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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 16.04.18

Les animaux de la Macronésie - César Príncipe

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César Príncipe  Les animaux de la Macronésie

 

 

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   Um tal Emmanuel Macron, o pauvre diable que se senta com ar de monarca no Eliseu, declarou ao Mundo e a Marte que tem provas do emprego de armas químicas pelo regime sírio. O garçon de bureau Rothschild dispõe de fontes autorizadas: os Capacetes Brancos, bandidos angélicos e evangélicos, que actuam como encenadores e delegados de propaganda médica no terreno dos terroristas; o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, com sede natural em Londres, donde jorram informações diárias para o planeta e – claro – possui os seus serviços de intelligence à la carte, aptos a fabricar evidências à medida de Colin Powell e em tempo oportuno. Macron finge que acredita em si mesmo e inventou a Macronésie, a fim de assegurar um lugar que se veja e uma voz que se ouça à superfície do globo. O pauvre, abarrotado de problemas sociais em casa, oferece-se ao rambo Trump para ir à caça ao leão pelas estradas e sobretudo pelos céus de Damasco. E Theresa May, a inventora do fármaco Skripal, disponibilizou-se como enfermeira de drones.

É esta a parelha que tenta pregar um susto à Rússia: a ex-Grande França e a ex-Grã-Bretanha. A França, com o pigmeu de tacão alto Sarkozy, foi até à Líbia assassinar o financiador; a Inglaterra, com a dama de ferro Thatcher, foi até às Malvinas e obteve meia vitória militar. E não poderão ir muito mais além. Em termos de definição global de forças, a França e a Inglaterra esgotaram o potencial hegemónico no séc. XIX. Mas parece não haver maneira de se capacitarem da sua condição: não passam de duas fantasias pós-imperiais. Chegaram ao séc. XXI com um superego que não corresponde às circunstâncias. Não são as exibições de circo mediático que repõem a paridade geo-estratégica. Por isso, tementes de uma dura ensinadela (quem vai à guerra, dá e leva) prontificam-se a servir os USA e deita-fora. Pouco ou nada arriscam sozinhos. Não vá o diable tecê-las.

A guerra, em 2018, não se ganha com fanfarronadas do roy-soleil de la Macronésie nem bestialidades do hooligan Boris Foreign Office. Ou será que ninguém os detém até que os seus países se evaporem num sopro? Poupem o Musée du Louvre e oNational Theatre, meus senhores! Segundo os experts do royal power, em caso de conflito nuclear, mesmo selectivo, estas duas ufanas e medianas nações gozam de dez minutos para se benzerem e encomendarem a alma a Joana d'Arc e a São Jorge. Compete aos franceses e aos ingleses com mens sana exigir, com carácter de urgência, o desterro do casal Macron-May. Merkel afastou-se da armada do bidão de cloro . Um ex-presidente, Hollande, acaba de lembrar ao sucessor que os franceses costumam decapitar os monarcas. O próprio Pentágono reconhece que não tem provas credíveis da pulverização. Anda no seu encalço. Só conhece o caso do animal Assad pela Imprensa e pelas ditas redes sociais. Mas Macron está na posse da verdade revelada. Mas May convoca o Conselho de Guerra. Mas multiplicam-se os avisos, os agoiros, as reticências. Se os USA acabarem por dispensar os guerreiros franco-britânicos, será que estes avançarão de peito feito às balas, aos mísseis, aos gases, à hecatombe, à capitulação?

De qualquer modo, devido ao perigo que representam para a humanidade, embarquemos Macron para os cascalhos da Córsega e May para os rochedos de Gibraltar. Estão carecidos de descanso e algum estudo. Um dos manuais poderá ser de etiqueta. Por exemplo, Como Deverá Comportar-se uma Fera sem Garras ante um Predador de Grande Porte. La Fontaine, se fosse nosso contemporâneo, editaria uma fábula à propos: Les Animaux de la Macronésie.

 

Nota, 13/Abr/18/10h10: O facto do texto ter sido redigido na véspera dos bombardeamentos da Síria, não invalida nem uma letra da denúncia e do alcance da fábula Les Animaux de la Macronésie. Primeiro: as forças franco-britânicas não passam de chiens de guerre dos USA. Segundo: a operação de terrorismo aéreo do triunvirato não se aventurou ao ponto de uma contra-resposta da Rússia. Terceiro: a tríade não esperou pela chegada a Duma dos especialistas da Organização para a Proibição de Armas Químicas/OPAQ, que conta com o sufrágio de 190 países (incluindo os atacantes), e estava prevista para o dia 14 do corrente. Os amigos da verdade adiantaram-se às conclusões. Já assim foi no Iraque: mandaram retirar do terreno os inspectores que procuravam e não encontravam as armas de destruição maciça que existiam nas irrefutáveis provas de Bush, Blair, Aznar e Barroso e nas ilustres cabecinhas do império mediático.

 

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por Augusta Clara às 04:06

Sexta-feira, 25.03.16

Alepopeia - César Príncipe

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César Príncipe  Alepopeia

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(Renato Gattuso)

 

 

Caem braços nos telhados

Rolam cabeças nos pátios

PiLares esmagam os ombros

Quem corre fica sem pernas

Quem chora fica sem olhos

É assim

É assim                                                            

É assim em Alepo

Pedras ensanguentadas são romãs

Come-se arroz de areia crepitante

As águas são bebidas pelo deserto

Resta uma lágrima por habitante

É assim

É assim

É assim em Alepo

Para ir à escola tropeça-se nos mortos

Para ir à igreja deixamos lá os corpos

É assim

É assim

É assim em Alepo

A electriCidade é avara e fugiDia

Só a esperança mantém a energia

E canta-se

E reza-se

Entre estrondos e ruínas

E os namorados gemem

Nas macas dos hospitAis

Receiam que o seu prazer

Ofenda a dor dos demAis

E jura-se

Vencer o ódio armado

Com dez milhões de pés

Com o rosto alevantado

É assim

É assim

É assim em Alepo

E só Alepo sabe

Impera a lei da bala

E governa o silêncio

Quem deu voz ao monstro

Cala a voz de Alepo

Quem armou o monstro

Montou o Grande Cerco

Só Alepo sabe

Alepo só existe

QUANDO PARIS ARDE

 

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por Augusta Clara às 16:05

Terça-feira, 08.03.16

Levante-se a ré - César Príncipe

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César Príncipe  Levante-se a ré

 

(Imagem de Adão Cruz)

 

   Máquina-máter Máquina-mártir Máquina-poedeira Máquina-batedeira Máquina-enfardadeira Máquina-yogurteira Há quem lhe chame Companheira Levante-se a ré Mulher-deitada Mulher-sentada Mulher-de-pé Mullher-deterGente Mulher-deCoração Mulher-obeDecente Mulher-matreira Há quem lhe chame Companheira Levante-se a ré Mulher-deitada Mulher-sentada Mulher-de-pé Mulher-sofá-cama Mulher-carrinho-de-rodas Mulher-cabide-de-modas Mulher-rabinho-de-freira Há quem lhe chame Companheira Levante-se a ré Escreve o seu nome com todas as letras Descuida a cabeça e cuida das tetas Levante-se a ré No Dia da Mulher tem direito a jantar Uma flor e um café E se nada tiver no Dia da Mulher Para o ano há mais e é para quem quer Levante-se a ré Há quem lhe chame Companheira Ela anda Ela desanda Entre o colo e a coLEIra

 

Apanha do pai Apanha do irmão Apanha do

marido Apanha do patrão Apanha do padre Apanha do professor Apanha do chulo Apanha por amor Gosta de apanhar Dizem os machistas Adoram levar Dizem os maricas Se quiser igualdade tem de muDar de sexo O homem está a mudar e sem qualquer protesto Levante-se a ré Enfrenta o tribunal com panelas ao lume Insulta a autoridade com esfregona e perfume Sai a mulher em ombros Sai nos noticiários Pois levantou as saias aos julgaDores sumários Começou a guerrilha da mulher ideal Há um juiz sem toga Outro sentiu-se mal Levantou-se a arguida e foi o fim do mundo

 

A cena é repetida de segundo em segundo

 

Levante-se a ré

 

Mulher-a-dias Mulher-a-noites

Um falo duro Três falas mansas

São três amores São três açoites

Três são no ventre Três são nas ancas

 

(in Correio Vermelho, Editora Seara de Vento, 2008)

 

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por Augusta Clara às 12:00

Terça-feira, 02.02.16

Cromolândia - César Príncipe

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César Príncipe  Cromolândia

 

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 Beppe Grillo, senador-cromo

 

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Mário Jardel, deputado-cromo.

 

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 Marcelo Rebelo de Sousa, presidente-cromo.

 

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 Ilona Staller/Cicciolina, deputada-cromo(AR, 19/11/1987)

 Novo busto da República?

Recepcionista do Palácio de Belém?

 

         As recentes eleições para a Presidência da República ampliaram o efeito e demonstraram a eficácia das campanhas de imagem. Venceu, como era das previsões político-climáticas, o candidato mais vendível a públicos tele(visados). A promoção de ícones não é um monopólio das tevês, mas os restantes meios são subsidiários ou retrógrados. No Ocidente, uma grande televisão tem mais força do que uma grande religião. Os fanáticos ou fiéis do écran são formatados pelo sistemicamente catalogado e homologável. Milhões de telespectadores são diariamente alimentados por via auditiva e visual. Jazem ligados à máquina. Só algumas minorias têm capacidade de autodefesa nacional e global. As fábricas de moldes e modas operam em laboração contínua. O processo de captura e persuasão de audiências conta, à partida, com inúmeros complacentes e cúmplices, viciados em tablets em vez de tabuadas, instados a trocar convicções por caras. O culto do padroeiro, dos posters da realeza, das vampices e vipices aburguesadas, dos cromos futebolísticos, das beldades de passarela e dos galãs e barbies do cinema, dos ídolos da canção – assenta no indivíduo-show, no iluminado-bafejado pelos holofotes. Os programadores de atracções fazem entrar pelas nossas casas dentro profissionais da demagogia e fantoches da diversão. Ocupam, em tempo real, o centro das salas e a parede nobre dos dormitórios. São armas apontadas a alvos. Procuram e conseguem rebaixar os níveis de atenção e selecção. Objectivo: transformar cabeças humanas em cabeças de gado. O poder mediático, pouco a pouco, torna o bicho ou a bicha num familiar, e assim canoniza qualquer criação ou criatura com recorte e potencial para servir os donos disto tudo. Para culminar os toques e retoques dos tevê-eleitos, irrompem, de canal em canal, dezenas de comentadores, quase todos abalizados e quase todos simuladores de independência, provindos de universidades católicas e laicas e de outras linhas de montagem e lavagem de cérebros.

Haverá ainda e por aí quem se espante? É a sociedade do espectáculo como modelo de sequestro psicopcional, de infantilização e degradação do espaço cívico e cultural. Exemplos triunfantes: Cicciolina e Grillo, a actriz pornográfica e o comediante da Itália das berlusconices, a concubina feita rainha, o bobo feito rei; Jardel (Brasil), antigo futebolista, analfabeto relapso, teve direito a puta-secretária e a conexões com corleones locais. E por aí adiante, Deus meu! A lista seria abundante, exuberante. A democracia burguesa é inclusiva: jamais excluirá ladrões de estirpe, criminosos de guerras convencionais e assimétricas, truões sem noção das cenas que fazem, safadinhas de anúncios classificados, fala-baratos de cátedra, dealers de interesses, ideias ou ideais (grossistas e retalhistas).

Marcelo tirou cursos de cadeirão académico, de líder partidário, de conselheiro de presidente da República e de candidato a presidente da Câmara e a presidente da República. E, além de ter ido repetidamente à praça como professor-opinador de todas as matérias, foi protagonizando rábulas de engraçadinho da turma. Pelos vistos, o chamado povo gosta do género: 24 de Janeiro dixit. Marcelo ganhou à primeira, com apoio maciço e massivo dos equipamentos mediáticos e apoiado nas suas graças. Que de muitas é ornado. Rezam os boletins. Recebeu um embaixador em cuecas. Fugiu dos fotógrafos em mota de água. Lançou-se ao Tejo para um banho de poluição e saiu limpo e vivo. Guiou um táxi pelas mourarias, com mini-saia no banco traseiro. Travestiu-se de gentil coiffeur de balzaquianas. Estacionou num lugar reservado a deficientes. Sabe-se lá que mais lhe debitam ou virão a averbar no currículo. Mas não foram nem serão as traquinices-marcelices o grande risco para as barreiras constitucionais e para as expectativas dos portugas em geral e dos seus votantes em particular, muitos provavelmente distraídos, levados na onda hertziana.

O que advirá? Aguentem, aguentem! O entertainer seduziu e poderá abandonar, na primeira e apertada curva, milhares ou milhões de teledependentes-telede(votos). Mas a decepção não será universal: neste preciso momento, há um cidadão feliz em Portugal e que dificilmente se arrependerá de haver apostado no filho do ministro de Salazar e putativo afilhado de Caetano: Ricardo Salgado (o do banco sólido e confiável) terá um amigo do peito em Belém. Preocupante será que Marcelo, como Cavaco e Passos e Portas, abdique de ser presidente dos portugueses e se trespasse, no meio das travessias e travessuras, como presidente-delegado de Bruxelas, do BCE, do FMI e de corporações autóctones de idêntico jaez.

Pior do que Cavaco não será possível. Diz-se. Assevera-se. Jura-se. Arrenega-se. Mas Marcelo deu uma cabazada nas eleições e, em termos de conservadorismo táctico-militante e da carteira de compromissos, era o mais enfeudado dos dez candidatos. Há muitos anos que, na Cromolândia, não vencem os melhores. Que mais, caríssimos?

Temos o Santo Marcelo entre nós. Obrigado, portugueses!

César Príncipe

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 19.01.16

Marcelo e os media: das contradições e do populismo à manipulação pura e dura - César Príncipe

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César Príncipe  Marcelo e os media: das contradições e do populismo à manipulação pura e dura

 

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Fernando Correia

O que não faltam no quotidiano das salas de redacção são professores – isto é, antigos ou actuais docentes dos vários níveis de ensino – sejam eles directores, comentadores, analistas, cronistas, jornalistas, fotógrafos, operadores de câmara, informáticos, etc. Mas conhecido por “o professor” só há um. Ele. Só que o currículo do mestre na sua ligação aos media tem muito pouco de magistral – antes pelo contrário.

“O professor”

Apesar de o cognome de Marcelo Rebelo de Sousa (M.) se dever em grande parte à sua assumida intenção de explicar a política aos outros, julgo interessante registar o depoimento de uma jornalista que foi sua aluna há duas décadas na Faculdade de Direito de Lisboa. Eis extractos de um recente texto online de Mafalda Anjos, directora adjunta da Visão.

“Gostava de dar boas notas e, também assim, ‘comprar’” a popularidade que granjeava na Faculdade. Fazia questão de corrigir algumas dezenas de testes, para sentir o pulso à classe. Mas era tão mãos-largas nas notas que até os próprios assistentes subalternos consideravam tal generosidade estupidamente despropositada, e não o escondiam. Para quem quisesse perceber, ficava logo ali bem claro que, com Marcelo, as coisas nunca são o que parecem. Elogiar não é o mesmo que apoiar? Fumar não é o mesmo que inalar? Na cabeça de Marcelo, claro que não. É possível, de facto, dizer tudo e o seu contrário, sempre com um enorme sorriso na cara. (…) Embora adorado pelos alunos, e de longe o professor mais popular da Faculdade no meu tempo (…) nunca foi uma referência entre a doutrina em matéria de direito constitucional. (…) Sempre que me lembro de Marcelo e dos tempos da faculdade, recordo o elogio mais demolidor que alguma vez ouvi sobre alguém: ‘Gosto muito de o ouvir. Costumo concordar sempre com ele, sobretudo nos assuntos que não conheço bem’”.

“Teria de ser muito estúpido”

A relação próxima de M. com a tv tem sido muito falada, tendo em conta, nomeadamente, os últimos anos de presença dominical na TVI. Mas é preciso lembrar que o seu contacto com o público através da palavra e da imagem vem dos anos 90, com presença regular aos microfones da Rádio Renascença e da TSF. Depois veio a tv, entre 2004 e 2005 na TVI, entre 2005 e 2010 na RTP e logo a seguir novamente na TVI, assim consumando uma longa utilização dos media enquanto instrumento de notoriedade e de promoção pessoal. A sua acusação aos candidatos adversários de que, ao contrário do que acontece com ele, não se lhes conhece a posição sobre esta ou aquela situação ocorrida no passado, reveste-se de pouca seriedade e muita hipocrisia.

O apego de M. ao megafone televisivo não tem nada de desinteressado e tem muito de interesseiro. Interrogado, em devido tempo, sobre a sua permanência na tv na hipótese de vir a ser candidato, M. não hesitou na resposta: “teria de ser muito estúpido, e apesar de tudo as pessoas reconhecem-me alguma inteligência, para, podendo ter uma tribuna, até ao verão ou Outono do ano que vem, sendo as eleições em Janeiro de 2016, decidir abandonar essa tribuna um ano antes”. O certo é que só nas vésperas do anúncio da candidatura viria a deixar a preciosa “tribuna” (“lugar elevado de onde falam os oradores” e “os pregadores”, diz o Houaiss).
Realmente, estúpido não será; mas fica à liberdade do leitor escolher outros termos definidores do perfil da criatura.

O vergonhoso caso do Semanário

A ligação mais profunda de M. com os media foi na imprensa, desde logo no Expresso. Num texto tido como elogioso (Sol, 2.1.16) recorda-se que o semanário “era muitas vezes uma arma política” e que “Marcelo chegava a escrever notícias sobre si mesmo”; “inova na forma como se faz jornalismo em Portugal”, pondo, por exemplo, no verão de 1979, “jornalistas a percorrer praias e festas em busca de intrigas sociais.” Em 1981 entra para o governo presidido pelo dono do Expresso, e então, já “do outro lado da barricada do jornalismo político, servia de porta-voz de Balsemão e promovia fugas de informação selectivas para os jornais. Era uma das fontes do então jovem jornalista Paulo Portas.”
Terminemos com a evocação – e não é a primeira vez que o faço, praticamente com as mesmas palavras – de uma história edificante sobre a ligação de M. à imprensa.

Em Novembro de 1983 saía o primeiro número do Semanário (criado por M. e, entre outros, Daniel Proença de Carvalho e José Júdice) em cujo Estatuto Editorial se fazia solene profissão de fé na “liberdade”, na “Pátria”, na “bondade e dignidade do Estado”, na “unidade nacional”, na “iniciativa privada”, na “sociedade das ideias”, no “orgulho da História”, no “reencontro de um sentido espiritual como forma de ter fé na vida”, numa “informação que seja o resultado do rigor no profissionalismo” e numa “opinião que seja livre e tenha mérito”.

Mas as coisas não eram bem assim.

Treze anos volvidos, numa prosa evocativa da efeméride (“Semanário, 13 anos”, in Semanário, 30.11.96), o presidente do conselho de administração no tempo da fundação – M., pois claro – veio confessar e vangloriar-se de que, afinal, por detrás daquelas palavras estava “um projecto político militante”; que o que se pretendia com o jornal era “contestar o Bloco Central e preparar uma alternativa de centro e direita ao Partido Socialista liderante e ao Presidente da República em funções”; e que, “politicamente, o Semanário cumpriu a sua missão”, na medida em que, nomeadamente, “contribuiu decisivamente para a queda do Bloco Central, para a ‘Nova Esperança’ e a subida ao poder de Aníbal Cavaco Silva”, e “em 1987 viu completado o seu desígnio na maioria absoluta do PSD, corolário da luta de anos”.

Manipulação pura e dura, pois, de um candidato a Belém que, sabiamente, Paquete de Oliveira classificou como “um sagaz malabarista que faz do sofisma a maneira mais hábil para esconder a mentira ou a contradição” (Público, 16.1.16).

 

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por Augusta Clara às 15:30

Sexta-feira, 08.01.16

MARCELUX - César Príncipe

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César Príncipe  MARCELUX

 

 

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Cartaz retro MRS 

 

   Há razões nacionais e internacionais, regionais e sociais, culturais e de género para obrigar Marcelo a ir à segunda volta e aí ser derrotado e devolvido ao altar-cátedra da TVI (empresa audiovisual dita independente), onde regularmente o lente de Direito celebrou anos a fio missa dominical vespertina. De resto, assaz concorrida e generosamente paga. Segundo a mediatest, contabilizou mais fiéis do que a eucaristia matinal transmitida pela mesma estação. Tratemos, pois, da vaga marcelista (2ª edição). O marcelismo retomou as agendas. Não será assunto instantâneo. O caso remete-nos para o séc. XX. Para milhões de cidadãos – será oportuno recordar - bastou Marcelo I, o que ficou nos documentários, o abandonado pela GNR, cercado pelas tropas e pelo povo, saído in extremis do Quartel do Carmo, encafuado num blindado a caminho do exílio. Que o Supremo Magistrado do Juízo Final o conserve no purgatório como professor e no inferno como ditador. E agora? Brevemente o país será chamado a eleger o inquilino do Palácio Cor-de-Rosa. O Marcelo de 2016, afilhado do Marcelo de 1974, assume-se como vencedor antecipado. O showman conta com o favor dos oráculos da Grei.

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Saboaria PAF 

Defendemos outro perfil para a Presidência:

1. Os portugueses precisam de um presidente que jure e de facto cumpra e faça cumprir a Constituição. Programa Comum da Democracia. Ponto irrenunciável. Linha intransponível. Marcelo é um sofista da palavra e um retalhista das leis da República. Pratica jurisprudência à la carte. Tem, no entanto, um roteiro de sangue: o dos interesses nacionais e internacionais da alta burguesia. O seu trajecto é o da evolução na continuidade. Pretende-se, com um apagão histórico-dinástico, retirar Marcelo da linha parental de Cavaco. Cavaco Silva e Marcelo de Sousa são estirpes evolutivas de Oliveira Salazar, Américo Tomás e Marcelo Caetano. Estirpes que foram e são apoiadas por idênticas forças económico-financeiras e matrizes ideológicas. A dupla Cavaco-Marcelo, com as suas peculiaridades, (um) hirto e iletrado, (outro) lesto a disparar comentários e a despachar livros, sinaliza o legado do autoritarismo e do elasticismo conservador possíveis num país que passou por uma revolução. Uma ruptura extensa e profunda que forçou o antigamente a esmerar-se em miméticas de hiber(nação), arremedos tiranossáuricos, inflexões tácticas, modulações discursivas. Mas, no essencial, a direita reagrupa-se e cerra fileiras. Por regra, só diverge entre si no episódico e secundário. Com tais performances de ruído e diversão (sociedade plural oblige), a direita, além da prossecução de latos e lautos desígnios, envia um sinal alienatório e instrumental aos insatisfeitos ou revoltados com a sua política: é possível dizer mal e votar nos causadores do mal. A direita (clássica ou pós-moderna) é useira e vezeira a ocupar fortalezas institucionais e privadas, a montar redes de influência, a improvisar coberturas, a estilizar imposturas, a assessorar regressos das castas, a concretizar retrocessos civilizacionais. Tem os cursos todos: os da ditadura real e os da democracia formal.
2. Numa Europa onde cresce a repulsa pelo gangsterismo bancário e pelos fundos-abutres, pelo assalto a patrimónios públicos e rendimentos colectivos e pela degradação dos serviços básicos, nesta Europa que dá múltiplos sinais de resistência e viragem e neste mundo a procurar alternativas ao processo de globalização imperial, precisamos de um chefe de Estado que seja mais amigo de Portugal (Povo Português) do que dos Ricardos Salgados, que provadamente se afirme defensor da nossa soberania, da nossa independência e da nossa honra, com visão multilateral e multifocada, advogado dos nossos legítimos interesses nos centros de representação, legislação e decisão.
3. Os portugueses precisam de um presidente que patrocine a instituição das regiões administrativas e rompa a fatalidade das assimetrias e da discriminação dos investimentos e da desertificação do interior e Marcelo liderou a campanha anti-regionalização que introduziu a figura do referendo no ordenamento constitucional e lançou toneladas de propaganda negra contra a electiva e efectiva descentralização.
4. Precisamos de um presidente que assuma o corpo de valores do trabalho, da segurança social, da saúde, do ambiente, da cultura, da paz, da igualdade e liberdade cívicas e de género e Marcelo é um cultor e difusor de direitos elitistas, machistas e patriarcais: na sua fase de liderança, o PSD votou contra a criação do Serviço Nacional de Saúde e Marcelo gabou-se de haver tido um papel determinante na manutenção da penalização da IVG. No ano da graça de 2016, os utentes em geral do SNS (desorçamentado, onerado de taxas, despovoado de servidores, esvaziado de valências e avaro nas prescrições, fisicamente extinto ou afastado das populações – isto é - sabotado pelos partidos do candidato das II Conversas em Família) e as mulheres em particular deveriam replicar e fazer abortar as pretensões de MRS a Belém. Fazer abortar Marcelo. Passa-palavra. A comunidade feminina portuguesa pagou uma farisaica e vexante factura marcelista: teve de esperar 10 anos para não incorrer em prisão, enquanto as fêmeas da burguesia (abonadas de carteira e informadas dos circuitos) sempre puderam dar ou não à luz ou ao interruptor uterino conforme o seu arbítrio, nem que tivessem de se deslocar a Londres e a outras praças da especialidade. E MRS sabia. E bem. Sempre foi um sensor ambiental.
5. MRS é um músico-geringonça a tocar para grandes públicos, principalmente para as vítimas dis(traídas) do sistema. O sistema deu-lhe corda e visibilidade. É versátil e cativante. Cultiva as artes cénicas. Tanto mergulha na poluição do Tejo como conduz um velho táxi na velha Lisboa. Tem roupeiro para cada saison. Enverga peles de jogador de salão e jongleur de écran. Preza os espaços lux. Sempre frequentou a corte: a corte do capital e a corte da capital. Também não desdenha da corte na aldeia. De quando em vez toma ares de província. Come uns petiscos e inaugura a sua biblioteca e goza o foguetório e aplaude a banda e beija a criancinha ataviada. À moda de personagens reais, aristocráticas e afidalgadas. É a sua regionalização.
6. MRS teve berço estado novo. Ainda jovem escreveu cartas de confidente a Salazar e a Caetano. Numa delas denunciava os comunistas como sombra tenebrosa acobertada na Oposição. Sanhas de mocidade portuguesa, com certeza. Epistolografia adulatória de quem naturalmente (estaria nos horóscopos) idealizava uma carreira na senda paterna. Não há que carregar demasiado na parte juvenil do cadastro. MRS até já cumpriu pena de serviço cívico: passeou pela Festa do Avante!

Rangel, outrora regente da SIC, alardeou ser capaz de eleger um presidente da República com o marketing de um sabonete. O homem era ambicioso e jactante mas tinha queda para o negócio. Há quem não lhe fique atrás: recentemente, a TVI, da multinacional PRISA, lançou a bomba do encerramento/colapso do BANIF. A cacha desencadeou uma corrida aos depósitos, operando-se uma sangria imediata de 1.000 milhões de euros. Ante o descalabro induzido, o Banco Central Europeu fechou a torneira. O Santander, accionista da PRISA, abocanhou o Banco Internacional do Funchal a preço de ocasião. Operação coordenada? Prodigiosa coincidência? De qualquer modo, a TVI mostra o seu instinto matador e o seu faro jackpot. Não há dúvida: facilitou a saída do El Gordo português ao Santander e mantém a expectativa de sucesso da sua candidatura: a marcelista. A confirmar-se o êxito da aposta belenense, a saboaria Judite de Queluz lograria bater a fábrica de sabonetes de Carnaxide, e - voilà - com um produto de largo espectro, já que viria reanimar a direita tecnofórmica e submarinista, ultimamente bastante flácida e cabisbaixa, a precisar (rapidamente e em força) de viagra PAFoda.

Que Deus tenha atempada misericórdia dos portugueses e das portuguesas em idade de votar e procriar.
Reprise do marcelismo, não.
Oremus.

César Príncipe
(01/01/2016)

 

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por Augusta Clara às 14:20

Quarta-feira, 25.11.15

25 de Novembro - César Príncipe

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   O golpe iniciou-se em Novembro, dia 25. Prolongou-se pela madrugada de 26. Corria o Ano da Desgraça de 1967. Oliveira Salazar presidia ao Governo. Américo Tomás presidia à República. Santos Júnior era ministro do Interior. Deus, ao que se presumia e alardeava, tinha Portugal sob custódia há oito séculos. Fátima acabava de ser visitada, no 13 de Maio, pelo papa Paulo VI que (pelo sim, pelo não) evitou escalar Lisboa. Temeu maus encontros. Diz-se que não quis comprometer-se com o regime do Império e de Deus, Pátria, Família. E certamente teria os seus presságios quanto a trombas humanas e pluviométricas. No tocante ao resto, ao que se propagandeava, imperava a Ordem e a Tranquilidade. Vivíamos em paz. De facto, só estávamos em guerra policial contra a população civil desde 1926. Na realidade, só estávamos em guerra militar contra os movimentos armados de libertação desde 1961.

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Os acontecimentos do 25 de Novembro levaram o estado de calamidade a parte da capital e da região envolvente. Tudo começou com medonhos trovões, fortes rajadas, chuvas diluvianas. Os céus desabaram. As águas ocuparam ruas e casas, berços e campas. O saldo foi pavoroso. As autoridades reconheceram a custo e a conta-gotas a existência de 462 mortos. No entanto, as estatísticas revelar-se-iam mais pesadas. A história regista outros números: cerca de 700 vítimas mortais e mais de 1000 desalojados. A Censura afadigava-se para manter a verdade nos varais. Emanava ordens patéticas e categóricas para os órgãos de comunicação. Por exemplo, para a Rádio Clube Português: A partir de agora não morreu mais ninguém. Por exemplo, para o Jornal de Notícias: Urnas e coisas semelhantes: não adianta nada e é chocante. Não falar do mau cheiro dos cadáveres (nem) das actividades beneméritas dos estudantes. É altura de acabar com isso. É altura de pôr os títulos mais pequenos. Somente o clandestino Avante! (Dezembro de 1967) não acatava directivas da Censura: As inundações não teriam originado semelhante tragédia se o governo se tivesse preocupado em resolver da habitação para os trabalhadores, se tivesse cuidado da regulamentação dos rios e da defesa das populações ribeirinhas, se tivesse tomado as medidas de emergência que as circunstâncias impunham (...) porque não foram destruídos pelas chuvas diluvianas os bairros residenciais de Lisboa, mas sim os bairros de Urmeira, Olival Basto, Pombais...Quinta do Silvade, Odivelas (…) os bairros arrasados encontravam-se em zonas baixas, circundadas de colinas, facilmente inundáveis, construídos de tábuas e lata (…) desde há muito que se clama contra o assoreamento dos rios, contra a falta de diques. Desde há muito que se protesta contra os fenómenos de erosão…Nem a mais pequena verba para a regularização das águas do Tejo (…)

E afinal qual a justificação final e oficial para a catástrofe? Ei-la (e não pasmem!), pois continua revista e actualizada: nada tinha a ver com condições sociais, urbanizações precárias ou ilegais, assoreamentos, ribeiras encanadas, colectores bloqueados, deficiências de socorro. Insignes figuras políticas e religiosas remeteram as responsabilidades para a esfera divina. E sabe-se: a cólera dos deuses é milenar. De resto, na linha do jesuíta Gabriel Malagrida que debitou o terramoto de 1 de Novembro de 1755 na conta-corrente dos pecados do marquês de Pombal e dos seus sequazes. Ao fim e ao cabo, também na linha de Calvão da Silva, ministro da Administração Interna, sucessor de Santos Júnior, que a respeito das inundações da Albufeira (2015) logo detectou a mão das forças demoníacas, aceitando como item da teologia pragmática a insensibilidade do Criador: Deus nem sempre é amigo. No afã desculpacionista, apenas cometeu um deslize de angariador de apólices: aconselhou os portugueses a confiar mais nas Companhias de Seguros do que no Omnipotente e Misericordioso. Demonstrou, contudo - vá lá - visionária compaixão ao referir-me ao morto de Boliqueime: Entregou-se a Deus. No fundo, CS, apesar de tantas sanhas e indiferenças das potestades, andou com sorte: apenas foi rejeitado, com o demais lote governamental, pela Assembleia da República. E idêntico e benévolo despacho mereceu SJ, o ministro das cheias de 1967, o ministro da brutal repressão das manifestações estudantis e operárias de 1962, o ministro da PIDE (1961-1969), a que assassinou o general Humberto Delgado, obviamente com a sua chancela, em 1965. SJ foi dispensado pelo marcelismo. Sinais dos tempos: evolução na continuidade. O Júnior deu lugar ao Rapazote. Pior destino teve Malagrida, alvo de auto-de-fé: (…) que com baraço e pregão seja levado pelas ruas públicas desta cidade à Praça do Rossio e que nela morra morte natural de garrote, e que depois de morto seja seu corpo queimado e reduzido a pó e cinza, para que dele e sua sepultura não haja memória alguma.

Novembro, 25.

Data funesta.

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por Augusta Clara às 03:20

Quinta-feira, 22.10.15

Chamem a NATO - César Príncipe

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   O quadro pós-eleitoral, ao privar os situacionistas de maioria absoluta, lançou o pânico nas respectivas hostes, logo que o PS se inclinou para auscultações e negociações à Esquerda. A fórmula do Bloco Central de Interesses, na vertente política, parecia perpetuada (nem sequer merecia abordagem). Tratava-se de um direito divino adquirido, a juntar aos direitos económicos e mediáticos, igualmente determinados pelo Além, segundo Clemente, benzedor da troika interna. Portanto, conversações para formar Governo ou garantir apoio parlamentar só e sempre à Direita. Bastaram algumas reuniões entre PCP, PEV, BE e PS e o assentamento de alguns pontos de partida para um hipotético entendimento e todas as tropas da Coligação e de seus reservistas e infiltrados se apresentaram ao serviço, entraram de prevenção e começaram a disparar setas envenenadas, balas tracejantes, morteiros da pesada, granadas de fumo e até tiros de pederneira e pólvora seca.

UI! A NATO!

Tese reinante: Como é que se poderá consentir que se dialogue ou chegue a um princípio de acordo com partidos contrários às amarras de Portugal a esta organização? Por mais que se fuja da peste propagandiária, acabamos por esbarrar com algum excitadíssimo jornaleiro, algum azougadíssimo microfoneiro, algum reputadíssimo e refinadíssimo comentador. Todos de plantão. Todos em estado de prontidão. Todos de arma apontada para o Largo do Rato, para a Rua de Soeiro Pereira Gomes, para a Rua de D. Carlos I, para a Rua da Palma.

UI! A NATO!

Acontece que alguns países da União Europeia não estão na NATO: Áustria, Chipre, Finlândia, Irlanda, Malta, Suécia.

Acontece que alguns países europeus da NATO não estão na UE: Albânia, Turquia.

Acontece que alguns países da UE não estão na Zona Euro: Bulgária, Croácia, Dinamarca, Hungria, Polónia, Reino Unido, República Checa, Roménia, Suécia.

Acontece que, nos anos seguintes ao derrube da ditadura fascista, tiveram assento no Governo de Portugal Democrático partidos e personalidades que não prezavam a manutenção do nosso país, mesmo como membro pouco viril desta estrutura de poder intercontinental. E a Revolução operou-se. E a mudança processou-se.

UI! A NATO!

E um cidadão desprevenido embrulha-se nas páginas dos jornais, tropeça nos fios auriculares (radiofónicos e televisivos). E mais grave: enquanto escuta a rádio, pode atropelar, na Rotunda do Marquês ou em Carnaxide, o gnomo Marques Mendes. E que perda digna do panteão: é das criaturas mais convictas do fim do mundo ou do seu mundo. Que risco corre esta pátria com nove séculos de história: vai baixar o IVA da restauração. Mais: vão ser revistas as sobretaxas do IRS. Mais: os reformados e funcionários públicos poderão respirar mais uns euros. Mais: as pequenas e médias empresas vão receber estímulos. Portugal não irá empobrecer tanto nem tão depressa. Que desgraça!    

             Chamem a NATO. Rapidamente e em força.

UI! UI!

Acontece é que não há nenhuma alma caridosa que ofereça aos Marques Mendes da Praça Mediática um volumezinho da Constituição da República Portuguesa. Então, o hiperactivo MM é alienígena? Acabou de aterrar, em fraldas, numa televisão amiga? Foi deputado, ministro, chefe partidário e nunca leu a Constituição, mesmo para a rever? É que os partidos de esquerda anti-NATO limitam-se a seguir as recomendações da Lei Fundamental. Leiam, Marques! Leiam, Mendes! PCP, PEV, BE, ao colocar a NATO em questão entre os seus objectivos programáticos (que não entram nas discussões em curso) respeitam o artigo 7º. Porventura já ouviram falar do 7º? Os MM estão alheados de tudo que se relacione com a legalidade refundadora da República. E estão a criar um embaraço ideológico ao sistema: ao predicar que os partidos não advogantes da NATO têm de ser excluídos do Arco da Governação, acabam por oferecer uma arma de destruição massiva e maciça aos adversários: Democracia e NATO são incompatíveis. Assim se depreende dos escritos e ditos dos grão-natistas, dos mais ferrenhos, dos açulados, dos cavaleiros do Templo.

 

Constituição da República Portuguesa

 

Artigo 7.º

 

  1. Relações internacionais. Portugal rege-se pelos princípios da independência nacional…da solução pacífica dos conflitos internacionais, não ingerência…
  2. Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão…bem como o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares.

 

Aqui vai. Devidamente endereçado.

Sempre houve uma alma caridosa.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Terça-feira, 20.10.15

Democracia capturada - César Príncipe

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César Príncipe  Democracia capturada

 

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 Direito de Resistência

 

 

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 Mesa do Orçamento

 

   A Constituição atribui a quatro entidades o qualificativo de órgãos de soberania: Assembleia da República, Presidência da República, Governo, Tribunais. Mas na prática, o edifício legislativo e executivo foi sendo retocado, remodelado e ocupado por inimigos da Lei de Abril. A apropriação-parasitação foi bandeirada por sectores da banca e das grandes obras. A zo(nação) clientelar tornou-se cada vez mais ousada a partir de 1986 (abertura da torneira comunitária). As portas da fortaleza foram cedendo aos assédios. Principalmente às contrapartidas, aos cantos dos fundos e paraísos fiscais. Os infiltrados criaram as suas redes hospedeiras, desvirtuaram funções e decisões do Estado, formataram opções estratégicas do país. Mesmo na actualidade, em plena crise, é patente o longo braço dos corleones da finança e do betão. Não admira, pois, que estes refundadores do estado das leis & das coisas hajam sido e continuem a ser os grão-financiadores dos aparelhos da sua política e os grandes colocadores e aliciadores de agentes de ligação. Para sofisticar o sequestro da democracia, houve também que recorrer a competências externas, particularmente a escritórios de advogados com now-how para conformar diplomas, operar contactos, agilizar reuniões, desbloquear dossiers. E a operação não poderia dispensar tropilhas e blackwaters do publicado (Imprensa, Rádio, Televisão). O espaço celulósico e hertziano foi infestado de autómatos sistémicos e cruzados neoliberais. Deste modo se cimentou uma tríplice aliança: Bloco Central Económico, Bloco Central Político, Bloco Central Mediático. Assim se alojaram no edifício da res publica informais e tentaculares órgãos de soberania. No fundamental, cada bloco tem cumprido o seu papel: ou intervém na tomada da fortaleza ou vela pela ordem nas ruas e cabeças.

A Constituição da República Portuguesa, periodicamente revista ao sabor dos Donos Disto Tudo (nativos e forâneos), é encarada pelos croupiers e pregoeiros do eurocasino como um mausoléu que é necessário limpar de referências libertadoras e igualitárias. As Quatro Colunas que sustentam o edifício constitucional (Democracia Política, Democracia Económica, Democracia Social, Democracia Cultural) foram e estão a ser abaladas pelos socavadores de turno ou de empreitada geral. Na arquitectura constitucional apenas uma coluna (embora a inclinar) se mostra menos degradada: a Democracia Política. Falta saber por quanto tempo se manterá de pé um edifício de quatro colunas, com três minadas e lascadas até ao osso. E pouco lhes importa que o sufrágio constituinte detenha uma representatividade avassaladora relativamente a outros sufrágios. Por regra, a direita mais voraz só nos tribunais acata a legalidade fundadora e a vontade popular. E mesmo assim reinterpreta os acórdãos e logo reincide. Tem feitio inconfiável e contumaz. Portadora de uma carteira de negócios confessos e obscuros (está-lhe na massa do sangue), não se reinsere de bom grado na ordem democrática. Está às ordens do grande capital doméstico e global. É seu veículo institucional e instrumental. Diligentemente servido pela Boa Imprensa, pela Boa Rádio, pela Boa Televisão. E até onde resistirá uma Democracia Política capturada por uma Ditadura Económica?

Após a Revolução dos Cravos e da Aliança Povo/MFA, os partidos do presente Arco da Governação tudo fizeram para acelerar o regresso dos militares aos quartéis. Brandiam, na altura, o argumento da submissão das Forças Armadas aos órgãos civis. Justificavam a retirada como um princípio basilar do Estado de Direito, uma prova de maturidade democrática. Mas o que eles, de facto, não desejavam e verdadeiramente temiam é que o Povo contasse com um tão robusto aliado. Os mesmos que pressurosamente empurraram os militares para as casernas não tiveram pejo em tornar-se cavalos de Tróia e condutores de carros de assalto nacionais e internacionais. Está à vista este compromisso Portugal. Não ousam mandar para casa os que se apoderaram das rédeas e dos réditos da nação. Os partidos do Arco do Poder, alapados à mesa do Orçamento (Público e Privado), têm-se comportado, desde 1976, como mamadeiras tricolores e plataformas de agentes infiltrados. Tudo têm feito para que os DDT`s parasitem e privatizem o Estado, nele estabeleçam as suas bases anti-sociais e anti-nacionais, nele se entronizem e possam ufanar-se: L’État c’est moi.

O processo subversivo em curso há muito encetou a sua Longa Marcha e o seu Salto em Frente e não se inibe de exibir músculos de ginásio. Tanto assanhamento reflecte uma natureza classista rapace, um encher de peito com a cumplicidade da mafiocracia global, mas também induz outro nível de leitura: receio. De quê? Do crescendo dos movimentos de protesto anti-sistema e do revigoramento das organizações de ruptura. A campanha concertada de apartheid partidário, ante os ensaios de viabilidade e as negociações em curso para formar um Governo com suporte parlamentar de esquerda, revela a que ponto chegou a monopolização do regime, levada a cabo por sectores habituados a comportar-se como Donos Disto Tudo. Até o cardeal Clemente, com o seu arzinho de menino de Deus, veio ungir o Bloco Central de Interesses. Estas forças tentam bloquear uma solução que saia da matriz de controlo pleno. O PS, vendo a definhação dos congéneres (por ao longo de décadas se haverem confundido com a política de direita e as suas negociatas), busca garantir os serviços mínimos de esquerda, estruturar uma fórmula que lidere. E que dizer, então, aos espoliados, aos inconformados, aos decepcionados, aos ludibriados, após decénios de incumprimento de contratos de cidadania por parte das governanças de alterne? E que fazer neste quadro de pauperização e marginalização da maioria dos cidadãos? Os defensores da Ordem Constitucional têm de dar combate todo-o-terreno ao Bloco Central de Interesses. O Direito de Resistência está inscrito na Constituição da República Portuguesa: Todos têm direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública. (Artigo 21). 1

 

  1. Nas eleições para a Assembleia Constituinte (1975) estavam inscritos 6.231.372 eleitores. Votaram 5.711.829 (91,66%). Abstiveram-se 519.543 (8,34%). Nas eleições legislativas de 2011 estavam inscritos 9.624.133 eleitores. Votaram 5.588.594 (58,07%). Abstiveram-se 4.035.539 (41,93%). Nas eleições legislativas de 2015 estavam inscritos 9.682.553 eleitores. Votaram 5.408.805 (55,86%). Abstiveram-se 4.273.748 (44,14%).

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 05.10.15

Dia de Reflexão Republicana - César Príncipe

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   Acabo de ler o artigo O acto revolucionário de contar a verdade.1 Para quando a criação de um TNM/Tribunal de Nuremberga Mediático? Os delinquentes andam à solta por Jornais, Rádios e Televisões e até moldam sondagens ao minuto para cobrir as estratégias e os crimes de lesa-cidadania, ofuscando as mentes com projecções e projectores, atraindo o máximo de votantes para os seus campos de concentração de boletins. O complexo de camuflagem, chantagem e despistagem está rodado. Formou-se nas AMG/Academias da Mentira Global. Especializou-se em parcerias encobertas: público-privadas.

Na Casa Portuguesa, nestas Legislativas, levou-se mais longe do que o habitual a guerra suja, a auscultação encomendada pelo poder mediático partidarizado ou sectarizado e induzida com alarde científico. Emergiu, nesta sequência e por consequência e com plano e orçamento reforçados, um frenético actor: o PFS/Partido-Fábrica de Sondagens. Uma agremiação-unidade produtiva generosa: no dia do escrutínio real, sempre que se verificam desconformidades com os factos, dissolve-se, lava as mãos e as partes baixas. Tudo o que aconteceu passa a ser obra exclusiva dos eleitores e dos talentos das lideranças. Os sondeiros retiram-se. Subcontratação cumprida. Outro ou outros serão lesados ou beneficiarão dos dividendos: do trabalho de sapa e persuasão, da maqui(nação) de vontades, impulsos, tendências, da procriação assistida de resultados. Irrompem, então, os do costume: os leitores do apurado. Os distribuidores de vitórias e derrotas. Os subcontratados à la carte. Eis-nos cercados por tropilhas e pandilhas da In(formatação). Desta vez, o eleitorado votou com parcimónia: deu, com manifesto enfado, uma maioria relativa à coligação de direita e uma maioria absoluta ao conjunto antigovernamental. Teve mesmo um momento subtil, digno das fábulas de Esopo e La Fontaine: concedeu representação parlamentar ao Partido dos Animais, barrando a entrada de Marinho e Pinto na Assembleia da República.

Todavia, estou ansioso por cumprir um dever humanitário e cristão: visitar em qualquer estabelecimento correctivo uma série de experts e pregoeiros da Psico. São um risco para a sanidade mental e cultural. Até para a integridade física de milhões de cidadãos. É pessoal formado nas ERC/Escolas de Redução de Cabeças. Objectivo dos elaboradores de tais painéis e patrocinadores e filosofeirantes de tais campanhas: transformar cada cabeça humana em cabeça de alfinete. Um desígnio ancestral: anterior aos Jornais, às Rádios, Televisões e Empresas de Adivinhos. Sempre houve DDT`s/Donos Disto Tudo. O que não significa que não sejam removíveis e, nalguns casos, reeducáveis. Desde que não se recorra à doçura da Cartilha Maternal.2

Espero que os actos revolucionários proliferem e se institucionalizem e os códigos romanos Dura Lex evoluam, se modernizem, se civilizem, incorporando tipologias penais que dêem resposta ao descaramento infrene e impune da CAS/Comunicação Anti-Social e dos ICP/Institutos de Caução Propagandística. O globo terrestre e naturalmente esta orla do extremo ocidental estão a pedir uma DCM/Didáctica Cívica Musculada. A construção deste modelo democrático (societário e judiciário) vai levar o seu tempo: é uma maratona pejada de barreiras e sinais de trânsito viciados ou trocados. Mas são assim todas as competições de exigência e fôlego.

Saudações revolucionárias!

05/10/2015, 105º Aniversário da República.

 

  1. resistir.info e http://johnpilger.com/articles/the-revolutionary-act-of-telling-the-truth
  2. Publicada em 1876. Autoria: João de Deus (1830-1896). Pedagogo, poeta, escritor. Nomeado Comissário Geral da Leitura. Jaz no Panteão de Santa Engrácia.

 

       CÉSAR PRÍNCIPE

 

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por Augusta Clara às 16:00



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