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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 07.06.19

Adão Cruz - O Médico Pintor, Carlos Gomes

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Textos e fotografias do Blogue do Minho, 6 de Junho de 2019

Exposição na Ordem dos Médicos de Viana

É uma realidade bem evidente, os médicos, normalmente, têm uma acentuada tendência para a escrita, para as artes e para a cultura em geral: Abel Salazar, Miguel Torga, e Fernando Namora, no seu tempo, eram médicos e foram grandes escritores, tal como hoje o é Lobo Antunes, que também já exerceu a medicina. Nas artes, entre vários, podem-se destacar, Abel Salazar, uma figura eminente da medicina e da cultura portuguesa, Celestino Gomes e Mário Botas. E a atestar que a arte toca muito de perto os médicos, a Ordem dos Médicos, através das suas diversas delegações regionais, promove regularmente exposições de médicos artistas. No ano em curso, em Viana, a OM quase só vai fazer exposições com médicos, em várias especialidades artísticas.

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E foi aqui que, no sábado passado, dia 01, mais uma mostra foi inaugurada, desta vez com Adão Cruz, um médico cardiologista, com um longo percurso ligado às artes e à escrita, com inúmeras exposições realizadas, particularmente em Portugal e Espanha, representado em oito países, com 12 livros publicados, na área da literatura e da pintura. Segunda afirma, pinta e escreve com a mesma paixão com que exerceu a medicina, que ainda hoje pratica de forma voluntária, apesar de dez bem sentidas décadas de vida. Como a justificar o seu percurso pelos caminhos da arte diz “que sempre amou a liberdade de pensamento e da razão, a verdadeira riqueza do ser humano e que foi com este amor que sempre sonhou libertar-se ao longo da vida, também pelos caminhos da ciência, da escrita e da pintura”.

Adão cruz apresenta 22 quadros com pintura em acrílico, com laivos expressionistas, predominância de cores quentes e onde perpassa, em muitos deles, uma acentuada crítica social. Diz que nem sequer gosta de atribuir títulos para os seus quadros, com a preocupação de que seja o observador a interpretar o que passou para a tela. Atribuir nomes aos quadros pode não se conjugar com a visão de quem os aprecia, afirma. Presente na cerimónia, Emerenciano, um pintor de referência no contexto da arte em Portugal, salientou o facto de Adão Cruz, apesar de não ser um pintor de escola, ter feito uma carreira de permanente aprendizagem na pintura, sempre com a preocupação

de ver para além da estética em cada quadro que produz.

A exposição vai estar patente até a o dia 30 do corrente mês na Galeria da Ordem dos Médicos, sita na Rua da Bandeira, 472, aberta ao público às terças e quintas-feiras, das 17, 30 às 19, 30 horas e aos sábados, das 9,00 às 13,00 horas.

Gonçalo Fagundes Meira

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por Augusta Clara às 15:18

Segunda-feira, 27.05.19

CONVITE

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Exposição de pintura de Adao Cruz na sede da Ordem dos Médicos de Viana do Castelo de 1 a 30 de Junho de 2019

 

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ADÃO CRUZ
Médico cardiologista
Nasceu em Vale de Cambra há oito décadas.
Sempre amou a liberdade do pensamento e da razão, a verdadeira riqueza do ser humano. Foi com este amor que sempre sonhou libertar-se ao longo da vida, também pelos caminhos da ciência, da escrita e da pintura.
Tem doze livros publicados, na área da literatura e da pintura, e fez várias
exposições, sobretudo em Portugal e Espanha.
Tem quadros em oito países.

O QUE PENSO
O sentimento poético e o sentimento artístico são irmãos gémeos. Ou trigémeos, se os irmanarmos com a sua própria essência, o sentimento da beleza. Quase místicos, quase indefiníveis, eles geram a sublimidade da mente, a força incontida do desejo de ser-se de outra forma, a necessidade de fugir do não autêntico, um quase sentir a verdade total e a dimensão universal.

Sem eles, dificilmente uma obra será uma obra de arte, dificilmente poderá adquirir a grandeza em que todos os processos formais serão ofuscados pelos seus próprios efeitos, dificilmente terá tantas estórias quantos os olhos que a contemplam. Contudo, ao fim de uma vida, o futuro vai-se naturalmente dissolvendo, entre a razão e o sentimento, dentro de um ser humano preso à sua natureza antropocêntrica. A desilusão, como subtil nevoeiro, vai invadindo todos os cantos e recantos onde antes havia sol.

Ao fim de uma vida, o ser humano vai-se desprendendo dos caminhos da arte e da poesia, principais sentimentos que sempre o conduziram à interface entre o Homem e a sua dimensão universal, sem qualquer sentido místico ou metafísico. Contenta-se com a restrita paisagem de um dia de Primavera, atrás das grades da sua ‘mente cultural’. Ele sabe que isso o derrota e, paradoxalmente, o alivia. Ele sabe ainda que são escassos os dias de Primavera, mesmo que a parte sã da humanidade procure tecer o ciclo da vida com fios de esperança. Ele sabe que há dias de penoso inverno que a parte mais podre da humanidade aproveita para romper o ciclo da vida rasgando a esperança. Ele sabe, ao fim de uma vida, que o estatuto de cada ser humano assenta num contexto de vivências e memórias que fazem o futuro e o desfazem na altura própria, sendo o último suspiro o momento mais democrático da nossa existência.

Por isso as lágrimas secam e os olhos passam a ver a vida humana com outros “olhos”. Por isso, esta singela exposição de pequenos gestos que se alimentam de corpos e sentimentos, na procura de uma última homeostasia entre a natureza humana e a humanização da vida.

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por Augusta Clara às 17:00

Quinta-feira, 23.05.19

"Educar é um acto de amor" - Eva Cruz

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Eva Cruz  "Educar é um acto de amor"

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labor.pt, 23 de Maio de 2019

Entrevista conduzida por Gisella Nunes

 

Não há dúvida que o ensino é um dos grandes amores da vida de Eva Cruz. Que o digam os milhares de alunos, a maioria de S. João da Madeira, que lhe passaram pelas mãos. Esta professora de Inglês e Alemão orgulha-se de, em 36 anos de profissão, nunca ter sido alvo de má educação nem de ter marcado uma falta disciplinar

Agora com 77 anos e já aposentada há quase 20, como se sente?

Não tenho razões de queixa de saúde nem tampouco de vida. Acho que levei uma vida bem preenchida, uma vida de que não me arrependo absolutamente de nada.

Resido em S. João da Madeira (SJM), mas vou várias vezes para a nossa casa nas Figueiras [Vale de Cambra], um sítio realmente magnífico onde ouço o murmúrio do rio. É um refúgio onde realmente gosto muito de estar, mesmo no inverno.

Estou lá à lareira, a maior parte das vezes, com alguns amigos do meu tempo de criança, pessoas que têm muito a ver comigo afetivamente. Tenho uma amiga que é muito engraçada, com quem passo as tardes, tomo chá.Lá chamam-me Evinha, sabe?

“Tenho um irmão de ouro”

Sempre quis ser professora?

A minha paixão foi ser sempre professora. Já em miúda ensinava bonecas como quem ensinava os alunos, contrariando o meu pai, que gostava muito que fosse advogada.

Era boa aluna em tudo menos no desenho. Tive sempre pouco jeito para desenho, assim como para a música. A minha mãe bem queria que aprendesse música e ainda cheguei a andar no seminário, com os jesuítas, a aprender a tocar órgão, para tocar nas missas. Mas era para fazer mesmo música a martelo, não dava.

Sabe que naquele tempo tirávamos um curso para ter uma vida melhor. Os meus pais não tinham formação académica, mas mandaram a mim e ao meu irmão estudar. E fizeram sacrifícios nesse sentido, porque o curso do meu irmão [Medicina] era caríssimo. E o meu também foi um curso caro, tirado em Coimbra longe de casa.

Antes de ir para Coimbra, fui para o Liceu CarolinaMichaëlis, no Porto, cidade onde o meu irmão já estava a estudar. E a minha mãe, na altura, alugou uma casa para nós os dois, com uma empregada, porque ficava mais barato.

Eu e o Adão fomos sempre muito unidos. Toda a gente se admira da nossa amizade. Há uma cumplicidade muito grande entre nós. Posso dizer que tenho um irmão de ouro.

Como é que uma adolescente de uma aldeia de Vale de Cambra deixa tudo para trás e vai para o Porto e, ainda por cima, para um liceu como o CarolinaMichaëlis?

Foi difícil! Ainda me lembro da minha primeira aula de Filosofia, com uma professora que tinha o cabelo “tipo regueifa” e umas unhas muito compridas, pintadas de vermelho, a dizer, com as mãos viradas para mim, “porque o homem é um microcosmo dentro do macrocosmo” [risos].

O CarolinaMichaëlis era um liceu de meninas de bem. A maioria era da Foz. A única que vinha do campo era eu e depois havia mais três que vinham da beira-mar, da Póvoa.

Mas isso não foi obstáculo. Integrei-me muito bem e fui sempre boa aluna.

“Praticamente fui a única professora de Alemão aqui da escola [João da Silva Correia]”

Mas, na altura, já queria seguir línguas?

Bem… Gostava mais de ciências do que línguas. Mas como as ciências tinham desenho escolhi línguas germânicas. Além disso, houve um senhor da Oliva, que era economista, que disse ao meu irmão que “o melhor curso para a tua irmãzita era germânicas, porque vem para aqui uma senhora formada em germânicas que ganha quanto quer”.

E não se arrepende?

Não, não me arrependo. Gostava de ter tirado um curso de ciências, mas não me arrependo. Porque a língua também é uma ciência. No caso do Alemão, é uma língua de estrutura superior, rígida, muito difícil, mas muito racional, de que gosto muito.

Acabei até por me dedicar mais ao Alemão do que ao Inglês. Praticamente fui a única professora de Alemão aqui da escola [João da Silva Correia]. Depois que saí, desapareceu o Alemão da escola. Acho que durou apenas mais um ou dois anos.

Ao ir estudar para Coimbra, como foi o “corte umbilical” com o seu irmão?

Não foi fácil. Imagine o que era uma miúda com 17 anos, naquele tempo, ir para Coimbra. Só vinha de três em três meses a casa.  As estradas eram terríveis. De Coimbra a Vale de Cambra demorava-se quase um dia. Naquelas curvas e contracurvas de Águeda vomitava quase sempre.

Mas, tirando isso, Coimbra foi um fascínio, de facto. Adorei Coimbra. Gostei mais de Coimbra do que do Porto.

“Nunca pus um aluno fora da sala de aula nem dei uma falta de castigo”

Tem algum professor de quem ainda hoje se recorda?

Tenho pena, mas não. Não tive um professor que me marcasse. Não sei, talvez pela rigidez que encontrei no ensino da “velha escola”. Na primária, apanhei uma vez dois “bolos” porque dei quatro erros e só podia dar dois. Mas foram dados devagarinho, de forma diferente dos que eram dados a outros meninos.

Já em Coimbra, gostei, por acaso, de um professor de Fonética, mas também não foi assim uma coisa que me marcasse por aí além.

Mas, curiosamente, lembro-me de muitos alunos. Até tenho uma saudade e uma relação afetiva muito grande com todos eles. Há alunos que me marcaram de uma maneira excecional. No entanto, só dei dois 20 na minha vida, um a Inglês e o outro a Alemão.

Nunca pus um aluno fora da sala de aula nem dei uma falta de castigo.  Claro que havia sempre brejeirices e marotices da parte deles. Mas nunca tive uma falta de educação de um aluno meu. Pelo contrário. Tive sempre manifestações de muito carinho.

Acabou o curso com que idade?

Com 22 anos, idade com que vim para a Molaflex, para S. João da Madeira.

Veio fazer o quê para a Molaflex?

Estava na altura a fazer a tese e fui para a Molaflex como tradutora de Alemão, com o Sr. Rui Moreira, pai do atual presidente da câmara do Porto, e com o engenheiro Mário Moreira, considerado uma das melhores cabeças que tinham passado pela FEUP.

Já na Molaflex, fui mandada para a Suíça alemã, com três operários. Fomos para uma fábrica de fazer molas e eu fui para o meio dos operários, sentadinha numa cadeira a traduzir a língua para os nossos trabalhadores. Ganhei ali relações muito interessantes. Foi um período muito interessante.

Entretanto, acabei a tese e concorri, sabendo que era muito difícil a colocação nos liceus, porque o número de alunos era reduzido. Havia poucos liceus. Concorri praticamente para todo o Norte do país e fui parar a Braga onde trabalhei durante cinco anos.

Fui para Braga ganhar três contos e setecentos e cinquenta escudos como professora, declinando um convite do engenheiro Mário Moreira, que estava na Siderurgia Nacional, que me queria como secretária. Davam-me na altura quatro contos e quinhentos para ficar aqui.

Fui ganhar muito menos e para longe de casa, mas era o ensino que queria. Entretanto veio a “Reforma Veiga Simão” que abriu as portas ao estágio. Mas para isso tinha de ir fazer as chamadas pedagógicas a Coimbra. E fui. Nesse ano ia ter o meu filho em maio.

Se voltasse atrás no tempo voltaria a ser professora?

Sem dúvida!

Como é que veio viver para SJM?

Quem me trouxe para SJM foi o meu marido que era engenheiro e veio trabalhar para a Quimigal. Ele era de Vizela. Quando fui para Braga, apaixonei-me por lá [risos].

Casámos e viemos viver para SJM. Tinha 27 anos, na altura, e o meu irmão, que dava consultas no Santo António [Hospital] e em Vale de Cambra, vivia também neste prédio, no andar de baixo.

Entretanto, já com um filho, fui fazer o estágio para o Carolina Michaëlis, com uma orientadora “de gancho”. Tinha aulas até às 18h00 e tinha de sair às seis da manhã, porque era a estrada velha. Não havia autoestradas.

Entretanto, no final do estágio, efetivou em SJM.

Sim, foi uma sorte. Efetivei em SJM, numa secção do Liceu de Vila Nova de Gaia que abriu aqui. Inicialmente, no Palácio dos Condes. Depois, num edifício para os lados do campo de futebol, com condições muito más. Depois fui para o Colégio Castilho, em frente à escola Serafim Leite.

A escola que é hoje João da Silva Correia foi designada Escola n.º 2, a seguir ao 25 de Abril. Mas eu já não cheguei a dar aulas onde ela é hoje [Rua da Mourisca].

Tem noção que ao ser professora mudou vidas?

Sim. Acho que sim. Por acaso, ainda há dias, tive uma aluna que se abraçou a mim a chorar e a dizer exatamente isso. Cheguei a fazer cursos pós-laborais porque sentia que para evitar determinados “desvios” tinha de os motivar para outros campos. As próprias viagens realizadas para o estrangeiro a custo zero, por mim e pela Dr.ª Clara Reis [antiga colega de profissão e hoje uma grande amiga], foram precisamente para isso. Eu e a Clara fomos muito cúmplices neste trabalho de projeto, de motivação dos alunos.

Ou seja, a Eva não se limitava a dar o programa curricular. Não ensinava apenas Inglês e Alemão, mas também princípios e valores?

Sim. Acho que sim. Embora tivesse de cumprir o programa, nunca abdiquei do meu papel de educadora. E, sabe, julgo que deixei marcas e tenho muito orgulho nisso. Continuo a pensar que educar é um ato de amor.

“Orgulho-me de ter contribuído muito para a ‘nova escola’”

A escola do seu tempo é muito diferente da escola de agora?

A “velha escola”, antes do 25 de Abril, era uma escola muito diferente da escola que foi criada depois [da Revolução de 74]. Orgulho-me de ter contribuído muito para a Nova Escola.

Orgulho-me mesmo, porque fui sempre muito ativista. Sempre me interessei por todas as reformas. Sempre fui muito empenhada para que houvesse uma escola nova. Uma escola em que acreditava e que acho que ajudei a construir.

Ultimamente, de há uns anos para cá, a Escola foi perdendo muitas regalias conquistadas no Pós 25 de Abril. Também reconheço que é muito provável que houve muito atropelo, muita coisa que se calhar não foi feita devidamente nem com o tempo devido.

Sim, perdeu-se muito nestes últimos tempos. Mas, apesar de tudo, a escola que temos hoje nada tem a ver com a escola de antes do 25 de Abril. É muito melhor!

Espero que professores, alunos, toda a gente que está ligada ao ensino, lutem para que estas conquistas de Abril não se percam mais. Se bem que hoje a profissão de professor está muito pouco dignificada, está mesmo desconsiderada, quando devia ser a profissão mais digna. Sim, porque pelas nossas mãos passa tudo. Passam, inclusive, os próprios governantes da nação.

Ainda há dias, fui à João da Silva Correia, porque queriam que fosse lá uma pessoa de sucesso que tivesse passado por aquela escola falar com alunos do 11.º ano. Achei piada por me acharem uma pessoa de sucesso.

Mas, sim, disse-lhes que se uma pessoa de sucesso é uma pessoa que realmente fez aquilo que fez, que gostou daquilo que fez e que não se arrepende daquilo que fez então eu era uma pessoa de sucesso.

Na ocasião, perguntei qual dos alunos que estavam no anfiteatro queria ser professor e não houve um único que levantasse o dedo, o que me deixou a pensar, sou sincera.

E isso deve-se a quê?

Não sei ao certo. Mas vejo tanta gente desmotivada no ensino que se tivesse oportunidade de se pôr a andar fazia-o.

Para se ser professor, para além do saber e do sentido pedagógico, tem de se ter aquilo a que chamo “arte”. Algo que não sei explicar. Tem de se ter uma empatia imediata com os alunos. Fui orientadora de estágio e olhe que “apanhei” muitos estagiários profissionais, competentes, mas não houve muitos em quem tivesse notasse a tal “arte”.

Se lecionasse hoje continuaria a não pôr alunos fora da sala de aula?

Não gosto muito de fazer afirmações sem vivências. Tenho ouvido queixas de gente que considero muito e que acho que devem ser boas profissionais que me impressionam. Mas olhe que no meu tempo também havia alunos que cuspiam na cara dos professores e que chamavam “filho desta” e “filho daquela” nos corredores. A seguir ao 25 de Abril não foi nada fácil.

A mim, felizmente, nunca me aconteceu tal coisa. Como lhe disse, nunca tive uma falta de respeito de um aluno nem tampouco atrevimento. Nunca pus um aluno fora da porta.

Chegada a altura da aposentação, a sua vida mudou?

Mudou. Passei a ter mais liberdade, a sair mais com o meu marido. Foi um bom período da nossa vida. Como os filhos já estavam formados, tínhamos mais tempo um para o outro, mas, entretanto, tive de passar a cuidar da minha mãe. Cuidei dela quase 20 anos, até ela falecer com 101 anos.

Depois de me aposentar, também passei a ir mais para Vale de Cambra, onde continuei com a minha função pedagógica junto dos miúdos da minha aldeia.

Quantos livros tem publicados?

Este [“O Leprechaun e a Bailarina”] é o meu sexto livro. O primeiro – “Era uma vez, Future Kids” – foi publicado em abril de 2004 e é sobre a minha infância.

“Aurora Adormecida”, o meu segundo livro, retrata o pós-guerra, a exploração do volfrâmio nas minas de Arouca, pedaços da vida da minha mãe, Aurora. Além destes, escrevi também “Era uma vez em Outubro” (2010), “Corconte” (2012), “Cenas do Paraíso” [em coautoria com Adão Cruz (2016)] e agora “O Leprechaun e a Bailarina” (2019).Embora não sejam escritos à toa nem de ânimo leve, nos meus livros, não tenho preocupação histórica. Aborrece-me pesquisar. Há sempre um fundo histórico, mas não há valor documental.

Mas começou a escrever antes de se reformar?

Sim. Sempre gostei de escrever. Quando fui para o CarolinaMichaëlis a professora de Português mandou fazer uma redação sobre o primeiro dia de aulas. Entregámos as redações e passadas algumas aulas a professora perguntou quem era a menina n.º 2 [naquele tempo eram chamadas pelo número em vez de pelo nome] e disse-me que tinha esperança que viesse a ser alguém na vida.

Leu a minha redação em voz alta e chamou a atenção para o título que tinha dado [“Esse primeiro de outubro”]. Ela achou piada ao demonstrativo.

Eva Cruz lança sexto livro esta sexta-feira nos Paços da Cultura”, com o apoio do jornal labor

Amanhã lança o seu sexto livro, “O Leprechaun e a Bailarina”

Olhe, comecei-o a escrever ainda o meu marido era vivo, há dois anos. Ele ainda chegou a ler 10 capítulos, porque, embora fosse engenheiro, tinha sentido crítico e a sua opinião era muito importante para mim. Aliás, faço-lhe uma dedicatória neste livro.

Ele gostava do que eu escrevia, mas estava sempre a dizer-me que devia puxar mais pela história porque as pessoas gostam muito de enredo. Só que acho que nunca tive nem tenho espírito de romancista.

“O Leprechaun e a Bailarina”é uma história de amor, uma história de sucesso de emigração que tem como pano de fundo a emigração dos anos 60. É um testemunho de amor, nascido na rudeza e miséria da aldeia ou nos boulevards da grande cidade.

Funcionou, para mim, como uma catarse. O falecimento do meu marido foi o período mais negro da minha vida. E eu agarrei-me a isto. Fui escrevendo, escrevendo, escrevendo, porque escrever era uma forma de me apaziguar, de controlar a saudade.

Mas não fazia conta de o publicar?

Não. Foi a Dr.ª Graça, da Biblioteca Municipal, uma das grandes motivadoras para que o publicasse. Ela e o marido, o Dr. Pedro, são os dois causadores da publicação. “O Leprechaun e a Bailarina” conta com a edição do jornal labor.

E agora está motivada?

Sim, estou. Dei-o, inclusive, já a ler às minhas quatro apresentadoras da sessão de amanhã, que, curiosamente, também apresentaram o meu primeiro livro: professoras Carmina, Clara Reis, Isilda e Nelly.

Obra é “uma homenagem ao emigrante e a todos aqueles que perseguem os seus sonhos”

Qual a mensagem deste seu livro?

Este livro pode ser considerado uma homenagem ao emigrante e a todos aqueles que perseguem os seus sonhos.

A “bailarina” é uma menina que batizei [a madrinha e narradora] a quem eu dei em criança um “Leprechaun” [figura mitológica do folclore da Irlanda], que a acompanhou pela vida toda. Ela agarrava-se ao duende e à bênção da madrinha convencida que eram eles que lhe davam força para perseguir o sonho. Por vezes, uma palavra certa pode ser determinante. Pode alimentar o sonho. Cá está o meu espírito otimista a falar mais alto.

Acredita que o “Leprechaun”dá mesmo sorte?

O meu primeiro “Leprechaun” foi-me oferecido por uma amiga irlandesa há muitos anos. E agora no Natal do ano passado a Clara Reis deu-me outro, longe de imaginar que ia publicar um livro intitulado “O Leprechaun e a Bailarina” [risos]. Coincidências ou talvez não…

Mas respondendo à sua pergunta, as crenças e superstições valem o que valem. Com esta “bailarina”, cujos “Leprechaun” e a bênção da madrinha sempre a protegeram pela vida fora, quero simbolizar todos os meninos da aldeia que tirei do insucesso. Ensinava-lhes tudo o que sabia. Fui espalhando essa influência pedagógica, afetiva.

Tem outro livro na forja?

Tenho muitas ideias. Tenho muita coisa escrita, para aí dispersa, na matriz da poesia. Mas acho que este é mesmo o meu último livro.

 

Eva Cruz

Eva Cruz nasceu em Vale de Cambra nas Figueiras – um “lugarzinho mágico” perto do Pinheiro Manso, quem vai para Oliveira de Azeméis (OAz) – a 6 de janeiro de 1942, precisamente, no Dia de Reis.  Daí a sua mãe, Aurora, lhe dizer que naquele dia tinha nascido uma “rainha”. A família na altura não era numerosa, sendo composta apenas pelos pais e um irmão, Adão Cruz, com quem teve sempre uma cumplicidade muito grande.

“Evinha”, como ainda lhe chamam na sua aldeia, fez a quarta classe na Escola Primária dos 2 e, depois, foi para o Colégio de Oliveira de Azeméis, onde o irmão, cinco anos mais velho, já andava. Em OAz concluiu o último ano de liceu, seguindo-se uma nova fase da vida no Porto, uma cidade grande que nada tinha a ver com o “paraíso” onde vivia. Na “Invicta” frequentou o Liceu CarolinaMichaëlis, “considerado na altura o liceu mais difícil do país”. Entretanto, prosseguiu os estudos em Coimbra tendo em vista o ensino de Inglês e Alemão.

O pai gostava que fosse advogada, mas Eva Cruz que, “já em miúda ensinava bonecas como quem ensinava alunos”, sempre quis ser professora. E, de facto, foi professora durante 36 anos, a maior parte do tempo na Escola João da Silva Correia.

Após a aposentação em 2001, dedicou-se mais a sério à escrita. Já tem publicados cinco livros e tem um outro que está a poucas horas de “ver a luz do dia”. Com edição do jornal labor, “O Leprechaun e a Bailarina” é lançado amanhã, dia 24, pelas 21h30, nos Paços da Cultura.

 

Livros de Eva Cruz

 “Era uma vez, Future Kids” (2004)

“Aurora Adormecida” (2006)

“Era uma vez em Outubro” (2010)

“Corconte” (2012)

“Cenas do Paraíso” [em coautoria com Adão Cruz (2016)]

“O Leprechaun e a Bailarina” (2019)

 

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por Augusta Clara às 16:44

Terça-feira, 30.04.19

GUINÉ- IRKUTSK - Adão Cruz

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Adão Cruz  GUINÉ- IRKUTSK 

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(Adão Cruz)

 

 

   Não chovia, mas o céu ameaçava desfazer-se em água. Era plúmbeo, presumivelmente a oeste, e carregado de negro do lado oposto. Uma faixa mais clara nascia por cima de Irkutsk e desfibrava-se ao longo do rio Angorá. Mais parecia um quadro de Fiódor Vasiliev ou de Ivan Aivasovsky.
 
Como a vida tem tantas formas de circularidade, sentei-me num banco de jardim à beira do rio, e dei ordens à memória para me buscar aquele rapaz soviético que, há muitos anos, num ardente dia de sol, as nossas tropas aprisionaram no norte da Guiné. Era de Kiev, mas tinha nascido em Irkutsk, na Sibéria.
 
Técnico de máquinas automáticas, oferecera-se, como voluntário e internacionalista, para ajudar os guerrilheiros do PAIGC a combater as tropas colonialistas.
 
Na pequena sala onde funcionava a secretaria do nosso aquartelamento, estava o prisioneiro como que pregado a uma cadeira. Tinha na sua frente o capitão da nossa Companhia, o capitão da Companhia de intervenção que o capturou, dois ou três sargentos e outros tantos alferes, e eu.
 
Os lábios do jovem soviético nascido em Irkutsk estavam gretados de sede e de sol. Um sorriso feito de água, terra, fogo e ar, iluminado por um sol negro de melancolia, denunciava um grande medo dos homens que tinha na sua frente.
 
O capitão foi buscar um copo de água e entornou-a lentamente a uma mão travessa da boca do rapaz. Os olhos quase saltaram das órbitas. Pedi ao capitão que me desse o copo, enchi-o de água e raiva e dei-o a beber ao prisioneiro. Valeu-me a firmeza com que o fiz e o facto de ser médico.
 
Se algum dia a minha vida pudesse ser música!…
 
Desconfiado, levou o copo à boca…
 
Ainda hoje eu não sei falar de tudo o que treme nas mãos de uma criança!
 
O céu arrependeu-se de chover. Seguimos para o lago Baikal, a maior reserva de água doce do mundo. Segundo os cálculos, daria para matar a sede à humanidade durante oitocentos anos. Quando senti nas mãos a água fria das margens lembrei-me de um copo de água lá nos confins da Guiné.
 
Eu não sou capaz de crescer para as palavras, mas dava tudo para cruzar os tempos que ainda são tempo, e mostrar ao mundo a dimensão que o homem é, e a pequenez que usa por força da fraqueza.
 

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por Augusta Clara às 11:10

Sábado, 20.04.19

KYRIE - José Carlos Ary dos Santos

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José Carlos Ary dos Santos  KYRIE

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(Artur Bual)

 

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

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por Augusta Clara às 19:18

Domingo, 24.03.19

Karin Meyn

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Karin Meyn

 

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por Augusta Clara às 15:25

Quinta-feira, 14.03.19

Porquê as mulheres? - Isabel do Carmo

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Isabel do Carmo  Porquê as mulheres?

 

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Público, 14 de Março de 2019

Esta sociedade está cheia de sinais que vão até aos crimes baixos que fazem soar o alarme. Mas é tudo o resto que também temos que discutir.

Por que é que são as mulheres espancadas, algumas até à morte, ameaçadas, assediadas, sobrecarregadas com trabalho doméstico, ganham menos desempenhando as mesmas funções, vivem na sombra? Porque vivemos numa sociedade patriarcal hierarquizada. Os casos extremos são a ponta do iceberg. É uma questão de poder e é também o quotidiano que temos que discutir, para pôr ao sol o que parece subtil ou insignificante. Dar testemunho é um dever.

Participei na avaliação das consequências físicas do inquérito de prevalência de violência sobre mulheres (Manuel Lisboa, 2006). Algumas ousavam revelar lesões, arranhões, encontrões, hematomas, torções. As que tinham sofrido fracturas tinham ido ao hospital. Quase todas “porque tinham caído na escada” na declaração feita à entrada da urgência. Não sabemos os comentários que aí as acolheriam se dissessem o verdadeiro motivo.

Há portanto aqui uma escala, em que o assassinato emerge como caso extremo e sinal de alarme. No entanto, sei o que ouço nas minhas consultas clínicas, e por dever de médico, pergunto o que é que se passa “lá em casa”, para além das queixas que são motivo da consulta. O que ouço também é uma escala. Há as que se queixam que os maridos são uns “brutamontes”, dos quais nunca se separaram porque não tinham condições para isso. E há aquelas, muitas, a quem o marido “levanta a mão”, entra em cólera e impede qualquer conversa sobre razões conflituosas. Enfim, uma relação de maior força física e de poder que regula a relação doméstica.

Estes homens já foram crianças que assistiram a espancamentos ou a simples empurrões ou cóleras exercidas sobre a mãe, para eles “naturais”, assimilados, interiorizados. Foram crianças elas próprias espancadas pelos pais e educadas a reguadas na escola pública. Ou que, mais elegantemente, levaram “uns açoites” ou umas “palmadas que não fazem mal a ninguém”, exercidas pelas mães, subjugadas pelo patamar de cima. A escala do poder foi pois “natural” e interiorizada, o comportamento e o impulso nem são interrogados.

Este ambiente foi o mesmo em que viveram ou vivem polícias e juízes, para só falar nos que têm que exercer autoridade e decidir. É pois necessário meter a mão naquilo que é a vida privada, a vida quotidiana, sem ter medo de ferir susceptibilidades. Mas também sem considerar os homens como inimigos das mulheres ou dizer que “são todos iguais”. A par das histórias dramáticas e sobretudo tristes que ouço, também testemunho muitos casos de casais de muitos anos, verdadeiros companheiros solidários e jovens rapazes que partilham com alegria os cuidados dos filhos e da casa, o que nos dá esperança para o futuro.

Mas a maior parte das vezes em que pergunto sobre as tarefas domésticas, as mulheres descrevem um quotidiano em que fazem quase tudo. Nos casos mais simpáticos ele “ajuda”. Ele “ajuda” e ela até fica agradecida, como se fosse a vizinha do lado, prestável, que a ajudasse. E não a pessoa que tem os mesmos filhos e vai utilizar os mesmos objectos, a mesma roupa e comer a mesma comida que ela, que tem os mesmos horários e os mesmos transportes. Pôr em questão estes problemas relacionados com a sociedade patriarcal e com estas relações de poder não é coisa fácil e atravessa classes sociais e ideologias. Indignação perante um assassinato é uma coisa, mexer nas relações do quotidiano é outra. Infelizmente, a primeira tem que servir para trazermos à luz do dia aquilo que está oculto.

Podemos lembrar as concepções ditas machistas que emergiram a seguir ao 25 de Abril e durante o processo revolucionário. Iam muito além dos tradicionalistas e conservadores e atravessavam os politicamente à esquerda, que se diziam “chefes de família”, respeitavam as suas “esposas”, mas tinham uma vida hipócrita tal como o papa Francisco descreve para os habitantes do Vaticano — moralistas para fora, “pecadores” para dentro. Aliás, homem que tinha “casos por fora” até era engraçado, sinal de virilidade, mas as mulheres tinham que ser “sérias”, “honradas”. Considerar “histéricos” os protestos contra a estrutura machista da sociedade veio até agora.

Só há poucos anos vou a sessões do dia 8 de Março com alguma tranquilidade, pois durante muitas comemorações fui objecto de provocações e tentativas de desacato, as quais foram provocadas por personagens insuspeitos. Numa, um militar muito radical interrompia e queria provar que os homens é que eram vítimas das mulheres. Noutra, uma jovem mulher dizia que estas questões da mulher não deviam ser levantadas porque quando a sociedade mudasse elas ficavam resolvidas, o que desde já se provava pelo facto de no partido dela não haver discriminação de sexos. Noutra, numa sessão da Ler Devagar, uma “feminista” vestida à homem contestava violentamente que estivéssemos a exibir um belo filme, Curvas Graciosas, onde se mostravam as formas próprias das mulheres novas e velhas, muito para além do estereotipado. Todos estes casos foram provocações premeditadas e destinadas a acabar com a sessão, em locais considerados “abertos” e com frequentadores habituais.

Evoco, todavia, também como janela de esperança, o caso de um adolescente, numa escola que servia o Vale da Amoreira, no Barreiro, que numa dessas sessões me colocou uma verdadeira questão: ser ou não verdade que se for o homem a estar desempregado e a fazer tarefas domésticas se sente mais humilhado do que se for o inverso. Foi há poucos anos, estávamos e estamos ainda muito na infância da discussão do quotidiano. Quando estou numa reunião, seja política, seja institucional, seja profissional, com homens e mulheres, proponho sempre que quem fale o faça pedindo a palavra ou, muito melhor, dando a volta à mesa. Porque se não for assim... já sei quem vai falar primeiro, mais alto e a sobrepor-se. E quantas vezes em reuniões sociais vemos as mulheres entrarem e saírem caladas porque “onde há galos não cantam galinhas”. E não evoquemos as excepções para provar o contrário, porque são mesmo excepções conseguidas a custo!

Aprofundando mais ainda os sinais e observando a linguagem, não se poderá reflectir sobre a expressão de insulto “filho da p...”? Não considero que a prática da prostituição seja uma profissão, também não considero que seja crime ou delito e conheço o sofrimento que acarreta. O que sei é que as mulheres que a praticam e os filhos delas são tão dignos de consideração como qualquer cidadão.

O insulto é mal escolhido. Indo mais longe: o que é que queremos dizer com a expressão agressiva “fuck you” nos vários idiomas? Falocrático, não é? Com isto não quero fazer qualquer campanha moralista contra os palavrões e até aprecio a poesia erótica de José Maria do Bocage, que os empregou na verdadeira acepção. O que quero mostrar é que esta sociedade está cheia de sinais que vão da linguagem banal, à ordem “natural” do quotidiano, público e privado, passando dos pequenos gestos ameaçadores até grandes gestos. Para finalmente emergir em crimes baixos que fazem tocar o alarme. Mas é tudo o resto que também temos que discutir.

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por Augusta Clara às 17:03

Domingo, 17.02.19

Os vampiros - Adão Cruz

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Adão Cruz  Os vampiros

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(Adão Cruz)

 

A cidade está comida por enormes vampiros
varrida de poesia flores e frutos
e canções quentes dos filhos da cidade.
Ainda que os dentes sejam de cifrões
os vampiros matam com bombas tiros e orações.
Já não regressam as manhãs na cidade exterminada
coberta pela nuvem de vampiros devoradores
que tudo comem e não deixam nada.
A cidade dos pobres está comida por vampiros
vindos das cavernas podres da cidade civilizada
guiados por deuses e generais
benzidos por papas e cardeais
que tudo comem e não deixam nada.
E os pobres arrastam a vida muito aquém da vida
onde um mar de nada definha o pensamento
e um rio de cinza cobre a alegria de viver.
Eis que os pobres se dão conta de um futuro em liberdade
onde um mar de sonho e utopia
restitui a vida ao pensamento e à razão.
Mas os vampiros conhecem bem os buracos da prisão
e tudo fazem para os fechar
com grades de fé e religião.
A cidade está comida por enormes vampiros
vindos do céu e do inferno
devorando a mente e abandonando o corpo no deserto
como criança sem asas.

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por Augusta Clara às 14:55

Segunda-feira, 14.01.19

O menino de brilho nos olhos - Adão Cruz

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Adão Cruz  O menino de brilho nos olhos

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(Adão Cruz)

 

O menino corria
corria atrás do sol no correr de cada dia
e no doce brilho dos olhos toda a alma se lhe via.
O menino corria
corria atrás da lua que se erguia entre estrelas e magia
e no brilho dos olhos toda a alma luzia.
O menino corria
corria atrás do vento que fugia para lá do tempo
e nos olhos do menino o vento se perdia.
O menino corria
corria atrás da chuva
e quanto mais água caía
mais o brilho dos olhos se acendia.
O menino dormia
dormia no reino dos sonhos e da fantasia
e nos olhitos dormidos o brilho se escondia.
O menino acordava
acordava no alvor de cada dia
e a vida renascia no abrir dos olhos
onde a alma luzia.
Até que um dia…
Uma nuvem negra
muito negra
tombou do céu e se fez gigante
de longas barbas e olhar perfurante
com um relâmpago em cada mão.
Roubava o brilho dos olhos
e nas entranhas do trovão se desfazia.
O menino tremia
tremia sem saber o que acontecia.
O menino chorava
chorava sem saber a razão.
O menino fugia
fugia
mas algo lhe dizia que de nada valia.
Chamou as pombas rouxinóis e cotovias
sardões caracóis e libelinhas
enlaçou-se de gavinhas
abraçou as árvores beijou a terra
e tudo o que nele vivia.
Mas ninguém lhe respondia
todos o olhavam com tristeza e melancolia.
Perdera o menino o brilho dos olhos
porque neles a inocência morria.

 

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por Augusta Clara às 16:40

Terça-feira, 08.01.19

Paraíso - Adão Cruz

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Adão Cruz  Paraíso

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(Adão Cruz)

 

Não há portas do paraíso
Nem caminhos para lá chegar
Mas entre lágrimas e riso
Ninguém quer acreditar.
No fim sobram os passos
Sem mais caminho para andar.

 

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por Augusta Clara às 14:57



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