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Jardim das Delícias


Sábado, 17.01.15

Francisco deixou cair a tiara - Carlos Esperança

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Carlos Esperança  Francisco deixou cair a tiara

 

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   Por mais que se encoste à férula, não retomará o equilíbrio que parecia distingui-lo dos dois últimos antecessores. A nódoa das declarações sobre a liberdade são o corolário da tradição romana, a síntese entre a Inquisição e a liberdade religiosa, o Index Librorum Prohibitorum e a liberdade de expressão, o concílio de Trento e o Vaticano II.

O Papa saiu da Argentina do ditador Videla mas essa Argentina não saiu de dentro de si. Francisco tem o direito de pensar o que pensa, mas os livres-pensadores têm o direito de pensar de forma diferente. Ai de nós, se tivéssemos de nos comportar de acordo com o regedor de um bairro de 44 hectares, sem maternidade, constituição ou democracia. O líder da única teocracia europeia, nascida dos acordos de Latrão, entre Mussolini e o Papa de turno, não faz a lei dos países democráticos.

O Papa tem o direito de pensar que «Não podemos provocar, não podemos insultar a fé dos outros, não podemos ridicularizá-la» (…) e que «É legítimo usar esta liberdade, mas sem ofender». Eu é que reclamo, dentro das leis do meu país, o direito de rir das roupas femininas com que se veste, de gozar com o fenómeno alquímico dos sinais cabalísticos que transformam a água da rede em benta e a rodela de pão ázimo em carne e sangue de um profeta com dois milénios de defunção.

O passado das Igrejas só não é motivo de riso porque o horror e as lágrimas o impedem. Pensar que o Sol parou em Fátima e que durante séculos fez o movimento de translação à volta da Terra é tão cómico como a cura do olho esquerdo de D. Guilhermina de Jesus por D. Nuno Álvares Pereira, quando a cozinheira de Ourém o queimou com salpicos de óleo fervente de fritar peixe porque tinha uma pagela do herói medieval que logo beijou.

Haverá ato de humor mais apropriado do que desenhar um preservativo no nariz de um Papa cuja teologia do látex se tornou responsável pela infeção de centenas de milhares de pessoas a quem dissuadiu do seu uso?

O Aiatolá Khomeini, na sua piedosa loucura, emitiu uma fatwa contra Salman Rushdie e o Papa, o arcebispo de Cantuária e o grande rabino de Jerusalém foram unânimes no silêncio cúmplice. Deviam ser respeitados? O falecido bispo de Coimbra, João Alves, escreveu no Diário de Coimbra que compreendia a fatwa contra o escritor porque este tinha ofendido o profeta que, para os muçulmanos, era sagrado.

Sagrada é a liberdade de rir e criticar. O que os papas disseram dos ateus era um direito, não o que lhes fizeram.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 16.01.15

O filho de sua mãe - André Gago

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André Gago  O filho de sua mãe

 

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(Francisco, nos tempos em que todos andávamos à porrada)

 

   Começo por dizer que não faço ideia de quem seja a mãe do Francisco, que é actualmente o Papa, ou Sumo Pontífice, uma pessoa muito importante, que tem, como se diz, responsabilidades. Não sei quem é a mãe dele, nem quero saber. Francisco é maior e vacinado, e portanto responsável pelos seus actos: é com ele que tenho de me haver. E, mesmo que ele fosse menor, e tivesse ainda incompleta a caderneta das vacinas, também não me ocorreria chamar pela mãe dele em meu socorro, no caso de nos acharmos envolvidos naquilo a que se poderia chamar um diferendo.
Acontece que vivemos tempos perigosos, como sempre, e que, em virtude de acontecimentos trágicos recentes, a liberdade de expressão está na ordem do dia: desenhadores humorísticos foram assassinados por fazerem uso dela, os alegadamente visados (sublinhe-se alegadamente), não gostaram dos desenhos e mataram os seus autores. No rescaldo, meio-mundo e outros tantos líderes mundiais saiu para a rua a condenar o crime e em defesa desse valor fundamental, a liberdade de expressão — que se poderia chamar, simplesmente, liberdade.
Ora, não uma, nem duas, mas muitas vozes autorizadas, como soi dizer-se, entre as quais a de Francisco, veio lembrar, ou melhor dizendo, vieram lembrar-nos que defendem, que a liberdade tem limites. É um problema filosófico interessante, e suficientemente estudado. Mas a estas vozes interessa pouco a filosofia abstracta: elas apelam a que quem as ouve as entenda. Por isso, não definem quais são os limites (como poderiam?): limitam-se a dizer que há limites.
Isto é muito conveniente, precisamente porque depois se pode sempre ajustar o limite às conveniências de cada um, que é como quem diz de cada autoridade, de cada governo, de cada religião. Não são nunca os defensores dos limites que têm de fazer o sacrifício de se abster: são os outros que devem conformar-se.
Este senhor Francisco, que é um líder religioso importante, veio a público dar um exemplo: se se metem com a mãezinha dele, ele responde com um soco. É humano, justifica. Na verdade, nestes assuntos, não há nada que não seja humano, tal como não há nada mais humano que a miséria humana, se quisermos ser abrangentes. Mas o que este santo homem diz é que há limites, e que a violência é uma resposta adequada, em certas circunstâncias. Para ele, é quando lhe tocam na mãe. Ora, isto abre caminho a que, para outros, o limite seja, sei lá, um profeta, o partido ou o clube desportivo do coração. As hipóteses de escolha do que é para cada um sagrado são assim: ao contrário das liberdades, são ilimitadas. E, quem se mete com o que é sagrado, já sabe ao que vai. Ou não.
Quando era miúdo, acontecia uma coisa que ainda hoje me faz confusão: havia outros miúdos a quem podia chamar todos os nomes feios que conhecia, menos filho-da-puta. Se lhes chamasse isso — aprendi por experiência própria —, eles ficavam tão fulos como o Papa Francisco. Por exemplo: um latagão mais velho e mais forte roubava-me a colecção de cromos, atirava a minha mochila ao chão e dava-me uns safanões. Incapaz de lhe fazer frente em termos de força física, eu recorria aos nomes feios. A palavra contra a espada, quase se poderia dizer. Acontece é que ele se estava nas tintas para o que eu lhe chamasse, até eu lhe chamar filho-da-puta. Aí, a palavra, para meu espanto e desgraça, virava uma espada flamejante. O latagão, de olhos esgazeados, torcia-me o braço até ao limite da dor e, possuído por uma revolta que se diria legitimada no mais fundo de si (para mim incompreensível), obrigava-me a pedir desculpa por lhe ter insultado a mãezinha. Ora eu sabia que não lhe tinha insultado a mãezinha: limitara-me a utilizar um palavrão, aprendido entre tantos outros, para dar voz e expressão à minha revolta. O meu alvo era ele, e a mãezinha dele estava absolutamente fora do meu pensamento, até ele me falar dela e me dizer que ela não era para ali chamada. Não podia estar mais de acordo mas, para mim, ele é que tinha trazido a mãe à baila. E, com esse expediente, de agressor ele passara a vítima. Usando a força, é certo, mas graças à mãezinha, de ofensor passara a ofendido.
O tanas! À luz dos meus valores, que é como diz da minha maneira de ver as coisas, e remoendo muito sobre o sucedido, aquele tipo nunca me convenceu. Acho que ele instrumentalizou a mãezinha dele, e quase me atreveria a por a hipótese de ela, a mãe, não aprovar o comportamernto do filho, se a experiência não me tivesse ensinado que há mães que ainda são piores que os filhos que têm.
Para mim, o essencial é que eu recorrera a uma abstracção, a uma expressão corrente e comum, muito utilizada nos filmes americanos, para significar a minha revolta contra uma injustiça de que estava a ser vítima. O que percebi é que também os agressores não passam sem procurar impor limites à defesa das suas vítimas — e não é por razões desportivas.
Esta historieta quase faz esquecer as afirmações demasiado humanas do líder religioso Francisco, que de coração leve afirma que daria um soco a quem se metesse com a mãe dele. Um homem que dedica a vida a uma abstracção deífica não deixa de ser um homem, eis a verdade. Eu professo a abstracção das palavras: um palavrão não tem o sentido literal que o brutamontes que me roubou os cromos, bem como, se bem o entendi, o Papa Francisco, lhe querem atribuir. As palavras são meios, não fins. Uma afirmação, enredada nas malhas da dialéctica, facilmente se contradiz ou se rebate. Algumas palavras são punhais, é certo, mas o que nos fere é a mão que as empunha, e o que nos dói é a ferida que deixam aberta, não o seu valor intrínseco. Porque a palavra, ao contrário da violência e da morte, é sempre reversível, contraditável e desvalorizável. Eu acho que o que o líder religioso Francisco quis fazer foi bater o pé, amedrontando-nos, porque o medo é o melhor inimigo da liberdade e o maior amigo do obscurantismo. Mas o exemplo que utilizou, de tão comezinho, abre caminho para todas as fraquezas humanas. Para uns o limite é a mãe, para outros a religião, para outros ainda será a bandeira nacional ou o par de cornos: todos têm a sua desculpa para pregar um murro ou um tiro em quem entendam que passou dos limites — essa abstracção.

A palavra, as coisas que se dizem, são realmente armas de arremesso importante. É também por isso, pela palavra, que o mundo é um lugar perigoso, cheio de gente perigosa.

(na foto: Francisco, nos tempos em que todos andávamos à porrada)

 

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por Augusta Clara às 17:15

Sexta-feira, 09.01.15

In memoriam - José Goulão

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   É difícil, impossível por certo, usar o instrumento da palavra para talhar com a dimensão e os conteúdos devidos o somatório de revolta, indignação, dor e medo provocado pelos acontecimentos no semanário Charlie Hebdo, em Paris. É o terrorismo em estado puro. Quaisquer adjectivos que se juntem a tal substantivo ficarão sempre aquém da qualificação exigida por estas práticas.
É difícil, impossível por certo, usar o instrumento da palavra para talhar com a dimensão e os conteúdos devidos o somatório de revolta, indignação, dor e medo provocado pelos acontecimentos de 11 de Março de 2004, em Madrid, que vitimaram os passageiros inocentes de um comboio matutino…
… E os fuzilamentos, crucificações e decapitações, incluindo também as de reféns norte-americanos e britânicos, praticados em massa vez pelo chamado Estado Islâmico no Iraque e na Síria, vitimando centenas de inocentes de cada vez, anonimamente despejados em já incontáveis valas comuns…
… E as chacinas atribuídas ao governo da Síria e a grupos financiados e treinados pelos países da NATO e da União Europeia coligados no âmbito dos chamados “Amigos da Síria”…
… E os raptos de adolescentes e os massacres de civis cometidos pelo Boko Haram na Nigéria e países limítrofes…
… E o massacre na Casa dos Sindicatos de Odessa cometidos por grupos neofascistas associados ao governo em funções na Ucrânia…
… E o regime concentracionário imposto por Israel na Faixa de Gaza quer vigora, perante a complacência geral, nos intervalos dos massacres cometidos pelas tropas israelitas mudando apenas a designação da operação para estabelecer as parcelas de uma soma assassina…
… E os atentados cometidos contra civis israelitas, através do lançamento de mísseis ou de homens/mulheres bombas, e também contra alvos culturais, memoriais e religiosos hebraicos através do mundo…
… E os assaltos mortais contra igrejas cristãs, sinagogas, mesquitas e templos de outras crenças que se tornaram hábito no mundo…
… E o caos de terror em que mergulhou a Líbia depois da guerra e golpe de Estado praticados por grupos e milícias fundamentalistas islâmicos numa coligação com a NATO em que se envolveram, com posições de liderança, o Reino Unido e a França…
… E as vítimas civis dos bombardeamentos e guerras israelitas no Líbano...
… E as vítimas civis de uma adição selvagem, que não anda longe de um milhão, geradas pelas invasões do Afeganistão e do Iraque, que além de não resolveram os problemas invocados para lhes dar origem criaram novas situações que correspondem a imprevisíveis tragédias humanitárias…
… E as vítimas civis dos ataques com drones no Afeganistão, Paquistão, Mali, Iémen, Somália…
… E a sangrenta invasão do Barhein conduzida pela Arábia Saudita, com apoio tácito da NATO, para afogar a “Primavera Democrática”….
… E o golpe militar que no Egipto transformou em morte, numa farsa de justiça e de democracia a “Primavera Árabe”…
… E os palestinianos de todas as idades assassinados, desalojados, exilados e encarcerados dia-após-dia, de há quase setenta anos para cá, por pretenderem ter um país e uma bandeira cujo direito lhes é reconhecido por lei…
É o terrorismo em estado puro. Quaisquer adjectivos que se juntem a tal substantivo ficarão sempre aquém da qualificação exigida por estas práticas.
Desde que no Outono de 2001, na sequência dos atentados bárbaros de Nova Iorque atribuídos a terroristas cuja origem e carreira são bem conhecidos, mentalidades ainda hoje dominantes no mundo lançaram a chamada guerra contra o terrorismo que o terrorismo não deixou de se tornar cada vez mais ameaçador, diversificado e de tecer inimagináveis cumplicidades.
In memoriam pois por todas as vítimas do terrorismo sejam quais forem o seu género, idades, nacionalidades, cores de pele, etnias, crenças, opiniões, profissões e ocupações, lugar de habitação, grau de cultura, nível de desenvolvimento. E o repúdio por todos os que praticam ou patrocinam o terrorismo, sem excepção de indivíduos, organizações ou Estados.

 

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por Augusta Clara às 17:44

Quinta-feira, 08.01.15

Ana Vidigal com Picasso

ana vidigal.jpg

 

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por Augusta Clara às 19:00



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