Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Eva Cruz À noite é diferente
(Claudio Cargiolli)
Decidi lá ficar, a dormir.
À noite é diferente, e é preciso alguma coragem para dormir num sítio tão ermo.
Acendem-se as luzes de fora, fecham-se os portões e cresce em nós uma sensação de segurança, dentro de portas. O lume a crepitar aconchega o espaço e faz companhia.
Cá em baixo, nada se ouve. Não há rumores. Lá em cima, nos quartos, já os pequenos estalidos da madeira ou o ranger do soalho, na calada da noite, impõem algum respeito. E se há vento, ainda que uma leve brisa, as portadas lanceiras e gastas do tempo abanam, fazendo chiar ou assobiar o ar através das frinchas.
As noites ainda são longas. Debrucei-me à janela, por detrás dos vidros, a olhar a meia-lua que espreitava por entre um céu cinzento, cheio de sono.
Contemplei o jardim, e por entre as sombras que o invadiam perdi a noção do tempo. Uma sensação confusa fez-me esquecer que existia, e dos tons ressequidos de plantas e arbustos nasceram folhas verdes e flores de mil cores. Senti que a vida, pesada e seca, me fugia dos ombros e voava pelos campos na leveza de um verso.
Escrevi duas ou três linhas na palma da mão e fechei-a. Encostei-me ao parapeito e tive vontade de a abrir e lançar ao vento essas palavras tecidas na alma e com elas colorir a noite cinzenta, já com tons de cobre lá para os lados da serra.
As doze badaladas no relógio da sala acordaram o silêncio.
Um relâmpago incendiou o céu e o negro da serra tremeu com o trovão. Trovoada perto! O céu desfez-se em água mas a lua lá ia escapando, em pedacinhos de brilho por entre manchas de azul.
Corri as cortinas brancas de linho e o ar do quarto acordou-me trazendo-me de novo ao seio do tempo.
O espírito é tão livre! À frente dos olhos haverá sempre uma janela.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.