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Jardim das Delícias


Sábado, 23.07.16

O terrorismo que Deus nos mandou - Augusta Clara de Matos

 

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   Há coisas que me deixam de boca aberta pelo inacreditável do que oiço. Que estes ataques isolados não têm solução, dizia há bocado um militar de alta patente (reformado) em comentário televisivo; que o presidente Hollande não pode fazer nada perante este tipo de terrorismo - afinal sempre serão islâmicos e ele acha que uma sanção moral (feita por quem?) será mais eficaz para os combater do que outros meios -; que têm uma analogia com a guerra de guerrilha.

Bom, eu não sou nem nunca fui militar mas, tanto quanto todos sabemos, as guerras de guerrilhas, apesar de usarem métodos de combate diferentes das guerras clássicas, não se fazem sem comandos que os adversários procuram atingir.

E, então, agora não há nada a fazer? Estas acções não têm por detrás uma ideologia politico-civilizacional-religiosa expansionista cuja inspiração e incentivo vem do tal Estado Islâmico ou DAESH neste momento com fronteiras estabelecidas numa determinada região? Alguma vez se registariam diariamente os crimes que estão a acontecer sem haver um direcção que encaminhasse e encorajasse todos os descontentamentos?

O que é impossível é que este ambiente de terror passe a ser a vida do dia-a-dia dos cidadãos de qualquer país, enquanto os incapazes governantes, mais responsáveis que ninguém do seu terramoto vivencial, vão fazendo as suas fictícias guerras privadas às origens do fenómeno, com alta penalização em número de vidas das populações da Síria, por exemplo, em vez de concertarem entre eles a derrota do que armaram no verdadeiro sentido do termo. Ou querem entregar-nos a todos de mão beijada e partirem de reforma para algum paraíso, fiscal já agora?

Na minha opinião, e estando consciente do aproveitamento que a extrema-direita faz desta situação, era o que os cidadãos europeus deviam começar a exigir: desfaçam o nó que nos ataram ao pescoço!

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por Augusta Clara às 10:00

Quarta-feira, 29.06.16

O Senhor Erdogan e os sarilhos que ele provoca - António Ribeiro

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António Ribeiro  O Senhor Erdogan e os sarilhos que ele provoca

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   Não, meu caros, eu não defendi o terrorismo como instrumento político, a propósito do Presidente Erdogan, que classifiquei como "islamo-fascista". Porque é disso que se trata; e os problemas que a sua ideologia política e religiosa coloca aos Europeus - a existência de um islamismo autoritário que fica apenas ligeiramente aquém dos exegetas do Corão e dos adeptos da Sharia - são imensos!

O Estado Turco tem quase oitenta milhões de pessoas, das quais cerca de 15 milhões são Curdos. Só os curdos-turcos são mais 50 por cento do que os Portugueses europeus! Concentram-se sobretudo no Sudeste da península da Anatólia (a parte asiática da Turquia). Acontece que o resto da Nação Curda está em parte na Síria e também no Norte do Iraque (e tem franjas em países limítrofes). De Mossul e Al-Raqqa, Síria Setentrional e até à Turquia tudo é Curdistão, uma nação e um povo de guerreiros que lutam legitimamente pela sua independência. A queda do decrépito Império Otomano, no final da Primeira Grande Guerra, permitiu ao imperialismo ocidental redesenhar os mapas da região e consagrar fronteiras que não correspondiam às realidades nacionais e culturais. Isso foi feito em torno (e por causa) dos então emergentes interesses petrolíferos, que ainda hoje envenenam toda a região. Foi neste contexto que nasceu o actual "Iraque", nos bíblicos deltas do Tigre e do Eufrates, a Mesopotâmia antiga do Velho Testamento.

| Foi nessa época que um arménio astuto, o Sr. Calouste Sarkis Gulbenkian, cuja família conseguiu escapar aos vários genocídios do início do século passado (que os Turcos negam ter existido, mas que o Papa Francisco já validou como tal), conseguiu construir o seu imenso império petrolífero, ora em disputa, ora em colaboração, com a British Petroleum (BP), de cujos frutos hoje tanto beneficiamos, em termos culturais e científicos, com a Fundação Gulbenkian, que os acasos da História e a sageza de Salazar atraíram para Portugal. |

O presidente Necip Erdogan tem um projecto para a Turquia: destruir paulatinamente a laicidade do país e impor-lhe um regime baseado numa visão musculada do Islão. Por enquanto sem "sharia", mas as dinâmicas que ele cria podem degenerar nisso.

O Ocidente devia apostar mais nos curdos e não apenas servir-se deles quando lhe convém. Um Curdistão independente permitiria conter a Turquia e federar franjas do Norte da Síria e o Norte do Iraque onde a ausência de um tal "Estado" foi aproveitada pelos radicais para "fundarem" o famigerado ISIS que tanto nos apoquenta.

É neste "caldo" de circunstâncias maçadoras e infelizes que escrevi, e com muita honra, que esta Turquia, que tanto queria ser "europeia", pretensão que há dez anos eu ainda apoiava, que Erdogan é o grande problema e o grande obstáculo e que me é rigorosamente indiferente a sua sorte e a do seu partido de regime.

Ele é um canalha que começou por apoiar o chamado "estado islâmico", porque o ISIS combatia os "seus" curdos, para agora, a troco de dinheiro, vir dizer-nos que o combate, em aliança com Bruxelas e os Americanos. Pura hipocrisia! Ele só pensa no Islão e nos interesses do seu partido. Tendo suporte eleitoral para alcançar maiorias absolutas, como tem tido, ele desmerece a Europa e não pode almejar à integração.

Como podemos aceitar um país na UE que fez regredir as mulheres para o estatuto de há muitas décadas? Uma mulher turca andava há vinte anos pelas ruas de Istambul de cabeça inteiramente destapada e em trajes ocidentais, mas hoje sente-se coagida a vestir o hijab, sob pena de ser desconsiderada socialmente e apelidada de "puta". Essa é a obra do Sr. Erdogan. E por isso, não obstante algumas vítimas "colaterais", não consigo ser excessivamente piedoso com as desgraças que lhe acontecem, como a desta terça-feira. Claro que lamento a má-sorte das vítimas, mas temos de contextualizar e de entender as razões profundas disto. Ele só está a provar do seu próprio veneno, não deve ser validado por Bruxelas e todos ganharíamos se o varressem do mapa!

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por Augusta Clara às 18:00

Sábado, 14.11.15

A matança continua - José Goulão

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José Goulão  A matança continua

 

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   Mundo Cão, 14 de Novembro de 2015

 

   Paris, noite de 13 de Novembro de 2015; depois de Paris em Janeiro de 2015, Nova Iorque, Madrid Atocha, Líbano centenas de vezes, enquanto se arrastam as tragédias da Palestina, Afeganistão, Síria, Iraque, Líbia, Iémen, Egipto, Somália, Mali, Nigéria. A matança continua através da mais bárbara das formas de guerra, a que vitima preferencialmente civis, famílias nas suas casas, cidadãos nos seus momentos de lazer, trabalhadores nas suas actividades, camponeses nas suas terras, crianças e professores nas escolas, doentes, médicos e enfermeiros nos hospitais, socorristas nos escombros. Guerra cega, selvática, conduzida por governantes, traficantes, negociantes da morte, impérios económicos e financeiros, militares, paramilitares, mercenários movidos a dinheiro, também marionetas da intoxicação religiosa e ideológica. Uma guerra sem quartel onde conceitos trapaceiros e expansionistas de democracia se combinam com o irredentismo da fé e a ganância fundamentalista dos agiotas, umas vezes em aliança, outras em dissidência, mistificação sanguinária onde os “chocados” de hoje, os “horrorizados” de ontem podem ser os algozes de Gaza, de Alepo, My Lai ou Haditha, Odessa, Sabra e Chatila, Kandahar ou do hospital de Kunduz, Tripoli ou Bahrein.

Em que se distinguem os massacres de sexta-feira em Paris e as matanças recorrentes em Gaza? O terror à solta em Abu Ghraib, Kandahar ou as bombas sobre o hospital de Kunduz e as chacinas de Odessa, Nova Iorque, no Charlie Hebdo ou quotidiana nas águas do Mediterrâneo? Que não se responda em função da dimensão, da cobertura mediática, do tom da pele ou do grau de “civilização” das vítimas. Uma morte é uma vida humana que se perde, a vida de alguém sem qualquer responsabilidade nas acusações invocadas, nos alibis expostos para eternizar a carnificina global, para atordoar a comunidade mundial através do terrorismo, a mais ignóbil das formas de violência.

Escutámos as primeiras reacções ao drama da noite parisiense: como se o fundamental fosse conhecer quem reivindica a autoria dos crimes, a que horas e de que maneira o faz. Reacções onde se exige mais segurança, mais espionagem sobre os cidadãos globalmente espiados, mais investimento em armas e exércitos, mais limitações à vida quotidiana e aos movimentos de quem já sofre as agruras da vida em crise permanente, em suma, mais guerra sobre a guerra. E poucas palavras ou simples alusões de raspão sobre as cada vez mais comprovadas colaborações entre o radicalismo islâmico e o fascismo, patentes no atentado contra o Charlie Hebdo e, na Ucrânia, na coligação armada para “libertação” da Crimeia; ou invocações por alto, quase sempre invertidas no contexto, das situações na Síria, no Iraque, na Líbia

Bem alto na trágica noite parisiense, o secretário-geral da NATO mandou dizer que o terror não vencerá a democracia. Belas e promissoras palavras, pensarão os incautos ou quem ignora a responsabilidade institucional de quem assim fala nas tragédias em curso na Síria, no Afeganistão, na Líbia, na Ucrânia, na multiplicação de muros e barreiras por esta Europa afora.

Depois chegou a reivindicação: o Estado Islâmico, ou Daesh, ou ISIS, ou Al Qaida, ou Al Nusra, ou isto, aquilo ou aqueloutro, grupos financiados por entidades estatais de países da NATO, treinados em campos criados em países da NATO, como a Turquia, ou aliados da NATO como a Jordânia, armados e sustentados de mil e uma maneiras por íntimos da NATO como a Arábia Saudita, o Qatar, Israel. Aqui avulta o sentido humanitário do chefe do governo israelita, que enquanto planeia os próximos ataques a Gaza cede o território sírio ocupado dos Montes Golã para acoitar os terroristas do Estado Islâmico – os que se dizem autores da selvajaria de Paris - e oferece os hospitais israelitas para tratar os mercenários desse bando que forem vítimas da “ditadura bárbara” de Assad. O mesmo chefe de governo, Netanyahu, que foi dar o braço ao presidente Hollande na manifestação encenada por ocasião do Charlie Hebdo e que agora está, como não podia deixar de estar, entre os mais “chocados” e horrorizados”.

Por falar em François Hollande, um dos principais titulares dos “amigos da Síria” inventados em Washington, atrás dos quais se escondem Estado Islâmico, Al Qaida, Al Nusra e os famosos “moderados” – todos eles brilhando como estrelas reluzentes do terrorismo internacional –, ficámos a saber que por causa da situação teve de cancelar a deslocação à reunião do G20, um desses vários “gês” que nos governam sob as ordens dos mistificadores da democracia. Reunião essa na Turquia, país onde ficou demonstrada a falsificação das recentes eleições gerais para reforço da ditadura islamita e que tem servido de base operacional da NATO e de grupos terroristas – entre os quais o Estado Islâmico – para as guerras impostas à Síria, Líbia e Iraque.

Assim sendo, não tenhamos ilusões: a matança continua e irá continuar porque há quem lucre com ela, parasitas do ser humano, vampiros de sangue humano.

 

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por Augusta Clara às 16:15

Quinta-feira, 15.01.15

Um texto das Memórias do Nobel nigeriano Wole Soyinka "É Melhor Partires de Madrugada"

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Nota de edição: neste texto das Memórias de Wole Soyinca, cuja publicação me foi suscitada pelos bárbaros acontecimentos dos últimos dias na Nigéria e quando muitas pessoas perguntam porque não intervem a comunidade internacional, mais uma vez fica patente a passividade e a desvalorização da gravidade das situações com que as Nações Unidas têm actuado.

 

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   Na minha paisagem política, o vazio mais evidentemente acusador, criado por alguém que foi decisivo para a minha missão no exílio durante estes úl­timos cinco anos, é o do industrial Bashorun Moshood Kashimawo Abiola. Abiola era o presidente eleito de uma nação, mas nunca presidiu a algo mais do que a sua casa, a sua vasta rede de negócios e, por fim, o seu local de detenção. Sabe-se que é hábito inútil considerar como um fracasso pessoal aquilo que é claramente um crime de outros, mas essa reflexão irracional reclama por vezes esse tipo de posição nos nossos reveses. A morte de Xen Saro-Wiwa, naquela funesta sexta-feira 10 de Novembro de 1995, enforcado com oito dos seus companheiros na prisão de Port Harcourt, foi um brutal homicídio judicial, condenado universalmente, cuja evocação ainda hoje nos arrepia. No entanto, o de Abiola foi de uma crueldade persistente e sem igual. Espoliado da vitória, preso e isolado do contacto humano durante quase quatro anos e depois, à beira da sua segunda vitória, vitória assinalada pela morte do seu carcereiro e usurpador de mandato, Smi Abacha, acabarem-lhe de vez com a vida!...

Aquilo que as aspirações democráticas da nação tinham previsto depois da morte súbita de Abacha em Junho de 1998 era procurar um futuro nego­ciado em que, logicamente, Abiola, o presidente eleito preso, desempenharia um papel central, muito provavelmente como chefe de um governo interino de unidade nacional. Nenhum notável negara ainda que ele tinha ganho as eleições presidenciais de 1993. Então, um mês depois da morte de Sani Abacha, na presença de uma delegação oficial norte-americana - Thomas Pickering, ex-embaixador na Nigéria, Susan Rice, membro da administração do presidente Clinton, etc. -, serviram a Abiola uma chá­vena de chá que hoje alcançou um estatuto lendário no país: Abiola sofreu um ataque minutos depois de ingerir a bebida, teve um colapso e morreu. Tento recordar se houve alguma vez um Tântalo na história ou mitolo­gia nigerianas, mas nenhum me parece adequado. Só a figura do herói de Ogboju Ode, de D. O. Fagunwa, enterrado até ao pescoço no cativeiro, vítima de uma maldosa conspiração palaciana, se aproxima um pouco, mas trata-se de um conto que pelo menos oferecia aos seus leitores a recom­pensa moral de uma salvação, de um final feliz.

Sei que a verdade virá à tona um dia. Quatro anos para realizarem este homicídio, mas por fim assassinaram-no, e só posso pensar que o facto se deveu a alguma insuficiência da nossa parte, minha, embora não saiba ao certo o que eu ou qualquer outra pessoa na luta pela democracia poderia ter feito para o evitar. Surge ainda como absolutamente injusto que, a poucos dias da sua morte, eu tenha sido surpreendido em Viena por um fax que me avisava da iminência do seu assassínio. Por causa deste alerta e ape­sar da sua inutilidade em termos de tempo e de meios, arrasto comigo um incómodo sentimento de culpa. De pouco consolo me serviu saber depois que não fui o único a receber essa mensagem cujo texto roçava claramente a histeria. Mesmo no seu registo mais calmo e neutro, tratava-se de uma fonte que tínhamos aprendido a tomar a sério. No caso presente, o estado de espírito do autor do fax - dávamos às nossas principais fontes de infor­mação o nome colectivo de Longa Throat, Garganta Comprida, inspirado no informador que fez perder Richard Nixon, Garganta Funda - parecia ter afectado a sua utilização das maiúsculas e minúsculas:

 

0 novo regime e os seus colaboradores têm uma única nova adenda: ARRANJAR MANEIRA DE 0 CHEFE M. K. 0. ABIOLA NÃO VIR A SER PRESIDENTE DA NIGÉRIA DE MODO ALGUM... Deixe-me afirmar aqui categoricamente que isto está longe de se tratar de um palpite. É um plano preconcebido do novo regime, revelado por alguém que está por dentro...

0 RELATÓRIO IMPORTANTE QUE ME ENVIARAM HOJE: UM GANG NOTÓRIO NO EXÉRCITO NIGERIANO completou o seu plano para assassinar o chefe Moshood Abiola para pôr ponto final à guerra abacha/abiola numa solução de “nem vencido, nem vencedor". Acredite ou não, a crer no relatório que me deram, a morte do chefe Abiola pode ocorrer dentro de poucos dias ou antes do fim de Setembro... Isto pode parecer ridículo, impensá­vel ou pura invenção mas, acredite, é verdade. Diga ao Prof. e a outros grupos pró-democracia dentro e fora do país que exerçam uma pressão muito intensa sobre Abdulsalami para que liberte de imediato o chefe M. K. 0. Abiola!

0 novo regime não conseguirá proteger o chefe Abiola dos seus assassinos por­que não foi capaz de os persuadir a repensar a questão nacional da Nigéria. Até podem tomar o poder a Abubakar para pôr em prática o seu plano de destruição. Esta gente está mais disposta a dar cabo da unidade do país do que a deixar que Abiola seja presidente.

 

 O último elo da cadeia que me enviava esta mensagem era o meu filho Ilemakin, que havia muito se tinha lançado sozinho na luta, fugira do país e começara a realizar algumas missões para o movimento democrático. O apelo desesperado chegou por fim ao seu destino no último dia que pas­sei em Viena, mas só depois da partida de Kofi Annan, secretário-geral das Nações Unidas. Na véspera, eu estivera reunido a sós com ele durante quase uma hora e meia. Aparentava estar bastante descontraído; a confe­rência sobre direitos humanos que nos trouxera à Áustria parecia ter preen­chido todos os objectivos das Nações Unidas, e Kofi Annan pensava já na próxima missão: viajar na manhã seguinte para a Nigéria, onde iria visitar o novo chefe de Estado - decididamente interino - Abubakar Abdulsalami e, evidentemente, avistar-se com Moshood Abiola na prisão. Nenhum de  nós precisou de ser pressionado para aceitar a ideia de que tínhamos de nos encontrar e conversar antes da sua partida.

A minha paciência foi rudemente posta à prova pela sua atitude de “razoabilidade”... sim, sim, Wole, com a morte de Abacha apresentou-se agora oportunidade e não devemos desperdiçá-la. Muito se pode conseguir, agora a crise pode ser resolvida, mas, bem vê, também tem de dizer à sua gente que seja razoável. A oposição tem de mostrar-se razoável.

Razoável? Estávamos a ser irrazoáveis? Após quase trinta anos de regime militar, os últimos dos quais sob a forma ditatorial mais repugnante, reclamávamos a libertação imediata do presidente eleito - e de todos os restantes presos políticos - e o estabelecimento de um governo interino dirigido por Abiola, o presidente legítimo. Um governo interino com a vigência de um a dois anos. Em simultâneo, os representantes da nação encontrar-se-iam numa Conferência Nacional Soberana para apurar qual a verdadeira vontade popular, preparar condições para as eleições seguintes e ao mesmo tempo rever as modalidades de associação dos elementos constitutivos da nação. Depois, eleições gerais - que havia de irrazoável nestas propostas? E de resto, que outras alternativas havia? Tive o terrível pressentimento de que Kofi Annan ia para a Nigéria com um guião preparado, um guião já acordado entre as Nações Unidas e um comité de governos ocidentais. O programa da nossa coligação democrática não fazia parte desse guião.

O aviso sobre a ameaça de morte que pesava sobre Abiola só me foi entregue depois de Kofi Annan partir para a Nigéria e ter estado reunido com o preso! Se eu o tivesse recebido antes, teria submetido toda a discussão política à urgência da libertação imediata de Abiola! Teria decerto informado oficialmente a ONU, insistindo - mesmo sem saber se valia a pena - em que o seu secretário-geral se recusasse a encontrar-se com Abiola a menos que ele estivesse em liberdade, na sua casa, rodeado da sua família e asso­ciados políticos. Sabíamos por experiência que qualquer aviso de Garganta Comprida devia ser tido em conta. No entanto, era demasiado tarde, Abiola já estava a morrer, com os órgãos enfraquecidos por uma dieta diabólica que o envenenava lentamente. Tudo isto acabará por ser revelado um dia com todos os seus detalhes bizantinos - disso tenho absoluta certeza.

Portanto, a nossa discussão - e as minhas principais preocupações - girou essencialmente em volta do futuro da Nigéria, sem qualquer ideia do perigo que corria o homem que estava no centro de tudo. No fim dessa reunião, tão convencido estava eu de que o futuro já fora decidido por outros que de imediato enviei mensagens para o país, insistindo em que se exercesse o máximo de pressão sobre o visitante para o obrigar a dar ouvidos ao nosso programa e a defendê-lo junto do novo inquilino de Aso Rock [sede do governo em Abuja], o general Abdulsalami. No entanto, adverti ao mesmo tempo que isso de nada ser­viria. Estas frequentes contradições definem muitos dos momentos desta postura democrática. A inutilidade dos nossos esforços era óbvia, mas a inacção era muito mais intolerável.

De um modo irónico e incongruente, nestes momentos vem-me à ideia um dos aforismos preferidos da minha mãe, com a sua cómica iorubização da importante palavra inglesa try (tentar): itirayi ni gbogbo nkan - no tentar é que está tudo. A Cristã Selvagem aplicava-o a uma vasta gama de situa­ções incompatíveis - desde o encolher de ombros resignado na sequência de uma tentativa abortada de cobrar quantias exorbitantes pelos seus pro­dutos, até ao atacar com muito gosto o resultado duvidoso de uma receita culinária exótica que experimentava pela primeira vez. Abiola, como o pre­sidente socialista francês François Mitterrand - e a comparação termina aqui -, era adepto ferrenho da doutrina de itirayi. Não era a sua primeira tentativa de ocupar a presidência da Nigéria. Sendo um ioruba do Sul, a sua primeira tentativa, demasiado confiante, foi ridicularizada e sabotada por uma cabala feudal que considerava risível alguém fora do seu círculo pri­vilegiado poder pensar em governar o país. Serviam-se - e muito - do seu dinheiro, mas ironizavam abertamente acerca das suas ambições. Abiola fez um recuo estratégico, esperou por uma boa ocasião, lançou-se numa cru­zada filantrópica, alargou e consolidou a sua base política. Numa segunda tentativa, conseguiu. E por isso foi morto.

(in Wole Soyinka, É Melhor Partires de Madrugada, Pedra da Lua)

 

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por Augusta Clara às 08:00



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