Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.

Ensaio de Amália Rodigues e Alain Oulman sobre o poema "Soledad" de Cecília Meireles
Cecília Meireles Motivo
(Alphonse Mucha)
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
Cecília Meireles Canção
(Emile Berchmans)
Não te fies do tempo nem da eternidade, que as nuvens me puxam pelos vestidos, que os ventos me arrastam contra o meu desejo! Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto, nácar de silêncio que o mar comprime, ó lábio, limite do instante absoluto! Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço a anémona aberta na tua face e em redor dos muros o vento inimigo... Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã morro e não te digo...
(in Antologia Poética, Relógio d'Água)
|
Cecília Meireles 5º. Motivo da rosa
(Adão Cruz)
Antes do teu olhar, não era,
nem será depois — primavera.
Pois vivemos do que perdura,
não do que fomos. Desse acaso
do que foi visto e amado: — o prazo
do Criador na criatura...
Não sou eu, mas sim o perfume
que em ti me conserva e resume
o resto, que as horas consomem.
Mas não chores, que no meu dia
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem.
(in Cecília Meireles, Antologia Poética, Relógio d'Água)
Cecília Meireles Dia de chuva
(Shadi Ghadirian, fotógrafa iraniana)
As espumas desmanchadas
sobem-me pela janela,
correndo em jogos selvagens
de corça e estrela.
Pastam nuvens no ar cinzento:
bois aéreos, calmos, tristes,
que lavram esquecimento.
Velhos telhados limosos
cobrem palavras, armários,
enfermidades, heroísmos...
Quem passa é como um funâmbulo,
equilibrado na lama,
metendo os pés por abismos...
Dia tão sem claridade!
só se conhece que existes
pelo pulso dos relógios...
Se um morto agora chegasse
àquela porta, e batesse,
com um guarda-chuva escorrendo,
e, com limo pela face,
ali ficasse batendo
— ali ficasse batendo
àquela porta esquecida
sua mão de eternidade...
Tão frenético anda o mar
que não se ouviria o morto
bater à porta e chamar...
E o pobre ali ficaria
como debaixo da terra,
exposto à surdez do dia.
Pastam nuvens no ar cinzento.
Bois aéreos que trabalham
no arado do esquecimento.
(in Cecília Meireles, Antologia Poética, Relógio d'Água)
Cecília Meireles 1º. Motivo da rosa
(Autor desconhecido)
Vejo-te em seda e nácar,
e tão de orvalho trémula,
que penso ver, efémera,
toda a Beleza em lágrimas
por ser bela e ser frágil.
Meus olhos te ofereço:
espelho para a face
que terás, no meu verso,
quando, depois que passes,
jamais ninguém te esqueça.
Então, de seda e nácar,
toda de orvalho trémula,
serás eterna. E efémero
o rosto meu, nas lágrimas
do teu orvalho... E frágil.
(in Cecília Meireles, Antologia Poética, Relógio d'Água)
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.