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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 09.05.16

Pó enamorado - Carla Romualdo

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Carla Romualdo  Pó enamorado

 

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(Grzegorz Ptak)

 

   Durante anos, o meu pai repetiu que, logo abaixo do proverbial “aqui jaz fulano”, a sua lápide haveria de ressalvar: “Contra a sua vontade”.

Acabaria por escolher a cremação, até porque detestava enterros, mas continuou a gostar de contar o que diria a lápide que sabia que não iria ter.

As suas cinzas foram depositadas no jardim do cemitério, numa manhã de Verão que nada teve de solene. Mesmo antes de sair de casa, decidi que queria que pelo menos uma pequena parte das cinzas fosse para um sítio de que ele gostava. Não sendo um sítio onde se possam depositar cinzas, não seria viável depor lá mais do que uma reduzida quantidade. Só tinha à mão um daqueles frascos para champô de levar em viagem e, como nunca tinha sido usado, achei que poderia servir.

Nessa manhã, o grande volume de cinzas foi despejado no jardim, e, apesar do cuidado que se pôs na operação, formou-se uma nuvem de pó que me fez espirrar. Quanto se teria rido o meu pai se soubesse que a última coisa que fiz com ele foi espirrá-lo. Foi, aliás, a primeira vez que senti a falta dele, ao pensar que faltava ele ali para rir comigo. No recipiente disponibilizado pela funerária, um vaso negro, solene, as cinzas são qualquer coisa de sagrado, um despojo nobre. Num frasco transparente, as cinzas são comezinhas e domésticas, quase se pode falar com elas, dizer-lhes “Para já, vão ficar aqui na estante, têm luz, à beira da janela, e depois a gente leva-vos para aquele sítio.” Mas não cheguei nunca a falar com elas, não se apoquentem.

Trouxe comigo, portanto, o frasquinho com uma pequena parte das cinzas e pousei-o na estante, atrás da mesa onde escrevo. Se espreitarem, agora, por detrás do meu ombro, talvez consigam vê-lo. Nunca tinha visto cinzas humanas e reconheço que fiquei desconcertada. Creio que imaginava algo que pudesse assemelhar-se ao “pó enamorado” de Quevedo e afinal tudo se reduz a uma matéria cinzenta, algo granulosa, e cuja origem é indecifrável. É certo que a matéria se transforma, mas que o meu pai, mais o seu fato favorito, a sua gravata azul, o seu cachecol do FCP, sejam este pó cinzento que restou parece-me difícil de acreditar.

Como não choveu pouco nos meses seguintes, fomos adiando levar as cinzas para o outro sítio, porque a ideia de que as cinzas se fizessem lama era-nos desagradável. E, assim, o frasco foi ficando na estante. Não tenho nenhum interesse mórbido nas cinzas, quando penso no meu pai não penso nas suas cinzas, passam-se muitos dias em que nem me lembro que estão ali, e só mexo no frasco quando ele está mesmo em frente ao livro que quero tirar da estante.

Tal como o meu pai, eu também gosto de dizer que já sei o que dirá a lápide que não vou ter. Como, apesar de tudo, sou menos rezingona do que ele, a minha dirá:

“Gostei muito deste bocadinho.”

Penso que ele seria a única pessoa no mundo a achar verdadeiramente graça a isto. Acreditávamos ambos que uma piada pode resistir pelo menos tanto como o mármore.

No outro dia, perguntaram-me se sempre vou levar as cinzas ou deixá-las ficar e espantei-me com a pergunta. O plano não mudou, as cinzas têm destino. Mas não estão mal onde estão, lá isso é verdade, e continuo à espera do dia em que um visitante inadvertido perguntará: “Ah, esta areia trouxeste de donde?” e eu vou gostar de observar a sua expressão quando lhe explicar de que se trata. O que estou disposta a mudar é de frasco, até porque consigo ouvir o protesto do meu pai: “Meteste-me num frasco de champô?! Tem algum jeito?”

Nenhum de nós teve, alguma vez, jeito para o solene, lá isso não.

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por Augusta Clara às 19:30

Quarta-feira, 27.04.16

Da bondade dos desconhecidos - Carla Romualdo

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Carla Romualdo  Da bondade dos desconhecidos

 

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(Adão Cruz)

 

        Quando comecei a subir a rua, o Vítor ainda não era o Vítor, mas um homem em queda. Eu ia apressada, muito apressada, e ao longe vi um corpo que se deixava abater. Poucas coisas impressionam mais do que o corpo de um homem caído no chão. Quando cheguei ao pé dele perguntei-lhe, reconheço que foi uma idiotice, se estava a sentir-se mal. Toquei-lhe no ombro, insisti, e ele abriu os olhos. Era difícil adivinhar-lhe a idade, cinquenta, sessenta anos, cabelo cortado muito rente. Balbuciava. Aproximei-me para perceber o que dizia e ouvi, distintamente: “Quero morrer.”

Foi nesse momento que apareceu outro homem, vinha a correr, ajoelhou-se logo junto ao corpo do homem deitado no chão, e começou a perguntar-lhe coisas simples, sorridente e com voz tranquila, como se levasse a vida toda a socorrer gente caída. Ouviu as mesmas palavras que me tinham sido ditas. Recordou ao homem cujo nome ainda não sabíamos que não há dificuldade na vida da qual não se possa fazer um degrau para um dia melhor. O seu discurso era comovedor, não porque parecesse capaz de fazer grande diferença àquele a quem se dirigia (e quem sabe? talvez fizesse), mas sobretudo porque era vibrante de esperança e fé nos outros.

Levantámo-lo do chão, tentámos mantê-lo equilibrado, perguntámos-lhe o nome. Do outro lado da via rápida estavam as urgências do hospital, mas como chegar ali? O Vítor cambaleava, alcoolizado, sem forças, e queria que o deixassem no chão. Eu estava a caminho das urgências, ansiosa por chegar lá, e embora não visse como poderia fazê-lo, a tentação de fugir e deixar o Vítor e os seus problemas para trás não me largava. Comentei-o com o meu parceiro de socorro, o Daniel. Contou-me que também estava a caminho do hospital, para visitar a mulher e o filho recém-nascido. Apesar disso, amparava o Vítor, que se agarrava a ele e já não o queria deixar ir embora.

– Estou aqui, amigo, conte-me o que lhe aconteceu na vida para ficar assim.

Do outro lado da estrada, as urgências a que não conseguíamos chegar, muito menos com o Vítor. Estávamos os dois presos a este homem, o Daniel que queria ir ver o seu filho, eu que queria ir ver o meu pai, qual dos dois tinha melhor justificação para ir embora?

Combinámos um plano. Eu ia às urgências, encontrava alguém a quem contar a história, ficava a saber se tínhamos de ligar para o INEM ou se alguém poderia ir buscá-lo, afinal era só atravessar a estrada. O Daniel ficava com o Vítor, e eu ligava-lhe assim que tivesse notícias. A ideia foi do Daniel, claramente o mais generoso de nós, que me ofereceu maneira de ir embora sem levar um peso na consciência. Fiz tal como ele sugeriu, e a primeira pessoa que encontrei foi o segurança que guarda o acesso às urgências, um homem gigantesco, de braços musculados, que reconheceu o Vítor assim que eu comecei a contar a história.

– É a quarta vez que o INEM o traz hoje mas ele foge sempre. Os senhores têm de chamar o INEM, ninguém pode sair daqui para ir buscá-lo.

Telefonei ao Daniel e contei-lhe tudo. Ficou, como eu, desiludido. Esperávamos, de forma um tanto ingénua, que chegar ao hospital fosse o final feliz possível, isto é, que a intervenção de um profissional de saúde pudesse ser o início da solução para os problemas do Vítor, que haveria de vir um psiquiatra falar com ele, que daí seria encaminhado para um assistente social, que uma rede de apoio poderia traçar o melhor caminho para ajudar este homem. Agora nem sequer sabíamos se o Vítor aguentaria por ali o tempo suficiente para chegar a ser consultado. Quem poderia ajudá-lo? Um médico que conseguisse deitar-lhe a mão antes de fugir? A polícia? Um padre? Dois desconhecidos, como nós?

Despedimo-nos ao telefone. O Vítor, suponho, deu novamente entrada nas urgências. Quando saí não o encontrei. Fiquei a pensar nele e fiquei a pensar no Daniel. A bondade dos desconhecidos, essa a cujo braço se agarrava a pobre Blanche DuBois, é a humanidade no seu melhor. O Daniel estava ansioso por ver a mulher e o filho, tinha nesse facto uma desculpa perfeita para fugir dali, ninguém poderia censurar um pai impaciente por pegar no seu recém-nascido ao colo, mas deteve-se e ficou porque achou que havia ali um desconhecido que ainda precisava mais dele, naquele momento, naquela beira de estrada, mesmo em frente às urgências, mas muito longe delas.

Com os melhores desejos para o Vítor, este texto é para o Daniel, que me deu uma bela lição naquela tarde.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 12.04.16

Um jogador a menos - Carla Romualdo

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Carla Romualdo  Um jogador a menos

 

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Médium apanhada em flagrante a subir a mesa com o joelho. Sessão realizada em Paris, em 1950. Autor desconhecido.

 

   J. D. Moufons, um distinto cavalheiro que conheço das noites de poker, foi convidado por Matilde M. para uma séance em casa dela. A Matilde não bastava ter uma casa semelhante a um museu, com todas as paredes e recantos pejados de quadros, antiguidades e de retratos de gente que Matilde não sabe quem foram mas nos quais reconheceu, ao encontrá-los em dispersos antiquários, traços reveladores de uma força de carácter, de uma nobreza que só podiam ser suas antepassadas. Matilde também adoptara hábitos caídos em desuso, como beber mazagrã e organizar sessões espíritas em sua casa, sempre à terça-feira, porque era o dia em que o marido, avesso a excentricidades, saía para o bowling.

Moufons não tinha interesse no oculto. Não desejava comunicar com falecidos, nunca perdera tempo com especulações sobre o Além, não ansiava por respostas porque simplesmente nunca tivera vontade de fazer perguntas. Mas Matilde era insistente, repetia-lhe que ele tinha absolutamente de ir, e como, depois daquele aborrecido incidente com a espingarda de chumbos, Moufons vira muitos dos seus amigos afastarem-se, não queria perder a pouca vida social que lhe restava: as noites de poker e as excentricidades de Matilde.

Por isso, com um resignado suspiro, encharcado até aos ossos, porque a noite era de chuva torrencial, tocou à campainha da casa de Matilde, pontualmente, naquela noite de terça-feira. Se não tivesse ido, sabemo-lo agora, a sua pacata existência teria continuado sem sobressaltos. A sua escolha revelou-se, porém, decisiva. Confrontado com a insistência da médium, que de imediato detectou a presença de um intruso, acabou por constatar que, tal como ela lhe garantia com solidíssima convicção, ele estava já morto há sete anos e ainda não se havia apercebido disso.

Foi uma grande excitação em casa de Matilde, nunca os convivas se tinham sentido tão entusiasmados com uma séance, e o próprio Mouffons acabou por apreciar a súbita e pouco habitual atenção que lhe dedicaram. Quiseram saber como se sentia, se notara alguma diferença desde que morrera, uma azia, um reumatismo, uma perda de peso. Mas Mouffons não notara nada e sentia-se muito bem. Claro que agora teria de mudar de vida, disse, com uma risadinha tímida, logo seguida das gargalhadas de todos. Acabou por ser uma noite bem passada.

Já para nós, no grupo do poker das sextas, foi muito aborrecido. Agora temos um jogador a menos.

 

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por Augusta Clara às 16:20

Quinta-feira, 31.03.16

Cotovelo com cotovelo - Carla Romualdo

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Carla Romualdo  Cotovelo com cotovelo

 

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(Emilie Leger)

 

 

   A Lucrécia tem outro nome, um nome banal para uma mulher da sua geração, escolhido por uma madrinha modista de quem apenas resta um retrato nos estúdios Riviera, um leque comprado numa excursão a Salamanca e uma afilhada que recusa usar o nome que recebeu. Escolheu Lucrécia porque lhe soa a veneno, a perfídia e a poder.

A Lucrécia parou de contar a idade nos 69, já lá vai um bom tempo, mas ninguém lhe dá mais de 60. Loura platinada, pele morena (“Pareço uma cigana”), calças justas e camisolas com estampado de tigresa. Unhas longas e vermelhas. Muito vulgar na aparência, mas cuidadosa quando fala com quem não conhece.

Esteve casada com um cavalheiro que torrava fortunas no casino e que lhe deixou tudo penhorado. Gosta de contar histórias do seu paizinho patrão da indústria, da mãe que era uma judia alemã, muito loira e taciturna, que guardou até ao túmulo os segredos da sua fuga de Ravensbrück, e que era má como as cobras, Deus lhe perdoe, porque sofreu muito às mãos do Hitler.

A Lucrécia cresceu rebelde e fogosa e deixou a mãe muito aliviada quando, por fim, fugiu de casa. Engravidou aos dezassete, haveria de casar com outro, que foi como um pai para a criança e que era um santo homem, pena o vício do casino. Depois dele, só amou um, que acabou detido em Lisboa, e com quem só fala agora por telefone.

Ela é assim, explica-me, “toda coração e pele”. E com a profissão que tem, acrescenta, não podia ser outra coisa.

Eu não pergunto que profissão é essa porque já aprendi que me arrependo sempre da minha curiosidade excessiva, e, bem vistas as coisas, a torrente soltou-se e as revelações já não dependem da minha curiosidade.

Na casa pequenina onde nos conhecemos, e onde acabámos todos sentados à mesma mesa, enquanto couber outro banquinho apertamo-nos mais um pouco, cotovelo com cotovelo, evitam-se as confidências porque não se confunde espaço com intimidade e não se abre o coração a quem não se conhece de lado nenhum. A Lucrécia, cheira-me desde o início, é mentirosa. Mas eu sempre gostei que me contassem histórias.

As braceletes tilintam-lhe nos braços e as unhas vermelhas estendem-se para tocar-me no pulso. Para que são esses olhos tão grandes, Lucrécia?

– Quando precisar de alguma coisa, fale comigo. Sou parapsicóloga.

Ergo o copo e pisco-lhe um olho. Os mitómanos gostaram sempre de mim.

 

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por Augusta Clara às 17:30

Sexta-feira, 11.03.16

Já não há fantasmas - Carla Romualdo

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Carla Romualdo  Já não há fantasmas

 

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(Pavlina Fátorová)

 

 

   Aqui no bairro há um palacete que está há tempos para ser convertido em qualquer coisa ao serviço dos turistas mas não há meio de isso acontecer porque é preciso muito dinheiro para recuperar aquelas velhas paredes e o lugar é pouco apetecível para camones. É uma casa bastante feia, construída ao gosto novo-rico da época, e foi abandonada há mais de uma década. As portadas já não cerram e deixam esvoaçar cortinados negros e há vultos a assomar-se às janelas em noites de luar.

Não há crianças a pular o muro para ir explorar a casa porque as crianças já não fazem essas coisas, têm o tempo tomado por actividades extracurriculares, mas é uma casa claramente assombrada, a pedir que crianças com tempo livre vão lá assustar-se. E é precisamente neste ponto que começa o diferendo entre mim e o bairro. Espantosamente, já ninguém acredita em casas assombradas. Na mercearia olham para mim como se eu tivesse acabado de defender que é o sol a girar à nossa volta.

– Assombrada?! Ahahaha, diz cada coisa! – ri-se a merceeira, uma mulher de sorriso franco e rosto emoldurado por caracoizinhos de garota.

Os outros clientes também acham muita graça que “hoje em dia”, “nos tempos que correm”, com “tanta tecnologia” e “a internet” haja gente que acredita nessas histórias. Não é que eu acredite ou deixe de acreditar em fantasmas, só acho que o bairro se torna muitíssimo mais interessante se tiver uma casa assombrada. Também gostaria que por aqui houvesse um lago com um monstro pré-histórico que aparecesse em manhãs de neblina, mas o último terreno livre foi ocupado pelo supermercado e já vejo poucas possibilidades de isso vir a acontecer.

Até o meu filho, criança que está a ter uma esmerada educação como criptozoólogo amador, passa pelo palacete e torce o nariz quando eu lhe falo no altíssimo potencial de assombramento que têm aquelas paredes. Os fantasmas, definitivamente, são coisa careta. Mas continuo a não perceber essa concepção de assombramento e tecnologia como coisas que se auto-excluem. Em qualquer caso, creio que preferia conversar com um fantasma do que com um sistema operativo e não vai há muito que me sentei, boquiaberta, a ver um filme em que um homem se apaixonava pelo sistema operativo do seu computador.

O fantasma foi, pelo menos, humano, num outro tempo e talvez num outro espaço, e se algum canal de comunicação mantém com estes será por curiosidade, talvez por incompletude, arrependimento, talvez amor, desejo de testemunhar aquilo de que foi privado de viver, e com tudo isso posso identificar-me. Nada do que é humano num fantasma me é estranho, afinal.

Talvez os visitantes dos castelos assombrados se ocupem agora a tentar tirar uma selfie com um fantasma, coisa que deve ser complicada, porque fantasma que o seja de verdade será arisco às fotos, mas sobretudo desejará produzir uma impressão em quem o avista, não necessariamente medo, mas alguma perturbação que parece difícil “nos tempos que correm”, e não há grande disposição para o assombro quando uma pessoa está a actualizar o seu estado ou a espremer um pensamento para 140 caracteres. Já não há, assumamo-lo, condições para assombrar.

Já para não falar do dislate que é mencionar fantasmas quando os números macroeconómicos são o que são, e a borbulha imobiliária está para rebentar, e a Grécia, e a China, e o Japão, por favor, os tempos não estão para disparates.

No meio de tudo isto, que farão os fantasmas? Aborrecem-se, contam histórias mil vezes repetidas uns aos outros, atravessam as paredes de um lado para outro, de um lado para outro, de um lado para outro, comohamsters neuróticos? Atrevem-se a posar para uma selfie? Passam em frente das câmaras de vigilância na esperança de que alguém os veja e apareça, talvez com as pernas a tremer, o coração aos pulos, mas movido por essa curiosidade por uma boa história que ainda é o que nos faz sair da cama a muitos? Pergunto.

Fez-se um grande silêncio na mercearia. A merceeira, que é uma rapariga prática, rematou bem:

– Não quer levar um melão? É muito docinho.

Definitivamente, neste bairro ninguém me compreende. Deve ser por isso que eu gosto dele.

 

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por Augusta Clara às 16:50

Sexta-feira, 26.02.16

Jacob Maersk - Carla Romualdo

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Carla Romualdo  Jacob Maersk

 

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   Nós tivemos um navio naufragado na nossa praia, anos e anos a vê-lo enferrujar, um colosso enterrado, ou o que restava dele, um pedaço de proa ao alto, que os miúdos usavam como parque de diversões, perigoso como era, havia que trepá-lo apesar da inclinação, segurar-se às ripas podres, evitar as lâminas enferrujadas, e, uma vez conquistado, segurar-se bem ao bico da proa e olhar em volta, capitão por instantes. As meninas lingrinhas como eu não o trepavam mas ficavam a ver os rapazes, como se exibiam barco acima enquanto nós temíamos vê-los morrer ali mesmo enquanto comíamos maçãs, que história teríamos depois para contar, aquele rapaz matou-se no barco encalhado, era tão giro, fazia covinhas na cara quando ria. Mas eles salvavam-se sempre, regressavam ao areal triunfais, pegavam-se à porrada para celebrar o feito, obrigavam o vencido a comer areia, e nunca nenhum morreu, o que para nós era bom e entediante.

Ainda antes de nascermos, o encalhado fora um superpetroleiro dinamarquês, cruzava os mares com toneladas, mas fora encalhar num banco de areia, ardera durante três dias e com isso tornara a vida na cidade insuportável, fumos tóxicos, gente internada com problemas respiratórios, lojas fechadas. Depois uma parte afundou, mas a proa foi-se chegando a terra e ali ficou. Nós já só o conhecemos destroço. Deveria ter sido levado dali mas não foi, ou melhor só o seria ao fim de 20 anos, e de tanto ficar passou a ser parte da praia, como se tivéssemos herdado o areal cravejado de pedras pontiagudas, os rochedos, as gaivotas, o mar sempre gelado, os sargaços que atirávamos uns aos outros e que eram como tentáculos de criaturas espantosas que o mar escondia, frias e gelatinosas, e a ruína do barco, onírico navio fantasma que para nós estava ali desde sempre, uma advertência a navegantes, um sinal de que o improvável pode estar entre nós.

Naquelas manhãs em que o nevoeiro não levantava, e do mar vinha um bafo gelado, sentados a tiritar com a toalha pelas costas, ficávamos a olhar o barco engolido pela névoa e víamos sombras de marinheiros, esqueletos caminhando com passos cautelosos para não se desconjuntarem, um perfil de caveira com chapéu de pirata que se voltava lentamente para nós, e quando por fim nos encarava havia lume na cova dos seus olhos e uma gargalhada que nos fazia sair a correr aos gritos pela areia, e era bom ter medo de propósito e saber que não havia lá nada e ainda assim gritar e correr como loucos, e passar mesmo ao lado dos adultos estendidos nas toalhas e ouvi-los berrar, lá atrás, que não lhes mandássemos areia para os olhos, grandessíssimos malcriados que nós éramos.

E ao fim da tarde, quando o mar se incendiava e o barco era sombra, retomava o seu perfil de ruína orgulhosa, que trocara o fundo do mar por nós, seus guardiões involuntários, porque era melhor morrer na praia que perder-se no limbo silencioso que o esperava lá em baixo.

Quando o levaram por fim, ninguém pôde protestar contra a medida, tão certa do ponto de vista ambiental, tão necessária para garantir a segurança, tão regulamentar e ordeira. Mas lamentamos perdê-lo, porque era a nossa ruína, o nosso pesadelo feito fábula, o nosso medo convertido em gargalhada, e a praia sem ele era só uma praia.

Só agora, por ocasião dos 40 anos do naufrágio, conheci o seu nome: Jacob Maersk.

 

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por Augusta Clara às 17:30

Quinta-feira, 24.09.15

Taberneiras - Carla Romualdo

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Carla Romualdo  Taberneiras

 

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(Licínia Quitério)

 

 

 

   Sabemos que nos aceitaram quando as mulheres da casa nos tocam no ombro ou nos enlaçam pela cintura. São mulheres duras, calejadas, resmungonas, e nunca desbaratam os seus afagos por cálculo ou hipocrisia. Podem chamar-te “meu amor” quando te perguntam o que vais querer jantar, porque as palavras valem o que valem, mas só te tocam se tiveres vencido as barreiras que elas mesmas levantaram. A partir desse dia, és da casa.

E como és da casa, ouves catarses. Cenas de gajas, gritarias, uma garrafa de cerveja atirada ao chão, logo se disfarça dizendo que escorregou. Insultos trocados entre cozinha e balcão, mas também risadas insolentes e piadas à custa dos engatatões. Mulheres frustradas, que não estão a ir para novas, e que do amor só conheceram a traição e o bafo de vinho. Têm o coração amarrado, castigadinho com cordas para que não as meta em apuros, e gostam de comentar, com um sarcasmo que nunca chega a ser cruel, as paixões das novatas. Consolam a amiga que veio ver se o homem estava a emborcar ao balcão, e se ele vier, se ele aparecer, hão-de servir-lhe só um copo, mesmo perdendo de vender, e mandá-lo para casa com um empurrão porta fora.

São rijas e ásperas, têm língua afiada e sabem calar um homem com um berro, não precisam de ninguém que as defenda, não precisam de ninguém que as console, mas em certas noites de Janeiro, quando o vento empurra a porta que o último cliente deixou mal fechada e nos faz saltar a todos com o susto, no olhar que elas lançam a essa porta há uma sombra, há um fantasma, o de alguém que entrava assim e poderá ainda entrar, ou talvez já não. Há-de vir logo uma delas, a limpar as mãos ao avental para disfarçar o tremor dos dedos, e empurrar a porta com uma reprimenda para a sala, “Há aqui alguém que é de Braga, não sabe fechar a porta”, e assegurar-se de que ela fica bem fechada e encostar o rosto ao vidro embaciado para perscrutar a escuridão lá fora e ter a certeza de que não há sombras nem fantasmas, só noites de Janeiro, mas também elas hão-de passar.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 31.07.15

O caminho - Carla Romualdo

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Carla Romualdo  O caminho

 

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(Egon Schiele)

 

 

 

   Longa é a rua. Entrecruzada por ruelas transversais, ladeada por muros corroídos pelo tempo e pelas chuvas, de onde tombam camélias murchas, pétalas dilaceradas de rosas, estioladas folhas de plátanos. Começa lá no cimo, no largo de cimento e busto de mármore esverdeado e prolonga-se até à rotunda pertinho da casa dela. O caminho é sempre o mesmo – do largo onde ele a deixa ao número 2067, que é o da porta da sua casa.

Hoje, que é Maio e faz calor, Luísa desce a Rua de Todos os Santos, beatífico nome para tranquilíssima artéria, a mão esquerda crispada na alça do saco da ginástica e o rosto em chamas, ao sol.

O portão de grades azuis abrira-se com um rangido enferrujado e o carro branco, com uma amolgadela no pára-choques, entrara no recinto do parque e parara junto ao pavilhão central. Luísa caminhava para o ginásio, mas deteve-se a olhar a desconhecida que se dirigia para o gabinete envidraçado dos professores. Ele saiu ao encontro dela, beijou-a nos lábios e os dois entraram no pavilhão. Luísa deixou-se encostar à parede de tijolos do casinhoto em que os jardineiros arrumavam as ferramentas, e ficou à espera.

Pouco depois, ela saiu. Ele acenou-lhe enquanto ela entrava no carro. O portão abriu-se uma vez mais para que o carro amolgado deslizasse para o exterior. Ninguém vira Luísa. E Luísa, que vira afinal?

Por vezes sonhava com ela, mas nenhuma forma se concretizava, era um corpo jamais consubstanciado, de formas incertas e contornos difusos. Tentara imaginá-la muitas vezes, pedira-lhe que a deixasse ver uma foto. Ele recusara-se sempre a fazer qualquer tipo de descrição. “Não o fazia feliz” – era a única coisa que Luísa precisava de saber a respeito da outra. E por isso, mais do que uma mulher, Luísa imaginara uma sombra a pairar sobre ele, a copa sombria de uma árvore de ramos cerrados que o estrangulavam. Uma mulher-morcego, de sorriso de lábios negros e braços que o enlaçavam numa escuridão de que Luísa não conseguira ainda libertá-lo.

Mas onde estava a figura sombria? Ele sorria ao caminhar ao seu encontro. E foi assim que Luísa soube. Era ela;  ali estava. O ventre um pouco saliente sob as calças justas, o perfil ligeiramente curvado, uma mulher de trinta anos de beleza mediana e olhar apagado. Um corpo que exibia as marcas de uma gravidez, de um certo desleixo, de algum desamor. Era aquele o corpo. Alguma incerteza nos passos, a expressão aluada, os cabelos em desalinho. Era aquela a carne, era aquela a pele. O saco da ginástica tombou-lhe aos pés. As costas queimavam de encontro aos tijolos em brasa. Aproximaram os rostos um do outro, os lábios tocaram-se. Um beijo ténue, seco. Apenas o roçagar de duas peles. Luísa levou a mão à boca. Sentia-se tonta, nauseada. Havia ali carne e pele, e dois corpos que se tocavam, e até então Luísa só vira neblinas e sombras e distanciamento. Era também naquele ventre que ele se afundava. Havia um elo invisível a unir os corpos delas. O corpo de rapariga de Luísa, o corpo de mulher da outra.

Luísa desce a longa rua e o sol queima-lhe o rosto e o saco é cada vez mais pesado. Ontem percorreu este caminho e amanhã tornará a fazê-lo. Ocorre-lhe – provavelmente pela primeira vez – que seria bom não mais descer a longa rua de regresso à casa dos silêncios. Não mais aproveitar a boleia do Professor. Não mais ser Luísa, a descer a longa rua.

Tinha sido exactamente igual aos outros dias. Ele tomara a estrada lateral e parara no sítio do costume, debaixo da sombra das grandes árvores cujo nome ela desconhecia. Pousou a mão no joelho dela, como sempre fazia, depois da habitual precaução de olhar em torno e certificar-se de que não havia ninguém por perto. Mas quando os lábios dele se aproximaram da sua boca, Luísa afastou o rosto.

“Não me dás um beijinho?”

“Não consigo.”

As palavras soaram roucas, numa voz que não parecia a dela. Não esperava dizer aquilo, não sabia de onde tinham vindo as palavras que proferira, que parte de si ousara dizê-las.

“Não consegues?…”

A voz tremeu-lhe. Os seus dedos, prestes a erguerem-se dos joelhos redondos dela, não se atreveram a desapertar-lhe a blusa. Ficou imóvel e o rosto empalideceu-lhe. O silêncio na penumbra era mais pesado, mais difícil de suportar. O ar era denso e doía no peito. Uma folha caiu sobre o pára-brisas e escorregou devagar pelo vidro.

“E uma festinha… não me queres fazer?”

Devia sair do carro. Luísa imaginou-se a agarrar no saco da ginástica, a abrir a porta sem lhe dar tempo a um gesto sequer, e largar a correr até a sombra chegar ao fim e ela tornar a ser capaz de reconhecer as ruas e as casas sob a copa cerrada das árvores. Imaginara o mesmo na primeira vez. Era Outono e chovia e ele pegara na mão dela e pousara-a sobre a braguilha. Quatro botões de metal reluziam na penumbra. Ela não fugira. Desapertou lentamente os botões, sem levantar os olhos para o rosto dele. Nenhum deles falara. Fora a primeira vez que o silêncio lhe pesou no peito e fez doer qualquer coisa desconhecida. Enfiou a mão sob as calças dele e afastou o tecido da roupa interior. Ele gemeu baixinho e Luísa sentiu-o estremecer. Tocou-lhe a pele morna e elástica. Apertou-o entre os dedos e fê-lo deslizar, repetindo os movimentos que não sabia conhecer. Ele gemia e ela observava-o, espantada com as reacções dele, espantada consigo mesma. Estava extraordinariamente atenta a tudo, era sensível a cada alteração, a cada uma das vibrações dele. Os seus sentidos estavam atentos como nunca, guiavam o caminho, demonstravam conhecer coisas até aí insuspeitadas. Uma vibração estranha, uma melodia desconhecida, crescia dentro dela. A chuva batia nos vidros do carro, escorria sinuosamente, e era como se entre eles e o mundo houvesse um véu que desfocava tudo. Ele semicerrara os olhos. Luísa parava, retomava os movimentos, observava-o, suspendia os gestos para fitar o rosto contorcido dele, prosseguia depois, absolutamente concentrada no movimento da sua mão, no vaivém constante, na intensidade crescente daquele gesto. A chuva batia contra os vidros embaciados, adensava o véu que os separava do mundo. Sentia a respiração dele no seu ouvido, o sopro quente no pescoço, o cabelo dela colava-se aos lábios dele. As mãos dele afastavam-lhe a blusa, percorriam-lhe a pele. Havia uma violência crescente e não havia violência. Queria afastar-se, mas sabia que não estava a ser magoada, que nada daquilo era uma agressão. Queria fugir, mas sentia-se culpada. Não conseguia suster os seus movimentos, não conseguia afastá-lo dela. Não conseguia afastar-se dele.

Depois terminou. Luísa sentiu-o inteiriçar-se na mão dela, o rosto dele contorceu-se um pouco mais e um gemido soltou-se da sua garganta, as mãos fecharam-se no peito dela. Ela retirou a mão húmida e pegajosa e ficou a olhá-la com uma atenção que o embaraçou, a atenção de quem espreita, pelo microscópio, o resultado de alguma experiência laboratorial. Ele retirou um lenço do bolso e limpou-lhe a mão. Depois beijou-a no rosto, como viria a fazer muitas vezes, sobretudo nos momentos em que se comovia e lhe dizia ser um homem horrível e que ela tinha razões para odiá-lo.

Dessa vez, porém, não disse isso. No dia quente de Maio, dia em que a outra ganhara um rosto e um corpo, dia em que Luísa não podia beijá-lo, ele disse:

“Não me fazes uma festinha?”

Veio o silêncio, novamente. O silêncio que magoava. Fora esse silêncio que a fez tocar-lhe. Era a única forma que conhecia de remediar tudo, e era simples. Tudo se resumia a alguns movimentos que ela conhecia já muito bem e a uma mão húmida que ele limparia depois. Fora essa a aprendizagem, fora ele que lho ensinara.

Discretamente, ele olhou o relógio. Já não tentou beijá-la.

“Já vi que hoje estás mal disposta. Não tem importância, há-de passar-te. Agora tenho de ir. Deixo-te no sítio do costume, está bem?”

Luísa acenou que sim. No sítio do costume, no largo onde se abria a Rua de Todos os Santos, silenciosa ao calor da tarde.

Longa, longa é a rua. A caminho de casa, Luísa aperta um lenço na mão direita e recorda o final da tarde de Outono. Ele ligou os limpa pára-brisas e o véu rasgou-se de repente e o mundo apareceu de novo, exactamente como o haviam deixado.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quarta-feira, 13.05.15

Se o Alcino sai, a rua pára - Carla Romualdo

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Carla Romualdo  Se o Alcino sai, a rua pára

 

alice no país das maravilhas.png

 

   Já tinha ouvido falar no Alcino, no café, na mercearia, em conversas de rua. “Então, viste o Alcino?”, perguntavam-se uns aos outros. “O Alcino tem andado fugido”, dizia outro.” “Ontem vi o Alcino, lá ia todo lampeiro”.

A rua inteira parecia conhecer o Alcino, mas eu, recém-chegado ao bairro, não fazia ideia de quem pudesse ser.

Levava pouco mais de uma semana no escritório quando o chefe mandou encerrar a varanda onde fumávamos. Transformou o espaço aberto numa marquise com caixilharia de alumínio e instalou ali uma sala de estar para ele. Começámos a descer à rua para fumar, cinco minutos de manhã, outros cinco minutos à tarde.

No escritório, a maioria protestou, ter de apanhar chuva e sol, correntes de ar, ter de descer e subir escadas, que o elevador só funcionava quando queria, para um miserável intervalo de cinco minutos. Mas a varanda dava para as traseiras dos outros prédios, víamos os mesmos miseráveis cinco minutos de outros como nós, ou a dona de casa que estendia as peúgas do marido, e aquilo sabia-me a pátio de cadeia, sem sequer poder dar uma voltinha completa.

Eu queria era ir até à rua como quem vai para o cesto da gávea, observador silencioso e não comprometido, calado e a sós com o meu cigarro. Na primeira manhã não vi nada que já não conhecesse, o movimento normal de carros e vizinhos. À tarde não pude sair porque tinha trabalho para acabar.

Na segunda manhã, saí com a intenção de encostar-me à porta da rua e acender um cigarro, mas deparei-me com a rua repleta de gente, todos parados a olhar a porta do quiosque da D.ª Amélia, que eu conhecia de ir lá registar o euromilhões, e de onde saía nesse momento a própria, segurando uma trela comprida ao fim da qual havia uma criatura felpuda e de grandes orelhas, que avançava aos saltinhos, para gáudio da dona e de todos os assistentes. Era um coelho.

Um agente da PSP fazia sinal aos carros para que detivessem a circulação e, de uma varanda, uma velhinha que eu costumava ver regar as begónias lançava pétalas de rosas para o chão, mesmo à porta do quiosque. O coelho cheirava nervosamente o chão, o ar ao seu redor, as próprias patas. O vizinho do andar de baixo, que eu nem tinha ouvido chegar, murmurou-me ao ouvido.

– Está a ver se está tudo pronto. É tão esperto!

O silêncio cresceu. Não havia trânsito, ninguém falava, suspeito que até os aviões tinham alterado a sua rota. O coelho parou de cheirar, levantou a cabecinha alongada, os bigoditos luzidios estremeceram-lhe levemente, e então olhou em frente e avançou, com um saltinho decidido.

A dona reluzia de orgulho. Caminhava muito solene, segurando a trela com firmeza, mas sem nunca puxar por ela, não fosse apertar o gasganete ao bicho, ajustando muito bem os seus passos ao ritmo do coelho. Ninguém dizia palavra. Dentro dos carros, os condutores seguiam a evolução do passeio do bicho com paciência e atenção, em todas as janelas e varandas havia alguém a ver, a fazer fotos, a sorrir com enlevo.

O coelho saltitava, saltitava. A meio da rua deteve-se. Tensão, expectativa. Passou uma patinha pelos bigodes, sinal pelos vistos já conhecido, porque uma multidão acorreu para o bicho, de cenoura em punho. O que chegou primeiro aproximou-a das dentolas do coelho e segurou-a o tempo suficiente para que ele comesse o que lhe apetecia. Quando o bicho afastou o focinhito enjoado, o homem recuou e foi retomar o seu lugar, e ainda vi alguém que lhe dava uma palmadinha no ombro, de felicitações.

O vizinho também voltou para o pé de mim, um sorriso envergonhado, a enfiar outra vez a cenoura no bolso.

– Ainda não foi desta que eu consegui chegar primeiro ao Alcino, caramba. Mas um dia há-de-ser!

À minha volta, todos guardavam a cenoura no bolso de novo, as senhoras embrulhavam-na num saquinho de plástico do supermercado antes de enfiá-la na mala.

– Este é que o Alcino? – perguntei.

– Claro! – respondeu-me o vizinho com ar de quem acaba de confirmar que claro que sim, a Terra é redonda!

O Alcino, entretanto, chegou ao outro lado da rua. Irromperam todos numa salva de palmas e ele deteve-se frente a uma casa dez metros acima do meu escritório, e que era, tanto quanto percebi, a sua habitação. A dona passou-lhe um toalhete húmido pelas patinhas e o bicho recolheu a casa, ordeira e cortesmente, com um último saltinho que o afastou dos olhares da multidão. O polícia pôs o trânsito a circular de novo, toda a gente voltou aos seus afazeres e só então me dei conta que o cigarro se tinha consumido até ao filtro sem que eu chegasse a fumá-lo.

Nessa mesma tarde, pedi ao chefe que me deixasse fumar na marquise. Em troca, faço quinze minutos a mais todos os dias, sem cobrar. Antes isso que andar com uma cenoura no bolso.

 

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por Augusta Clara às 17:00

Terça-feira, 05.05.15

Jovens folhas - Carla Romualdo

a poalha dos dias5a.jpg

 

Carla Romualdo  Jovens folhas

 

iven albright, tje farmer's kitchen, 1934a.jpg

 

(Iven Albright)

 

 

   Se a tivessem conhecido, a primeira pergunta que ela vos teria feito, aposto convosco, seria:

– Quantos anos me dá?

E enquanto vocês atiravam números errados – 70, 73, 77, 80 – ela ficaria a olhar-vos com olhinhos matreiros, antegozando a vossa surpresa quando ela vos dissesse a verdade.

– Pois tenho 86, feitos em Janeiro.

E percebendo a alegria que lhe davam, vocês haveriam de exagerar o vosso espanto, que, não sendo pequeno, porque ela sempre aparentou menos idade, podia bem ser aumentado para alegria e orgulho da D. Carmen.

Assim foi a primeira conversa com a nova vizinha, quando há anos mudei de casa. Passei as semanas seguintes a vê-la saltar pequenos muros, a passear-se pelo bairro com grandes passadas e o andar sacudido de um basquetebolista, um caminhar de rapaz reguila que contrastava de forma bizarra com as ondinhas brancas do seu cabelo e os travessões de menina. Via-a nua muitas vezes, ou não gostasse ela de saudar o sol pondo-se em pelota à janela a cada manhã, ou porque achava que ninguém a via ou porque tanto lhe dava.

Da minha varanda vejo a casa dela, em frente à minha, uma casa baixinha, com um talhãozito de terra ao lado. Vivia sozinha, com visitas frequentes de um familiar, e a única coisa de que se queixava era do tempo porque, como eu, passava frio de Outubro a Maio. Conhecia-a durante todos estes anos sem nunca a conhecer muito bem, não mais do que as curtas conversas de vizinhos que não se frequentam.

Já adivinham por esta altura que a Carmen se despediu deste mundo há umas semanas com a mesma discrição com que vivia, sem dar trabalho e sem fazer alarde. Ninguém avisou da notícia e quando se soube já o funeral tinha sido, triste exemplo da falta de relações de vizinhança, que já nem um último ramo de flores nos deixa oferecer a quem se despede.

Mas o que descobrimos, entretanto, é que a Carmen não foi embora ainda. Uns dias antes de morrer tínhamo-la visto na sua nesga de horta, atarefada em volta da terra. E agora que a casa está fechada, e as portadas já não se abrem para a saudação ao sol, nem se ouve o baque metálico do portão a fechar-se quando ela saía para comprar pão, começaram a irromper na horta as couves, os tomates, as abóboras, as primeiras folhas que a semeadora já não conheceu. Como ninguém vem abrir a casa e deixar que a aragem volte a correr entre quatro paredes, não há quem cuide das jovens folhas e do seu tenro despontar. Por isso revezamo-nos a enfiar mangueiras pelas grades e a lançar baldes de água para a horta encerrada.

Semeia-se sempre para o tempo que ainda não se conhece. As folhas crescem sem que ninguém as vigie e das sementes que se lançaram à terra pode nascer a planta que nos sobreviverá. Chegará o tempo de colher os frutos da terra, os frutos da Carmen, e talvez nos toque assaltar-lhe a horta para fazer justiça à semeadora. Porque ela haveria de querer que comêssemos estes frutos e a lembrássemos, à semeadora que deixou na terra a sua despedida.

Onde estiveres, fica sabendo, Carmen, que as folhas estão viçosas e finalmente há sol na tua horta e até na janela onde já não estás.

 

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por Augusta Clara às 14:00



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