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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 09.03.16

Europa: deitem abaixo essas cercas - Gauri van Gulik

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Gauri van Gulik  Europa: deitem abaixo essas cercas

 

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Público, 7 de Março de 2016

 

A velha Cortina de Ferro mantinha as pessoas dentro, a nova mantém as pessoas fora.

 

   A 5 de Março de 1946, no ginásio de uma pequena faculdade do Missuri, Winston Churchill avisou: "De Estetino no Báltico a Trieste no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente". Passados 70 anos desde que Churchill fez aquele discurso, uma nova cortina de ferro está a estender-se na Europa. Feita de arame farpado e de políticas de asilo falhadas. Pode ser vista nos enclaves espanhóis de Ceuta e de Melila no Mediterrâneo e em Idomeni, no Norte da Grécia, onde na semana passada a polícia anti-motim da Macedónia disparou gás lacrimogéneo contra famílias de refugiados desesperados que tentavam passar a fronteira da Grécia.

A velha Cortina de Ferro mantinha as pessoas dentro, a nova mantém as pessoas fora.

Os Estados membros da União Europeia construíram mais de 235 km de cercas nas fronteiras externas da UE: entre a Hungria e a Sérvia, Grécia e Turquia, Bulgária e Turquia, e, na semana passada, entre a Áustria e a Eslovénia. Países vizinhos como a Turquia tornaram-se em guardas fronteiriços da Europa, forçando migrantes e refugiados a recuarem, às vezes disparando contra eles.

Com quase todas as fronteiras terrestres da Europa seladas, mais de um milhão de refugiados e migrantes que se lançaram rumo à Europa em 2015 arriscaram a vida nas travessias por mar. Mais de 3770 pessoas morreram a tentar atravessar o Mediterrâneo em 2015, e mais 410 morreram já este ano. São vítimas directas da nova Cortina de Ferro da Europa e do que ela representa: a Fortaleza Europa. Em contraste, 138 pessoas morreram a tentarem passar o Muro de Berlim ao longo dos 28 anos em que este existiu.

Para aqueles que conseguem sobreviver à travessia, o sofrimento está longe de chegar ao fim, antes têm frequentemente de caminhar durante dias a fio, viajando através de numerosos países, a dormir ao relento, ao frio, até alcançarem a segurança num país com um sistema de asilo que funciona.

A Amnistia Internacional entrevistou refugiados em fuga da guerra e da perseguição no Afeganistão, na Eritreia, no Iraque e na Síria. Preferiam não ter partido das suas casas, mas a maior parte teve de fugir para salvar a vida.

Como nos disse um homem oriundo do Afeganistão, sentado na Praça da Vitória, em Atenas, junto com a mulher grávida: "A minha família foi ameaçada pelos taliban. A minha mulher está grávida de oito meses. Não temos escolhas nenhumas... não sabemos o que nos vai acontecer a seguir".

É por isso que a nova Cortina de Ferro da Europa é tão irreflectida e de improvável sucesso como o foi a antiga. Enquanto houver violência e guerra, as pessoas vão continuar a vir. Até pode parecer que fechar fronteiras é uma resposta forte e firme dos políticos, mas verdade é que é ingénua e falta-lhe visão.

Sem dúvida que os números de pessoas a chegarem à Europa são altos. Mas apesar da retórica sobre "enxames" usada pelos políticos, o facto é que a Europa está a esquivar-se às suas responsabilidades internacionais, debilitando a Convenção sobre os Refugiados e deixando países mais pobres a carregar o peso da crise de refugiados. A verdade é que 85% dos 20 milhões de refugiados que existem no mundo vivem em países em desenvolvimento.

Governos totalmente dissociados de muitos dos seus próprios povos, os quais querem que os refugiados sejam bem acolhidos, andam a jogar à política do medo. Falam em "defender" as fronteiras mesmo quando estamos a ver famílias inteiras com pessoas de todas as idades, de bebés a idosos, nas costas da Europa.

Tal como com a antiga Cortina de Ferro, as cercas e muros de hoje são um sinal de políticas falhadas. E isto está a criar uma crise humana na Grécia, agora mesmo. Enquanto não existem soluções estruturais iminentes, a Europa está a pressionar os países dos Balcãs a fecharem aquela rota. Os países dos Balcãs estão a encerrar totalmente as suas fronteiras ou a abri-las só a sírios e iraquianos. Com o sistema de relocalização de refugiados da Grécia para outros países da UE a funcionar pouco e mal, aquele país está a transformar-se muito depressa numa armadilha, deixando dezenas de milhares de refugiados encurralados em condições de desespero e sem nenhuma informação sobre o que lhes vai acontecer.

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 16.03.13

Um oásis imune à crise - José Goulão

 

 

José Goulão  Um oásis imune à crise

 

   Na Europa asfixiada pela crise há um oásis, um país exemplar, um lugar que não precisa de troika porque já cumpriu as metas sentenciadas pela troika, a terra que não preocupa Berlim e Bruxelas e, sobretudo, os mercados. Em suma, o melhor entre os bons alunos.

Dele pouco se fala, o que é uma injustiça. Como se alguém preferisse intoxicar a opinião pública sobrevalorizando os ...sinais de crise, escondendo, ao mesmo tempo, os lugares onde ela não entra. De tal maneira que até figuras ilustres como o Dr. Barroso, um dos vértices da troika, parece agora vulnerável a tal propaganda insidiosa declarando-se incomodado com as nefastas condições sociais que a sua austeridade espalha através do continente.

Apesar de tudo, o bom exemplo existe, está vivo e recomenda-se.

Ponham os olhos na Bulgária!

A Bulgária é o paraíso na Europa. Enquanto grandes, médios e pequenos países se esforçam para reduzir défices orçamentais para os mágicos três por cento e ousam até pedir mais tempo para o conseguir, o défice búlgaro já se situa abaixo dos dois por cento. Enquanto países como a Grécia, Portugal, a Itália e alguns outros se debatem com dívidas astronómicas, sempre a crescer, acima dos 120 por cento do PIB, a da exemplar Bulgária não vai além dos 16 por cento do PIB. Enquanto toda a Europa se vai afogando na recessão, a Bulgária, estoica aldeia de Astérix dos tempos que correm, resiste com a sua economia a crescer - apenas 0,5 por cento, mas a crescer.

O milagre búlgaro tem as suas contrapartidas, nada mais óbvio e natural. O salário mínimo não ultrapassa os 75 euros, cerca de seis vezes inferior ao de alguns dos países mais pobres; o salário médio, 350 euros, é bastante mais baixo que o salário mínimo na maioria das outras nações da União, incluindo as intervencionadas pela troika; metade da população vive na pobreza; mais de um milhão dos sete milhões de búlgaros tiveram que emigrar, uma diáspora sem fim à vista; o desemprego cresce agora a ritmos que até círculos governamentais de Sófia consideram preocupantes.

Soluções que estão a ser impostas na maioria dos países da União Europeia, como o congelamento de salários e pensões, a eliminação das funções sociais do Estado, a facilidade para despedir e a ausência de investimento público já se praticam há muito na Bulgária. O país teve a sorte de saltar da economia planificada para o neoliberalismo selvagem e absoluto, do Estado patrão para as mãos das máfias livres e prósperas, sem ter de se incomodar com pormenores democráticos suscetíveis de entorpecer o caminho para o milagre económico.

Na Europa existe um farol, uma luz que não conhece túneis. A União Europeia concluirá com êxito o seu processo de construção em curso quando todos os países membros forem Bulgárias. 

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por Augusta Clara às 08:00



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