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Jardim das Delícias


Quinta-feira, 03.05.18

Corrupção - ataquem o Cérbero monstro das três cabeças. Não sejam cobardes nem cúmplices - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  Corrupção - ataquem o Cérbero monstro das três cabeças. Não sejam cobardes nem cúmplice

 

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   Vamos falar de corrupção? A sério?

Podíamos falar da constituição de monopólios do tempo da primeira industrialização de Portugal, a do Marquês de Pombal, mas vamos ao tempo aqui mesmo ao virar da porta. Como se reconstruiram os grupos privados após a nacionalização da banca em 11 de Março de 1975? Como reapareceram os bancos privados, como surgiram o BIP, das confederações do Porto, Santos Silva, o BCP/Millenium da Opus Dei, Jardim Gonçalves, o BPN de Oliveira e Costa, como reapareceram os Espirito Santo, como desapareceram os Burney, os Pinto Basto, o Totta e Açores, o Pinto e Sotto Mayor, o Crédito Predial, como desapareceu o Banco Português do Atlântico de Cupertino de Miranda e o Pinto Magalhães? Como apareceram os Mello /CUF no sector da saúde privada e nas auto-estradas e como desapareceu a CUF, um grupo insustrial? Como desapareceu a SACOR e surgiu a GALP? Como foram atribuídas as concessões de estradas – BRISA e Autoestradas do AtLântico, de portos, de aeroportos?

Em resumo: Como surgiu a Quinta da Marinha após o 25 de Novembro? Como desapareceram a Siderurgia Nacional, a CIMPOR, a CUF /SAPEC- adubos, as papeleiras, as refinarias nacionais – SACOR e surgiram os concessionários das portagens de autoestradas, os comissionistas de taxas de combustíveis e de electricidade, os merceeiros da grande distribuição?

Corrupção. Como se constroem impérios de serviços? A SONAE, ou o Pingo Doce, ou a Brisa, ou a CUF saúde? Como se constrói uma sociedade de rendas, de rentistas, sem pagar comissões ao poder político?

E não só, como se mantém a ficção de que vivemos num regime de seriedade sem uma comunicação social por conta, como as amantes? A comunicação social é corrupta desde o miolo. É a comunicação da corrupção e ao serviço da corrupção!

Existe algum chefe de governo desde 25 de Novembro de 1975 que não tenha sido um avençado dos grupos cuja criação ou recriação promoveu? Mais, existe algum presidente da República que não tenha sido um instrumento destes poderes? Quem não se aboletou com os fundos estruturais da CEE? A UGT nasceu como? Já alguém ouviu o Torres (um peão, é certo) Couto sobre os fundos para a formação? E quanto ao abate da frota pesqueira ? E sobre a destruição do olival? E sobre a plantação do eucalipto? E como foram elaborados os PDM, os planos directores que trouxeram 80% da população para a faixa litoral? Existe alguém nos vários governos com as mãos limpas?

Como surgiram bancos fantasmas do tipo BPN sem corrupção no topo do regime?

Tenho sobre o cristo do momento, Manuel Pinho, a pior das opiniões: enojam-me os zequinhas como ele, os patetas como ele, os pequenos vigaristas como ele, mas falemos então de gente que determinou o que está a acontecer: Julguem o Ricardo Espirito Santo Salgado! Comecem por ele e deixem para já os peixinhos de aquário, como o Pinho dos corninhos a abrir e a fechar a boca e os Sócrates.

Vamos ser sérios: na operação Marquês comecem por Salgado e pelo Banco Espirito Santo. No caso do Pinho, ou do Sócrates, comecem por Espirito Santo. Sentem Ricardo Espirito Santo Salgado no banco e comecem a fazer-lhe perguntas. Quem o trouxe de regresso a Portugal? Que apoios ele teve para reconstituir o seu império? E chamem Jardim Gonçalves! E chamem as famílias Cupertino de Miranda e de Pinto Magalhães!

Mas, antes de tudo tenham a coragem de julgar Ricardo Espirito Santo Salgado! É nele que tudo começa e é aos Espirito Santo que tudo vai dar. Não sejam cobardes e não atirem areia aos olhos dos portugueses!

Tenham os jornalistas a coragem de ir ao centro do vulcão! Ao Espirito Santo! Porque não vão? Medo? Cumplicidade?

O resto, os ataques a Sócrates e a Pinho são demonstrações de rafeiros que ladram mas não mordem. Estamos a ser – os portugueses em geral – sujeitos a uma barreira de mistificadores e de cobardes que nos querem pôr a discutir as gorjetas que os mandaletes de fazer recados, os groom, receberam quando a questão é a do dono do hotel. Mas esse deu muito dinheiro a ganhar. Sabe muitas histórias… Não é?

A história da corrupção que nos está a ser contada é a história da cobardia de jornalistas e de magistrados. De canalhas que estão a apontar para o lado – foi aquele menino - para que não olhemos para eles.

É o desafio, o meu: políticos, jornalistas, magistrados, tenham espinha, encham o peito e vão a ele! Não sejam rafeiros! Não sejam merdas: atirem-se ao Cérbero, ao “demónio do poço” na mitologia grega, ao monstruoso cão de três cabeças que guardava a entrada do mundo inferior, o reino subterrâneo dos mortos, deixando as almas entrarem, mas jamais saírem e despedaçando os mortais que por lá se aventurassem. Vão à fonte da corrupção: ao Espírito Santo.

Falta-vos coragem? Comeram desse tacho? Não?

Se não falta coragem, se não comeram desse tacho, atirem-se ao Espírito Santo, ao monstro, ao Cérbero, exijam o seu julgamento! Ele sorri e escarnece de vós à saída das audiências! Vão a ele!

O resto são merdices e areia para os olhos do pagode.

 

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por Augusta Clara às 18:05

Segunda-feira, 25.01.16

A propósito da eleição de Marcelo Rebelo de Sousa - Carlos de Matos Gomes

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   A propósito da eleição de Marcelo Rebelo de Sousa. Primeiro: parabéns a Marcelo. Quis e conseguiu. Foi premiado. Segundo: parabéns aos portugueses: quiseram e tiveram o que quiseram. Terceiro, parabéns à democracia que permitiu a Marcelo ser eleito e aos portugueses elegerem quem quiseram. Estamos todos de parabéns. Assim é que é bonito!
Sou, desde que me conheço, adepto e praticante do princípio (herança materna) de que, em boa parte, temos o que merecemos e somos capazes de alcançar.

Como povo fomos tendo ao longo da História o que conseguimos. Temos uma História que nos diz que somos mais assim - como a primeira ilustração: obedientes e servis e só raramente como os da segunda ilustração, os assado que se revoltam. O resultado desta eleição é apenas mais um acto de mansidão. Venham a mim os mansos, poderia Marcelo dizer.

Hoje, mais uma vez, fomos mais assim e digo-o sem qualquer azedume, nem tristeza, do que assado.

Guterres, aquele que poderia ser o presidente em vez de Marcelo, também pensa assim como os portugueses: não lhe agrada muito pertencer ao rebanho dos servos, dos assim, mas ainda lhe agrada menos meter-se em assados de revolta e contestação. Prefere um trono de dar bons conselhos sem consequências, como o da ONU. É o melhor exemplar de português que refila mas amouxa.

É fácil, neste quadro de assim, contra assado(S), perceber a ausência de jovens da política nacional e a sua fuga para o emprego no estrangeiro. Nem são assim, dispostos a serem servos, nem querem ser obrigados aos assados de uma revolta. Os pais e os avós já se queimaram por isso e até as pensões lhes levaram.

Marcelo escolheu para palco da sua proclamação aos súbitos a Faculdade de Direito, o local que forma os guardiões da lei, da ordem, da conservação. A sede do império dos desafectos, que todas as faculdades de direito são. Escolheu o local da impostura em que assentamos a nossa vida colectiva: a de que a de que a lei promove a justiça, quando de facto promove a ordem e defende o poder.

Para ser coerente, Marcelo deveria ir a Fátima agradecer e tomar posse em Mafra. Os locais em que os portugueses celebram a fé e a crença no divino para a realização dos seus desejos e derrota dos seus temores. É essa política que Marcelo nos promete: ordem e fé, O mesmo que prometeu o seu padrinho e homónimo Caetano aos portugueses ao tomar posse: fé no futuro porque temos um passado abençoado. Funcionou até à revolta dos descamisados…

Assim e assado

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por Augusta Clara às 19:00

Sexta-feira, 13.11.15

Os bárbaros estão a chegar - Carlos de Matos Gomes

 

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Carlos de Matos Gomes  Os bárbaros estão a chegar

 

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   "Um governo de esquerda vai levar-nos a um novo resgate"- João Salgueiro

“Prefiro mil vezes os credores aos comunistas” - António Barreto

“Anticomunista, obrigada!” – Clara Ferreira Alves

Li, não sei onde, nem quando, talvez a propósito das invasões francesas, quando investigava para “A Estrada dos Silêncios”, uma história muito interessante sobre a necessidade do medo. De ter medo e de transmitir o medo. De uma sociedade cujos sacerdotes não sabem, nem podem viver sem o medo. Sem pregarem o medo.

Num local e num tempo que já não recordo, ao receberem a notícia de que um bando de bárbaros estava a preparar-se para invadir a sua cidade, ou vila, os habitantes entraram em pânico. “Os bárbaros estão a chegar! E agora? O que faremos?!” Tocaram os sinos a rebate. Parou tudo e as pessoas passaram a viver desaustinadamente, alimentando-se desse pânico. Nada valia a pena, porque os bárbaros estavam para chegar e seria um caos. Só que os anunciados invasores não apareceram. Era boato, ou desistiram de invadir aquela cidade. E o que antes era pânico tornou-se perplexidade: “Mas então os bárbaros não estão a chegar? E agora? O que faremos?”

O verdadeiro medo não está no novo, mas naquilo que deixamos para trás quando somos obrigados a mudar. É este o medo da direita representada pela PAF.

E, quando não somos obrigados a mudar, demoramos muito a decidir, ou a aceitar a mudança. É o caso de Cavaco Silva, perdido no seu labirinto de incapacidades e de congénita mesquinhez, sem saber o que fazer se os bárbaros estiverem a chegar, nem se, afinal, não houver bárbaros.

O que os textos destes representantes da intelligentsia nacional revelam é que eles vivem do medo. Nada de extraordinário numa civilização em que o poder assenta no convencimento da existência de um pecado original que diferencia ricos dos pobres, senhores e servos, no castigo terreno em nome de Deus para os recalcitrantes e no temor do Inferno após a morte.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 23.10.15

Testemunhas de Jeová - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  Testemunhas de Jeová 

 

 

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   A comunicação social portuguesa transformou-se na Sociedade Torre Vigia do Sião. A possibilidade de um governo apoiado numa maioria de esquerda converteu a comunidade jornalistas e opinadores em missionários da congregação de leitores fundamentalistas da Bíblia criada por Charles Taze na Pensilvânia, nos Estados Unidos. Todos transmitem a mensagem dos “meninos de Deus” de aviso da proximidade do fim do mundo. As televisões, as rádios, os jornais foram assaltados por bandos de pregadores bíblicos que anunciam o Armagedão, a batalha decisiva entre o Bem e o Mal.

Por obra e graça da proposta de um vulgar secretário geral de um vulgar Partido Socialista de chefiar um vulgar governo de um pequeno Estado com o apoio de um vulgar partido que reúne cidadãos oriundos de vários movimentos da esquerda europeia pós Maio 68, maioritariamente de classe média urbana e progressista e de um vulgar partido comunista que procura o seu lugar nos novos tempos históricos, os opinadores que enxameiam a comunicação social portuguesa transformaram-se em esconjuradores bíblicos. Para a comunicação social portuguesa António Costa passou a ser o Anjo do Mal. Nas redacções de jornais, rádios e televisões a escatologia passou a ser religião única. Descobrimos que existem mais Césares das Neves nas televisões, jornais e rádios que ricos nas Bahamas!

A possibilidade de um governo normal, que substitua o gangue que devastou Portugal durante quatro anos, incendiou o desejo de salvação através da palavra que existe em cada plumitivo. De repente, perante o fim do mundo que avança com António Costa à frente, a multidão de crentes nas bênçãos dos mercados subiu aos púlpitos, saiu à rua para, de porta em porta e com os olhos arregalados, a voz num sufoco, anunciar o perigo mortal que aí vem com comunistas, bloquistas e outros apóstatas do euro, da dívida, do défice, da austeridade, em suma. Passaram a ser testemunhas da única religião verdadeira, a do paga e aguenta. Passos Coelho, Paulo Portas e a sua PAF passaram à categoria de Guardiões do Templo de Jeová. Todos repetem a frase bíblica de Isaías: “Antes de mim não foi formado nenhum Deus e depois de mim continuou a não haver nenhum.”

Nada existia antes deles e nada existirá depois deles, garantem com ar zangado dos Césares da Neves as testemunhas e os meninos de Deus que desfilam por ecrãs de televisão ou em fotografias nos jornais. São as testemunhas fiéis e verdadeiras que lutam para impedir a chegada do Apocalipse.

A possibilidade de um governo do Partido Socialista, apoiado pelo Bloco de Esquerda e pelo Partido Comunista revelou que a comunicação social portuguesa é uma seita. Uma seita como a das Testemunhas de Jeová, com os seus membros subordinados a um secreto Corpo Governante, o único com autoridade para interpretar as Escrituras.

A tentativa de António Costa teve, pelo menos, o mérito de desmascarar a falsidade da independência e da pluralidade da comunicação social. Sobra uma seita de pregadores bíblicos, de Césares da Neves, que nos impingem a “Boas Novas do Reino de Deus”. Do seu. Se quiserem saber tudo o que há para saber, e salvarem-se do Mal que se aproxima leiam a Sentinela e o Despertai, os órgãos oficiais da seita.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Sexta-feira, 16.10.15

Cara ou coroa e a moral na política - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  Cara ou coroa e a moral na política

 

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   Para os dirigentes e militantes do Partido Socialista, uma das hipóteses de intervir na formação de um governo com os resultados das eleições seria a do cara ou coroa de lançar a moeda. Evitaria as dores dos dilemas. Infelizmente, está prevista nas leis da Federação de Futebol, mas não na Constituição da República. A rever. Assim, há que escolher entre duas saídas.

É fácil de perceber que os próximos tempos vão ser muito difíceis para os portugueses e também para o governo. Isto é consensual. Perante esta evidência vieram à superfície duas fações do PS, a dos moderados do aparelho (digamos assim) e a dos idealistas.

Os primeiros, os sensatos são adeptos de um governo da PAF, com apoio do PS. Esta solução teria, segundo eles, várias vantagens, a PAF ficara com o odioso das decisões difíceis, o governo duraria dois anos, o que dava tempo para defenestrar o actual secretário geram, provocar uma crise e ganhar as próximas eleições, com novos dirigentes, os da sua fação. É uma solução tática. Para estes o povo é apenas a massa que, não tendo sido suficientemente será sovada, sofrerá mais uns tratos de polé até fermentar noutra maioria.   São adeptos de que o sacrifício e a dor são virtuosos, que o povo só aprende com pancada. Do quanto pior, melhor. Leninistas: entendem que o acentuar das contradições leva o povo à revolta e à eslha certa, neles.

Os segundos, os idealistas, entendem que o governo da coligação do PSD/CDS que foi agora crismada como PAF, causou uma devastação intolerável na sociedade portuguesa, desbaratando empresas, riqueza, quebrando o contrato social entre o Estado e os cidadãos, destruindo serviços públicos, exacerbando conflitos entre novos e velhos, entre ativos e pensionistas. Entendem que, um novo governo PAF acentuará os males e fomentará o fosso entre ricos e pobres, fomentará, como é reconhecido em todos os relatórios o aumento das desigualdade sociais. Para esta fação, vale a pena correr o risco de formar um governo que atenue as desigualdades, que alivie as penas e os sacrifícios. É uma posição de base moral.

Os técnicos de propaganda da PAF têm insistido na ideia de que a solução destes últimos é antinatural – a lógica deles assenta, de facto e há muito, no princípio de que o poder é o segredo do bom negócio. De que a política é o poder de dominar (ou modelar a seu jeito) a moral e o direito. O que é historicamente comprovado.

Uma fação do PS está em guerra civil, pronta a aliar-se à PAF, por questões de tática, a outra fação está disposta a correr riscos em nome de princípios – é uma estratégia. É neste pé que as coisas se encontram no PS. O presidente da República, como árbitro do jogo, podia lançar a moeda ao ar. Mas ele é parte interessada e escolherá a solução que favoreça os seus. Ele dará posse a um governo PAF. Esperará que a esquerda rejeite o programa, ou o orçamento. Atribuirá as culpas da ingovernabilidade à PAF. Esperará que a fação anti-costa do PS o derrube. Deixará esta situação ao seu sucessor, esperando que seja Marcelo e que este crie condições para daqui a um ano a PAF se possa aliar ao novo PS, um PS à maneira, mansinho, com lugares para os seus pequenos regedores. E assim se faz Portugal, uns vão bem, outros mal.

O povo, quer o que votou, quer o que se absteve, joga à raspadinha, ou no euromilhões. A solução da moeda ao ar era capaz de uma boa ideia. Portugal, além de estar na moda por causa dos tuc tuc, passava a sair nos jornais por escolher um governo pelo método da cara ou coroa.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 11.09.15

A nudez da Joana - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  A nudez da Joana

 

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   Sem entrar em intimidades pessoais, acreditem que vejo nus há dezenas de anos, que frequentei lugares de nudez do mais rasca ao mais sofisticado, aqui em Portugal, no estrangeiro e além-mar. Ao vivo, em fotografia, em escultura, em pintura. Até em sonhos. Vi nus belos e horrorosos. Não é da moral, nem da estética do nu, nem de pudores, nem de direitos de cada um ao seu nu que me interessa. Mas do nu como mensagem. No caso, do nu como propaganda política.

Não gosto de políticos nus, porque nos políticos me interessa o que eles têm vestido. Porque é o que eles vestem que me diz quem eles são, o que querem, o que pensam de si e dos outros. É através do que vestem que eu sei o respeito que têm pelos outros. Como se adequam a cada momento da vida e da história. Cavaco Silva, por exemplo, de fato e gravata numa feira, hirto como um manequim a quem a roupa de cidade assentará sempre mal, parecerá sempre uma carapaça, diz muito mais do político do que Cavaco Silva nu, seja lá onde for.

A nudez de Joana Amaral Dias diz-me várias coisas, a primeira é a falta de originalidade. Há dezenas de anos que revistas internacionais de moda e comportamentos urbanos fazem capas com o corpo nu de mulheres mais ou menos conhecidas. Nada de novo. Nem o nu, nem o atraso com que essa moda aqui chegou. A segunda é a associação do nu ao minimalismo: o nu é a ausência. Onde os adeptos deste tipo de nu referirão a ausência de preconceitos, eu percebi a ausência de ideias a transmitir. O nu transmite, ou pretende transmitir um choque. No caso de Joana, um choque de liberdade e de modernidade. Já agora, para referir outro nu, o da cabeça nua e também exposta da mulher de Passos Coelho, um choque de piedade e de solidariedade. A publicidade vive destes choques. Por detrás do nu, está vestido um produto. Seja um voto, seja um champô. Por detrás do nu, está o fotógrafo e o vendedor.

A barriga nua da Joana e a cabeça nua da mulher do primeiro ministro são cartazes de produtos que necessitam deste choque para serem vendidos. Se esses produtos necessitam da nudez para se imporem no mercado, desconfio que não sejam bons produtos. A Amália Rodrigues nunca precisou de cantar nua para ser uma grande, uma genial cantora. Salgueiro Maia nunca precisou de se fotografar nu para ser aquele que foi capaz de comandar a mais difícil operação militar da nossa história contemporânea e a que mais profundas consequências teve para a nação que somos. Desde logo a que abriu portas à democracia e à descolonização. Churchill, que proferiu o discurso do sangue suor e lágrimas que mobilizou forças contra o nazismo, embora por vezes despachasse dentro da banheira, nunca se fotografou nu, embora acredite que não tomasse banho vestido.

Ao nu, o que é do nu, à política o que é da política. O nu na política é, por norma, má propaganda e está associado à nudez das mensagens. Quando a manteiga é pouca, dizia um amigo meu, tem de ser muito bem espalhada. Eu não acredito que a nudez, seja a da barriga, seja a da cabeça, ajudem a espalhar a pouca manteiga que cada um dos atores tem para nos oferecer com o pão que também não é abundante.

 

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por Augusta Clara às 10:00

Sexta-feira, 04.09.15

Verdade e opinião em tempo de intoxicação - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  Verdade e opinião em tempo de intoxicação

 

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   Já faltou mais para as eleições, aquele tempo em que, à semelhança de épocas de guerra e de caça mais se mente. A novidade está agora na forma insidiosa de mentir, multiplicando visões da verdade, e nos mentirosos, onde aos que mentem por dever de ofício, se juntam agora os que, por dever de ofício, deviam defender a verdade, os jornalistas e comentadores.

Um artigo do El País, de 28/08 alerta para que o princípio da manipulação consiste em: “hacernos creer que no existe la verdad más que en sus múltiples versiones.”

Num momento em que a comunicação social se transformou numa tropa de moços de recados do governo e os seus funcionários se converteram em meninos de deus a venderem a ideologia dominante, o artigo de El País sobre verdade e opinião, manipulação e propaganda, desenvolve a ideia de como as novas tecnologias e as redes na internet amplificam o trabalho de esvaziamento do sentido crítico iniciado pela propaganda política.

Os técnicos da propaganda, que incluem boa parte dos jornalistas, aproveitaram as três grandes formas dos escritores modernos se relacionarem com a verdade: dizer que é inabarcável, dizer que é inefável, isto é que não se pode exprimir, ou dizer que não existe.

Em períodos eleitorais são estas as abordagens à verdade feitas pela propaganda. Basta um pequeno exercício de leitura dos títulos dos jornais, ou das reportagens das televisões: ou se focam num pormenor para desviar as atenções, ou garantem que é indiscritível, ou pura e simplesmente ignoram-na.

“Se neste milénio os atletas do inabarcável parecem ter-se refugiado na autoficção para concentrar o esfoço e limitar o campo de batalha, as outras duas vias de relação com a verdade continuam a contar cadáveres porque a realidade se fez inefável, ou construindo mundos paralelos que podem equiparar-se ao mundo real e até suplanta-lo. “

Os técnicos de propaganda política agem de acordo com o ideal da linguagem niilista, aquilo que designam por pós-modernidade, para impingirem aos consumidores dos seus produtos que qualquer narração (o termo que usam é narrativa) pode criar uma verdade que não tenha nada a ver com a realidade. “Até aqui, nada de novo: a velha verdade das mentiras. O novo neste processo é que, após invadirem o terreno do jornalismo e da História, os propagandistas políticos estejam a ter êxito na venda da ideia de que a verdade só existe em múltiplas versões.” Em especial na versão do patrão, digo eu.

O caso típico é o dos números de fenómenos sociais e económicos. Se um ministro fornece números falsos sobre desemprego, ou sobre a dívida, logo os propagandistas agem apresentando múltiplas interpretações do fenómeno: desemprego de curta e longa duração, taxa homóloga, ou referida ao mês anterior, ou a 2011, ou a 2008. Seguindo o velho princípio do poeta Aleixo: “a mentira para ser segura e ter profundidade tem de ter à mistura alguma verdade.” Assistimos a este truque diariamente. Feito despudoradamente.

“Em 1950, quando Hannah Arendt regressou por algum tempo à Alemanha do seu exílio, descobriu com estupefacção que os seus compatriotas tratavam os factos históricos como se fossem meras opiniões. No relativismo, que os cidadãos (neste caso alemães) consideravam a essência da democracia, Hannah Arendt reconheceu a herança do regime nazi. Para a autora de «As origens do totalitarismo», a persuasão e a violência podem destruir a verdade, mas não substitui-la: “Os factos e as opiniões, se bem que devam manter-se separados, não são antagónicos; pertencem ao mesmo campo. Os factos dão origem às opiniões, e as opiniões, inspiradas por paixões e interesses diversos, podem diferenciar-se amplamente e ser legítimas conquanto respeitem a verdade factual.”

É no respeito pela verdade, ou pela simples aceitação de que a verdade existe, que a porca da propaganda torce o rabo. Ó verdade factual, quão longe andas da propaganda e da tua casa mãe, o noticiário!

De Hannah Arendt, no ensaio «Verdade e política»: “A liberdade de opinião é uma farsa, a menos que garanta uma informação objetiva e que não estejam em discussão os factos em si mesmos.”

Veja o artigo original em http://cultura.elpais.com/cultura/2015/08/28/actualidad/1440793795_270814.html

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 28.08.15

A Europa só tem um problema: os seus bancos! - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  A Europa só tem um problema: os seus bancos!

 

 

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   Refugiados? Um caso de polícia. As coisas são como são. Prioridades de atuação traduzem opções de vida, carácter e moral. Política.

Em 2011, a Europa teve de enfrentar a possibilidade de falências dos seus bancos, os seus especuladores estavam aflitos. A União Europeia sobressaltou-se e tomou medidas de emergência, nomeando um ditador para as finanças: Schauble. Estabeleceu um programa: austeridade para os povos e transferência de riqueza pública para os privados. Montou uma Inspeção Geral de Finanças: a troika, com um banco europeu, um cônsul da União e uma entidade de controle mundial, o FMI.

O assunto das finanças, da manutenção do sistema de especulação, da transferência de riqueza era o problema sério da União Europeia e tinha de ser tratado pelos melhores especialistas e com os melhores remédios. Schauble passou a ser o senhor Europa, acolitado por uma corte, o Eurogrupo.

A União Europeia concentrou os seus meios no objectivo principal: finanças.

Em 2015, a Europa enfrenta a maior onda de refugiados desde a IIGM. Em parte pela política de extracção de matérias primas em bruto de África e do Médio Oriente que praticou desde a Conferência de Berlim, no século XIX, em parte pelos ventos que semeou desde a invasão americana do Iraque, já no século XXI. Os resultados das brilhantes acções no Iraque, na Síria, na Líbia surgem agora nas fronteiras da Europa. Os Estados Unidos, entretanto, tiraram o seu cavalinho da chuva. Para qualquer pessoa de algum senso trata-se de um complexo e gigantesco processo político, que tem origem no modo como o Ocidente se relaciona com outras áreas do planeta, que afeta a segurança presente e futura da Europa.

Para a União Europeia, estas massas humanas são números, números de afogados, número de resgatados, número de migrantes, divididos por regiões de origem. São insetos em movimento. A questão é grave? Parece que não. A mesma União Europeia que nomeou o senhor Schauble ditador das finanças tem tratado o assunto como um caso de ordem pública e assistência social. Umas reuniões dos ministros das polícias de França e de Inglaterra, em Calais, umas reuniões com os ministros das polícias da Grécia e de Itália. Umas barreiras de protecção. Uns muros. Uns ouriços de arame farpado. Umas bastonadas e umas granadas de fumos. Umas patrulhas no Mediterrâneo.

A União Europeia criou algum Eurogrupo de ministros do interior, ou dos negócios estrangeiros, ou da defesa? Os chefes de governo já reuniram para tratar do assunto? Talvez lá para Novembro. A União Europeia já chamou os Estados Unidos para assumirem a parte da responsabilidade que lhes cabe nesta tragédia? Há algum Schauble nomeado para os refugiados? Há algum Schauble nomeado para enfrentar a ameaça do ISIS? Entretanto, a NATO, que reúne a força militar dos Estados Unidos e da Europa, está hirta, atenta e vigilante, em alerta, de olhos no inimigo russo! Ou faz exercícios em Portugal, que tem bom clima e fica longe dos conflitos. Cuidado com os russos!

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 21.08.15

Primavera brasileira - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  Primavera brasileira

 

 

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   No Brasil está a decorrer uma manobra política do mesmo género das que foram designadas pela imprensa “revoluções de veludo”, no Leste europeu e com as “primaveras árabes”, no Magrebe. O que se passa no Brasil é, quando limpo dos enfeites da propaganda, mais uma manobra para os detentores do poder manterem o domínio sobre regiões estrategicamente importantes e recursos essenciais. O eterno objetivo dos poderes imperiais ao longo dos séculos. A este exercício já se chamou a lei do império, teoria das soberanias limitadas, respeito pelas zonas de influência. A figura de representação é sempre a mesma: um polvo estendendo os seus tentáculos.

É evidente que existe corrupção no Brasil, muita e acentuada com os grandes eventos em que o Brasil se meteu recentemente, o campeonato do mundo de futebol e os jogos olímpicos. Muita à volta de petróleo e obras púbicas. Mas é também evidente que nunca a sociedade brasileira se escandalizou com a corrupção a ponto de sair à rua tão organizada e publicitadamente. Seria estultícia e prova de grande desconhecimento da História – antiga e recente – acreditar que a classe média, a tropa de choque de todas estas movimentações, age de forma espontânea.

Uma contestação com esta origem de classe, com esta amplitude, com esta organização e persistência não é espontânea. É uma manobra planeada, dirigida, financiada, para atingir um objectivo. Esse objectivo parece claro: manter o Brasil como uma potência subordinada. Evitar que o Brasil integre o conjunto dos BRIC’s e, acima de tudo, que adira à nova moeda de pagamentos internacionais, que ameaça o dólar. Nada de maus exemplos a outros grandes produtores de matérias-primas na América Latina e em África. A manipulação dos preços do petróleo, lançando mão a tecnologias há muito disponíveis, mas inconvenientes para as grandes corporações é outra das faces da manobra.

Por outro lado, basta reparar nas imagens dos manifestantes, a contestação tem muito de preconceito de classe. De receio em muito de ressentimento pela má distribuição da riqueza. Tem muito de inveja e despeito pelo lugar a que se guindou a nova elite arrivista criada pelo PT.

A coberto da classe média, que se descobriu virgem da corrupção até ao governo de Lula, desenrola-se o grande jogo de forças pelo domínio global. A acusação de corrupção do governo de Dilma corresponde às acusações sobre armas de destruição em massa de Saddam, a falta de democracia do regime de Kiev, as violências sobre minorias de al-Assad na Síria, ou a loucura de Khadafi, na Líbia. São pretexto e não causa.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 14.08.15

Portas e o deus Jano - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  Portas e o deus Jano

 

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   A forma como Portas se pavoneia na política assenta em três truques elementares: fazer-se de vítima, chamar maus aos que não acreditam na mistificação e convocar o maior número possível de portugueses a apiedarem-se do menino. Para carpideiras tem convocado de umas vezes a lavoura, de outros pescadores, de umas vezes pensionistas, de jovens empreendedores, umas vezes velhinhos, de outras ex-combatentes. Esta manobra tem obtido um indiscutível sucesso. O que prova o talento de Portas e a bondade do bom povo.

A mais recente rábula do género está em curso, com as queixas sobre a não ida do salvador das exportações aos debates na TV. Portas, ao contrário de outros personagens menores que têm tido passagens efémeras pelos palcos da política, possui uma formação cultural sólida. Tal como Marcelo Rebelo de Sousa, já agora. E isso diferencia-os. São como os cantores que parecem pimbas, mas frequentaram o conservatório. Sabem da arte de vender gato por lebre, ou de levar os burros a comer a palha. Na verdade, Portas está a deitar mão a uma prática com origem na antiguidade, a que os romanos fizeram corresponder ao deus Janus, que representaram com duas faces, olhando para a frente e para trás.

É a figura do actual bipolar Portas, um pós-moderno entre tansos, que se apresenta tanto como um bondoso inocente, como um crápula maquiavélico. É o deus das transições. A figura de Janus está associada a portas (reais), a entradas e saídas, estas falsas e facilmente revogáveis.

Portas, como Janus, deseja garantir as vantagens de aparecer diluído nas malfeitorias da actual maioria e, simultaneamente, surgir como o mordomo da festa de promessas de bodo aos pobres da grande caixa da coligação PàF.

Para olhar simultaneamente para a frente e para trás, Portas conta com a estupidez da assistência – que o tem suportado e aclamado sem falhas até ao presente.

Para se apresentar a exigir falar, aparecer, dizer, debitar umas frases de bom efeito, conta que os portugueses e geral e os cúmplices da comunicação social lhe façam a pergunta se a sua posição sobre os grandes temas das eleições é diferente da da coligação. Ele dirá candidamente que tem uma outra sensibilidade para os assuntos. Portas é um sensível da política.

A rábula de Paulo Portas vai exigir a reconstrução da figura de Janus, com a cara de Passos Coelho num lado e a de Paulo Portas no outro. E, já agora, a de alterar a publicidade de alguns detergentes. Através de Portas, em vez do vulgar dois em um, a coligação PàF propõe o um em dois. Qualquer coisa do género do que Millor Fernandes, o humorista brasileiro, dizia a propósito do jornal «O Pasquim»: cada exemplar é um número e cada número é um exemplar.

Alguém devia perguntar ao Janus Portas se existe uma PàF Paulo, que olha para a frente uma PàF Pedro, que olha para trás. Alguém devia perguntar a Portas se ele exige ir aos debates explicar as vantagens entre matar com anestesia ou a frio.

 

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