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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 15.11.19

Minha Mãe Terra - Adão Cruz

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Adão Cruz  Minha Mãe Terra

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(Adão Cruz)

 

Agora sei que minha mãe terra
é esta terra de barro e planície
este chão de sol vermelho
e pedras de silêncio sem história.
Sei agora que minha mãe terra
dorme nas tímidas cores do horizonte
no interminável mundo de paletas impossíveis.
Agora sei que minha mãe terra
é o irrevogável rosto do passado
entre braços vazios e vozes que não se ouvem.
Sei agora que minha mãe terra
vive no eco das palavras ditas
ao longo de ruas sem qualquer sentido.
Agora sei que minha mãe terra
é o fim desta terra interminável
das palavras que ninguém ouve
e das cores que ninguém vê.
Sei agora que minha mãe terra
não é o calor do caminho da manhã
mas o frio das horas magoadas
nos dias que nascem sem nome.
Agora sei que minha mãe terra
é o lugar entre o sonho e a miragem
recriado no tormento deste barro
moldado sem memória.
Sei agora que minha mãe terra
é segunda infância sem futuro
esta inocência singular
de uma pintura sempre inacabada.
Agora sei que minha mãe terra
é o amor perdido no granito
incendiado pelo fulgor do sol poente.
Sei agora que minha mãe terra
é o chão desta planície muda
adormecida nos frágeis sonhos da madrugada.
Agora sei que minha mãe terra
é a saudade de tudo o que era… e não é nada.

 

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por Augusta Clara às 18:21

Segunda-feira, 11.11.19

Pranto pelo dia de hoje - Sophia de Mello Breyner Andresen

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Sophia de Mello Breyner Andresen  Pranto pelo dia de hoje

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(Almada Negreiros)

Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas

(in Livro Sexto, Obra Poética II, Caminho)

 

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por Augusta Clara às 19:36

Domingo, 10.11.19

A Maria - Adão Cruz

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Adão Cruz  A Maria

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(Adão Cruz)

Os olhos vindos do outro lado do mundo, fundos de ausência,
casavam o branco e o negro para dizerem o que a boca não
conseguia.
O nariz afilava de um só traço o rosto magro, e os cabelos
errantes fugiam da testa cada pedaço para seu lado.
A pele transluzia uma imagem por detrás dos vidros, imagem
baça do avesso da vida.
Uma dor subtil desenhava os lábios maduros, finamente
trémulos, como se estivessem prestes a chorar.
Nunca alguma lágrima por eles correu ou voou algum beijo,
apenas o cigarro acendia e consumia a sua virgindade.
A Maria olhava-me sempre fixamente, olhos cravados nos
meus, como que a dizer: tu entendes-me tu és capaz de me
compreender.
Ela percebia o sim do meu silêncio por baixo dos olhos
vencidos.
Conheci duas mulheres iguais à Maria, fotocópias da Maria,
ambas se chamavam Maria, uma brasileira e outra francesa,
uma pisava o teatro outra o anfiteatro.
Inquilina de soleiras e vãos, a Maria pisava a grande cidade
da noite.
As mulheres da fama e da ciência derivavam a vida por
entre a lanugem dos cardos e a tangência do sentimento, a
mulher da vida era vertical e secante como folha de piteira.
A Maria mijona não tinha idade nem tempo, nem antes nem
depois, era apenas instante.
Nunca se sentara na mesa do canto fugindo de si mesma,
escolhia sempre a mesa central, desafiando os olhares e
vidrando o espaço em seu redor.
Comia a sopa, o prato de sempre, como quem tocava violino.
Apesar da mão trémula, nem um pingo deixava cair no
desbotado regaço, sumido de cores pelo uso e abuso.
Se moedas cresciam da sopa, não dispensava o brande, sua
única bebida.
Por detrás do corpo sujo de Maria mordiscava uma beleza
intrigante, tivesse ela banheira e emergiria da espuma como
sereia das águas.
Penso que nunca vi a Maria fora deste retrato, para cá da
sombra.
Por outro lado, tenho a certeza de que já dormi com ela...ou
terá sido um sonho?
A Maria nunca mais apareceu.
A última vez que a vi não tinha olhos nem boca nem cigarro,
não tinha sopa nem brande, apenas falta de ar. Engolira
o violino, e a música era uma dispneia sibilante, cântico
fúnebre gemido pelas entranhas.
Toquei-lhe no ombro e ela percebeu que eu queria levá-la.
Levantou a ponta de um sorriso e esboçou um gesto negativo
com a mão.
Afastei-me, com a sensação de que tinha profanado um
sacrário.
A Maria nunca mais apareceu.

 

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por Augusta Clara às 19:54

Quinta-feira, 07.11.19

Venus II - Camilo Pessanha

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Camilo Pessanha  Venus II

 

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Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
Impeccavel figura peregrina,
A distancia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente côr de rosa.
Na fria transparencia luminosa
Repousam, fundos, sob a agua plana.

E a vista sonda, reconstrue, compara.
Tantos naufragios, perdições, destroços!
Ó fulgida visão, linda mentira!

Roseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivem desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...

(in CLEPSYDRA, Relógio D'Água)

 

 

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por Augusta Clara às 17:31

Quarta-feira, 06.11.19

Ao redor do vento - Adão Cruz

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Adão Cruz  Ao redor do vento

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(Adão Cruz)

 

Não me encontraste
mas eu sei que vieste ao meu encontro
porque pedalavas suavemente ao longo do rio
tão levemente
que os teus olhos mo diziam
e nem as gaivotas fugiam.
Outrora o sol nascia pachorrento
a esta hora em que me davas um beijo de alento
e eu corria rio fora em direcção ao vento.
Os veleiros rodavam em círculo
inchando as velas brancas e amarelas
e também azuis como o poema.
Eu sei que vieste ao meu encontro
mas não me viste
porque o sol de hoje nasce de forma alheia
e os veleiros já não dançam
porque deles é o vento e de ti também.
Eu sei que vieste ao meu encontro
e tudo em redor mo leva a crer
mas os teus olhos perderam-me
porque são de vento as horas de me ver.

 

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por Augusta Clara às 16:37

Segunda-feira, 04.11.19

“Tartulhos” - Eva Cruz

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Eva Cruz  “Tartulhos”

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   Aproveitando uma aberta de sol, entremeando estes dias pardacentos de chuva e nevoeiro, fui visitar o cemitério, não por me apetecer mas para respeitar a memória de alguém que não gostava que os mortos fossem desprezados. Passeei-me por entre túmulos e jazigos recentes, à procura de alguns nomes desaparecidos há pouco e que me diziam muito. Fiquei impressionada com a fealdade de tanta negritude luzidia e retratos esfumados, pelos vistos em moda. Muitas eram as flores, tinha sido dia de “Finados”, compostas em arranjos deveras estilizados e arrevesados que também pouco contribuíam para encobrir o que aos meus olhos se apresentava simplesmente medonho. No meio de todo aquele cenário vislumbrei uma campa rasa, estreita e coberta de relva verdinha ainda com gotas da chuva, tendo ao cimo uma pedra do rio com duas fotografias encrustadas. Destoava.

Fui para casa, o meu recanto da aldeia, e corri os campos a deleitar-me com as cores outonais e os resquícios do Verão. Deparei com um mar de tortulhos de vários feitios e cores. Chamaram-me a atenção uns cogumelos de um vermelho retinto, alguns do tamanho de um palmo, redondos ou quadrados, com pintinhas brancas. Lindíssimos! Em criança vira muitos “tartulhos” nos matos, nos sítios apodrecidos, nos pés das videiras velhas, mas como aqueles nunca. Dizem que são venenosos e conhecidos por Amanita Muscaria.

Como gosto de perscrutar e entender a natureza, procurei perceber a razão pela qual apareciam aqueles cogumelos só em determinados sítios, debaixo de coníferas, velhas árvores de Natal que durante anos ali fora plantando. Lembrei-me então dos contos dos irmãos Grimm e da Schwarzwald- a Floresta Negra, esse paraíso de verdura de milhares de espécies de árvores, de casinhas de madeira, dos relógios de cuco, de sulcos e regatos, de lendas de duendes e magia, e também de cogumelos vermelhos com pintinhas brancas.

Desfez-se a imagem do cemitério. Imaginava-o agora coberto de relva com cogumelos vermelhos de pintinhas brancas a desafiar a negritude tumular. Ainda por cima, venenosos. Talvez assim envenenassem a morte e acabassem com ela de uma vez para sempre.

 

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por Augusta Clara às 15:45

Segunda-feira, 04.11.19

Quando levas um seio ao vento - Adão Cruz

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Adão Cruz  Quando levas um seio ao vento

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(Adão Cruz)

 

Quando levas um seio ao vento
e me dás a beber campos e cidades
glorifico a pouca luz que ainda me resta.
Se os lobos se atravessam no caminho para a tua cabana
o vento ergue-me nos ares
e o coração aprende a não ter medo de cair.
Descobridor de sonhos
de amanhãs que riem e de estuários...
continuo a pintar o vento ainda que nele te vás.

 

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por Augusta Clara às 15:28

Quarta-feira, 30.10.19

Canções antigas - Adão Cruz

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Adão Cruz  Canções antigas

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(Adão Cruz)

 

Na recordação das canções antigas
veste-se meu coração das verdes folhas do desejo
e entoa na fragrância dos campos
a melodia dos olhos pendurados na profundidade do céu.
Na sombra da figueira diz-me adeus o sol
em acenos de azul e violeta
por entre os ramos e os sons
de uma flauta de lábios doces
que por ali poisou entre sonhos infinitos do lusco-fusco.
As primeiras chuvas do verão
humedecem como lágrimas
as palavras ditas e não ditas
no silêncio dos caminhos perfumados de terra e folhas molhadas.
E nada se reconhece na lembrança muda das tardes
que para sempre morreram
mas os passos ecoam em silêncio por entre os pés das oliveiras
onde outrora floriram mil risos de criança.
Que fez de mim este crepúsculo azul
como flecha espetada no vento
ferindo de morte toda a vida de meu sonho-menino?
Onde está a pedra que se fez montanha
o regato que se fez rio
a tripla chama da vida
luz e verdade
que se apagou na alma nua
quando sagradas selvas e misteriosas crenças de punhal à cinta
quiseram que fosse santa?
Meu coração peregrino de seu perdido tesouro
entre o sol e as desgarradas nuvens de infinitos céus
ainda hoje se arrasta entre a razão e o abismo
em pálido reflexo de ouro
para ser criança na hora de partir.

 

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por Augusta Clara às 17:12

Segunda-feira, 28.10.19

Morreu a esperança - Adão Cruz

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Adão Cruz  Morreu a esperança

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(Adão Cruz)

Não tem sonhos
nem lhe bate o coração
invernosa e nua
não a beija o sol nem a paz da lua.
Batida pela chuva
e varrida pelo vento agreste
senta-se nos bancos vazios dos jardins
a ver passar os homens que procuram encontrar-se
a ver mulheres que descarnam outros fins.
Já não chega ser gente de cansaço e solidão
sem manhãs de luz
nem flores brancas nascendo da erva mansa
nem o despertar das sombras adormecidas
nem um raio de sonhadora esperança.
Na noite pegada ao corpo
de tantos rostos saqueados
de tantas mãos caídas
de tantos sonhos amputados
o punho cerrado não vive aqui.
Morreu a esperança
despojada e nua
invernosa e fria.
Esqueceu a primavera
e o gume quente do verão
perdida nos escuros recantos do fim do dia.

 

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por Augusta Clara às 17:51

Sexta-feira, 25.10.19

Lágrima de sol - Adão Cruz

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Adão Cruz  Lágrima de sol

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(Adão Cruz)

 

O sol vem sempre
o sol não mente
ou vermelho e quente
queimando a sede
e roendo a fome
de tanta gente inocente
ou pálido e frio
congelando a sede
e empedrando a fome
ainda que a gente o não veja
e pareça ausente.
E também o deserto
o deserto não mente
o deserto sempre aberto
na alma desta gente
ainda que pareça certo
o caminho em frente.
Vem sempre a dor
na secura das carnes
a dor não mente
ainda que ao mundo pouco importe
a dor que dói a tanta gente.
E também a alma não mente
e não mente o sofrimento
do esbugalhar dos olhos
ainda que a mente enlouqueça
e até se esqueça
de que é alma de gente.
E morre a paz
a paz podre não mente
ainda que na vaga esperança da sorte
não seja mais do que a paz da morte.

 

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por Augusta Clara às 20:38



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