Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Sábado, 28.12.19

Poema do desgaste e do contraste - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Poema do desgaste e do contraste

012-2013a.jpg

 

(Adão Cruz)

 

Há muito que não saía à rua
há muito que não saía fora de mim
em direcção ao meu corpo abandonado
estendido em fria paleta sem cor
sobre um manto de poemas carcomidos
ruídos de musgo e manchas de bolor.

Há muito que não saía à rua
há muito que não sentia a dor
do desprezo da poesia
feita espuma de coisas impalpáveis
escaldantes
abertas e sangrantes
no sofrido labirinto da alma vazia.

Há muito que não saía à rua
há muito que não me apercebia um só momento
do cantar bronco do poeta
em perpétuo e estúpido invento.

Há muito que não saía à rua
há muito que não dobrava a porta deste corpo
abandonado na escuridão de uma noite peregrina
de lacrimosas horas perdidas
em poemas de cinza em cada esquina.

Há muito que não saía à rua
e pisava o chão purulento do degredo
na lama fria dos poemas e do medo
que rompiam as cadeias do meu corpo.

Há muito que não saía à rua
há muito que se apagou a felicidade
mudando o cair da noite e o nascer do dia
em matéria grosseiramente física
de versos telúricos
sem poesia nem liberdade.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:31

Terça-feira, 24.12.19

Entre as mãos e o sonho - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Entre as mãos e o sonho

entre as mãos e o sonho1.jpg

 

(Adão Cruz)

Entre as mãos e o sonho
nascem as coisas
e as coisas são de pedra e água
dor e alegria
cor e sombra
realidade e fantasia.
E também são de poesia
as coisas que nascem
entre as mãos e o sonho.
A criação não precisa de donos
mas de sentimentos
de encontros e desencontros
no desenrolar de cada dia.
As coisas não nascem por destino
mas de acasos
nascem das horas sem tempo
dos dias vividos
entre o ontem e o amanhã
entre a realidade e absurdo
do hoje e agora.
A eterna beleza permanece
entre as mãos e o sonho
a sua luz incendeia a esperança
onde vive a angústia
e o que somos por dentro
desnuda a forma das coisas.
Entre as mãos e o sonho
um vale profundo
uma montanha mágica de silêncio
uma calma harmonia do mar
que nos fazem emigrar
para fora do mundo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 23.12.19

O limoeiro - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  O limoeiro

image001 (10).jpg

 

(fotografia de Adão Cruz)

   A florescência prometia muitos frutos mas não tantos como os que o limoeiro veio a carregar. Dizem que é aneiro, ano sim, ano não, produz mais limões ou menos limões. Logo a seguir à flor, a pequena árvore começou a mostrar muitos botões pequeninos que pareciam piorras de eucalipto. Foram crescendo ao ritmo da natureza e deram tantos, tantos frutos que pareciam mais do que as folhas. A pobre da árvore acabou por derrear e alguns ramos esgaçaram e ficaram pousados no chão, alimentados apenas por uma pequena tira de casca. Logo a sabedoria popular escorou o limoeiro com cinturas de arame sobre bocados de borracha, a fim de impedir que o ferro se enterrasse no seu corpo. Mesmo assim, era o ver dos olhos, e nas rancas pousadas no chão lá iam amarelecendo os limões, inclinados para o sol que lhes dava de nascente.

Nestes últimos dias, a natureza revoltada fustigou a terra com chuva e ventos fortes, a que deram nomes de mulher e homem, talvez para tentar pôr culpas em alguém. Rajadas mais violentas levaram pelos ares a cobertura de um casebre, antes feita de linda e velha telha, posteriormente substituída por folha de zinco. Por acasos que ninguém entende, levou o pobre do limoeiro com a folha de zinco em cima, a qual abateu limoeiro e limões.

Um fenómeno como qualquer outro, nada de tragédias, mas que me impressionou pelo facto de nunca antes ter visto aquele limoeiro assim tão carregadinho de frutos. Até mereceu uma fotografia pela sua imponência.

A chapa de zinco foi retirada, deixando a descoberto os destroços da árvore com seus frutos. Completamente derreado e depenado, ficou o limoeiro apenas com o tronco e dois bracitos com alguns limões ao dependuro. Espero que mesmo assim resista, e, apesar de aneiro, dê para o ano alguns limões, ainda que poucos.

Se não resistir, assim se despede, como tudo na vida, daquele cantinho de terra onde há tantos anos estava enraizado. Aconteça o que acontecer, esta será sempre para mim a apoteose e o apogeu do meu velho limoeiro.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:02

Quarta-feira, 18.12.19

Vinho verde - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Vinho verde

98a.png

 

(Adão Cruz)

 

O vinho verde, já o disse muitas vezes, foi o meu segundo leite.
Lembro-me muito bem daquelas cheirosas pipas da adega, com torneiras de madeira que chiavam ao verterem nos copos o denso e espumoso verde tinto.
Ainda criança, que bem me sabiam as sopas de cavalo cansado, uma malga de vinho verde tinto com pão de trigo ou boroa migada com açúcar!
Levantavam a alma de um morto, dizia-se.
Hoje acordei às oito e quarenta e cinco, Patxi Andión estava vivo.
Dez minutos depois, às oito e cinquenta e cinco, morreu num acidente de viação em Sória.
Pouco tempo depois, telefonou-me um amigo, e ambos nos queixámos, mutuamente, das nossas próstatas.
A próstata é uma pequena noz que, fisiologicamente, quando se é jovem, tem o papel fundamental de criar o líquido onde os espermatozóides nadam até ao óvulo.
Quando se é velho não serve para nada.
Só serve para chatear.
Para além de outras perrices desagradáveis, obriga-nos a mijar quando não queremos e não nos deixa mijar quando queremos.
Eu e o meu amigo, como medida analgésica e anestesiante, combinámos ir comer aquele leitãozinho que muito apreciamos, logo que possível.
Ainda bem que a próstata, ou “crosta”, como dizia um paciente meu, não se queixa muito com estas escapadelas, por vezes mais eficazes do que silodosinas e finasterides.
Entretanto, como hoje é dia de cozido à portuguesa, acompanhado de verde tinto, eu não posso resistir.Ao meu lado, num daqueles restaurantes dos velhinhos a que por vezes me tenho referido, um a mesa de seis, qual deles o mais serôdio.
Antes de pedirem o cozido, os aperitivos resumiram-se a uma conversa pegada sobre análises, ressonâncias magnéticas e TACs, tudo isto afogado de imediato com a chegada de duas bojudas canecas de tinto.
Dizia um que, no cozido, não havia nada que chegasse à orelheira.
Para outro era o focinho.
Um terceiro afirmava que nada superava a couvinha e a cenoura.
O verde tinto, o segundo leite da minha infância, continuava a fazer milagres, mesmo nesta idade.
Já não para o Patxie Andión, infelizmente, mas para aqueles que, como nós, ainda não chegaram às oito e cinquenta e cinco.
Se isto não é poema, o que é a poesia?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:01

Quarta-feira, 11.12.19

Sobre a mesa branca da Europa - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Sobre a mesa branca da Europa

image001 (8)a.jpg

 

(Adão Cruz)

 

Sobre a mesa branca da Europa
um copo de vinho à saúde
e o mar imenso
e o silêncio profundo
onde morrem sem eco todos os gritos do mundo.
Sobre a mesa branca da Europa
e uma toalha vermelha de sangue
vermelho como o mar
onde milhares morrem em vão
afogados em milhões de olhos
desta patética civilização.
Sobre a mesa branca da Europa
um copo de vinho à saúde
dando ares de que respiramos
e cada vez mais nos afogamos
no profundo mar da podridão.
Na mesa branca da Europa
um copo de vinho à saúde
da vida abusivamente longa
ou estupidamente curta
que não depende da liberdade
nem do sol nem da justiça
mas do verso mais perverso da crueldade.
Sobre a mesa branca da Europa
um copo de vinho à saúde
deste mundo infame de criminosos
que fazem da morte o ideal sistema.
Sobre a mesa branca da Europa
Um copo de vinho à saúde
da vida derretida à flor da pele
que nada mais permite às palavras
do que o profundo vazio de um poema.
um copo de vinho à saúde
do incerto amanhã da humanidade
como verso perdido
de um poema que bateu no fundo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 18:21

Segunda-feira, 09.12.19

Os meus sonhos - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Os meus sonhos

unnamed1.jpg

 

(Adão Cruz)

 

Repousa na almofada a minha cabeça cansada
de tanto amar os peixes verdes dos poemas
que há nos olhos dos meus sonhos.
Repousa na almofada a minha cabeça cansada
da luz dos corais incendiados
nos olhos verdes dos meus sonhos.
Repousa na almofada a minha cabeça cansada
do verde brilho do mar
que há nos olhos incendiados dos meus sonhos.
Repousa na almofada a minha cabeça cansada
do inquieto desalinho que a lua tece
entre as algas e os sedentos olhos dos meus sonhos.
O amor não tem limites
na utopia dos gestos simples
e das cores dos olhos d’água dos meus sonhos
mas eles acordam na última estrela da madrugada
que se esfuma com o erguer do sol.
E a beleza perde-se
entre o botão da primeira folha verde
e a saudade dos meus sonhos.
E a cabeça cansada de acordar repousa na areia
entre os lábios secos de uma noite de amor.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 11:44

Quarta-feira, 27.11.19

Lição Sobre a Água - António Gedeão

ao cair da tarde 5b.jpg

 

António Gedeão  Lição Sobre a Água 

leonor fini, ophelia, 1963a1.jpg

(Leonor Fini)

Este líquido é água.
Quando pura
É inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, ácidos, bases e sais.
Congela a cem graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

(in Poesias Completas, 1956-1967, Portugália)

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:01

Sábado, 23.11.19

Monte das oliveiras - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Monte das oliveiras

IMG_5831a.jpg

 

(Adão Cruz)

 

Não sei o que entra em mim
no cálido fim desta tarde alentejana.
Não sei ao certo o que me diz
o silêncio aberto destes campos sem fim
nem sei se procuro o lugar seguro
para abrir o pensamento.
Há qualquer coisa para lá do horizonte
entre a angústia e a Esperança
estranha esperança de futuro
no silêncio aberto destes campos sem fim.
Qualquer coisa que arde no cair da tarde
entre a magia da vida
e a dor contida no monte das oliveiras.
Para lá do horizonteno fim de La Codozera
não havia ninguém à minha espera
no cálido fim desta tarde alentejana.
Nesta tarde alentejana
feita de silêncio aberto
e de campos sem fim
parei o carro na berma da estrada
que vinha do nada de onde parti
à procura da cidade
com as ruas que há dentro de mim.
Há anos que não me adormecia um sono tão profundo
nem o sol trigueiro me dourava a figura
quase azul
pintando um sonho perdido no fim do mundo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 19:12

Segunda-feira, 18.11.19

Se eu fosse um avião - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Se eu fosse um avião

avião1.jpg

(Adão Cruz)

Se eu fosse um avião
tinha um motor em cada mão
e voava…
Não sei para onde
mas voava para fora deste mundo…
Não há nada como um cabritinho assado
à beira da pista
com dois copos de tinto ali à mão
a força que levanta do solo
a alma de qualquer artista.
Ah! Ah! Ah!
Aquele avião amarelo
do lado de lá
mesmo á vista de quem está
do lado de cá…
Ai se eu fosse um avião
com um copo em cada mão
não esperava por malinhas de rodas
e voava…
não sei para onde
mas voava…
para fora da ilusão.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:05

Sexta-feira, 15.11.19

Minha Mãe Terra - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Minha Mãe Terra

!cid_ii_is7l8k9z0_156b7e10ab496ad1a.jpg

 

(Adão Cruz)

 

Agora sei que minha mãe terra
é esta terra de barro e planície
este chão de sol vermelho
e pedras de silêncio sem história.
Sei agora que minha mãe terra
dorme nas tímidas cores do horizonte
no interminável mundo de paletas impossíveis.
Agora sei que minha mãe terra
é o irrevogável rosto do passado
entre braços vazios e vozes que não se ouvem.
Sei agora que minha mãe terra
vive no eco das palavras ditas
ao longo de ruas sem qualquer sentido.
Agora sei que minha mãe terra
é o fim desta terra interminável
das palavras que ninguém ouve
e das cores que ninguém vê.
Sei agora que minha mãe terra
não é o calor do caminho da manhã
mas o frio das horas magoadas
nos dias que nascem sem nome.
Agora sei que minha mãe terra
é o lugar entre o sonho e a miragem
recriado no tormento deste barro
moldado sem memória.
Sei agora que minha mãe terra
é segunda infância sem futuro
esta inocência singular
de uma pintura sempre inacabada.
Agora sei que minha mãe terra
é o amor perdido no granito
incendiado pelo fulgor do sol poente.
Sei agora que minha mãe terra
é o chão desta planície muda
adormecida nos frágeis sonhos da madrugada.
Agora sei que minha mãe terra
é a saudade de tudo o que era… e não é nada.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 18:21



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Augusta Clara

    Anónimo, quem és tu? (lembrei-me do "Frei Luís de ...

  • Anónimo

    Texto excelente. Bem escrito, bem documentado e be...

  • Anónimo

    Texto de excelente e deliciosa "prosa poética"!...

  • Anónimo

    Bravo, plenamente de acordo!

  • Anónimo

    Eu agradeco-lhe a ideia de transcrever aqui este b...


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos