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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Filipa Melo Grão de sal em bocas impuras
(Crítica ao seu último livro)
Sol, 12 de Junho de 2014
A poesia nasceu de um espanto, disse Aristóteles. Com base na ilusão, surge um objecto que figura uma interpretação da vida e da reação do poeta perante os estímulos e a provocação. Medo, defesa e elaboração estão na raiz poética desde os tempos primitivos, negociando com o amor e a morte do corpo. Neste caso, o poeta dedicou-se a condensar fragmentos do mundo em movimento primitivo e, para tal, deu a sua própria vida à linguagem. Hoje, diz-se e diz-nos: «filhos não te são nada, carne da tua carne são os poemas/ que escreveste contra tudo, pais e filhos,/ lugar e tempo, […] filha é a palavra carregada que arrancas aos dicionários quando dormem,/ essa palavra escolheu-te e tu escolheste as roucas linhas/ onde hás-de ter o trabalho artesanal da morte».
Agora, o poeta está nu, no final da vida como no começo do mundo (ou na poesia da juventude) e por isso pede «que um qualquer erro de ortografia ou sentido/ seja um grão de sal aberto na boca do bom leitor impuro». Mais irónica, livre, fulgurante e moderna do que nunca, a metapoesia de Herberto Helder é a confissão magnífica de quem «queria fechar-se inteiro num poema/ lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena».
A Morte Sem Mestre é uma elegia, um lamento confessional, alimentado pela mensagem fúnebre dos poemas antigos, «tão fortes eram que sobreviveram à língua morta» e ainda vibram «entre os objectos técnicos no apartamento,/ rádio, tv, telemóvel,/ relógios de pulso». O poeta continua a cantar o presente das coisas mesmas, ainda em busca de uma luz de dentro, iluminando e despedaçando tudo. O acaso, o hermético, o concreto uniram-se após décadas de experiência da palavra, garimpando poesia como «um organismo internamente coerente e bastante» (ao JL, 1964). O que espanta é o arrojo, a vitalidade furiosa e orgânica deste livro, escrito aos 83 anos do poeta, e na sua melhor forma.
Herberto Helder: Magnífico poeta obscuro
A poesia inédita de Herberto Helder surge de novo em edição limitada. A restrição imposta pelo poeta resulta afinal num marketing infalível.
Quantos serão agora os felizardos? A Porto Editora, nova chancela de Herberto Helder (por três décadas foi a Assírio & Alvim), não o revela, mas é provável que só 5000 exemplares de A Morte Sem Mestre cheguem aos leitores. O novo livro de poesia inédita traz um CD com cinco poemas ditos pelo poeta madeirense. O design da capa reproduz o modo como encaderna os volumes da sua biblioteca, em papel de embrulho e com os títulos manuscritos a caneta de feltro vermelha. Por «vontade expressa» do autor de 83 anos, a sua poesia continua a ter só primeiras edições, integradas, após correcções, em volumes de obra completa e definitiva. O próximo sairá até ao final do ano, incluirá Servidões (de 2013 e cujo ebook está, «durante 30 dias», à venda na Wook) e talvez já A Morte Sem Mestre.
Há mais de 40 anos que Herberto Helder não dá entrevistas. A fotografia que publicamos é a mais recente, entre meia dúzia ainda acessíveis. Diz-se que é um misantropo radical, não atende telefonemas e impede os outros de falarem de si. O que se diz aumenta a aura mítica do auto-recluso, o maior poeta português vivo.
Entre a estreia em 1958, com O Amor em Visita, e o lançamento de A Faca Não Corta o Fogo, em 2008, as primeiras edições da poesia de Herberto Helder dificilmente se esgotavam. Serviam para o poeta avaliar o seu público, mas sobretudo para confirmar a obra, o que justificava a ausência de reedições. Todavia, em Servidões, o livro mais confessional, esta opção adivinha-se como compromisso com o valor ético da arte: «disseram: mande um poema para a revista onde colaboram todos/ e eu respondi: mando se não colaborar ninguém, porque/ nada se reparte: ou se devora tudo/ ou não se toca em nada». Nos últimos três livros, a expressão do poeta é cada vez mais directa, mais nua, menos rasurada. Na epígrafe de A Morte Sem Mestre, diz: «Tudo quanto neste livro possa parecer acidental/ é de facto intencional.» Nos 28 poemas que se seguem, confirma o abandono do mundo, a ascese de uma identidade restrita às margens da poesia e de uma poesia votada à linguagem, não ao diálogo. De acordo com o que disse ao JL, em 1964: «Um artista consciente saberá que o êxito é prejuízo. […] Decepcionar é garantir o movimento.»
Seremos poucos com primeiro acesso aos seus poemas, talvez em nome da preservação do universo interior do poeta, onde reside a justificação para tão vital recusa da visibilidade. Mas os tempos, cada vez menos permeáveis ao que é singular, secreto e intocado, corrompem qualquer viabilidade dos gestos rebeldes à margem da comunicação e do marketing. Thomas Pynchon, o mais esquivo autor norte-americano, aceitou participar, em 2004, em dois episódios de The Simpsons, dando a própria voz à sua caricatura, que surgiu com um saco enfiado na cabeça. Como tantas vezes alertou Mário Cesariny: «Já não há escândalo.»
Adão Cruz As palavras
(Adão Cruz)
Tenho muito respeito pelas palavras e pela verdade nuclear que as constitui.
Tenho muito medo de poder esvaziá-las ou atraiçoá-las.
As palavras, elas mesmas, têm necessidade de serem ditas, senão não passam de palavras, e eu tenho necessidade de as saber dizer, senão não passo de mero dizente.
Por outro lado, se as palavras têm um sentido para aquele que as diz ou escreve, podem não o ter para aquele que as ouve ou as lê.
O conceito de sentido é fundamental na comunicação.
E o sentido está dentro de cada um de nós e resulta da forma como respondemos interiormente às nossas experiências, que não é a mesma de cada um daqueles que nos lêem ou nos ouvem.
O sentido é fruto de um processo complexo em constante movimento, e ao transmiti-lo, nunca devemos esperar uma colagem pura e simples mas sim uma profunda integração consciente nos mecanismos construtivistas do sentido dos outros.
Vem isto a propósito de um artigo anterior, a que dei o título de A ponte, onde tentei, com toda a honestidade, transmitir a minha verdade, não a Verdade. E falei das duas naturezas do ser humano, a natureza de carácter antropocêntrico e a sua natureza de dimensão universal, as quais, na realidade, são apenas uma.
O hipotético Big-Bang, em razão do pequeno desequilíbrio entre a matéria e a antimatéria, fez com que o Universo entrasse em expansão e, com ele, esta risível partícula de poeira chamada Homem. No confronto entre a resistência da condição humana e o movimento de fuga para fora dessa condição, tendente a dilatar o homem no infinito, residiria, como já disse, a interface onde a verdadeira vida se processa.
Não querendo abusar das palavras mas valendo-me delas com o máximo respeito que me merecem, eu diria que, sem perder a sua dimensão universal, o homem, dentro da sua natureza terrena, pode desenvolver uma luta racional e científica que o projecte para fora da sua estreiteza, prendendo-o ao amadurecimento da consciência social e ajudando-o a combater a indignidade e a perversão, os grandes males do mundo. Apesar de não ser o centro de nada, ele detém a força do equilíbrio ou do desequilíbrio da humanidade. E tem um enorme potencial de conhecimento acumulado, que pode permitir alcançar o equilíbrio ou aprofundar o desequilíbrio entre os homens.
O homem é um ser vivo com actividade própria em permanente interacção adaptativa com o meio. Possui uma força intelectiva e emocional, que o torna capaz de entender as realidades e transformá-las, transformando-se, ele próprio, dentro da sua sensibilidade intrínseca.
Assim como o seu fenótipo resulta de uma interacção e de um diálogo permanente entre o genótipo e o meio ambiente, ele, ontologicamente parte integrante do Universo, não pode fugir, inexoravelmente, à sua relação com o infinito. Por isso o homem não é um simples quantitativo nem uma soma, antes se constitui por um crescendo de saltos qualitativos que nos levam a reconhecer que o todo é sempre muito maior do que as partes, tanto no que às relações humanas se refere, como no que diz respeito à conquista da consciência da sua dimensão universal.
Helena Vasconcelos O mundo das mulheres
Republicação da crítica ao livro O Amor de Uma Boa Mulher, de Alice Munro, premiada com o Nobel da Literatura
(Livros de Alice Munro, expostos em Estocolmo, onde foi anunciado o Prémio Nobel JONATHAN NACKSTRAND/AFP)
Existem sempre inúmeras mulheres, de todas as idades e feitios, nos contos da escritora canadiana Alice Munro, nascida na província de Ontário, em 1931.
Os estudos de género debruçam-se com aplicação sobre as suas personagens de mães, filhas, irmãs, amigas, companheiras, primas, vizinhas e amantes que enchem páginas e páginas com as suas acções, os seus sobressaltos e ansiedades, num mundo acolhedor e caseiro mas por vezes sombrio, onde os gestos habituais podem bem esconder pensamentos pouco recomendáveis.
É em torno destas figuras femininas que tudo gravita, incluindo os homens que se limitam a segui-las ou a abandoná--las, a amá-las e a desejá-las, a ignorá-las ou a imporem a sua presença. No universo das mulheres tudo fervilha e crepita e elas, como abelhas diligentes, como formigas cumpridoras ou como alegres cigarras, ocupam-se dos filhos e das casas, são provedoras do conforto mas também causadoras de incómodos, gerem conflitos e defendem interesses, entre porcelanas, molhos de menta, livros, bolos, móveis descarnados, águas de colónia, roupa interior, flores, abraços, lágrimas e hospitalidade transbordante. Ao ocuparem um lugar tão central, elas são sempre as personagens verdadeiramente interessantes, cheias de complexidade e segredos, adúlteras e por vezes psicóticas, plenas de malícia e de mau humor, apaixonadas, violentas e ternas.
Ao longo de mais de meio século, Alice Munro tem persistido nas suas narrativas perfeitamente buriladas sobre as relações entre os membros de famílias aparentemente banais, no ambiente semi-rural que a viu nascer. A tensão e as clivagens, que se espalham como uma epidemia entre as personagens, remetem-nos para Raymond Carver e Anton Tchekov, principalmente naquilo que sugerem em termos de "brevidade e ansiedade", numa escrita minimalista e cortante, mas extremamente rica na construção de ambientes e descrição de detalhes.
Alice Munro começou a escrever ainda na adolescência e, ao longo dos anos, os seus contos adquiriram um estatuto de singularidade, tendo sido considerados como os mais interessantes e bem conseguidos da literatura contemporânea, ao lado dos da norte-americana Jayne Anne Phillips e seguindo a tradição da grande Flannery O'Connor, a quem Munro presta um óbvio tributo, muito evidenciado no conto Salvo o Segador, que recupera o famoso Um Homem Bom É Difícil de Encontrar, essa "jóia da coroa" da autora sulista, que desenvolveu com perícia o género gótico grotesco muito utilizado também por Faulkner e Carson McCullers.
No entanto, e apesar de, em Munro, se encontrar uma forte componente de "espírito do lugar" e uma vaga tensão ameaçadora, as histórias de O Amor de Uma Boa Mulher reflectem uma realidade diferente, talvez menos acerba ou carregada da angústia violentamente católica de O'Connor mas igualmente complexa e surpreendente.
Na história que dá o título ao livro, três rapazes correm e brincam juntos. Em casa têm vidas, famílias e atmosferas diferentes mas, na rua, são livres e sentem-se poderosos. Um dia, encontram um cadáver dentro de um carro abandonado e não sabem como agir. Nada comunicam à polícia e vão para casa almoçar. Esta hesitação torna-se o pretexto para a autora nos enredar numa teia de afectos e cumplicidades, segredos e "coisas que ficam por dizer ", pesadelos e mentiras. Este, tal como a maior parte dos outros contos, passa-se nos anos 50, num tempo de grandes mudanças, quando pelo menos em relação às mulheres se vivia numa época que "estava no fim, embora (as pessoas) ainda o não soubessem", como diz a "pequena noiva" em A Ilha de Cortés, a jovem que acaba por ficar fascinada com o mistério que envolve a vida dos vizinhos do andar de cima e os segredos de um fogo de consequências fatais.
Em As Crianças Ficam, uma família passa férias na ilha de Vancouver. Tudo parece correr bem, é Verão, as filhas brincam felizes na praia, mas Pauline, a mãe que se sente aprisionada no casamento, só pensa no amante, o director de um teatro local, e acaba por partir como Anna Karenina e Madame Bovary, deixando tudo para trás, preocupada apenas em "seguir em frente e habituar-se, até que seja só o passado a doer e não o presente, seja ele qual for". Em O Sonho da Minha Mãe, um feroz nevão transforma a percepção das coisas e uma mulher tenta lembrar-se onde deixou um bebé "lá fora, durante a noite", enquanto este pesadelo se confunde com a morte do marido. Em Jacarta duas amigas travam um guerra fria, feita de mal-entendidos e sugestões ácidas e, em Podre de Rica, mãe e filha confrontam-se violentamente num abismo de solidão.
As histórias de Munro, embora estreitamente relacionadas com a sua geração, possuem uma espécie de atmosfera intemporal e sonhadora. São meditações de onde não está ausente um certo espanto ligado a um sentido de humor bastante subtil e quase desesperado em torno das mutações constantes e eternas, tanto na sociedade como no lugar mais íntimo do pensamento e das emoções de cada ser humano, com os seus anseios e lutas e, principalmente, com as suas incomensuráveis faltas.
Texto originalmente publicado no Ípsilon, de 30 de Maio de 2008
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