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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 02.10.15

Our boys - Clara Ferreira Alves

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A Revista do Expresso, 2 de Outubro de 2015 

 

UMA MULHER RARAMENTE É LEVADA A SERIO, E, SE É, ARRANJA DEZ VEZES MAIS INIMIGOS DO QUE UM HOMEM. NESTE PAÍS ESTÁ TRAMADA

 

   Há água em Marte. Em verdade vos digo que é mais fácil encontrar água em Marte do que mulheres na campanha eleitoral dos maiores partidos. Sob certas condições, água pode correr em Marte, mas as mulheres não podem concorrer na Terra. Isto é um país de homens. E um país onde as mulheres não são muito solidárias com as mulheres. Pondo de lado a política correta sobre estas coisas, as mulheres neste país estão tramadas. Uma mulher raramente é levada a sério, e, se é, arranja dez vezes mais inimigos do que um homem. É mais escrutinada, discriminada, combatida, facilmente eliminada. É mais mal paga. Uma mulher ganha metade ou um terço a menos do que um homem. Numa lista de “prestígio”, digamos, de 100 pessoas, 90 são homens e o resto é quota.

O problema das mulheres que odeiam mulheres é antigo.

Remete para a biologia reprodutora e o darwinismo, remete para um meio de recursos escassos onde a competição aumenta exponencialmente, remete para a dominação patriarcal, remete para a mesquinhez que se aloja nos cérebros humanos. E se as mulheres não odeiam mulheres, ou fazem um esforço para não odiar mulheres, alinham na prevaricação comum, criticar o aspeto físico das mulheres. Ou a situação psicológica. Uma mulher pode ser feia, velha, maluca. Um homem pode ser interessante, maduro, inteligente. Um canalha torna-se um tipo complicado. Uma ambiciosa torna-se uma megera.

Assisti a isto toda a minha vida.

Não espanta que não haja mulheres nas campanhas eleitorais, com exceção das mulheres dos pequenos partidos da extrema- esquerda. Ana Drago no Livre, um partido votado pelos jornalistas ao esquecimento, as manas Mortágua, sobretudo Mariana Mortágua, e Catarina Martins. E Joana Amaral Dias, que forneceu pretexto para a piada machista. Um homem nu é um acontecimento histórico numa capa de revista e um regalo para os olhos. Uma mulher nua e grávida é um atentado à moral. Ninguém olharia para um homem nu à procura da flacidez.

Os partidões não têm saias, aqui usadas como símbolo diferenciador de sexo. No seio varonil do PSD não se vê um rabo de saia (expressão misógina). É o partido dos rapazes. Our boys. O PSD só tem homens com vozes para a cantoria e o talento para ganhar a maioria. A câmara de televisão passa pelas mesas dos repastos eleitorais, onde florescem caciques com calças e, como dizia o Eça, cheios do talento das calças, e não se avista uma mulher com exceção das groupies. Os homens aplaudem calorosamente os homens como no futebol. É provável que as mulheres estejam na cozinha, ou a servir às mesas, empregos que correspondem ao talento feminino. Alguma vez viram um homem nas casas de banho masculinas sentado ao lado de um pires com moedas? Quando foi a última vez que viram um líder político ter um secretário?

No CDS há umas mulheres, mais raras do que água em Marte, mas só aparecem como as do PSD, untadas pela devoção ao líder e nunca se esquecendo de agradecer a sua posição ao líder reafirmando a sua lealdade ao líder. Deus as livrasse de tentarem derrubar o líder. Uma mulher simplesmente não faz isso. No vetusto PS, a coisa não melhora. Antonio Costa carrega o partido às costas e se há mulheres estão noutro Iugar. Os jornais noticiaram com gosto que uma série de homens se ia juntar a Costa e Passos Coelho nos comícios, Marcelo, Rangel, Assis, e até o defunto Nogueira, de quem ninguém se lembra neste país. Uma mulher? Algures? Em compensação, semana sim semana não, uma mulher é assassinada em Portugal. Nessas notícias não falta o elemento feminino.

A culpa é nossa. A desunião e a incapacidade de atacar enleiam as mulheres em Portugal. Não se trata de sermos discriminadas, trata-se de consentirmos em ser discriminadas e concordarmos com a discriminação. No fundo, achamos que não somos capazes, não seremos capazes, não merecemos ser capazes. Consentimos em desaparecer.

Sou contra as quotas e a favor do mérito. Nunca consegui nada com base na quota e não acredito que as mulheres precisem de quotas. Agustina, Sophia, Maria Barroso e Natália Correia nunca precisaram de quotas. As mulheres precisam de autoconfiança e tempo livre, precisam de uma vida intelectual, que a maternidade, a dependência financeira e a vida doméstica não autorizam. Em Portugal, tem havido um claro retrocesso em matéria de direitos das mulheres e da participação das mulheres na vida pública. Num meio dominado por homens como é a política, o acesso está condicionado e representa-se como uma intimidação. As mulheres têm instintivamente medo da ascensão que implica um cortejo de insultos e ofensas físicas e morais propagadas por mulheres que odeiam as mulheres e por homens que não respeitam as mulheres. As correntes sociais e os seus entusiastas emocionais respiram este ar venenoso. As mulheres são a maioria da população universitária e a minoria no poder político, económico, financeiro e social. E não vejo por aí uma mulher política disposta a mudar o estado das coisas.

 

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por Augusta Clara às 23:40

Terça-feira, 08.09.15

As lágrimas de crocodilo - Clara Ferreira Alves

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Clara Ferreira Alves  As lágrimas de crocodilo

 

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Expresso, 5 de Setembro de 2015

 

   Os migrantes que agora nos comovem em Budapeste são os que tiveram sorte, dinheiro e iniciativa para chegar aqui. Para trás ficaram os condenados à morte

E de repente toda a gente se comove. Em quatro anos de guerra, o sofrimento e as mortes na Síria, e no Iraque, não comoveram muitos jornalistas ou espectadores sentados por essa Europa fora. No último inverno, vi crianças ranhosas e friorentas, pés roxos e nus nas neves do Monte Líbano. Vi mulheres sírias e órfãos a prostituírem-se nas ruas de Beirute, vi a superpopulação dos campos de refugiados palestinianos, incapazes de acolherem mais um ser humano por falta de espaço. E vimos as imagens dos corpos despedaçados por barrel bombs, as fomes de Yarmouk, os ataques químicos. Não foi por falta de filmes online, colocados por combatentes, resistentes e sitiados sírios, que deixámos de ver no que a Síria se tornou. Ou o Iraque, onde todos os dias há mortos. O ISIS mobiliza-nos as atenções com a barbaridade do dia, que usa como instrumento de terror e propaganda, e cobre com esta cortina negra o resto do Médio Oriente. O Iraque está a desfazer-se. A Síria já se desfez. O Líbano está por um fio. A Jordânia aguenta-se com esforço. O Egito é um Estado falhado. E a Turquia aproveita para destruir os curdos. Em todos estes conflitos, para não falar do desastre da intervenção na Líbia ou no Iémen, a Europa comportou-se de um modo egoísta e indiferente. Pagou resgates e deixou aos americanos a tarefa de limpar os estábulos de Aúgias. Na verdade, se a invasão do Iraque em 2003 foi um trabalho americano, a Europa foi o parceiro da coligação. Sobretudo o entusiástico Tony Blair, originário de um país que recusa receber mais migrantes, refugiados ou todos os nomes que se vão inventar para os milhões de apátridas e desgraçados que trepam as muralhas e se rasgam nos arames farpados. O horror sírio, ou iraquiano, não motivou uma negociação de fundo, uma cimeira capital, uma mesa-redonda, um diálogo, um princípio. Os americanos decidiram bombardear o ISIS, a Europa não decidiu nada para variar.

De repente, a Alemanha é a campeã dos migrantes e refugiados. O cinismo pessimista tende a ver nestes pronunciamentos mais propaganda do que pragmatismo. A Alemanha sabe que a crise grega a fez ficar mal aos olhos do mundo e tem a oportunidade histórica, a sra. Merkel tem-na, de se reabilitar. E de forçar o resto dos europeus. A Alemanha tem a única liderança forte numa Europa fraca e tem a capacidade industrial para absorver mão de obra barata porque ainda precisa dela.

Há anos que criámos os novos campos de concentração, onde concentrámos os africanos, que vieram antes dos sírios e afegãos e iraquianos, e ninguém se comoveu. Os cadáveres nas praias de Tarifa, os condenados a morrer no deserto, recambiados, não provocaram uma lágrima. A crise destas migrações existe há anos e é preciso perceber que os migrantes que agora nos comovem em Budapeste são os que tiveram sorte, dinheiro e iniciativa para chegarem aqui. Para trás ficaram os condenados à morte, as vítimas de conflitos que ajudámos a provocar e das “primaveras” árabes que o jornalismo e as correntes sociais promoveram com sentimento. Ninguém se lembra de perguntar aos países ricos do Golfo, irmãos da mesma fé, quantos refugiados sírios receberam. O Qatar? Zero. Os Emirados, sobretudo os ricos Dubai e Abu Dhabi? Zero. A Arábia Saudita? Zero. O Kuwait? O Bahrain? Omã? Zero. E são estes sunitas que atiçam a guerra perante a nossa apatia. E por que razão a Europa e os Estados Unidos não os pressionam sabendo que manipulam a guerra para hegemonias e demonstrações regionais de força? Duas respostas. Venda de armas, um dos grandes negócios ocultos da recomposição dos mapas, e um negócio onde os estados legítimos, Reino Unido, França, Alemanha, Rússia, Alemanha, etc., têm fontes prodigiosas de financiamento. A Alemanha e os Estados Unidos bateram recordes de venda de armas no Golfo em 2014. E petróleo, a moeda de troca e o pão nosso de cada dia. Um dia, os drones que o Ocidente vende serão uma arma terrorista.

A situação do Médio Oriente é hoje a mais explosiva e volátil e com mais repercussões de sempre. Composta pela nova guerra fria com a Rússia de Putin. Os imparáveis fluxos migratórios vão forçar e reforçar partidos de extrema-direita, acender racismos, distorcer demografias, criar máfias, alimentar o extremismo e terrorismo islâmicos e as suas subculturas identitárias e criminais, mudar o mapa político da Europa e o espaço Schengen. Não vão apenas criar riqueza e contribuir para a economia europeia, como dizem os académicos. Uma integração séria custará biliões. É, de longe, o problema mais grave da Europa, acumulado com a anemia económica e com a condenação da população jovem a migrar dos países europeus em austeridade. Bater no coração e proclamar o amor ao próximo nada resolve na frente da batalha. É a retaguarda imoral da piedade virtual.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 26.01.15

Ser ou não ser Le Pen - Clara Ferreira Alves

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Clara Ferreira Alves  Ser ou não ser Le Pen

 

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Expresso, 24 de Janeiro de 2015

 

   Ninguém sabe o que fazer com Marine Le Pen. É fascista? É nazi? É de extrema-direita sem ser nazi ou fascista? É igual ao pai? É diferente do pai? É pior do que o pai? A França anda às voltas com este problema insolúvel. Na verdade, Le Pen tem boas hipóteses de ganhar as presidenciais, não é preciso ser ficcionista ou ser Houellebecq para o perceber. A França dos salões intelectuais parisienses, assistindo à derrocada da esquerda tradicional, o Partido Socialista, e da direita tradicional, a UMP de Sarkozy, resiste a interiorizar a ideia de um país lepéniste. Afinal, Sarkozy acabou por dever a ascensão política de ministro do Interior a Presidente da República por causa de um célebre debate com Le Pen pai em que, justa e brilhantemente, deu cabo dos argumentos dele. Era mais fácil destruir o pai do que a filha. Apesar dos arremedos protonazis do pai e do seu antissemitismo primário, apesar do seu negacionismo, Marine tem conseguido ‘desinfetar’ o partido destes propósitos e pretender que é, por comparação com o progenitor, uma moderada. Nem nazi, nem fascista, nem sequer de extrema-direita se extremismo significar uma posição inflexível nas questões sociais e económicas. Através de uma bem orquestrada campanha de imprensa e de entrevistas a revistas importantes como a “L’Express”, Le Pen tenta fazer passar a ideia de que com ela a França não se tornará um estado pária dentro da Europa. No que toca à Europa, Marine Le Pen é manifestamente anti-União Europeia, e como o estado desta União é o que é, o propósito carregará mais votos do que dissidências. Muita gente em França, e na Europa, está farta desta União Europeia.

O que os partidos e os jornalistas não podem é continuar a tratar Le Pen como um fenómeno marginal, e o seu partido como um partido das franjas. O que quer que aconteça com a França nos próximos anos, terá o lepénismo no centro da ação.

Na manifestação “Je Suis Charlie”, o establishment decidiu desconvocar Marine Le Pen. Continua o processo de marginalização. O pior é que o liberalíssimo “The New York Times”, tão aplaudido por alguma extrema-esquerda por ter decidido, no uso da sua liberdade de expressão, não publicar a capa do “Charlie Hebdo” dos sobreviventes nem o cartoon do profeta, decidiu também, no uso dessa liberdade de expressão, dar a Marine Le Pen um púlpito. O gesto não foi tão apreciado. A página de op-ed (open editorial) do “NYT”, talvez a página de opinião mais cobiçada do mundo, foi oferecida a Marine Le Pen para dizer de sua justiça sobre o combate ao extremismo e ao islamismo radical. O artigo, um modelo de sensatez com alguns pós de dureza repressiva à mistura, para marcar a diferença, podia ter sido escrito por um político francês de direita não lepéniste ou, nalgumas frases, de qualquer outro quadrante. A garra ficou sabiamente escondida. Exceto no que toca à ideologia anti-imigração como ponto de partida, uma ideologia que ela esconde atrás de frases verdadeiras, como a necessidade de repensar a política de imigração europeia (quem discordará disto, para um lado ou para o outro? Alargando ou restringindo?).

Começa por citar Albert Camus, a voz moral da França do pós-guerra que Sartre, cioso das luzes, tentou destruir. Citar Camus é, inevitavelmente, colocarmo-nos num plano moral superior, não unívoco. Camus pensou a guerra da Argélia como um francês argelino e foi atacado por isso, incompreendido. Marine Le Pen serve-se dos atentados de Paris não para atacar o Islão mas para rever os faux pas da política externa europeia, incluindo o ataque à Líbia e a capitulação perante a duplicidade de Estados do Golfo, como o Qatar ou a Arábia Saudita, dois financiadores do terrorismo sunita na Síria. Ou no Iraque. Sobre isto, os políticos franceses que patrocinaram estas políticas, de Sarkozy a Hollande, nada têm a dizer. Tanto mais que a intervenção da França no Mali foi o resultado direto do estado de sítio e das migrações da Líbia, com as suas tribos, milícias, e o seu monumental Estado falhado. Obama, e a NATO, devem lamentar a aventura.

O grande problema destas asserções de Le Pen, que a tornam uma adversária perigosa, é que a maioria das pessoas tende a concordar. E para a contradizer, talvez para a desmentir, é preciso romper com a política bem pensante e correta. É preciso admitir os erros. É preciso reconhecer que transformar a França num estado policial não chega a ser o princípio da solução para o extremismo islâmico. E que o princípio da livre circulação da Europa pode estar ameaçado. A Europa terá de saber o que fazer com a sua anémica política externa e com a sua inexistência militar, dependente da máquina de guerra americana. Obama, nota-se no seu cansado e arrastado discurso sobre o terrorismo europeu, não se sente mobilizado para esta guerra nem a quer chefiar.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 23.07.14

O perigo de voar na TAP - Clara Ferreira Alves

 

 

Clara Ferreira Alves  O perigo de voar na TAP

 

 

Expresso, 19 de Julho de 2014

 

Se um avião da TAP cair será uma catástrofe imputada a este governo

 

   A TAP deixou de ser uma companhia segura. Não se trata de um palpite. Ou do episódio da explosão de um reator sobre Lisboa. Tenho a certeza que só o sangue-frio e perícia dos pilotos evitaram um desfecho mortal. Nos últimos meses, as avarias técnicas, aterragens de emergência, atrasos, vieram denunciar o que é claro: o governo falhou redondamente a gestão política da TAP.

Há anos que se fala na privatização da companhia, desejável se feita em condições de transparência e competência. A TAP é uma companhia descapitalizada, com intuitos monopolistas que não são servidos por uma frota decente ou capital para a comprar. É uma companhia cara. E é uma companhia que perdeu pilotos, pessoal de bordo e técnicos para companhias melhores e mais ricas, que oferecem menos incerteza e ameaças de cortes. A hemorragia afeta o serviço e a TAP enfrenta ainda problemas de manutenção técnica e de escassez de aviões. A última vez que voei na TAP o voo de ida atrasou cinco horas e o da volta atrasou cinco, seis, quase sete horas. Na ida, o avião vinha do Brasil, atrasado. Na volta, vinha de Angola, atrasado. Não há aviões suficientes, disse-me o pessoal de terra. A simpatia e competência do pessoal de bordo e dos pilotos que restam não compensam as falhas técnicas e políticas do dossiê TAP. No Expresso, li a semana passada que a TAP está à espera de aviões da Jazeera Airways, da TAM (obsoletos A340, neste momento em manutenção) e da Air India. A TAP está a tornar-se uma companhia de Terceiro Mundo, com destinos africanos incompreensíveis exceto por imposição política, como a Guiné Equatorial (membro da CPLP e salvadora do Banif) e o Mali (pensa-se que exista um enorme afluxo de passageiros portugueses para Bamako). Além de ser uma companhia africana, com aviões em segunda mão, a TAP nunca cuidou dos destinos asiáticos, estrategicamente mais interessantes, e o Presidente da República foi à China pela Emirates. Inaugurámos com pompa e circunstância o aeroporto de Macau, antes da entrega de 99, anunciando que Macau serviria as rotas da TAP para a China e o Oriente. Como se sabe, Hong-Kong construiu um aeroporto maior e melhor e a TAP deixou de voar para Macau, que se tornou um aeroporto secundário. O Brasil e Angola tornaram-se a missão da TAP, mas é uma missão mal cumprida. Os aviões são pequenos e poucos e os preços são ridículos. Para voar de um continente para outro, há muito que deixei de usar a TAP. Para a Europa, uso em último recurso.

Os cancelamentos e atrasos de voos têm atingido recordes nos últimos meses. O silêncio da administração sobre estes problemas é revelador. O dossiê TAP, tal como o dossiê RTP (outro problema bicudo e adiado) foram entregues a essa sumidade da estratégia pessoal e da negociata chamada Miguel Relvas. No caso da TAP, com a assessoria preciosa do advogado António Arnaut-Goldman-Sachs e do BES, duas fontes de credibilidade. A possível venda a esse homem de negócios “extraordinaire” chamado Efromovitch, senhor de trinta passaportes, e a inclusão de uma companhia aérea europeia na carteira de investimentos do dono de uma companhia de quarta ordem no Brasil, a pré-colombiana Avianca, só não foi avante, diz-se, porque o governo recuou na 25ª hora. Diz-se também que por ordem direta de Dilma Rousseff, que recusou dar o OK antes de analisar o negócio. Intermediário? O doutor Relvas. Efromovitch, que gastou milhares de euros em operações de marketing (incluindo a viagem de um grupo de jornalistas ao Brasil, para aferir a excelência do negócio para Portugal) ficou de mãos a abanar, embora continue a rondar a TAP como um abutre. A TAP, descapitalizada dia a dia, faz o que pode mas não tem a solução política que lhe permita livrar-se destes sarilhos. Entretanto, companhias sérias como a Emirates, a Lufthansa e outras, deixaram de mostrar interesse na TAP. O pessoal da TAP queixou-se da falta de transparência do processo de privatização. Houve greves desconvocadas. Muitos foram embora.

Um cavalheiro americano com quem falei num voo da TAP de Nova Iorque para Lisboa, especialista de aeronáutica e dono de empresas internacionais do sector, gabou o esforço de Fernando Pinto na penúria, e acrescentou que os pilotos portugueses são dos melhores do mundo mas que a companhia precisa urgentemente de injeção de capital. De ser reestruturada. Mesmo que o aeroporto que não chegámos a construir impeça a TAP de ter uma frota de superaviões para o Brasil e Angola, os A380 e os Boeing 787 Dreamliner, deve adquirir aviões novos que voem em condições e não deixem cair peças de reatores a arder sobre a cidade de Lisboa. Se um avião da TAP cair será uma catástrofe imputada a este governo, e será o fim da TAP, como a queda de um velho Boeing de Nova Iorque para Paris foi o fim da TWA. A decadência da TAP é um espelho dos erros de gestão dos governos de Portugal. 

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por Augusta Clara às 11:00

Segunda-feira, 17.03.14

Clara Ferreira Alves e o "Eixo do Mal" - Augusta Clara

 

Augusta Clara  Clara Ferreira Alves e o "Eixo do Mal"

 

 

   A Clara Ferreira Alves é quem vê mais longe naquele "Eixo do Mal" mas, como é mulher, às suas opiniões nunca é dado o devido relevo, claro está.

Vejamos:
- Somos um país com a soberania hipotecada, um protectorado. Ainda há quem viva iludido relativamente a esta questão;
- Vamos sair do euro, a bem ou a mal, por muito que se silencie e se omita esta realidade;
- O manifesto dos 70, na prática, em que é que vai resultar, quando há tanto tempo tanta gente tem defendido a renegociação da dívida? - pergunta ela e eu, aqui, estou de acordo com a análise do Carlos Matos Gomes: um sector do PSD quer ver-se livre de Passos Coelho e da sua camarilha para salvar a face e ganhar as eleições;
- A prescrição das dívidas dos banqueiros burlões, que estão a ser pagas com o roubo aos salários e pensões - a tal CES é a Contribuição Extraordinária de Solidariedade com os banqueiros, burlões ou não - é o maior escândalo dos últimos dias.
- O chumbo da lei da coadopção é abaixo de cão, porque os cães são bons (sic)
E, agora, pergunto eu, parafraseando o Jorge Silva Melo, não se pode ir mais depressa?

 

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por Augusta Clara às 10:00

Sábado, 01.03.14

Nórdicos selvagens - Clara Ferreira Alves

 

Clara Ferreira Alves  Nórdicos selvagens

 

 

Expresso (pluma caprichosa), 15 de Fevereiro de 2014

 

Uma das grandes desculpas para a existência de zoos é justamente a preservação de espécies e a pedagogia da não crueldade com os animais

 

COM O NOSSO COMPLEXO de inferioridade, olhamos para os países nórdicos como templos de civilização. Uma espreitadela no Ingmar Bergman ou uma leitura dos tormentos conjugais e sociais de Strindberg e de Ibsen esclarecer-nos-ia sobre a neurose e as consequências da supressão das emoções em países dos longos inver­nos. Quando lemos o primeiro livro da trilogia do Millennium de Stieg Larsson, "Os Homens que Odeiam as Mulheres", ficamos a perceber. Nem precisamos de ler "A Rapariga que Sonhava com Uma Lata de Gasolina e Um Fósforo". Sugiro ainda "Smilla e os Mistérios da Neve", de Peter Hoeg, ou a série da BBC do detetive Wallander, com Kenneth Branagah, adaptada dos policiais de Henning Mankell. Kurt Wallander é um melancólico fatal, pessimista como um dia de chuva. Ao lado de Wallander, Sherlock é um sujeito equilibrado e jovial. E o próprio Estripador é um vilão amável ao lado do sádico nazi serial killer de Larsson. Lars­son odiava a Suécia, e o ódio à pátria e o desgosto são um ponto de partida para a literatura. Martin Amis e Graham Greene que o digam.

Vem isto a propósito de uma selvajaria dinamarquesa, povo que consideramos o cúmulo da virtude do Norte. No zoo de Copenhaga vivia uma girafa saudável com 18 meses chamada "Marius". O hábito de humanizar os animais pondo-Ihes nomes de pessoas é típico dos jardins zoológicos, instituições de ani­mais em cativeiro e sob tortura, apura­das para dois fins: educar e ensinar a respeitar os animais, conhecendo-os de perto, e proteger as espécies e os ditos animais. A girafa era jovem e, segundo as fotografias, tinha um ar simpático. Inocente. A girafa foi a vítima de manipu­lações e criações que, parece, a tornaram de repente excedentária (mais uma boca a alimentar) e incapaz de se reproduzir por causa de consanguinidades (que, suponho, o zoo controlou e propiciou, na sua missão científica, educacional e protetora). Certo é que, como não tinha lugar para a girafa e não quis castrá-la, ou como se diz agora esterilizá-la, resol­veu dar uma injeção na girafa e esquarte­já-la, dando-a de pasto aos leões. O que é curioso é que a eutanásia e o esquartejamento, cenas de considerável brutalida­de, foram feitos no zoo, em público, à frente de crianças e adultos, que tapa­vam a cara com os gorros, agoniados com o espetáculo do sangue e facalhões. O filme da barbaridade está na net, com as recomendações do costume para as almas sensíveis.

Tão chocante como isto (mais um exem­plo da gabada frieza nórdica), o zoo recusou os pedidos de asilo que chega­ram de vários zoos na Europa, com o argumento eugénico da consanguinida­de mas sem explicar porque é que não queriam esterilizar a girafa, e recusou os pedidos de uma petição para poupar a girafa com 27 mil assinaturas. Recusou ainda os pedidos de defensores dos direitos dos animais e as soluções alter­nativas propostas por gente como Jack Hanna, diretor Emmeritus do Zoo e Aquário Columbus e um dos maiores especialistas em zoos que respeitam os animais e ensinam a respeitar os ani­mais. Hanna ficou furioso e acusou duramente os dinamarqueses de extermí­nio gratuito. Uma das grandes desculpas para a existência de zoos é justamente a preservação de espécies e a pedagogia da não crueldade com os animais. O zoo de Copenhaga demonstrou uma insensi­bilidade total.

E não se trata, como dizem alguns, de um caso de "má gestão das relações públicas". Jorg Jebram, o dinamarquês que supervisiona o Programa Europeu (existe um programa europeu, sim...) para as girafas enquanto "espécie em perigo" (ah, ah, ah), defendeu o abate da girafa por razões eugénicas. E acrescen­tou que os leões são carnívoros, os ani­mais também morrem e as vacas tam­bém são animais. Argumentos estúpidos e laterais. O que ele não explicou foi a razão para tornar o espetáculo do abate num ato público por razões de alegada "pedagogia". Pedagogia em que as crian­ças (e adultos) viram a cara? Respeitar os animais esquartejando-os? Esquartejá-los porque estão a mais? E as consangui­nidades são, ainda, da responsabilidade do zoo. "Marius" estava a mais e não tinha espaço para estar. O zoo deixou-a nascer para a esquartejar e poupar na comida dos leões. Mais valia a selva. O argumento mais ridículo é que o zoo não aceitou os pedidos de outros zoos para albergarem "Marius" porque esterilizar uma girafa é "perigoso" (ah, ah, ah). Podia cair e partir o pescoço. Ou seja, "Marius" pode ser adormecida com uma injeção e dada às feras mas não pode ser adormecida para ser castrada Era isto possível em Portugal? Não. Venham os nossos brandos costumes e trapalhices em vez da gelada eficácia nórdica. Como dizia o Jacinto do Eça, em Paris, roído de tédio no 202 dos Campos Elísios, vamos ao zoológico a 'Ver a girafa". Não o massacre.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 24.01.14

Os nossos amigos chineses - Clara Ferreira Alves

 

 

Clara Ferreira Alves  Os nossos amigos chineses

 

 

A venda dos jornais e dos jornalistas independentes será a última pazada de terra na sepultura da democracia

 

 

   Publicado no Expresso em 18 de Janeiro de 2014

   EM 2012, O "NEW YORK TIMES" publicou uma extensa e fundamentada investiga­ção sobre a riqueza da família do então primeiro-ministro da China Wen Jibao (no cargo de 2003 a 2013). A peça, uma das mais corajosas que li na minha vida, não deixava pontas soltas. Nela se de­monstrava uma riqueza suspeita e meios ilícitos para a obter. A reportagem ga­nhou o Prémio Pulitzer e contribuiu para restabelecer a reputação do "NY Times" depois dos escândalos de plágios, conivências políticas (o caso da delação da agente da CIA Valerie Plame) e repor­tagens inventadas. A peça sobre Wen Jibao trouxe ao "NY Times" um inimigo poderoso, o Partido Comunista Chinês. O site do jornal foi imediatamente bloquea­do na China, e assim permanece. As pressões diplomáticas da China foram brutais (e pouco diplomáticas) e o Depar­tamento de Estado teve de aguentar a ira dos chineses e as ameaças de retaliação. Os jornalistas do "NY Times" têm tido grandes dificuldades em obter vistos para a China.

Wen Jibao tinha sido apontado pela revista "Time" como um dos maiores responsáveis pela crise financeira inter­nacional, sendo um dos autores da política de concessão de crédito barato aos Estados Unidos: "Se o crédito barato foi o crack da crise financeira — e foi — então a China foi um dos maiores dealers." A China tornou-se o maior credor dos Estados Unidos, com 1,7 triliões de dívida em dólares, ao mesmo tempo que mantinha a moeda chinesa, renminbi, desvalorizada para favorecer o sector exportador.

Chen Guangbiao, um magnata chinês e uma das pessoas mais ricas da China, propõe-se agora comprar o "NY Ti­mes" e garante que continuará a perse­guir o jornal até concretizar a aquisi­ção . "Pretendo comprar o 'NY Times', e não tomem isto como uma anedota" Porquê? Porque tem muito dinheiro. E, cito, porque "a tradição e o estilo do 'NY Times' fazem com que seja muito difícil conseguir uma cobertura objetiva da China". "Se pudéssemos comprar aquilo, daríamos uma volta ao tom do jornal. Por isso tenho estado envolvido em discus­sões com outros investidores relaciona­das com esta aquisição." Chen fala já em "conduzir as necessárias reformas no jornal, cujo fim último é tornar as reporta­gens mais autênticas e objetivas, recons­truindo a sua credibilidade e influência". Depois de produzir estas afirmações, Chen rematou que ia para os EUA tratar da compra do jornal. Muitos acharam que estava a querer chamar as atenções, mas foi detetado por um repórter do "Chinese Business News" num aeroporto de Nova Iorque quatro dias depois. Chen, cuja fortuna se deve a uma compa­nhia de reciclagem de lixo (mão de obra miserável se encarrega de recolher 'material reciclável' pelas ruas da China) chegou a vender "ar enlatado" a habitan­tes de Pequim que queriam respirar sem smog. Chen escreveu sobre a pretensão: "Enquanto o preço for razoável nada existe que não possa ser comprado." Parece que a ideia lhe veio ao comprar um anúncio no "NY Times", em 2012, que certificava a soberania de Pequim sobre as disputadas ilhas Diaoyus, que o Japão reconhece como suas e a que chama Senkakus.

Este episódio grotesco é revelador. O jornalismo não está a salvo dos tubarões da finança nem do seu apetite aquisitivo. A companhia que detém o "NY Times" está cotada em Wall Street e tem uma capitalização de mercado de 2 mil mi­lhões de dólares. Os jornais de papel, na sua agonia, tornaram-se presas fáceis de personalidades, entidades ou países sem tradição democrática e com ambições de dominação que decidem que tudo, pes­soas e princípios, tem um preço. A amea­ça de Chen não é uma leviandade. Embo­ra a família Sulzberger, os fundadores e publishers do "NY Times", tenha declara­do que não tem intenção de vender o jornal a quem quer que seja, a verdade é que numa fase de dificuldades económi­cas o jornal teve de recorrer a um em­préstimo do magnata mexicano Carlos Slim, empréstimo que entretanto pagou. Arthur Ochs Sulzberger Jr., o atual chairman, tem o mérito de ter dinamizado os conteúdos digitais do jornal, ter consegui­do criar um site que é o mais perfeito e visitado dos sites jornalísticos, e de ter conseguido rentabilizar os conteúdos. Até chegar aqui, o jornal atravessou vários desertos e esteve quase a sofrer a sorte do "Washington Post", da família Granam, entretanto comprado por Jeff Bezos da Amazon. A volatilidade do negócio dos jornais, em suporte papel ou digital, é brutal. Todos os dias a realidade muda e aparecem novas ameaças e concorrências. Nesta situação de fragilida­de, convém não desprezar senhores como Chen, que tem atrás dele a vontade dos dirigentes chineses. Angola tem apetite igual em relação a jornais portu­gueses, com argumentos parecidos. A venda dos jornais e dos jornalistas inde­pendentes será a última pazada de terra na sepultura da democracia.

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 23.09.13

Esses cães de Atenas - Clara Ferreira Alves

 

Clara Ferreira Alves  Esses cães de Atenas

- pluma caprichosa -

 

 

Publicado na Revista do Expresso em 21 de Setembro de 2013

 

Um dia poderei dizer que assisti, no meu tempo de vida, a uma execução. Um país a ser assassinado.

 

 

    DEMETRI SOFIANOPOULOS, um realizador grego, teve a ideia de filmar a catástrofe grega através da autobiografia de um cão, Bruno. Bruno é um cão abandonado pelos donos, falidos, que como centenas de cães vagueia pela cidade de Atenas. Bruno vai aos restaurantes onde costuma­va ir com os donos, quase todos fechados, à procura do passado. Demetri segue-o, filmando o que ele vê e dando-lhe voz. Bruno não anda em matilha e tem dificul­dade em arranjar um canto onde passar a noite, porque os cantos abrigados estão ocupados por sem-abrigo.

Estes cães, com a coleira de cabedal puído e um pelo ferido por maus-tratos, são espelho de uma humanidade. Os cães de raça são a classe média reduzida a passar fome, recorrer a organizações humanitárias, dormir na rua, suplicar um emprego que não existe. Os cães rafeiros são os pobres, a estender pernas escalavradas nas esquinas, nas soleiras das portas, e que desistiram de pedir esmola porque não há esmolas. Demetri Sofianopoulos vai filmando a violência.

A violência íntima, a anestesia induzida pela miséria que se segue à raiva e à impotência, a violência que conduz ao suicídio e que tem na árvore do suicida­do da Praça Síntagma, com as coroas de flores secas e os bonecos de peluche, os cartazes desfeitos pela chuva, o seu monumento. E a violência social, as manifestações, as batalhas campais, as cacetadas e bastonadas, o gás lacrimogé­neo, os olhos ardidos, os carros incendia­dos, as cabeças ensanguentadas. Vai filmando o ruído. E o vazio, o silêncio, as pedras desertas, as casas por acabar, os lugares encerrados. O silêncio no olhar de Bruno arrepia.

A Al-Jazeera passou esta semana o documentário que o jornalista da Croá­cia Tornislav Zaja filmou sobre Demetri a filmar o documentário. Chama-se "Deme­tri e Bruno". O filme de Zaja é cru, sem adjetivos. Mostra coisas que eu vi nas duas semanas que passei em Atenas, em 2011. E que escrevi. E que continuam lá. Mostra a condenação de um país à morte e a condenação de pessoas à morte social, cívica, intelectual, moral. À indignidade. Um país que é a matriz da cultura europeia.

Sobre a crise grega já muito se escreveu e muitos disparates foram ditos. Há quem ache que as pessoas têm de ser punidas pela má cabeça e corrupção política e moral dos seus dirigentes. Há quem ache que os desgraçados gregos têm o que merecem. Recorde-se que, durante anos, as contas gregas foram deliberadamente falsificadas para escon­der o défice, com a colaboração das autoridades europeias (que olharam para o lado), de entidades financeiras como a Goldman Sachs (que cobrou milhões), do FMI, da Alemanha (que lucrou e promo­veu negócios pagando luvas, através de grandes empresas como a Siemens, condenada no tribunal), dos bancos, dos milionários gregos e dos partidos e clientelas, sobretudo o conservador Nova Democracia, no poder. Afinal, a direita é tão perdulária como a esquerda.

Nova Democracia é o partido do gover­no, o PASOK quase desapareceu, e o Syriza continua a fazer sombra, sendo provável que ganhasse eleições agora. A Grécia, apesar de as receitas do turismo terem aumentado e das piedades do ministro Stournaras, das Finanças, não está melhor nem está a caminho da solvência ou da recuperação. Está mais pacificada porque está exausta. Se existe um país onde se demonstra que a austeri­dade é incompatível com o crescimento é este. O resto são balelas. A Grécia deveria sair do euro. Ou a Europa deve­ria perdoar o resto da dívida e os juros e injetar dinheiro na economia, o que Tsipras voltou a repetir, fazendo eco das palavras de economistas sérios como Yanis Varoufakis. Tudo o que se tem feito com a Grécia é um criminoso adiamento. Os jovens fogem, os velhos medem o caixão.

A originalidade grega é a de ter reduzi­do à indigência e à destituição uma categoria social que, em condições normais, estaria protegida pelo Estado social e pela economia. A classe média. Professores, empresários, jornalistas, académicos, escritores, músicos, médi­cos, enfermeiros, bancários, artistas, chefes, agricultores, cientistas, funcioná­rios públicos e privados, reformados, etc., viram-se privados do mundo que conheciam. Os que não podem emigrar e os que não conseguem morrer estão num limbo donde ninguém, repito, ninguém os quer retirar. Uma rede underground de médicos compassivos trata doentes terminais que foram chutados para fora do sistema.

Esta gente somos nós. Não são os "po­bres" do costume. Uma diretora da ópera de Atenas come uma vez por dia Não se consegue imaginar, a não ser quando se vêem as mãos brancas com veias salien­tes a tocarem um pedaço fúnebre de Chopin num piano morto, o que isto seja. Um dia poderei dizer que assisti, no meu tempo de vida, a uma execução. Um país a ser assassinado.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Terça-feira, 20.08.13

Entrevista com Clara Ferreira Alves no canal Q.

 

Clara Ferreira Alves no programa Uma História Verídica

 

 

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por Augusta Clara às 15:00

Terça-feira, 05.03.13

Clara Ferreira Alves no "Eixo do Mal"

 

Quem fala assim ...

 

 

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por Augusta Clara às 19:00



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