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Jardim das Delícias


Terça-feira, 26.07.22

Se eu fosse um avião - Adão Cruz

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Adão Cruz  Se eu fosse um avião 

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(Adão Cruz)

 

Se eu fosse um avião
com um motor em cada mão
voava…
não sei para onde
mas voava à procura da ilusão.
Se eu fosse um avião
com um sonho em cada mão
voava…
não sei para onde
mas voava para fora da ilusão.
Ai…se eu fosse um avião
com um copo em cada mão
voava…voava…
não sei para onde
mas sempre rentinho ao chão.

 

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por Augusta Clara às 14:51

Quinta-feira, 14.05.15

O caminho - Eva Cruz

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Eva Cruz  O caminho

 

VC 2014 L.jpg

 

(A autora fotografada pelo seu irmão Adão Cruz)

 

 

   Ervas rasteiras e espigadas, ladeadas de silvas e urtigas deixam descortinar o carreiro que foi caminho.

Algumas balcadas bem fundas, cavadas na terra pelas chuvas de muitos invernos, mantêm ainda o saibro luzidio, moldado pelas rodas dos carros de bois. Caminho esquecido que levava ao rio, à furna, à levada.

Os lameiros abandonados perderam a forma, cobertos de silvados a abraçar os combros e os choupos.

Não havia rasto de mão de lavrador ao redor, nem vestígio de passagem de gente.

A natureza inculta em toda a sua pujança e bravura.

À descoberta de lembranças e memórias de criança consegui chegar à fonte, que, ao fundo de umas roídas escaditas de pedra, cantarolava solitária no silêncio de todo o dia.

A água do tanque onde havia sempre lavadeiras estava coberta de limos e musgos verdes e vermelhos, acariciados por uma nuvem de insectos e borboletas. Ao lado redemoinhava o velho poço deixando ver os raizeiros grossos e negros.

Mais à frente, tentando abrir caminho por entre giestas e urzes começava o antigo carreiro que ia dar à ponte da Varziela.

Uma fraga enorme sempre a escorrer água teceu fantasias na cabeça das crianças durante gerações, ao criar um profundo eco do barulho do rio.

Era a pedra dos fantasmas.

Escutei uma vez mais esse misterioso cachoar nas entranhas daquela falésia, eco esquecido nas memórias perdidas no tempo e na natureza.

Não havia ainda calor bastante para despertar cobras e lagartos, pelo que me aventurei a caminhar até ao moinho.

Lá estavam, destelhadas e esboroadas, as casitas do moleiro, a levada solta a correr ao lado, as mós tombadas ao abandono e os troços de madeira da taramela e da moega.

O rio dava a volta às ruínas e continuava impante e indiferente, mais largo e mais fundo, o seu caminho para o lado do mar.

O caminho do rio é o mesmo.

O meu caminho, esse caminho da infância, foi desfeito pelo tempo.

Sem caminho, resta-me o caminho do rio.

O rio é tão meu como o caminho.

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 31.12.12

A Rapariguinha dos Fósforos - Hans Christian Andersen

Hans Christian Andersen  A Rapariguinha dos Fósforos

 

(traduzido do dinamarquês por João da Silva Duarte)

 

(Marc Lev - Hivernades)

 

 

   Estava terrivelmente frio. Nevava e tinha começado a fazer noite escura. Era também a última noite do ano, véspera do Ano Novo. Naquele frio e naquela escuridão, caminhava pela rua uma rapariguinha pobre de cabeça descoberta e pés descalços. Bem, tinha - ou mais justa­mente - tivera chinelas calçadas, ao sair de casa. Mas para que serviam! Eram muito grandes - a mãe fora a última a andar com elas, tão grandes eram — e soltaram-se-lhe dos pés quando teve de correr rua fora, ao passarem duas carruagens estrondosamente. Uma chinela não foi possível encontrá-la mais e a outra levou-a um rapazinho, que disse que poderia vir a utilizá-la como berço, quando tivesse filhos.

Ali ia agora a rapariguinha de pezinhos descalços, que estavam já roxos de frio. Num avental velho levava uma quantidade de fósforos e na mão um molho deles. Ninguém lhe comprara nenhuns todo o dia, ninguém lhe dera um pequeno xelim! Com fome e gelada cami­nhava, e tão infeliz, a pobrezinha! Flocos de neve caíam-lhe sobre os longos cabelos loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço, mas a pobre não pensava nisso. De todas as janelas brilhavam luzes e cheirava muito bem a assado de ganso ali na rua. Era noite da pas­sagem do ano. Pois nisso pensava ela.

Num canto afastado entre duas casas - uma avançava um pouco mais na rua do que a outra - se sentou, encolhendo-se. Puxou as perninhas para debaixo de si, mas ainda tinha mais frio e para casa não ousava ir. Na verdade, não vendera nenhuns fósforos, não conseguira um único xelim. O pai bater-lhe-ia e frio também o tinha em casa. Tinham telhado por cima deles, mas o vento assobiava por ele, se bem que tivessem tapado com palha e trapos as fendas maiores. As mãozinhas estavam quase mortas de frio. Ai! Um fosforozinho far-lhe-ia bem. Se tirasse um só do molho e o riscasse na parede e aquecesse os dedos! Tirou um e «ritch». Como esguichou, como ardeu! Era uma chama clara, quente, como uma velazinha, quando pôs a mão à volta deste. Era uma luz maravilhosa! A rapariguinha pareceu-lhe que estava sentada diante dum grande fogão de ferro com esferas brilhantes de bronze e rolos também de bronze. O fogo ardia tão maravilhoso, aquecia tão bem! Oh! Que foi aquilo?... A pequena estendia já os pés para também os aquecer... Quando a chama se apagou, o fogão desapareceu... Ficou sentada com um tocozinho de fósforo queimado na mão.

Um outro foi riscado, ardeu, luziu e onde o clarão incidiu na parede, tornou-se esta trans­parente como uma gaze. Logo olhou para dentro do aposento, onde a mesa estava posta com uma brilhante toalha branca, com loiça fina e estupendo fumegava o ganso assado, recheado de ameixas secas e de maçãs! E o que foi ainda mais maravilhoso, o ganso saltou da travessa, saracoteando-se pelo chão, com garfo e faca no lombo. Foi direito à rapariguinha, quando se apagou o fósforo e só ficou à vista a espessa parede fria.

Acendeu outro. Estava então sentada sob a mais bela árvore de Natal. Era ainda maior e mais ornamentada do que aquela que vira pela porta envidraçada em casa do comerciante rico no último Natal. Milhares de velas brilhavam nos ramos verdes e figuras variadas como aquela que decoravam as montras das lojas olhavam para baixo para ela. A pequena estendeu ambas a mãos no ar... logo se apagou o fósforo. As muitas luzes do Natal subiram mais e mais alto. Viu, então, que eram as estrelas brilhantes. Uma delas caiu e fez uma longa listra de fogo no céu.

— Está a morrer alguém! — disse a pequena, porque a velha avó, que foi a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas agora estava morta, dissera: «Quando cai uma estrela, sobe um alma para Deus!».

Riscou outra vez na parede um fósforo, que iluminou à volta, e no seu fulgor estava de pé a velha avó, tão clara, tão luminosa, tão doce e feliz.

— Avó! — gritou a pequena. — Oh! Leva-me contigo! Sei que te irás quando o fósforo se apagar. Que te irás como o fogão quente, o belo assado de ganso e a grande e maravilhosa árvore de Natal! - e riscou apressadamente o resto dos fósforos que estavam no molho. Queria bem conservar a avó. E os fósforos arderam com tal brilho que fazia mais claro que o claro dia. A avó nunca tinha sido tão bela, tão grande! Levantou a rapariguinha nos braços e ambas voaram em esplendor e júbilo tão alto, tão alto! E não havia aí nenhum frio, nenhuma fome, nenhum medo... Estavam com Deus!

Mas, no canto da casa, encontrava-se, sentada na madrugada fria, a rapariguinha com as faces vermelhas e um sorriso na boca... Morta, enregelada na última noite do velho ano. A manhã do Novo Ano ergueu-se sobre o pequeno cadáver, sentado com os seus fósforos, um punhado dos quais quase queimado.

- Quis aquecer-se! - disseram. Ninguém soube que coisas belas viu, nem que esplendor ela e a velha avó tinham entrado no júbilo do Ano Novo!

 

(in Hans Christian Andersen, Histórias e Contos Completos, Vol.I, Gailivro)

 

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por Augusta Clara às 17:00



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