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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 12.03.21

O que penso - Adão Cruz

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Adão Cruz  O que penso

 

 

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   É muito difícil saber o que é a Arte. Duvido de quem diz que sabe o que é a Arte. A Arte não tem definição que nos satisfaça, e penso que nunca se saberá, verdadeiramente, o que é a Arte. Por isso, prefiro chamar-lhe sentimento artístico. Mas, mais do que teorizar, o que interessa é a prática da sensibilidade, não só do criador mas do contemplador e da sociedade em geral, bem como a liberdade da constante destruição-criação das raízes do pensamento. Sem sensibilidade e sem curiosidade universal não me parece possível a formação de uma personalidade artística, capaz de entender a Arte como o caminho mais natural para viver a verdade.

 

Muitas vezes dou comigo a pensar que o Homem é um ser uno e indivisível, extremamente complexo. No entanto, ele é composto por uma infinidade de subunidades, todas intimamente ligadas entre si, a mais importante das quais, a unidade soberana, se assim podemos dizer, é o cérebro. Este órgão é constituído por cerca de cem biliões de neurónios em permanente actividade, através dos quais se processam em cada momento, provavelmente, triliões de neuro-transmissões. O nosso esquema cerebral é idêntico em todos nós mas o conteúdo de cada cérebro é totalmente diferente. Daí que o sentimento artístico, pertencendo à espécie, é de cada um na sua individualidade, especificidade e profundidade.

 

Por outro lado, sou levado a pensar que a Humanidade não é um mero conjunto de homens e mulheres, mas uma profunda e intrincada rede de relações, de relações humanas muito diversas e complexas. O cérebro de cada um de nós, apesar de encerrado num compartimento estanque, não se encontra isolado. Relaciona-se, permanentemente e mais ou menos intimamente, com todos os outros, e todos os outros se relacionam com ele, através dos múltiplos canais de comunicação que vão desde a linguagem falada, escrita ou gestual, à mímica, à postura, às atitudes, aos comportamentos. Todavia, o sentimento artístico, seja ele o que for e tome a obra de arte a expressão que tomar, parece-me a forma mais nobre e sublime da comunicação e da relação do homem consigo mesmo e com o mundo. Será, provavelmente, a única que permite ao homem assentar os pés no caminho da universalidade.

 

Todo o homem se relaciona mais ou menos activamente com os inúmeros fenómenos que o rodeiam e com tudo o que vê e ouve, com tudo o que entende e não entende. O diálogo do Homem consigo mesmo e do Homem com o mundo no seio da natureza e da Humanidade é permanente, profundo e inevitável, e constitui a fonte universal e inesgotável de todas as ideias. O Homem tem caminhado ao longo do tempo em profunda relação dialéctica com o meio, confrontando-se com as difíceis questões da sobrevivência, do pensamento, da razão e da difícil descoberta de si próprio. Nesta descoberta do entendimento de si próprio reside, a meu ver, a força que o impele para o infinito e para a sua dimensão universal, dito de outra forma, a força que o projecta nos horizontes da expressão artística. Mas a arte, apesar de ser a voz da alma na vida infinita, nunca atinge a perfeição, por isso ela será sempre eternidade, inquietude e procura constante. Não se compadece nem com a abreviatura do silêncio nem com a amplidão do grito, pois emerge de uma luta permanente entre sonho e pesadelo, o sonho de ser um pássaro voando na proporção do infinito e o pesadelo de ser um Homem feito à medida do vento, arrastando as asas.

 

No meu entendimento, a Arte, ou sentimento artístico, fruto da obediência ao facto de existirmos, é a proclamação da inocência contra as culpas do mundo, é a mais segura tábua de salvação nos naufrágios da fraqueza humana e o melhor antídoto contra as sistemáticas tentativas de cretinização da sociedade. Age sobre a sensibilidade, a imaginação e a inteligência, enriquece o sentido da humanização, ajuda o processo de reflexão, ilumina as emoções e os sentimentos, cria uma poderosa afinidade com a consciência, gera a necessidade de identificação com a verdade e a liberdade, desenvolve o sentido da estética, da beleza, da harmonia e da justiça, e abre a mente do ser humano ao valor da dignidade e à compreensão dos indeléveis mistérios das relações do homem com a natureza, impedindo-o de mastigar crendices, atavismos e superstições absurdas que o escravizam.

 

Penso que qualquer obra de arte tem um sentido para aquele que a produz, sentido que pode não ser o mesmo daquele que a vê, ouve ou contempla. O conceito de sentido é fundamental na comunicação. E o sentido está dentro de cada um e resulta da forma como cada um responde interiormente às suas experiências, forma essa que é diferente em cada pessoa. O sentido é fruto de um complicado processo em constante movimento, e ao transmiti-lo, não se deve esperar uma colagem pura e simples mas sim uma integração consciente nos mecanismos construtivistas do sentido dos outros, isto é, deve haver sempre, tendencialmente, um sentido de obra colectiva. Daí que, tomando como objecto de relação humana a realização de um acto criativo, não nos seja difícil compreender que quando alguém escreve um poema ou um livro, quando escreve uma peça musical ou pinta um quadro, introduz nessa obra, mais ou menos conscientemente, dentro de um real conhecimento das circunstâncias, toda a sua vida, toda a sua estruturação como ser humano individual e livre. A obra é tecida com todas as suas vivências, as suas memorizações, as suas emoções, os seus sentimentos.

 

Quando alguém vai ler, ouvir ou contemplar a obra do autor, não vai apenas ler, ouvir ou contemplar a obra do autor, mas, à luz de toda a sua riqueza espiritual, vai sentir também a sua própria obra, o seu próprio poema, a sua própria música, o seu próprio quadro, já que não é com os olhos, os sentimentos e a vida do autor que ele a vai sentir, mas com a sua própria vida, através das suas próprias emoções e sentimentos. Desta forma, a obra pode desencadear em quem a lê, ouve ou observa, uma imensidade de fenómenos e sensações, uma forte necessidade de sair do vazio, e pode funcionar como um poderoso estímulo, mais penetrante ou menos penetrante, mais revolvente ou menos revolvente, que pode despertar e até desnudar o mais profundo interior de cada um na sua identificação com o que lê, ouve ou observa. Sobretudo, quando a obra for capaz de inquietar o pensamento, criar rupturas, abrir conflitos entre conceitos caducos, levar à meditação e pôr em causa o mundo estreito das velhas ideias. Quando a obra for capaz de nos ensinar que ninguém vê com os nossos olhos, ninguém pensa com o nosso cérebro e ninguém sente com o nosso espírito.

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por Augusta Clara às 15:01

Segunda-feira, 14.08.17

FREDERICK CHILDE HASSAM, "July night", 1898.

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por Augusta Clara às 17:52

Sexta-feira, 07.08.15

A Arte e a Realidade

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Friedrich Nietzsche  “Temos a arte para não morrermos da verdade.”

 

 

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por Augusta Clara às 18:30

Quinta-feira, 08.01.15

O nosso conhecimento está em permanente expansão

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(Archan Nair)

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 18.09.14

Uma forma de pensar - Adão Cruz

 

 

Adão Cruz  Uma forma de pensar

 

 

(Adão Cruz)

 

 

  A arte e a poesia são irmãs gémeas, mas a poesia é, por assim dizer, a irmã mais gémea, a gémea por excelência. E isto porque a poesia, ou melhor dizendo, o sentimento poético percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, e qualquer forma de expressão artística só será obra de arte se contiver dentro de si o sentimento poético. Como sempre tenho dito, a poesia é um sentimento como outro qualquer, como o sentimento do amor, por exemplo. O facto de vermos alguém de braço dado ou alguém numa cena aparentemente amorosa, não é garantia de que entre eles haja amor, pois este sentimento pode não existir ou existir em grau que vai do frágil e superficial ao mais profundo. Com o sentimento poético acontece provavelmente o mesmo. Não é por termos à frente dos olhos uma obra aparentemente bem feita ou um poema aparentemente bem escrito que podemos dizer que ali está a poesia. Pode não estar e muitas vezes não está, sendo difícil que, desta forma, estejamos perante uma obra de arte. Custa-me dizer isto, mas cada vez mais gosto muito de poucas coisas. O que por aí se passa em relação à poesia é, quanto a mim, uma tristeza, porque fazer poesia, descobrir o sentimento poético não é encastelar versos uns em cima dos outros ou escrever frases labirínticas que ninguém entende, e, com isso tudo, encher as prateleiras das livrarias. O sentimento poético aproxima-se muito do místico sem lá chegar, felizmente. É um sentimento quase indefinível, é um estado de hipersensibilidade, um desejo de ser-se de outra maneira, uma necessidade de sair do não autêntico, um quase sentir a verdade total e o amor universal.

Passando à pintura, podemos dizer que a montante da obra está o artista. Este deita mão de todos os elementos que tem para criar a obra. Desde as suas capacidades inatas, os seus conhecimentos adquiridos, as suas habilidades e experiências, a sua “Arte”, a sua filosofia, a sua visão do mundo e das coisas, até aos elementos físicos como as tintas e os pincéis. Mas o elemento principal, o que está acima de todos os outros é o sentimento poético. Não é um elemento que o artista possa chapar na obra como faz com uma pincelada. Ele tem de existir dentro do artista, ele está na essência e na vivência do artista, e como faz parte da sua alma nasce espontaneamente na obra de forma consciente, subconsciente ou mesmo inconsciente. Sem sentimento poético dificilmente uma obra será uma obra de arte, e muito provavelmente não passará de um entretenimento superficial dos sentidos.

A jusante do artista está a obra, como um todo indivisível e indissociável. E para que a obra adquira grandeza, todos os processos formais devem ser ofuscados pelo seu próprio efeito. Por isso, desnudar esses processos formais, tentar dissecar, escalpelizar, descodificar, fatiar uma obra pode ser muito nefasto, pode ser um fenómeno redutor que empobrece a obra, pode massificar e estereotipar o pensamento, pode tapar os olhos do espectador e pode anular toda a hermenêutica, isto é, a capacidade de gerar forças interpretativas. Que se faça em termos académicos e investigacionais, vá que não vá. Em termos de fruição da obra é profundamente negativo. O próprio título pode ser a primeira fatia. Quase como num bolo de aniversário. Quando entra a faca lá vai o encanto contido na expressão inicial dos convivas: “Que lindo bolo!”.

A este respeito, um amigo meu dizia-me ontem, uma obra de arte é como um filme sem legendas. Num filme sem legendas, se o espectador não conhece a língua, imagina histórias muito diferentes daquela que o filme pretende contar. Claro que, embora nem sempre, a intenção e a finalidade de um filme é mesmo contar aquela história e não outra. Na obra de arte pode não haver histórias, e se as há, elas deverão ser tantas quantos os olhos que a contemplam.

 

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por Augusta Clara às 15:00

Quarta-feira, 20.08.14

O rosto da mulher através de 500 anos de arte

 

O rosto da mulher através de 500 anos de arte

 

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por Augusta Clara às 19:00

Sábado, 18.05.13

Um dia com a Arte - Adão Cruz

 

Adão Cruz  Um dia com a Arte

 

(Adão Cruz)

 

   Há muito tempo que não falo contigo em público, mas penso em ti todos os dias e vivo-te intensamente. No entanto, não ando lá muito satisfeito contigo, melhor dizendo, não estou muito convencido da verdade da nossa relação. Cá para nós, também não acredito muito nos orgasmos daqueles com quem privas e a quem iludes tanto ou mais do que a mim.

A plenitude contigo, bem como a plenitude com a tua amiguinha poesia - única valência humana que transcende a natureza - seria um contra-senso se conduzisse à frustração. E eu não vejo os teus amantes, por mais convencidos que pareçam, libertar-se das desilusões e frustrações. Apercebo-me de que, como eu, procuram constantemente mendigar o afecto que teimas em não me dar.

Todos os planos se interceptam no universo policromático e polipoético que cria o labirinto onde te escondes. O teu secreto reduto, em permanente movimento pelos céus do incriado, torna a tua posse impossível por infinitamente diversa e fugidia em cada momento da vida. Todos os meus pressupostos interpretativos na gestão do acto criativo fazem-te rir, eu sei. Todos os pressupostos não são mais do que a dilatação da memória e a memória dificilmente coexistirá com a tentativa de dissolução das experiências pessoais.

Eu não moro em ti mas moro mais em ti do que em qualquer outro lugar. Por tu o saberes, obrigas-me a ser um guardião de ruínas, medindo a palmos de esperança e futuro a arqueologia da vida. Na ânsia da tua vasta presença e no paulatino destapar das sucessivas camadas da realidade complexa, fazes de mim uma espécie de geólogo do meu próprio íntimo.

Não tenho medo nem vergonha de me preocupar com a arte, de me preocupar contigo. Tenho medo, isso sim, daquilo que o reaccionário Flaubert chamara a maré de merda que inunda o nosso estado mental. Nada nem ninguém se preocupa a sério contigo. A infinita estupidificação corre o mundo como uma conjura contra a poesia e a liberdade - as asas que te eternizam - e faz dos homens caricaturas, arremedos de arte, habitantes de quatro paredes onde não cabem as cores da inteligência e da edificação das palavras. O Homem encerrado na prisão dos actos controlados e das pseudo-vontades, longe da luz e da razão.

Caminhamos na rota da sombra, na conspiração do silêncio - a pérfida administração do silêncio é a melhor arma de matar ambições - , aos encontrões no nevoeiro, sem terra debaixo dos pés, à procura de um ponto de apoio, à procura da verdade, de um princípio seguro e fiável da verdade. Já reparaste que me escondes sempre a verdade? A verdade senta-se na paleta mas tu trocas as cores da verdade pelas tintas da fama. Eu sei que todos temos direito ao nosso quarto de hora de fama, ainda que passemos uma vida inteira sem verdade. Gauguin nunca entendera a desordem de Van Gogh e Van Gogh nunca entendera a ordem de Gauguin. No entanto, a procura da verdade fora, provavelmente, o seu único acto comum, a consonância da arte que fez da substancialidade da pintura a ressonância dos tempos. A arte é a arte e a vida é a vida, mas viver a vida artisticamente é a arte da vida.

Penso que o pensar é uma garantia imediata do caminho da verdade, sem grandes coincidências de fundo mas com poderosos ecos na expressão e no rastreio da exactidão, ainda que não deixe de nos acompanhar uma dúvida imensa e incancelável. Quem tem as certezas e as verdades dos histriónicos e narcísicos trata a arte como os homens tratam as putas. Utilizam-nas e elas sorriem-lhes mas não os amam. Dizem eles que o tempo da beleza já passou e que a arte será cada vez mais científica e a ciência cada vez mais artística. A arte e a ciência, a ciência e a poesia podem confundir-se, é certo, quando a perversidade dá lugar à música do percurso. A arte e a ciência, a poesia e a ciência tocam-se numa espécie de sexo tangencial.

O engenho humano manipula hoje a intimidade do genoma, e a genética tornou-se um artístico poder de conhecer, predizer e mudar a vida através da enciclopédia do Homem e dos três mil milhões de unidades que a compõem. Mas se a ciência pode conviver contigo, a numerologia da arte pode ser o diabo a cortar-te os braços para com eles se persignar. Todo o homem que te ama de verdade não é cabotino e morre sempre na incerteza do seu próprio valor.

Na vida dizemos muitos adeuses. A lugares, amigos, relações, a gente que morre e a gente que se despede, coisas que se acreditam e nos enganam. Só com a verdade não é permitido romper. Mas as tuas falsas verdades...!

Consideras divertido esse teu espaço eleito como ideal mítico, fresco e atractivo, capaz de nos catapultar até à excelência interpretativa. Mas o que nos mostras, a mim pelo menos, é uma cortina de fumo que me esconde o fogo e a espontaneidade. Entre amanheceres e crepúsculos exiges-me a verticalidade do meio-dia, amargamente impossível neste balancear incessante entre a intensidade do meu sentir, a que não é alheia a tua sensualidade, e a polarização dialéctica, formal e simbólica.

Dentro das alegorias possíveis e de uma espécie de polifonia pictórica, considero-te a música do Universo, a mulher reinventada nas vivências e passagens do tempo, elemento de candor poético na intimidade afectiva do quotidiano. Nunca te outorguei o exíguo papel que outros te atribuem, quem sabe, decorrente do hormonalismo poético da tua imagem feminina. Mas pago bem caras a aspiração da tua pureza, a procura da tua inocência, a adoração da tua beleza, a ansiedade do teu absoluto que fazem de mim um náufrago de sonhos preso nos lastros da realidade.

Muitos caminhos conduzem à impostura, e a única fonte do belo está em nunca nos separarmos de ti, rompendo a verdade. Ao despedirmo-nos de ti, aliciados por modernas metáforas do pensamento banal, a nossa própria imperfeição nos basta, nos ilude e nos realiza. Toda a mercadotecnia da arte, tanto mais ruidosa quanto mais artisticamente vazia, não passa de um barco à flor das águas quietas, uma falsa harmonia de mera fruição de contemplação, sem nada que a prenda medularmente ao artista, sem a luz e os espaços utópicos que a libertem da incorrecção do mundo.

Desafirmação, descriação. desconstrução de emoções e poemas, despintura interior, descoloração da memória e do tempo - o que não é o mesmo que destruição - são a força que move a consciência dos tranquilos. O atrevido desconcerto das palavras, quando é bonito dizer-se que o poeta domina as palavras como se as levasse voando, o desfazer dentro de nós da ordem e da criatura a fim de tentar abordar o não criado, são as ondas que na apatia do mar sereno tornam os poemas habitáveis e fazem da arte a real experimentação da vida. É muito grande a distância que nos separa do belo, e longo o caminho da libertação e renúncia que é preciso percorrer para dele nos aproximarmos. Picasso que o diga.

Ainda que isso pressuponha o contratempo de não estar na moda, é imperioso acreditar que a rotura da mentira não faz a moda, e que a moda é o crime estético por excelência. A moda gira sobre si mesma para que nada mude a verdade-mentira. Se me permites um humilde conselho, foge das globalizações e hegemonias, geradoras de défices éticos e artísticos que fazem de ti uma mulher subalterna. Também te digo que há pouca necessidade de dizer sim ou não se o terreno não é fecundo e se a vida não é mais do que imitação de si própria, se os fundos cálidos e cromáticos não nascem do destilar das horas e da vida, e se o diálogo de alegrias e desânimos não liberta a prisão natural de ser humano.

A indiferença como forma de vida, a paixão da indiferença, a celebração da indiferença podem matar-te. Muitos dos consumidores da artificiosa etiqueta, e dos argentários modeladores do mundo, instalados num presente sem fissuras e no acanhado espaço da exclusiva liberdade individual, em cujo peito o pulsar político-social, poético e artístico não é mais do que um coração de asfalto, fabricam a ignorância, a incultura e a amoralidade necessárias à tua morte e à sobrevivência elitista. Sobre ti, basta-lhes o escolástico provérbio: De gustibus et coloribus non est disputandum (não há que discutir gostos e cores).

Uma vez na crista da onda, agarram-se ao mando e passam a mandar no mundo, porque a sua fé lhes garante que a corrupção acompanha o poder como a sombra acompanha o corpo. Obreiros de um futuro podre, desconhecem a formosa face de uma alma nua e o apaixonante canto da arte e da vida em dignidade social.

Por mim, ainda que um tanto desconfiado, prefiro continuar a dizer-te:

Quando levas um seio ao vento e me dás a beber campos e cidades, glorifico a pouca luz que ainda me resta.

Se os lobos se atravessam no caminho para a tua cabana, o vento ergue-me nos ares e o coração aprende a não ter medo de cair.

Descobridor de sonhos, de amanhãs que riem e de estuários, continuo a pintar o vento contigo, ainda que nele te vás.

Deixa-me sozinho no meu barco à entrada do mar, mas não cubras a manhã fria do teu corpo, que o sol pode, um dia, chegar.

 

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por Augusta Clara às 18:00



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