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Jardim das Delícias


Terça-feira, 19.08.14

O Tempo Passa? Não Passa - Carlos Drummond de Andrade

 

Carlos Drummond de Andrade  O Tempo Passa? Não Passa

 

(Ferdous Habib, Iraque)         

 

 

O tempo passa? Não passa

no abismo do coração.

Lá dentro, perdura a graça

do amor, florindo em canção.

 

O tempo nos aproxima

cada vez mais, nos reduz

a um só verso e uma rima

de mãos e olhos, na luz.

 

Não há tempo consumido

nem tempo a economizar.

O tempo é todo vestido

de amor e tempo de amar.

 

O meu tempo e o teu, amada,

transcendem qualquer medida.

Além do amor, não há nada,

amar é o sumo da vida.

 

São mitos de calendário

tanto o ontem como o agora,

e o teu aniversário

é um nascer toda a hora.

 

E nosso amor, que brotou

do tempo, não tem idade,

pois só quem ama

escutou o apelo da eternidade.

 

(in Amar se Aprende Amando)

 

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por Augusta Clara às 17:00

Segunda-feira, 28.07.14

As sem-razões do amor - Carlos Drummond de Andrade

 

Carlos Drummond de Andrade  As sem-razões do amor

 

(Adão Cruz)

 

 

Eu te amo porque te amo,

Não precisas ser amante,

e nem sempre sabes sê-lo.

Eu te amo porque te amo.

Amor é estado de graça

e com amor não se paga.

 

Amor é dado de graça,

é semeado no vento,

na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários

e a regulamentos vários.

 

Eu te amo porque não amo

bastante ou demais a mim.

Porque amor não se troca,

não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,

feliz e forte em si mesmo.

 

Amor é primo da morte,

e da morte vencedor,

por mais que o matem (e matam)

a cada instante de amor.

 

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por Augusta Clara às 19:00

Terça-feira, 03.12.13

Os Animais do Presépio - Carlos Drummond de Andrade

 

 

Carlos Drummond de Andrade  Os Animais do Presépio

 

 

 

(Adão Cruz)

 

 

Salve, reino animal:

todo o peso celeste

suportas no teu ermo.

 

Toda a carga terrestre

carregas como se

fosse feita de vento.

 

Teus cascos lacerados

na lixa do caminho

e tuas cartilagens

 

e teu rude focinho

e tua cauda zonza,

teu pêlo matizado,

 

tua escama furtiva,

as cores com que iludes

teu negrume geral,

 

teu voo limitado,

teu rastro melancólico,

tua pobre verónica

 

em mim, que nem pastor

soube ser, ou serei,

se incorporam, num sopro.

 

Para tocar o extremo

de minha natureza,

limito-me: sou burro.

 

Para trazer ao feno

o senso da escultura,

concentro-me: sou boi.

 

A vária condição

por onde se atropela

essa ânsia de explicar-me

 

agora se apascenta

à sombra do galpão

neste sinal: sou anjo.

 

(in Claro Enigma, Cotovia)

 

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por Augusta Clara às 18:00

Sexta-feira, 23.08.13

Um gato ... - Carlos Drummond de Andrade

 

Carlos Drummond de Andrade

 

(fotografia de Margarida Pino)

 

"Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual."

 

 

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por Augusta Clara às 15:00

Quinta-feira, 06.06.13

Os ombros suportam o mundo - Carlos Drummond de Andrade

 

Carlos Drummond de Andrade  Os ombros suportam o mundo

 

(Adão Cruz)

 

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.

 

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos.

 

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo,

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

 

Carlos Drummond de Andrade in Sentimento do Mundo

~

.

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por Augusta Clara às 14:00

Sexta-feira, 15.02.13

Exorcismo - Carlos Drummond de Andrade

 

Carlos Drummond de Andrade  Exorcismo 

 

(Paul Brent)

 

 

 

Das relações entre topos e macrotopos
... Do elemento suprassegmental
Libera nos, Domine

Da semia
Do sema, do semema, do semantema
Do lexema
Do classema, do mema, do sentema
Libera nos, Domine

Da estruturação semêmica
Do idioleto e da pancronia científica
Da reliabilidade dos testes psicolingüísticos
Da análise computacional da estruturação silábica dos falares regionais
Libera nos, Domine

Do vocóide
Do vocóide nasal puro ou sem fechamento consonantal
Do vocóide baixo e do semivocóide homorgânico
Libera nos, Domine

Da leitura sintagmática
Da leitura paradigmática do enunciado
Da linguagem fática
Da fatividade e da não fatividade na oração principal
Libera nos, Domine

Da organização categorial da língua
Da principalidade da língua no conjunto dos sistemas semiológicos
Da concretez das unidades no estatuto que dialetaliza a língua
Da ortolinguagem
Libera nos, Domine

Do programa epistemológico da obra
Do corte epistemológico e do corte dialógico
Do substrato acústico do culminador
Dos sistemas genitivamente afins
Libera nos, Domine

Da camada imagética
Do espaço heterotópico
Do glide vocálico
Libera nos, Domine

Da lingüística frástica e transfrástica
Do signo cinésico, do signo icônico e do signo gestual
Do clitização pronominal obrigatória
Da glossemática
Libera nos, Domine

Da estrutura exo-semântica da linguagem musical
Da totalidade sincrética do emissor
Da lingüística gerativo-transformacional
Do movimento transformacionalista
Libera nos, Domine
 

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por Augusta Clara às 17:00



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