Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Terça-feira, 01.03.16

Os primeiros meses de Costa - Freitas do Amaral

o balanço das folhas3a.jpg

 

Freitas do Amaral  Os primeiros meses de Costa

 

 

freitas do amaral.png

 

 

 

Visão, 27 de Fevereiro de 2016

O imprevisto aconteceu: com as inevitáveis alterações que sempre resultam de qualquer negociação, a Comissão Europeia e o Eurogrupo aprovaram, pela primeira vez (desde a criação do euro), um orçamento social e não um orçamento neoliberal! Não há ninguém com coragem par ao dizer?

   Já não é surpresa para ninguém que Passos Coelho, mau a governar, foi bom a influenciar quase toda a comunicação social. Verdade seja que o mérito não foi só dele: a moda neoliberal, convertida em pensamento único, faz coro com Berlim e com Bruxelas, com o mesmo entusiasmo com que alinhava com a América de Bush e deprecia a de Obama…

Não é de estranhar, pois, que se leia e se ouça diariamente um coro de críticas e protestos contra António Costa, o seu governo e a maioria que o apoia. Passos dixit!

Considero útil apresentar na VISÃO – um raro bastião da liberdade de imprensa – uma análise alternativa.

Recordemos cinco momentos decisivos:

1. Eleições legislativas: PSD e CDS defenderam, até à exaustão, que as tinham ganho e, por isso, tinham o direito de governar. Não perceberam que este direito só pode ser exercido por quem tiver maioria parlamentar (quer de apoio, quer de não-rejeição). Protestaram vivamente contra um governo apoiado pela maioria de esquerda, e até lhe chamaram “ilegítimo”. Mas ele era tão legítimo, tão democrático e tão irrecusável que até o Presidente da República, contrariado mas cumpridor da Constituição, o nomeou e lhe deu posse!;

2. Eleições presidenciais: foram ganhas, e bem ganhas, por Marcelo Rebelo de Sousa. Não pelo PSD de Passos Coelho, que não queria Marcelo, nem pelo PS, que se dividiu inutilmente;

3. Últimas sondagens: a imprensa favorável a Passos apresentou o PSD e o PS como tecnicamente empatados, mas esqueceu-se de dizer, por um lado, que o PS sozinho já aparece à frente do PSD sozinho – o que significa que nada perdeu, e até começa a ganhar, com a sua aliança à esquerda; e, por outro, que a direita continua a valer apenas 40 por cento, enquanto a esquerda mantém os seus 60 (ou seja, nem o PCP, nem o Bloco, nem o PEV perderam eleitorado por causa da sua aliança com o PS);

4. Orçamento: a direita repete todos os dias que a proposta não presta, que as previsões são irrealistas e, até (pasme- -se), que há um “grande aumento de impostos” – isto dito pelos mesmos que, no governo anterior, decretaram um “enorme aumento de impostos”, o maior de sempre na nossa história financeira! E, é claro, os jornais, rádios e televisões seguidores do pensamento único garantiam-nos todos os dias que aquele Orçamento não passaria em Bruxelas. Contudo, o imprevisto aconteceu: com as inevitáveis alterações que sempre resultam de qualquer negociação, a Comissão Europeia e o Eurogrupo aprovaram, pela primeira vez (desde a criação do euro), um orçamento social, e não um orçamento neoliberal! Não há ninguém com coragem para o dizer?;

5. TAP: a direita achou por bem privatizar a TAP, coisa que muitos dos seus eleitores tradicionais detestaram. O PCP e o Bloco queriam a nossa companhia aérea cem por cento pública, o que era financeiramente inviável. O PS, discordando da privatização, também não concordou com a renacionalização integral. Afirmou sempre que o seu objetivo era repor o controlo estratégico da TAP nas mãos do Estado, sem prejuízo de a gestão da empresa continuar a ser privada. Precisou o Governo de recomprar mais de 50 por cento da TAP? Não. Nessa negociação, muito hábil e bem sucedida, aceitou os 50-50, mas ficando o Estado com voto de qualidade (ou de desempate) nas matérias de interesse estratégico. Brilhante!

Em resumo: nos cinco principais pontos de divergência entre os líderes dos maiores partidos portugueses, a vantagem, ao fim de dois meses e meio, vai em 4-0 a favor de Costa. Os que votaram nele têm razões para estar satisfeitos.

Que o Orçamento seja rapidamente aprovado, e venham depressa as medidas de carácter social – eis o voto de, pelo menos, 60 por cento dos Portugueses.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 13.10.15

A surpresa - Manuel Loff

manuel loff.jpg

 

Público, 10 de Outubro de 2015

 

É sintomático que a direita veja 1975 nos resultados eleitorais. É a prova evidente de que estes anos mudaram o panorama da esperança política em Portugal.

 

   O governo da austeridade foi ratificado pelos portugueses?! Depois de ter sofrido a maior sangria de votos desde que há democracia em Portugal (perdeu 730 mil, mais do que os 600 mil que perdeu em 2005, depois de Santana, ou em 1995, depois de Cavaco), o terceiro resultado mais baixo em 40 anos (38,6%, por pouco acima de 1975 e 2005), que lhe fez perder a maioria absoluta - o que ganhou a direita?

Ganhou ao PS, um campeonato que ela própria inventou. O problema é que Portugal não acaba nas fronteiras do PS, do PSD e do CDS, e que os outros 29% de votantes (com ou sem representação) estão hoje mesmo a fazer-se ouvir. Posso perceber que Passos&Portas (e Dijsselbloem&Schäuble) papagueiem o disparate de que o governo ganhou as eleições; mas não tem razão quem, deprimido, diz que “os portugueses têm o que merecem” - porque eles votaram efetivamente contra este governo! As eleições confirmam, aliás, o que dizem todas as eleições europeias: em nenhuma, a austeridade foi ratificada pelos eleitores. O sistema eleitoral britânico deu uma maioria aos conservadores com 36% dos votos; a coligação de Merkel perdeu milhões de votos e a maioria parlamentar, e pediu ao SPD para a deixar regressar ao governo. Mas não foram os eleitores a dar-lhes razão.

As oposições ganharam amplamente as eleições. 2.860 mil eleitores (53,1%) votaram nas candidaturas que se reivindicam da esquerda (isto é, o PS, o BE, a CDU, os pequenos partidos), mais 600 mil que em 2011, ao nível dos seus melhores resultados históricos, e exatamente o inverso das eleições de 2011. E imaginemos o impacto nos resultados se tivesse votado a maioria do meio milhão de novos emigrantes que abandonaram o país nos últimos cinco anos...

O PS não foi sozinho alternativa – e Costa não resolveu o problema. Ao contrário do que se assegurava há um ano, o pólo de atração do protesto não foi António Costa. O PS ganhou apenas 180 mil votos (de 28% para 32,4%). Juntamente com a derrota de Sócrates em 2011, o PS continua com os seus piores resultados desde 1991 (segunda maioria absoluta de Cavaco). Os partidos do “arco da governação” (ou, pelos vistos, da NATO, segundo Cavaco...) continuam em queda: no seu conjunto (PS, PSD, CDS) obtêm o resultado mais baixo desde 1985. O problema, portanto, não está nos líderes, não estava em Seguro, nem sequer em Costa. Era bom que os cultores das lideranças, tão de moda, que parecem julgar que o mundo se resume a uma leitura de marketeiro, reconhecessem que os eleitores também votam em ideias, em atitudes, o que explica que um milhão de portugueses tenham votado no BE e na CDU sem que precisassem de sentir que votavam Catarina Martins ou Jerónimo de Sousa para Primeiro-Ministro. Os socialistas deveriam tentar perceber porque é que uma grande parte dos eleitores já não acredita (e de forma que parece consolidar-se) na alternância sem alternativa, no slogan de “só nós conseguimos pôr de lá para fora os que lá estão”, como ocorreu em 2005 (em seu favor) e em 2011 (contra o PS).

Afinal, isto virou mesmo à esquerda! E essa foi a surpresa destas eleições. Enganou-se quem, com a habitual ligeireza, desvalorizou o ciclo de maior contestação social dos últimos 30 anos, e achou que a esquerda “radical” bem podia sair à rua, convocada pela CGTP ou pelo Que Se Lixe a Troika!, porque, uma vez chegadas as eleições, todos voltariam ao redil e votariam nos “suspeitos do costume”. É ou não significativo que o BE tenha duplicado a sua representatividade depois de o terem declarado morto e, pelo contrário, quem, como o Livre, reclamava uma “esquerda de governo” e criticava a “esquerda de protesto”, tenha saído arrasado das urnas, perdendo metade dos poucos votos que obtivera para o Parlamento Europeu? É ou não significativo que a CDU, apesar do voto útil no PS e dos 260 mil novos eleitores do BE, tenha ganho mais apoio (sobretudo no Norte) pela 4ª eleição consecutiva?

Quem quis mudar a sério foi à esquerda do PS que confiou o seu voto: 1.113 mil votos (+315 mil), 20,7% de quem foi às urnas, constituem hoje um bloco sociopolítico (plural, como tudo na sociedade) de quem continua, apesar de toda a pressão das sondagens a favor do “voto útil”, a não confiar nos socialistas para fazer a mudança. Há meses escrevi-o aqui: desde 2005 que este bloco sociopolítico à esquerda do PS voltou a reunir a confiança de 1/3 dos eleitores de esquerda, como acontecera nos anos 70 e 80 e deixara de acontecer entre 1991 e 2005, com uma hegemonia do PS que entretanto se esfumou. E desta vez, o PS já só tem a confiança de três de cada cinco eleitores da esquerda.

É por isso que o PS perdeu as eleições – mas a esquerda as ganhou! É óbvio que PS, BE e CDU representam opções políticas diferentes, mas é mais relevante recordar que, depois de semelhante devastação social e económica como a que vivemos desde 2011, os três milhões de portugueses que neles votaram fizeram-no para impedir que este governo voltasse ao poder. E que é perfeitamente natural, e constitucional, que se tente uma solução alternativa de governo, mesmo que (como tudo indica) não passe por nenhuma aliança formal, com partilha de ministérios. Até podemos aceitar que todo o bicho careta passe na TV por especialista de futebol – mas era bom que se contivesse ao falar da Constituição e que não confundisse o sistema político com a Liga de Futebol, porque, desde que há parlamentos e eleições, as candidaturas mais votadas que não reúnem maiorias parlamentares cedem o lugar a quem as reúna! Se o PS tem dúvidas, veja o PSOE que constitui em Espanha governo com maiorias de esquerda, com ou sem a participação direta de parceiros, em muitas regiões autónomas e municípios onde o PP foi o partido mais votado, mas, justamente, onde não não reúne maioria. Ou que Willy Brandt só chegou ao poder na RFA, em 1969, constituindo uma coligação contra a CDU/CSU que ganhara as eleições sem maioria. E os exemplos podiam ser muitos mais... O que o PS escolher fazer vai ficar na memória de todos.

Jaime Neves na Presidência da República? Revelador do incómodo por que passa a direita portuguesa é o tom patético com que Cavaco, desrespeitando regras básicas da democracia, descreveu as condições para se poder fazer parte do governo de Portugal. De repente, o mais impopular dos presidentes, em fim de mandato, parecia Jaime Neves na noite do 25 de Novembro de 1975... Esta lengalenga da NATO, da “parceria atlântica” e dos tratados europeus é digna de uma uma espécie de democracia musculada, onde há uma espécie de oposição tolerável e outra que se for apanhada na rua já sabe o que lhe acontece... A oposição tolerável deveria humildemente lembrar-se do dogma (suponho que um misto de austeridade/Pentágono/o-que-o-Dijsselbloem-disser) a que se deveria reconhecer sujeito, fora do qual na cabeça de Cavaco não há nada. É verdade, ele não está sozinho nesta alucinação. Até entre socialistas que estão a encarar tudo isto da forma menos digna de todas (pura chicana partidária contra Costa que pode paralisar o PS durante meses), levantam-se vozes a recordar os valores “europeus” (há 40 anos diriam “ocidentais”) que partilharão com a direita. Os que agora acham que a maioria de esquerda de “bananas e laranjas” não existe, vislumbram uma outra, a atlântica, que Passos e Costa garantiram a campanha inteira que não existia. Se o PS cair nesta armadilha, bem pode antecipar o mais que provável futuro: Passos&Portas queixar-se-ão que os não deixam trabalhar, nova vitória da direita elegendo Marcelo a Presidente, que convocará novas eleições enquanto os socialistas estiverem ocupados com essa questão tão importante que é a de trocar Costa por outro...

Os que se mostram horrorizados com a possibilidade de um acordo de mínimos à esquerda denunciaram anos uma “esquerda do bota-abaixo” que, ao contrário de outros países, não contribui para a “governabilidade”. Deixaram-se surpreender com a frontalidade com que o PCP e o BE mostraram abertura para viabilizar um governo do PS para impedir o regresso da direita, não fazendo mais do que aquilo que disseram toda a campanha: que os seus votos não faltariam para procurar uma solução contra a continuação do que temos. O PS sabe que esse é o pressuposto básico de uma mudança. De um mínimo de esperança.

É sintomático que a direita veja 1975 nos resultados eleitorais. É a prova evidente de que estes anos mudaram o panorama da esperança política em Portugal. E de que, afinal, a esquerda foi eficaz em convocar o 25 de Abril contra a austeridade.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 15:00

Terça-feira, 13.10.15

Tombam as máscaras do regime - José Goulão

mundo_cao1.jpg

 

José Goulão  Tombam as máscaras do regime

 

josé goulão.jpg

 

 

Mundo Cão, 12 de Outubro de 2015

   A hipocrisia assaltou definitivamente os ecrãs portugueses. O que tanto se denunciou sobre os desvios impostos ao regime democrático no sentido de neutralizar o funcionamento dos mecanismos de respeito pela vontade e os interesses dos cidadãos, e que, de acordo com a propaganda oficial, não passava de opiniões de marginais do sistema, de antieuropeístas, quiçá de terroristas encapotados, está confirmado. Não era teoria da conspiração, era a demonstração do que se pretendia e pretende atingir com a mascarada de democracia apresentada como a democracia única, possível e desejável, afinal um regime em que a soberania nacional e a maioria das pessoas têm de submeter-se aos interesses minoritários dos predadores da sociedade, dos parasitas dos cidadãos.

Bastaram umas eleições e umas sessões de diálogo – esse diálogo tão enaltecido quando não passa de monólogo em que finge falar-se do que já está decidido – para que a inquietação, os medos, no fundo as pulsões antidemocráticas e trauliteiras subissem ao palco. Elas aí estão, ridículas nos conteúdos, perigosas nas intenções, intimidatórias na prática.

Cito alguns exemplos ao acaso porque a memória e a capacidade de registo não conseguem acompanhar a criatividade dos canais de propaganda do regime os quais, como é sabido, são o suprassumo do pluralismo desde que ele seja monolítico e esteja sintonizado com os agentes de Bruxelas, os seguranças dos credores, os magarefes dos mercados.

Na cegada desfilam politólogos e comentadores independentes que, por acaso, ocupam ou ocuparam altas posições no chamado arco da governação, analistas e papagaios amestrados, comentadores, jornalistas ditos de referência e recadeiros, enfim a corte dos bobos que conseguem especular horas a fio sobre supostas variantes de um mesmo cenário, o único, o permitido, aquele de que vivem e que por sua vez alimentam, num ciclo vicioso e viciado.

Assim sendo, António Costa transformou-se num “radical” com tendências “suicidárias” ao aceitar que o PS dialogue com o PCP e o Bloco de Esquerda. Portugal deve ser governado pelo grupo que teve mais votos, mesmo que seja em minoria, devendo os outros membros do Parlamento fazer de patetas. É assim a “tradição política”, a mesma “tradição” que proíbe a entrada de partidos à esquerda do PS na área governativa, porque isso “não está no ADN” da democracia portuguesa. Partidos esses, como o PCP e o Bloco de Esquerda, que foram acusados de se esquivarem a assumir responsabilidades governativas e que, quando manifestam essa disponibilidade, são acusados se meterem onde não são chamados, de acordo com a bem conhecida trama de morto por ter cão, morto por não ter. E atenção que isto da “tradição” é muito importante em Portugal, sobretudo a “tradição” que manda o bom povo ser ordeiro e marchar em rebanho.

Além disso, e a cegada continua, fiquem sabendo que uma minoria de 107 deputados é muito mais estável e responsável que uma maioria absoluta de 122, susceptível de viabilizar um governo à esquerda da clique da troika; maioria esta que não passa “de uma coligação negativa”, formada à partida por imbecis mal-intencionados e incapazes sem legitimidade porque, por exemplo, não aceita a austeridade nem dá como plenamente adquirido que os portugueses sejam governados de Bruxelas pelos credores e o sobe-e-desce dos juros da dívida e das manipulações estatísticas. Vejam bem, que legitimidade teria essa maioria se porventura se questionasse sobre o tratado orçamental, manobra suja de Bruxelas e Berlim escamoteada aos cidadãos e que transforma os países da União em pobres protectorados de uma Alemanha expansionista e das praças financeiras? Como seria possível admitir um governo de Portugal capaz de governar para as pessoas, segundo os interesses de Portugal e dos portugueses, quando o que interessa são números, cifrões, milhões manipulados pelo casino financeiro mundial e armazenados em paraísos fiscais?

A austeridade provoca miséria, desemprego, emigração? Pois é, mas não existe outra saída, mesmo que as eleições tenham dito claramente que os portugueses a rejeitam, porque Bruxelas é que sabe o que é bom “para o futuro dos portugueses”, como esse futuro ficará ainda mais risonho estraçalhando o Estado social e a segurança social; e se Bruxelas manda, assim seja. Para lhe obedecer existe a minoria que desejavelmente deveria assumir-se como maioria em forma de “bloco central”, esse partido único garante da democracia da austeridade. Mas se assim não for, que essa minoria governe com a “estabilidade” e a governabilidade” que lhe são inerentes, capaz de ressuscitar em versão actualizada a “democracia orgânica”, uma inspirada criação da propaganda marcelista, não a de hoje, a de ontem. Fora desse quadro, como por exemplo a hipótese de um entendimento entre PS, Bloco de Esquerda e PCP, que permitiria governar Portugal com maioria parlamentar e para a maioria dos portugueses, seria um “absurdo”, uma “batota política”, “um mergulho no desconhecido”; a “instauração da miséria”, uma “irresponsabilidade antieuropeísta”, um “pandemónio ingovernável”, uma “aberração”, uma “vergonha nacional”, um alvo da “chacota internacional”, “mudar as regras a meio do jogo”, “uma conspiração”, um “delírio”, a “restauração do gonçalvismo”, até “um golpe de Estado” – como se percebe nem o céu será o limite para a criatividade chantagista.

Tombam as máscaras dos democratas oficiais, os que sabem corrigir o regime dos enganos dos eleitores para defesa dos interesses dos próprios eleitores, uns pobres idiotas incapazes de saber o que é bom para eles.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 18.09.15

Ricardo Araújo Pereira entrevista Catarina Martins do Bloco de Esquerda

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 11:00

Sexta-feira, 28.11.14

A guerra de trincheiras do Bloco - Carlos Matos Gomes

pingos1.jpg

 

Carlos Matos Gomes  A guerra de trincheiras do Bloco

 

carlos matos gomes1.jpg

 

   Comemora-se este ano o centenário do início da Grande Guerra (1914-1918), que ficou conhecida como a guerra das trincheiras. De modo simplista, a Alemanha tinha uma ideia para si própria e para a Europa. Atacou e os Aliados defenderam-se na fronteira da França cavando trincheiras e metendo-se dentro delas durante 4 anos. A guerra começa com a Alemanha a ter uma estratégia e os Aliados remetidos à tática. Terminou na situação contrária, com a Alemanha entrincheirada e os Aliados a moverem-se e a vencerem, derrotando-a nas suas trincheiras.

Temo que a história do Bloco seja a da Alemanha. Apresentou-se, na sua fundação, com uma estratégia de vitória e novidade e parece ir acabar entrincheirado numa tática de defesa a todo o custo, sem horizontes. As moções apresentadas na Convenção do Bloco são uma escolha pela guerra de trincheiras e a confissão de ausência de uma estratégia. O Bloco defende um conjunto de bons princípios e de boas intenções e defende-se com eles como os exorcistas se defendiam mostrando a cruz aos possuídos pelos demónios.

Todas as moções são longas análises da situação com a qual a grande maioria dos portugueses está de acordo sem se mexer do sofá. A questão está no que o Bloco propõe para sair da crise, as propostas não levam os seus soldados a sair das trincheiras. Uma mão cheia do quase nada que é prometer uma melhor distribuição da riqueza. As duas moções principais, a E de Pedro Filipe Soares e a U da actual direcção de João Semedo e Catarina Martins, dizem claramente que lutam contra, não lutam por.

Aqui estão aqueles que lutam contra a corrupção e as elites”, garantiu Pedro Filipe Soares. A atual coordenadora do Bloco em representação da moção U, Catarina Martins, defendeu:“Há um amplo consenso sobre o Bloco ser contra a austeridade e sabem todos que não faremos parte de um governo do PS, do pântano do bipartidarismo.”

Quais são as propostas para romper com a austeridade?

A moção E dedica-lhe o capitulo 4.4 O Essencial: O T.O. (Tratado Orçamental) é a barreira entre os que são submissos à ditadura da finança e os que colocam as pessoas no centro da política (…) O BE construirá um programa alternativo de governo que dê resposta às necessidades populares e altere a relação de forças. O caminho é claro: a) Desvinculação imediata do T.O.;b) Reestruturação da dívida pública rejeitando a dívida ilegítima, nacionalização do sector bancário para uma política de defesa da economia e criação de emprego e desobediência à austeridade europeia; c)Nacionalização dos bens comuns privatizados, garantindo o poder público dos setores estratégicos contra a globalização e o combate às rendas parasitárias, criando uma economia para o pleno emprego com direitos; (…)

A moção U dedica à resolução da crise o seu ponto 6. UM PROGRAMA PARA ACABAR COM A AUSTERIDADE: O objetivo imediato do Bloco é o fim da austeridade. Propõe o investimento público para a criação de emprego sustentável e a recuperação dos rendimentos do trabalho e dos serviços públicos degradados através da devolução à esfera pública dos bens estratégicos privatizados. Afirma que “ Este objetivo depende de medidas concretas” A primeira medida deste programa é a renegociação da dívida pública e de toda a dívida externa, cujos valores são insustentáveis. A par desta renegociação, deve iniciar-se a desvinculação do Tratado Orçamental. O núcleo do programa do Bloco completa-se com uma profunda reforma fiscal e com a nacionalização dos bens estratégicos. No caso da banca, o controlo público deve evitar a socialização das perdas e responsabilizar os acionistas e os potentados financeiros – os grandes credores da banca privada.

Não há diferenças entre a essência das duas propostas. Presumo (não as li) que as outras serão do mesmo teor. Elas motivam-me algumas questões:

As medidas apresentadas para sair da crise são adequadas? A maioria são.

São exequíveis? Na actual conjuntura a maioria não é exequível nem interna, nem externamente. Não podem ser levadas a cabo por um só partido nacional, nem por uma só corrente política europeia. O grupo da esquerda radical europeia não consegue por si só provocar a revisão do Tratado Orçamental, nem impor a renegociação da dívida, nem fazer aceitar a renacionalização da Banca, por exemplo. Internamente o Bloco não consegue, isolado, impor nenhuma das suas propostas. Ora o Bloco, tal como o PC, rejeita aliar-se com quem quer que não aceite as suas propostas e já o disse a António Costa.

O Bloco que sai desta Convenção é igual que que entrou, mantém-se, simplesmente, numa posição tática defensiva de afirmação de princípios. Sabe que não consegue sair da trincheira e impô-los. Resmunga.

As propostas do Bloco, mesmo que fossem adequadas e exequíveis seriam suficientes para vencer a crise e acabar com austeridade? Não são, nem seriam. O Bloco não propõe nenhuma medida para aumentar a riqueza produzida em Portugal. Nem para atrair capitais, que leve alguém a preferir investir aqui do que em outra parte. Nem para aumentar as vantagens comparativas de Portugal relativamente a outros estados e espaços. O Bloco não apresenta nenhuma estratégia para Portugal produzir riqueza no mundo global que, bem ou mal, é o que existe e que o Bloco não tem força para alterar radicalmente e que, nem mesmo que tivesse, iria a tempo de proporcionar às atuais gerações, as dos que ainda vivem e votam de viverem melhor. O Bloco não tem um política para a participação de Portugal nos grandes espaços mundiais – UE, Espaço Atlântico (EUA-RU e Canadá ), Lusofonia, Economias Emergentes (BRIC’s). Apenas uma frase sobre a saída da NATO, para a qual o nosso maior contributo é fazer voar meia dúzia de aviões em alegre vigilância turística sobre a orla costeira!

O Bloco repetiu a velha mensagem que há muito transmite à sociedade portuguesa: vai manter-se entrincheirado nas suas posições simpáticas de prometer distribuir melhor o pouco que há. Nada promete fazer para haver mais riqueza.

Foi afirmado que o Bloco não será o CDS do PS, a muleta do PS. Julgo que corre o risco de nem isso vir a ser, mas de se reduzir a um partido-seita, como o MRPP, ou o POUS.

Penso que as lições de história do Fernando Rosas sobre a falência dos movimentos pacifistas, anarquistas, espartaquistas, socialistas no período crucial do verão de 1914 poderiam ter sido úteis aos congressistas da Convenção.

Como se sabe da história da I Grande Guerra, o impasse só se resolveu com a introdução do movimento proporcionado por novas ideias e alianças, quando surgiu o tank que atravessou as trincheiras e a aviação que obrigou as velhas formações a saírem dos seus abrigos. Em minha opinião o Bloco está como os soldados alemães de 1918, começaram por atacar e acabaram a defender-se das novas ameaças com as velhas armas. Não é animador.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 08:00



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Agradecia que se identificasse. Quem escreveu este...

  • Anónimo

    Gosto substancialmente de pessoas que dizem bem ou...

  • Anónimo

    Texto e foto deliciosos, parabéns!

  • Anónimo

    Palavras como dinamite.E passados 50 anos sobre os...

  • Anónimo

    Lindo!


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos