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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 02.03.18

"Marcelo e Varela Gomes defendem conceitos de liberdade e de democracia muito distintos" - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  "Marcelo e Varela Gomes defendem conceitos de liberdade e de democracia muito distintos"

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(Fotografia de Alfredo Cunha)

 

   Uma lagartixa nunca será um jacaré. Provérbio africano que escolhi para comentar a nota do Presidente da República a assinalar a morte. do coronel Varela Gomes cujo funeral se realizou hoje. A foto é Alfredo Cunha, 1975. Foi publicada nas redes sociais e por isso a reproduzo para ilustrar a rejeição do Estado - representado pelo seu chefe - a homens como Varela Gomes, homens de ideais, que lhe são estranhos. A nota do presidente da República a propósito da morte de Varela Gomes é um desapiedado revelador da personalidade de Marcelo Rebelo de Sousa e do regime a que preside.

Diz a nota: “ o chefe de Estado envia condolências à família e invoca a militância cívica do coronel destacando, “em particular, a sua consistente luta contra a ditadura constitucionalizada antes do 25 de abril de 1974”.

O Estado Novo é, formalmente caraterizado como uma ditadura constitucionalizada. O acrescento “constitucionalizada” tem a óbvia intenção de adoçar a ditadura do Estado Novo e, fundamentalmente a de salientar que aquela era um regime de ordem, anti-caótico ao contrário do que sucedeu após o 25 de abril de 1974, data referida expressamente na nota, marcando uma fronteira. Marcelo é um homem de ordem.

Isto é, em 2 linhas, o que Marcelo afirma. Há o essencial que ele apaga. Nunca refere a liberdade. E Varela Gomes lutou pela liberdade. Mas não é a liberdade que interessa a Marcelo Rebelo de Sousa. Ele também nunca refere a palavra democracia. Varela Gomes lutou pela democracia. Mas não é a luta pela democracia de Varela Gomes que Marcelo quer salientar. Pelo contrário, quer silenciá-la. Para ele MRS só existe uma democracia.

Marcelo e Varela Gomes defendem conceitos de liberdade e de democracia muito distintos.

Para Varela Gomes a liberdade inclui os direitos sociais associados, a liberdade depende da possibilidade de a exercer, de ter tempo, de ter acesso à educação e à cultura, à saúde, a um nível de bem estar que permita educar os filhos, por exemplo. Varela Gomes tem um conceito de liberdade alargado e generoso. Marcelo tem da liberdade o conceito dos sistemas mercantis da liberdade de expressão a quem dispuser de poder para dominar os meios de comunicação. Marcelo não podia falar da luta pela liberdade de Varela, porque a liberdade de um – a de Varela – torna a liberdade de outro – Marcelo – uma caricatura de liberdade.A liberdade de Marcelo é restrita e condicionada económica e socialmente.

Quanto à democracia. Marcelo é um mecanicista (para não dizer que pensa como um mecânico). Democracia, para Marcelo, é uma máquina que funciona segundo as regras que foram estabelecidas pelo fabricante e dentro do regime inscrito no livro de instruções (uma constituição) – a democracia de Marcelo é um regime constitucionalizado, que difere da ditadura constitucionalizada apenas pelo numero de utilizadores.

A democracia para Varela Gomes é um regime participado e baseado no esclarecimento.
Os dois têm conceitos incompatíveis de democracia.

Para Marcelo, um homem de ordem e de hierarquização social (os afetos são populismo) a democracia é o regime de menor denominador possível, o oposto de Varela Gomes. Para Marcelo, a democracia é representativa, assenta no exclusivo da decisão nos aparelhos partidários, funciona através de um sistema de rodas bem engrenadas, hermeticamente fechado num contentor estanque (Assembleia da Republica, comissões politicas, pex).

Marcelo é um bispo de diocese, capaz de excelentes sermões, de largas bênçãos às multidões, mas que nunca sairá debaixo do palio, que nunca causará um estremeção de dúvida nos fiéis, que defenderá a doutrina da infalibilidade da cúria papal e da verdade revelada. Estará sempre do lado do clero contra o povo.

Será sempre uma lagartixa. É da sua natureza e ser assim parece que é do agrado geral. Os rebeldes, os altercadores, os que duvidam são pedras no sapato. Hoje desapareceu definitivamente mais uma dessas pedras. Para Marcelo ele já tinha desaparecido em 25 de Abril de 74. Andou a incomodar a sua democracia até agora, 44 anos! Eu já nunca mais lhe darei lume para acender o charuto. Até eu já deixei de fumar. Obrigado ao Alfredo Cunha pela foto.

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por Augusta Clara às 14:46

Quinta-feira, 01.03.18

A ONU e os conflitos no Médio Oriente — Guterres, deixe-se de lamurias e diga o que se passa.- Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  A ONU e os conflitos no Médio Oriente — Guterres, deixe-se de lamurias e diga o que se passa

 

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   A ONU e o Médio Oriente. Desde o final da II Guerra Mundial (ou da IGG, consoante as interpretações), as potências ocidentais, em particular os EUA e a Inglaterra, têm como estratégia central desestabilizar a região. Os resultados são os que temos, da criação do Estado de Israel à atual guerra na Síria. A guerra tem sido a situação permanente no Médio Oriente. A talhe de foice para recordar: guerras Israel-Palestina, Israel-Líbano, Israel-Iraque, Israel-Egito, Israel-Siria, invasão do Iraque, do Afeganistão, guerra no Iémen (Arábia Saudita)… criação da Alqueda, do Daesh e bandos associados...

A ONU nunca teve um papel na resolução de qualquer destes conflitos a não ser o de cobertura a acções dos Estados Unidos. A ONU não é, manifestamente, uma organização com qualquer capacidade nem credibilidade para se envolver no conflito.

A desestabilização do Médio Oriente começa (é uma das opções) pelo embuste da criação do Estado de Israel. A fase mais recente começa com a mentira das armas de destruição em massa do Iraque e da mentira da responsabilidade do Afeganistão nos atentados das torres gémeas em Nova Iorque.

O caos no Médio Oriente foi criado pelas potências ocidentais (é um facto explicável pela sua centralidade mundial), com base em embustes e mentiras:

– criação do Estado de Israel para recompensar os judeus do Holocausto e proporcionar-lhes uma terra prometida onde vivessem na paz do seu Senhor (foi este o conto para crianças apresentado à opinião pública);

- “bombas atómicas” nas caves e arrecadações de Saddam para justificar a invasão do Iraque;

- preparação dos voos contra as torres gémeas em Nova Iorque por terroristas da Alquaeda sob o mando de Bin Laden (um saudita agente dos Estados Unidos contra a URSS), nas grutas do Afeganistão.

A ONU nunca interveio no caos do Médio Oriente a não ser através de declarações piedosas, quando os aliados ou os bandos a mando dos Estados Unidos estão em aflições, o que tem sido mais evidente agora na Síria, dado a intervenção da Rússia e a ação da Turquia terem criado situações delicadas para as forças apoiadas pelos americanos.

Todos os massacres são condenáveis e merecem a maior repulsa por parte da comunidade internacional e de cada um de nós. Os da Síria evidentemente. Mas a ONU, mais uma vez, não é fiável como intérprete da nossa repulsa (falo por mim).

A situação no Médio Oriente é uma teia de embustes, em que a guerra também é feita de falsa informação. A desinformação e a deturpação da realidade através de técnicas de manipulação da opinião, fazem parte do arsenal no campo de batalha;

A ONU soma desde a primeira intervenção militar da ONU, no Congo ex-Belga em 1960, intervenções desastrosas na construção ou na manutenção da paz .

Parece evidente que as Nações Unidas não são adequadas à função de promotoras da paz e que deviam abster-se de se envolverem em conflitos.

Em resumo e sob a forma de petição: Seria pedir muito que, em vez de patéticos e inconsequentes apelos à paz, a cessar-fogos para ações humanitárias, que o secretário-geral das Nações Unidas, o nosso querido António Guterres, fizesse o que era e é possível para ajudar de facto a comunidade a contribuir para acalmar o conflito e que seria apenas prestar uma informação neutra, clara, esclarecida, que ultrapassasse as cortinas de fumo sobre o que se passa no Médio Oriente?

Falo por mim:

- Não me comovem os apelos das Nações Unidas e do seu secretário-geral.

- Desconfio do que as Nações Unidas e o seu secretário-geral me dizem, dado serem coniventes, enquanto instituições, com as mentiras que conduziram ao atual estado do conflito.

Penso com a minha cabeça.

Só pretendo que as Nações Unidas e o seu secretário-geral me transmitam informação neutra sobre o que se passa. Não pretendo resoluções, pretendo informações.

Sei que é pedir muito. Sei que é ir contra a natureza das coisas. As Nações Unidas fazem parte do jogo de sombras.

Dispensem-me então as expressões pungentes à hora dos noticiários e os avisos de que as imagens são chocantes. Serão, mas também podem ser falsas, ou serem apenas as convenientes.

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por Augusta Clara às 20:46

Sexta-feira, 07.04.17

59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra

 

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59 mísseis para o regresso à normalidade americana da guerra.

Os 59 mísseis disparados pelos EUA contra um objectivo na Síria representam o regresso à agenda de guerra da política externa estabelecida no final do século XX. Trump sofreu mais uma derrota. Na campanha eleitoral Trump prometeu desinvestir nas guerras do Médio Oriente (o termo técnico é baixar o nível de empenhamento), porque o petróleo estava barato, era abundante e ele preferia o carvão que dava emprego a americanos. Trump considerava a NATO obsoleta e a Rússia um parceiro em vez de um inimigo.

Esta agenda colidia com os interesses de Israel e da Arábia Saudita que há décadas (pelo menos desde Nixon e Kissinger) dominam a matilha política de Washington. Os tiranetes radicais da Arábia Saudita e de Israel necessitam da desestabilização da região para se manterem no poder. Um Médio Oriente estabilizado é o fim dos negócios e do poder da família Saud e dos radicais judeus. A agenda tradicional dos EUA, a agenda de Clinton, marido e mulher, de Bush pai e filho, de Obama foi a de criar e manter um turbilhão na zona.

Em 2007, o general Wesley Clark, antigo comandante supremo da NATO, numa entrevista muito difundida, desvendou o plano dos EUA e dos seus aliados locais e europeus de tomarem ou destruírem 7 países em 5 anos: Síria, Líbano, Líbia, Somália e Irão, que iriam fazer companhia ao caos do Iraque. Era este o programa de Hillary Clinton.

Em 3 de Fevereiro de 2017, logo após a posse de Trump, o general David Petraeus, antigo director da CIA, alertava o novo presidente para o perigo de alterar a “war agenda”. Numa conferência na Comissão Militar afirmou que a América não podia dar como garantida a atual situação (a situação herdada de Obama). Esclarecia que essa situação não era autosustentada e que fora criada pelos Estados Unidos. Se não for mantida colapsará, garantiu.

Os 59 mísseis lançados sobre uma base siria demonstra que os velhos poderes já estão bem instalados em Washington. A velha situação de desestabilização não colapsou. A família Saud e Benjamin Netanyahu podem celebrar de novo a vitória. Os lobistas do armamento, das companhias militares privadas podem acender charutos.

Não deixa de ser caricato que Trump tenha justificado a sua derrota com um impulso piedoso devido ao choque sofrido com as imagens das crianças atingidas pelas armas químicas. Armas cuja origem ninguém se interessou em investigar, a começar pelo próprio Trump. Já o mesmo tinha acontecido com as armas de destruição em massa de Saddam Hussein, que levaram Bush filho à segunda invasão do Iraque.

A velha ordem regressou a Washington. E à Europa também, com uma diferença: a doutrina Blair de sujeição activa da Europa ganhou adeptos. Hollande e Merkel não estiveram à altura de Chirac e Schroeder. Esses também tinham que vender armas, mas a estes não lhes custa serem rafeiros…

Tudo como dantes. Quartel em Abrantes

 

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por Augusta Clara às 23:43

Quinta-feira, 02.04.15

A Grécia e os novos Kissinger - Carlos de Matos Gomes

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Carlos de Matos Gomes  A Grécia e os novos Kissinger

 

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   «Provavelmente, temos que atacar Portugal» disse Kissinger o Secretário de Estado americano em Abril de 1975, a propósito da ameaça de mau exemplo que Portugal dava na Europa com a sua revolução e a busca de caminhos políticos autónomos desalinhados do rebanho europeu conduzido pelos EUA através da NATO. Washington receava que o País caísse no “campo comunista” e lançou uma ofensiva para evitá-lo. Era preciso «atacar» Portugal e expulsá-lo da NATO.

Algumas frases retiradas de uma audiência no Vaticano entre uma delegação americana com Gerald Ford e Kissinger e o papa Paulo VI, para convencer o chefe da Igreja Católica a não se opor à acção dos ditos “Aliados” contra Portugal: «Portugal pode evoluir para um regime que é a combinação da Jugoslávia com a Argélia. Com um regime desses, e mantendo-se Portugal na NATO, pode ter más influências na Itália, conduzindo ao “compromisso histórico” [entendimento entre democratas-cristãos e comunistas], que nós não queremos.» Gerald Ford: «É difícil entender que Portugal, com um governo comunista, seja nosso parceiro. A NATO foi criada para se opor ao comunismo.» Kissinger: «Se um membro da Aliança se tornar comunista, (...) isso iria destruir a Aliança Atlântica. Não podemos dar um mau exemplo em Portugal.» (citado de Nuno Simas in DN 28 de abril de 2004)

Algumas frases recentes dos ministros das Finanças e do Eurogrupo contra o governo Grego do Syriza eleito em 2015, quarenta anos depois do Verão Quente em Portugal:

«A Alemanha tem sido intransigente quanto à Grécia e ao pedido de extensão dos empréstimos e qualquer mudança na política de austeridade do país. O ministro das Finanças germânico (Wolfgang Schaeuble) tem sido a principal figura desta campanha...e é mesmo classificado como o “carrasco” de Atenas.»

«O governo alemão considera que “as propostas de Atenas” não conduzem a uma solução substancial.»

«Grupo de trabalho do Eurogrupo discute situação grega. Pierre Moscovici, avisa que o tempo é limitado.» Em Bruxelas, Margaritis Schinas, porta-voz do presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, disse «não existir, nesta altura, uma agenda para entregar dinheiro a Atenas e admitiu que a decisão pode vir a ser adotada numa teleconferência antes da Páscoa.»

«Berlim continua a exigir uma lista mais precisa de reformas para desbloquear fundos para Atenas. Em Bruxelas fala-se de discussões complicadas.»

«Não há mais tempo a perder»; foi esta a mensagem deixada pelo presidente do Eurogrupo, na reunião de ministros das Finanças da Zona Euro em Bruxelas, centrada na Grécia.

«O ministro grego das Finanças, Yannis Varoufakis, estará debaixo de pressão mais uma vez. A chanceler alemã, Angela Merkel, não esconde que o caminho será difícil: “O nosso objetivo é manter a Grécia na zona euro. Trabalhamos nesta questão há vários anos. Mas é verdade que a moeda tem duas faces: de um lado a solidariedade dos parceiros europeus e do outro a prontidão a implementar reformas e os compromissos no país. Sobre isto, temos um caminho difícil pela frente”. O Eurogrupo exige que Atenas implemente reformas para ter acesso a ajuda financeira.»

Reino Unido teme resultado “muito mau” na Grécia. George Osborne, o ministro das Finanças do Reino Unido que esteve reunido com Yanis Varoufakis na semana passada, diz que «está a crescer o perigo de um "resultado muito mau" para a crise na Grécia.»

O governo de Passos Coelho também entende que a Grécia é um mau exemplo: «Na última semana a Grécia entrou pelo discurso do PSD como mau exemplo. Para os sociais-democratas Portugal deve continuar o caminho seguido pelo governo nos últimos três anos e meio.» O ministro Marques Guedes: «Portugal é a "formiga" e a Grécia a "cigarra".»

Para Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal do EUA, a saída da Grécia do euro é «uma questão de tempo.»

Durão Barroso admitiu hoje (6/1/2015), que se a Grécia não cumprir os compromissos haverá consequências. «Espero que não mas, se a Grécia sair do euro, projeto europeu não ficará comprometido.»

A Grécia é hoje a ovelha negra do rebanho, como Portugal foi em 1975. Estão à vista os herdeiros dos «mata e esfola» de 75. Tudo farão para colocar a Grécia sob controlo. Amarrada de pés e mãos para o sacrifício no altar dos mercados. A menor falha no coro será punida sem dó nem piedade para exemplo de futuros rebeldes. Os credores mandam e os seus tiranos executam.

Os missionários e outros propagandistas chamam União Europeia a esta tirania. Chamam ao garrote ajustamento. Chamam conversações à humilhação. Chamam ao saque serviço da dívida. Chamam aos gregos subversivos. Daqui a uns dias serão terroristas. Chama a esta loucura bom senso político. Depois haverá uma guerra e o negócio seguirá como habitualmente, com lucros garantidos para os mesmos de sempre.

Carlos de Matos Gomes

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 20.02.15

Em busca do pai do D. Quixote - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  Em busca do pai do D. Quixote

 

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   Anda uma equipa de arqueólogos espanhóis a tentar identificar os ossos de Cervantes na cripta do convento das trinitárias de Madrid, onde estarão misturados com os de muitos outros seres humanos. É uma estranha tarefa. Gastamos dinheiro e energias na impossível e inútil tarefa de reparar uma injustiça secular em vez de investirmos em evitar as do presente. Muito mais importante que a descoberta dos ossos do «manco do Lepanto» é o texto de José Manuel Caballero Bonald, Premio de Literatura Miguel de Cervantes 2012, publicado no dia 14 de Fevereiro no El País e que eu traduzi o melhor que pude. Importante seria encontramos muitos D. Quixotes, porque moinhos, salteadores, corruptos, prepotentes, hipócritas há por aí muitos:

“Andou sempre a escapar de qualquer coisa: da justiça, da falta de amor, da penúria, do aborrecimento. Não fugia, ausentava-se, largava de um porto desagradável para atracar a outro igualmente pouco acolhedor. As etapas do infortúnio assinalavam um caminho que conduzia a uma inevitável derrota. Que o levava ao triste refúgio de vencido. Sofreu os males de guerras, cativeiros, descalabros e desdéns. A família desfeita, a vontade esgotada, o destino mutilado foram as únicas credenciais com que pretendeu chegar ao inalcançável. Nunca fez carreira em nenhuma confraria porque não era adepto da lisonja nem condescendeu com a iniquidade dos poderosos. Residiu de modo vulgar em cidades impensáveis e executou tarefas desprezíveis. Com pouca prosápia e enfatuamento, com muita humilhação, solicitou trabalhos vásrios, nunca concedidos. Defendeu os valores dos homens decentes e lutou contra os dos falsos, era amigo dos perseguidos e abominava os perseguidores. Um dia, cansado de privações, desiludido por não ter conseguido ser o que sonhara, regressou ao refúgio de onde partira como um combatente aquebrantado pela derrota. Publicou então, quase sexagenário, um livro que haveria de constituir até hoje uma das obras primas da literatura universal. Nem sequer se conhece o paradeiro dos seus ossos. Mesmo que um dia sejam encontrados, tal descoberta jamais remediará a obstinação da injustiça.”

Carlos Matos Gomes

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 09.02.15

"Dois tristes cucos não fazem um coro" - Carlos Matos Gomes

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 Carlos Matos Gomes  "Dois tristes cucos não fazem um coro"

 

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        Dois tristes cucos não fazem um coro. Hollande e Merkel foram mostrar aos europeus que são bem intencionados, mas não contem com eles. Foram dizer que a Ucrânia é um despojo que está a ser disputado pela Rússia e os Estados Unidos. Eles são da petite Europe, nada de confusões. Hollande e Merkel representam dois estados que já partiram os dentes na Rússia, um com Napoleão, outra com Hitler. Aprenderam que não se podem meter lá, mas não aprenderam como viver com a Rússia. A questão é: porque carga de água rebentou a crise da Ucrânia? A melhor resposta que conheço é de um general francês, Jean-Bernard Pinel, num livrinho, Carnet de Guerres et de Crises: “Desde a aqueda do muro, os estrategas e os políticos americanos perceberam uma ameaça principal: uma aproximação seguida de uma aliança entre a Europa e Rússia, que contestaria a supremacia dos Estados Unidos, que lhe permite dirigir com toda a impunidade os negócios mundiais, impor um direito internacional de acordo com os seus interesses.”
A guerra civil na Ucrânia é uma guerra dos Estados Unidos contra a Rússia com dois objectivos; fazer uma ameaça direta, através da colocação de um governo satélite junto às fronteiras e cortar qualquer possibilidade e aliança entre a Europa e a Rússia. Soam assim profundamente ridículas as palavras do pobre Hollande e da sua companheira de viagem quando dizem: que quando a França e a Alemanha se juntam o mundo escuta-os e toma-os em consideração. Putin deve ter-lhes dado palmadas nas costas. Falado do tempo que faz em Moscovo. O problema não é esse… é o de a Europa apoiar um Estado de Israel na Ucrânia, para desempenhar junto da Rússia o papel que Israel desempenha no Médio Oriente. O pobre Hollande ainda teve a ingenuidade de afirmar que nem a França nem a Alemanha estão em guerra na Ucrânia e que não fornecerão armas. Obrigado. Ficamos todos mais descansados. Não falta quem as forneça. Não se preocupem com isso. O complexo militar industrial dos Estados Unidos agradece. As acções já começaram a subir.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 30.01.15

PT e TAP: O milagre da filosofia - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  PT e TAP: O milagre da filosofia

 

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   Instado (boa palavra!) pela bancada parlamentar do BE a impedir a venda da PT Portugal, o primeiro-ministro reiterou que a filosofia deste Governo passa por não interferir em matéria privada.

Instado (esta é minha) pela opinião pública a não privatizar a TAP, Passos Coelho reiterou que a filosofia deste Governo é transformar a matéria pública em privada, para depois não interferir nela e assim manter a sua pureza ideológica e ser filosoficamente coerente.

A filosofia (como Passos Coelho chama à sua governação) do governo para a TAP é fazer dela uma PT com dois claros objectivos: proporcionar à TAP o indesmentível e claro sucesso que a PT tem sido, em particular nos últimos dias, e deixar de interferir nela, do género eles que voem para onde quiserem e não me chateiem.

O caderno de encargos da venda da TAP é entre o confuso e o obtuso, como já era o da falecida PT, mas, segundo Passos Coelho, garante tudo o que a TAP actualmente é, como se prometeu com a PT, quartel-general em Portugal. Voos preferenciais para as rotas da emigração portuguesa e os destinos de interesse estratégico, manutenção das aeronaves segundo os manuais, tripulações competentes, enfim, uma companhia de bandeira como a que hoje existe, decente e até, segundo a última versão de Passos Coelho, sem despedimentos nos primeiros 30 meses daquele tempo, em que, segundo a filosofia de Passos Coelho, segundo a filosofia deste governo, já não interferirá em matéria privada.

Ninguém acredita que apareça um comprador que cumpra estas condições (ou compra e não cumpre, ou cumpre e não compra) e o início do processo da venda da TAP a 8 meses de eleições é mais do que uma intenção duvidosa: é uma confissão de intenções ocultas. Ninguém nem os sindicalistas da TAP que assinaram o acordo com o governo a prometer estas solenes garantias por parte do comprador da companhia acreditam nas promessas. Ou então estudaram filosofia na escola de Passos Coelho. Ou, tal como ele nos quer fazer acreditar, não devem ter ideia do que é uma companhia privada, comprada por fundos apátridas e gerida por mercenários pagos por cada escalpe feito. Ou então esperam receber uns restos dos despojos.

Seguindo a filosofia que Passos Coelho, instado, desenvolveu quanto à não interferência em matéria privada, conviria que ele explicasse aos cidadãos (e aos sindicatos) o que vai o governo fazer, sem intervir, claro, se o novo dono privado da TAP fizer como o dono da PT (e o da CIMPOR) tudo o que lhe apetecer ao contrário do que assinou? Lava como Pilatos as mãos. Salmodia que o governo é liberal e não se mete com negócios de empresas privadas e manda os ofendidos irem para tribunal.

É uma resposta de acordo com a filosofia do governo. Onde o ministro da saúde também filosofa quando diz aos familiares de um paciente abandonado numa maca e ali acabado de falecer: têm toda a razão, mas é um assunto privado, vão para os tribunais! O governo não interfere em matéria privada, como a das urgências.

Espera, o citado filósofo do ministério da saúde, que os tribunais ressuscitem os mortos, tal como Pedro Passos Coelho espera e promete que os tribunais, ao fim de umas décadas de trabalhos, reconstruam uma TAP, que entretanto já deve ter perdido até o nome, que viu serem vendidos dezenas de vezes os aviões, os edifícios, os serviços, as rotas, dispersas as tripulações.

Depois de muito instado, Passos Coelho reconheceu que vai começar a fazer milagres!

Quanto aos sindicatos que assinaram o acordo e estão à espera dos restos do saque com a prometida participação (10%?) no capital da empresa, devem reconhecer que acreditam em milagres…

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 23.01.15

Juntos, afinal, não podemos - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  Juntos, afinal, não podemos

 

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   É o título do artigo de Rosa Pedroso Lima, no Expresso de 17 de janeiro a propósito das disputas entre fações de um movimento político que já se tinham desprendido de outras, que, por sua vez, já eram resultado de detritos de outras. São pessoas conhecidas e experientes na matéria. São por princípio bem intencionadas e voluntariosas. Acredito que pretendem o melhor para Portugal e para o mundo. Têm, do que sei, brilhantes capacidades intelectuais. A grande questão é que correspondem áquilo que Millôr Fernandes escreveu na apresentação (julgo) de O Pasquim: cada exemplar é um número e cada número é um exemplar.

Estas pessoas, sem dúvida respeitáveis, pertencem a uma espécie muito comum numas certas esquerdas: são bonsais de grandes líderes. Têm tudo para ser grandes, os genes, as ideias, o projecto único de salvação, só lhes falta a grandeza, a dimensão, o volume. São seres únicos, infelizmente o ambiente não lhes proporcionou as condições para crescerem e se afirmarem. E têm ainda uma outra característica: são insolúveis. Não servem para fazer cimento. Incorporam a água e transformam-se imediatamente em pedra. Também são incuráveis. Têm a vantagem de ser previsíveis. Já repetiram tantas vezes o mesmo número que é fácil perceber que quando se apresentam para fazer uma união, quando afirmam que podemos trabalhar juntos, quando propõem uma aliança, um bloco, é certo que cada um traz as suas granadas de efeitos especiais prontas a lançar.

São dissidentes militantes. Anarquistas (se há um governo sou contra) que tentam contrariar a sua natureza. Ao vê-los à porta, o diabo diria, com o cinismo dos velhos, peguem nas brasas e vão fazer o vosso inferno noutro lugar.

Estas pessoas são do melhor que qualquer organização pode desejar para a dirigir, desde que essa não seja um navio que necessite de tripulação, ou um corpo de bombeiros, nem uma equipa médica, ou qualquer empresa cuja actividade obrigue a realizar uma tarefa com princípio, meio e fim. Serão adequados para escalar o Everest, por exemplo, ou saltar de paraquedas, ou fazer bolas de sabão, o problema é porem-se de acordo sobre quem criou o mundo assim. Só representam um perigo quando são levados a sério.

Num momento em que a sociedade portuguesa necessita, como alguém disse, de um programa de emergência para evitar maiores danos e criar as condições para uma recuperação, convinha deixar estas estrelas do universo nos seus solilóquios, sem as incomodar, dispensando-as de se misturarem com quem terá de deitar mãos à obra. É que elas não podem, nem juntas, e ainda menos sós.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 16.01.15

Sou contra assassinos - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  Sou contra assassinos

 

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   Sou contra assassinos. Quando oiço muçulmanos dizerem que não são Charlie porque eles ofenderam o profeta e cristãos, quando oiço pessoas sensíveis e bem comportadas e até bem intencionadas, dizerem: não sou Charlie porque não se pode ofender impunemente as convicções religiosas e os sentimentos dos outros, percebo que estou noutra onda e que, a prazo, corro riscos de morte, como os dos jornalistas do Charlie Hebdo. Para mim o assassínio dos jornalistas do CH e dos clientes do supermercado não é relativo. Não é negociável. Para mim não há convicções religiosas que justifiquem o assassínio. Se o assassínio é fruto de convicções religiosas, eu sou contras as convicções religiosas. Mas à minha volta já muitos se renderam.

Se essas pessoas não são Charlie por essas razões, é porque entendem que é razoável e defensável que um homem, ou uma mulher não só sejam seguidores e seguidoras de um deus (um Deus, meu Deus! – uma entidade criadora do universo, adorado por ser bom e justo, por considerar todos os homens e mulheres como seus filhos) que aceita que seus fiéis (e logo os mais zelosos!), assassinem outros homens e mulheres precisamente por fazerem uso do dom do livre arbítrio com que esse Deus dotou os seus filhos, deixando-os livres para pensarem mal, para pecarem, para renegarem quem os animou! Isto é, essa gente para quem o assassínio em nome de Deus é justificável, admite o que num tribunal ordinário de homens normais seria considerado autoria moral de um crime hediondo!

Isto é normal? E justificável? Existe um Deus assim como este dos assassinos, patrocinador e protector de assassinos? Existe um Deus autor moral de crimes? Um Deus que tem juízes e carrascos na Terra? Um Deus que tem assassinos por sua conta, que não aceita ser ofendido por um pobre homem que lhe faz uma caricatura e exulta com uma chacina? Isto é uma crença aceitável, respeitável? É respeitável, merecedor de crédito, defender estes usos e costumes, estas crenças?

Dir-me-ão que o Deus dos israelitas não é melhor do que este dos islamitas assassinos. Que o Netanyahou não é melhor que estes dois irmãos? É verdade. E o mesmo quanto aos deus dos cristãos. Se aceitarmos que estes são os homens de mão dos deuses, os deuses são todos iguais e eu tenho de lutar contra eles, todos eles, com as minhas armas. Os jornalistas lutaram contra estes deuses de assassinos com as armas da caricatura. Eu estou com eles. Sou Charlie Hebdo, como já fui palestiniano em Gaza, ou cristão na Siria e ateu porque não admito que alguém da minha espécie acredite num monstro a que chama deus e que entenda ser normal ou aceitável que o nome de um qualquer deus as práticas da sua adoração surjam associadas a acções que implicam o assassinato de quem não acredita nele e não o leva a sério.

Não, os fiéis de qualquer deus, profeta, santo ou sócio que assassinam não merecem nenhum respeito, nem nenhuma complacência, nem as suas exóticas crenças podem servir de atenuante. Trata-se de doidos perigosos. Ou de assassinos com um alibi. Não estamos no mundo do sagrado. Estamos no da bestialidade.

Ir à raiz do mal que matou em Paris, como matou e mata em Gaza, na Siria, no Iraque, ou na Nigéria é, em primeiro lugar, enfrentar a irracionalidade da fé em qualquer Deus. Da fé neste deus e neste profeta e na fé noutros deuses e noutros profetas.

É contra a irracionalidade da fé religiosa a luta que tem de ser travada em nome da humanidade. É dessa luta que todos temos medo. Disfarçamos o nosso medo de enfrentar as forças da irracionalidade admitindo que respeitamos as crenças de cada um, como se a religião não matasse e fosse uma mera opção por uma bebida, por um dia de descanso, por umas salmodias, por umas leituras, pelo comprimento das saias da mulher e da barba dos homens.

A raiz do mal está no totalitarismo inerente à crença num deus, numa entidade em que temos de acreditar para sermos salvos de um pecado, de um destino que não sabemos qual é, de uma entidade protectora que não escolhemos para nos proteger e que ninguém no seu perfeito juízo consegue dizer quem é.

Enquanto existir um homem ou uma mulher que acredite que tem de adorar um deus para se salvar e que tem de praticar atos criminosos para o aliciar, defendendo-o à rajada das ofensas que os infiéis e os hereges lhe possam fazer, teremos um assassino em potência como estes de Paris, que passaram da irracionalidade da fé à realidade do crime.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 09.01.15

Requalificar – é a minha primeira palavra do ano - Carlos Matos Gomes

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Carlos Matos Gomes  Requalificar – é a minha primeira palavra do ano

 

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   Requalificar, do dicionário: qualificar de novo; melhorar; revitalizar. Sinónimos de requalificar, também do dicionário: atualizar, renovar, amodernar, inovar, modernizar, remodelar, revolucionar.

Na verdade a palavra requalificar serve para tudo. Corresponde a uma interjeição como: pois! Ou: claro! Ou ainda: Exatamente! Ou, em dialecto suburbano: Fixe!

Para o oficialíssimo Ministério do Emprego e eteceteras: “O Programa REQUALIFICAR tem por objeto promover a empregabilidade dos trabalhadores que se encontram inscritos nas agências de emprego da Região ------, por via do reajustamento das suas qualificações em cursos elegíveis.” (Exatamente)

Requalificar é igual a despedir? Perguntava um título de jornal (o de negócios). Governo diz que é abusivo comparar. (Pois)

Já sei o que é requalificar, garantia Paulo Ferreira no JN de 17.09.2013: “O comunicado saído do último Conselho de Ministros (CM) ficará para os anais da História recente da democracia portuguesa. A linguagem utilizada no documento é, porventura, o melhor exemplo de como o Governo (ou, pelo menos, quem, em nome dele, redige as conclusões saídas daqueles encontros) perdeu a capacidade que lhe resta - se é que restava alguma - para tratar os cidadãos como pessoas. Obrigado pelo Tribunal Constitucional a rever "o regime jurídico da requalificação de trabalhadores em funções públicas", o Governo decidiu racionalizar os efetivos requalificando-os. Tradução para português mais ou menos corrente: despedem-se os alegados excedentários. “ (Claro)

O Instituto de Segurança Social, dependente do ministério anterior, também não tem dúvidas sobre o que é requalificar. Manda 697 trabalhadores para a requalificação (Público de 04/11/2014) Na sua maioria são auxiliares e docentes. (Devem sair requalificados em quê? Mistério da requalificação. Ou da Fé, se o ministro fosse religioso)

O território também não escapa: “Requalificar e valorizar a orla costeira”. Anuncia um programa chamado Polis. Garrincha, o jogador brasileiro, perguntou ao seu treinador, quando este lhe deu a tática para vencer a equipa da Rússia: Já disseram isso aos russos? Isto é, os senhores e as senhoras do Polis já pensaram em requalificar o oceano? Ou perguntar-lhe se ele está de acordo com a requalificação da orla costeira? E os construtores civis foram eles requalificados? E os presidentes das câmaras?

A propósito de autarquias, são requalificadoras de alto gabarito. Notícias recentes garantem: NISA: Câmara vai requalificar o Mercado Municipal.   A Câmara Municipal de Viseu aprovou a obra de requalificação do pavilhão desportivo da Escola Secundária Viriato. Por sua vez, Viana do Castelo optou por: Demolir para requalificar. Isto a propósito do projeto de requalificação da margem ribeirinha do rio Lima, na Argaçosa. Os “Cidadãos Por Coimbra”, segundo a Rádio Universidade, querem “requalificar a noite”! – Talvez dando-lhe luz e cor. Um Sol. Também em Coimbra o Jardim Botânico vai ser requalificado: “O Jardim Botânico da Universidade de Coimbra dá mais um passo importante. O projeto de requalificação das suas estruturas incluem as estufas, o banco de sementes e a criação de um gabinete de ciências.” Um gabinete de ciências! (Fixe!)

Mesmo entidades tão tradicionais como a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa aderiram à requalificação: A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa precisa de mais de 20 milhões de euros para requalificar a totalidade dos 42 edifícios devolutos que detém na cidade. Temos de jogar mais à raspadinha, ou requalificar a lotaria, o totoloto. Em Leiria, pelo contrário, é a Câmara que vai requalificar Igreja da Misericórdia e instalar um espaço museológico no templo do século XVI. (Já não é sem tempo!)

Até a ciência mais pura e recente é passível de requalificação. A cientista Clara Moskowitz tem um plano de novas experiências que podem requalificar o bosão de Higgs. Afirma: Se parece um Higgs, e age como um Higgs, então provavelmente é um bosão! (Pois então!) Segundo a Wikipédia “o bosão de Higgs é uma partícula elementar bosónica prevista pelo Modelo Padrão de partículas, teoricamente surgida logo após ao Big Bang de escala maciça hipotética predita para validar o modelo padrão atual de partículas e provisoriamente confirmada em 14 de março de 2013.” Tão recente e já a necessitar de requalificação!

A Microsoft, o gigante da informática, a ciência da modernidade, também requalifica não só programas, discos rígidos e tinteiros, mas até desempregados: “Microsoft quer requalificar desempregados para venderem cloud”. A notícia é do Computerworld, que fornece pormenores: “No âmbito de um protocolo, o fabricante pretende promover cursos de formação em vendas nos centros de emprego, para constituir uma rede de empresários dedicados à venda comissionada de software Microsoft em cloud computing.” E, para mais, é tudo no âmbito da sua iniciativa “Elevar Portugal”! É claro, elevar até às nuvens.

Os trabalhadores das indústrias de ponta, são all in one: “Trabalhadores da Siemens vão requalificar a vila do Samouco”. Anuncia o Setubalense. Nem o Samouco escapa.

E acontece que já existem requalificações do que já havia sido requalificado. Em Oliveira do Hospital a Câmara vai requalificar Centro de Interpretação das Ruínas Romanas da Bobadela. Segundo do jornal da região: “O que já era esperado há muito tempo acabou por acontecer. O Centro de Interpretação das Ruínas Romanas da Bobadela não está em condições de desempenhar as funções para o qual foi construído.” (Está em ruínas?)

No tempo da outra senhora Portugal era do Minho a Timor. O Portugal dos fundos europeus é requalificado! Depois destes exemplos não estará Portugal já suficientemente requalificado? Não estaremos nós, os portugueses, suficientemente escaldados com tanta requalificação? Não se podem fazer meras obras, realizar cursos, despedir trabalhadores, deixar os bosões à sua sorte? É necessário chamar a tudo isto uma requalificação? É que algumas são de mau agoiro, a Junta de Freguesia de Adaúfe, por exemplo, lançou um concurso para requalificação do cemitério com abertura de Propostas pelas 19 horas do dia 21 de Junho de 2013. Esperam-se mortos também requalificados, com os impostos em dia!

A requalificação está a destruir as mais genuínas tradições portuguesas. A desintegrar a identidade nacional. Até na capital do Ribatejo, terra de homens com patilhas, de toiros, de forcados, de vinho carrascão, segundo o jornal com o nome da região, o assombrado Mota Soares teve a desfaçatez de falar da “requalificação” num jantar-debate do CDS/PP, em Santarém. Até o Ribatejo vai ser requalificado, provavelmente com a lezíria ajardinada, para ser vendido aos chineses!

Que a esperança seja também ela requalificada, são os meus desejos.

 

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por Augusta Clara às 08:00



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