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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 29.06.16

O Senhor Erdogan e os sarilhos que ele provoca - António Ribeiro

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António Ribeiro  O Senhor Erdogan e os sarilhos que ele provoca

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   Não, meu caros, eu não defendi o terrorismo como instrumento político, a propósito do Presidente Erdogan, que classifiquei como "islamo-fascista". Porque é disso que se trata; e os problemas que a sua ideologia política e religiosa coloca aos Europeus - a existência de um islamismo autoritário que fica apenas ligeiramente aquém dos exegetas do Corão e dos adeptos da Sharia - são imensos!

O Estado Turco tem quase oitenta milhões de pessoas, das quais cerca de 15 milhões são Curdos. Só os curdos-turcos são mais 50 por cento do que os Portugueses europeus! Concentram-se sobretudo no Sudeste da península da Anatólia (a parte asiática da Turquia). Acontece que o resto da Nação Curda está em parte na Síria e também no Norte do Iraque (e tem franjas em países limítrofes). De Mossul e Al-Raqqa, Síria Setentrional e até à Turquia tudo é Curdistão, uma nação e um povo de guerreiros que lutam legitimamente pela sua independência. A queda do decrépito Império Otomano, no final da Primeira Grande Guerra, permitiu ao imperialismo ocidental redesenhar os mapas da região e consagrar fronteiras que não correspondiam às realidades nacionais e culturais. Isso foi feito em torno (e por causa) dos então emergentes interesses petrolíferos, que ainda hoje envenenam toda a região. Foi neste contexto que nasceu o actual "Iraque", nos bíblicos deltas do Tigre e do Eufrates, a Mesopotâmia antiga do Velho Testamento.

| Foi nessa época que um arménio astuto, o Sr. Calouste Sarkis Gulbenkian, cuja família conseguiu escapar aos vários genocídios do início do século passado (que os Turcos negam ter existido, mas que o Papa Francisco já validou como tal), conseguiu construir o seu imenso império petrolífero, ora em disputa, ora em colaboração, com a British Petroleum (BP), de cujos frutos hoje tanto beneficiamos, em termos culturais e científicos, com a Fundação Gulbenkian, que os acasos da História e a sageza de Salazar atraíram para Portugal. |

O presidente Necip Erdogan tem um projecto para a Turquia: destruir paulatinamente a laicidade do país e impor-lhe um regime baseado numa visão musculada do Islão. Por enquanto sem "sharia", mas as dinâmicas que ele cria podem degenerar nisso.

O Ocidente devia apostar mais nos curdos e não apenas servir-se deles quando lhe convém. Um Curdistão independente permitiria conter a Turquia e federar franjas do Norte da Síria e o Norte do Iraque onde a ausência de um tal "Estado" foi aproveitada pelos radicais para "fundarem" o famigerado ISIS que tanto nos apoquenta.

É neste "caldo" de circunstâncias maçadoras e infelizes que escrevi, e com muita honra, que esta Turquia, que tanto queria ser "europeia", pretensão que há dez anos eu ainda apoiava, que Erdogan é o grande problema e o grande obstáculo e que me é rigorosamente indiferente a sua sorte e a do seu partido de regime.

Ele é um canalha que começou por apoiar o chamado "estado islâmico", porque o ISIS combatia os "seus" curdos, para agora, a troco de dinheiro, vir dizer-nos que o combate, em aliança com Bruxelas e os Americanos. Pura hipocrisia! Ele só pensa no Islão e nos interesses do seu partido. Tendo suporte eleitoral para alcançar maiorias absolutas, como tem tido, ele desmerece a Europa e não pode almejar à integração.

Como podemos aceitar um país na UE que fez regredir as mulheres para o estatuto de há muitas décadas? Uma mulher turca andava há vinte anos pelas ruas de Istambul de cabeça inteiramente destapada e em trajes ocidentais, mas hoje sente-se coagida a vestir o hijab, sob pena de ser desconsiderada socialmente e apelidada de "puta". Essa é a obra do Sr. Erdogan. E por isso, não obstante algumas vítimas "colaterais", não consigo ser excessivamente piedoso com as desgraças que lhe acontecem, como a desta terça-feira. Claro que lamento a má-sorte das vítimas, mas temos de contextualizar e de entender as razões profundas disto. Ele só está a provar do seu próprio veneno, não deve ser validado por Bruxelas e todos ganharíamos se o varressem do mapa!

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por Augusta Clara às 18:00

Terça-feira, 21.06.16

Falemos então do Brexit - José Goulão

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José Goulão  Falemos então do Brexit

 

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   Mundo Cão, 21 de Junho de 2016

   Está em curso uma intoxicação epidémica, que tem contornos de uma operação de terror, sobre as terríveis consequências que se abateriam sobre o mundo, a Europa e até este pobre cantinho lusitano se o Reino Unido, por sinal o braço europeu mais fraterno do grande império, sair da União Europeia.

A vaga de propaganda chantagista sobre os horrores que adviriam dessa hipótese atingiu a histeria do vale-tudo e mesmo agonias de desespero que justificariam uma investigação séria sobre as circunstâncias que levaram ao cobarde assassínio da deputada trabalhista Jo Cox. Para todos os efeitos, o autor foi um demente dedicado aos folclores nazis, agiu sozinho e pronto. O assunto foi retirado das primeiras páginas, ficando agora cada qual com a resposta à pergunta clássica que se faz para adivinhar o criminoso nos romances policiais: a quem aproveita o crime?

Sair da União Europeia é um direito inalienável dos britânicos, que quase certamente não se livrarão de uma segunda consulta, ou das que forem necessárias, se teimarem em dizer que não desejam estar num sítio onde, em boa verdade, nunca estiveram de boa vontade. Não é este o hábito dos mandantes da União Europeia, vide as repetições de referendos na Irlanda, em França e na Holanda até se obterem os resultados pretendidos pela ditadura financeira internacional?

A saída do Reino Unido da União Europeia, ou a sua continuação, será o resultado de um exercício básico de democracia, essa coisa que está de tal maneira corrompida no espaço europeu que os senhores de Bruxelas até se esquecem de a invocar. Ao invés, em vez de promoverem o esclarecimento sereno dos britânicos, patrocinam uma campanha de medo e mentiras onde avultam figuras desacreditadas como o presidente dos Estados Unidos, o conspirador e golpista internacional George Soros através do seu Grupo Internacional de Crise (destruição da Jugoslávia, criação do Kosovo, golpe fascista na Ucrânia e outras coisas equivalentes) e o inimitável Tony Blair – será impossível resumir as suas malfeitorias, mas bastará recordar a sangria do Iraque baseada numa comprovada aldrabice. Enfim, são todos muito boas recomendações para um Reino Unido dentro da União.

O ambiente de pressão é de tal ordem que um cidadão comum quase terá que pedir desculpa para dizer que não virá mal nenhum ao mundo se o Reino Unido sair da União Europeia, entidade em implosão. O grau de desmantelamento é tal que Bruxelas e a colaboracionista David Cameron em Londres fabricaram uma União Europeia à la carte para os britânicos, a qual, bem à medida do primeiro-ministro inglês, é racista e xenófoba. Não foi ele que qualificou os refugiados e imigrantes como “uma praga”, levando Bruxelas atrás de si, o que nesta matéria nada tem de difícil? A partir de agora qualquer país da União pode reclamar um estatuto especial para si, ameaçando com a saída. Será uma simples questão de coragem política.

Alega-se: do lado do Brexit estão os fascistas britânicos. Pois estão. E quem está ao lado dos fascistas ucranianos, polacos, húngaros, eslovacos, estonianos, lituanos, croatas, kosovares, turcos com quem a NATO e a União Europeia anda nas palminhas? Os fascistas estão em todo o lado na Europa, porque os dirigentes da Europa lhes estendem as mãos, uns por oportunismo, outros por convicção. Quando se der o alerta geral provavelmente será tarde.

Com ou sem Brexit, a União Europeia está a cavar um pouco mais da sua sepultura. Enquanto isso, fortalecem-se os sinais, em todo o mundo, de que o neoliberalismo, como estado supremo do capitalismo, necessita cada vez mais de sistemas políticos autoritários para maximizar os proveitos da sua anarquia financeira. Isto é, o mercado verdadeiramente livre sente ainda como estorvo o pouco que resta de democracia. Por isso o fascismo ressurge em cada canto, por ser o infalível garante da equação exploração máxima igual a lucro máximo. Por isso, ao contrário do que malevolamente proclama a comunicação transformada em propaganda, mesmo que seja “de referência”, os manifestantes em França contra a lei laboral esclavagista não são “herdeiros de Pétain”. Lutam sim contra os políticos cúmplices dos imensos poderes internacionais que arrasam, sem dó, os direitos sociais e humanos. Os grandes impérios económicos e financeiros alemães lucraram a bom lucrar com o nazismo de Hitler. Por isso, é uma mentira deslavada e uma grosseira chantagem intelectual dizer que o fascismo e a liberdade sem limites do mercado são inconciliáveis.

Pelo contrário, são feitos um para o outro. E desta feita já têm em funções a União Europeia e a NATO como regaços dessa aliança criminosa, dispensando grandes invasões militares, pelo menos na Europa até às fronteiras russas.

Com ou sem Brexit, é claro.

 

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por Augusta Clara às 15:45

Domingo, 27.03.16

Lá vamos outra vez - Adriana Costa Santos

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DR

 

Visão, 24 de Março de 2016

 

Hoje, mais do que nunca, precisamos de calma e inteligência para pensar a paz e não cair na armadilha do ódio.

 

   Estamos em guerra. Bruxelas amanheceu ao som dos gritos e da destruição, das ambulâncias e do caos de um previsto imprevisível. Caíram as cinzas e os destroços, envolvendo-nos no silêncio do medo e no golpe surdo do choque e da insegurança.

Primeiro, fomos todos meter-nos nas nossas casas, aguardámos inquietos revelações atabalhoadas, relatos e números de mortos e feridos, telefonámos uns aos outros até que as redes móveis deixaram de funcionar. Depois veio a reação, armada em coragem. Saímos à rua como quem não tem medo, cheios de medo, a partilhar caras tristes e mensagens coloridas de esperança no chão, acendemos velas, decorámos com flores e cores, abraços, música, a noite a cair... E hoje voltamos a acordar com medo.

Apetece-me chorar. Lá vamos nós ter de explicar outra vez que os refugiados fogem da mesma violência, do mesmo medo que hoje sentimos. Sublinhar que aqueles que hoje reivindicaram os atentados matam gente todos os dias, até sem bombas, devagar e cruelmente, no país de onde vêm os milhares que chegam à procura de paz na nossa terra. Que os muçulmanos que vivem na Europa e no mundo não são responsáveis pelo que aconteceu. Que a questão não está em serem muçulmanos ou cristãos, árabes, negros, brancos, belgas ou franceses, que está na loucura de qualquer assassino. É esta a loucura do ódio, que não podemos deixar entrar nas nossas vidas.

Quando cheguei à Place de la Bourse, na tarde de terça-feira, cruzei-me com dezenas de refugiados que conheço. Felizmente, passam despercebidos, é provável que nem os jornalistas que lá andavam pudessem saber. Felizmente, não têm uma braçadeira amarela no braço que os distinga dos outros, como chegou a ser sugerido por uma das freguesias de Bruxelas. Felizmente, ainda não chegou o dia em que já não podemos andar na rua como iguais, partilhar a cidade e a tristeza que de ela hoje se apoderou, demonstrar-nos solidários como humanos que somos, independentemente da história que torna cada um de nós único. É disso que tenho medo, mais do que do terrorismo, do dia em que entremos em guerra uns com os outros.

O Omar tem três filhos pequenos, está em Bruxelas há seis meses, ainda à espera do direito de asilo para poder recomeçar e, eventualmente, obter autorização e apoio para trazer a família para a paz. Telefonou-me de manhã para saber se eu estava bem, pediu-me para ficar por casa até a cidade respirar fundo e à tarde encontrámo-nos na Bourse, juntos pela mesma causa, enquanto nas redes sociais se espalhava a ignorância e o ódio. Foi assim que decidimos reagir, sabendo que só deste modo poderemos ultrapassar o trauma e pensar à frente, com humanidade e clareza.

Já lá vai quase um mês que o campo de refugiados fechou. O Hall Maximilian vai transformar-se em apartamentos para alguém vender e alguém comprar. É assim que funciona a realidade, mesmo no mundo dos sonhadores. Desde então, só tenho notícias pelo Facebook ou por aqueles com quem me cruzo por acaso. A todos pergunto como está a correr o processo de obtenção do direito de asilo. As respostas são desmotivadoras, num tom de quem foi obrigado pela vida a ser paciente. Já faltou menos, digo sempre, vai tudo correr bem.

Hoje os encontros foram ainda mais cinzentos: "se eu já tinha pouca esperança, depois disto, só pode piorar", disse-me Mustafa, o neurocirurgião iraquiano, que trabalhava comigo no campo, refugiado voluntário dos Médicos do Mundo.

Andámos meses em prevenção do terrorismo, a cidade foi povoada de tanques e militares, constantes controlos policiais discriminatórios a todos os homens de aspeto árabe, cultivámos medo e insegurança, restringimos liberdades e sentimos o frio da desconfiança. Tivemos medo uns dos outros e não foi por isso que conseguimos evitar os atentados. Acabámos por dar força aos terroristas, aumentando a nossa fragilidade. Sucumbimos ao seu poder de nos mergulhar no medo e no ódio.

Entretanto a Europa fechou as fronteiras e atentou aos direitos humanos com um acordo de trocas e baldrocas com a Turquia. Pessoas em desespero continuam a chegar às ilhas gregas, com a diferença de que agora são recambiadas, em troca de outras, mais convenientes ao egoísmo das democracias europeias. É triste saber que tudo isso acontece aqui ao lado. Que há, na nossa paz europeia, crianças a ser atacadas por gás lacrimogéneo, mães a dar à luz em linhas de comboio, bebés que morrem na terra e no mar, homens que se imolam em protesto, pessoas enterradas na indignidade, presas num mau remédio que escolheram para fugir ao terror. E continuam a lançar-se bombas na Síria.

Agora estamos em guerra. Com o "Estado Islâmico" ou com a barba do vizinho, no Facebook ou no autocarro, com os refugiados e com os que lá ficam. Até podia dizer que já não nos lembramos de que há milhares de pessoas a morrer no mediterrâneo. Infelizmente sim, só que a confusão cresce de tal forma, com a inteligência a ser fintada pelo medo, que até os mais informados participam na islamofobia que se instala e gritam do seu refúgio, por trás das teclas, que não queremos muçulmanos na Europa. É urgente parar para refletir e pensar a paz em conjunto, deixar de perder tempo com bodes expiatórios e concentrarmo-nos na origem do problema, para o podermos combater.

Hoje, mais do que nunca, precisamos de calma e inteligência. Precisamos de força pela união e solidariedade, de olhar mais à frente e de nos informarmos, para que a manipulação da violência não nos tolde o pensamento.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 24.03.16

Terroristas como peixe na água - Ferreira Fernandes

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Diário de Notícias, 23 de Março de 2016

   Os anarquistas também escolheram a propaganda por ato violento, no virar do século XIX para o XX. Em 30 anos, além de bombas cegas, por vezes com dezenas de vítimas, mataram cinco chefes de Estado, de regimes diversos (um czar, dois presidentes, francês e americano, e dois reis, italiano e português). Mas foram vencidos por medidas policiais. É que aqueles terroristas de antanho eram pessoas isoladas ou de pequenos grupos desgarrados. Não eram peixe mergulhado em meio natural. Hoje, o terror é outro.

Ontem, um dos títulos iniciais do site do jornal Le Monde foi: "Uma explosão em Bruxelas numa estação de metro do bairro europeu." Apanhei-me a ler a frase no sentido literal. Europeu, qual? Não são todos, em Bruxelas? Só depois me dei conta de que o jornal se referia ao bairro das instituições europeias (com o edifício da União Europeia, entre outros). Mas as explosões têm destes efeitos colaterais, trazem-nos recordações explosivas. Lembrei-me de um português que trabalhara na UE, em Bruxelas, e morara em Molenbeek, um bairro de imigrantes muçulmanos.

Logo a seguir aos atentados de Paris (novembro do ano passado), esse português foi uma espécie de vox populi, voz inocente, voz de testemunha. Quando alguns habitantes de Molenbeek foram relacionados ao que acontecera em Paris, o nosso português foi requestado por jornais e sites. Um destes colocou uma frase dele em título: "Fui assaltado mais vezes em Lisboa do que em Molenbeek." E ele contou a "boa convivência" que encontrou no bairro. Talvez com alguns poréns, coisa pouca: os cafés eram só de homens, os quiosques não tinham jornais franceses nem flamengos, só árabes, as mulheres andavam veladas na rua e a sua namorada quando o ia visitar não podia ir sozinha, porque era incomodada. "Sempre pensei em Molenbeek como estar em Marrocos, por exemplo", contou o português.

Entretanto, foram-se precisando as ligações dos recentes atentados islamistas com o bairro. Mehdi Nemmouche, o assassino de quatro pessoas no museu de Bruxelas, em 2014, foi preso em Molenbeek. Amedy Coulibaly, cúmplice dos assassinos dos jornalistas do Charlie Hebdo, comprou em Molenbeek as armas com que sequestrou e matou no supermercado judeu, em Paris, em janeiro de 2015. Ayoub Elkhazzani também comprou as armas em Molenbeek com que tentou uma matança no comboio entre Amesterdão e Paris, em agosto passado. E, relação mais antiga, Dahmane Abd el-Sattar e Rachid Bouraoui el-Ouaer eram habitantes do bairro quando partiram para o Afeganistão para matar o comandante Massoud, que combatia os talibãs, nas vésperas dos atentados das Torres Gémeas.

Na capital da Europa, um bairro que era o braço armado da Al-Qaeda, primeiro, e do Estado Islâmico, depois. Na semana passada, quando da prisão do descerebrado que organizou as mortes de Paris, Salah Abdeslam, soube-se que ele vivera os últimos quatro meses em... Molenbeek. Mais do que o nível de organização - que não é sofisticado (casa sem água nem eletricidade) - impressiona o facto de o assassino, filho do bairro, ter desaparecido na paisagem, como um peixe na água. E, por isso, seria melhor dar mais atenção àquela frase duma voz inocente: "Sempre pensei em Molenbeek como estar em Marrocos..."

Porque a questão é essa: Molenbeek não é Marrocos. Sem desprimor, para um ou para outro, simplesmente isto: Molenbeek é um bairro europeu. Ou melhor, deveria sê-lo e, pelos vistos, não é. Pelos vistos, quero dizer, viu-se. Por exemplo, há poucos meses, quando a polícia belga fez buscas em Bruxelas à procura dos terroristas, os jornais internacionais publicaram a foto de um polícia e dois soldados, patrulhando uma das belas galerias do centro da capital (belga e, o que mais é, europeia). E as caras deles estavam tapadas! Homens da ordem, escondendo-se! Sinal tremendo da nossa fraqueza... Quem devia estar tapado, presumia-se, era Salah Abdeslam. Que, veio a saber-se, vivia no seu bairro.

Um bairro que, além de albergar um assassino, tem a semente dos que assassinam e, pior do que tudo, expõe de forma cruel a nossa fraqueza. E, nisso, Molenbeek é só o epítome - o mal, deles, e a fraqueza, nossa, estão espalhados pela Europa. Há quem os aceite, apesar de a causa que defendem ser indecente. Leiam, por favor, a reportagem do The New York Times que o DN publica, nas páginas 16 e 17 desta edição. As escravas sexuais no Estado Islâmico são obrigadas a tomar a pílula contracetiva só porque os terroristas têm de respeitar uma lei medieval: é pecado ter relações com uma mulher grávida... Eles, tudo; elas, gado. E, há um ano, no mesmo dia em que um vídeo nos mostrou as estátuas milenárias a ser destruídas em Mossul, no Iraque, amigos de Jihadi John - o degolador do Estado Islâmico - defenderam-no e louvaram-no, numa conferência de imprensa em Londres.

Ontem, boas almas escreviam no chão das praças de Bruxelas: "Paz". O falar é sempre para alguém: para quem era aquela mensagem? Havia também mulheres a desenhar: "Paz". A quem oferecem a outra face? Ainda não entenderam que não querem delas face nenhuma, querem ambas tapadas. E o presidente francês disse: "A Europa está em guerra." Soou a frase batida e vazia. Uma espécie de homenagem à capital da banda desenhada, dos Dupond e Dupont. A Hollande pareceu-nos seguir Hollante: "Eu diria mesmo mais, a Europa está em guerra."

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 01.03.16

Os primeiros meses de Costa - Freitas do Amaral

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Freitas do Amaral  Os primeiros meses de Costa

 

 

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Visão, 27 de Fevereiro de 2016

O imprevisto aconteceu: com as inevitáveis alterações que sempre resultam de qualquer negociação, a Comissão Europeia e o Eurogrupo aprovaram, pela primeira vez (desde a criação do euro), um orçamento social e não um orçamento neoliberal! Não há ninguém com coragem par ao dizer?

   Já não é surpresa para ninguém que Passos Coelho, mau a governar, foi bom a influenciar quase toda a comunicação social. Verdade seja que o mérito não foi só dele: a moda neoliberal, convertida em pensamento único, faz coro com Berlim e com Bruxelas, com o mesmo entusiasmo com que alinhava com a América de Bush e deprecia a de Obama…

Não é de estranhar, pois, que se leia e se ouça diariamente um coro de críticas e protestos contra António Costa, o seu governo e a maioria que o apoia. Passos dixit!

Considero útil apresentar na VISÃO – um raro bastião da liberdade de imprensa – uma análise alternativa.

Recordemos cinco momentos decisivos:

1. Eleições legislativas: PSD e CDS defenderam, até à exaustão, que as tinham ganho e, por isso, tinham o direito de governar. Não perceberam que este direito só pode ser exercido por quem tiver maioria parlamentar (quer de apoio, quer de não-rejeição). Protestaram vivamente contra um governo apoiado pela maioria de esquerda, e até lhe chamaram “ilegítimo”. Mas ele era tão legítimo, tão democrático e tão irrecusável que até o Presidente da República, contrariado mas cumpridor da Constituição, o nomeou e lhe deu posse!;

2. Eleições presidenciais: foram ganhas, e bem ganhas, por Marcelo Rebelo de Sousa. Não pelo PSD de Passos Coelho, que não queria Marcelo, nem pelo PS, que se dividiu inutilmente;

3. Últimas sondagens: a imprensa favorável a Passos apresentou o PSD e o PS como tecnicamente empatados, mas esqueceu-se de dizer, por um lado, que o PS sozinho já aparece à frente do PSD sozinho – o que significa que nada perdeu, e até começa a ganhar, com a sua aliança à esquerda; e, por outro, que a direita continua a valer apenas 40 por cento, enquanto a esquerda mantém os seus 60 (ou seja, nem o PCP, nem o Bloco, nem o PEV perderam eleitorado por causa da sua aliança com o PS);

4. Orçamento: a direita repete todos os dias que a proposta não presta, que as previsões são irrealistas e, até (pasme- -se), que há um “grande aumento de impostos” – isto dito pelos mesmos que, no governo anterior, decretaram um “enorme aumento de impostos”, o maior de sempre na nossa história financeira! E, é claro, os jornais, rádios e televisões seguidores do pensamento único garantiam-nos todos os dias que aquele Orçamento não passaria em Bruxelas. Contudo, o imprevisto aconteceu: com as inevitáveis alterações que sempre resultam de qualquer negociação, a Comissão Europeia e o Eurogrupo aprovaram, pela primeira vez (desde a criação do euro), um orçamento social, e não um orçamento neoliberal! Não há ninguém com coragem para o dizer?;

5. TAP: a direita achou por bem privatizar a TAP, coisa que muitos dos seus eleitores tradicionais detestaram. O PCP e o Bloco queriam a nossa companhia aérea cem por cento pública, o que era financeiramente inviável. O PS, discordando da privatização, também não concordou com a renacionalização integral. Afirmou sempre que o seu objetivo era repor o controlo estratégico da TAP nas mãos do Estado, sem prejuízo de a gestão da empresa continuar a ser privada. Precisou o Governo de recomprar mais de 50 por cento da TAP? Não. Nessa negociação, muito hábil e bem sucedida, aceitou os 50-50, mas ficando o Estado com voto de qualidade (ou de desempate) nas matérias de interesse estratégico. Brilhante!

Em resumo: nos cinco principais pontos de divergência entre os líderes dos maiores partidos portugueses, a vantagem, ao fim de dois meses e meio, vai em 4-0 a favor de Costa. Os que votaram nele têm razões para estar satisfeitos.

Que o Orçamento seja rapidamente aprovado, e venham depressa as medidas de carácter social – eis o voto de, pelo menos, 60 por cento dos Portugueses.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Domingo, 20.12.15

Mondo perdido - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Mondo perdido

 

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Chegada à Paz (Visão), 19 de Dezembro de 2015

No campo de refugiados há um rapaz que ajuda discretamente nas limpezas. Também é refugiado, só que não sabe.

   Mondo é o rapaz que limpa as casas de banho do campo. Reparei nele quando nos faltou e a sujidade se arrastou por três dias. Também é refugiado, mas não sabe. O problema é que, ao contrário dos que agora chegam, ele tem já quatro anos de história aqui, esquecido pelo mundo e pelas gentes, sem sonhos nem dignidade.

Quando, em 2011, as primaveras árabes incendiavam o norte de África e o Médio Oriente, chegaram-nos imagens de barcos sobrelotados de migrantes fugidos da guerra a dar à costa em Espanha, Malta e Itália. Mondo tinha vinte anos e apanhou um desses, que o levou da Tunísia até ao caos de Lampedusa.

Após doze horas de viagem numa modesta embarcação com mais de setenta pessoas, o combustível chegou ao fim e os migrantes ficaram perdidos no meio do mar. Um navio de pescadores cruzou-se no seu caminho e rapidamente se afastou, com medo daqueles olhares desesperados. Esperaram várias horas, até a polícia marítima italiana os resgatar e levar até à costa.

Na primeira semana, foi transportado de Lampedusa para Roma, onde permaneceu três dias, e dali passou para Bari. Contou-me que os migrantes eram deixados à sua sorte e autogoverno num edifício do Estado. Assistiu e sobreviveu a cenas de violência, à falta de higiene, a incêndios nos quartos, mortes e deportações. Um dia, conheceu um seu compatriota que seria deportado para a Tunísia na manhã seguinte. "Se quiseres sair deste centro", revelou-lhe, "tens de mentir, não há outra hipótese. Tens de dizer que és menor".

Mondo assim fez, fugido da sua terra em chamas, sem qualquer documento que o comprovasse, afirmou em tribunal que tinha apenas 17 anos, tendo sido logo encaminhado para uma "Casa-Família" em Lecce, lar que partilhou com tantos outros jovens na sua situação. Voltou a fazer o 9º ano, trabalhou em restaurantes a lavar pratos, arrumou carros e pediu dinheiro na rua. Quando fez 18 anos teve de abandonar a casa e fazer-se à vida.

Conta-me que viveu na rua e que conheceu as pessoas erradas. "Meti-me em problemas de que não tinha capacidade de sair". Um dia bebeu demais e invadiu uma casa. Quando a polícia o encontrou, disse que só procurava um sítio para dormir. Acredito que tenha omitido os verdadeiros contornos da história, com medo de perder a minha confiança, mas não quis interromper a sua narrativa. Em tribunal, foi condenado a seis meses de prisão. Cumpriu a pena e saiu em liberdade. Voltou a pedir nas ruas e, passado pouco tempo, voltou à prisão por roubar. Foi obrigado a abandonar o país.

Passou pela França, Alemanha e agora está na Bélgica. Sobreviveu de esmolas, sopa dos pobres, má vida, duches públicos e centros de acolhimento. Hoje tem 25 anos e vive numa casa abandonada com outros três "Sans Papiers", imigrantes ilegais, sem papéis, sem dignidade, sem família, sem sonhos, sem vida.

Quando, em setembro, o antigo campo de refugiados começou a crescer, Mondo passou por lá à procura de comida e roupas. Estava na Bélgica há pouco tempo e dormia na rua. Deram-lhe um lugar numa das tendas. Foi começando a ajudar, apanhou lixo e traduziu de árabe para francês. Com o encerramento do campo, passou diretamente a trabalhar aqui no Hall Maximilian e tornou-se, sem nunca ninguém o ter nomeado, no responsável da limpeza.

Quando cheguei, disseram-me para ter cuidado com ele, que era ladrão. Era esse o dia do seu aniversário. Veio apresentar-se, com um discurso sedutor, soube que ele falava italiano e escrevi "Parabéns Mondo" num papel com várias cores para lhe oferecer. Parti do princípio que não podia confiar nele, mas nunca o dei a entender. Muita gente ali o tratava com desprezo.

Defendi-o. Ou tínhamos provas e o mandávamos embora, ou o deixávamos ficar, sem lhe roubar o bocadinho de dignidade que ainda lhe resta. Comecei a perceber que ele levava comida e roupas na mochila, mas resolvi ficar calada. Um dia foi apanhado em flagrante e um dos coordenadores do campo chamou-o à parte. "Já há muito tempo que sei que vens aqui para roubar", disse-lhe, "sei bem as dificuldades por que passas, mas a nossa tolerância chegou ao fim e esta situação tem de acabar. Deixo-te agora duas hipóteses: nunca mais apareces e vais roubar para outro lado, ou te tornas digno de confiança e ficas connosco, vamos dar-te roupa e a comida de que precisares, amigos e uma família com que poderás sempre contar".

Mondo decidiu ficar. Uma vez por mês tem direito a escolher roupa e sapatos para si e, todas as semanas, o responsável da comida dá-lhe um saco de mercearias para ele levar para casa. É dos primeiros a chegar e dos últimos a sair, anda sempre com uma coluna portátil a tocar música e limpa o centro com um sorriso constante.

Tem os braços cheios de pequenos cortes. Quando reparei, explicou-me que não sabia por que o fazia, que simplesmente acontecia, quando estava mais revoltado. "Estes já são antigos. Desde que cheguei a Bruxelas, só o fiz uma vez", revela-me com o sorriso de sempre, "os mais profundos, fi-los na prisão em Itália".

A sua mãe vive na Tunísia. De cada vez que falam, pergunta-lhe entre lágrimas se ele consegue comer e implora-lhe para que nunca volte. Antes de fugir para a Europa, Mondo tirou um curso profissional de cabeleireiro, abriu o seu próprio salão na garagem de casa e lá trabalhou dois anos, até que a violência e a instabilidade levaram a família a fechar as portas, com medo de morrer no meio dos disparos. Usou o dinheiro que lhe restava para apanhar o barco em busca da liberdade e da paz. Em troca, deixou para trás todas as hipóteses de dar sentido à sua vida, para lá da sobrevivência.

Mondo é um filho da injustiça do mundo em guerra, que não distingue pessoas de números, um delinquente a quem nunca foi dada uma oportunidade de escolher o caminho certo. Talvez seja este o início de uma história mais bonita ou talvez o campo feche e Mondo volte a roubar, sem hipóteses de trabalho legal e de uma vida digna.

Um dia revelei-lhe que tinha medo do escuro. Riu-se muito, respondeu-me que não tinha medo de nada. "Na casa onde eu estou, não há eletricidade, daqui a umas horas o sol põe-se e eu volto para dormir, na total escuridão". "Mas não te preocupes", disse-me, "já estou habituado".

Apesar das dificuldades por que têm passado, os refugiados desta nova vaga não se viram ainda em situações de total perda de esperança no mundo que habitamos. Abandonaram os seus países há pouco tempo, têm tido cama, roupa e comida, ainda não precisaram de pôr os seus princípios de lado. Precisam de ajuda e de recomeçar, mas na via da legalidade. Espero que os Estados europeus o percebam a tempo e que não os deixem cair. Que lhes deem espaço para a integração, para participarem na nossa sociedade e economia como iguais. Que o trabalho seja mais eficaz do que aquele que foi feito com o meu amigo Mondo, o miúdo ilegal.

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 24.11.15

Vazio e medo em Bruxelas - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Vazio e medo em Bruxelas

 

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Chegada à Paz (Visão), 23 de Novembro de 2015

É urgente pensar no que se vai fazer aos refugiados. Agora evitamos a fome e protegemo-los do frio. Amanhã vai ser preciso deixá-los juntar-se a nós e abrir portas para que encontrem o seu lugar no mundo.

   Hoje não há sol em Bruxelas, as ruas estão desertas, o país está em alerta máximo por ameaça iminente de um ataque terrorista e a única coisa que mexe são as gotas da chuva que me caem na ponta do nariz. Há militares e polícias imóveis a cada esquina, tanques nas avenidas sem gente, sem luzes e sem comércio. O céu cinzento condiz com as caras dos poucos que por aqui passam, tal como eu, a tentar manter a normalidade.

Não há metro e os autocarros estão apinhados, tipo lata de sardinhas, e de vidros embaciados. Não há supermercados, nem lojas, nem museus, nem turistas, nem confusão, nem os bêbados das seis da tarde. Há grades e portas fechadas a sete chaves. Vejo cinzento e verde seco, caras sisudas e sirenes barulhentas que rompem o silêncio do medo. Será este o ambiente da guerra? Que história tão triste.

Antes de tudo isto, estive várias vezes a trabalhar em Molenbeek, o bairro esquecido da cidade de Bruxelas e que, por isso mesmo, agora é famoso. Aquilo a que os jornais chamam "fábrica de jihadistas" é uma zona onde muitos imigrantes árabes encontraram uma comunidade com algum sabor a casa. Sem oportunidades, sem igualdade, com pobreza e desemprego, num apartheid de consentimento mútuo. Tanto os recém-chegados encontraram familiaridade num bairro de maioria árabe e, por isso, decidiram fixar-se ali, como o Estado belga os terá deixado excluídos, discriminados, no seu cantinho da cidade.

Molenbeek é uma personificação a céu aberto, para quem quiser visitar, do falhanço europeu na integração efetiva das suas comunidades de imigrantes. Com 40% de população jovem, pelas suas ruas cheias de cores e cheiros exóticos passeiam rapazes sem trabalho, sem escola, sem dinheiro e sem perspetivas. Sem futuro. Nasceram cá, mas na casa errada. Sentem a injustiça e a revolta num quotidiano vazio. Não têm nada que fazer e, o que mais assusta: não têm nada a perder.

É neste bairro que se situa o depósito de doações do campo de refugiados, é para lá que toda a roupa e comida são encaminhadas, triadas e organizadas, para depois serem distribuídas no Hall Maximilian. Precisam muito de ajuda e, quando tinha menos trabalho, passava por lá para dar uma mãozinha ao meu colega Gille, o coordenador da incansável equipa que se ocupa daquele caótico armazém. Pude constatar que era um bairro pobre, mas nunca ninguém me deu razões para ter medo. É um bairro de maioria árabe, como tantas outras ruas e praças em Bruxelas. Como aquela em que eu vivo.

Na semana passada, estava no elétrico a escrevinhar qualquer coisa no meu caderno, quando entrou um homem de barba comprida e se sentou à minha frente, a falar ao telefone. Como comecei a aprender árabe com os refugiados, pus-me discretamente a ouvir, para ver se apanhava alguma coisa. O homem terminou o telefonema e começou a falar comigo. Perguntou-me o que é que eu escrevia, se era um diário e se eu descrevia a minha viagem até casa. Apressou-se a dizer que estava a brincar, mas respondi-lhe que estava a escrever um artigo. Admirado, respondeu: "Muito bem, pode então escrever aí que acabou de conhecer um marroquino de Molenbeek, está a ver onde é? Um bairro muito falado, nos últimos dias, infelizmente pelos piores motivos. Também sou muçulmano e venho de lá, mas não tenha medo de mim".

Ri-me, à falta de uma resposta melhor, "claro que não", disse-lhe. "Devo dizer-lhe, menina, que, por vir de lá, sei muito bem qual é o problema. Escreva se quiser. Os jovens são filhos de imigrantes, muitos deles marroquinos como eu, mas nasceram cá. Se forem para Marrocos, são estrangeiros. Se ficarem na Bélgica, estrangeiros são. Não fazem parte de nenhuma pátria, não sentem pertença a lado nenhum. Não têm valores a que se agarrar. Não têm educação, abandonam as escolas cedo e não há ninguém que os demova. Sentem-se discriminados, injustiçados. Não têm hipóteses de trabalho, nem dinheiro, nem casa própria, carro, namorada... Nada. Eu estou lá, eu conheço muitos jovens assim e tenho medo por eles. Estão perdidos, revoltados e são presas fáceis para os que querem espalhar o mal. Basta um discurso bonito e apelativo, uma família que lhes prometa acolhimento e inclusão e estão prontos para dar a vida, depois de lhes oferecerem uma", conta-me. "É triste vê-los partir por uma causa que nada tem a ver com o Islão". É triste, mais uma vez concluo, não terem nada a perder.

Desisti de escrever sobre o assunto que tinha em mãos e segui o conselho daquele senhor. Agradeci-lhe por me ter abordado e pedi-lhe que não deixasse de contar a sua história. "As pessoas precisam de saber isso, precisamos todos de refletir e, só assim, alterar o rumo das coisas", disse-lhe, antes de sair para o frio da cidade.

Depois daquele encontro, percebi que nada é mais pertinente na questão em que me debruço, a crise de refugiados, do que falar em integração. A Europa falhou e o "Estado Islâmico" ganha terreno, entre aqueles que nós não conseguimos acolher. Temos cada vez mais medo e estamos, infelizmente, cada vez mais próximos do drama de que os refugiados fogem. O melhor seria cortar o mal pela raíz e promover a união pela força, opondo-nos ao terror que se aproveita das brechas da nossa sociedade.

Hoje o ambiente é de guerra, de vazio e medo. Há uma metralhadora a cada virar de esquina, a tensão sente-se no ar e nas praças desertas, nos olhares dos poucos proprietários corajosos que resolveram abrir os seus cafés e agora fixam o infinito assustador, através das montras. "Eles conseguiram", não me sai da cabeça. Temos medo, temos terror, temos frio. A cidade parou. Molenbeek está no mesmo sítio, tal como a majestosa Grand Place, agora cercada por militares. As ruas e praças estão lá também, tristes e vazias. O Primeiro-Ministro veio pedir às pessoas que ficassem em casa, mas não tenho televisão e andei por aí, por isso só soube ao fim do dia.

O campo de refugiados do Hall Maximilian fechou, os serviços mínimos estão assegurados, há uma equipa que distribui sanduíches, roupas e cobertores do lado de fora. Quando lá cheguei, disseram-me para voltar para casa e esperar por atualizações, que estavam a tratar de tudo com um número reduzido de voluntários. Vamos lá ver como isto evolui.

Uma nova insegurança surgiu no meu pensamento: a de a situação se inverter. Já vários campos de refugiados foram alvos de atentados na Europa, às mãos de um extremismo xenófobo que usa o mesmo veículo para crescer. O medo. Mas não nos deixemos consumir por ele, só temos de nos proteger. Por agora fico em casa, a ver o que acontece.

Devemos estar preparados para o perigo de um crescimento da desconfiança e da xenofobia, sem perder motivação e energia. Se a inserção social dos refugiados já não parecia fácil no contexto da semana passada, neste momento, a dificuldade cresce a cada minuto de silêncio das ruas de Bruxelas.

Aproveitemos esta triste oportunidade para ponderar as políticas de integração. Os motivos de muitos dos jovens europeus que se juntam ao "Estado Islâmico" vão muito para além da religião, tal como me disse o marroquino do elétrico.

É então hoje, mais do que nunca, urgente pensar no que se vai fazer à gente que chega, aqui refugiada, à espera de uma vida. Agora evitamos a fome e protegemo-los do frio, amanhã vai ser preciso deixá-los juntar-se a nós e abrir portas para que encontrem o seu lugar no mundo. Manter a esperança de que Europa não é só sinónimo de paz frágil, mas também de pertença e de inclusão. De união.

Orgulhamo-nos das nossas liberdades e direitos, mas não queremos partilhá-las com quem não as tem. Acredito que não devemos subestimar o choque cultural, mas também que este, quando ultrapassado, nos tornará a todos mais ricos, mais sábios e cosmopolitas. Mais capazes e mais fortes, com mais vontade de preservar aquilo que é nosso. A nossa paz e harmonia é feita de pessoas que se sentem a fazer parte, de pessoas com casa, trabalho, vida e história. Pessoas resolvidas e incluídas. Que têm algo a perder.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Domingo, 15.11.15

O frio que todos sentimos - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  O frio que todos sentimos

 

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Chegada à Paz (Visão), 14 de Novembro de 2015

Hoje, há pessoas a dormir na rua, que passaram o dia em filas para ouvirem dizer que se tinha acabado a comida, as camas, as roupas, o direito de asilo, a esperança e a paciência

   Este homem acabou de chegar. Chama-se Ahmed. Conseguiu acolhimento na Cruz Vermelha, mas está muito nervoso porque ficou num quarto sozinho com desconhecidos e a sua mãe e irmãs foram colocadas noutro, onde também dormem homens. Ele tem medo, mas peço-lhe que seja compreensivo. O caos está à vista de todos, os dias estão cada vez mais frios e difíceis de passar. Caiu a noite e o importante, agora, é que todos tenhamos um teto e um cobertor. Ao amanhecer as prioridades serão outras, logo se vê.

Ahmed tem 31 anos e era soldado no exército iraquiano, quando o tentaram assassinar e acabou ferido numa perna. Passado pouco tempo, partiu para a Turquia com a mãe e duas irmãs mais novas. Trabalhou, durante seis meses, para ganhar dinheiro e pagar o resto da viagem. Foram de barco até à Grécia e de autocarro para a Macedónia, tendo parado ali uma semana, porque ele não conseguia caminhar.

Mais à frente, no meio da multidão que percorria a estrada entre a Sérvia e a Hungria, perdeu a irmã, de 23 anos. A rapariga apareceu, três dias depois, no hospital, vítima de um acidente de que não se recorda. Esperaram que ela recuperasse e apanharam um táxi até à Áustria. Ali, estiveram presos durante sete dias. Foram então encaminhados para um centro, em que seriam registados os seus dados e impressões digitais, mas conseguiram aproveitar uma distração do funcionário para escapar e correr até à estação mais próxima, onde apanharam um comboio para o Luxemburgo. Se se tivessem registado teriam que ficar na Áustria. Aquele não era o seu destino: para além dos entraves legais que são colocados ao pedido de asilo, a estada na prisão mostrou-lhes que não queriam lá ficar.

Gastaram nos bilhetes o último dinheiro que tinham. Em desespero, Ahmed pediu ajuda num grupo do Facebook, em que os refugiados vão trocando informações e pedidos: precisava de um transporte para a Bélgica. A resposta não tardou, um homem contactou-o, oferecendo-se para os levar de carro, mas, à hora combinada, exigiu ter sexo com uma das irmãs. Envolveram-se numa briga e Ahmed levou uma facada.

Encaminharam-se para o hospital e, há males que vêm por bem, o seu principal problema foi resolvido: preferiram "livrar-se" de Ahmed, não o atender e levá-los a todos de ambulância para a Bélgica. Chegando a Bruxelas, deixou a mãe e irmãs na fila e foi tratado pelos Médecins du Monde. Está incomodado com a questão dos quartos, mas aliviado por aqui estar. A viagem chegou ao fim e a sua família está a salvo. Amanhã vou tentar ajudá-lo, prometo, e desejo-lhe uma noite descansada.

São nove da noite e estou sentada em frente à Cruz Vermelha. Tenho frio, mas quero desenhar um retrato à vista, longe do conforto do sofá de minha casa, onde posso descalçar as botas, respirar fundo e deixar de ser forte, estar triste à vontade, detestar o mundo. Aqui, posso limitar-me a descrever a dura realidade que observo, sem interrupções, do passeio em que me sento, do outro lado da estrada.

À entrada do grande edifício da Cruz Vermelha, há uma fila de refugiados que esperam ainda por um local para dormir. Quando aqui passei, ao fim da manhã, contavam-se mais de quatrocentas pessoas, numa serpente sem fim. Sacos de plástico e malas cheias de recordações, homens, mulheres e crianças, expressões de desespero e cansaço, olhos tristes, algumas carinhas alegres, principalmente entre rapazes da minha idade, sempre numa espera mais leve, com mais energia e poder de encaixe. Agora vejo uma fila com menos de cem homens. Melhorou, é positivo, mas não chega.

Embrulhados em cobertores cinzentos, mais de uma dezena de refugiados já desistiu e veio dormir na relva atrás de mim. Há um casal deitado em cima de uma mesa de piquenique, como se fosse um beliche, com as crianças por baixo. Outras pessoas dormem encostadas à parede do edifício, à procura de calor.

Nos últimos três dias, chegaram cerca de mil novos refugiados a Bruxelas. A situação está cada vez mais grave, o governo não intervém e os meios de que dispúnhamos no Hall Maximillian tornaram-se insuficientes, os espaços, os serviços, a comida e as roupas escasseiam e é possível observar que até os voluntários estão a ficar cada vez mais ansiosos, menos serenos. Esta realidade era já esperada, sabíamos que a situação só estava "controlada" por pouco tempo.

Desde que escrevi aqui pela última vez, recebemos uma avalanche de pessoas que exigiu de todos nós o triplo da organização e das horas de trabalho, na procura de espaços para as alojar, na distribuição de comida, esperança e cobertores.

Inicialmente, os refugiados foram divididos por três espaços públicos, onde dormiriam no chão, mas protegidos do frio. Separámo-nos em equipas e eu fiquei numa estação de comboios, a famosa Gare du Nord. Depois de fechar o Hall Maximilian, encaminhámo-nos para lá com um grande grupo de afegãos e sírios, distribuímos sopa, sanduíches e mantas. Passado pouco tempo veio a polícia, pediram-nos para retirar toda a gente, porque a estação tinha de fechar durante a noite. Dormiram ao ar livre e isso tirou-me o sono.

Nos dias seguintes, foram enviadas mensagens a todas as famílias belgas que antes receberam refugiados, a pedir uma ajuda de emergência. Neste momento, o meu amigo Mohamed acaba de chegar de uma igreja aqui perto. Foi lá deixar cinco famílias. Outras foram levadas para a universidade e as pessoas que restam ainda estão aqui à porta. Talvez a Cruz Vermelha arranje camas para mais umas dezenas.

Entre uma solução e outra, só hoje consegui ter tempo para escrever. Espero na próxima semana poder organizar-me melhor, mas os últimos dias e noites foram difíceis de viver. Desejo ansiosamente que os Estados europeus se mobilizem para tomar decisões sérias, o inverno é rigoroso e os nossos esforços serão insuficientes. A esperança que tenho é alimentada por todos aqueles que encontro com vontade de ajudar. Somos muitos e temos energia e ideias, mas pouco mais.

Hoje, há pessoas a dormir na rua, que passaram o dia inteiro em filas, para que finalmente chegasse a sua vez e lhes dissessem que tinham acabado os atendimentos no centro de imigração, a comida, as camas, as roupas, o direito de asilo, a esperança e a paciência.

A pequenina Tere aperta a minha mão com força. Está divertida a mergulhar as galochas nas folhas secas caídas das árvores, não percebeu bem o que se está a passar. Ainda bem. Já não escrevo mais porque a tenho ao colo, não me posso envolver demasiado, tenho de manter a distância, não posso perder a serenidade, mas não consigo conceber a hipótese de ela dormir na rua. Voltei para casa quando os pais a chamaram e me deu um beijinho à pressa. Conseguiram um lugar na Cruz Vermelha.

O cansaço cresce entre todos os que trabalham comigo. As emoções são fortes, o trabalho é duro, se não fosse a esperança e a solidariedade que vivemos, não sei como faríamos, refugiados também nesta realidade paralela, de mãos atadas numa Europa de olhos fechados.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 03.11.15

A Espera e a Esperança - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  A Espera e a Esperança

 

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Um mês, dois, cinco meses de entrevistas para receber asilo. Ou não receber e ficar clandestino, porque ninguém deveria ser devolvido à guerra. Espera e ansiedade no campo de refugiados. 

 

Chegada à Paz (Visão), 2 de Novembro de 2015

 

   Tenho um grande amigo aqui, um companheiro que fala muito bem inglês e anda comigo para todo o lado, a fazer de intérprete. O Geil tem vinte anos, transferiu-se para Bruxelas com a família, quando tentaram assassinar o seu pai, um oficial general no exército iraquiano. Contou-me que, dias antes de partir, prometeu a uma menina, a troco de um beijo, que se casaria com ela quando acabasse os estudos. Não pôde cumprir a palavra, mas consegue rir-se disso. "Pode ser que depois disto tudo, quando eu tiver papéis, uma casa e uma vida, alguma miúda se queira casar comigo". Eu quero muito dizer a verdade ao Geil, mas deixo a verdade para depois da espera e digo-lhe que vai conseguir ter isso tudo. Pode ser que até lá a verdade mude.

Porque agora, as hipóteses de um futuro para Geil são muito poucas. Se viesse da Síria, era mais fácil.

Pendurados no balcão, de olhos brilhantes, curiosos, e uns primeiros sinais de barba tão próprios da idade que têm, um grupo de cinco rapazes tenta interagir comigo, com o obstáculo da falta de prática em inglês - e em meninas. Acabo por lhes facilitar a vida metendo conversa, nomes, idades, de onde vêm, e eles ali ficam, com risinhos nervosos, a contar-me as suas histórias.

Tenho de voltar ao trabalho e eles vão dar uma volta. Passado um bocado, voltam menos sorridentes: não têm onde dormir. Faço de mãe e ralho com eles, mas com o sorriso de sempre. "Então só agora é que me dizem? Vão imediatamente à Cruz Vermelha!". Mandei-os comer qualquer coisa e pedi ao meu colega Mathieu para os acompanhar. Os menores de idade nunca ficam na rua, para eles há sempre solução. O problema são os outros.

Todas as noites, perto da hora de fecho do centro, um grande grupo de pessoas espera ansiosamente a chegada da Lou ou da Sara, dois anjinhos de cabelo loiro e olhos azuis. São elas quem trata de arranjar um sítio para quem não teve direito ao acolhimento nos edifícios estatais, nem na Cruz Vermelha. Ao longo do dia, vou sendo abordada por pessoas com a mesma aflição: não ter onde dormir. A resposta é sempre a mesma: não há problema, só têm de ficar por perto, comer e descansar, eu registo os nomes e, por volta das oito, alguém há de vir para resolver a questão.

A Lou e a Sara são responsáveis pelos contactos com as famílias e instituições que acolhem temporariamente refugiados em situações de desespero. O centro de imigração abre apenas nos dias de semana, o que significa que quem chegar a Bruxelas fora desse horário fica dependente de um abrigo provisório, quase sempre garantido pela Cruz Vermelha, pela universidade ou por uma família belga. É difícil querer ajudar toda a gente e ter de seguir regras. As famílias com crianças têm sempre prioridade. Por vezes, há mesmo quem acabe a dormir na rua, por impossibilidade de distribuir toda a gente. É disso que mais me custa esquecer, todas as noites, quando me obrigo a um processo de abstração, no caminho de bicicleta até casa.

À chegada à capital belga, todos os refugiados devem dirigir-se ao centro de imigração, nos dias úteis e no horário de expediente, para a recolha de impressões digitais. Neste momento é marcada uma primeira entrevista, é-lhes designado um local para dormir até lá e recebem roupa e produtos de higiene. Mas se, por exemplo, uma família chegar numa sexta-feira à tarde, terão de se socorrer do nosso serviço de alojamentos para passar o fim de semana numa casa e, segunda-feira, se poderem apresentar no tal escritório.

Após a primeira entrevista, os refugiados têm de esperar pela convocatória para uma segunda. Dependendo do caso, poderá existir uma terceira entrevista e até uma quarta. Todo este processo dura à volta de seis meses. Seis meses de ansiedade. As entrevistas são marcadas e, em cima da hora, adiadas para daí por um ou dois meses. O tempo de espera pode ser superior a quatro ou cinco meses e todas estas pessoas ali estão, todos os dias, no meu balcão, a ver passar o tempo.

Ainda assim, devemos pensar que estão melhor aqui do que nos países de onde vêm e que esperar em paz já é muito bom. Uma mãe de família iraquiana, que partiu sozinha com os filhos para a paz na Europa, explicou-me que “pior do que morrer, é esperar pela morte” na terra da guerra.

No fim das entrevistas, os refugiados deverão aguardar, por tempo incerto, uma resposta positiva ou negativa. Durante toda a burocracia, vivem em edifícios disponibilizados pelo Estado, espalhados pela Bélgica, deslocando-se a Bruxelas para cada fase do processo de asilo. No Hall Maximilian, temos tradutores, advogados e assistentes sociais que trabalham como voluntários para os aconselhar e acompanhar, tentando tornar tudo mais fácil e rápido.

Se a resposta for negativa, estes refugiados terão de abandonar o espaço Schengen, ou esperar mais uns meses para pedir um recurso e recomeçar o processo.

É nesse momento que começa o seu drama de Sans Papiers, homens e mulheres de todo o mundo, a quem não foi concedida uma nova vida, uma oportunidade de recomeçar, e que obviamente não podem voltar para as suas terras. Dormem nas ruas, errantes, sem solução de futuro, nem solução de presente. Muitos deles trabalham aqui no centro como voluntários, em troca de comida e também de uma "família", que somos nós. Há algumas associações na cidade que os acolhem, mas a incerteza é avassaladora para quem vive nesta situação.

O que mais me custa é saber que, por agora, é quase impossível obter o direito de asilo para todos aqueles que não vêm da Síria. Não é regra escrita, mas é a realidade. Lá, a guerra é efetiva, para não dizer "oficial", e talvez, por isso, a Europa sinta maior responsabilidade. No Hall Maximilian, tenho amigos sírios, mas também iraquianos, palestinianos, afegãos, paquistaneses e ugandeses. Todos estes países têm instabilidade e violência, todas estas pessoas deixaram os seus lares por causa do mesmo desespero, da mesma falta de alternativa, todas por uma questão de sobrevivência. Todas estão a passar pelo processo de entrevistas, algumas já pela segunda vez. A minha tarefa é tentar transmitir-lhes esperança. Sorrio sempre. Acompanho-os nesta espera. E adio a verdade, à espera que a verdade mude.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sábado, 31.10.15

Miúdos como os nossos - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Miúdos como os nossos

 

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Uma criança, é uma criança, é uma criança.

 

   Chegada à Paz (Visão), 30 de Outubro de 2015

   Hoje, o pequenino Ahmed venceu a timidez e veio perguntar-me o meu nome. Há uma semana só abanava a cabeça, quando me metia com ele, enquanto se escondia atrás do tio. Já fala francês, aprendeu aqui no centro com a professora Cécile, e estava cheio de vontade de me mostrar. Com um grande sorriso, continua a conversa, dizendo-me o seu nome, que vem da Síria e gosta de jogar futebol no parque. Tem 8 anos. Elogiei-o e fiz uma apresentação do mesmo género, disse-lhe de onde vinha, nome, idade, e que gostava de desenhar.

Desenhei vários animais e ensinei-lhe os seus nomes. Pegou na folha e repetiu-os, contente. Omar, 6 anos, veio juntar-se a nós, intrigado, e ergueu a mãozinha muito esticada para que eu lhe desse "mais cinco". Riu-se muito, puxou a fita que me prendia o cabelo e desatou a correr com ela na mão, maroto. Fui atrás dele, quando o apanhei, virei-o de pernas para o ar e pu-lo a rodopiar. "Ai ai ai", disse-lhe. Passou o resto do dia a repeti-lo. Passava por mim, com um sorriso reguila, puxava-me o braço e dizia "Adriana, ai ai ai".

As crianças dão cor e alegria ao centro de refugiados do Hall Maximillian. É paradoxal o que sinto: custa-me vê-los, tão pequeninos, nesta situação de vida, mas também me alegra constatar a facilidade com que se adaptam a novos ambientes, o facto de não terem memórias longas e a espontaneidade com que se riem de uma brincadeira qualquer.

Afinal, para uma criança, a vida é uma novidade. Não falamos a mesma língua, mas podemos passar horas a rir, a brincar e a comunicar, sem palavras. Talvez não saibam o que significa ser refugiado, apesar de o sentirem, eu isso vejo. Têm uma perceção do exterior mediada pelos sentimentos dos adultos que cuidam deles, sendo assim tocados pela incerteza, instabilidade e insegurança.

Este tempo será de certeza mais fácil para as crianças que viajam em família. Nem quero pensar no que sentem os muitos que foram separados dos pais, entregando-se a outros colos que os trouxeram até aqui, em nome da sobrevivência. Quero acreditar que com imaginação e vivacidade, a sua integração será mais fácil. Como também dará força, cor e esperança aos adultos que com eles caminharam para a paz. Isso vê-se já, aqui no centro.

Tenho observado com interesse que grande parte das doações que chegam ao centro são artigos para crianças. Brinquedos, material de desenho, livrinhos, roupas, carrinhos de bebé e fraldas, para além de sacos de guloseimas e bolachinhas. As pessoas tendem a proteger os mais pequenos, as crias, como se também fossem suas. Ainda bem. Com as crianças é tudo mais fácil, até a solidariedade. Não só são indefesas, como não têm idade para "ter culpa". Ninguém desconfia de que são terroristas, ninguém as vê como ameaças aos nossos empregos, nem sequer têm uma religião diferente. Podemos por isso ser naturalmente solidários e soltar o nosso instinto inconsciente de salvar aqueles que asseguram a continuidade da espécie. Só espero, no entanto, que não nos esqueçamos de que cuidar das crianças é cuidar das suas famílias, que são essenciais ao desenvolvimento e bem-estar destes miúdos fugidos da violência.

O ambiente aqui no centro é emocionalmente confuso e conto com os mais pequenos para manter alguma normalidade e alegria. Hoje, ao fim da tarde, fruto da acumulação de emoções fortes, fome, cansaço, frio e desconforto, houve um desentendimento entre dois homens. Começaram a ouvir-se gritos na casa-de-banho e muita gente se juntou à volta deles para observar a briga.

Corri para ir buscar as crianças, muita violência já elas viram, levei-as para o meu balcão e distribuí sacos de pipocas. Atilhos desatados, mãozinhas afundadas naquela textura agradável e desvaneceram-se as caras de choque, com que fui encontrá-los a todos.

Os sorrisos estavam de volta. Omar lembrou-se logo de atirar pipocas às pessoas, fazendo todos os outros rir. Quando chegou ao fim do pacote, as suas mãos pequeninas não conseguiam recolher as últimas migalhas. Mandei-o abrir a boca e virei o saco ao contrário. Adorou a ideia, pegou nos saquinhos dos outros meninos e tentou despejá-los da mesma forma, fazendo chover pipocas por todo o lado.

Ao fim do dia, a princesinha Aisha, de 2 anos, presenteia-nos a todos com uma grande birra na casa das roupas. Quer escolher ela. A mãe, de bebé ao colo, está evidentemente cansada e desiste. Eu deixo a filha mexer em tudo à sua vontade. Muitas manhãs, quando eu tinha esta idade, a minha mãe passava por tormentos assim. Mesmo com a roupa já escolhida na noite anterior, eu mudava de ideias e só queria vestidos ou t-shirts cor-de-rosa. Depois de uma longa negociação, lá chegávamos atrasadas à escola e ao trabalho. Somos todas iguais.

Aisha sai, já no carrinho, com uma mochila da Hello Kitty, meias cor-de-rosa e uns sapatinhos de princesa, de aspeto altamente desconfortável. Da secção das roupas até à saída do centro, apanhei do chão e voltei a calçar-lhe os sapatos cinco vezes. Tenho a certeza de que não chegou calçada ao sítio onde passam a noite, mas é capaz de ter adormecido pelo caminho.

Um pai iraquiano apresentou-me hoje a sua linda filha de cabelos encaracolados. A menina debruçou-se do colo para me abraçar. “Falas inglês?”, perguntou-me o homem. Quando lhe disse que sim, riu-se muito. “Eu não. Só falo árabe”. Um outro refugiado aproxima-se para traduzir e peço-lhe que lhe diga que a menina é muito bonita. “Tem três anos. Ele pergunta se a queres adotar”. Rio para não chorar e digo-lhe que não posso, que as meninas bonitas têm de ficar com os seus pais. Dá uma grande gargalhada e enche a filha de beijinhos. Fiquei sem saber se ele estava a falar a sério.

Neste sítio onde a esperança é a última a morrer, acabamos todos por ser pais e filhos uns dos outros.

 

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por Augusta Clara às 14:00



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