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Jardim das Delícias


Domingo, 20.12.15

Mondo perdido - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Mondo perdido

 

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Chegada à Paz (Visão), 19 de Dezembro de 2015

No campo de refugiados há um rapaz que ajuda discretamente nas limpezas. Também é refugiado, só que não sabe.

   Mondo é o rapaz que limpa as casas de banho do campo. Reparei nele quando nos faltou e a sujidade se arrastou por três dias. Também é refugiado, mas não sabe. O problema é que, ao contrário dos que agora chegam, ele tem já quatro anos de história aqui, esquecido pelo mundo e pelas gentes, sem sonhos nem dignidade.

Quando, em 2011, as primaveras árabes incendiavam o norte de África e o Médio Oriente, chegaram-nos imagens de barcos sobrelotados de migrantes fugidos da guerra a dar à costa em Espanha, Malta e Itália. Mondo tinha vinte anos e apanhou um desses, que o levou da Tunísia até ao caos de Lampedusa.

Após doze horas de viagem numa modesta embarcação com mais de setenta pessoas, o combustível chegou ao fim e os migrantes ficaram perdidos no meio do mar. Um navio de pescadores cruzou-se no seu caminho e rapidamente se afastou, com medo daqueles olhares desesperados. Esperaram várias horas, até a polícia marítima italiana os resgatar e levar até à costa.

Na primeira semana, foi transportado de Lampedusa para Roma, onde permaneceu três dias, e dali passou para Bari. Contou-me que os migrantes eram deixados à sua sorte e autogoverno num edifício do Estado. Assistiu e sobreviveu a cenas de violência, à falta de higiene, a incêndios nos quartos, mortes e deportações. Um dia, conheceu um seu compatriota que seria deportado para a Tunísia na manhã seguinte. "Se quiseres sair deste centro", revelou-lhe, "tens de mentir, não há outra hipótese. Tens de dizer que és menor".

Mondo assim fez, fugido da sua terra em chamas, sem qualquer documento que o comprovasse, afirmou em tribunal que tinha apenas 17 anos, tendo sido logo encaminhado para uma "Casa-Família" em Lecce, lar que partilhou com tantos outros jovens na sua situação. Voltou a fazer o 9º ano, trabalhou em restaurantes a lavar pratos, arrumou carros e pediu dinheiro na rua. Quando fez 18 anos teve de abandonar a casa e fazer-se à vida.

Conta-me que viveu na rua e que conheceu as pessoas erradas. "Meti-me em problemas de que não tinha capacidade de sair". Um dia bebeu demais e invadiu uma casa. Quando a polícia o encontrou, disse que só procurava um sítio para dormir. Acredito que tenha omitido os verdadeiros contornos da história, com medo de perder a minha confiança, mas não quis interromper a sua narrativa. Em tribunal, foi condenado a seis meses de prisão. Cumpriu a pena e saiu em liberdade. Voltou a pedir nas ruas e, passado pouco tempo, voltou à prisão por roubar. Foi obrigado a abandonar o país.

Passou pela França, Alemanha e agora está na Bélgica. Sobreviveu de esmolas, sopa dos pobres, má vida, duches públicos e centros de acolhimento. Hoje tem 25 anos e vive numa casa abandonada com outros três "Sans Papiers", imigrantes ilegais, sem papéis, sem dignidade, sem família, sem sonhos, sem vida.

Quando, em setembro, o antigo campo de refugiados começou a crescer, Mondo passou por lá à procura de comida e roupas. Estava na Bélgica há pouco tempo e dormia na rua. Deram-lhe um lugar numa das tendas. Foi começando a ajudar, apanhou lixo e traduziu de árabe para francês. Com o encerramento do campo, passou diretamente a trabalhar aqui no Hall Maximilian e tornou-se, sem nunca ninguém o ter nomeado, no responsável da limpeza.

Quando cheguei, disseram-me para ter cuidado com ele, que era ladrão. Era esse o dia do seu aniversário. Veio apresentar-se, com um discurso sedutor, soube que ele falava italiano e escrevi "Parabéns Mondo" num papel com várias cores para lhe oferecer. Parti do princípio que não podia confiar nele, mas nunca o dei a entender. Muita gente ali o tratava com desprezo.

Defendi-o. Ou tínhamos provas e o mandávamos embora, ou o deixávamos ficar, sem lhe roubar o bocadinho de dignidade que ainda lhe resta. Comecei a perceber que ele levava comida e roupas na mochila, mas resolvi ficar calada. Um dia foi apanhado em flagrante e um dos coordenadores do campo chamou-o à parte. "Já há muito tempo que sei que vens aqui para roubar", disse-lhe, "sei bem as dificuldades por que passas, mas a nossa tolerância chegou ao fim e esta situação tem de acabar. Deixo-te agora duas hipóteses: nunca mais apareces e vais roubar para outro lado, ou te tornas digno de confiança e ficas connosco, vamos dar-te roupa e a comida de que precisares, amigos e uma família com que poderás sempre contar".

Mondo decidiu ficar. Uma vez por mês tem direito a escolher roupa e sapatos para si e, todas as semanas, o responsável da comida dá-lhe um saco de mercearias para ele levar para casa. É dos primeiros a chegar e dos últimos a sair, anda sempre com uma coluna portátil a tocar música e limpa o centro com um sorriso constante.

Tem os braços cheios de pequenos cortes. Quando reparei, explicou-me que não sabia por que o fazia, que simplesmente acontecia, quando estava mais revoltado. "Estes já são antigos. Desde que cheguei a Bruxelas, só o fiz uma vez", revela-me com o sorriso de sempre, "os mais profundos, fi-los na prisão em Itália".

A sua mãe vive na Tunísia. De cada vez que falam, pergunta-lhe entre lágrimas se ele consegue comer e implora-lhe para que nunca volte. Antes de fugir para a Europa, Mondo tirou um curso profissional de cabeleireiro, abriu o seu próprio salão na garagem de casa e lá trabalhou dois anos, até que a violência e a instabilidade levaram a família a fechar as portas, com medo de morrer no meio dos disparos. Usou o dinheiro que lhe restava para apanhar o barco em busca da liberdade e da paz. Em troca, deixou para trás todas as hipóteses de dar sentido à sua vida, para lá da sobrevivência.

Mondo é um filho da injustiça do mundo em guerra, que não distingue pessoas de números, um delinquente a quem nunca foi dada uma oportunidade de escolher o caminho certo. Talvez seja este o início de uma história mais bonita ou talvez o campo feche e Mondo volte a roubar, sem hipóteses de trabalho legal e de uma vida digna.

Um dia revelei-lhe que tinha medo do escuro. Riu-se muito, respondeu-me que não tinha medo de nada. "Na casa onde eu estou, não há eletricidade, daqui a umas horas o sol põe-se e eu volto para dormir, na total escuridão". "Mas não te preocupes", disse-me, "já estou habituado".

Apesar das dificuldades por que têm passado, os refugiados desta nova vaga não se viram ainda em situações de total perda de esperança no mundo que habitamos. Abandonaram os seus países há pouco tempo, têm tido cama, roupa e comida, ainda não precisaram de pôr os seus princípios de lado. Precisam de ajuda e de recomeçar, mas na via da legalidade. Espero que os Estados europeus o percebam a tempo e que não os deixem cair. Que lhes deem espaço para a integração, para participarem na nossa sociedade e economia como iguais. Que o trabalho seja mais eficaz do que aquele que foi feito com o meu amigo Mondo, o miúdo ilegal.

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 24.11.15

Vazio e medo em Bruxelas - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Vazio e medo em Bruxelas

 

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Chegada à Paz (Visão), 23 de Novembro de 2015

É urgente pensar no que se vai fazer aos refugiados. Agora evitamos a fome e protegemo-los do frio. Amanhã vai ser preciso deixá-los juntar-se a nós e abrir portas para que encontrem o seu lugar no mundo.

   Hoje não há sol em Bruxelas, as ruas estão desertas, o país está em alerta máximo por ameaça iminente de um ataque terrorista e a única coisa que mexe são as gotas da chuva que me caem na ponta do nariz. Há militares e polícias imóveis a cada esquina, tanques nas avenidas sem gente, sem luzes e sem comércio. O céu cinzento condiz com as caras dos poucos que por aqui passam, tal como eu, a tentar manter a normalidade.

Não há metro e os autocarros estão apinhados, tipo lata de sardinhas, e de vidros embaciados. Não há supermercados, nem lojas, nem museus, nem turistas, nem confusão, nem os bêbados das seis da tarde. Há grades e portas fechadas a sete chaves. Vejo cinzento e verde seco, caras sisudas e sirenes barulhentas que rompem o silêncio do medo. Será este o ambiente da guerra? Que história tão triste.

Antes de tudo isto, estive várias vezes a trabalhar em Molenbeek, o bairro esquecido da cidade de Bruxelas e que, por isso mesmo, agora é famoso. Aquilo a que os jornais chamam "fábrica de jihadistas" é uma zona onde muitos imigrantes árabes encontraram uma comunidade com algum sabor a casa. Sem oportunidades, sem igualdade, com pobreza e desemprego, num apartheid de consentimento mútuo. Tanto os recém-chegados encontraram familiaridade num bairro de maioria árabe e, por isso, decidiram fixar-se ali, como o Estado belga os terá deixado excluídos, discriminados, no seu cantinho da cidade.

Molenbeek é uma personificação a céu aberto, para quem quiser visitar, do falhanço europeu na integração efetiva das suas comunidades de imigrantes. Com 40% de população jovem, pelas suas ruas cheias de cores e cheiros exóticos passeiam rapazes sem trabalho, sem escola, sem dinheiro e sem perspetivas. Sem futuro. Nasceram cá, mas na casa errada. Sentem a injustiça e a revolta num quotidiano vazio. Não têm nada que fazer e, o que mais assusta: não têm nada a perder.

É neste bairro que se situa o depósito de doações do campo de refugiados, é para lá que toda a roupa e comida são encaminhadas, triadas e organizadas, para depois serem distribuídas no Hall Maximilian. Precisam muito de ajuda e, quando tinha menos trabalho, passava por lá para dar uma mãozinha ao meu colega Gille, o coordenador da incansável equipa que se ocupa daquele caótico armazém. Pude constatar que era um bairro pobre, mas nunca ninguém me deu razões para ter medo. É um bairro de maioria árabe, como tantas outras ruas e praças em Bruxelas. Como aquela em que eu vivo.

Na semana passada, estava no elétrico a escrevinhar qualquer coisa no meu caderno, quando entrou um homem de barba comprida e se sentou à minha frente, a falar ao telefone. Como comecei a aprender árabe com os refugiados, pus-me discretamente a ouvir, para ver se apanhava alguma coisa. O homem terminou o telefonema e começou a falar comigo. Perguntou-me o que é que eu escrevia, se era um diário e se eu descrevia a minha viagem até casa. Apressou-se a dizer que estava a brincar, mas respondi-lhe que estava a escrever um artigo. Admirado, respondeu: "Muito bem, pode então escrever aí que acabou de conhecer um marroquino de Molenbeek, está a ver onde é? Um bairro muito falado, nos últimos dias, infelizmente pelos piores motivos. Também sou muçulmano e venho de lá, mas não tenha medo de mim".

Ri-me, à falta de uma resposta melhor, "claro que não", disse-lhe. "Devo dizer-lhe, menina, que, por vir de lá, sei muito bem qual é o problema. Escreva se quiser. Os jovens são filhos de imigrantes, muitos deles marroquinos como eu, mas nasceram cá. Se forem para Marrocos, são estrangeiros. Se ficarem na Bélgica, estrangeiros são. Não fazem parte de nenhuma pátria, não sentem pertença a lado nenhum. Não têm valores a que se agarrar. Não têm educação, abandonam as escolas cedo e não há ninguém que os demova. Sentem-se discriminados, injustiçados. Não têm hipóteses de trabalho, nem dinheiro, nem casa própria, carro, namorada... Nada. Eu estou lá, eu conheço muitos jovens assim e tenho medo por eles. Estão perdidos, revoltados e são presas fáceis para os que querem espalhar o mal. Basta um discurso bonito e apelativo, uma família que lhes prometa acolhimento e inclusão e estão prontos para dar a vida, depois de lhes oferecerem uma", conta-me. "É triste vê-los partir por uma causa que nada tem a ver com o Islão". É triste, mais uma vez concluo, não terem nada a perder.

Desisti de escrever sobre o assunto que tinha em mãos e segui o conselho daquele senhor. Agradeci-lhe por me ter abordado e pedi-lhe que não deixasse de contar a sua história. "As pessoas precisam de saber isso, precisamos todos de refletir e, só assim, alterar o rumo das coisas", disse-lhe, antes de sair para o frio da cidade.

Depois daquele encontro, percebi que nada é mais pertinente na questão em que me debruço, a crise de refugiados, do que falar em integração. A Europa falhou e o "Estado Islâmico" ganha terreno, entre aqueles que nós não conseguimos acolher. Temos cada vez mais medo e estamos, infelizmente, cada vez mais próximos do drama de que os refugiados fogem. O melhor seria cortar o mal pela raíz e promover a união pela força, opondo-nos ao terror que se aproveita das brechas da nossa sociedade.

Hoje o ambiente é de guerra, de vazio e medo. Há uma metralhadora a cada virar de esquina, a tensão sente-se no ar e nas praças desertas, nos olhares dos poucos proprietários corajosos que resolveram abrir os seus cafés e agora fixam o infinito assustador, através das montras. "Eles conseguiram", não me sai da cabeça. Temos medo, temos terror, temos frio. A cidade parou. Molenbeek está no mesmo sítio, tal como a majestosa Grand Place, agora cercada por militares. As ruas e praças estão lá também, tristes e vazias. O Primeiro-Ministro veio pedir às pessoas que ficassem em casa, mas não tenho televisão e andei por aí, por isso só soube ao fim do dia.

O campo de refugiados do Hall Maximilian fechou, os serviços mínimos estão assegurados, há uma equipa que distribui sanduíches, roupas e cobertores do lado de fora. Quando lá cheguei, disseram-me para voltar para casa e esperar por atualizações, que estavam a tratar de tudo com um número reduzido de voluntários. Vamos lá ver como isto evolui.

Uma nova insegurança surgiu no meu pensamento: a de a situação se inverter. Já vários campos de refugiados foram alvos de atentados na Europa, às mãos de um extremismo xenófobo que usa o mesmo veículo para crescer. O medo. Mas não nos deixemos consumir por ele, só temos de nos proteger. Por agora fico em casa, a ver o que acontece.

Devemos estar preparados para o perigo de um crescimento da desconfiança e da xenofobia, sem perder motivação e energia. Se a inserção social dos refugiados já não parecia fácil no contexto da semana passada, neste momento, a dificuldade cresce a cada minuto de silêncio das ruas de Bruxelas.

Aproveitemos esta triste oportunidade para ponderar as políticas de integração. Os motivos de muitos dos jovens europeus que se juntam ao "Estado Islâmico" vão muito para além da religião, tal como me disse o marroquino do elétrico.

É então hoje, mais do que nunca, urgente pensar no que se vai fazer à gente que chega, aqui refugiada, à espera de uma vida. Agora evitamos a fome e protegemo-los do frio, amanhã vai ser preciso deixá-los juntar-se a nós e abrir portas para que encontrem o seu lugar no mundo. Manter a esperança de que Europa não é só sinónimo de paz frágil, mas também de pertença e de inclusão. De união.

Orgulhamo-nos das nossas liberdades e direitos, mas não queremos partilhá-las com quem não as tem. Acredito que não devemos subestimar o choque cultural, mas também que este, quando ultrapassado, nos tornará a todos mais ricos, mais sábios e cosmopolitas. Mais capazes e mais fortes, com mais vontade de preservar aquilo que é nosso. A nossa paz e harmonia é feita de pessoas que se sentem a fazer parte, de pessoas com casa, trabalho, vida e história. Pessoas resolvidas e incluídas. Que têm algo a perder.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 19.11.15

Mulheres sem nome nem voz - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Mulheres sem nome nem voz

 

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Chegada à Paz (Visão), 5 de Novembro de 2015

A voz das refugiadas e a minha voz, todas as vozes dizem que Anan é o nosso futuro

 

   A pequena Anan tem sete anos. Não para quieta. Quando lhe digo que não pode vir para o pé de mim, trepa o balcão e passa para o meu lado. Nunca está com os pais, vejo-os poucas vezes. Passo por ela no corredor e salta para o meu colo, dando-me um abraço tão forte, que não sou capaz de a pôr no chão. Vai ter comigo para a levar à casa de banho e anda às minhas cavalitas para todo o lado. Adora mexer-me no cabelo e pede-me sempre que lhe faça uma trança igual à minha.

Penso no seu futuro com um sorriso, acredito que vai ser ela uma mulher entre as pioneiras da grande transformação já iniciada neste mundo da desigualdade. Desejo que alcance todos os seus objetivos. Espero que nunca deixe de ser desobediente. Eu também sou, à minha maneira. E não passei, até hoje, por metade das mudanças repentinas de vida que ela, em sete anos de história, já sofreu.

Às primeiras horas do dia, apareceu-me no centro uma mãe síria com três crianças, perdida e enfraquecida pela história, pela injustiça, pela guerra e pelos milhares de quilómetros que percorreu nos últimos dias. Não tive tempo de lhe conhecer o nome. O marido morreu, ela resolveu partir sozinha e trazer os filhos para a paz. Percebi que foi atravessando fronteiras em carros particulares, até que o último a deixou na Bélgica. O condutor esperou que os passageiros saíssem do carro e arrancou, com a bagagem e todo o dinheiro dos refugiados, deixando esta mulher no meio da estrada, ferida e sem chão, sem teto, sem norte. Levei as crianças ao médico e ela ficou numa sala, resguardada da confusão, para se recompor. Tremia de frio e medo. Não voltei a vê-la.

Na sala de espera dos Médecins du Monde, à tarde, está uma senhora de olhos negros, brilhantes, com um bonito lenço dourado a cobrir-lhe os cabelos. Há de ter quarenta e poucos anos, espera por um filho de dez, que está a ser visto pelo médico, e tem ao seu lado outro, da minha geração. Vieram os três do Iraque.

"Fizemos a mesma viagem que todos os que estão aqui", revela-me, "com a pequena diferença de que, para mim, sendo mulher, foi mais doloroso correr e trepar, passar por barreiras de arame farpado, andar à chuva e ao frio. Não estou habituada a estas coisas. Foi muito doloroso. O mais pequenino fez metade da viagem com febre e eu doente fiquei, só de o ver assim".

Por ficarem para trás nos grandes grupos, a senhora e os filhos foram várias vezes apanhados pela polícia e estiveram presos, por uma noite, na Bulgária e na Sérvia. Mas a mulher sem nome sorri, tranquila, quando conclui: "agora já cá estamos, já passou".

Tenho muito pouco contacto com mulheres, neste centro de refugiados. Por questões culturais, a sua vida social é anulada. Os homens é que tratam das necessidades da família e são raras as que encontro uma segunda vez. Comunicamos por olhares e sorrisos, aproximo-me sempre a pretexto de me meter com os bebés, a quem faço festinhas na cabeça e digo uma das poucas palavras que sei em árabe: habibi, meu querido. As mães agradecem com ternura e afastam-se rapidamente, sempre de olhos no chão.

Há uns dias encontrei uma senhora a chorar, na casa de banho. Não pensei muito e dei-lhe um abraço. Sorriu, surpreendida, e limpou logo as lágrimas, respirando fundo. Não sei como se chama e também não a voltei a ver.

Um dia destes, estava na Cruz Vermelha e uma mãe explicou-me, por gestos, que precisava muito de umas cuecas. Piscou-me o olho, à procura de cumplicidade, mas eu, como ela só falava árabe, e tendo todo o cuidado de dizer que precisava de roupa, de um modo geral, para não a comprometer, pedi a um colega meu que lhe explicasse que tínhamos de ir ao Hall Maximilian buscar o que ela queria. Quando ele reproduziu em árabe o que eu disse, a senhora ficou tão embaraçada que acabou por lhe dizer que só queria tomar um duche. Continuava a piscar-me o olho, enquanto se dirigia para a casa de banho. Peguei num papel e desenhei rapidamente um mapa para lhe dar, na esperança de a encontrar mais tarde e poder resolver-lhe o problema. Nunca voltou a aparecer.

Quando tento interagir com as mães de família que visitam o centro, peço sempre a amigos que sirvam de intérprete e é interessante ver como eles se dirigem, imediatamente, aos maridos para colocar as minhas questões. "Posso entrevistar a tua mulher?", perguntam primeiro. Infelizmente, são muitas vezes os homens quem acaba por responder. Custa-me esta condição subalterna em que as encontro, mas não deixo de fazer a minha parte, sem julgar nem me cansar, grão a grão vai-se mudando qualquer coisa. Que fique dito e escrito, que sou tão defensora dos direitos das mulheres, como da tolerância e do respeito pela diferença. Acredito que, com tempo e paciência, podemos mudar as ideias, educando-nos uns aos outros.

Também faz parte do meu trabalho dar o exemplo. Mostrar como, "apesar de" ser mulher, me comporto, ensinar a todos com que me relaciono que temos de nos aceitar uns aos outros como iguais, independentemente das nossas diferenças.

Com o passar do tempo, fiz amigos e constituí aqui uma família provisória, uma necessidade também por estar longe da minha. A verdade é que, muitas vezes, sinto que estou a receber mais do que aquilo que dou. Tenho aprendido tantas coisas sobre a vida, o mundo e as pessoas, sobre a comunicação e as relações humanas, que devo um grande agradecimento aos que agora fazem parte dos meus dias.

Os rapazes da minha idade, os meus companheiros, ajudantes e tradutores incansáveis, não aumentaram só o seu nível de inglês e francês, aprenderam também como é ser rapaz e rapariga neste novo mundo. Agora também eles podem ensinar isso àqueles que chegam.

Nada pode ser exigido à força, à pressa, repito-me, é preciso tempo para a adaptação, para que a integração aconteça, no verdadeiro sentido do termo. Ponho-me na pele deles e parto para a reflexão mais básica: e se fosse ao contrário? Se eu tivesse de fugir para um dos seus países, com os costumes da minha terra e o estilo de vida que adquiri ao longo da minha história? É certo que iria ser difícil adaptar-me, ninguém me perguntaria se eu era ou não a favor disto e daquilo, e isso, nestas circunstâncias , pouco interessa.

Se queremos ensinar a respeitar, defendo que devemos respeitar primeiro. Faço isto e o resultado tem sido incrível. Sorrio, converso, desafio, interpelo, tomo a iniciativa... E já não encontro os olhares com que fui recebida nos primeiros dias, de desconfiança e fascínio, de algum desprezo e curiosidade, até de provocação. Agora recebo sorrisos e as minhas vontades são respeitadas. Somos todos feitos do mesmo, raparigas, mulheres, rapazes e homens. Os recém-chegados aprendem isso mais rapidamente, com os que já lá estavam.

É isto o que penso e que vejo, apresento-a na humildade de quem sente, sem estudar a teoria. A História escreve-se devagar, com letrinhas de criança como as que Anan desenha no meu caderno. Mas escreve-se, sempre. E a minha escrita continua, talvez para daqui a uns dias ter mais histórias de mulheres guerreiras. Ainda não desisti de lhes dar um nome e uma voz.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 03.11.15

A Espera e a Esperança - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  A Espera e a Esperança

 

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Um mês, dois, cinco meses de entrevistas para receber asilo. Ou não receber e ficar clandestino, porque ninguém deveria ser devolvido à guerra. Espera e ansiedade no campo de refugiados. 

 

Chegada à Paz (Visão), 2 de Novembro de 2015

 

   Tenho um grande amigo aqui, um companheiro que fala muito bem inglês e anda comigo para todo o lado, a fazer de intérprete. O Geil tem vinte anos, transferiu-se para Bruxelas com a família, quando tentaram assassinar o seu pai, um oficial general no exército iraquiano. Contou-me que, dias antes de partir, prometeu a uma menina, a troco de um beijo, que se casaria com ela quando acabasse os estudos. Não pôde cumprir a palavra, mas consegue rir-se disso. "Pode ser que depois disto tudo, quando eu tiver papéis, uma casa e uma vida, alguma miúda se queira casar comigo". Eu quero muito dizer a verdade ao Geil, mas deixo a verdade para depois da espera e digo-lhe que vai conseguir ter isso tudo. Pode ser que até lá a verdade mude.

Porque agora, as hipóteses de um futuro para Geil são muito poucas. Se viesse da Síria, era mais fácil.

Pendurados no balcão, de olhos brilhantes, curiosos, e uns primeiros sinais de barba tão próprios da idade que têm, um grupo de cinco rapazes tenta interagir comigo, com o obstáculo da falta de prática em inglês - e em meninas. Acabo por lhes facilitar a vida metendo conversa, nomes, idades, de onde vêm, e eles ali ficam, com risinhos nervosos, a contar-me as suas histórias.

Tenho de voltar ao trabalho e eles vão dar uma volta. Passado um bocado, voltam menos sorridentes: não têm onde dormir. Faço de mãe e ralho com eles, mas com o sorriso de sempre. "Então só agora é que me dizem? Vão imediatamente à Cruz Vermelha!". Mandei-os comer qualquer coisa e pedi ao meu colega Mathieu para os acompanhar. Os menores de idade nunca ficam na rua, para eles há sempre solução. O problema são os outros.

Todas as noites, perto da hora de fecho do centro, um grande grupo de pessoas espera ansiosamente a chegada da Lou ou da Sara, dois anjinhos de cabelo loiro e olhos azuis. São elas quem trata de arranjar um sítio para quem não teve direito ao acolhimento nos edifícios estatais, nem na Cruz Vermelha. Ao longo do dia, vou sendo abordada por pessoas com a mesma aflição: não ter onde dormir. A resposta é sempre a mesma: não há problema, só têm de ficar por perto, comer e descansar, eu registo os nomes e, por volta das oito, alguém há de vir para resolver a questão.

A Lou e a Sara são responsáveis pelos contactos com as famílias e instituições que acolhem temporariamente refugiados em situações de desespero. O centro de imigração abre apenas nos dias de semana, o que significa que quem chegar a Bruxelas fora desse horário fica dependente de um abrigo provisório, quase sempre garantido pela Cruz Vermelha, pela universidade ou por uma família belga. É difícil querer ajudar toda a gente e ter de seguir regras. As famílias com crianças têm sempre prioridade. Por vezes, há mesmo quem acabe a dormir na rua, por impossibilidade de distribuir toda a gente. É disso que mais me custa esquecer, todas as noites, quando me obrigo a um processo de abstração, no caminho de bicicleta até casa.

À chegada à capital belga, todos os refugiados devem dirigir-se ao centro de imigração, nos dias úteis e no horário de expediente, para a recolha de impressões digitais. Neste momento é marcada uma primeira entrevista, é-lhes designado um local para dormir até lá e recebem roupa e produtos de higiene. Mas se, por exemplo, uma família chegar numa sexta-feira à tarde, terão de se socorrer do nosso serviço de alojamentos para passar o fim de semana numa casa e, segunda-feira, se poderem apresentar no tal escritório.

Após a primeira entrevista, os refugiados têm de esperar pela convocatória para uma segunda. Dependendo do caso, poderá existir uma terceira entrevista e até uma quarta. Todo este processo dura à volta de seis meses. Seis meses de ansiedade. As entrevistas são marcadas e, em cima da hora, adiadas para daí por um ou dois meses. O tempo de espera pode ser superior a quatro ou cinco meses e todas estas pessoas ali estão, todos os dias, no meu balcão, a ver passar o tempo.

Ainda assim, devemos pensar que estão melhor aqui do que nos países de onde vêm e que esperar em paz já é muito bom. Uma mãe de família iraquiana, que partiu sozinha com os filhos para a paz na Europa, explicou-me que “pior do que morrer, é esperar pela morte” na terra da guerra.

No fim das entrevistas, os refugiados deverão aguardar, por tempo incerto, uma resposta positiva ou negativa. Durante toda a burocracia, vivem em edifícios disponibilizados pelo Estado, espalhados pela Bélgica, deslocando-se a Bruxelas para cada fase do processo de asilo. No Hall Maximilian, temos tradutores, advogados e assistentes sociais que trabalham como voluntários para os aconselhar e acompanhar, tentando tornar tudo mais fácil e rápido.

Se a resposta for negativa, estes refugiados terão de abandonar o espaço Schengen, ou esperar mais uns meses para pedir um recurso e recomeçar o processo.

É nesse momento que começa o seu drama de Sans Papiers, homens e mulheres de todo o mundo, a quem não foi concedida uma nova vida, uma oportunidade de recomeçar, e que obviamente não podem voltar para as suas terras. Dormem nas ruas, errantes, sem solução de futuro, nem solução de presente. Muitos deles trabalham aqui no centro como voluntários, em troca de comida e também de uma "família", que somos nós. Há algumas associações na cidade que os acolhem, mas a incerteza é avassaladora para quem vive nesta situação.

O que mais me custa é saber que, por agora, é quase impossível obter o direito de asilo para todos aqueles que não vêm da Síria. Não é regra escrita, mas é a realidade. Lá, a guerra é efetiva, para não dizer "oficial", e talvez, por isso, a Europa sinta maior responsabilidade. No Hall Maximilian, tenho amigos sírios, mas também iraquianos, palestinianos, afegãos, paquistaneses e ugandeses. Todos estes países têm instabilidade e violência, todas estas pessoas deixaram os seus lares por causa do mesmo desespero, da mesma falta de alternativa, todas por uma questão de sobrevivência. Todas estão a passar pelo processo de entrevistas, algumas já pela segunda vez. A minha tarefa é tentar transmitir-lhes esperança. Sorrio sempre. Acompanho-os nesta espera. E adio a verdade, à espera que a verdade mude.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Sábado, 31.10.15

Miúdos como os nossos - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Miúdos como os nossos

 

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Uma criança, é uma criança, é uma criança.

 

   Chegada à Paz (Visão), 30 de Outubro de 2015

   Hoje, o pequenino Ahmed venceu a timidez e veio perguntar-me o meu nome. Há uma semana só abanava a cabeça, quando me metia com ele, enquanto se escondia atrás do tio. Já fala francês, aprendeu aqui no centro com a professora Cécile, e estava cheio de vontade de me mostrar. Com um grande sorriso, continua a conversa, dizendo-me o seu nome, que vem da Síria e gosta de jogar futebol no parque. Tem 8 anos. Elogiei-o e fiz uma apresentação do mesmo género, disse-lhe de onde vinha, nome, idade, e que gostava de desenhar.

Desenhei vários animais e ensinei-lhe os seus nomes. Pegou na folha e repetiu-os, contente. Omar, 6 anos, veio juntar-se a nós, intrigado, e ergueu a mãozinha muito esticada para que eu lhe desse "mais cinco". Riu-se muito, puxou a fita que me prendia o cabelo e desatou a correr com ela na mão, maroto. Fui atrás dele, quando o apanhei, virei-o de pernas para o ar e pu-lo a rodopiar. "Ai ai ai", disse-lhe. Passou o resto do dia a repeti-lo. Passava por mim, com um sorriso reguila, puxava-me o braço e dizia "Adriana, ai ai ai".

As crianças dão cor e alegria ao centro de refugiados do Hall Maximillian. É paradoxal o que sinto: custa-me vê-los, tão pequeninos, nesta situação de vida, mas também me alegra constatar a facilidade com que se adaptam a novos ambientes, o facto de não terem memórias longas e a espontaneidade com que se riem de uma brincadeira qualquer.

Afinal, para uma criança, a vida é uma novidade. Não falamos a mesma língua, mas podemos passar horas a rir, a brincar e a comunicar, sem palavras. Talvez não saibam o que significa ser refugiado, apesar de o sentirem, eu isso vejo. Têm uma perceção do exterior mediada pelos sentimentos dos adultos que cuidam deles, sendo assim tocados pela incerteza, instabilidade e insegurança.

Este tempo será de certeza mais fácil para as crianças que viajam em família. Nem quero pensar no que sentem os muitos que foram separados dos pais, entregando-se a outros colos que os trouxeram até aqui, em nome da sobrevivência. Quero acreditar que com imaginação e vivacidade, a sua integração será mais fácil. Como também dará força, cor e esperança aos adultos que com eles caminharam para a paz. Isso vê-se já, aqui no centro.

Tenho observado com interesse que grande parte das doações que chegam ao centro são artigos para crianças. Brinquedos, material de desenho, livrinhos, roupas, carrinhos de bebé e fraldas, para além de sacos de guloseimas e bolachinhas. As pessoas tendem a proteger os mais pequenos, as crias, como se também fossem suas. Ainda bem. Com as crianças é tudo mais fácil, até a solidariedade. Não só são indefesas, como não têm idade para "ter culpa". Ninguém desconfia de que são terroristas, ninguém as vê como ameaças aos nossos empregos, nem sequer têm uma religião diferente. Podemos por isso ser naturalmente solidários e soltar o nosso instinto inconsciente de salvar aqueles que asseguram a continuidade da espécie. Só espero, no entanto, que não nos esqueçamos de que cuidar das crianças é cuidar das suas famílias, que são essenciais ao desenvolvimento e bem-estar destes miúdos fugidos da violência.

O ambiente aqui no centro é emocionalmente confuso e conto com os mais pequenos para manter alguma normalidade e alegria. Hoje, ao fim da tarde, fruto da acumulação de emoções fortes, fome, cansaço, frio e desconforto, houve um desentendimento entre dois homens. Começaram a ouvir-se gritos na casa-de-banho e muita gente se juntou à volta deles para observar a briga.

Corri para ir buscar as crianças, muita violência já elas viram, levei-as para o meu balcão e distribuí sacos de pipocas. Atilhos desatados, mãozinhas afundadas naquela textura agradável e desvaneceram-se as caras de choque, com que fui encontrá-los a todos.

Os sorrisos estavam de volta. Omar lembrou-se logo de atirar pipocas às pessoas, fazendo todos os outros rir. Quando chegou ao fim do pacote, as suas mãos pequeninas não conseguiam recolher as últimas migalhas. Mandei-o abrir a boca e virei o saco ao contrário. Adorou a ideia, pegou nos saquinhos dos outros meninos e tentou despejá-los da mesma forma, fazendo chover pipocas por todo o lado.

Ao fim do dia, a princesinha Aisha, de 2 anos, presenteia-nos a todos com uma grande birra na casa das roupas. Quer escolher ela. A mãe, de bebé ao colo, está evidentemente cansada e desiste. Eu deixo a filha mexer em tudo à sua vontade. Muitas manhãs, quando eu tinha esta idade, a minha mãe passava por tormentos assim. Mesmo com a roupa já escolhida na noite anterior, eu mudava de ideias e só queria vestidos ou t-shirts cor-de-rosa. Depois de uma longa negociação, lá chegávamos atrasadas à escola e ao trabalho. Somos todas iguais.

Aisha sai, já no carrinho, com uma mochila da Hello Kitty, meias cor-de-rosa e uns sapatinhos de princesa, de aspeto altamente desconfortável. Da secção das roupas até à saída do centro, apanhei do chão e voltei a calçar-lhe os sapatos cinco vezes. Tenho a certeza de que não chegou calçada ao sítio onde passam a noite, mas é capaz de ter adormecido pelo caminho.

Um pai iraquiano apresentou-me hoje a sua linda filha de cabelos encaracolados. A menina debruçou-se do colo para me abraçar. “Falas inglês?”, perguntou-me o homem. Quando lhe disse que sim, riu-se muito. “Eu não. Só falo árabe”. Um outro refugiado aproxima-se para traduzir e peço-lhe que lhe diga que a menina é muito bonita. “Tem três anos. Ele pergunta se a queres adotar”. Rio para não chorar e digo-lhe que não posso, que as meninas bonitas têm de ficar com os seus pais. Dá uma grande gargalhada e enche a filha de beijinhos. Fiquei sem saber se ele estava a falar a sério.

Neste sítio onde a esperança é a última a morrer, acabamos todos por ser pais e filhos uns dos outros.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Quinta-feira, 29.10.15

Que dia é hoje? - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Que dia é hoje?

 

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Oda sonha com o derrube do regime sírio, mas não tem vontade de voltar à pátria.

 

Chegada à Paz (Visão), 28 de Outubro de 2015 

 

   Oda e eu somos filhos da mesma fornada. Em junho de 1994, a minha mãe e a dele chegaram ao fim da gravidez e prepararam-se para trazer mais um bebé a este mundo, ambas com algumas reticências quanto à conjuntura política do mundo, mas nada que lhes tirasse a felicidade própria da ocasião.

Desde que aprendi a falar, a minha família ensinou-me a pensar, a refletir e a contestar aquilo que não achasse justo, o meu avô sempre se orgulhou do meu lado revolucionário, característica que, no meio em que cresci, foi tão incentivada como alvo de brincadeiras e piadas sem maldade. No caso deste meu contemporâneo, a sua capacidade de questionar e reivindicar não pôde ser vista com tanta ligeireza. Nos anos da adolescência, juntou-se a um grupo de rebeldes como ele, que acreditavam na mudança e espalhavam uma mensagem de contestação e luta pela liberdade. Tornou-se oficialmente inimigo do Estado sírio aos dezasseis anos. Um terrorista.

Não quis entrar em pormenores, contou-me apenas que tinham matado todos os seus amigos, depois de serem perseguidos, presos e torturados. Aos dezassete, fugiu com a família para o Egito, entrou para a faculdade de engenharia no Cairo e, passados dois anos, o seu passaporte caducou. Foi à embaixada para renovar os documentos, mas o funcionário estava a par da sua situação criminal. Negaram-lhe a documentação, ordenaram-lhe que regressasse à Síria. Só tinha uma alternativa: fugir.

Oda deixou a família na capital egípcia e partiu para a costa, onde apanhou um barco ilegal que o levaria a ele, com mais trezentos, para Itália. Conhecemos, em Lisboa, essas imagens. Pagou três mil e quinhentos dólares e, navegadas poucas milhas, a embarcação cedeu por excesso de peso e má qualidade dos materiais. O naufrágio tirou a vida a mais de metade dos passageiros.

Oda sobreviveu, conseguiu chegar à costa e durante dois dias andou perdido no deserto. Se a polícia o apanhasse, seria preso por ter embarcado ilegalmente e logo deportado para a Síria, onde a morte, ou pior, o esperava. Conseguiu regressar ao Cairo, arranjar trabalho e juntar dinheiro para a viagem seguinte.

A família, de classe média, reunia também condições para ajudar o filho a sair do Egito. O total da passagem para a paz viria a ultrapassar os 10 mil euros. Da Turquia, Oda partiu para as ilhas gregas, num barco pequenino com o dobro do número aconselhável de passageiros. De Atenas viajou para a Macedónia e foi a pé até à Sérvia. Conta-me isto tudo com uma calma que me surpreende.

Atravessou a caótica fronteira húngara a pé, com milhares de desconhecidos. Conseguiu um táxi para Budapeste, dali um carro particular até Viena e por fim um comboio para Bruxelas, onde nos encontrámos. Já cá está há três meses e meio. Dorme em casa de um primo e passa o dia no centro para ter comida e uma muda de roupa.

"Amanhã vemo-nos de certeza", diz-me à despedida, "eu estou sempre aqui, farto desta vida, desta espera, não faço ideia se hoje é terça, domingo ou sexta-feira."

A verdade, que me dói, é que não mudaria nada se Oda soubesse que dia é hoje. O meu amigo quer continuar a estudar e voltar para a família, no Egito, onde tinha uma vida. Sonha com o fim do atual regime sírio, mas não tem vontade de regressar à sua pátria. “Se a guerra acabar nada me resta, tudo foi destruído, já não há nada de bom para ver. Foi-se tudo, já não existe nada do que me faria voltar”.

Oda e eu temos a mesma idade. Temos alguns sonhos em comum, mas oportunidades de vida assustadoramente distantes. Demo-nos bem, trocámos uma história triste, mas também muitos sorrisos. No fim da conversa, ele tinha os olhos brilhantes, quis confortá-lo, mas nunca hei de saber o que dizer. Ele também não saberia. Sorri-lhe. “Temos de esperar, vai tudo resolver-se”, foi o melhor que me saiu. Oda e eu temos a mesma idade.

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por Augusta Clara às 14:00

Terça-feira, 27.10.15

Gente à espera de uma vida - Adriana Costa Santos

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Adriana Costa Santos  Gente à espera de uma vida

 

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As primerias impressões de Adriana Costa Santos no Hall Maximillian, campo de refugiados em Bruxelas 

 

Chegada à Paz (Visão), 26 de Outubro de 2015

 

   Hall Maximillian fica a poucos metros do jardim que há uma semana era a casa de centenas de migrantes. Quando cheguei a Bruxelas, o campo havia já sido encerrado, o governo disponibilizara casas de acolhimento para os refugiados e a sociedade civil unia esforços para lhes dar condições básicas de sobrevivência.

O sítio onde agora trabalho, o tal Hall Maximilian, é um armazém antigo, precariamente transformado num local em que os refugiados passam o dia, recebem roupas e comida, apoio educativo e legal, cuidados de saúde e atividades de lazer. No dia em que fecharam o campo, contou-me a minha colega Chantal, voluntários e refugiados uniram esforços, deitaram paredes abaixo, construíram degraus, bancos e bancadas com paletes de madeira e criaram divisões com paredes de pano e contraplacado. Entrando pela velha garagem, encontramos uma cozinha improvisada, uma casinha para as roupas, uma sala de estar com colchões e almofadas, escolas de línguas, um centro de saúde gerido pelos Médecins du Monde, um gabinete de psicologia e assuntos legais, um espaço para as crianças e uma grande cantina.

No centro trabalham cerca de sessenta voluntários. Uns distribuem comida e roupas, outros são médicos, professores, auxiliares. Eu trabalho na secretaria, forneço as informações necessárias a refugiados e voluntários, distribuo as doações pelos vários departamentos e participo, de um modo geral, na gestão do espaço. Pelas mãos, todos os dias me passam folhas de papel, documentos e cartas das secretarias e centros de imigração, apertos calorosos e bebés pequeninos, que se instalam no meu colo e brincam com os meus cabelos.

À frente do balcão em que me debruço, há uma pequena salinha de paredes cobertas por desenhos de crianças refugiadas. Uns têm sóis e arco-íris, corações e muitas cores, outros são de cores escuras, riscos carregados e imagens difusas de sofrimento. Um grande cartaz dá nome à sala – “La Voix des Refugis” – a voz dos refugiados expressa num alfabeto que não compreendo, em recortes de jornais que noticiam manifestações de boas-vindas, a ação da sociedade civil, a impotência dos governos e a criação de outros centros e campos na Europa, do género deste em que trabalho. Raramente se vêem mulheres. Há algumas crianças escondidas nos braços fortes dos pais e são homens quem ocupa os espaços, quem faz fila para a comida, para as roupas, são eles que se reúnem a conversar para passar o tempo e se aproximam do balcão, curiosos, para me observar, uma menina nova, ainda por cima loirinha.

Abdullah veio de Gaza, tem 19 anos e gostava muito de jogar futebol, mas teve de abandonar o seu bairro reduzido a destroços e partir, por causa da guerra. Está há um mês na Bélgica. Pergunta-me de onde venho e entusiasma-se, exclamando, com um grande sorriso: “Portugal! Cristiano Ronaldo!”. Apresenta-me o seu amigo iraquiano, cujo nome não consigo entender. No Iraque também há guerra, explica-me Abdullah, por isso é que ele está aqui. Depois dessa nossa primeira conversa, passou a seguir-me ofegante para todo o lado. Este é um mundo novo, que desconhece. Não sabe como reagir e acho que até está a fazê-lo muito bem, tendo em conta o rodopio em que deverá andar a sua cabeça. Quando não sabe o que há de dizer, pergunta-me se tenho frio. Diz-me que eu devia ter cuidado e não andar de bicicleta à chuva, (entretanto comprei uma, em segunda mão, para as deslocações na cidade), que posso ficar doente e depois já não vou ao centro. Pediu-me o número, disse-lhe que não tinha, ofereceu-me um cigarro, disse-lhe que não queria. Obrigada, tenho de ir trabalhar. E lá vai ele dar mais uma voltinha.

Aqui, a maioria dos refugiados vem do Iraque, da Palestina e, só em terceiro lugar, da Síria. Por dia, entram e saem à volta de quinhentas pessoas que fugiram da guerra nos seus países, uma pequena percentagem do mar de gente que atravessou o Mediterrâneo para agora permanecer numa situação indefinida, à espera de papéis, estatutos e oportunidades.

É gente à espera de uma vida, nesta terra onde encontrou a paz exterior. Quanto à interior, nem acredito na paz de espírito que demonstram e na tranquilidade com que vêem os dias a passar.

Uma grande parte dos voluntários com quem trabalho são imigrantes de países árabes. Paul, marroquino criado em Londres, também já dormiu na rua e demonstra um claro orgulho no seu sotaque britânico. O problema, conta-me, é que os que mais sofrem com a guerra nem sequer têm condições para fugir e têm de lá ficar a ver a sua vida miserável a agravar-se a cada dia, sem alternativa.

 

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por Augusta Clara às 14:00

Segunda-feira, 26.10.15

Chegada à paz - Adriana Costa Santos

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CHEGADA Á PAZ é o blogue que relata a experiência de Adriana Costa Santos, que largou tudo em Portugal para ir dar ajuda num campo de refugiados sírios em Bruxelas

 

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 (Adriana Costa Santos à esquerda na fotografia)

  

23 de Outubro de 2015

   A secretária do meu quarto está virada para uma grande parede branca. Conheço os seus riscos de cor, de tantas vezes que me sentei a olhar para ela, de caderno em branco e caneta destapada, prestes a tomar grandes decisões. Numa noite, daquelas que não ficam na memória, ali estava eu, impaciente em relação ao futuro e à espera que uma resposta proviesse da cal. Tinha-me licenciado e resolvera parar de estudar um ano para pensar no resto da minha vida. Enquanto refletia, de computador fechado, os meus amigos do Facebook dividiam-se em opiniões extremas, sem qualquer fundamentação, quanto à grande questão dos refugiados sírios. Usavam e abusavam de termos como invasão, terrorismo e fundamentalismo, disparavam com “eles querem é rebentar com a Europa”, “agora vamos ter de pôr as nossas mulheres de burka”. Naturalmente, surgiam também vozes de apoio e compaixão, e, por todo o lado, centenas de portugueses disponibilizavam-se para receber refugiados nas suas casas. Estava na hora de fazer alguma coisa. Mais do que ler e entender a fundo a guerra na Síria e a crise humanitária a que assistíamos, concluí que o contexto em que me encontrava era o ideal para dar uma ajuda concreta, em qualquer parte da Europa.

Não tenho filhos, nem responsabilidades, tenho um trabalho, mas só para pagar as saídas à noite, não tenho nada a perder. Posso ajudar estas pessoas, aplicar os valores de solidariedade e tolerância que o projeto europeu me ensinou, e que prega, mas não pratica. Uma amiga falou-me do campo de refugiados de Bruxelas e ofereceu-me alojamento em sua casa. Perfeito. Decidi fazer a minha parte. Vou.

Não sei o que me espera, sei que vou dar e receber, aprender, crescer e fazer parte desta História. Sei que serão precisos muitos mais braços, no sítio para onde vou e em todos os campos que, na Europa, se opõem aos muros e às fronteiras, tentando dar esperança e dignidade aos que são iguais a nós e fogem de uma guerra que também é nossa.

Agora é a minha vez de contar ao mundo o que se passa e dar a conhecer a minha versão, pura e dura, dos acontecimentos, mantendo-me fiel aos princípios que me guiam, e com o único objetivo de promover a tolerância, a justiça e a paz.

 

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por Augusta Clara às 10:00



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