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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 18.08.21

Afeganistão — um mono, por Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes Afeganistão — um mono

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   Tht’s all folks — é tudo, malta. Não há mais pipocas
Uma das definições de mono é a de “mercadoria sem venda no comércio”, de “qualquer coisa que deixou de interessar”. Desde o 11 de Setembro de 2001, o Afeganistão foi um falso alvo, uma fancaria. Um tigre de papel, na linguagem maoista dos anos 60 e 70. Transformou-se definitivamente num nono para os Estados Unidos com o anúncio da captura e morte no Paquistão, de Bin Laden, o saudita chefe da Alqaeda, em 2011, com direito a filme de rambos.
A Alqaeda e Bin Laden foram o produto desenvolvido a partir de um dos muitos bandos da região e de fanáticos locais, inchado, armado e subcontratado pela administração Reagan para fazer a guerrilha contra a URSS, que ocupara o Afeganistão para evitar a islamização das repúblicas soviéticas do sul. A teoria de que a URSS pretendia avançar para as “águas quentes” do Índico foi uma narrativa para vender armas e justificar ações, que muitos “estrategistas”, incluindo militares, pregaram sem correspondência com qualquer racionalidade. Na realidade, a administração Reagan pretendeu apenas negar a um inimigo (a URSS) a posse de um território que lhe era relativamente importante. Um objetivo clássico nas manobras militares. A administração dos EUA conseguiu a vitória de Pirro: a URSS abandonou o Afeganistão e os EUA “ganharam” a Alqaeda bem treinada e equipada, com um louco como chefe carismático e um imbróglio com os aliados sauditas, os maiores compradores da quinquilharia produzida pelo complexo militar americano e comparsas de Israel na desestabilização do Médio Oriente.
Neste escuro e pantanoso cenário, o Afeganistão passou a ser o saco de pancada de todos os males do Ocidente, o punching ball. Não servia para nada, a não ser para mostrar o poderio dos EUA, de campo de lançamento de bombas, algumas experimentais, de bode expiatório para atos do terrorismo islâmico, cujos verdadeiros autores nunca foram identificados. Mesmo considerando que estes atos poderiam ter servido de justificação aos governantes americanos para, através deles, imporem aos europeus determinadas cumplicidades políticas e impedirem determinadas alianças, caso das aproximações à Rússia, o Afeganistão esgotara-se como produto com alguma utilidade estratégica… De repente até o terrorismo islâmico na Europa se esvaiu como por milagre!
Durante a administração do idiota Bush, Bush Jr, o Afeganistão serviu para Donald Rumsfeld, ministro da defesa americano, amigo de Paulo Portas, o atual virologista da Televisão, e Dick Cheney, o vice-presidente, dois traficantes de armas e empresários de empresas militares privadas, desviarem as atenções das responsabilidades da Arábia Saudita no terrorismo e fazerem fortuna. Obama manteve em velocidade de cruzeiro o negócio do complexo militar industrial, até o secar quando entendeu conveniente, com o anúncio da captura de Bin Laden. O espetáculo montado à volta da eliminação de Bin Laden constituiu a cena preparatória do final do espetáculo americano no Afeganistão. Da hora de emalar a trouxa.
Os talibans estavam reduzidos a grupos de traficantes de heroína e de contrabandistas, sem valor militar, e apesar das barbas e das fatiotas medievais, já não serviam para apresentar aos americanos pagantes de impostos como justificativo para as exorbitantes despesas (impostos), nem para mobilizar uns soldaditos que perderiam vidas e membros. Acabara o enredo de filme épico do Afeganistão, quer como bandeira patriótica que justificaria aos simplórios americanos votar num atrasado mental porque é um presidente em guerra, quer como mercado de armas de empresas militares privadas. A administração Trump percebeu o fim do ciclo de negócio e do embuste e anunciou a retirada das tropas e empresas americanas. Biden encerrou as portas do estanco sem contemplações. That’s all folks, isso é tudo, malta, como diz o Bugs Bunny nos filmes da Walt Disney. Acabaram as pipocas.
Os EUA já haviam perdido as posições que lhe garantiam o domínio do Médio Oriente: perderam na Síria, perderam no Irão, o Iraque era e é um ninho de vespas da qual não sabem como se libertar, a Turquia joga com um pau de dois bicos com a Rússia. O Afeganistão já não tem, pois, qualquer utilidade no jogo de forças que se trava no Médio Oriente e na Ásia Central. Para os Estados Unidos o Afeganistão passou a ser um mono que podia, pode e deve ser abandonado à sua sorte a bem do negócio: os EUA têm de concentrar forças no seu quintal da América Latina e no Pacífico. O Afeganistão não tem qualquer serventia para nenhum dos atores mundiais, nem para a China, nem para Rússia. Há 38 milhões de afegãos? São danos colaterais. Também havia uns milhões de vietnamitas do Sul… Lamentamos. Levamo-los a todos para a América nos nossos corações e lembrar-vos-emos nas nossas orações. Os talibans prometeram-nos ser simpáticos, respeitadores e tolerantes. Alá é grande e misericordioso.
O Iraque será o próximo mono a ser despachado. O petróleo vale cada vez menos como produto estratégico, até está mal visto pelos ambientalistas que são cada vez mais. O Médio Oriente é para desinvestir, para fechar as cortinas, ou passar para segundo plano. O novo palco de disputa mundial será o Pacífico, o Mar da China.
Eu, se fosse dirigente da Arábia Saudita, punha as barbas de molho. Os pró-americanos da Ucrânia também deviam pensar na vida, assim como os das repúblicas bálticas, os polacos e húngaros que se têm disponibilizado tão servilmente para servir de bases temporárias aos espetáculos de circo e feras de Washington. É que bem podem ser os próximos monos a ficar sem pipocas e sem Coca Cola."

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por Augusta Clara às 12:54

Domingo, 01.08.21

Mas - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  MAS

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Dos que atiram a pedra e escondem a mão
 
   Além dos putativos herdeiros dos movimentos mais violentos e totalitários da história moderna e contemporânea de Portugal, desde a Vilafrancada miguelista de 1823, até aos bombistas e saqueadores reunidos na sé de Braga e nas escritórios do franquismo em Madrid, do cónego Melo ao comandante Alpoim Calvão que colocaram “Portugal a arder” com o ELP e o movimento Maria da Fonte, dos que ainda choram o fim da ditadura e da guerra colonial, a morte de Otelo Saraiva de Carvalho proporcionou o ressurgimento de um outro grupo, o do “mas”. O grupo dos falsos “cândidos”, dos que argumentam candidamente que a operação militar foi boa, “mas” a revolução não foi democrática e o seu desenrolar até foi atribulado.
Os do “mas” não perdoam a Otelo a responsabilidade de ter transformado um putsh militar numa revolução, incentivado os portugueses a agir e a organizar-se espontaneamente para decidir o que fazer após o derrube da ditadura, o fim da polícia política, dos tribunais plenários, da censura, do poder patronal absoluto! Ora, esta liberdade tomada por necessidade e impulsionada por Otelo, constituiu e constitui uma ofensa imperdoável aos “mas” sobre o que “devia ser uma democracia”, trazida já talhada, pronta-a-vestir do Posto de Comando da Pontinha, ou, ainda melhor, de casa do general Spínola.
O grupo do “mas” acusa Otelo de ter aberto as portas a uma democracia para a qual não se tinham preparado, que não lhe reservara lugares, que não respeitava os seus chefes de clãs, que não resultava de confrarias e ordens com santos hierarquizados, doutrinas e credos estabelecidos, com programa, estatutos, cartões, controleiros e chefes de secção! Otelo abriu as portas a uma democracia sem ungidos, sem secretários-gerais e adjuntos, herética aos olhos dos defensores do condicionamento político da sociedade, para quem a democracia é um exclusivo dos partidos e, destes, apenas os das famílias com denominação de origem controlada — DOC — pela elite europeia e americana.
Otelo não foi nem quis ser o fila guia, o turibulário, o incensador de um golpe que se limitaria a legalizar o Partido Comunista e a distribuir os lugares e prebendas no aparelho do Estado até aí exclusivas da União Nacional/ANP por pessoal de confiança das famílias políticas europeias do pós II Guerra. Uma nova elite que, quanto ao problema colonial, se libertasse da guerra na Guiné, dividisse Moçambique e se concentrasse em preservar o domínio de Angola pelos grandes grupos europeus e americanos e que, quanto a Portugal, abrisse o mercado e não assustasse os falangistas espanhóis. Este era o papel reservado a Spínola e aos partidos que iriam ser fundados, ou desenvolvidos a partir de embriões de recente fecundação.
O reconhecimento imediato da independência da Guiné declarada pelo PAIGC por parte dos militares do Movimento dos Capitães local e das negociações desde logo iniciadas com a FRELIMO, em Moçambique, pelos oficiais do Movimento daquela colónia não permitiu a Spínola desempenhar o papel de “descolonizador conveniente”; e o aparecimento do COPCON, comandado por Otelo, como um contrapoder e não como um aparelho repressivo, impediu a rápida partidarização do novo regime, a sua “normalização, ou domesticação. É esta conjugação de fatores que os adeptos do “mas”, os falsos cândidos, apelidaram de PREC, que levou Spínola à demissão em Setembro de 1974, ao 11 de Março de 1975 e ao “Verão Quente”.
A descolonização imposta pela recusa das tropas de continuarem a combater em África e o subdesenvolvimento de Portugal não permitiram a “transição pacífica” do regime, a maquilhagem do Estado Novo colonial numa “democracia” sem alterar as relações de poder das castas superiores e mantendo os cidadãos à distância, como viria a acontecer em Espanha.
Na morte de Otelo, os “ressabiados”, herdeiros do absolutismo, do Portugal grotesco e caceteiro, arrogante e pesporrente, saíram à luz do dia a verter lágrimas de crocodilo pelas vítimas da violência, sendo que esta sempre constituiu a sua principal ferramenta de domínio, os “ mas” vieram apoucar o papel de Otelo, reduzi-lo a um major de artilharia que rabiscou um plano de operações numa folha de A4 e num mapa do Automóvel Clube, que não sabia o que era “uma democracia como devia ser”. Classificam-no como uma personalidade controversa e contraditória, sem perceberem que o estão a distinguir e a elevar entre os comuns. Os primeiros, os ressabiados, são os “tios” e “tias” que continuam a lamentar o fim das criadas de servir, os agrários que se queixam do fim dos trabalhadores pagos à jorna e dos ranchos de “ratinhos” idos das Beiras para o Alentejo, os patrões que viviam à custa de operários sem direito a sindicato ou a até a horário. Os segundos, os “mas”, são os que temeram e temem uma democracia da qual não fossem e não sejam os mestres!
Otelo não levantou nem guarneceu as barreiras de proteção que, segundo os ressabiados e os “mas”, deviam separar o povo instalado na geral do teatro do poder do dos senhores doutores acomodados nos camarotes! A sua morte trouxe para os jornais e televisões os herdeiros dos integralistas e relembrou a persistência de um Portugal de seres mesquinhos, interesseiros, de um lupmen de bem-apessoados e bem instalados que, para defender os seus interesses, não hesitará em colocar um “mas” na fórmula atual de democracia e de Estado de Direito, de se unir aos ressabiados, não certamente para melhorar a vida dos portugueses, nem lhes acrescentar liberdade, mas para impor um regime que lhes seja mais rentável, porque sempre viveram de rendas e de ausência de princípios."

 

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por Augusta Clara às 23:53

Sábado, 20.02.21

Coisas a mais, ou a menos? - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  Coisas a mais, ou a menos?

 

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   O confinamento levou-me a descobrir que temos coisas a mais, que não nos servem para nada e coisas a menos, de que necessitamos.
Imagem da TV: um corpo, tronco nu, meio coberto por uma folha de papel azulada, umas pernas escanzeladas, uns pés descalços sobre uma maca, a ser empurrado por um corredor, a caminho da morgue, presumo. Assim será metido num gavetão frigorífico, depois num caixão, fechado, selado, higienizado para ser cremado.
Precisamos de pouco. No entanto deixamos muito, e a maior parte do que deixamos é inútil. Foi inútil desde que o tivemos.
Em tempo de confinamento deambulamos por casa: Um mundo de inutilidades. Um armário carregado de loiça, pratos que davam para um refeitório. Quantas vezes os usámos? Faqueiros? Não me refiro a talheres, mas a faqueiros completos de dezenas de peças, em caixas de vários andares? Chávenas, tachos, panelas, assadeiras, sim, quantas assadeiras de barro, de alumínio, de Pyrex, quadradas, redondas, retangulares? Copos de todos os feitios, tamanhos e cores, de pé alto, redondos, esguios? Abre-latas? Descobri, num canto, um cantil. Noutro um caracol de loiça para meter palitos de comer caracóis, ou búzios. Toalhas com bordados à mão e toalhas aos quadrados. Bibelôs? Estou, se calhar quase todos estamos, rodeados de objetos estranhos, um tocador de gaita-de-foles de onde terá vindo? E umas chaminés de barro? Mais um cachimbo! E uma dançarina de porcelana e o conjunto de sinos? Isqueiros e canetas sem tinta? Cinzeiros, relógios, botões, frascos. Falta ir às roupas, o bragal: Quantos lençóis, fronhas, cobertores, toalhas, colchas, almofadas, travesseiros? Edredões! Mantas de trapos! Roupa, quantos casacos, calças, vestidos, sobretudos, blusões, sapatos, sandálias, botas que já não servem, que nunca serviram? Faltam os livros, os papéis, os jornais, as fotografias, os recuerdos e souvenirs. E os artefactos eletrónicos que foram sendo ultrapassados: rádios, gira-discos, telefones, telemóveis, carregadores? Tralha inútil!
Falta acrescentar o lixo que sai das televisões, da que estaciona no canto da sala, na do quarto; os comentadores, os da bola, os de tudo: do clima à bomba de hidrogénio. Os que me explicam o que acabei de ver, de ouvir. Todos, com e sem gravata, a informarem-me que a vida é perigosa e acaba mal, que o que hoje sobe, amanhã desce.
Uma caterva de sirenes televisivas a gritar que vivemos no caos. Esquecem-se de informar que me vendem o caos em cada anúncio de publicidade!
Descobri com o confinamento que o caos começa em minha casa. Não preciso de um pivô (com isto da neutralidade de género já será de incluir as pivoas?) para me avisar.
O caos, construímo-lo logo na primeira mala de levar livros à escola, cadernos, borrachas, lápis. O caos começa nos que nos rodeiam. O caos é a ordem do mundo e ainda pago para me informarem do caos que eu criei!
Há caos nos hospitais! Obrigado. E nas redações das televisões, da rádio e dos jornais? Aí não há caos, há estratégias de poder sob a forma de alarmes pela nossa saúde! E nos estádios de futebol? Não há caos, há corrupção! E nos bares e tabernas? Bebedeiras e vómitos que reproduzem as televisões! E nas escolas? E no trânsito? E nas praias? E nas romarias? E nas peregrinações? E nos lares de idosos? E nas creches e infantários? E nos tribunais? E nos paióis da tropa? E nos bancos? E nos aeroportos e até nos cemitérios! E nas nossas relações? Fazemos parte do caos.
O que nos faz falta é uma qualquer indicação que nos ajude a viver no caos sem gritar contra o caos. Faz-nos falta uma panela de escape para evitar os ráteres que saem dos pregoeiros do caos! Falta-nos ordem nas ordens. Ou uma ordem para descobrir uma vacina, um teste rápido, mas seguro, à sanidade mental de alguns dirigentes que dê positivo ou negativo antes de tomarem posse.
Temo que a ressaca do confinamento seja uma sociedade mais confinada, com mentalidades mais fechadas, com mais cabos da guarda a gritarem por ordem, por limpezas gerais, por desinfestações sociais. Eu, contra os fascismos anunciados, necessito de desordem, de desmascarar os ordeiros, porque eles ladram, mordem e matam.
Vivemos em estado de catástrofe do nascimento à morte porque criámos uma civilização de caos, no paradoxo da abundância, de excesso de coisas e carência de virtudes.
Diógenes, o grego que vadiava pelas ruas na mais completa miséria material, desprezava a opinião pública e parece ter vivido numa pipa ou barril, cujos bens se resumiam a um alforje, um bastão e uma tigela, terá dito a Alexandre, o Grande, quando este, ao encontrá-lo, lhe perguntou o que poderia fazer por ele, numa posição em que lhe fazia sombra. Diógenes respondeu: "Não me tires o que não me podes dar!"
Os pregoeiros do caos nada nos podem dar, a não ser ruído.
Temos barulho a mais, hienas a mais, carpideiras a mais falantes e “ecrantes”. Temos coisas a menos: serenidade, consciência individual, cooperação, tolerância, respeito, reflexão. Humildade a menos para pensarmos o que faríamos se estivéssemos no lugar do outro, do diretor do hospital, do médico, do enfermeiro, do delegado de saúde, do administrador do lar, do diretor, do secretário, do ministro, do comandante, do que abre e fecha escolas e restaurantes. Em vez disso, recebo notícias de uma porta de um hospital a informar-que está ali uma ambulância com um doente. Havia de estar com quem? Com frangos de churrasco?
Devíamos saber o que é importante. Um raio de sol pode ser suficiente. As catástrofes e o que estamos a viver é um estado de catástrofe, devia ajudar-nos a pensar no que é essencial para cada um de nós. Eu sinto falta de Liberdade e excesso de Perversidade!

 

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por Augusta Clara às 18:14

Sexta-feira, 02.03.18

"Marcelo e Varela Gomes defendem conceitos de liberdade e de democracia muito distintos" - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  "Marcelo e Varela Gomes defendem conceitos de liberdade e de democracia muito distintos"

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(Fotografia de Alfredo Cunha)

 

   Uma lagartixa nunca será um jacaré. Provérbio africano que escolhi para comentar a nota do Presidente da República a assinalar a morte. do coronel Varela Gomes cujo funeral se realizou hoje. A foto é Alfredo Cunha, 1975. Foi publicada nas redes sociais e por isso a reproduzo para ilustrar a rejeição do Estado - representado pelo seu chefe - a homens como Varela Gomes, homens de ideais, que lhe são estranhos. A nota do presidente da República a propósito da morte de Varela Gomes é um desapiedado revelador da personalidade de Marcelo Rebelo de Sousa e do regime a que preside.

Diz a nota: “ o chefe de Estado envia condolências à família e invoca a militância cívica do coronel destacando, “em particular, a sua consistente luta contra a ditadura constitucionalizada antes do 25 de abril de 1974”.

O Estado Novo é, formalmente caraterizado como uma ditadura constitucionalizada. O acrescento “constitucionalizada” tem a óbvia intenção de adoçar a ditadura do Estado Novo e, fundamentalmente a de salientar que aquela era um regime de ordem, anti-caótico ao contrário do que sucedeu após o 25 de abril de 1974, data referida expressamente na nota, marcando uma fronteira. Marcelo é um homem de ordem.

Isto é, em 2 linhas, o que Marcelo afirma. Há o essencial que ele apaga. Nunca refere a liberdade. E Varela Gomes lutou pela liberdade. Mas não é a liberdade que interessa a Marcelo Rebelo de Sousa. Ele também nunca refere a palavra democracia. Varela Gomes lutou pela democracia. Mas não é a luta pela democracia de Varela Gomes que Marcelo quer salientar. Pelo contrário, quer silenciá-la. Para ele MRS só existe uma democracia.

Marcelo e Varela Gomes defendem conceitos de liberdade e de democracia muito distintos.

Para Varela Gomes a liberdade inclui os direitos sociais associados, a liberdade depende da possibilidade de a exercer, de ter tempo, de ter acesso à educação e à cultura, à saúde, a um nível de bem estar que permita educar os filhos, por exemplo. Varela Gomes tem um conceito de liberdade alargado e generoso. Marcelo tem da liberdade o conceito dos sistemas mercantis da liberdade de expressão a quem dispuser de poder para dominar os meios de comunicação. Marcelo não podia falar da luta pela liberdade de Varela, porque a liberdade de um – a de Varela – torna a liberdade de outro – Marcelo – uma caricatura de liberdade.A liberdade de Marcelo é restrita e condicionada económica e socialmente.

Quanto à democracia. Marcelo é um mecanicista (para não dizer que pensa como um mecânico). Democracia, para Marcelo, é uma máquina que funciona segundo as regras que foram estabelecidas pelo fabricante e dentro do regime inscrito no livro de instruções (uma constituição) – a democracia de Marcelo é um regime constitucionalizado, que difere da ditadura constitucionalizada apenas pelo numero de utilizadores.

A democracia para Varela Gomes é um regime participado e baseado no esclarecimento.
Os dois têm conceitos incompatíveis de democracia.

Para Marcelo, um homem de ordem e de hierarquização social (os afetos são populismo) a democracia é o regime de menor denominador possível, o oposto de Varela Gomes. Para Marcelo, a democracia é representativa, assenta no exclusivo da decisão nos aparelhos partidários, funciona através de um sistema de rodas bem engrenadas, hermeticamente fechado num contentor estanque (Assembleia da Republica, comissões politicas, pex).

Marcelo é um bispo de diocese, capaz de excelentes sermões, de largas bênçãos às multidões, mas que nunca sairá debaixo do palio, que nunca causará um estremeção de dúvida nos fiéis, que defenderá a doutrina da infalibilidade da cúria papal e da verdade revelada. Estará sempre do lado do clero contra o povo.

Será sempre uma lagartixa. É da sua natureza e ser assim parece que é do agrado geral. Os rebeldes, os altercadores, os que duvidam são pedras no sapato. Hoje desapareceu definitivamente mais uma dessas pedras. Para Marcelo ele já tinha desaparecido em 25 de Abril de 74. Andou a incomodar a sua democracia até agora, 44 anos! Eu já nunca mais lhe darei lume para acender o charuto. Até eu já deixei de fumar. Obrigado ao Alfredo Cunha pela foto.

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por Augusta Clara às 14:46

Quinta-feira, 01.03.18

A ONU e os conflitos no Médio Oriente — Guterres, deixe-se de lamurias e diga o que se passa.- Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  A ONU e os conflitos no Médio Oriente — Guterres, deixe-se de lamurias e diga o que se passa

 

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   A ONU e o Médio Oriente. Desde o final da II Guerra Mundial (ou da IGG, consoante as interpretações), as potências ocidentais, em particular os EUA e a Inglaterra, têm como estratégia central desestabilizar a região. Os resultados são os que temos, da criação do Estado de Israel à atual guerra na Síria. A guerra tem sido a situação permanente no Médio Oriente. A talhe de foice para recordar: guerras Israel-Palestina, Israel-Líbano, Israel-Iraque, Israel-Egito, Israel-Siria, invasão do Iraque, do Afeganistão, guerra no Iémen (Arábia Saudita)… criação da Alqueda, do Daesh e bandos associados...

A ONU nunca teve um papel na resolução de qualquer destes conflitos a não ser o de cobertura a acções dos Estados Unidos. A ONU não é, manifestamente, uma organização com qualquer capacidade nem credibilidade para se envolver no conflito.

A desestabilização do Médio Oriente começa (é uma das opções) pelo embuste da criação do Estado de Israel. A fase mais recente começa com a mentira das armas de destruição em massa do Iraque e da mentira da responsabilidade do Afeganistão nos atentados das torres gémeas em Nova Iorque.

O caos no Médio Oriente foi criado pelas potências ocidentais (é um facto explicável pela sua centralidade mundial), com base em embustes e mentiras:

– criação do Estado de Israel para recompensar os judeus do Holocausto e proporcionar-lhes uma terra prometida onde vivessem na paz do seu Senhor (foi este o conto para crianças apresentado à opinião pública);

- “bombas atómicas” nas caves e arrecadações de Saddam para justificar a invasão do Iraque;

- preparação dos voos contra as torres gémeas em Nova Iorque por terroristas da Alquaeda sob o mando de Bin Laden (um saudita agente dos Estados Unidos contra a URSS), nas grutas do Afeganistão.

A ONU nunca interveio no caos do Médio Oriente a não ser através de declarações piedosas, quando os aliados ou os bandos a mando dos Estados Unidos estão em aflições, o que tem sido mais evidente agora na Síria, dado a intervenção da Rússia e a ação da Turquia terem criado situações delicadas para as forças apoiadas pelos americanos.

Todos os massacres são condenáveis e merecem a maior repulsa por parte da comunidade internacional e de cada um de nós. Os da Síria evidentemente. Mas a ONU, mais uma vez, não é fiável como intérprete da nossa repulsa (falo por mim).

A situação no Médio Oriente é uma teia de embustes, em que a guerra também é feita de falsa informação. A desinformação e a deturpação da realidade através de técnicas de manipulação da opinião, fazem parte do arsenal no campo de batalha;

A ONU soma desde a primeira intervenção militar da ONU, no Congo ex-Belga em 1960, intervenções desastrosas na construção ou na manutenção da paz .

Parece evidente que as Nações Unidas não são adequadas à função de promotoras da paz e que deviam abster-se de se envolverem em conflitos.

Em resumo e sob a forma de petição: Seria pedir muito que, em vez de patéticos e inconsequentes apelos à paz, a cessar-fogos para ações humanitárias, que o secretário-geral das Nações Unidas, o nosso querido António Guterres, fizesse o que era e é possível para ajudar de facto a comunidade a contribuir para acalmar o conflito e que seria apenas prestar uma informação neutra, clara, esclarecida, que ultrapassasse as cortinas de fumo sobre o que se passa no Médio Oriente?

Falo por mim:

- Não me comovem os apelos das Nações Unidas e do seu secretário-geral.

- Desconfio do que as Nações Unidas e o seu secretário-geral me dizem, dado serem coniventes, enquanto instituições, com as mentiras que conduziram ao atual estado do conflito.

Penso com a minha cabeça.

Só pretendo que as Nações Unidas e o seu secretário-geral me transmitam informação neutra sobre o que se passa. Não pretendo resoluções, pretendo informações.

Sei que é pedir muito. Sei que é ir contra a natureza das coisas. As Nações Unidas fazem parte do jogo de sombras.

Dispensem-me então as expressões pungentes à hora dos noticiários e os avisos de que as imagens são chocantes. Serão, mas também podem ser falsas, ou serem apenas as convenientes.

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por Augusta Clara às 20:46

Sexta-feira, 07.04.17

59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra

 

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59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra.

Os 59 mísseis disparados pelos EUA contra um objectivo na Síria representam o regresso à agenda de guerra da política externa estabelecida no final do século XX. Trump sofreu mais uma derrota. Na campanha eleitoral Trump prometeu desinvestir nas guerras do Médio Oriente (o termo técnico é baixar o nível de empenhamento), porque o petróleo estava barato, era abundante e ele preferia o carvão que dava emprego a americanos. Trump considerava a NATO obsoleta e a Rússia um parceiro em vez de um inimigo.

Esta agenda colidia com os interesses de Israel e da Arábia Saudita que há décadas (pelo menos desde Nixon e Kissinger) dominam a matilha política de Washington. Os tiranetes radicais da Arábia Saudita e de Israel necessitam da desestabilização da região para se manterem no poder. Um Médio Oriente estabilizado é o fim dos negócios e do poder da família Saud e dos radicais judeus. A agenda tradicional dos EUA, a agenda de Clinton, marido e mulher, de Bush pai e filho, de Obama foi a de criar e manter um turbilhão na zona.

Em 2007, o general Wesley Clark, antigo comandante supremo da NATO, numa entrevista muito difundida, desvendou o plano dos EUA e dos seus aliados locais e europeus de tomarem ou destruírem 7 países em 5 anos: Síria, Líbano, Líbia, Somália e Irão, que iriam fazer companhia ao caos do Iraque. Era este o programa de Hillary Clinton.

Em 3 de Fevereiro de 2017, logo após a posse de Trump, o general David Petraeus, antigo director da CIA, alertava o novo presidente para o perigo de alterar a “war agenda”. Numa conferência na Comissão Militar afirmou que a América não podia dar como garantida a atual situação (a situação herdada de Obama). Esclarecia que essa situação não era autosustentada e que fora criada pelos Estados Unidos. Se não for mantida colapsará, garantiu.

Os 59 mísseis lançados sobre uma base siria demonstra que os velhos poderes já estão bem instalados em Washington. A velha situação de desestabilização não colapsou. A família Saud e Benjamin Netanyahu podem celebrar de novo a vitória. Os lobistas do armamento, das companhias militares privadas podem acender charutos.

Não deixa de ser caricato que Trump tenha justificado a sua derrota com um impulso piedoso devido ao choque sofrido com as imagens das crianças atingidas pelas armas químicas. Armas cuja origem ninguém se interessou em investigar, a começar pelo próprio Trump. Já o mesmo tinha acontecido com as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, que levaram Bush filho à segunda invasão do Iraque.

A velha ordem regressou a Washington. E à Europa também, com uma diferença: a doutrina Blair de sujeição activa da Europa ganhou adeptos. Hollande e Merkel não estiveram à altura de Chirac e Schroeder. Esses também tinham que vender armas, mas a estes não lhes custa serem rafeiros…

Tudo como dantes. Quartel em Abrantes

 

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por Augusta Clara às 23:43

Quinta-feira, 02.04.15

A Grécia e os novos Kissinger - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  A Grécia e os novos Kissinger

 

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   «Provavelmente, temos que atacar Portugal» disse Kissinger o Secretário de Estado americano em Abril de 1975, a propósito da ameaça de mau exemplo que Portugal dava na Europa com a sua revolução e a busca de caminhos políticos autónomos desalinhados do rebanho europeu conduzido pelos EUA através da NATO. Washington receava que o País caísse no “campo comunista” e lançou uma ofensiva para evitá-lo. Era preciso «atacar» Portugal e expulsá-lo da NATO.

Algumas frases retiradas de uma audiência no Vaticano entre uma delegação americana com Gerald Ford e Kissinger e o papa Paulo VI, para convencer o chefe da Igreja Católica a não se opor à acção dos ditos “Aliados” contra Portugal: «Portugal pode evoluir para um regime que é a combinação da Jugoslávia com a Argélia. Com um regime desses, e mantendo-se Portugal na NATO, pode ter más influências na Itália, conduzindo ao “compromisso histórico” [entendimento entre democratas-cristãos e comunistas], que nós não queremos.» Gerald Ford: «É difícil entender que Portugal, com um governo comunista, seja nosso parceiro. A NATO foi criada para se opor ao comunismo.» Kissinger: «Se um membro da Aliança se tornar comunista, (...) isso iria destruir a Aliança Atlântica. Não podemos dar um mau exemplo em Portugal.» (citado de Nuno Simas in DN 28 de abril de 2004)

Algumas frases recentes dos ministros das Finanças e do Eurogrupo contra o governo Grego do Syriza eleito em 2015, quarenta anos depois do Verão Quente em Portugal:

«A Alemanha tem sido intransigente quanto à Grécia e ao pedido de extensão dos empréstimos e qualquer mudança na política de austeridade do país. O ministro das Finanças germânico (Wolfgang Schaeuble) tem sido a principal figura desta campanha...e é mesmo classificado como o “carrasco” de Atenas.»

«O governo alemão considera que “as propostas de Atenas” não conduzem a uma solução substancial.»

«Grupo de trabalho do Eurogrupo discute situação grega. Pierre Moscovici, avisa que o tempo é limitado.» Em Bruxelas, Margaritis Schinas, porta-voz do presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, disse «não existir, nesta altura, uma agenda para entregar dinheiro a Atenas e admitiu que a decisão pode vir a ser adotada numa teleconferência antes da Páscoa.»

«Berlim continua a exigir uma lista mais precisa de reformas para desbloquear fundos para Atenas. Em Bruxelas fala-se de discussões complicadas.»

«Não há mais tempo a perder»; foi esta a mensagem deixada pelo presidente do Eurogrupo, na reunião de ministros das Finanças da Zona Euro em Bruxelas, centrada na Grécia.

«O ministro grego das Finanças, Yannis Varoufakis, estará debaixo de pressão mais uma vez. A chanceler alemã, Angela Merkel, não esconde que o caminho será difícil: “O nosso objetivo é manter a Grécia na zona euro. Trabalhamos nesta questão há vários anos. Mas é verdade que a moeda tem duas faces: de um lado a solidariedade dos parceiros europeus e do outro a prontidão a implementar reformas e os compromissos no país. Sobre isto, temos um caminho difícil pela frente”. O Eurogrupo exige que Atenas implemente reformas para ter acesso a ajuda financeira.»

Reino Unido teme resultado “muito mau” na Grécia. George Osborne, o ministro das Finanças do Reino Unido que esteve reunido com Yanis Varoufakis na semana passada, diz que «está a crescer o perigo de um "resultado muito mau" para a crise na Grécia.»

O governo de Passos Coelho também entende que a Grécia é um mau exemplo: «Na última semana a Grécia entrou pelo discurso do PSD como mau exemplo. Para os sociais-democratas Portugal deve continuar o caminho seguido pelo governo nos últimos três anos e meio.» O ministro Marques Guedes: «Portugal é a "formiga" e a Grécia a "cigarra".»

Para Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal do EUA, a saída da Grécia do euro é «uma questão de tempo.»

Durão Barroso admitiu hoje (6/1/2015), que se a Grécia não cumprir os compromissos haverá consequências. «Espero que não mas, se a Grécia sair do euro, projeto europeu não ficará comprometido.»

A Grécia é hoje a ovelha negra do rebanho, como Portugal foi em 1975. Estão à vista os herdeiros dos «mata e esfola» de 75. Tudo farão para colocar a Grécia sob controlo. Amarrada de pés e mãos para o sacrifício no altar dos mercados. A menor falha no coro será punida sem dó nem piedade para exemplo de futuros rebeldes. Os credores mandam e os seus tiranos executam.

Os missionários e outros propagandistas chamam União Europeia a esta tirania. Chamam ao garrote ajustamento. Chamam conversações à humilhação. Chamam ao saque serviço da dívida. Chamam aos gregos subversivos. Daqui a uns dias serão terroristas. Chama a esta loucura bom senso político. Depois haverá uma guerra e o negócio seguirá como habitualmente, com lucros garantidos para os mesmos de sempre.

Carlos de Matos Gomes

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 20.02.15

Em busca do pai do D. Quixote - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  Em busca do pai do D. Quixote

 

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   Anda uma equipa de arqueólogos espanhóis a tentar identificar os ossos de Cervantes na cripta do convento das trinitárias de Madrid, onde estarão misturados com os de muitos outros seres humanos. É uma estranha tarefa. Gastamos dinheiro e energias na impossível e inútil tarefa de reparar uma injustiça secular em vez de investirmos em evitar as do presente. Muito mais importante que a descoberta dos ossos do «manco do Lepanto» é o texto de José Manuel Caballero Bonald, Premio de Literatura Miguel de Cervantes 2012, publicado no dia 14 de Fevereiro no El País e que eu traduzi o melhor que pude. Importante seria encontramos muitos D. Quixotes, porque moinhos, salteadores, corruptos, prepotentes, hipócritas há por aí muitos:

“Andou sempre a escapar de qualquer coisa: da justiça, da falta de amor, da penúria, do aborrecimento. Não fugia, ausentava-se, largava de um porto desagradável para atracar a outro igualmente pouco acolhedor. As etapas do infortúnio assinalavam um caminho que conduzia a uma inevitável derrota. Que o levava ao triste refúgio de vencido. Sofreu os males de guerras, cativeiros, descalabros e desdéns. A família desfeita, a vontade esgotada, o destino mutilado foram as únicas credenciais com que pretendeu chegar ao inalcançável. Nunca fez carreira em nenhuma confraria porque não era adepto da lisonja nem condescendeu com a iniquidade dos poderosos. Residiu de modo vulgar em cidades impensáveis e executou tarefas desprezíveis. Com pouca prosápia e enfatuamento, com muita humilhação, solicitou trabalhos vásrios, nunca concedidos. Defendeu os valores dos homens decentes e lutou contra os dos falsos, era amigo dos perseguidos e abominava os perseguidores. Um dia, cansado de privações, desiludido por não ter conseguido ser o que sonhara, regressou ao refúgio de onde partira como um combatente aquebrantado pela derrota. Publicou então, quase sexagenário, um livro que haveria de constituir até hoje uma das obras primas da literatura universal. Nem sequer se conhece o paradeiro dos seus ossos. Mesmo que um dia sejam encontrados, tal descoberta jamais remediará a obstinação da injustiça.”

Carlos Matos Gomes

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 09.02.15

"Dois tristes cucos não fazem um coro" - Carlos Matos Gomes

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 Carlos Matos Gomes  "Dois tristes cucos não fazem um coro"

 

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        Dois tristes cucos não fazem um coro. Hollande e Merkel foram mostrar aos europeus que são bem intencionados, mas não contem com eles. Foram dizer que a Ucrânia é um despojo que está a ser disputado pela Rússia e os Estados Unidos. Eles são da petite Europe, nada de confusões. Hollande e Merkel representam dois estados que já partiram os dentes na Rússia, um com Napoleão, outra com Hitler. Aprenderam que não se podem meter lá, mas não aprenderam como viver com a Rússia. A questão é: porque carga de água rebentou a crise da Ucrânia? A melhor resposta que conheço é de um general francês, Jean-Bernard Pinel, num livrinho, Carnet de Guerres et de Crises: “Desde a aqueda do muro, os estrategas e os políticos americanos perceberam uma ameaça principal: uma aproximação seguida de uma aliança entre a Europa e Rússia, que contestaria a supremacia dos Estados Unidos, que lhe permite dirigir com toda a impunidade os negócios mundiais, impor um direito internacional de acordo com os seus interesses.”
A guerra civil na Ucrânia é uma guerra dos Estados Unidos contra a Rússia com dois objectivos; fazer uma ameaça direta, através da colocação de um governo satélite junto às fronteiras e cortar qualquer possibilidade e aliança entre a Europa e a Rússia. Soam assim profundamente ridículas as palavras do pobre Hollande e da sua companheira de viagem quando dizem: que quando a França e a Alemanha se juntam o mundo escuta-os e toma-os em consideração. Putin deve ter-lhes dado palmadas nas costas. Falado do tempo que faz em Moscovo. O problema não é esse… é o de a Europa apoiar um Estado de Israel na Ucrânia, para desempenhar junto da Rússia o papel que Israel desempenha no Médio Oriente. O pobre Hollande ainda teve a ingenuidade de afirmar que nem a França nem a Alemanha estão em guerra na Ucrânia e que não fornecerão armas. Obrigado. Ficamos todos mais descansados. Não falta quem as forneça. Não se preocupem com isso. O complexo militar industrial dos Estados Unidos agradece. As acções já começaram a subir.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 30.01.15

PT e TAP: O milagre da filosofia - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  PT e TAP: O milagre da filosofia

 

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   Instado (boa palavra!) pela bancada parlamentar do BE a impedir a venda da PT Portugal, o primeiro-ministro reiterou que a filosofia deste Governo passa por não interferir em matéria privada.

Instado (esta é minha) pela opinião pública a não privatizar a TAP, Passos Coelho reiterou que a filosofia deste Governo é transformar a matéria pública em privada, para depois não interferir nela e assim manter a sua pureza ideológica e ser filosoficamente coerente.

A filosofia (como Passos Coelho chama à sua governação) do governo para a TAP é fazer dela uma PT com dois claros objectivos: proporcionar à TAP o indesmentível e claro sucesso que a PT tem sido, em particular nos últimos dias, e deixar de interferir nela, do género eles que voem para onde quiserem e não me chateiem.

O caderno de encargos da venda da TAP é entre o confuso e o obtuso, como já era o da falecida PT, mas, segundo Passos Coelho, garante tudo o que a TAP actualmente é, como se prometeu com a PT, quartel-general em Portugal. Voos preferenciais para as rotas da emigração portuguesa e os destinos de interesse estratégico, manutenção das aeronaves segundo os manuais, tripulações competentes, enfim, uma companhia de bandeira como a que hoje existe, decente e até, segundo a última versão de Passos Coelho, sem despedimentos nos primeiros 30 meses daquele tempo, em que, segundo a filosofia de Passos Coelho, segundo a filosofia deste governo, já não interferirá em matéria privada.

Ninguém acredita que apareça um comprador que cumpra estas condições (ou compra e não cumpre, ou cumpre e não compra) e o início do processo da venda da TAP a 8 meses de eleições é mais do que uma intenção duvidosa: é uma confissão de intenções ocultas. Ninguém nem os sindicalistas da TAP que assinaram o acordo com o governo a prometer estas solenes garantias por parte do comprador da companhia acreditam nas promessas. Ou então estudaram filosofia na escola de Passos Coelho. Ou, tal como ele nos quer fazer acreditar, não devem ter ideia do que é uma companhia privada, comprada por fundos apátridas e gerida por mercenários pagos por cada escalpe feito. Ou então esperam receber uns restos dos despojos.

Seguindo a filosofia que Passos Coelho, instado, desenvolveu quanto à não interferência em matéria privada, conviria que ele explicasse aos cidadãos (e aos sindicatos) o que vai o governo fazer, sem intervir, claro, se o novo dono privado da TAP fizer como o dono da PT (e o da CIMPOR) tudo o que lhe apetecer ao contrário do que assinou? Lava como Pilatos as mãos. Salmodia que o governo é liberal e não se mete com negócios de empresas privadas e manda os ofendidos irem para tribunal.

É uma resposta de acordo com a filosofia do governo. Onde o ministro da saúde também filosofa quando diz aos familiares de um paciente abandonado numa maca e ali acabado de falecer: têm toda a razão, mas é um assunto privado, vão para os tribunais! O governo não interfere em matéria privada, como a das urgências.

Espera, o citado filósofo do ministério da saúde, que os tribunais ressuscitem os mortos, tal como Pedro Passos Coelho espera e promete que os tribunais, ao fim de umas décadas de trabalhos, reconstruam uma TAP, que entretanto já deve ter perdido até o nome, que viu serem vendidos dezenas de vezes os aviões, os edifícios, os serviços, as rotas, dispersas as tripulações.

Depois de muito instado, Passos Coelho reconheceu que vai começar a fazer milagres!

Quanto aos sindicatos que assinaram o acordo e estão à espera dos restos do saque com a prometida participação (10%?) no capital da empresa, devem reconhecer que acreditam em milagres…

 

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por Augusta Clara às 08:00



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