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Jardim das Delícias


Terça-feira, 03.05.16

Intempestivo, pessimista, sempre radical - António Guerreiro

 

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Paulo Varela Gomes (1952-2016) esteve sempre em discordância com o seu temp 

 

Do percurso intelectual, espiritual e ideológico de Paulo Varela Gomes há uma regra contínua e persistente que se pode deduzir: esteve sempre em discordância com o seu tempo. E essa discordância de tempos só de maneira imperfeita se deixa adivinhar num curto apontamento biográfico que encontramos numa das suas crónicas: “Nasci tarde ou cedo de mais”. Por muito que nestas palavras soe a consciência crítica de um herói inadaptado, a verdade que elas revelam situa-se noutro lado: numa região habitada pelo intempestivo, por aquele que tem uma desconfiança insuperável no curso do mundo e fez do pessimismo um método para vislumbrar em cada caminho uma passagem pelos escombros da história. Como todo o herói intempestivo, inactual, tinha uma enorme consciência histórica e vivia em permanente necessidade de ar fresco e de espaço livre: “Faz-me falta ar condicionado e confiança no progresso”, escreveu ele numa das suas Cartas de Cá (assim se chamava a sua coluna no PÚBLICO, em 2008 e 2009), remetidas de Goa, onde foi delegado da Fundação Oriente por duas vezes: de 1996 a 1998 e de 2007 a 2009.

A discordância temporal e a tendência para entrar às arrecuas nos vários mundos que atravessou (o político, o académico, o literário), onde é hábito e quase lei seguir em frente, fizeram dele um indivíduo paradoxal, atraído por polarizações contraditórias. Por altura do lançamento de O Verão de 2012, romance que lhe conferiu publicamente o estatuto de escritor (muito embora não tenha sido a sua estreia na publicação literária), classificou-se como um reaccionário e um comunista utópico. De olhos postos noutros tempos, mas não para se evadir: “Estive no passado. E funciona”. Mas não se pense que ele revisitava o passado como um nostálgico: a sua atitude era reaccionária perante o futuro e o progresso, mas revolucionária perante o passado. Para ele, o passado era um tempo anterior à Revolução Francesa, era sobretudo o século XVIII, o seu século de eleição, que tanto frequentou nos domínios da arte, da literatura, do pensamento. Dizer-se comunista utópico era uma maneira de dizer que tinha conhecido o comunismo real e presente, mas não tinha gostado do que viu. Das inflexões extremas no seu percurso, a mais radical é provavelmente aquela que o levou do materialismo histórico à espiritualidade e à fé cristãs. Ao contrário do que se possa pensar, não foi uma conversão súbita, uma revelação da Lei às portas da morte. Paulo Varela Gomes passou por etapas de aproximação religiosa já antes de estar doente (como se pode aliás perceber em algumas das suas crónicas no PÚBLICO), mas essa experiência interior - tão livre como foi a sua heterodoxa consciência política desde que abandonou a militância – tornou-se plena nos últimos quatro anos.

O “comunista utópico”     

 Ingressou na luta política muito jovem, quando era ainda liceal, como militante do Partido Comunista, e teve uma fortíssima actividade no ambiente universitário, nomeadamente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no período revolucionário, quando era estudante de História (terminou o curso em 1978). Acabou por sair do partido, mas seguiu um caminho próprio e muito singular, afastado dos discursos reactivos ou acomodados a uma nova ordem, característicos de grande parte dos dissidentes. Ainda esteve ao lado de Miguel Portas na fundação do movimento Política XXI, um dos ramos genealógicos do Bloco de Esquerda, mas a sua colaboração com o Bloco terminou cedo e foi muito fugaz.

Desde então, as suas intervenções públicas de carácter político (nos jornais, mas também em alguns programas de televisão) foram sempre solitárias e tornaram-se até, com frequência, irreconhecíveis e desarmantes para os sectores da Esquerda, comunista ou não. A linguagem política de Paulo Varela Gomes foi, nas últimas duas décadas, irredutivelmente idiomática. Era a linguagem dele e de mais ninguém: a linguagem de um “comunista utópico”. Não a utopia como projecção no futuro, mas como um despertar do passado, para a qual a ideia de progresso é o mal maior do mundo moderno. O seu idioma falava também a linguagem de uma razão nómada, às vezes próxima da libertinagem intelectual, e a certa altura fez a defesa da cultura católica contra a ascese e o puritanismo protestantes. Era a linguagem que dissolve as cristalizações ideológicas, desarma todos os clichés e destitui as formas preguiçosas de pensar. Ele, que tinha conhecido na pele o que era o fascismo e os seus métodos repressivos, contou numa crónica que saiu a meio de uma exibição pública do documentário de António Barreto e Joana Pontes, Portugal: Um Retrato Social, por se ter irritado com aquele “retrato a preto e branco”, onde tudo parecia ter sucumbido à tristeza permanente, “insultuoso para as pessoas que de facto viveram essa dureza” : “Até eu, o meu irmão, as minhas irmãs, com o pai preso depois de uma tentativa de golpe anti-salazarista da qual saiu à beira da morte, a mãe também presa, uma vida material muito difícil, até eu tive dias e noites de praia, namorei, ouvi música pop, dancei naquilo que na altura se chamavam boîtes, usei o cabelo comprido e roupas extravagantes, fumei charros, tudo isso no Portugal salazarista ou caetanista”.

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 08.03.16

Virginia Woolf - a mulher e a escritora - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  Virginia Woolf - a mulher e a escritora

 

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   Virginia Woolf (1882-1941) nasceu no seio duma família inglesa da pequena aristocracia vitoriana. Quando o seu pai, Sir Leslie Stephan, filósofo erudito e uma figura tutelar algo despótica, faleceu a família mudou-se para a área londrina de Bloomsbury onde, mais tarde, haveria de formar-se o grupo com esse nome, constituído maioritariamente por elementos trazidos de Cambridge pelo seu irmão Thoby a que se juntariam os economistas Lynton Strachey e John Maynard Keynes, os escritores E.M. Foster e T.S. Eliot, os pintores Roger Fry e Duncan Grant e outros, entre os quais o próprio Leonard Woolf, historiador, com quem Virginia viria a casar-se. O círculo de Bloomsbury pretendia uma mudança na vida cultural inglesa conciliando "arte e moral", "tradição e verdade".  

A acidentada vida familiar de Virginia Woolf ganhou alguma estabilidade, aos 30 anos, após o casamento, embora as crises depressivas que frequentemente a atormentavam não tivessem desaparecido. Ela e o seu marido compraram uma pequena impressora e constituiram uma editora. Mas era de escrever que Virginia gostava.

Ainda criança Virginia Woolf tinha manifestado a vontade de ser escritora. Apesar dos condicionalismos da época relativamente à educação e à vida intelectual das mulheres, a biblioteca do seu pai tinha-lhe sido franqueada sem quaisquer restrições. De inteligência brilhante, sabia-se uma privilegiada. Tinha consciência de como à generalidade das mulheres do seu tempo estava impedido o desenvolviemento intelectual e o acesso à cultura. As veementes intervenções que teve contra esse estado de coisas granjeram-lhe reacções adversas.

No livro Um quarto que seja seu, constituído por duas prelecções feitas nas universidades femininas de Newham e Girton, em Cambridge, Virginia aborda o problema da sujeição da capacidade intelectual das mulheres da sua época e da falta de condições quer financeiras quer de autonomia para poderem expressar essa capacidade. Porém, o conteúdo destas conferências nada teve de panfletário. Para abordar o tema central, ela desenvolveu a sua argumentação com fineza de raciocínio e de espírito. O conhecimento da vida, da literatura e da História estão bem patentes nestas páginas e, certamente, deliciaram quem a ouviu. Fiquemos nós, agora aqui, com algumas linhas delas extraídas: 

Ao longo de todos estes séculos as mulheres têm servido de espelhos, dotados do poder mágico e maravilhoso de reflectirem a figura do homem com o dobro do tamanho normal. (...) O Czar e o Kaiser nunca teriam usado coroa, nem as perderiam. Qualquer que seja a sua utilização nas sociedades civilizadas, os espelhos são a mola essencial de todo o acto violento e heróico. (...) Este o motivo porque tanto Napoleão como Mussolini insistem com tanta ênfase na inferioridade da mulher, pois se não fossem inferiores eles deixariam de engrandecer. (...) a inquietação que sentem, ante a crítica delas; é impossível que, ao dizer-lhes que este livro é mau, este quadro é fraco ou qualquer outra coisa, deixem de ofender e irritar muito mais do que se fosse um homem a fazer uma crítica idêntica. (...) Como conseguirá pronunciar opiniões, civilizar selvagens, escrever livros, preparar-se e discursar em banquetes, a não ser que ao pequeno almoço e ao jantar lhe reste a possibilidade  de se olhar ao espelho e de se ver pelo menos com o dobro da estatura?

Mas asseguro-vos que esta amostra pouco diz da totalidade desse Um quarto que seja seu, um inteligente livro de ensaios sobre o problema "A Mulher e a Ficção".

Virgínia Woolf foi principalmente romancista. Contudo, alguns dos seus contos revelam-nos bem o modo como soube captar a vida duma maneira muito própria.

Aos 59 anos, com toda a lucidez, atormentada pela constante depressão em que mergulhava, encheu de pedras os bolsos do casaco e deixou-se ir nas águas do rio Ouse escrevendo uma carta ao marido onde explicava porque tomara aquela decisão: Tenho a certeza de que vou enlouquecer outra vez. E sinto-me incapaz de enfrentar de novo um desses terríveis períodos. Começo a ouvir vozes e não consigo concentrar-me (...). Se alguém pudesse salvar-me serias tu (...). Não posso destruir a tua vida por mais tempo.

 

Na única entrevista de que há registo sonoro, dada por Virginia Woolf à BBC em 29 de Abril de 1937, ela põe a tónica na importância das palavras, que existem sobretudo na nossa mente, por muitos dicionários de que possamos dispor. Daí que, por vezes, nos seja tão difícil encontrar a palavra exacta para expressar uma ideia ou exprimir um sentimento. Escutemo-la, pois.

 

 

Livros de Virginia Woolf publicados em Portugal:

 

  • Um Quarto que Seja Seu, Vega
  • Os Três Guinéus, Vega
  • A Casa Assombrada, Relógio d'Água
  • Diário, Vols. I e II, Bertrand Editora
  • Os Contos de Virginia Woolf, Relógio d'Água
  • O Quarto de Jacob, Cotovia
  • Orlando, Livros do Brasil
  • As Ondas, Col. Mil Folhas, Público
  • Rumo ao Farol, Edições Afrontamento
  • Entre os Actos, Cotovia
  • Os Anos, Moraes
  • Mrs. Dolloway, Livros do Brasil
  • A Festa de Mrs. Dolloway, Cotovia
  • Flush, Edições Afrontamento

 

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por Augusta Clara às 15:00

Quinta-feira, 23.07.15

Hannah Arendt - Pensar apaixonadamente

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 11.03.14

Guerra e Paz publica biografia de Mary Shelley da autoria de Clara Queiroz

 

Guerra e Paz publica biografia de Mary Shelley  

   Com a autoria de Clara Queiroz, «Quem Tem Medo de Frankenstein?» vai ser o grande acontecimento literário de Março. Esta biografia, com o subtítulo «Viagem ao Mundo de Mary Shelley», revela a história trágica de uma grande escritora, figura marcante das letras inglesas do início do século XIX.

 

Em 392 páginas, com uma escrita viva e apaixonada, Clara Queiroz abre aos leitores o mundo íntimo de uma mulher sensível e de uma cultura e de uma imaginação invulgares. Mary Shelley foi, como este livro mostra de forma profunda, uma mulher determinada a lutar contra um papel social imposto às mulheres, batendo-se pelo seu direito à escrita e à criação.

 

Clara Queiroz, a autora, é professora universitária aposentada e investigadora do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa. O seu último livro, «Se Não Puder Dançar Esta Não É a Minha Revolução» é sobre a figura de Emma Goldman.

 

«Quem Tem Medo de Frankenstein?» chega às livrarias, no dia 19 de Março. Um grande acontecimento editorial.

 

Grata pela atenção,

Vânia Custódio | Comunicação
–––––––––––––––––––––––––
R. Conde Redondo, 8, 5.º Esq.

1150-105 Lisboa | Portugal
Tel.  (+351) 213 144 488
Tlm. (+351) 913 050 026
Guerra e Paz   http://www.facebook.com/guerraepaz.

 

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por Augusta Clara às 15:00

Quarta-feira, 19.12.12

Conversa com o cientista João Magueijo na FNAC Vasco da Gama

ENCONTRO COM O CIENTISTA JOÃO MAGUEIIJO - FNAC VASCO DA GAMA . LISBOA
21 de Dezembro, sexta-feira, às 18h30m
João Magueijo na FNAC VASCO DA GAMA para conversar com os leitores acerca do seu mais recente livro O Grande Inquisidor - A vida extraordinária e o desaparecimento misterioso de Ettore Majorana, génio atormentado da era nuclear (http://www.gradiva.pt/index.php?q=C/BOOKSSHOW/6724) Conheça a história de Ettore Majorana e do seu grupo de investigação, responsáveis pela descoberta casual da fusão nuclear, em 1934, pela voz do cientista português que integra o Grupo de Física Teórica do Imperial College de Londres. É um privilégio raro contar com presença de João Magueijo em Lisboa, não perca, por isso, a ocasião de o ouvir e de lhe pedir um autógrafo.

 

 

A ENTRADA É LIVRE.
 
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por Augusta Clara às 19:00



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