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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 06.12.21

Mundo - Adão Cruz

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Adão Cruz  Mundo

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(Adão Cruz)

   Neste mundo, em que os verdadeiros bárbaros são impostos aos olhos mais ou menos cegos, como agentes da paz, da justiça e do bem-estar, neste mundo em que a humanidade não come ou se enfarta de caviar, eu tento aquecer o pensamento com o abraço do nascer do sol, mas a pobreza foi reduzida a um buraco sem janelas e dói-me viver assim, sem a luz de um horizonte.

 

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por Augusta Clara às 21:04

Quinta-feira, 25.11.21

Eu sou maior do que eu - Adão Cruz

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Adão Cruz   Eu sou maior do que eu

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(Adão Cruz)

 

A noite passou
já as estrelas se apagaram
novo sol não tarda
já doura o fio dos montes
e o fantasma é um lençol no meio do chão
porque eu sou o vencedor de todos os fantasmas.
Vai ser quente o dia
apesar do ar frio da noite
vem comigo
olha aquelas duas palmeiras que viçosas
tão altas na mira do céu
e eu sou maior do que o céu.
O desvio termina aqui
o caminho é novo ainda que não permita grande correr
não temas
tudo há-de ser como eu quiser
porque eu sou maior do que eu.
Por cima do teu corpo há um leito de espuma
que eu bebo de um trago
porque eu sou maior do que o mar
e mais fundo do que o meu ser.
Brota das entranhas um mundo novo
onde o coração pulsa à transparência
que nasce da sombra da noite
porque eu sou o alvorecer de todas as manhãs.
A sombra da floresta é apenas sombra
onde a medo o sol penetra
e cria fantasmas nas árvores e monstros nos charcos
mas eu sou o guardião do templo do sol.
A nova estrada é de ilusão
não tem altos nem baixos
o caminho da cidade é o caminho do centro da cidade
ali à mão
mas a cidade sou eu.
O mar de ondas verdes e fundas
quebradas em catedrais de espuma nas rochas negras e nuas
refulge de prata os abraços frios da alma
mas eu sou maior do que o mar
e da alma há muito me perdi.
O sol brilha na areia escaldante
onde o teu corpo se deita num leito de espuma
espargida de mil gotas
e o céu azul beija o mar ao longe
onde os olhos cansados sempre teimam repousar.
No sono da tarde
vai-se quebrando o pensamento em pedaços de luz e sombra
que o vento preso à cidade resolve levar para bem longe
como plácidas gaivotas
porque eu sou escravo e não senhor do pensamento.
 
 

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por Augusta Clara às 16:58

Terça-feira, 02.11.21

Reserva de aves no Cais do Ouro, Foz do Douro

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Fotografias de Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 14:04

Quinta-feira, 28.10.21

Homens entulho - Adão Cruz

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Adão Cruz  Homens entulho

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(Adão Cruz)

 

Para além de nós há o mundo
e sempre ignoramos o mundo
esquecemos as valas comuns que toquei ao de leve
muito ao de leve
não fosse os mortos magoar
nas margens verdes do Dniepre
regadas de lágrimas
onde cresceram flores sobre o chão de Babi-yar
umas de sal e água no mar quente de Bissau
bordando a lodo o cais de Pidjiguiti
outras de sangue esguichado
das cabeças à tona de água
em último respiro
outras de terra ensopada em rios de morte
no ventre de um Wiriyamu fuzilado
na penugem de Chinteya
nas balas de Vaina
no esventrar de Zostina
nos braços de um vulcão de raiva
em cada taça de vingança clandestina
que nem a morte amansa
nos túmulos da Palestina.
Sangue de Cristo
In Nomine Patris.
Mártires sem martirológio
corpos fecundos
erguei bem alto os ossos descarnados
que a morte é de acordar
e semear flores na aposta de outros mundos
erguei os rostos mirrados dos famintos da Terra
dos homens-entulho da grande vala comum
cavada no peito dos Humilhados e Ofendidos
pelos homens sem rosto
aberta no ventre dos Condenados da Terra
pelos homens sem alma.

 

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por Augusta Clara às 16:45

Terça-feira, 19.10.21

A Palavra - Adão Cruz

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Adão Cruz  A Palavra

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(Adão Cruz)

Mal-aventurada palavra
bem-aventurada palavra
espectaculosa ou mal-entendida
repentina
abandonada
terrosa ou etérea.
Penoso viver do lado direito
com obtuso cérebro
que irradia uma luz cor-de-rosa
de banal bom-senso
ridícula
religiosa e fria
estranho conúbio de cálculo e histeria.
Do lado esquerdo
vestígios de terra seca
retocados de sol e água
húmida palavra
secreta transição
da estreiteza da vida
para a infinita margem do sonho.
(palavras tépidas
impuras
laterais
insalubres
umbrosas
sepulcrais).
(Monumentais
desdobráveis
descobríveis
maduras de oiro e trigo
e absurdo desejo da verdade do céu azul
e do imenso tossir
na poeira dos ideais insubmissos).
(Jactância lodosa
leitosa
cuspida em translúcidos horizontes
respirando asfixia
na secura de todas as fontes).
Dúctil criatura de aço e pés pequenos
e largo sonho de vibrações
das manhãs de rosto alvo
sem distâncias nem delírios.
Bem-aventurada palavra
(mal-aventurada palavra)
viva
(morta)
sensual
(fria)
erecta
(impotente)
ondeante
(informe)
famélica
(obesa)
...palavras frementes.
"Eu temo muito o mar
o mar enorme
solene
enraivecido
turbulento...”
Se minha amada um longo olhar me desse
de seus olhos que ferem como espadas
eu domaria o mar que se enfurece..."
com a força das palavras estranguladas.

 

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por Augusta Clara às 16:48

Quarta-feira, 13.10.21

Lágrima de Inverno - Adão Cruz

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Adão Cruz  Lágrima de Inverno

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(Adão Cruz) 

Aquece-nos o sol de Inverno
nascido de um amor criança
de muitos invernos de pés frios.
Dia pequenino e preguiçoso
suspiro de angústia e carícia
nascido nas entranhas das raízes.
A noite acende a beleza nua
escurecem as pupilas
por entre os lábios do desejo
no olhar tépido da lua.
As mãos da solidão abrem a madrugada
as árvores celebram o nascer do dia
e na lareira adormecida
um ramo seco aquece o frio da manhã vazia.

 

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por Augusta Clara às 16:07

Segunda-feira, 16.08.21

Impossibilidade - Adão Cruz

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Adão Cruz  Impossibilidade

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(Adão Cruz) 

Persegue-me a impossibilidade de lá chegar…
Como se fora um belo dia de primavera
nos olhos de um prisioneiro atrás das grades.
Faltam-me as pernas
o tempo
as palavras e o caminho.
Falta-me a força das coisas simples
e o gesto subtil da liberdade.
Cada dia é um mundo
oferecendo-me todos os frutos que não sei colher
cada cidade um labirinto por onde não sei andar.
A minha fragilidade é metade de um sonho inacabado
a outra metade é este quadro
que pinto numa manhã de sol da minha doce loucura.
Tremem-me as pernas a caminho de Belvedere
onde me espera Egon Schiele
num salão enorme tendo ao fundo uma mulher.

 

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por Augusta Clara às 15:15

Segunda-feira, 26.07.21

Em homenagem a Otelo - Adão Cruz

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Adão Cruz  Em homenagem a Otelo

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Um cravo vermelho
cristal de vida no céu de chumbo
cada dia um mundo limpo e perfumado
graças a ti flor da minha idade.
Caminho da esperança às portas da cidade
todo o mel e todos os frutos ali à mão.
Graças a ti cravo vermelho que venceste a solidão
veio o tempo ao nosso encontro
e a manhã despertou agitando as árvores.
E a noite se fez de estrelas que desceram aos cantos do jardim.
Um cravo vermelho e quente
mais que tudo amando a vida
em qualquer língua entendida.
O mundo tinha o sabor de uma maçã
e os olhos inacabados eram cravos vermelhos.
Não havia cárceres nem torturas
apenas o calor de uma fogueira na praça do entusiasmo
e uma jovem mulher
dormindo um sono de criança nos telhados da revolução.
O seu rosto era uma nuvem dourada pelo sol e pela lua
os cabelos trigueiros uma seara
e nos lábios a canção de Abril que encheu a rua.
Hoje…
Hoje não sei se é dor se alegria
o que sonho quando abro ao sol as portas de Abril.
Não sei se é dor
tristeza ou alegria
aquilo que sinto neste dia
em que Abril faz tantos anos de saudade e nostalgia.
Anos de luminoso tremor
corações ao alto
quadros verdes de sonho e raiva
de sol e chuva em celeste azul
luzindo nos olhos de uma gaivota
branca gaivota de penas mansas voando solitária dentro de mim
à volta de um cravo vermelho que me ficou dentro do peito.
Abro as janelas a medo neste areal de céu escuro
contra o mundo
a idade e o cansaço
e não sei se é vida ou amargura a estreiteza deste espaço.
Sei que um rio de negras águas cavalga as margens do meu ser
por entre as fendas da secura
e outra vez afoga a democracia às mãos de nova ditadura.

 

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por Augusta Clara às 17:02

Sábado, 24.07.21

Meu amigo Dostoievsky - Adão Cruz

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Adão Cruz  Meu amigo Dostoievsky

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(Adão Cruz)

 

Meu amigo Dostoievsky
nada temos a ver
aparentemente
um com o outro
a não ser o nosso encontro
pelos meus dezoito anos.
Apetece-me chorar ao recordar as noites
em que à luz de um foco olho de boi
debaixo dos lençóis
- para que minha mãe não visse -
eu invadia os teus livros
numa das maiores
e mais deliciosas aventuras da minha vida.
Ainda hoje me são familiares
o rosto de Sónia e a figura de Raskolnikov
luz mítica e mística dos que têm coisas em comum
orientando-se na direcção do símbolo
e do mundo sem forma.
Da mesma forma que te marcaram Balzac
Schiller
Victor Hugo e Goethe
tu imprimiste em mim a sensação
que te fez desmaiar
perante a beleza de Seniavina
na casa dos Wielgorsky
e eu não sou homossexual
meu caro Dostoievsky.
Perante a beleza
eu não sei ao certo onde pára o sexo
se no esperma de Úrano derramado no mar
se na poesia da Morte em Veneza.
Não é a realidade física que interessa ao simbólico
mas o significado do sexo na imaginação.
A dualidade do ser funde-se
na tensão interna de quem ama
e a união sexual não é mais
do que o apaziguamento da tensão interior.
Nunca te concebi humano
sobretudo depois dessa manhã
de rosto de pedra e gelo
em que viveste o mais trágico minuto da tua vida.
Um vento glacial varreu-me a fronte
ao ouvir o teu nome na chamada para a morte:
-Akcharumov!
-Shaposhnikov!
-Dostoievsky!
Hoje
depois de ter amado tanto
aceito a tua epilepsia
como o estigma mais marcante
da pureza da condição humana
e passei a considerar-te meu irmão
para o resto da vida.
Por isso me senti prisioneiro
quando entrei na fortaleza de S. Pedro e S. Paulo
por isso chorei na Praça Semenovsky
onde viveste uma vida inteira
em dois minutos de morte.
Era como se fosse eu o condenado!
Também chorei quando reencontraste Suslova
apenas
pelo que sofreste ao ver que o amor não se repete.
A noite e o vazio
estão na origem cosmológica do mundo
e o amor é uma criança que cresce...
e deixa de ser criança.
Amor e morte
quando descobertos
acordam e fogem.
Para escrever bem é preciso sofrer
disseste um dia ao jovem Merejkovsky
quando a vida confundia as chamas do teu inferno
com relâmpagos de visionário.
Sofrer pode ser apenas sorrir...
frente a toda a utopia palpável
não paranóica nem delirante.
Foi a mim que o disseste
meu caro amigo
foi a mim que o disseste
na tarde cinzenta da tua morte
na hora da hemorragia que te vitimou.
Até hoje ainda não te agradeci.
Perdoa não ter acompanhado o teu féretro
mas nessa altura eu não existia...
ou será que te acompanho ainda hoje
neste pesado caminho do fim?

 

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por Augusta Clara às 17:03

Sexta-feira, 16.07.21

Ao redor do vento - Adão Cruz

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Adão Cruz  Ao redor do vento

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(Adão Cruz)

Não me encontraste mas eu sei que vieste ao meu encontro
porque caminhavas suavemente ao longo do rio
tão levemente que os teus olhos mo diziam
e nem as gaivotas fugiam.
Outrora o sol nascia pachorrento a esta hora
em que me davas um beijo de alento
e eu corria rio fora em direcção ao vento.
Os veleiros rodavam em círculo
inchando as velas brancas e amarelas
e também azuis como o poema.
Eu sei que vieste ao meu encontro mas não me viste
porque o sol de hoje nasce de forma alheia
e os veleiros não dançam
porque deles é o vento e de ti também.
Eu sei que vieste ao meu encontro
e tudo em redor mo leva a crer
mas os teus olhos perderam-me
porque são de vento as horas de me ver.

 

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por Augusta Clara às 17:38



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