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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Adão Cruz Se eu fosse um avião

(Adão Cruz)
Eva Cruz O caminho
(A autora fotografada pelo seu irmão Adão Cruz)
Ervas rasteiras e espigadas, ladeadas de silvas e urtigas deixam descortinar o carreiro que foi caminho.
Algumas balcadas bem fundas, cavadas na terra pelas chuvas de muitos invernos, mantêm ainda o saibro luzidio, moldado pelas rodas dos carros de bois. Caminho esquecido que levava ao rio, à furna, à levada.
Os lameiros abandonados perderam a forma, cobertos de silvados a abraçar os combros e os choupos.
Não havia rasto de mão de lavrador ao redor, nem vestígio de passagem de gente.
A natureza inculta em toda a sua pujança e bravura.
À descoberta de lembranças e memórias de criança consegui chegar à fonte, que, ao fundo de umas roídas escaditas de pedra, cantarolava solitária no silêncio de todo o dia.
A água do tanque onde havia sempre lavadeiras estava coberta de limos e musgos verdes e vermelhos, acariciados por uma nuvem de insectos e borboletas. Ao lado redemoinhava o velho poço deixando ver os raizeiros grossos e negros.
Mais à frente, tentando abrir caminho por entre giestas e urzes começava o antigo carreiro que ia dar à ponte da Varziela.
Uma fraga enorme sempre a escorrer água teceu fantasias na cabeça das crianças durante gerações, ao criar um profundo eco do barulho do rio.
Era a pedra dos fantasmas.
Escutei uma vez mais esse misterioso cachoar nas entranhas daquela falésia, eco esquecido nas memórias perdidas no tempo e na natureza.
Não havia ainda calor bastante para despertar cobras e lagartos, pelo que me aventurei a caminhar até ao moinho.
Lá estavam, destelhadas e esboroadas, as casitas do moleiro, a levada solta a correr ao lado, as mós tombadas ao abandono e os troços de madeira da taramela e da moega.
O rio dava a volta às ruínas e continuava impante e indiferente, mais largo e mais fundo, o seu caminho para o lado do mar.
O caminho do rio é o mesmo.
O meu caminho, esse caminho da infância, foi desfeito pelo tempo.
Sem caminho, resta-me o caminho do rio.
O rio é tão meu como o caminho.
Hans Christian Andersen A Rapariguinha dos Fósforos
(traduzido do dinamarquês por João da Silva Duarte)
(Marc Lev - Hivernades)
Estava terrivelmente frio. Nevava e tinha começado a fazer noite escura. Era também a última noite do ano, véspera do Ano Novo. Naquele frio e naquela escuridão, caminhava pela rua uma rapariguinha pobre de cabeça descoberta e pés descalços. Bem, tinha - ou mais justamente - tivera chinelas calçadas, ao sair de casa. Mas para que serviam! Eram muito grandes - a mãe fora a última a andar com elas, tão grandes eram — e soltaram-se-lhe dos pés quando teve de correr rua fora, ao passarem duas carruagens estrondosamente. Uma chinela não foi possível encontrá-la mais e a outra levou-a um rapazinho, que disse que poderia vir a utilizá-la como berço, quando tivesse filhos.
Ali ia agora a rapariguinha de pezinhos descalços, que estavam já roxos de frio. Num avental velho levava uma quantidade de fósforos e na mão um molho deles. Ninguém lhe comprara nenhuns todo o dia, ninguém lhe dera um pequeno xelim! Com fome e gelada caminhava, e tão infeliz, a pobrezinha! Flocos de neve caíam-lhe sobre os longos cabelos loiros, que se encaracolavam graciosamente em volta do pescoço, mas a pobre não pensava nisso. De todas as janelas brilhavam luzes e cheirava muito bem a assado de ganso ali na rua. Era noite da passagem do ano. Pois nisso pensava ela.
Num canto afastado entre duas casas - uma avançava um pouco mais na rua do que a outra - se sentou, encolhendo-se. Puxou as perninhas para debaixo de si, mas ainda tinha mais frio e para casa não ousava ir. Na verdade, não vendera nenhuns fósforos, não conseguira um único xelim. O pai bater-lhe-ia e frio também o tinha em casa. Tinham telhado por cima deles, mas o vento assobiava por ele, se bem que tivessem tapado com palha e trapos as fendas maiores. As mãozinhas estavam quase mortas de frio. Ai! Um fosforozinho far-lhe-ia bem. Se tirasse um só do molho e o riscasse na parede e aquecesse os dedos! Tirou um e «ritch». Como esguichou, como ardeu! Era uma chama clara, quente, como uma velazinha, quando pôs a mão à volta deste. Era uma luz maravilhosa! A rapariguinha pareceu-lhe que estava sentada diante dum grande fogão de ferro com esferas brilhantes de bronze e rolos também de bronze. O fogo ardia tão maravilhoso, aquecia tão bem! Oh! Que foi aquilo?... A pequena estendia já os pés para também os aquecer... Quando a chama se apagou, o fogão desapareceu... Ficou sentada com um tocozinho de fósforo queimado na mão.
Um outro foi riscado, ardeu, luziu e onde o clarão incidiu na parede, tornou-se esta transparente como uma gaze. Logo olhou para dentro do aposento, onde a mesa estava posta com uma brilhante toalha branca, com loiça fina e estupendo fumegava o ganso assado, recheado de ameixas secas e de maçãs! E o que foi ainda mais maravilhoso, o ganso saltou da travessa, saracoteando-se pelo chão, com garfo e faca no lombo. Foi direito à rapariguinha, quando se apagou o fósforo e só ficou à vista a espessa parede fria.
Acendeu outro. Estava então sentada sob a mais bela árvore de Natal. Era ainda maior e mais ornamentada do que aquela que vira pela porta envidraçada em casa do comerciante rico no último Natal. Milhares de velas brilhavam nos ramos verdes e figuras variadas como aquela que decoravam as montras das lojas olhavam para baixo para ela. A pequena estendeu ambas a mãos no ar... logo se apagou o fósforo. As muitas luzes do Natal subiram mais e mais alto. Viu, então, que eram as estrelas brilhantes. Uma delas caiu e fez uma longa listra de fogo no céu.
— Está a morrer alguém! — disse a pequena, porque a velha avó, que foi a única pessoa que tinha sido boa para ela, mas agora estava morta, dissera: «Quando cai uma estrela, sobe um alma para Deus!».
Riscou outra vez na parede um fósforo, que iluminou à volta, e no seu fulgor estava de pé a velha avó, tão clara, tão luminosa, tão doce e feliz.
— Avó! — gritou a pequena. — Oh! Leva-me contigo! Sei que te irás quando o fósforo se apagar. Que te irás como o fogão quente, o belo assado de ganso e a grande e maravilhosa árvore de Natal! - e riscou apressadamente o resto dos fósforos que estavam no molho. Queria bem conservar a avó. E os fósforos arderam com tal brilho que fazia mais claro que o claro dia. A avó nunca tinha sido tão bela, tão grande! Levantou a rapariguinha nos braços e ambas voaram em esplendor e júbilo tão alto, tão alto! E não havia aí nenhum frio, nenhuma fome, nenhum medo... Estavam com Deus!
Mas, no canto da casa, encontrava-se, sentada na madrugada fria, a rapariguinha com as faces vermelhas e um sorriso na boca... Morta, enregelada na última noite do velho ano. A manhã do Novo Ano ergueu-se sobre o pequeno cadáver, sentado com os seus fósforos, um punhado dos quais quase queimado.
- Quis aquecer-se! - disseram. Ninguém soube que coisas belas viu, nem que esplendor ela e a velha avó tinham entrado no júbilo do Ano Novo!
(in Hans Christian Andersen, Histórias e Contos Completos, Vol.I, Gailivro)
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