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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 03.05.21

O velho eléctrico - Eva Cruz

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Eva Cruz  O velho eléctrico

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   O rio, junto à Foz, é quase um lago de águas paradas. Não tem a cor do ouro que lhe dá o nome, antes reflecte o azul do céu e do mar que ali o espera um pouco mais à frente para o abraço final. A remos ou à vela por lá deslizam barcos e barquinhos ao sabor da brisa leve desta luminosa primavera. Centenas de gaivotas, algumas garças, patos bravos, corvos marinhos, os habituais donos destas margens espreguiçam-se ao sol, ou dançam no ar em voos suaves, ou se lançam em corridas quase rasantes sobre as águas. Os corvos marinhos alinhados no que resta de terra na maré cheia, abrem as asas a todo o pano para receberem o sol que as vai secando. É Domingo. A correr e a caminhar, ao ritmo das forças de cada um, toda a gente saiu de casa em busca do sol e da liberdade que entrou de rompante pelas portas do desconfinamento.
Amarelo de sempre, por vezes esverdeado ou pintalgado de modernice, arrastado de tempo e de memórias, lá vai e vem o eléctrico gemendo sobre a linha ao longo da margem, levando a Ribeira até à Foz, e trazendo de volta o romântico Passeio Alegre com a sua alameda de palmeiras e as lindas casas da Foz Velha. A linha 1, uma das três linhas sobreviventes de entre muitas, juntamente com a linha 18, de Massarelos à Cordoaria, e a 22 entre o Carmo e a Batalha. Pequenos restos do século XIX que teimam em não se desgarrar de um velho Porto que é só memória e saudade.
Nos meus tempos de menina de Liceu, sempre foi o eléctrico a levar-me onde eu queria. E mesmo nos tempos de minha mãe que viveu a sua juventude entre Gaia e Porto, assim teria sido também, pois lembro-me de ela ter falado no eléctrico, aquando de um acidente na Rua 31 de Janeiro, em que o guarda-freios não conseguiu travá-lo e ele veio desenfreado e de escantilhão até à Baixa.
Sentei-me ao sol num dos muitos bancos que seguem a margem desde a Cantareira ao Cais do Ouro, e lembrei-me do livro de Tennessee Williams “A Street Car named Desire” ( Um Eléctrico chamado Desejo). Nada tem a ver com este eléctrico que geme atrás de mim, mas levou-me a desnudar uma espécie de nostálgica reminiscência do passado que, serenamente, criou em mim algum disfarce da desilusão e alguma fantasia que me permitiu esquecer por momentos a realidade da velhice.

 

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por Augusta Clara às 20:25

Quinta-feira, 29.04.21

Minha amiga Maria da Criatividade - Adão Cruz

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Adão Cruz  Minha amiga Maria da Criatividade

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(Adão Cruz)

 

   Dentro das alegorias possíveis e de uma espécie de polifonia pictórica, considero-te a música do Universo, a mulher reinventada nas vivências e passagens do tempo, elemento de candor poético na intimidade afectiva do quotidiano. Nunca te outorguei o exíguo papel que outros te atribuem, quem sabe, decorrente do hormonalismo poético da tua imagem feminina. Mas pago bem caras a aspiração da tua pureza, a procura da tua inocência, a adoração da tua beleza, a ansiedade do teu absoluto que fazem de mim um náufrago de sonhos preso nos lastros da realidade.

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por Augusta Clara às 18:09

Quinta-feira, 22.04.21

Os caramuleiros - Eva Cruz

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Eva Cruz  Os caramuleiros

 

   O novo abrandar do confinamento logo acelerou a vontade de respirar ar puro. Desta vez o ar da Serra do Caramulo. O dia era um esplendor e a temperatura de Verão. A “Alma”, romance-poema de Manuel Alegre, enfeitou a memória dos caminhos de Águeda, por onde há muito não passávamos, quando começámos a subir a montanha, revivendo passeios de outros tempos com os filhos ainda crianças. Já quase no alto, o meu irmão Adão e eu Eva, encontrámos um recanto maravilhoso à beira do rio, com açude e ponte romana, por engraçada coincidência denominado “Parque de merendas Paraíso”. Ali abrimos o farnel que nos soube melhor do que a maçã, sem que ninguém nos expulsasse.

Chegados ao alto do Caramulo, uma das mais belas serras de Portugal, recordei de imediato a “prima Laurindinha”, prima com quem minha mãe viveu na juventude, e personagem do meu livro “Aurora Adormecida”. Por ali passou tristes dias da sua vida em busca da cura para a tuberculose. Os bons ares do Caramulo transformaram esta serra na estância sanatorial mais importante da Península Ibérica, estando o médico Jerónimo Lacerda ligado à construção do mais antigo sanatório do Caramulo, que data de 1922. Foi um médico visionário que conseguiu dotá-lo das melhores infra-estruturas para a época, dando assim um enorme contributo para a erradicação da tuberculose no país. Pois foi nesse mesmo sanatório que a prima Laurindinha esteve internada. De nada lhe valeu, infelizmente, pois a doença matou-a ainda muito nova. Outros sanatórios foram criados, tornando-se o Caramulo, nos anos vinte e trinta, na mais “elegante” estância de saúde do País. Sobre este assunto transcrevo aqui algumas passagens do meu livro: “O ambiente do sanatório era deprimente. As fumigações de formalina cheiravam a morte. Embrulhados na sua tosse de tísicos, os doentes agasalhavam a doença dia e noite sem esperança. Na sua fraqueza trocavam olhares de forte cumplicidade, fazendo nascer amizades e amores que a dor e o sofrimento alimentavam. Montanha Mágica de sentimentos, de superstições, de medos e de morbidez, onde em vez de retratos se trocavam radiografias!”

Como satélites do grande sanatório, outros mais pequenos se espalharam pela montanha. E como os doentes, também foram morrendo ao longo do tempo. Hoje formam uma impressionante constelação de esqueletos, de janelas estilhaçadas, de paredes descarnadas e buracos entranhados de silêncio, solidão, pedaços de dor e saudade pelos que ali sofreram e ali morreram”. Com a erradicação da tuberculose, a estância do Caramulo foi votada ao abandono, mas a paisagem que os nossos olhos alcançam do cimo da Serra continua a ser de uma beleza única na sua lonjura a perder de vista e a conter a respiração. Nem tudo a morte levou, deixando viva a natureza em toda a sua plenitude. E foi a olhar ao longe que me veio lá do fundo da memória outra recordação, agora da minha infância, os Caramuleiros. Pelos dias frios de Inverno apareciam na minha aldeia, todos os anos, os Caramuleiros a vender carvão para o ferro de engomar e cobertores da serra. Dizia-se que vinham de muito longe, da Serra do Caramulo, e as crianças fugiam assustadas com as caras desconhecidas dessa gente pobre e estranha. Hoje já ninguém se lembra deles, nem dos ferros de brasas, nem dos cobertores serranos.

E assim, no meio dos montes, entre memórias e saudades, se passou este belo dia de desconfinamento, não só do corpo mas sobretudo do espírito.  

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por Augusta Clara às 14:36

Quarta-feira, 21.04.21

Reflexão - Adão Cruz

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Adão Cruz  Reflexão

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(Adão Cruz)

 

   A genuína pureza da poesia vive e anda por aí em tudo o que é vida, mas não é fácil captar a sua complexa simplicidade. Como não é fácil - ou não se quer - entender a complexa simplicidade da evidência que também anda por aí, em quase tudo. O medo da evidência apavora as mentes que, de uma forma ou de outra, perderam a liberdade ou rejeitam a liberdade, sobretudo a liberdade de pensar. Interiorizam mecanismos fortemente redutores que são aceites acriticamente, porque não existe ou foi tacticamente anulada a capacidade crítica, ou são impostos por uma espécie de fé ou crença consuetudinária, impiedosamente dogmática, que cristaliza toda a forma de pensar, mesmo de pessoas habituadas e traquejadas numa moderna cultura científica da evidência. Estas as pessoas, ainda assim, de boa fé. Porque as há, e não são poucas, que fazem da má fé o antídoto da evidência que não conseguem negar.

 

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por Augusta Clara às 15:27

Sábado, 10.04.21

Um texto de João Vasconcelos-Costa sobre as vacinas

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João Vasconcelos-Costa é médico e virologista e foi director do Departamento de Virologia do Instituto Gulbenkian de Ciência
 
VACINA DA ASTRAZENECA
 
   Parece-me que não é preciso ser-se adepto de teorias da conspiração para se suspeitar de que há muito de económico e político nesta história da AstraZeneca. Por exemplo, não deixa de ser estranho que os países europeus se tenham sempre escudado nesta pandemia em recomendações técnicas supranacionais, como na aprovação das vacinas pela EMA e não pelos seus “infarmeds” nacionais e agora não sigam a opinião da EMA de que os riscos da vacina AZ são infimamente inferiores aos seus benefícios. Mas, como não tenho dados suficientes sobre isso, vou comentar apenas os aspetos médicos e científicos.
Não há nenhuma vacina, como nenhum medicamento, que não tenha efeitos secundários. Por exemplo, a vacina da febre amarela, que toda a gente é obrigada a levar como condição de viagem para muitos países, causa ocasionalmente em pessoas mais velhas consequências que podem ser graves. O que há a fazer sempre é uma avaliação de risco. É dado objetivo que, com dezenas de milhões de vacinados com a AZ, as dezenas de casos de acidentes trombóticos, principalmente a trombose venosa do seio cavernoso cerebral, representam um risco cerca de 100000 vezes menor do que o risco de morte pela COVID-19. Note-se que estes acidentes também ocorrem com a tomada de anticoncepcionais, até em maior percentagem, que nunca ninguém se lembrou de retirar do mercado ou de recomendar só a mulheres acima dos 60 anos…
Com isto, é de temer, legitimamente, que o medo instalado pelas medidas de muitos países – agora também Portugal – de limitação do uso da vacina AZ leve a recusa de vacina por muita gente, com uma probabilidade de aumento de mortes pela doença muito maior do que a probabilidade de acidentes vacinais. Eu próprio já recebi bem uma dezena de telefonemas a pedir-me opinião, sentindo que, no fim da conversa, as pessoas continuaram a não querer serem vacinadas com a AZ.
A isto, soma-se toda a incerteza sobre a capacidade de vacinação em massa sem o aproveitamento de todo o fornecimento da AZ. Também, como sempre, o nosso eurocentrismo esquece que a AZ é o fabricante que melhores condições comerciais (a preço de custo) e técnicas (condições de armazenamento, por exemplo) oferece ao terceiro mundo, cujas populações certamente vão ficar inquietas com o que se está a passar.
Ainda não se conhece o mecanismo desta anomalia da coagulação, provavelmente ligada a uma disfunção plaquetária. Um estudo inicial sugere um mecanismo de agressão por complexos antigénio-anticorpo em pessoas, principalmente do sexo feminino, que têm naturalmente anticorpos contra um fator de regulação das plaquetas, situação muito rara. O que não s sabe é qual a relação com a vacina. Uma hipótese plausível é que isto se relacione com o vetor viral de adenovírus utilizado na vacina AZ. Se assim for, isto coloca um problema adicional, que ainda não vi referido. É que há outras vacinas contra o SARS-CoV-2 baseadas na mesma tecnologia e usando adenovírus.
Uma, já em uso, é a Sputnik. Seria natural que já se estivesse a investigar se já ocorreram na Rússia acidentes do mesmo tipo. Curiosamente, no momento em que restringe o uso da AZ, a Alemanha está a negociar a compra da Sputnik. A outra vacina do mesmo tipo é a Jansen, cujo fornecimento em prevista larga escala estava a ser a base para a previsão de uma alta percentagem de vacinação na Europa no segundo trimestre a até ao outono.

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por Augusta Clara às 18:54

Quinta-feira, 01.04.21

Hino ao 1º. de Abril - Jorge de Sena

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Jorge de Sena  Hino ao 1º. de Abril

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(Adão Cruz)
 
 
 
Os milicos milicazes
nunca foram maus rapazes.
Quando matam, quando esfolam,
quando capam, quando amolam,
quando todos se rebolam
prós ianques que os engrolam,
ou quando cantam de galo,
ou relincham de cavalo,
ou vão puxando o badalo
mais o saco do gargalo,
ou quando vendem a terra
e as riquezas que ela encerra,
ou quando rolham quem berra
ou mesmo quem embezerra,
ou quando as serras napalmam,
e com fogo tudo acalmam,
ou quando bancos empalmam
e corruptos se desalmam
é tudo sempre por bem.
De Pelotas a Belém
não duvide nunca alguém
seja fortudo ou pelém,
que os milicos milicazes
nunca foram maus rapazes.
1/4/70
(in 40 Anos de Servidão, Moraes Editores)

 

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por Augusta Clara às 13:00

Segunda-feira, 22.03.21

Sem palavras - Eva Cruz

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Eva Cruz  Sem palavras

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(Miki de Goodboom)

 

Sons de silêncio
nas cores perfumadas dos lilases
ao longe o estalar da casca de um pinheiro
na tranquilidade dos guizos do rebanho que pasta.
Cantar da água pela borda fora
entre manchas de mil verdes
na beleza nua da música a preto e branco
em claves de sol e de cor
e de dor de não ser capaz de a tocar…
Um pombo rolo canta e desafia a timidez da poesia.
Abraçar sonhos solitários
quando na boca morre a palavra da cidade metafísica
ou apenas do pequeno recanto
onde vive o perfume de uma rosa
ou o encanto da mariposa de meados de Abril.
Canta solitário o verdilhão
a canção simples da sedução
em voo ondulante cortejando a fêmea
e sem palavras
no mais calado silêncio
nasce no coração da Primavera a poesia.

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por Augusta Clara às 16:21

Domingo, 21.03.21

Primavera - Adão Cruz

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por Augusta Clara às 18:12

Sexta-feira, 12.03.21

O que penso - Adão Cruz

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Adão Cruz  O que penso

 

 

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   É muito difícil saber o que é a Arte. Duvido de quem diz que sabe o que é a Arte. A Arte não tem definição que nos satisfaça, e penso que nunca se saberá, verdadeiramente, o que é a Arte. Por isso, prefiro chamar-lhe sentimento artístico. Mas, mais do que teorizar, o que interessa é a prática da sensibilidade, não só do criador mas do contemplador e da sociedade em geral, bem como a liberdade da constante destruição-criação das raízes do pensamento. Sem sensibilidade e sem curiosidade universal não me parece possível a formação de uma personalidade artística, capaz de entender a Arte como o caminho mais natural para viver a verdade.

 

Muitas vezes dou comigo a pensar que o Homem é um ser uno e indivisível, extremamente complexo. No entanto, ele é composto por uma infinidade de subunidades, todas intimamente ligadas entre si, a mais importante das quais, a unidade soberana, se assim podemos dizer, é o cérebro. Este órgão é constituído por cerca de cem biliões de neurónios em permanente actividade, através dos quais se processam em cada momento, provavelmente, triliões de neuro-transmissões. O nosso esquema cerebral é idêntico em todos nós mas o conteúdo de cada cérebro é totalmente diferente. Daí que o sentimento artístico, pertencendo à espécie, é de cada um na sua individualidade, especificidade e profundidade.

 

Por outro lado, sou levado a pensar que a Humanidade não é um mero conjunto de homens e mulheres, mas uma profunda e intrincada rede de relações, de relações humanas muito diversas e complexas. O cérebro de cada um de nós, apesar de encerrado num compartimento estanque, não se encontra isolado. Relaciona-se, permanentemente e mais ou menos intimamente, com todos os outros, e todos os outros se relacionam com ele, através dos múltiplos canais de comunicação que vão desde a linguagem falada, escrita ou gestual, à mímica, à postura, às atitudes, aos comportamentos. Todavia, o sentimento artístico, seja ele o que for e tome a obra de arte a expressão que tomar, parece-me a forma mais nobre e sublime da comunicação e da relação do homem consigo mesmo e com o mundo. Será, provavelmente, a única que permite ao homem assentar os pés no caminho da universalidade.

 

Todo o homem se relaciona mais ou menos activamente com os inúmeros fenómenos que o rodeiam e com tudo o que vê e ouve, com tudo o que entende e não entende. O diálogo do Homem consigo mesmo e do Homem com o mundo no seio da natureza e da Humanidade é permanente, profundo e inevitável, e constitui a fonte universal e inesgotável de todas as ideias. O Homem tem caminhado ao longo do tempo em profunda relação dialéctica com o meio, confrontando-se com as difíceis questões da sobrevivência, do pensamento, da razão e da difícil descoberta de si próprio. Nesta descoberta do entendimento de si próprio reside, a meu ver, a força que o impele para o infinito e para a sua dimensão universal, dito de outra forma, a força que o projecta nos horizontes da expressão artística. Mas a arte, apesar de ser a voz da alma na vida infinita, nunca atinge a perfeição, por isso ela será sempre eternidade, inquietude e procura constante. Não se compadece nem com a abreviatura do silêncio nem com a amplidão do grito, pois emerge de uma luta permanente entre sonho e pesadelo, o sonho de ser um pássaro voando na proporção do infinito e o pesadelo de ser um Homem feito à medida do vento, arrastando as asas.

 

No meu entendimento, a Arte, ou sentimento artístico, fruto da obediência ao facto de existirmos, é a proclamação da inocência contra as culpas do mundo, é a mais segura tábua de salvação nos naufrágios da fraqueza humana e o melhor antídoto contra as sistemáticas tentativas de cretinização da sociedade. Age sobre a sensibilidade, a imaginação e a inteligência, enriquece o sentido da humanização, ajuda o processo de reflexão, ilumina as emoções e os sentimentos, cria uma poderosa afinidade com a consciência, gera a necessidade de identificação com a verdade e a liberdade, desenvolve o sentido da estética, da beleza, da harmonia e da justiça, e abre a mente do ser humano ao valor da dignidade e à compreensão dos indeléveis mistérios das relações do homem com a natureza, impedindo-o de mastigar crendices, atavismos e superstições absurdas que o escravizam.

 

Penso que qualquer obra de arte tem um sentido para aquele que a produz, sentido que pode não ser o mesmo daquele que a vê, ouve ou contempla. O conceito de sentido é fundamental na comunicação. E o sentido está dentro de cada um e resulta da forma como cada um responde interiormente às suas experiências, forma essa que é diferente em cada pessoa. O sentido é fruto de um complicado processo em constante movimento, e ao transmiti-lo, não se deve esperar uma colagem pura e simples mas sim uma integração consciente nos mecanismos construtivistas do sentido dos outros, isto é, deve haver sempre, tendencialmente, um sentido de obra colectiva. Daí que, tomando como objecto de relação humana a realização de um acto criativo, não nos seja difícil compreender que quando alguém escreve um poema ou um livro, quando escreve uma peça musical ou pinta um quadro, introduz nessa obra, mais ou menos conscientemente, dentro de um real conhecimento das circunstâncias, toda a sua vida, toda a sua estruturação como ser humano individual e livre. A obra é tecida com todas as suas vivências, as suas memorizações, as suas emoções, os seus sentimentos.

 

Quando alguém vai ler, ouvir ou contemplar a obra do autor, não vai apenas ler, ouvir ou contemplar a obra do autor, mas, à luz de toda a sua riqueza espiritual, vai sentir também a sua própria obra, o seu próprio poema, a sua própria música, o seu próprio quadro, já que não é com os olhos, os sentimentos e a vida do autor que ele a vai sentir, mas com a sua própria vida, através das suas próprias emoções e sentimentos. Desta forma, a obra pode desencadear em quem a lê, ouve ou observa, uma imensidade de fenómenos e sensações, uma forte necessidade de sair do vazio, e pode funcionar como um poderoso estímulo, mais penetrante ou menos penetrante, mais revolvente ou menos revolvente, que pode despertar e até desnudar o mais profundo interior de cada um na sua identificação com o que lê, ouve ou observa. Sobretudo, quando a obra for capaz de inquietar o pensamento, criar rupturas, abrir conflitos entre conceitos caducos, levar à meditação e pôr em causa o mundo estreito das velhas ideias. Quando a obra for capaz de nos ensinar que ninguém vê com os nossos olhos, ninguém pensa com o nosso cérebro e ninguém sente com o nosso espírito.

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por Augusta Clara às 15:01

Terça-feira, 09.03.21

A homenagem de INÊS PATRÍCIO a sua mãe

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Chamava-se MARIA IGNEZ DE SOUZA DA CÂMARA E MORAES SARMENTO ( tirou o Patricio depois do divórcio)

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      "Para variar, este é o dia de falar da minha mãe. O tempo dela era o Estado Novo, a ditadura dos homens de suspensórios. Quis trabalhar e não autorizaram. Quis divorciar e não podia, pela lei. Tomou a pílula e disseram que não podia comungar. Esteve a lixar-se para isso. Perguntou porque é que as mulheres de ministros ( ela era) não ganhavam nada mas tinham de comprar vestidos, ir a chazinhos de embaixatrizes, a jantares e viagens de trabalho. Não responderam. Porque sim. Ela foi a Conselho de ministros e de lá de cima ( acho que era um lugar onde os homens ficavam em baixo) gritou: ninguém me contratou mas eu demito-me! ( hoje já há ajuda de custo para mulheres dos caras publicos). Ela ligava para os caras que mandavam e reclamava da falta de direitos das empregadas. Chateava. Ligava para o Veiga Simão que era da educação e reclamava dos lavores para as mulheres. Queria música e carpintaria. Acho que conseguiu música. Tirou-me do colégio de freiras e pôs-nos a mim e minha irmã no liceu. Não acordava de manhã para nos dar bom dia nem nada. Eu reclamei. Disse: tira o curso e trabalha para não ficares sem sono de noite, como eu. Quando prenderam uma moça chamada Dalia passou-se. Foi o fim dos dias lá em casa. Passava o almoço e jantar sem comer, de braços e pernas abertos a simular um tipo de tortura. Emagreceu e ficou doente. Teve sífilis. Pediu ao médico atestado para se divorciar. O médico teve medo e não deu. O medo dos homens era de outros homens. Das mulheres não teriam medo! Foi a Caxias com o senhor Matos chauffeur( um homem bom que chorava) e uma cadeira. Sentou. Esperou. Disse que tinha as mesmas ideias dos presos. Mandou um livro á moça em que a dedicatória era Aqui em Portugal nem as moscas mudam!. O Silva pais, chefe da polícia, ligou a meu pai. A mulher do meu pai incomodava. Não a podiam prender. Deem-lhe uns safanoes, disse alguém. O primeiro ministro ligou e disse Tortura não é assunto para mulheres. São o sexo frágil. E ela: pensam nisso quando se deitam em cima de nós com o vosso peso? O homem era púdico, conservador e cristão. Não gostou da rudeza. Não gostavam dela. Nem ele nem a pide.

 
Como não a podiam prender tacavam-lhe curas de sono. Fez várias. Numa delas, antes de a levarem, disse-me Tira o curso e trabalha! Não dependas de homem nem de família. Assim fiz!
 
Santo conselho!
 
Quando foi a revolução ficou contente. Mas foi solidária. Não se bate em cachorro morto! Nem saiu de casa como lhe pediram. Saímos todos, menos ela. Riu-se de nós porque a nossa fuga foi dois prédios da infante santo. Passamos do número 61 para o 57. Para casa de primos. A família morava toda na mesma rua Rsss.
 
Ela gostava do Otelo e do Vasco Lourenço. Dizia que o Galvão de Melo e o Cunhal eram nossos primos. Quando as brigadas entraram lá em casa a ver se estávamos recebeu-os com cafezinho e batepapo. Foi ao nosso quarto onde dormiamos e disse Não sejam caguinchas. Estes senhores estão a trabalhar.
 
Quando entrei para o partido comunista, no Brasil, fez -me um bolo para levar aos camaradas. Quando fui chamada pelo diretor para explicar as reuniões "clandestinas" debaixo de uma árvore na praia vermelha foi comigo e gritou Se disseres uma palavra que for, deserdo-te! Depois pensou e disse: deserdar não posso mais pois lá em Portugal já houve reforma agrária mas dou-te um par de estalos e deixas de ser minha filha.
 
Cá estou até hoje, filiada à minha mãe!
 
( agora vou publicar e emendar, mãe mãe! Como sabes sofro de ansiedade )"

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por Augusta Clara às 18:05



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