de disfarce ou de ajuda para reforçar o carácter da personagem. No teatro grego, são conhecidas as máscaras da Tragédia e da Comédia, a primeira com as comissuras labiais e o canto dos olhos virados para baixo, inspirando sentimentos de tristeza, e a da Comédia com as mesmas marcas faciais viradas para cima, provocando riso e alegria. Em outros rituais religiosos, civilizacionais, rituais fúnebres, a máscara é mais do que disfarce ou acessório, é símbolo de transfiguração da vida. Como protecção, ficou conhecida na História a Máscara da Peste Negra usada na Idade Média, semelhante a uma cabeça de águia com um bico enorme, contendo mirra e cânfora como desinfectante. Uma máscara horrenda, o medo metendo medo a si próprio.

Nos nossos dias, volvidos tantos séculos, julgando nós que o mundo evoluiu ao ritmo da velocidade da luz, vemo-nos todos no mesmo palco, como sombras errantes, como actores da mesma tragédia ou da mesma tragicomédia. Tira máscara, põe a máscara, numa dança e contradança inspiradas pelo medo ou esquecendo o medo para dar asas à vida que assim se nos vai escapando neste teatro infernal.

O medo está associado ao instinto de sobrevivência e é ele que me tira a coragem. Vou ser amiga do medo e, pelo sim e pelo não, lá tenho eu de pôr a máscara.

 

 

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por Augusta Clara às 13:00

Sexta-feira, 03.07.20

Serra Mágica - Eva Cruz

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Eva Cruz  Serra Mágica

   A Serra da Gralheira é uma catedral de pedra e xisto, estendendo-se ao longo dos céus por entre quatro contrafortes, a Serra da Freita, a Serra da Arada, a Serra do Arestal e a Serra de S. Macário. Cordilheira de côncavos e convexos, berço e leito de rios e riachos, tecida de uma rara e abundante fauna e flora, rasgada pela rudeza das lajes e das fragas, vestida pelas mil cores das plantas rasteiras, urze, giesta e carqueja ou pelo manto luxuriante de soutos, carvalhos, pinheiros, medronheiros, azevinhos, em matas cerradas onde quase não entra o sol.

Aninhadas nas dobras dos montes ou nas íngremes encostas, cresceram desde remotos tempos pequenas aldeias ou povoados, junto a ribeiros mansos, ora rebeldes e tumultuosos, que se enroscam e furam por entre pedregulhos e fragas, à procura de irmãos mais velhos que os hão-de levar ao mar. Merujal, Albergaria da Serra, Mizarela, Manhouce, Cabreiros, Bouceguedim, Rio de Frades, Covêlo de Paivô, Regoufe, Drave, Aldeia da Pena, Covas do Monte, Coelheira, Candal são algumas entre as muitas que por lá vivem, algumas recuperadas, bem tratadas e com belos recantos de sossego e lazer.

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Foi Rio de Frades que levou estes quatro amigos a tão longínquas paragens, guiados pelas mãos hábeis do nosso amigo condutor do jeep, subindo e descendo por rendilhados fios de estreitíssimas estradas, profundos vales e altas montanhas, ajudado de mapas e GPS, o qual, no meio de tal labirinto, muitas vezes perdeu o tino, e já baralhado, se reduziu ao silêncio, provavelmente a pensar onde se meteu e a descobrir como sair dali.

Rio de Frades foi um importante Couto Mineiro, no tempo das duas Grandes Guerras Mundiais, essencialmente explorado por alemães. Para ali se deslocaram mineiros, capatazes, exploradores, por caminhos de cabra, a pé, a cavalo ou de carro de bois. Não havia electricidade. Geradores forneciam a energia necessária às minas e à povoação. Munidos de brocas e martelos esventravam as montanhas, cavando galerias e furando túneis, para arrancar às suas entranhas o tesouro branco de quartzo, encastoado de volfrâmio, o minério ou ouro negro como lhe chamavam, usado na têmpera e blindagem de armamentos como canhões e endurecimento de munições. Um quilo de volfrâmio chegava a valer mil escudos, uma verdadeira fortuna para aquele tempo. Muitos lá morreram e por lá sepultaram os seus sonhos. Meu avô materno foi um deles. Era capataz, juntamente com um alemão, e ali perdeu a vida com toda a sua família, incluindo os seus dois filhos mais velhos, ele com dezanove anos e ela com dezassete, vítimas da pneumónica. Salvou-se a menina mais nova, com dez anos, nossa mãe. Ali morreu também o alemão e a família. O nosso avô e o alemão tiveram direito a sepultura. Todos os outros foram enterrados na vala comum. Ainda hoje lá se encontram as casas quase arruinadas onde viveram o meu avô e o alemão.

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Regoufe, não muito longe dali, a cerca de cinco quilómetros, foi outro Couto Mineiro. A Companhia Portuguesa de Minas explorava juntamente com os ingleses os filões do minério. Curiosamente, os alemães e ingleses entendiam-se bem no campo da exploração do volfrâmio, apesar de inimigos. Hoje, Regoufe é uma cidade fantasma feita de esqueletos de casas, lavarias, tanques e túneis. Mais tarde, com a segunda Grande Guerra, foi aberta uma estrada de macadame pelos alemães e levada a electricidade às minas. A iluminação era tal que Rio de Frades e Regoufe pareciam cidades. Enquanto em Rio de Frades as casas já estão muito adulteradas, em Regoufe tudo está mais preservado, conservando a sua autenticidade. Por lá se mantêm ainda de pé muitos esqueletos do passado, quase intactos.

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“À la recherche du temps perdu”, quase tivemos a sensação de recuperar aquele espaço fantasma e encontrar o tempo perdido daquelas ruínas, nos meandros da memória, da lembrança, da reflexão e dos trilhos da arte. Sentir a Arte é também encher a alma de saudade e os olhos de beleza, a beleza daquela Serra Mágica.

Terminámos a viagem, entremeada por um excelente farnel saboreado nas margens cristalinas do Rio Paivô, oferecido pelo casal nosso amigo, assim entoando de novo o hino à amizade de muitos anos.

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por Augusta Clara às 15:03

Sexta-feira, 26.06.20

Cemitério dos livros NÃO esquecidos - Eva Cruz

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Eva Cruz  Cemitério dos livros NÃO esquecidos

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   Todas as mortes chocam e incomodam. São vidas perdidas, irreparáveis, que matam outras vidas que continuam a ter de viver. Há uma sombra permanente que nunca mais deixa o sol ou a lua terem o mesmo brilho. Qualquer perda de uma vida deixa alguém a sofrer, penso eu, mesmo a daqueles que estão sozinhos no mundo, mesmo a dos maus, que por aqui cá andam apenas a fazer estragos. Pelo menos comigo, eu sinto que há sempre algum grau de compaixão que me assiste, talvez por tanto amar a vida e odiar a morte.

Recentemente, houve uma morte que mexeu muito comigo, a do escritor Carlos Ruiz Zafón. Gosto muito de ler. A leitura é e sempre foi um dos maiores prazeres da minha vida. No entanto, há livros e livros, há escritores e escritores. Estudei várias literaturas e li muitos livros. Reconheço que sou muito exigente quanto aos temas e particularmente quanto à forma. A arte literária, a arte da palavra contém em si uma harmonia, uma melodia e uma textura poética muito especial que têm muito que se lhe diga. Sem qualquer presunção, posso dizer que há livros e escritores consagrados que me dizem pouco. Como em qualquer expressão artística, consagra-os um júri ou um qualquer elenco seleccionado por critérios restritos e depois a fama encarrega-se do resto. Assim vivem os consagrados à custa dos consagradores e vice-versa. E quantas vezes apetece gritar que o rei vai nu.

Zafón é e será sempre um ícone, apesar de ter escrito pouco e ter poucos galardões. É um escritor apaixonante, arrebatador, não só pela força da imaginação, pela criação difícil e nada fútil do enredo, mas sobretudo pela forma como constrói a narrativa. Confesso que não gosto muito de livros grandes. Cansam-me. Porém, isto não me acontece com Zafón.

Dos livros que li de Zafón, “A Sombra do Vento” tocou-me particularmente. É um labirinto de emoções e sensações que deixam o leitor apaixonado por uma leitura impossível de parar, que arrebata até ao fim. Carlos Ruiz Zafón é um verdadeiro escritor, um romancista a sério. E o Romance “é uma pequena carta de amor à arte da narrativa, ao ofício de criar e contar histórias, uma homenagem a quem as constrói palavra a palavra”.

Aqui lhe deixo esta singela homenagem, uma flor branca no “Labirinto dos Espíritos “a um “Prisioneiro do Céu” como “o Jogo de um Anjo” na “Sombra do Vento”.

Que os seus livros fiquem para sempre no mágico lugar do” Cemitério dos livros NÃO esquecidos.”

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por Augusta Clara às 13:44

Quinta-feira, 04.06.20

A vida - Eva Cruz

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Eva Cruz  A vida

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(Claudia Tremblay)

   As notícias incomodam. Não basva o vírus associado
aos números funestos, aos doentes, à morte e ainda
todos os dias somos fustigados com casos de
afogamento, suicídio, raptos e assassinatos de violência
extrema. Há uma tal desvalorização da vida que a
substituem, de ânimo leve, pela morte irremediável que
tudo acaba. Matam-se pessoas como quem mata pulgas
ou formigas. Alguns actos são tão estranhos e hediondos
que me tiram o sono. Ainda não estava longe a morte da
pobre pequenita Valentina, já surge o da jovem estudante
de Évora, morta por um colega, também ele na flor da
vida. Gente com o ar mais normal, com um sorriso a
inspirar ternura e compaixão, onde não se vislumbra uma
réstia da maldade que pode levar a tais actos. Não sei o
que será pior para um ser humano se a morte dela se a
destruição da vida dele, já que ela nada mais sentirá, dure
a eternidade o tempo que durar, e ele irá justamente
amargar o sofrimento eterno de uma vida. Estou nestas
cogitações, quando ao lado da minha porta, mesmo à
frente dos meus olhos, em plena luz do dia, um homem
com uma faca espetada na barriga pela mão de alguém,
segundo consta, inundado de álcool ou droga, esperava
pela ambulância. Aparato policial, homens fardados dos
pés à cabeça, uma paisagem lunar na pacatez da rua. Ao
mesmo tempo, na mais indiferente televisão, um polícia a
esmagar o pescoço de um negro como quem esborracha

uma barata, pelo “terrível” crime de querer pagar com
uma nota de vinte dólares, presumivelmente falsa. Muito
para cá da ancestral barbárie, da irracional inquisição, do
inferno do holocausto, nunca pensei ser tão difícil, nos
dias de hoje, entender os fantasmas da mente humana e
delinear as fronteiras entre a sanidade e a loucura.
Para além de todos os factores de ordem genética,
biológica, cultural, social, psicológica e educacional ainda
acredito que a família, a escola, o meio social e laboral
podem ter o mais determinante papel no crescendo ou
na prevenção destes crimes com que nos deparamos.
Porém, a verdadeira causa é muito profunda e radica, a
meu ver, nos crimes de colarinho branco, no abominável
camuflado tráfico de droga por pessoas tidas como gente
de bem, na ganância desenfreada, no obscurantismo de
toda a espécie, muitas vezes acenando e encenando o
Bem para praticar o Mal. Sociedade tão bárbara que me
tira o sono e a vontade de sonhar com um Mundo
Melhor.

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por Augusta Clara às 16:19

Sexta-feira, 22.05.20

Senhora do Desterro - Eva Cruz

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Eva Cruz  Senhora do Desterro

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(Foto de Adão Cruz)

 

   O cansaço invadiu os dias rotineiros que vivemos. Parece que depois do confinamento obrigatório, se perdeu a vontade de sair à rua. O tempo quase sempre chuvoso e cinzento também não convida a pôr os pés fora de casa. Dá ideia que o hábito ao isolamento nos cortou a vontade de manter os laços sociais. Se saímos, ninguém nos conhece e quase não conhecemos ninguém atrás da máscara. Afastamo-nos o mais possível uns dos outros, atravessamos para o outro lado da rua se alguém tosse ou espirra, andamos assustados, temerosos, desconfiados. Passamos os dias colados ao computador ou à televisão esperando números e resultados para matutar sobre a quantidade de mortos e infectados graves.

De vez em quando lá me meto no carro e vou até à aldeia, respirar o ar puro, o cheiro a verde, ouvir os pássaros, ver o nascer e o crescimento de algumas “novidades” há pouco plantadas, e que os pombos-rolos não param de depenicar. Pequenos e grandes prazeres para quem desde criança “se vestiu de sol e despiu de luar.” Oiço as pessoas do campo e outras que por lá encontro e todas ditam sentenças sobre o vírus que nos assusta. Para uns, isto já estava nas Escrituras, para outros, é a Eutanásia que todos desejavam “- queriam a Tanásia, ela aí está”. Há quem acredite que é um castigo de Deus, que eu, em vão, tento contestar. Outros acham que a ciência não sabe nada e que nada resolve. Quando lhes digo que acredito na ciência e só ela nos pode resolver os problemas, por mais argumentos que use, não os convenço. Para eles, só a Senhora do Desterro nos pode valer. Só ela pode desterrar este mal para “monte maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira.” E com isto me calo.

Quando era menina fui muitas vezes à romaria da Senhora do Desterro, uma capelinha no cimo da serra, com meia dúzia de casitas de pedra solta aninhadas ali à volta. O farnel era para mim o ponto alto da festa. Lembro-me de lá ter deixado, a mando de minha mãe, um porquinho de cera para pagar o milagre de ter salvado um porco da peste, uma vez que, nesse tempo, perder um porco era grande prejuízo para a economia familiar. Era de tal modo importante a ceva que me recordo de ouvir contar que uma devota prometera dar os brincos pela salvação de dois porcos. Como só um foi garantidamente salvo, deu apenas um brinco, esperando que o outro sobrevivesse para entregar o par que restava. Antes prevenir que remediar.

Crenças de outros tempos, mas que ainda hoje permanecem. O desânimo e a pouca esperança são de tal ordem que, pelo sim e pelo não, até aconselhei, que, movidos de tal crença, levassem à Senhora do Desterro, não um porquinho, como eu fiz quando era menina, mas uma velhinha de cera, para ver se a Senhora desterra para sempre este vírus que tanto “gosta” de pessoas idosas. Tal como Santa Bárbara com a trovoada, empurrando-a para” lugar maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira ou bafinho de menino”.

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por Augusta Clara às 14:47

Sexta-feira, 22.05.20

Mãe - Adão Cruz

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Adão Cruz  Mãe

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(Adão Cruz)

 

Mãe
a palavra universal
a palavra mais consensual da humanidade.
Nem Deus…
Deus é de uns e não de outros
Deus é conceito de muitos
e negação de outros tantos.
A mãe é de todos sem excepção
a mãe é de todos e é só nossa
a mãe é do crente e do ateu
a mãe é do pobre e do rico
do sábio e do ignorante.
A mãe é dos poetas
dos filósofos e artistas
dos bons e dos maus
a mãe é do amigo e do inimigo.
Não há mãe de uns e não de outros
não há ninguém sem mãe
e não há mãe de ninguém.
A mãe é de toda a gente
a mãe é de cada um
a mãe é do mundo inteiro
e do nosso mais pequeno recanto.
A mãe é do longe e do perto
da água e do fogo
do sangue e das lágrimas
da alegria e da tristeza
da doçura e da amargura
da força e da fraqueza.
A mãe é certeza e aventura
medo e firmeza
dúvida e crença
a haste que se ergue no céu
ou se aninha rente ao chão
para que a morte a não vença.
A mãe é a outra parte de nós
sem mãe somos metade
sem mãe nada é exacto
igual a um
igual a infinito
onde se tocam princípio e fim
onde os tempos se encontram
sem presente passado e futuro.
A mãe é a lágrima que não seca
no sorriso que não se apaga
a nuvem que chove no sol que aquece
a mensagem da luz e da harmonia
e dos acordes matinais
com que abre o nosso dia.
A mãe levanta-se nas lágrimas da noite
e mesmo cansada
não perde a voz nem a cor da madrugada.
A mãe é a voz que se não teme
a voz que se confia
a voz que tudo diz
nas consoantes do grito
nas vogais do silêncio
nos abismos da agonia.
Mãe
primeira palavra a nascer
a última palavra a morrer.
A mãe é sempre a mesma
a mãe nunca é outra
na sua infinita diferença.
A mãe é criação
a mãe é sempre o fim
da obra-prima inacabada
a mãe nunca é ensaio
nem esboço nem projecto.
A mãe é um milagre
no milagre do mundo
o único milagre concebido
real e concreto.
Chora para que outros riam
ri para que a dor a não mate
mistura-se com a luz das estrelas
para vencer a escuridão
devora as nuvens por um raio de sol.
A mãe é beleza e poesia
aurora fulgurante
aurora adormecida
a mãe é bela porque é simples
porque nasce da silenciosa lógica da vida.
A mãe é fragilidade da semente
a força do tronco
a beleza da flor
a doçura do fruto
o dom de renascer.
A mãe é tudo numa só coisa
AMOR.

 

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por Augusta Clara às 13:34

Sábado, 16.05.20

Uma joaninha - Eva Cruz

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Eva Cruz  Uma joaninha

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(Evelina Oliveira)

 

   Com todos os problemas que a pandemia nos trouxe, há um indubitável benefício, pouco valorizado, que a humanidade lhe deve. Poder-se-ia falar da melhor qualidade do ar, da água, das boas transformações da natureza, do reaparecimento de aves e insectos, do ressuscitar das coisas belas que se perderam pela destruição e desumanização daquilo a que chamamos progresso. Deixo, porém, este campo para os cientistas e académicos que com rigor e precisão o fazem melhor do que eu. Limito-me a observar outro campo, aquele a que os meus olhos sempre se habituaram a contemplar, a conhecer pelo cheiro e pela cor, pela beleza pujante ou agreste, pelo brilho do sol ou pelo fustigar do vento, bravio, manso, cultivado pelas mãos carinhosas que o amanham ou revoltado pelo desprezo e abandono.

Há dias ouvi o cuco: Cu-cu, cu-cu. Não o ouvia há anos. Espreitava-me, empoleirado num ramalho. Como fazia em criança, respondi-lhe: cu-cu, cuco ramalheiro quantos anos tenho solteiro. Só que vai tão longe esse tempo…que o cuco se deve ter fartado de rir. Nesse mesmo dia, uma poupa cor de toupeira, com uma crista matizada de branco, caminhava pelo campo fora, garbosa e imponente, como se fosse a dona do mundo. Depois cantou: poupa, poupa, tudo é pouco. Mau sinal, diziam os antigos, ano de fome. Ela lá sabe. Voando pelos ares vê melhor e mais longe do que aqueles que se passeiam cá por baixo. Pegas, melros, pombos-rolos são aos bandos. Fazem estragos, depenicam tudo o que nasce da terra e das árvores, mas é o preço que cobram por dar vida e beleza à natureza adormecida. Porém, o que mais me surpreendeu foi uma joaninha, poisada na haste de uma espiga de centeio, ali nascida de alguma semente trazida pelo vento. Joaninhas, grilos, cigarras, alfaiates, louva-a-deus, pirilampos… desandaram por completo. A joaninha, pequenina, vermelhinha, luzidia, cheia de pintinhas pretas, poisada na haste, libertava em mim um mundo de visões e sensações indescritíveis. Joaninha, Ladybug, Marienkäfer, aqui ou lá, sempre feminina e distinta.

A arte é o expoente máximo da expressão do sentimento. Particularmente a arte de escrever, a arte da palavra, por vezes tão difícil e dolorosa. Criar pela escrita o que aquela joaninha trazia no vermelho luzidio do seu vestido às pintinhas pretas, as recordações que o tempo levou, os reflexos dos olhos que viram searas de trigo e centeio a ondular ao vento, as vozes e os rostos tão distantes não é tarefa para mim. Fica a vontade e o sonho.

Quando me aproximei da Joaninha ela voou, mostrando por baixo das asas vermelhas um outro par de asas sedosas e rendadas. Joaninha aboa, aboa quo teu pai foi pra Lisboa, com uma faca de latão, espetada no coração.

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 20.04.20

HOMENAGEM - Adão Cruz

 

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Abril abriu muitas portas, por uma delas passou o Serviço Nacional de Saúde que, justamente, se enaltece no dia da Liberdade. Nesta data histórica, a Direção do Sindicato dos Médicos do Norte realça a importância de um Serviço Público de Saúde universal e inclusivo, sem o qual não seria possível o combate sem tréguas à epidemia que nos assalta.

A Direcção do SMN

 

Adão Cruz  HOMENAGEM

   Sou médico há 56 anos. Lembro-me de sentir muitas vezes na minha vida profissional, vida que procurei levar o mais eticamente, o mais competentemente, o mais dedicadamente e conscientemente possível, desilusões e mesmo algum sentimento de desonra em pertencer à classe médica. Tudo isto, por comportamentos desviantes dentro da própria classe, dentro da sua especial missão de vida, que feriam o nosso principal tesouro, a dignidade e o profundo sentimento humanista.

Sempre tive e ainda tenho muitos amigos das mais diversas profissões, desde trabalhadores mais humildes até cientistas, empresários, políticos e banqueiros. A todos, de formas obviamente diferentes, nunca os deixei de homenagear com a minha leal e sincera amizade, e com o reconhecimento e admiração por muitos exemplos das suas vidas. Porém, esta pandemia que hoje está a roer a nossa existência individual, familiar e social criou em mim, no meio de todos os males, sentimentos que eu nunca havia experimentado de forma tão emocionada e profunda. Por isso a minha homenagem, nesta altura, a todos os profissionais de todas as áreas, amigos e desconhecidos, não pode caber dentro de limites, pois em situação tão complexa, tão intrincada e tão interactiva, é muito difícil separar os mais importantes dos menos importantes.

Nesta infelicidade que nos bateu à porta, há, no entanto, uma multidão de seres humanos que me levaram, indiscutivelmente, à reconquista de uma honra especial em pertencer à sua classe, a classe médica e o Serviço Nacional de Saúde. Um Serviço Nacional de Saúde, fruto do glorioso Vinte e Cinco de Abril, prestes a ser celebrado, um Serviço Nacional de Saúde que abrange políticos, autoridades sanitárias, administrativos, médicos, enfermeiros, auxiliares e pessoal mais anónimo, todos imprescindíveis ao seu funcionamento e ao seu mais sólido e nobre futuro. A todos a minha homenagem.

Fiz cuidados intensivos há largos anos, quando as unidades de cuidados intensivos começavam a aparecer, de forma muito primária, comparadas com as de hoje. Mesmo assim, senti bem fundo a responsabilidade e a abnegação que elas exigiam. Por isso, não me levem a mal que eu deixe aqui uma homenagem muito especial, acima de todas as homenagens, ao trabalho de todo o pessoal que de uma forma heróica dedica as suas vidas, nestes dias tão negros, à prática intensivista, em Portugal e fora de Portugal. São para mim, sem margem de dúvidas, os Heróis da actualidade, aos quais cada país, depois da vitória, deveria erguer o mais majestoso e merecido monumento.

20.04.2020

 

 

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por Augusta Clara às 19:15



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