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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 10.01.18

A caverna escura do poeta - Adão Cruz

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Adão Cruz  A caverna escura do poeta

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(Adão Cruz)

 

Quando entras na escura caverna de um poeta

Fugindo à rima e à métrica do tempo

O tempo…

Ai o tempo se o não fosse

Tudo haveria de ser poema.

 

Tudo parece idiota nesta caverna sem luz

Tudo parece metáfora de versos impotentes

O tempo…

Ai o tempo se o não fosse

Nem razão havia para versos decadentes.

 

Assim mo diz a luz contida dos teus olhos

E o calor dos lábios que o tempo arrefeceu

O tempo…

Só o tempo se o não fosse

Seria a vida de tudo o que morreu.

 

Na procura dos restos de um poema

Já não importa a noite escura e inquieta

O tempo…

Só o tempo se o não fosse

Daria luz à caverna de um poeta.

 

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por Augusta Clara às 15:32

Quarta-feira, 27.12.17

A caverna luminosa do poeta - Adão Cruz

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Adão Cruz  A caverna luminosa do poeta

 

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(Adão Cruz)

 

 

Quando entraste na luminosa caverna do poeta

Fugindo à chuva, ao vento, ao frio

Tudo me dizia que eras a mesma poesia

Que hoje ilumina as águas deste rio.

 

Tudo me diz que és tu a mesma poesia

Deste sol da tarde, sem chuva e sem frio

Nascida do ventre de uma vertigem

Revolvendo as águas calmas de outro rio.

 

Assim mo diz a luz incendiada dos teus olhos

E a tímida febre dos teus lábios quentes.

Nem sempre a poesia é metáfora e falso gesto

Nem sempre o poema é de versos impotentes.

 

Já não crescem em mim rebentos de sol

Nem me afligem conflitos de escura tristeza.

Por isso eu sei que o sol desta caverna

Não é brilho do poeta mas luz da tua beleza.

 

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por Augusta Clara às 17:22

Quarta-feira, 20.12.17

Os vampiros - Adão Cruz

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Adão Cruz  Os vampiros

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(Adão Cruz)

 

A cidade está comida por enormes vampiros, varrida de poesia, flores e frutos e canções quentes dos filhos da cidade.

Ainda que os dentes sejam de cifrões, os vampiros matam com bombas, tiros e orações.

Já não regressam as manhãs na cidade exterminada, coberta pela nuvem de vampiros devoradores que tudo comem e não deixam nada.

A cidade dos pobres está comida por vampiros, vindos das cavernas podres da cidade civilizada, guiados por deuses e generais, benzidos por papas e cardeais que tudo comem e não deixam nada.

E os pobres arrastam a vida muito aquém da vida, onde um mar de nada definha o pensamento e um rio de cinza cobre a alegria de viver.

Eis que os pobres se dão conta de um futuro em liberdade, onde um mar de sonho e utopia restitui a vida ao pensamento e à razão.

Mas os vampiros conhecem bem os buracos da prisão e tudo fazem para os vedar com grades de fé e religião.

A cidade está comida por enormes vampiros vindos do céu e do inferno, devorando a mente e abandonando o corpo no deserto, como criança sem asas.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 17.11.17

Venho de um jardim distante - Adão Cruz

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Adão Cruz  Venho de um jardim distante

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(Adão Cruz)

 

Venho de um jardim distante florido de memórias ou de um sonho qualquer
entre risos e lágrimas caindo de um céu de chumbo ou de um céu de magnólias.
Venho do seio do orvalho da madrugada num punhado de vida libertada em qualquer rumor de passos brincando nos telhados acesos pela luz do dia....
Venho de um jardim distante onde grinaldas de flores abrilhantam a festa do azul dos tempos no incêndio do crepúsculo ou no ardor da manhã do meu berço de mistério e universo.
Venho das esquinas do tempo em recordações avulsas ao sabor das pontes da vida cavalgando o vento que assobia nas ruas estreitas ou mordendo as pedras com punhais de silêncio.
De onde venho ninguém sabe.
Venho talvez da intimidade salgada do mar ou de um jardim distante com um rio de passos e palavras e pedaços de sol num rosário de pérolas abrindo a neblina do nascer da vida.
Venho… quem sabe da nudez adormecida no silêncio do tempo destinado à simplicidade da morte pelo sinuoso caminho das recordações perdidas no chão fundo das angústias ou nos retalhos da esperança.

Venho talvez das sombrias entranhas prenhes de fulvos e ilusórios tesouros que emergem do fundo do mar sublimados de cor e luz à superfície traiçoeira das águas bordadas de espuma.
Ou então…
Ou então serei filho de um mundo sem resposta sujeito a ventos e marés que enrugam o latejar das veias e quebram o voo das artérias com lugar no corpo rompendo o fluir da vida no interior do sonho.
Não.
Eu não venho de lugar algum fora da mente nem trago comigo a erva daninha.
Eu venho de um jardim distante entre o sonho e a razão onde o pensamento se agiganta contra as trevas e a ilusão.

 

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por Augusta Clara às 15:39

Quarta-feira, 01.11.17

Adão Cruz, 2017

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Adão Cruz

 

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por Augusta Clara às 17:19

Quarta-feira, 25.10.17

Sobre Ana Margarida de Carvalho - Adão Cruz

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Adão Cruz  Sobre Ana Margarida de Carvalho

 

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   O texto transcrito em baixo, intitulado “Epipostáfio”, é da escritora Ana margarida de Carvalho, autora dos livros “Que importa a fúria do mar” e “Não se pode morar nos olhos de um gato”, ambos premiados pela APE (Sociedade Portuguesa de Autores). A amarga beleza deste texto, que se refere à tragédia dos incêndios, bem como a leitura dos livros, faz-me sentir, como leitor, na obrigação de dizer alguma coisa sobre esta grande escritora.

Tive a honra de assistir a uma conversa com Ana Margarida de Carvalho, na Unicepe, conversa em que intervim com uma curta síntese do pensamento que exponho no pequeno texto que se segue.

Perante a massificação e o facilitismo de tanta coisa que para aí se escreve e consome, ou não consome, porque pouca gente lê, caíram-me nas mãos estes dois livros, por um feliz acaso. No meu entender, a vida é uma inequívoca sucessão de acasos, uns bons e outros maus, e não há forma de fugir a este rumo incerto e a estes altos e baixos da nossa existência. Foi portanto um bom acaso proporcionado pelo meu amigo Dr. Rui Vaz Pinto que me telefonou de Amarante a confessar-se deslumbrado com a leitura do segundo livro.

Cada um de nós tem as suas verdades, as quais, eventualmente, até podem ser verdade. Eu penso que um grande escritor, um escritor de primeira água tem de ser uma alma grande. E o que será, no meu entender, uma alma grande? Sem introduzir aqui quaisquer conceitos ou critérios de moralidade, eu julgo que uma alma grande é a que consegue atingir aquela espécie de fronteira ou interface que separa a natureza a que podemos chamar antropocêntrica do ser humano e a sua natureza universal, ainda que esta dimensão universal não seja mais do que um belo dia de primavera nos olhos de um prisioneiro atrás das grades. Aquela paisagem onde residem o verdadeiro sentimento artístico, o verdadeiro e autêntico sentimento poético, e a mais elevada relação humana com a dignidade, a solidariedade e a fraternidade.

Um grande escritor, bem como um grande artista, seja qual for a sua forma de expressão, introduz dentro da sua obra, muitas vezes de forma mais ou menos inconsciente, toda a sua alma, tudo aquilo que é, toda a sua vida, toda a sua estrutura mental e cultural, todos os seus sucessos e frustrações, todas as suas alegrias e tristezas, todas as suas realidades e utopias, toda a sua visão do mundo e das coisas. Como dizia Saramago, há uma coisa sem nome que existe dentro de nós que é aquilo que somos. Ao mesmo tempo, um escritor de primeira água tem de possuir uma grande capacidade de alteridade, isto é, uma grande capacidade de entrar na pele do outro, de entender, compreender, lidar e trabalhar com os mais diversos padrões neurais do ser humano, uma enorme capacidade de entendimento das mais variadas emoções que pela ordem natural das coisas levam aos mais diversos sentimentos que vão estruturar as mais complexas consciências sobre as quais se exercem todas as reflexões que conduzem às mais variadas decisões.

Só assim e não de outra forma, eu entendo a sua poderosa escrita, considerando que só uma alma grande pode criar obras desta envergadura, obras de grande peso, de corpo denso e avassalador, corpo que Ana Margarida conseguiu vestir com um estilo linguístico francamente inovador que sobressai, como disse, muito acima da massificação, da vulgaridade e do facilitismo. Pela minha parte foi com alegria e satisfação que usufruí o prazer literário que me deram estas duas grandes obras.

Porto, 24 de Outubro de 2017

Adão Cruz 

 

Epipostáfio, Ana Margarida de Carvalho

   A minha infância é um esgoto atravancado de detritos. A minha infância tem cheiro a fumo nos cabelos e cinzas debaixo das unhas. Um cansaço granítico, uma velhice súbita nos pés. Não sei se estou dentro ou fora, se saí de ti, se entrei em ti, desconheço-te tão bem quanto te conheço. Perco-me cá dentro, entre restos, sobras, remanescências vãs, numa casa sem bússola, mas se conseguisse subir ao sótão talvez avistasse de lá a serra e a neve no cume, e reconhecia-te outra vez. Como se mantem a vista se não existe janela para me debruçar… Como me agarro ao corrimão de uma escada que já não há… Como avanço pelo corredor de sustos e escuridão, se ele está a céu aberto e não tem princípio só fim… Como caminho nesta inexistência de chão, feita de vidros, pedras trituradas e pregos - foi o que restou... Como se faz para soterrar algo que me inclui… Como me desvio para atalhos se todas as minhas correntes sanguíneas vão ter aí… Tenho de reportar a minha infância ardida e dão-me um formulário da Protecção Civil. Tenho de preservar a memória dos meus avós, dos avós dos meus avós, e pedem-me apólices, metros quadrados e cadernetas prediais. Eu era capaz de as encontrar, senhor vereador, de certeza na segunda gaveta da secretária do meu avô, onde ele guardava os papéis importantes. No escritório onde tudo se manteve, com o passar dos séculos, no seu devido lugar. Inalterável, como num museu. Indiferente aos ruídos do mundo cá de fora, a duas guerras mundiais, um holocausto, uma bomba nuclear, uma revolução de Outubro, outra de Abril, primaveras árabes, tempestades nos desertos, violações em massa na Macedónia, o erguer e o derrube de torres gémeas, o espelho que ocupava a parede nunca deixou de mirar gerações que lhe passavam em fila, o tio-bisavô de bigodinho, na moldura bordada a pérolas, continua a lançar um olhar de viés a estes descendentes que lhe esqueceram o nome, o pisa-papéis alinhado com a caneta de aparo e cubinhos de vidro e prata de tinta seca, a menina de cinco olhos com que se espancavam, selváticos, os meninos, o busto de Chopin, a santa de oratório, esculpida em marfim, com as mãos decepadas pelos franceses… A saleta de costura com a salamandra e as fotos de casamentos, muito se casou nesta família…Tudo no seu devido lugar. Como num museu, mas sem as etiquetas. Nenhum óbito a reportar, graças a Deus, senhor vereador, e no entanto, uma multidão insepulta. Não lhe imagino a agonia, e ninguém sabe, ninguém viu. Neste andar de cego, os passos não me obedecem, faltam-me as esquinas, os pontos de referência, os desvãos, as passadeiras, as maçanetas de portas ausentes … Como lhe hei-de explicar isto, senhor presidente de Junta, o silêncio de uma casa carbonizada. Quanto tempo demoram a regressar os pássaros que fazem ninho nos beirais desaparecidos … E os ratos que nos infernizavam as noites com a ansiedade roedora tão bem-vindos, afinal… E os cardumes de moscas que entravam por uma janela de verão e percorriam as funduras ondulantes dos corredores … E o cheiro enjoativo a vinho da adega, sempre gélida, onde não entrava fio de luz, agora esventrada e inundada de sol intruso. Uma casa tão misteriosa e solene, tão encantadora e assustadora, tão vergada pelo tempo, agora uma cratera sem mistério, óbvia, nua, escancarada, despudorada… O enxovalho de se revelar nas entranhas, o indecoro de canalizações retorcidas, a injúria do metal fundente vergado à vilania da fornalha, a lama peçonhenta, de cinzas e chuva irónica, que larga nas bermas e vai descendo lenta pela ladeira. Vê como sangra, senhor presidente de Junta, como se derrama em líquido lamento, solitário e mudo. Esvai-se e ninguém que saber, ninguém tem compaixão por cascalhos sem nexo nem valor. O declínio e a dissolução desagradam à vista, embaraçam a freguesia, desfeiam paisagem. A perdição dos outro incomoda as consciências. Nenhum óbito a declarar, graças a Deus, ninguém, nada, nem um gato aflito esquecido dentro de portas, nem uma ovelha, nem uma galinha… Graças a Deus, apenas um pedaço de existência que se foi para sempre.

 

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por Augusta Clara às 16:38

Terça-feira, 04.07.17

Qu'é da Santa Bárbara?! - Eva Cruz

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Eva Cruz  Qu'é da Santa Bárbara?!

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(Camille Pissarro)

 

 

A conversa fluía, entrelaçada como as cerejas.

- Morreu Sicrano, Beltrano já se divorciou, ainda há dois dias cum casamento de arromba para dar em nada, este anda metido co aquela, aquela anda metida co este...

Por tristes razões, era difícil o pensamento concentrar-se, e tudo  soava a uma ladainha desafinada. Apenas quando foi interpelada, acordou do torpor mental.

- Você sabe o que aconteceu à Santa Bárbara?

A capela fora sempre o pequeno tesouro da aldeia. O sino só  repicava a baptizado e tinha um som tão fresco e alegre que sabia sempre a festa. Caiada de branco, com uma torre em bico a desenhar-se na serra negra, vestia-se de sol por dentro e por fora, de tão arejada que era. Granito e azulejos enriqueciam as paredes, e a madeira nobre entrelaçava-se no varandim do coro, do púlpito e na grade que separava o lugar das mulheres do lugar dos homens. Lindos altares, muito sóbrios, com belas imagens provavelmente valiosas, airosas, bem vestidas e bem talhadas. Tirando o Sr. dos Passos, vestido de roxo, coroado de espinhos, a sangrar por todos os lados, metendo medo a quem dele se abeirasse, todas as outras santas e santos tinham um ar de felicidade, apesar de estarem para ali especados, sempre de pé no seu recanto. Nunca mostravam caras de enfado ou cansaço, bem pelo contrário, tinham um rosto sorridente e sereno, caras de santidade.

- No fim da missa, o Sr. Prior acenou-me e fiquei aflita. O que é que ele me quererá?

Ela era a principal zeladora da capela e a mais responsável por tudo o que lá dentro se encontrava.

- Qu´é da Santa Bárbara? Você sabe onde está a Santa Bárbara?!

- Eu não, Sr. Prior, ainda na semana passada lhe limpei o pó.

Qual o seu espanto, quando olhou para o altar e viu o lugar da santa, vazio!

- Mas esteja descansado, Sr. Prior, que eu vou descobrir quem a levou. E andei, andei... fui a missas a outras capelas da freguesia, a capelas de outras instituições, e que Deus me perdoe, se não prestei atenção a nada. Os meus olhos e pensamento estavam unicamente concentrados na Santa Bárbara. E, sabe que a descobri! Vou-lhe dizer onde é que ela estava, mas é segredo. Na missa seguinte, esperei pelo Sr. Prior e disse-lhe: Já sei onde está a Santa Bárbara. Está em tal sítio.

O prior percebeu logo o que se passava. A Santa era muito valiosa. Fez muitos milagres mas não foi capaz de se livrar do rapto. Pobre santa! Foi resgatada e voltou para a capela, para o seu devido lugar.

Quando o ribombar do trovão faz tremer os céus, e o relâmpago fulmina a serra negra de lés-a-lés, lá continua a Santa Bárbara, na serenidade do altar, a fazer milagres, a desterrar a trovoada para monte maninho, onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira, nem bafinho de menino.

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por Augusta Clara às 16:31

Quarta-feira, 28.06.17

Sunrise - Ravi Shankar e Jean Pierre Rampal (Sitar and Flute)

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Ravi Shankar e Jean Pierre Rampal  Sunrise

 

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por Augusta Clara às 16:47

Segunda-feira, 26.06.17

Sento-me ali mesmo à beira do pensamento - Eva Cruz

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Eva Cruz  Sento-me ali mesmo à beira do pensamento

 

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(A. Gadeh)

 

 

Sento-me ali à beira do pensamento.

A água cansada e frouxa vai correndo devagar, ensopando com o tempo o fundo do rego feito lama ou cama onde crescem ervas e lírios que floriram em Abril.

As formosas flores partiram e ficaram as hastes saudosas. Vieram os lilases e as rosas. Uma a uma caindo, deixaram depenados os rancos esgalhados.

E as hidrângeas enchem-se de flores de todas as cores. Cobrem o campo e o pensamento que por tormento não deixa reter o momento.

O tempo não dá refrigério na contenda. "Ai que prazer não cumprir um dever!"

A natureza é livre de nascer, criar e morrer.

No calor intenso da batalha , floresce a vida em plenitude, e a quietude de um momento trai a liberdade e faz da vida um tormento.

 

Sento-me ali à beira do pensamento.

Tudo o que nasce morre. Mais tarde, mais cedo, à frente, atrás, tanto faz.

Se morrer fosse renascer, tinha descanso o guerreiro.

E a batalha perdida nunca seria vencida.

 

Sento-me ali à beira do pensamento.

Dou à liberdade todas as asas para voar. A natureza tem muito a ensinar.

Partir, ficar... são apenas pontos finais nas frases concluídas.

E nada mais.

Tudo faz sentido e nada também faz.

Só que a vida anda para a frente e nunca para trás.

 

Sento-me ali mesmo à beira do pensamento.

E volto a ver os lírios, as rosas e os lilases.

Mas é tudo tão fugaz que o olhar não é capaz de reter a cor.

A cor do amor.

Nem por um momento.

Se morrer fosse viver, tudo havia de renascer ainda que em pensamento.

 

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por Augusta Clara às 17:26

Terça-feira, 06.06.17

Quem deu a mão a quem? - Eva Cruz

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Eva Cruz  Quem deu a mão a quem?

 

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(Fotografia de Adão Cruz)

 

   A tarde caía lenta sob um sol coado de nuvens brancas. Uma tarde de fins de Maio com  algum orvalho  temporão a anunciar o fim do dia.

Alguns pássaros voavam de copa em copa. Outros mergulhavam certeiros no ventre  da hera e dos arbustos. Tempo de ninhos e ovos a chocar vida nova, de tenros cachos nas videiras.

No convívio habitual do fim do dia,  na mesa do pátio junto ao tanque, os amigos de sempre saboreavam a merenda  improvisada. A conversa fluía à medida do cantar da água da mina que corria. Arrefecia.

Entre a ramada e a varanda nascera poesia. A delgada leveza de um rebento de glicínia da varanda enroscava-se no talo comprido de uma videira da ramada. Tudo isto sobre o vazio nu da largura do pátio, através do ar, no vazio do nada.

Tão distanciadas, sem mão humana de permeio, assim entrelaçadas,  quem terá dado a mão a quem? Como foi possível este abraço, este nó que nenhuma força desatou?

Artes mágicas da natureza!

Algum serafim ou querubim ali passara. Um duende, um gnomo, qualquer força de moderna mitologia, sabe-se lá. E o pensamento abriu as asas e em toda a liberdade voou.

Terá sido o vento?

O vento tem coração?

O vento tem asas de poesia e sentimento?

Sim. Talvez o vento. Só pode ter sido a força do vento ou apenas uma brisa leve que tenha levado àquela união impossível, de amor tão natural.

Na  sua complexa simplicidade, a natureza é misteriosamente sábia. É um poço sem fundo e no silêncio mais profundo, no silêncio do absoluto, ensina a pensar. Basta ver e escutar.

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por Augusta Clara às 17:17



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