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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 14.01.19

O menino de brilho nos olhos - Adão Cruz

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Adão Cruz  O menino de brilho nos olhos

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(Adão Cruz)

 

O menino corria
corria atrás do sol no correr de cada dia
e no doce brilho dos olhos toda a alma se lhe via.
O menino corria
corria atrás da lua que se erguia entre estrelas e magia
e no brilho dos olhos toda a alma luzia.
O menino corria
corria atrás do vento que fugia para lá do tempo
e nos olhos do menino o vento se perdia.
O menino corria
corria atrás da chuva
e quanto mais água caía
mais o brilho dos olhos se acendia.
O menino dormia
dormia no reino dos sonhos e da fantasia
e nos olhitos dormidos o brilho se escondia.
O menino acordava
acordava no alvor de cada dia
e a vida renascia no abrir dos olhos
onde a alma luzia.
Até que um dia…
Uma nuvem negra
muito negra
tombou do céu e se fez gigante
de longas barbas e olhar perfurante
com um relâmpago em cada mão.
Roubava o brilho dos olhos
e nas entranhas do trovão se desfazia.
O menino tremia
tremia sem saber o que acontecia.
O menino chorava
chorava sem saber a razão.
O menino fugia
fugia
mas algo lhe dizia que de nada valia.
Chamou as pombas rouxinóis e cotovias
sardões caracóis e libelinhas
enlaçou-se de gavinhas
abraçou as árvores beijou a terra
e tudo o que nele vivia.
Mas ninguém lhe respondia
todos o olhavam com tristeza e melancolia.
Perdera o menino o brilho dos olhos
porque neles a inocência morria.

 

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por Augusta Clara às 16:40

Terça-feira, 08.01.19

Paraíso - Adão Cruz

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Adão Cruz  Paraíso

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(Adão Cruz)

 

Não há portas do paraíso
Nem caminhos para lá chegar
Mas entre lágrimas e riso
Ninguém quer acreditar.
No fim sobram os passos
Sem mais caminho para andar.

 

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por Augusta Clara às 14:57

Sexta-feira, 04.01.19

OUARZAZATE (Secreta ironia) - Adão Cruz

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Adão Cruz  OUARZAZATE (Secreta ironia)

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(Adão Cruz)

As franjas da memória abrem-se na manhã fria da solidão

como torvelinho de água nas despojadas pedras do tempo.

Eis que nos damos conta de uma longa viagem

a qualquer cidade para lá do horizonte

quando um mar de cal viva queima os sentimentos

no estribo de um velho comboio sem princípio nem fim.

Eis que nos damos conta das lágrimas contidas num mar de cinza

cobrindo a alegria de viver

quando se apaga o sol que brilha entre as mãos.

Eis que no crescer da angústia uma infinda tristeza afoga a razão

entranhando no sangue a sombra espessa da desilusão.

O coração tomba perdido na poeira da cidade

preso à orla do deserto de Ouarzazate como criança sem asas.

Na terra sem trilhos e sem regresso aos olhos

onde se abre o sorriso de todas as manhãs

eis que nos damos conta de não fazermos parte do mundo.

E cai o sofrimento

no profundo silêncio das noites sem nome suspensas das estrelas.

E resta a saudade

ardendo em fogo lento como ramo seco da primeira folha verde.

 

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por Augusta Clara às 16:36

Quarta-feira, 02.01.19

Com Fúria e Raiva - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  Com Fúria e Raiva

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Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

(Obra Poética III, Caminho)

 

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por Augusta Clara às 16:33

Quinta-feira, 20.12.18

Adão Cruz, 2018

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Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 13:48

Quarta-feira, 05.12.18

Agonia - Cesare Pavese

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Cesare Pavese  Agonia

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(Goli Mahallati)

Irei pelas ruas até cair morta de cansaço
saberei viver sozinha e reter nos olhos
cada rosto que passa e continuar a ser a mesma.
Esta frescura que sobe e me busca as veias
é um despertar que em manhã nenhuma sentira
tão real: sinto-me simplesmente mais forte
que o meu corpo e um arrepio mais frio acompanha a manhã.

Longe vão as manhãs em que tinha vinte anos.
E amanhã, vinte e um: amanhã sairei para a rua,
lembro-me de cada pedra da rua e das nesgas de céu.
A partir de amanhã as pessoas ver-me-ão outra vez
de pé e caminharei direita e poderei parar
e mirar-me nas montras. Nas manhãs do passado,
era jovem e não sabia, nem sabia sequer
que era eu que passava — uma mulher, dona
de si mesma. A rapariguinha magra que fui
despertou dum pranto que durou anos:
agora é como se esse pranto nunca tivesse existido.

E desejo só cores. As cores não choram,
são como um despertar: amanhã as cores
voltarão. Cada mulher sairá para a rua,
cada corpo uma cor — e até as crianças.
Este corpo vestido de vermelho claro
após tanta palidez voltará à vida.
Sentirei à minha volta deslizarem os olhares
e saberei que sou eu: olhando à volta,
ver-me-ei no meio da multidão. Em cada nova manhã,
sairei para a rua em busca das cores.,

(in TRABALHAR CANSA, tradução e introdução de Carlos Leite, Cotovia)

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 04.12.18

Os olhos do poeta - Manuel da Fonseca

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Manuel da Fonseca  Os olhos do poeta

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(Adão Cruz)

 

O poeta tem. olhos de água para reflectirem todas as
cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas. mesmo das coisas
que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há
entre as estrelas.
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da
miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios
esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias
vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos
na luta entre as pátrias
e o movimento uiulante das cidades marítimas onde se
falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com
as mãos vazias e calejadas
o a luz do deserto incandescente e trémula, e os gelos
dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que
não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando
como contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando
a tempestade:
— todas as cores, todas as formas do mundo se agitam
e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um
promontório.
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas
as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho
nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite
de angústia que pesa no mundo.

(Poemas Completos, Forja)

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por Augusta Clara às 16:10

Sábado, 24.11.18

OS PÉS PELAS MÃOS - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  OS PÉS PELAS MÃOS

 

os pés pelas mãos, marcos cruz.jpg

 

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por Augusta Clara às 18:30

Segunda-feira, 19.11.18

Morreu a esperança - Adão Cruz

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Adão Cruz  Morreu a esperança

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(Adão Cruz) 

 

Não tem sonhos nem lhe bate o coração
não a beija o sol nem a paz da lua.
Batida pela chuva e varrida pelo vento agreste
senta-se nos bancos vazios dos jardins
a ver passar os homens que procuram encontrar-se
a ver mulheres que descarnam outros fins.
Já não chega ser gente de cansaço e solidãosem manhãs de luz nem flores brancas nascendo da erva mansa
nem o despertar das sombras adormecidas
nem um raio de sonhadora esperança.
Na noite pegada ao corpo de tantos rostos saqueados
de tantas mãos caídas de tantos sonhos amputados
o punho cerrado não vive aqui.Morreu a esperança despojada e nua
invernosa e fria.
Deixou-a a primavera e o gume quente do verão
perdida nos escuros recantos do fim do dia.

 

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por Augusta Clara às 16:16

Segunda-feira, 05.11.18

Adão Cruz, 2018

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Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 15:55



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    É pouco fazer-se referência ao Poema de excelência...

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