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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 15.05.15

Nakba - José Goulão

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José Goulão  Nakba

 

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Mundo Cão, 14 de Maio de 2015

 

   Nakba, palavra árabe que significa catástrofe, começou há 67 anos e ainda não acabou. É o holocausto de todo um povo, o povo da Palestina, cometido sem parança pelas décadas fora e vitimando já milhões de seres humanos através de perdas de vidas, bens, raízes, em suma, dos direitos humanos fundamentais.

Há 26 anos, no campo de refugiados palestinianos de Deishe, nos arredores da cidade de Belém, um homem com mais de 80 anos, o patriarca de uma família que nos acolheu por umas horas, ausentou-se sem darmos por isso. A grande actriz Maria de Céu Guerra lembrar-se-á por certo deste episódio, porque também fez parte dele e quem o viveu jamais poderá esquecê-lo. Quando o homem reapareceu trazia em cima de uma almofada uma chave enorme, daquelas que rangem nas fechaduras antigas das memórias das nossas aldeias. Mostrou-nos e explicou: era a chave da casa onde nascera, no princípio do século, na cidade de Yaffa, à beira do Mediterrâneo. Em 1948 ele e a família tiveram de fugir devido à violência de grupos terroristas e militares hebreus. Desses tempos guardava um sonho, o de voltar a usar a chave para abrir a porta de sua casa e o de tornar a sentir o cheiro da figueira do pequeno quintal, que então já só existia na sua memória como uma saudade embrulhada em nostalgia e enrugada pelo tempo. Nunca mais soube desse homem, que pela lei da vida não está entre nós. Levou consigo o sonho, porque os jovens da família, em omissão piedosa, lhe esconderam que nem casa nem figueira existiam mais. A gente selecta da cidade de Telavive que, sobretudo aos fins-de-semana, usufrui daqueles subúrbios agora chiques, jamais terá sabido da existência daquele velho, daquela família, da velha casa, da idosa figueira.

Porque ouvi um dia ao grande e corajoso jornalista israelita Gideon Levi, num encontro em Copenhaga, esta confissão: “vivemos a menos de 30 quilómetros de um outro povo, dos nossos vizinhos, e não o conhecemos, não sabemos quem são, o quanto lhes negamos”.

É assim a Nakba, a catástrofe. Um povo espoliado das suas vidas, dos seus bens, das suas aldeias e cidades pela violência, a arbitrariedade, a ira, a ganância de uma casta que, dizendo-se iluminada e portadora de mandatos divinos, se auto proclamou representante de um outro povo, manchando e ultrajando a memória das vítimas de uma outra catástrofe, o holocausto cometido pelos nazis.

A Nakba é uma limpeza étnica permanente, sistemática, cometida por quem tem a noção absoluta do que está a fazer, isto é, a substituição metódica, fria, de um povo por outro com base em ordens divinas que, em boa verdade, deus algum que hipoteticamente exista pode emitir porque a Nakba é coisa de homens sem escrúpulos, sem alma, sem uma réstia de sentimentos, como um qualquer carrasco de um campo de concentração nazi.

Uma limpeza étnica cometida, hora a hora, dia a dia, ano a ano, sob os olhos complacentes e colaborantes dos senhores que exercem o seu domínio sobre o mundo, chamem-se Estados Unidos da América, União Europeia e outros entes tão bem falantes quão mentirosos, que por isso se equiparam aos que praticam a chacina.

O drama é nosso contemporâneo, contudo não é gritado nas primeiras páginas dos jornais, gorjeado pelas vedetas das TV’s, cantarolado ante os microfones das rádios, e quando há excepções – porque as há – reconheçamos a coragem, a verticalidade, o bem da honra de quem as assume.

O drama é nosso contemporâneo. Não é obra do povo hebreu; não é obra dos povos dirigidos pelos cúmplices dos que se dizem condutores do povo hebreu. Saibamos distinguir os responsáveis e as responsabilidades para que venha a ser feita justiça.

Porque justiça terá de ser feita, se justiça ainda existe. A Nakba existe; é um crime contra a humanidade.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 31.07.14

A Grande Fraude - Paulo de Castro

 

Nota: o texto seguinte pertence ao livro correspondente a esta imagem. Foi seu autor o professor, escritor e jornalista brasileiro Paulo de Castro, publicou-o a Forum Editora do Rio de Janeiro em 1969. Adquiri-o aqui em Portugal em 1973 mas, neste momento, não consigo encontrar-lhe nenhuma referência. É pena porque se trata duma obra de qualidade, muito bem documentada.

Como se lê na contracapa "Este livro é um estudo e um testemunho. Estudo de problemas atuais delineado num fundo histórico, e em análises de ordem filosófica e política, cingindo todos os aspectos da agressão sionista ao mundo árabe, e um testemunho de um amigo de sempre do povo judeu - desde as jornadas na Espanha Republicana até aos campos de concentração fascistas durante a última guerra mundial".

Dada a dificuldade actual em se encontrar este livro, tentarei publicar outras partes do seu conteúdo em próximas edições. Neste momento em que a monstruosa invasão e destruição da Faixa de Gaza pelas poderosas forças armadas de Israel procura justificar-se por causas próximas, mas actuando com uma brutal desproporção e desrespeito pelo Direito Internacional e a protecção de civis em conflitos armados - na verdade, Israel não pretende mais do que fazer desaparecer Gaza do mapa e usurpar-lhe o território -, o testemunho de quem conheceu a fundo os pressupostos do sionismo e a maneira como a Inglaterra manobrou para a criação do Estado de Israel não pode deixar de ser uma preciosa leitura. A. C.

 

 

Paulo de Castro  A Grande Fraude

   A instalação dos sionistas na Palestina é uma fraude, de tipo monumental.

A seguir à derrota da Turquia, no fim da Primeira Guerra Mundial, a Palestina ficou sob o mandato britânico. Nesse momento, o país contava 700.000 habitantes, dos quais 574.000 muçulmanos, 70.000 cristãos e 56.000 ju­deus. Em 1946, a população era de 1.936.000 habitantes, dos quais 1.293.000 árabes (muçulmanos e cristãos) e 608.000 judeus e 35.000 de várias origens. No mesmo mês de maio de 1948, se não se tivesse dado a expulsão, teriamos 1.380.000 árabes e 650.000 judeus, isto é, a proporção de um judeu para dois árabes.

Quanto à propriedade da terra, apesar de tôda a cor­rupção dos sionistas e de todos os fundos da Agência Ju­daica, os judeus possuíam apenas 6%, cifra que não justifica a tentativa de domínio sôbre tôda a Palestina. A Declaração Balfour de 1917 concedia “um lar judeu na Palestina”, não a Palestina para os judeus, ou um Estado judeu na Pa­lestina.

Mas a convicção dos meios sionistas é que mediante uma pressão inclusive pelo terror, o govêrno britânico no fim do Mandato entregaria a Palestina, tôda a Palestina à Agência Judaica, a qual com suas fôrças militares treinadas na Palestina com a benevolência dos inglêses, imporiam a sua vontade total, à totalidade do país.

A Declaração Balfour, pelo lugar que ocupa na tra­gédia do povo da Palestina, merece que nos detenhamos um pouco na sua análise, que terá naturalmente de seguir, inevi­tavelmente, em alguns pontos trabalhos já realizados por intelectuais árabes, e judeus não-sionistas.

A 2 de novembro de 1917, o govêrno britânico publicou sob a forma de uma carta enviada por M.A.J. Balfour, mais tarde Lord Balfour, então Ministro das Relações Exteriores, a Lord Rotschild, uma declaração concebida nestes têrmos: "Tenho o grande prazer de dirigir-lhe da parte do govêrno de Sua Majestade a seguinte declaração de simpatia pelas aspirações sionistas dos judeus, declaração que submetida ao Gabinete foi por êle aprovada:

“O Govêrno de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um Lar Nacional para o povo judeu e empregará todos os seus esforços para facilitar a realização dêste objetivo, sendo claramente entendido que nada será feito que possa representar um prejuízo aos di­reitos civis e religiosos das comunidades não-judaicas na Pa­lestina assim como aos direitos e ao estatuto político de que os judeus possam beneficiar em qualquer outro país."

 

 

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por Augusta Clara às 08:00



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