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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 06.12.21

Mundo - Adão Cruz

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Adão Cruz  Mundo

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(Adão Cruz)

   Neste mundo, em que os verdadeiros bárbaros são impostos aos olhos mais ou menos cegos, como agentes da paz, da justiça e do bem-estar, neste mundo em que a humanidade não come ou se enfarta de caviar, eu tento aquecer o pensamento com o abraço do nascer do sol, mas a pobreza foi reduzida a um buraco sem janelas e dói-me viver assim, sem a luz de um horizonte.

 

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por Augusta Clara às 21:04

Segunda-feira, 15.11.21

A pobreza - Adão Cruz

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Adão Cruz  A pobreza

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(Adão Cruz)

   A pobreza transformou-se em bandeira eleitoral de muitos daqueles que por ela são responsáveis. Descarada hipocrisia. Em nome da competitividade e da convergência cometeram-se e cometem-se as maiores barbaridades. A competitividade e a convergência, a globalização, a modernidade, a flexibilização, o liberalismo e a privatização, são palavras inquestionáveis das estratégias de dominação por parte daqueles que sabem quem tudo ganha à custa de quem tudo perde. Tais fórmulas transformaram-se numa ideologia sem sentido que leva à destruição sistemática do Homem, através do desemprego, do baixo salário, da pobreza, da toxicodependência, do crescimento dos sem-abrigo, do desespero, da delinquência, da apatia e iliteracia da juventude. O assalto às economias pelas mãos de luva branca, hoje quase institucionalizado entre muitos políticos e muitos manipuladores do dinheiro, que mais não são do que homens sem qualquer honra, vergonha ou dignidade, levou à perversão dos conceitos, à aniquilação da resistência e da vontade dos homens dignos, à inoperância e colaboracionismo da Justiça. Todos estes fenómenos se acentuaram quando se desenvolveram políticas doentias de saque e destruição, destinadas a reforçar o poder do capital de forma profundamente criminosa, através de absurdos superlucros e mais-valias, e do escandaloso roubo e desvio do nosso dinheiro para obscenas e obscuras transacções, salários e reformas de ninhadas de parasitas, à custa do esmagamento da qualidade de vida da maior parte do povo. Circulam no mundo triliões de dólares avidamente à procura do sítio onde se lucra mais, nem que esse sítio seja o imenso cemitério para onde resvalam milhões de vítimas. Não basta os políticos tidos por sérios dizerem que a solidariedade é um factor fundamental e o princípio mais importante do nosso século. Não basta dizerem que continua a haver países mais ricos e outros mais pobres e, dentro dos mais ricos, cada vez maior abismo entre ricos e pobres. Não basta lamentarem a pobreza e dizerem que a pobreza e a exclusão geram guerras intermináveis. Tudo isto é sabido e não é cantarolando a Paz e a Cooperação, de mão dada com os corruptos, os ladrões e os senhores da guerra que se ganha o título de vencedor. Muitos destes políticos pregadores da paz e da liberdade foram e são co-responsáveis pelo engrossamento do exército de famintos, refugiados, oprimidos e condenados da terra. Co-responsáveis no abrir de portas e no estender de tapetes às chancelarias do crime organizado. Por mais que preguem, por mais debates e conferências que façam, não anulam o descrédito em que caíram ao pretenderem convencer-nos de que as expectativas de paz, liberdade e justiça são possíveis com o aperto de mão dos verdadeiros terroristas do mundo ou com as orações a Deus, as quais, pelos vistos, só são ouvidas quando saem da boca dos afortunados e não quando tomam a forma de gemidos. Nós andamos distraídos com os fumos de incenso que os responsáveis vão espargindo pelos quatro canais da estupidez institucionalizada. E tudo isto porque muitos dos importantes grupos económicos, células de um cancro universal, tomaram conta do poder político, transformaram os governantes em lacaios e limparam os pés à soberania. Arrepanharam toda a informação global, e com ela o poder de mudar e moldar os comportamentos e as mentalidades até à anulação da verdade, da razão e do pensamento. De forma humilhante e perversa criaram uma maquiavélica desinformação, com a qual inundaram de publicidade enganosa e de ignominiosas mentiras as cabeças de um povo cada vez mais roubado, massificado, ridicularizado e estupidificado.

 

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por Augusta Clara às 20:56

Terça-feira, 03.08.21

Poesia - Adão Cruz

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Adão Cruz  Poesia

 

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   É muito difícil saber o que é a poesia, e eu duvido de quem diz que sabe o que é a poesia. Tenho ouvido as mais variadas explicações e definições, mas o horizonte que me transmitem é sempre nebuloso. Isto não impede, contudo, que tenhamos o direito à manifestação do nosso pensamento e da nossa razão.
Pessoalmente, sem ter a veleidade de pretender procurar definições de poesia, senti sempre a necessidade de perceber o que é, necessidade de a entender e de me entender no seu complexo e maravilhoso mundo. Por isso, ao longo de tantos anos de reflexão, fui dando comigo a pensar que a poesia não é mais do que um sentimento como outro qualquer. Assim sendo, prefiro chamar-lhe sentimento poético. Um sentimento como o sentimento do amor e do ódio, o sentimento da alegria e da tristeza, o sentimento da coragem e do medo, o sentimento da felicidade e da infelicidade, bem como o magnífico sentimento da liberdade, sobretudo da liberdade interior, a liberdade do pensamento e da razão, as maiores riquezas do ser humano. Um sentimento, não no sentido sentimentalista mas no sentido neurobiológico do termo, um sentimento muito subtil, uma espécie de brisa mágica perpassando pela nossa mente, uma essencialidade rítmica e harmoniosa da vida, provavelmente de uma neuronalidade muito específica e delicada, quase uma ascese ética e estética que nos transporta à mais nobre e sublime expressão da realidade, através das mais impressivas, expressivas e sugestivas formas da nossa linguagem. Eu penso que a sua arte reside na combinação da palavra justa com a adequada sensibilidade e energia sinestésica que fazem o poema acordar. A poesia não é uma emoção porque a emoção não é consciente, embora a emoção poética seja o caminho obrigatório e quase instantâneo para o sentimento, o sentimento poético, esse sim, consciente. Não é, contudo, um sentimento de cópia da realidade mas de simbolização, a evocação e a invocação ao mais alto nível, da beleza e da nobreza da realidade. O fenómeno poético poderá ser entendido como uma harmonia verbal e mental em que todos os materiais fonéticos e simbólicos se fundem num resultado de suprema fruição estética para quem o vive de forma profunda. O chamado poema, considerado a matriz literária onde habitualmente nasce e germina a poesia, pode até ser estéril, pode não passar de uma espécie de andaimes da construção poética, ou ser mesmo a negação da poesia. A poesia, o sentimento poético percorre transversalmente qualquer forma de expressão artística, podendo mesmo ter uma presença mais viva num texto em prosa do que num poema, ou ser muito mais sentida numa pintura ou numa peça de música do que em qualquer forma de expressão literária. Por isso, em minha opinião, qualquer forma de expressão artística, qualquer obra de arte só o é se contiver dentro de si a poesia do sentimento artístico, o sentimento poético.
Daniel Barenboim dizia que a música não é o som. De facto, todos sabemos que a música se exprime através do som, mas o som, em si mesmo, não é música, é apenas o meio físico através do qual é possível transmitir a mensagem mental da música. Todos conhecemos as notas musicais, todos somos capazes de as dedilhar nas teclas de um piano, mas daí a gerar um sentimento poético e artístico musical vai um abismo. Todos conhecemos as letras e as palavras, todos somos capazes de as juntar e com elas comunicar, de forma primária ou erudita, mas daí a criar arte literária ou sentimento poético vai um abismo. Criar poesia pode não ser apenas entrelaçar palavras dentro de uma construção ou estrutura chamada poema, pode não ser encastelar versos uns em cima dos outros, fazer frases labirínticas que ninguém entende, engendrar rimas e outras coisas que não passam, muitas vezes, de execuções sumárias da poesia. Assim sendo, a poesia pertence á nossa área neuronal, à esfera das emoções, sentimentos, consciência e afectos. Ao fim de uma vida de interrogações e reflexões, eu posso dizer que encontrei as minhas verdades, que sempre o serão até me provarem e convencerem de que o não são, o que não tem acontecido. Para quem, como eu, materialista convicto, não aceita qualquer dualismo corpo-espírito mas apenas o todo uno e indivisível do ser humano, essas verdades ou pelo menos algumas delas até poderão ser a Verdade.
Todos nós possuímos no nosso cérebro o mesmo esquema neural de um sentimento, já que é o esquema neural da nossa espécie. Mas o padrão neural desse sentimento que vai encaixar no nosso esquema neural é diferente em cada um de nós. Todos, de uma maneira geral, temos o mesmo esquema de vida. Todos nos levantamos, todos tomamos banho, vamos para o trabalho, andamos de carro, fazemos férias, todos rimos e choramos, mas as nossas vidas, os nossos padrões de vida podem ser muito diferentes, desde a simples camisa à profundidade do nosso íntimo. Os sentimentos não se constroem, não aparecem nem se manifestam aleatoriamente de um dia para o outro. Além disso, os sentimentos são o resultado de uma infinidade de factores que interagem entre si e os tornam tão intimamente ligados que só de forma artificial e académica tentamos separá-los e individualizá-los. Todos nós nascemos, como disse, com os esquemas neurais dos sentimentos da nossa espécie. Mas assentes nesse terreno genético, cada um de nós vai criando os padrões dos seus próprios sentimentos, através de uma curva de vivência e aprendizagem de uma vida inteira. Uma pessoa que tenha tido uma vida repleta de amor, que tenha vivenciado o amor na sua plenitude, adquire um padrão do sentimento do amor muito diferente do sentimento do amor de uma pessoa que nunca amou ou nunca foi amada. Uma pessoa que toda a vida viveu na miséria, no meio de agruras e dificuldades de toda a ordem, terá provavelmente um sentimento de carência que pode ser totalmente diferente do sentimento da pessoa que nunca teve dificuldades e viveu toda a vida na abundância. Dentro do nosso esquema neural já haverá, porventura, embriões dos diversos sentimentos que vão nascer connosco, que depois crescem, se desenvolvem e se vivenciam, e que a epigenética vai moldando, construindo, estruturando, apurando e afinando dentro de cada um. Para o bem e para o mal. Assim acontece com o amor, o ódio, a alegria, a tristeza, o medo, a coragem, sentimentos do nosso dia-a-dia. Não acontece tão facilmente, penso eu, com o sentimento poético e o sentimento artístico porque eles, a meu ver, não são vividos nem desenvolvidos pela globalidade das pessoas. Apenas os vivem aqueles que deles sentem necessidade e por eles se sentem atraídos, aqueles que os vão apurando, que os enobrecem e que com eles se habituaram a conviver como metabolitos essenciais da sua vida. Como é óbvio, mesmo assim, de formas diferentes em cada um de nós.
Então, poderemos tentar dizer, cautelosamente, o que será um poeta. Eu penso que ser poeta é, antes de tudo, ser possuidor de um sentimento poético profundo e muito apurado, construído através de uma vivência de amor, atracção e dedicação à poesia, vivendo-a de uma forma indissociável do viver da vida. Mas para além desta aprendizagem de uma vida inteira, creio que é fundamental na construção do sentimento poético uma formação cultural global do ser humano tão sólida quanto possível, uma visão humanística e livre do mundo e das coisas, a par de uma bem estruturada formação ética e estética. Só assim se entende, como parece comprovado através de estudos psicológicos, sociológicos e neurobiológicos, que o sentimento poético e o sentimento artístico enriquecem e enobrecem todos os nossos processos de humanização, criam grandes afinidades com a consciência, aproximam-nos de todos os mecanismos de identificação da verdade, melhoram e purificam todos os outros sentimentos, ajudando-nos no caminho do equilíbrio, da harmonia e da justiça. Penso ainda que muito daquilo que andamos para aqui a fazer e a que chamamos poesia, não passa, tantas vezes, de arremedo, de ilusão e desilusão. E também penso que é um erro pretender que o sentimento poético chegue às pessoas por artes mágicas. Dito por outras palavras, julgo que é um erro pretender levar às pessoas a poesia ou sentimento poético como se de uma actividade lúdica ou de prenda banal se tratasse. Dizia Schiller que o vulgar é tudo aquilo que não desperta outro interesse que não o sensível. A arte e a poesia não podem descer ao puramente sensível, à mera receptividade sensorial, à fugaz captação de estímulos incapazes de serem vividos condignamente nas complexas oficinas neuronais da nossa mente. Não é a poesia e a arte que têm de ir ao encontro das pessoas, não é a poesia e a arte que têm de descer ao comum dos mortais, mas é o ser humano que tem de ascender ao sentimento artístico e poético através de políticas culturais e condições sociais que a todos permitam sentir a necessidade da poesia e da arte como um elemento essencial da vida.

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por Augusta Clara às 00:25

Quinta-feira, 03.06.21

O Quadro - Eva Cruz

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Eva Cruz  O Quadro

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(Adão Cruz)

   Terminado o almoço na sala requintadamente sóbria, ficaria na memória a vitela de Lafões e as batatinhas lustrosas de cor aloirada que o forno de lenha pintou. Um café na pastelaria dos “vouguinhas”, o seu orgulho de fabrico diário, despertou a caminhada pelas margens verdes do rio, onde cada pássaro exibia o seu gorjeio, e cada pato mostrava a sua perícia, cortando em leque as águas profundas. Outros espreguiçavam-se nas margens, enchendo a relva de várias cores. No meio do rio, perfurando o ar, um grande jacto de água brincava com o sol formando um arco-íris. O mesmo arco-íris que coroava a serra em tantos Maios da nossa infância.

Mais adiante uma placa indicando o Condado de Beirós. A seta assinalava o caminho já varrido da memória, e a cor parecia indicar o interesse de uma visita.

- Lembras-te da exposição de pintura no Condado de Beirós, há mais ou menos vinte anos, a minha maior exposição individual, com várias salas, corredores e claustros cheios?

- Claro que sim, então não havia de recordar! Com tanta gente que ali acorreu, vinda de todos os lados. Um rol de nomes, amigos e conhecidos, alguns que ainda lembro com saudade e a voz enternecida, muitos deles já saídos deste mundo e da lembrança!

Algo emergiu das entranhas do passado que nos obrigou a pegar no carro e seguir o caminho de outrora à procura do Condado. E foi em busca de alguns eventuais restos que subimos o monte, entramos no portão da quinta e encontrámos, com surpresa, o velho solar quase intacto, o branco da cal um tanto desbotado, a pedra escurecida, a natureza em volta bem tratada, e uma bela piscina, no meio de um campo relvado. Em volta da casa muitos carros velhos, enferrujados, incluindo um Maserati a desfazer-se. Lembrámo-nos, então, que em tempos o dono tinha uma paixão especial por carros antigos.

A porta do solar estava aberta. Bati e voltei a bater com toda a força, chamei e voltei a chamar por alguém, e como não obtive qualquer resposta ou perturbação daquele silêncio, entrei. Tudo impecavelmente arranjado e decorado, nas paredes muitos quadros, retratos antigos, bonitos móveis, tudo bem tratado e asseado. Não havia dúvidas de que estava habitado e aberto ao público…que não existia, mas que o desconfinamento haveria, muito provavelmente, de voltar a trazer. Subi o primeiro lance de escadas tapetado com passadeira vermelha, depois outro igual virando à direita. No topo da escadaria de pedra boleada, em lugar de honra, um quadro com moldura dourada prendeu a minha atenção. Só poderia ser, não tinha dúvidas. Chamei o meu irmão que de imediato confirmou que aquela pintura era sua. Lá estava o seu nome e a data 2002.

 

 

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por Augusta Clara às 20:44

Segunda-feira, 03.05.21

O velho eléctrico - Eva Cruz

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Eva Cruz  O velho eléctrico

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   O rio, junto à Foz, é quase um lago de águas paradas. Não tem a cor do ouro que lhe dá o nome, antes reflecte o azul do céu e do mar que ali o espera um pouco mais à frente para o abraço final. A remos ou à vela por lá deslizam barcos e barquinhos ao sabor da brisa leve desta luminosa primavera. Centenas de gaivotas, algumas garças, patos bravos, corvos marinhos, os habituais donos destas margens espreguiçam-se ao sol, ou dançam no ar em voos suaves, ou se lançam em corridas quase rasantes sobre as águas. Os corvos marinhos alinhados no que resta de terra na maré cheia, abrem as asas a todo o pano para receberem o sol que as vai secando. É Domingo. A correr e a caminhar, ao ritmo das forças de cada um, toda a gente saiu de casa em busca do sol e da liberdade que entrou de rompante pelas portas do desconfinamento.
Amarelo de sempre, por vezes esverdeado ou pintalgado de modernice, arrastado de tempo e de memórias, lá vai e vem o eléctrico gemendo sobre a linha ao longo da margem, levando a Ribeira até à Foz, e trazendo de volta o romântico Passeio Alegre com a sua alameda de palmeiras e as lindas casas da Foz Velha. A linha 1, uma das três linhas sobreviventes de entre muitas, juntamente com a linha 18, de Massarelos à Cordoaria, e a 22 entre o Carmo e a Batalha. Pequenos restos do século XIX que teimam em não se desgarrar de um velho Porto que é só memória e saudade.
Nos meus tempos de menina de Liceu, sempre foi o eléctrico a levar-me onde eu queria. E mesmo nos tempos de minha mãe que viveu a sua juventude entre Gaia e Porto, assim teria sido também, pois lembro-me de ela ter falado no eléctrico, aquando de um acidente na Rua 31 de Janeiro, em que o guarda-freios não conseguiu travá-lo e ele veio desenfreado e de escantilhão até à Baixa.
Sentei-me ao sol num dos muitos bancos que seguem a margem desde a Cantareira ao Cais do Ouro, e lembrei-me do livro de Tennessee Williams “A Street Car named Desire” ( Um Eléctrico chamado Desejo). Nada tem a ver com este eléctrico que geme atrás de mim, mas levou-me a desnudar uma espécie de nostálgica reminiscência do passado que, serenamente, criou em mim algum disfarce da desilusão e alguma fantasia que me permitiu esquecer por momentos a realidade da velhice.

 

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por Augusta Clara às 20:25

Quinta-feira, 29.04.21

Minha amiga Maria da Criatividade - Adão Cruz

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Adão Cruz  Minha amiga Maria da Criatividade

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(Adão Cruz)

 

   Dentro das alegorias possíveis e de uma espécie de polifonia pictórica, considero-te a música do Universo, a mulher reinventada nas vivências e passagens do tempo, elemento de candor poético na intimidade afectiva do quotidiano. Nunca te outorguei o exíguo papel que outros te atribuem, quem sabe, decorrente do hormonalismo poético da tua imagem feminina. Mas pago bem caras a aspiração da tua pureza, a procura da tua inocência, a adoração da tua beleza, a ansiedade do teu absoluto que fazem de mim um náufrago de sonhos preso nos lastros da realidade.

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por Augusta Clara às 18:09

Domingo, 25.04.21

25 de Abril, o grande vencedor - Adão Cruz

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Adão Cruz  25 de Abril, o grande vencedor

   O 25 de Abril foi o mais importante fenómeno político-social da nossa história moderna. O mais fascinante fenómeno político-social da vida de todos aqueles que tinham dentro de si a terra preparada para nascerem cravos.

Foi uma rajada de vento estilhaçando as janelas do tempo e deixando entrar o futuro e os sonhos pela mão dos pequenos gestos de cada um de nós. Uma generosa pincelada de cor e de vida nas paredes gastas da existência, nas palavras desencantadas e nos rostos mortos da esperança. O abrir da madrugada que há tanto tempo se recusava a ser dia.

Sensação única e irrepetível. A praça do entusiasmo era demasiado grande e a alegria brotava em cada esquina, entoando canções que ardiam no ventre da arte e da poesia. Eram muitas as certezas, ainda mais as incertezas e uma cândida ingenuidade brilhava em todos os olhos. Acreditava-se que neste pérfido mundo ainda havia almas grandes, as únicas capazes de ultrapassar a fronteira para além da qual o homem adquire a dimensão da cidadania, da honra e da dignidade.

Ao calor do 25 de Abril se deve o germinar da revolucionária ideia de que é na relação com os outros que nós percebemos quem somos e que o sentido da nossa existência é o sentido da nossa coexistência. A maior conquista do 25 de Abril foi, de facto, o nascimento de uma necessidade crescente de sentir a beleza, o autêntico, a verdade, o gosto da vida para cada um e para todos, a solidariedade, a sede de saber e a consciência da soberania da liberdade e da justiça.

Comemoramos hoje os quarenta anos do nascimento de uma vida por que tanto lutámos. Mas é com tristeza que penduramos o cravo na lapela e uma lágrima nos olhos. Hoje já não sabemos se é dor ou alegria o que sonhamos quando abrimos ao sol as portas de Abril. Não sabemos se é dor, tristeza oualegria, aquilo que sentimos quando a revolução faz tantos anos de saudade e nostalgia.

O 25 de Abril sempre teve e tem alma de esquerda. Nunca poderia ser o gene da nova ditadura que aí está desde há muito, cada dia mais tecnologicamente evoluída e sofisticada. Não demorou muito depois de Abril a incubação do ovo da serpente. Como fazem os micróbios quando aprendem a utilizar o antibiótico como alimento, os saudosos do antigo regime apoderaram-se da palavra democracia, usando-a como rótulo do veneno que lentamente foram injectandonas consciências e nas inconsciências do nosso povo.

O seu caldo de cultura é não só o domínio da comunicação, onde ferreamente institucionalizou a desinformação e a mentira com máscaras de informação, mas também a eterna manutenção da ignorância, da estupidificação, da pobreza e do obscurantismo. Tudo em nome da competitividade e da convergência, da globalização, da modernidade, da religiosidade, da flexibilização, da privatização, palavras inquestionáveis das estratégias de dominação por parte daqueles que sabem quem tudo ganha à custa de quem tudo perde.

São estes responsáveis pelo abrir de portas e pelo estender de tapetes às chancelarias do crime que provocaram ou facilitaram esta barbárie dos tempos modernos, a corrupção, os roubos ao país, os cortes de salários e o esbulho das pensões, a degradação social, a fome ao lado da loucura do consumismo, o monetarismo e o ultraliberalismo cujo útero reside nos tecnocratas da rapina e na cabeça do patrão planetário que os condecora por cavarem cada vez mais fundo o fosso entre ricos e pobres.

De cravo ao peito ou sem ele, comemoram com toda a desfaçatez a honrosa revolução que sempre odiaram, numa tentativa de a desnaturar e de neutralizar o genuíno espírito de Abril. O que se passa na Assembleia da República é paradigmático. A hipocrisia é maior do que o monte de cravos ali aprisionados nesse dia. Dia que muitos suportarão com dificuldade, conhecidos que são osseus claros sinais de alergia.

Nos dias que correm, a luta tem de ser redobrada dentro de cada um de nós. Não é o grau de facilidade ou dificuldade ou a carga pragmática ou utópica que ditam o que deve ser feito ou obstam àquilo que deve ser feito, mas é, sobretudo, a resistência e a força da verdade da nossa consciência perante a submissão.

A identificação com os autênticos valores de liberdade em todo um processo de valorização pessoal e colectiva, exprime uma inquestionável adesão ao Bem e à Justiça, uma interioridade e uma nobreza de carácter só reconhecidas às almas grandes. É por tudo isto que ABRIL é e será sempre o GRANDE VENCEDOR.

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por Augusta Clara às 00:49

Quinta-feira, 22.04.21

Os caramuleiros - Eva Cruz

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Eva Cruz  Os caramuleiros

 

   O novo abrandar do confinamento logo acelerou a vontade de respirar ar puro. Desta vez o ar da Serra do Caramulo. O dia era um esplendor e a temperatura de Verão. A “Alma”, romance-poema de Manuel Alegre, enfeitou a memória dos caminhos de Águeda, por onde há muito não passávamos, quando começámos a subir a montanha, revivendo passeios de outros tempos com os filhos ainda crianças. Já quase no alto, o meu irmão Adão e eu Eva, encontrámos um recanto maravilhoso à beira do rio, com açude e ponte romana, por engraçada coincidência denominado “Parque de merendas Paraíso”. Ali abrimos o farnel que nos soube melhor do que a maçã, sem que ninguém nos expulsasse.

Chegados ao alto do Caramulo, uma das mais belas serras de Portugal, recordei de imediato a “prima Laurindinha”, prima com quem minha mãe viveu na juventude, e personagem do meu livro “Aurora Adormecida”. Por ali passou tristes dias da sua vida em busca da cura para a tuberculose. Os bons ares do Caramulo transformaram esta serra na estância sanatorial mais importante da Península Ibérica, estando o médico Jerónimo Lacerda ligado à construção do mais antigo sanatório do Caramulo, que data de 1922. Foi um médico visionário que conseguiu dotá-lo das melhores infra-estruturas para a época, dando assim um enorme contributo para a erradicação da tuberculose no país. Pois foi nesse mesmo sanatório que a prima Laurindinha esteve internada. De nada lhe valeu, infelizmente, pois a doença matou-a ainda muito nova. Outros sanatórios foram criados, tornando-se o Caramulo, nos anos vinte e trinta, na mais “elegante” estância de saúde do País. Sobre este assunto transcrevo aqui algumas passagens do meu livro: “O ambiente do sanatório era deprimente. As fumigações de formalina cheiravam a morte. Embrulhados na sua tosse de tísicos, os doentes agasalhavam a doença dia e noite sem esperança. Na sua fraqueza trocavam olhares de forte cumplicidade, fazendo nascer amizades e amores que a dor e o sofrimento alimentavam. Montanha Mágica de sentimentos, de superstições, de medos e de morbidez, onde em vez de retratos se trocavam radiografias!”

Como satélites do grande sanatório, outros mais pequenos se espalharam pela montanha. E como os doentes, também foram morrendo ao longo do tempo. Hoje formam uma impressionante constelação de esqueletos, de janelas estilhaçadas, de paredes descarnadas e buracos entranhados de silêncio, solidão, pedaços de dor e saudade pelos que ali sofreram e ali morreram”. Com a erradicação da tuberculose, a estância do Caramulo foi votada ao abandono, mas a paisagem que os nossos olhos alcançam do cimo da Serra continua a ser de uma beleza única na sua lonjura a perder de vista e a conter a respiração. Nem tudo a morte levou, deixando viva a natureza em toda a sua plenitude. E foi a olhar ao longe que me veio lá do fundo da memória outra recordação, agora da minha infância, os Caramuleiros. Pelos dias frios de Inverno apareciam na minha aldeia, todos os anos, os Caramuleiros a vender carvão para o ferro de engomar e cobertores da serra. Dizia-se que vinham de muito longe, da Serra do Caramulo, e as crianças fugiam assustadas com as caras desconhecidas dessa gente pobre e estranha. Hoje já ninguém se lembra deles, nem dos ferros de brasas, nem dos cobertores serranos.

E assim, no meio dos montes, entre memórias e saudades, se passou este belo dia de desconfinamento, não só do corpo mas sobretudo do espírito.  

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por Augusta Clara às 14:36

Quarta-feira, 21.04.21

Reflexão - Adão Cruz

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Adão Cruz  Reflexão

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(Adão Cruz)

 

   A genuína pureza da poesia vive e anda por aí em tudo o que é vida, mas não é fácil captar a sua complexa simplicidade. Como não é fácil - ou não se quer - entender a complexa simplicidade da evidência que também anda por aí, em quase tudo. O medo da evidência apavora as mentes que, de uma forma ou de outra, perderam a liberdade ou rejeitam a liberdade, sobretudo a liberdade de pensar. Interiorizam mecanismos fortemente redutores que são aceites acriticamente, porque não existe ou foi tacticamente anulada a capacidade crítica, ou são impostos por uma espécie de fé ou crença consuetudinária, impiedosamente dogmática, que cristaliza toda a forma de pensar, mesmo de pessoas habituadas e traquejadas numa moderna cultura científica da evidência. Estas as pessoas, ainda assim, de boa fé. Porque as há, e não são poucas, que fazem da má fé o antídoto da evidência que não conseguem negar.

 

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por Augusta Clara às 15:27

Sexta-feira, 12.03.21

O que penso - Adão Cruz

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Adão Cruz  O que penso

 

 

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   É muito difícil saber o que é a Arte. Duvido de quem diz que sabe o que é a Arte. A Arte não tem definição que nos satisfaça, e penso que nunca se saberá, verdadeiramente, o que é a Arte. Por isso, prefiro chamar-lhe sentimento artístico. Mas, mais do que teorizar, o que interessa é a prática da sensibilidade, não só do criador mas do contemplador e da sociedade em geral, bem como a liberdade da constante destruição-criação das raízes do pensamento. Sem sensibilidade e sem curiosidade universal não me parece possível a formação de uma personalidade artística, capaz de entender a Arte como o caminho mais natural para viver a verdade.

 

Muitas vezes dou comigo a pensar que o Homem é um ser uno e indivisível, extremamente complexo. No entanto, ele é composto por uma infinidade de subunidades, todas intimamente ligadas entre si, a mais importante das quais, a unidade soberana, se assim podemos dizer, é o cérebro. Este órgão é constituído por cerca de cem biliões de neurónios em permanente actividade, através dos quais se processam em cada momento, provavelmente, triliões de neuro-transmissões. O nosso esquema cerebral é idêntico em todos nós mas o conteúdo de cada cérebro é totalmente diferente. Daí que o sentimento artístico, pertencendo à espécie, é de cada um na sua individualidade, especificidade e profundidade.

 

Por outro lado, sou levado a pensar que a Humanidade não é um mero conjunto de homens e mulheres, mas uma profunda e intrincada rede de relações, de relações humanas muito diversas e complexas. O cérebro de cada um de nós, apesar de encerrado num compartimento estanque, não se encontra isolado. Relaciona-se, permanentemente e mais ou menos intimamente, com todos os outros, e todos os outros se relacionam com ele, através dos múltiplos canais de comunicação que vão desde a linguagem falada, escrita ou gestual, à mímica, à postura, às atitudes, aos comportamentos. Todavia, o sentimento artístico, seja ele o que for e tome a obra de arte a expressão que tomar, parece-me a forma mais nobre e sublime da comunicação e da relação do homem consigo mesmo e com o mundo. Será, provavelmente, a única que permite ao homem assentar os pés no caminho da universalidade.

 

Todo o homem se relaciona mais ou menos activamente com os inúmeros fenómenos que o rodeiam e com tudo o que vê e ouve, com tudo o que entende e não entende. O diálogo do Homem consigo mesmo e do Homem com o mundo no seio da natureza e da Humanidade é permanente, profundo e inevitável, e constitui a fonte universal e inesgotável de todas as ideias. O Homem tem caminhado ao longo do tempo em profunda relação dialéctica com o meio, confrontando-se com as difíceis questões da sobrevivência, do pensamento, da razão e da difícil descoberta de si próprio. Nesta descoberta do entendimento de si próprio reside, a meu ver, a força que o impele para o infinito e para a sua dimensão universal, dito de outra forma, a força que o projecta nos horizontes da expressão artística. Mas a arte, apesar de ser a voz da alma na vida infinita, nunca atinge a perfeição, por isso ela será sempre eternidade, inquietude e procura constante. Não se compadece nem com a abreviatura do silêncio nem com a amplidão do grito, pois emerge de uma luta permanente entre sonho e pesadelo, o sonho de ser um pássaro voando na proporção do infinito e o pesadelo de ser um Homem feito à medida do vento, arrastando as asas.

 

No meu entendimento, a Arte, ou sentimento artístico, fruto da obediência ao facto de existirmos, é a proclamação da inocência contra as culpas do mundo, é a mais segura tábua de salvação nos naufrágios da fraqueza humana e o melhor antídoto contra as sistemáticas tentativas de cretinização da sociedade. Age sobre a sensibilidade, a imaginação e a inteligência, enriquece o sentido da humanização, ajuda o processo de reflexão, ilumina as emoções e os sentimentos, cria uma poderosa afinidade com a consciência, gera a necessidade de identificação com a verdade e a liberdade, desenvolve o sentido da estética, da beleza, da harmonia e da justiça, e abre a mente do ser humano ao valor da dignidade e à compreensão dos indeléveis mistérios das relações do homem com a natureza, impedindo-o de mastigar crendices, atavismos e superstições absurdas que o escravizam.

 

Penso que qualquer obra de arte tem um sentido para aquele que a produz, sentido que pode não ser o mesmo daquele que a vê, ouve ou contempla. O conceito de sentido é fundamental na comunicação. E o sentido está dentro de cada um e resulta da forma como cada um responde interiormente às suas experiências, forma essa que é diferente em cada pessoa. O sentido é fruto de um complicado processo em constante movimento, e ao transmiti-lo, não se deve esperar uma colagem pura e simples mas sim uma integração consciente nos mecanismos construtivistas do sentido dos outros, isto é, deve haver sempre, tendencialmente, um sentido de obra colectiva. Daí que, tomando como objecto de relação humana a realização de um acto criativo, não nos seja difícil compreender que quando alguém escreve um poema ou um livro, quando escreve uma peça musical ou pinta um quadro, introduz nessa obra, mais ou menos conscientemente, dentro de um real conhecimento das circunstâncias, toda a sua vida, toda a sua estruturação como ser humano individual e livre. A obra é tecida com todas as suas vivências, as suas memorizações, as suas emoções, os seus sentimentos.

 

Quando alguém vai ler, ouvir ou contemplar a obra do autor, não vai apenas ler, ouvir ou contemplar a obra do autor, mas, à luz de toda a sua riqueza espiritual, vai sentir também a sua própria obra, o seu próprio poema, a sua própria música, o seu próprio quadro, já que não é com os olhos, os sentimentos e a vida do autor que ele a vai sentir, mas com a sua própria vida, através das suas próprias emoções e sentimentos. Desta forma, a obra pode desencadear em quem a lê, ouve ou observa, uma imensidade de fenómenos e sensações, uma forte necessidade de sair do vazio, e pode funcionar como um poderoso estímulo, mais penetrante ou menos penetrante, mais revolvente ou menos revolvente, que pode despertar e até desnudar o mais profundo interior de cada um na sua identificação com o que lê, ouve ou observa. Sobretudo, quando a obra for capaz de inquietar o pensamento, criar rupturas, abrir conflitos entre conceitos caducos, levar à meditação e pôr em causa o mundo estreito das velhas ideias. Quando a obra for capaz de nos ensinar que ninguém vê com os nossos olhos, ninguém pensa com o nosso cérebro e ninguém sente com o nosso espírito.

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por Augusta Clara às 15:01



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