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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 01.08.18

Saudades da terra - António Gedeão

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António Gedeão  Saudades da terra

António Gedeão1, eduardo gageiro.jpg

(Fotografia de Eduardo Gageiro)

Uns olhos que me olharam com demora,
não sei se por amor se caridade,
fizeram-me pensar na morte, e na saudade
que eu sentiria se morresse agora.
E pensei que da vida não teria
nem saudade nem pena de a perder,
mas que em meus olhos mortos guardaria
certas imagens do que pude ver.
Gostei muito da luz. Gostei de vê-la
de todas as maneiras,
da luz do pirilampo à fria luz da estrela,
do fogo dos incêndios à chama das fogueiras.
Gostei muito de a ver quando cintila
na face de um cristal,
quando trespassa, em lâmina tranquila,
a poeirenta névoa de um pinhal,
quando salta, nas águas, em contorções de cobra,
desfeita em pedrarias de lapidado ceptro,
quando incide num prisma e se desdobra
nas sete cores do espectro.
Também gostei do mar. Gostei de vê-lo em fúria
quando galga lambendo o dorso dos navios,
quando afaga em blandícias de cândida luxúria
a pele morna da areia toda eriçada de calafrios.
E também gostei muito do Jardim da Estrela
com os velhos sentados nos bancos ao sol
e a mãe da pequenita a aconchegá-la no carrinho
e a adormecê-la
e as meninas a correrem atrás das pombas
e os meninos a jogarem ao futebol.

A porta do Jardim, no inverno, ao entardecer,
à hora em que as árvores começam a tomar formas estranhas,
gostei muito de ver
erguer-se a névoa azul do fumo das castanhas.
Também gostei de ver, na rua, os pares de namorados
que se julgam sozinhos no meio de toda a gente,
e se amam com os dedos aflitos, entre cruzados,
de olhos postos nos olhos, angustiadamente.
E gostei de ver as laranjas em montes, nos mercados,
e as mulheres a depenarem galinhas e a proferirem palavras
grosseiras,
e os homens a aguentarem e a travarem os grandes camiões pesados,
e os gatos a miarem e a roçarem-se nas pernas das peixeiras.
Mas ... saudade, saudade propriamente,
essa tenaz que aperta o coração
e deixa na garganta um travo adstringente, essa, não.
Saudade, se a tivesse, só de Aquela
que nas flores se anunciou,
se uma saudade alguém pudesse tê-la
do que não se passou.
De Aquela que morreu antes de eu ter nascido,
ou estará por nascer - quem sabe? - ou talvez ande
nalgum atalho deste mundo grande
para lá dos confins do horizonte perdido.

Triste de quem não tem,
na hora que se esfuma,
saudades de ninguém
nem de coisa nenhuma.

 

ANTÓNIO GEDEÃO - "Máquina de Fogo" - 1961

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por Augusta Clara às 17:02

Terça-feira, 24.07.18

O menino de brilho nos olhos - Adão Cruz

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Adão Cruz  O menino de brilho nos olhos

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(Adão Cruz)

 

O menino corria
corria atrás do sol no correr de cada dia
e no doce brilho dos olhos toda a alma se lhe via.
O menino corria
corria atrás da lua que se erguia entre estrelas e magia
e no brilho dos olhos toda a alma luzia.
O menino corria
corria atrás do vento que fugia para lá do tempo
e nos olhos do menino o vento se perdia.
O menino corria
corria atrás da chuva
e quanto mais água caía
mais o brilho dos olhos se acendia.
O menino dormia
dormia no reino dos sonhos e da fantasia
e nos olhitos dormidos o brilho se escondia.
O menino acordava
acordava no alvor de cada dia
e a vida renascia no abrir dos olhos
onde a alma luzia.
Até que um dia…
Uma nuvem negra
muito negra
tombou do céu e se fez gigante
de longas barbas e olhar perfurante
com um relâmpago em cada mão.
Roubava o brilho dos olhos
e nas entranhas do trovão se desfazia.
O menino tremia
tremia sem saber o que acontecia.
O menino chorava
chorava sem saber a razão.
O menino fugia
fugia
mas algo lhe dizia que de nada valia.
Chamou as pombas rouxinóis e cotovias
sardões caracóis e libelinhas
enlaçou-se de gavinhas
abraçou as árvores beijou a terra
e tudo o que nele vivia.
Mas ninguém lhe respondia
todos o olhavam com tristeza e melancolia.
Perdera o menino o brilho dos olhos
porque neles a inocência morria.

 

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por Augusta Clara às 17:24

Sábado, 21.07.18

O segredo - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  O segredo

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(Adão Cruz)

 

 

O mais belo segredo da minha vida

Onde o horizonte foge contra o tempo

É só nosso e de mais ninguém

Onde as sombras negras desaparecem

Ele procura ver-me na janela dos teus olhos

E tenta falar-me no silêncio falso do desdém.

 

Mais além veste-se de negro

De sol enorme e de pão quente

Do eco de tudo à volta do teu ninho

De purpúreos reflexos de sol poente

Do vermelho de sangue em coração de gente.

 

Não consigo ver-te tão ausente

Sem calor no descampado que aqui mora

Sem o dilúvio do desejo permanente

Que adormece nos verdes rios do meu segredo

E acorda sempre ao romper da aurora.

 

Tudo me encaminha para os teus olhos

Quando te sentas à porta da minha idade

Nesta entrada iluminada de enganos e algemas

Mas o segredo que devora a vida

Presa entre as mãos abandonadas e serenas

Veste de mentira a beleza da verdade.

 

Como criança quase me obriga a pedir ao vento

Uma lufada de Primavera amor e sentimento

Mas as palavras fazem ninho

No mais doce recanto de um beijo de sofrimento

E adormecem de mansinho.

 

Vou embora…

São horas de saber se a vida vale a pena

No dobrar de avessos e gargalhadas

Junto ao rio que os dedos fazem e desfazem

Vou correr as margens no sentido da nascente

Sabendo que o rio me arrasta para o fim da tarde

Na implacável força da corrente.

 

Ainda bem que esta margem é clara e amena

E do outro lado é tudo escuro quase negro

Mas quando o fogo queima o pensamento e a razão

Até o segredo azul de um pálido coração

Escondido desde há muito no ventre dos pinheiros

Parece verde como o verde da ilusão.

 

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por Augusta Clara às 17:37

Domingo, 15.07.18

Mia Couto

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"O vento foi um pássaro e fugiu para fora de si mesmo quando os homens o quiseram capturar. Deixou de ter corpo, fez ninho nas nuvens e viaja com elas para pousar quando se cansa. É por isso que o vento canta." - MIA COUTO, O Bebedor de Horizontes.

justyna kopania, sea1.jpg

(Justyna Kopania)

 
 

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por Augusta Clara às 15:28

Terça-feira, 10.07.18

Venho de um jardim distante - Adão Cruz

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Adão Cruz  Venho de um jardim distante

 

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(Adão Cruz)

 

Venho de um jardim distante florido de memórias
ou de um sonho qualquer
entre risos e lágrimas caindo de um céu de chumbo
ou de um céu de magnólias.
Venho do seio do orvalho da madrugada
num punhado de vida libertada
em qualquer rumor de passos
brincando nos telhados acesos pela luz do dia.
Venho de um jardim distante
onde grinaldas de flores abrilhantam a festa do azul dos tempos
no incêndio do crepúsculo ou no ardor da manhã
do meu berço de mistério e universo.
Venho das esquinas do tempo
em recordações avulsas ao sabor das pontes da vida
cavalgando o vento que assobia nas ruas estreitas
ou mordendo as pedras com punhais de silêncio.
De onde venho ninguém sabe.
Venho talvez da intimidade salgada do mar
ou de um jardim distante com um rio de passos e palavras
e pedaços de sol num rosário de pérolas
abrindo a neblina do nascer da vida.
Venho… quem sabe…
da nudez adormecida no silêncio do tempo
destinado à simplicidade da morte
pelo sinuoso caminho das recordações perdidas
no chão fundo das angústias ou nos retalhos da esperança.

Venho talvez das sombrias entranhas
prenhes de fulvos e ilusórios tesouros
que emergem do fundo do mar
sublimados de cor e luz
à superfície traiçoeira das águas bordadas de espuma.
Ou então…
Ou então serei filho de um mundo sem resposta
sujeito a ventos e marés que enrugam o latejar das veias
e quebram o voo das artérias com lugar no corpo
rompendo o fluir da vida no interior do sonho.
Não.
Eu não venho de lugar algum fora da mente
nem trago comigo a erva daninha.
Eu venho de um jardim distante entre o sonho e a razão
onde o pensamento se agiganta contra as trevas da ilusão.

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 29.06.18

Adão Cruz, 2014

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Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 14:16

Sexta-feira, 29.06.18

Adão Cruz, 2013

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Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 13:59

Sexta-feira, 29.06.18

Adão Cruz

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Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 13:48

Segunda-feira, 18.06.18

Canções antigas - Adão Cruz

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Adão Cruz  Canções antigas

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(Adão Cruz)

 

Na recordação das canções antigas
veste-se meu coração
das verdes folhas do desejo
e entoa na fragrância dos campos
a melodia dos olhos pendurados na profundidade do céu.

Na sombra da figueira diz-me adeus o sol
em acenos de azul e violeta
por entre os ramos e os sons de uma flauta de lábios doces
que por ali poisou entre sonhos infinitos do lusco-fusco.

As primeiras chuvas do verão humedecem como lágrimas
as palavras ditas e não ditas
no silêncio dos caminhos perfumados
de terra e folhas molhadas.

E nada se reconhece na lembrança muda das tardes
que para sempre morreram
mas os passos ecoam em silêncio
por entre os pés das oliveiras
onde outrora floriram mil risos de criança.

Que fez de mim este crepúsculo azul
como flecha espetada no vento
ferindo de morte toda a vida de meu sonho-menino.

Onde está a pedra que se fez montanha
o regato que se fez rio
a tripla chama infinita da vida luz e verdade
que se apagou na alma nua
quando sagradas selvas
e misteriosas crenças de punhal à cinta
quiseram que fosse santa.

Meu coração peregrino de seu perdido tesouro
entre o sol e as desgarradas nuvens de infinitos céus
ainda hoje se arrasta entre a razão e o abismo
em pálido reflexo de ouro para ser criança na hora de partir.

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por Augusta Clara às 13:32

Domingo, 17.06.18

Um dia me darei conta - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Um dia me darei conta

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(Adão Cruz)

 

Um dia me darei conta do teu corpo infindável
Um dia sorridente me sentirei infinito
nunca esgotado o desejo que nos abraça e nos atormenta
à distância dos sentidos sempre fugazes
sempre perdidos no corpo finito.

Um dia me darei conta
do tempo que não se perde para lá das formas
do tempo em que não murcham
os rebentos cálidos da minha carne
e o sangue não perde o fulgor
das cores abertas ao sol.

Um dia me darei conta
e nesse dia gostaria de partir.

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por Augusta Clara às 14:00



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