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Jardim das Delícias


Domingo, 05.04.20

O espantalho do coronavírus - Eva Cruz

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Eva Cruz  O espantalho do coronavírus

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(Adão Cruz)

   Há três semanas em clausura, completamente só e confinada às paredes de um apartamento, assaltava-me vezes sem conta a miragem do meu jardim, dos campos verdes e da minha casa da aldeia, com os seus recantos tão meus e tão agarrados à minha existência.

Foi decretado de novo o estado de emergência. Como cumpridora que sou, capacitei-me de que tinha de continuar a obedecer. Para além da saudade, havia também alguma emergência nesta minha saída, não pela falta de zelo de quem por lá trabalha mas por obrigações que cabem aos donos. Eu sabia que no período da Páscoa, as medidas seriam mais rigorosas, não se poderia sair do Concelho de residência. Decidi então munir-me de todas as precauções e, sem violar as regras, equipei-me dos pés à cabeça, peguei no carro e fui até ao meu pequeno mundo maravilhoso das Figueiras. Lá não correria perigo algum, pois estava isolada de tudo e de todos. Só aquela natureza no seu estado mais natural me inspirava a máxima confiança.

O problema era descer o elevador da minha residência até à garagem, caminhar no piso calcado e recalcado por tantos que por ali se movem. Envolvi-me num fino avental de plástico até aos pés, daqueles que se usam para dar banho aos doentes, enfiei as respectivas luvas e colei na cara a máscara branca.

Durante a viagem de cerca de dez quilómetros, retirei a máscara, pois nenhum vírus havia entrado à socapa no meu carro, ele também, bem fechado e em quarentena.

Quando cheguei ao velho portão da minha casa na aldeia, daqueles que ainda se abrem com ferrolhos, trinco e alavanca, resolvi deixar o carro cá fora. Pus de novo a máscara e as luvas e sorrateiramente abri apenas uma nesga do portão, não se desse o caso de andar por ali alguém.

De repente, uma revoada de pássaros, não sei se andorinhas, pardais ou estorninhos debandou em alvoroço e as pegas começaram a praguejar e a gritar naquele seu pio tão agreste. Um gato amarelo, que nem é meu, e por lá vive como se fosse o dono, mal me viu desapareceu que nem uma flecha. Ri-me sozinha e pensei que seria o contágio do coronavírus a assustá-los, ao gato e aos pássaros, ou aquela espécie de espantalho vivo que ali apareceu inesperadamente.

Despi a minha estranha indumentária, abri portas e portadas para deixar entrar o sol e o ar puro do campo, corri a casa de lés- a-lés, senti o cheiro de tudo a velho mas limpo, espreitei todos os cantos e recantos que me enchem de vida e voltei para o pátio. Palmilhei os campos, senti a refrescante mistura de tantas flores e aromas que por ali se abrem em pleno silêncio e liberdade e parei os olhos na cercadura lilás à volta do quintal. Nesta altura, um mar de glicínias que por lá se entrelaçam e enroscam nas vedações deixam tombar os seus cachos tão perfumados que o cheiro se sente e adivinha ao longe.

Enfeitei as jarras de Páscoa como fazia a minha mãe e coloquei na porta uma coroa de flores brancas e amarelas, o símbolo da Primavera e da cor do ovo, o cerne da vida. Polvilhei tudo com um profundo suspiro de esperança.

Pelo meio da tarde vim embora. Senti que os pássaros voltaram, talvez confiantes e contentes porque a dona apareceu e lhes enfeitou a casa de Páscoa.

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por Augusta Clara às 16:07

Quinta-feira, 02.04.20

O ensino em quarentena - Eva Cruz

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Eva Cruz  O ensino em quarentena

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(Adão Cruz)

   Hoje telefonou-me um aluno meu de há mais de quarenta anos a saber de mim e do meu isolamento. Transmitiu-me, para além da sua preocupação e de um beijinho, a preocupação dos outros alunos do seu tempo que ainda se juntam com frequência e fazem questão de ter a minha companhia. Comovi-me.

Isto fez-me reflectir um pouco e pensar no que se está a passar no momento. Ainda bem que a tecnologia permite o ensino à distância, mobilizando professores e alunos numa dinâmica diferente. Eu, que fui pedagoga, e julgo, sem presunção, continuar a ser, apesar de há muito aposentada, procuro imaginar-me numa situação destas. Não seria fácil a tarefa, presumo eu. Não sendo uma “infoexcluída”, estou muito longe de poder estar preparada para tal trabalho. Contudo, o que mais me impressiona e confunde neste ensino, bem melhor do que não haver nenhum, é a falta do contacto humano, ver e ler no rosto dos meus alunos as reacções, as certezas e as dúvidas, o prazer, o cansaço ou o enfado, a cor e o tacto da minha palavra, dos meus gestos ou uma simples mímica para poder dar resposta às exigências de uma sala de aula na cumplicidade do ensinar e aprender.

Confesso que gostei muito de ser professora e que hoje é ainda o dia em que recordo essas vivências tão distantes no tempo, mas ainda tão presentes e tão saudosas. Desempenhei outras tarefas na Escola, mas de tudo o que mais gostei foi de dar aulas. Sei que os professores hoje se deparam com problemas tremendos de desgaste, de frustração que não merecem. Eles são a grande força que pode guiar a Humanidade pelos melhores caminhos. Sem eles o mundo não avança. É preciso urgentemente reconhecer-lhes esse valor.

Sem me querer deter na análise das causas, acho que o ensino se tornou muito formatado e pouco criativo. Falta o sonho, o sonho que alimentou a geração de Abril. Talvez por começar hoje, ele me vem á memória. Não foram momentos fáceis. Sempre achei e acho que vale a pena lutar por Abril. Abril sempre.

O acto de ensinar e aprender tem de ser vivido com alegria. Com custo sim, mas sem enfado. Isto implica muito trabalho, mas acima de tudo criatividade. Quanto mais estereotipado e formatado for o ensino menos atraente e profícuo se torna para alunos e professores. Para além de bons técnicos, precisamos acima de tudo de bons professores.

Recordo-me de uma estratégia muito usada por mim na sala de aula. Uma simples composição colectiva. A composição é das tarefas mais difíceis e mais desafiadoras em pedagogia. Desafio aqueles, que em tal não acreditam, a pegarem numa folha de papel em branco e um lápis e a escreverem sobre um tema, uma frase ou uma simples palavra. Trata-se do acto de criar que pode levar à obra de arte. Esta tarefa nem sequer implicava grandes meios ou recursos técnicos. Todos os alunos participavam com uma frase, podia ser a mais simples ou pobre mas todas eram aproveitadas, saindo normalmente um produto que os gratificava e até era motivo de orgulho. Tarefa de alto risco, sem dúvida, sobretudo numa língua estrangeira e particularmente no Alemão. A humildade de o professor poder duvidar ou errar, se tal acontecesse, e procurar o esclarecimento ou corrigir o erro era também fonte de ensinamento. Não me deixam mentir alunos e estagiários a quem procurei transmitir o que sabia, realçando que o acto colectivo bem orientado combate o individualismo tão instigado pela competitividade dos dias de hoje.

Talvez este telefonema do meu querido aluno, preocupado com a minha quarentena, tenha raiz no ensinamento que bebeu nas minhas aulas há cerca de meio século. Se assim foi, sinto que cumpri a minha missão de educadora.

Um beijinho para ti, António e para todos vós.

 

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por Augusta Clara às 14:12

Terça-feira, 31.03.20

A gripe assassina - Eva Cruz

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Eva Cruz  A gripe assassina 

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(Adão Cruz)

 

   Hoje, dou o devido valor às tuas palavras, Mãe.
Das prateleiras, já amarelecidas do tempo, retirei o meu livro “Aurora Adormecida” e despertei para uma realidade vivida há mais de um século, a qual, quando a descrevi, não passava de ficção.
…“ A Primeira Grande Guerra provocou milhões de mortos e mutilados. Nessa mesma época, o mundo assistiu apavorado e assustado a outro flagelo, a gripe espanhola, também conhecida por pneumónica. Atacou de tal modo o planeta inteiro que dizimou mais de um por cento da sua população. Os sintomas eram os mesmos de uma gripe normal, mas depressa o vírus atacava os pulmões, tornando-se o acto de respirar quase impossível. Os corpos ficavam tão arroxeados que distinguir o cadáver de um branco ou de um negro não era fácil. A morte é democrática e anti-racista. Nivela tudo, mede todos por igual.”
Minha mãe, a heroína deste livro, contava e recontava as peripécias da sua vida, a que nós não dávamos o devido valor, e até gracejávamos com o que dizia. Tudo o que parecia tão longe e improvável, afinal está agora tão perto. Hoje, Mãe, dou o devido valor ao teu sofrimento.
Não te bastava ficares sem mãe ao nascer, “o maior amor que pode haver”. Tiveste ainda de assistir à morte dos teus dois irmãos, ele com dezanove anos, ela com dezassete, e também à morte do teu pai. Ficaste sozinha na vida, com dez anos de idade. “O meu paizinho chorava à janela com a Bíblia na mão, a olhar os fios negros que lhe subiam pelos braços acima e a dizer que chegara a sua vez e que fora o homem mais infeliz do mundo…”
O pai, juntamente com um alemão, era capataz das minas de volfrâmio do Couto Mineiro de Rio de Frades, ao qual estava ligada a Companhia Mineira do Norte de Portugal. A pouca distância dali, em Regoufe, a Companhia Portuguesa das Minas explorava, com os ingleses, os filões do minério, arrancando o ouro negro entranhado nesses tesouros brancos de quartzo. Para ali se desterraram mineiros, capatazes e exploradores por caminhos de cabra, a cavalo ou de carro de bois. Ali deixaram enterrados os seus corpos e os seus sonhos.
…” Morreu toda a gente que trabalhava na Mina. Todos foram enterrados na vala comum. Só o meu paizinho e o Alemão tiveram direito a sepultura, o Alemão no cemitério de Cabreiros e o meu pai no cemitério de Bouceguedim.”
Aurora tinha adormecido ao sol sobre o telhado de zinco da lavaria e tivera uma gripe forte. Talvez, por isso, ficara imunizada. Foram-na buscar de carro de bois àquele desterro, e a partir daí, juntamente com o seu “baú “ que atravessara os mares, começou a saga da sua vida.
Hoje, Mãe, entendo tão bem que o dia mais triste da tua vida tenha sido o dia da tua comunhão solene, em que te vestiram de negro no meio de todas as outras crianças vestidas de branco. Eras órfã de pai e mãe. Mais ainda, tinham-te roubado toda a família. Nunca valorizei tanto a tua luta e o teu sofrimento, como agora!
Sinto uma enorme felicidade porque do nada construíste outra família que te amou sem limites. Hoje faz anos um dos teus meninos, um dos que mais te arreliavam, mas que tanto te amava! Enfeitava-te como uma boneca, fazia-te tantas diabruras que só o excesso de ternura pode explicar. Mas tu gostavas…
Quando ele nasceu estavas ao meu lado. Eu já tinha um menino e esperavas que te desse uma menina. Por isso disseste: Paciência, um outro menino é também uma maravilha. E assim, com mais três do teu filho, dois meninos e uma menina, construíste o teu maravilhoso novo mundo.
Hoje, como tu, sou mãe e avó, e nunca tão bem compreendi o que sempre te ouvi dizer: Cabem todos os amores no coração, mas para filhos e netos há dentro dele um lugar à parte.

 

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por Augusta Clara às 16:48

Sexta-feira, 27.03.20

Hino à Primavera - Eva Cruz

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Eva Cruz  Hino à Primavera

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(Adão Cruz)

   Começou ontem a Primavera. Os talos das videiras e talvez as gavinhas já começam a espreguiçar-se pelos arames fora, os fetos a desenroscar os gomos, as prímulas à beira do rego a mostrar o amarelo luminoso, as aleluias, os lírios a dar cor aos jardins, os pampilos a cobrir os campos, as violetas bravas a enfeitar as beiradas dos combros.

A Natureza está revoltada com o Homem, revoltada é palavra minha, porque a Natureza tem outra linguagem, exprime-se de outra forma. Será apenas uma metáfora, uma personificação ou uma simples figura de estilo. Eu sei que a Natureza é também o Homem, ele é fruto do seu ventre. Não me quero entregar a especulações filosóficas e muito menos metafísicas, porque me entendo melhor com a simplicidade do meu pensamento, e o momento que vivemos não me inspira transcendências dialécticas.

Os pássaros estão muito calados. Não os vejo nem os oiço. Estou longe dos parques e dos campos, mas na cidade também por cá costumavam andar. Por esta altura, a visita de pombas a poisar nas minhas varandas bem altas a arrulhar logo ao nascer da manhã desapareceu.
Espero que a Natureza apazigue a sua revolta, que seja apenas uma zanga, um puxão de orelhas à malvadez da Humanidade. Resta-me a consolação de que, numa situação tão inesperada e inimaginável, a Humanidade possa estar toda do mesmo lado, sem homens contra homens. Ingenuidade, talvez. Estamos todos no mesmo barco, onde não há bóias para todos e onde alguns vão ao fundo. Estamos todos do mesmo lado, e a abnegação dos que morrem para salvar a vida dos outros mostra a sublimidade a que pode chegar a alma humana. O simples acto de deixar uma saca de pão, uns biscoitos ou um jornal à porta dos que não podem sair de casa, mostra à Natureza que o Homem ainda pode ter cura.

A melhor vacina é a Esperança, uma esperança que faça renascer a Primavera em toda a sua beleza e esplendor. Que venham cucos e andorinhas, toutinegras, cotovias, poupas, que cantem rouxinóis ao fim da tarde, que as rãs coaxem nos regos e nos regatos, que as lagartixas se espreguicem ao sol, que zumbam as abelhas e as pessoas cantem todas da forma como souberem.

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por Augusta Clara às 17:53

Quarta-feira, 25.03.20

Nobre Povo, Nação Valente - Eva cruz

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Eva Cruz  Nobre Povo, Nação Valente

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(Adão Cruz)

   Os Portugueses às vezes surpreendem-me. Momentos houve e
momentos há em que me parecem mais desatentos ao que se
passa à sua volta e nem sempre têm o discernimento adequado
à solução dos problemas que atingem a sociedade em que
vivemos. Não tenho pretensões a analista sociológica ou política,
nem tão pouco me considero detentora da verdade. Sem
qualquer intenção moralista ou maniqueísta, baseio-me apenas
em factos e na minha relação com os mesmos. As conclusões são
pessoais, só minhas e por isso valem o que vale uma opinião.
No momento crucial, porque é disso que se trata, por mais
exageros que apontem a quem assim o considera, as medidas
são de estado de emergência, de estado de “guerra” para definir
esta pandemia. A origem etimológica é germânica “ werra” que
significa luta e substitui a latina “bellum”. Fala-se em guerra
psicológica, guerra informática, económica, etc. Como sabemos,
as palavras podem ter, segundo o contexto, um sentido muito
exacto e muito amplo ao mesmo tempo e a liberdade de se
entregarem ao arranjo que cada um delas pode fazer.
Para a combater, foram tomadas medidas sérias como se de uma
guerra se tratasse. O estado de emergência implica o perigo de
um inimigo muito sério. Ainda não chegámos ao recolher
obrigatório e espero bem que não seja preciso. As granadas
podem cair-nos dentro de casa com grande ou pequeno
estrondo. Pensando bem, cada um de nós pode ser uma bomba
a explodir em horas ou dias.
Sinto orgulho no Povo do meu país que, salvo algumas excepções
desnecessárias, tem acatado de forma exemplar as medidas que
os nossos governantes, serena e sabiamente têm vindo a adoptar. Queria apenas relembrar dois acontecimentos da nossa
história recente que mostram a forma exemplar, genuína e única
da reacção deste Povo:
A Revolução de Abril, a mais bela da nossa História e talvez da
História da Humanidade, sem mortes, sem vingança, vinganças
humanamente justificadas se a nobreza de alma a elas não se
sobrepusesse e a magnanimidade da causa não fosse a
Liberdade. Uma revolução em que as balas foram substituídas
por cravos vermelhos no cano das espingardas.
O outro momento foi a onda de solidariedade gerada à volta da
Independência de Timor Leste. Os governantes fizeram o seu
papel, muito importante sem dúvida, mas a reacção do povo
Português deu lições de solidariedade ao mundo. Recordo
apenas os três minutos de silêncio às três da tarde em ponto,
hora em que todo o país parou, trânsito, lojas, transeuntes
dando lugar a um cordão humano vestido de branco. As pessoas,
os carros, as ruas, as janelas geraram em todo este país uma
onda branca de solidariedade sem mácula, num histórico “Viva
Timor Loro Sae”.
Como pedagoga, sempre gostei de começar pelo elogio. Por isso,
parabéns a todos nós. Continuemos a mostrar a nossa
maturidade cívica.

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por Augusta Clara às 15:58

Segunda-feira, 23.03.20

O cravo branco - Eva Ceuz

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Eva Ceuz  O cravo branco

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(Gustav Klimt)

   Olho através da janela a rua deserta. O dia chuvoso retarda a primavera tão ansiada. Nas varandas, alguns catos floridos e as azálias brancas e rosa enchem-me os olhos com a saudade do meu jardim. Adivinho-o pintado de todas as cores à mistura com o branco das ameixieiras, já acordadas do inverno, a desafiar a primavera.

Confinada a estas paredes, por quarentena imposta pela idade, situação nunca imaginada, não posso senti-lo na intensidade dos seus cheiros e cores. Ligo o televisor, e as notícias de Itália soltam-me lágrimas pela cara abaixo. Não vivi a Grande Guerra. Nasci quando terminou. Sou mulher de paz. Porém não me saem da cabeça as imagens a preto e branco de todas as guerras, os horrores de Auschwitz e de tantos outros campos de extermínio, a luta inglória e o sofrimento da guerra colonial, o negrume dessa minha juventude que sempre me parecera sem futuro. E cá está a guerra de novo. Um inimigo estranho, invisível, uma luta desigual, novas armas para o combate. Dá que pensar!

Quando hoje acordei, pouco animada, uma amiga, do outro lado da linha, recordou-me um poema de Carl Sandburg, mais velho do que eu, mas por acaso nascido no mesmo dia em que nasci. Leu-mo ao som de uma caixinha de música que parecia saída do realejo de algum músico ou poeta da resistência.

“Grass

Pile the bodies high at Austerlitz and Waterloo,

Shovel them under and let me work

I am the grass; I cover all.

And pile them high at Gettysburg.

And pile them high at Ypres and Verdun

Shovel them under and let me work

 

Two years, ten years and the passengers ask the conductor:

What place is this?

Where are we now?

 

I am the grass.

Let me work.

 

(Empilhem os corpos até ao cimo em Austerlitz e Waterloo/

Ponham-lhe por cima pazadas de terra e deixem-me trabalhar/

Eu sou a relva; Eu cubro tudo./E empilhem-nos até ao cimo em

Gettysburg/ E empilhem-nos em Ypres e Verdun/ Ponham-lhe

por cima pazadas de terra e deixem-me trabalhar/ Dois anos, dez

anos e os passageiros perguntam ao condutor:/ Que lugar é

este?/ Onde estamos agora?/ Eu sou a relva/ Deixem-me

trabalhar.)

 

Não me apetece fazer nada, nem ler nem escrever, de que tanto gosto. A Páscoa vem aí, ou virá se o vírus deixar. Decidi recriá-la em minha casa como sempre o fiz. Mas desta vez só para mim. Das caixas saíram galos e galinhas de loiça, de pano, lebres e coelhinhos, ovos grandes e pequenos de todas as cores. Excluí tudo o que se referia a outras datas que sempre tradicionalmente celebramos. Deixei ficar apenas um cravo branco, ainda viçoso, que encontrei à porta no dia da Mulher. Adivinhei logo quem foi a vizinha autora da oferta e corri a abraçá-la. Felizmente, ainda nenhum vírus nos impedia de manifestar assim a nossa admiração e afecto mútuo. A relva nem sempre arrasa, nem cobre tudo. Também ela vive no jardim e nela também crescem cravos brancos e…vermelhos. Havemos de vencer.

 

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por Augusta Clara às 17:19

Segunda-feira, 30.12.19

O gato e o presépio - Eva Cruz

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Eva Cruz  O gato e o presépio

 

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   Sempre, desde criança, eu via no presépio, para além da Sagrada Família, os três Reis Magos, alguns pastores, a vaca e o burro aquecendo a manjedoura com o seu bafo, e cá fora duas ou três ovelhinhas, pastando na erva húmida salpicada de neve, à beira de um pequeno regato.

Cada presépio foi-se adaptando aos tempos modernos, e agora há-os em vidro, em porcelana, em madeira, em tecido e até em prata ou ouro. Porém, para mim, não há presépio mais lindo do que o de terracota da minha infância. Todos os anos lá está ele, já meio gasto e desbotado, a alimentar a fantasia dos mais novos e a aquecer a saudade da canção verde e vermelha do pinheirinho de Natal.

Este ano, uma vizinha da aldeia, fez um presépio a rigor, com musgo arrancado ao muro da fonte, um regato a serpentear por entre pedras roladas trazidas do rio, bem como luzinhas e pequenos enfeites, frutos da modernidade. Claro que não faltaram a vaquinha, o burrinho e as ovelhas, nos mesmos lugares que a tradição, desde há séculos, se encarregou de lhes destinar.

Mas um gato?!

Sim, um gato amarelo e branco dos muitos que andam à solta pelo quintal decidiu alapar-se todas as noites no presépio, mesmo ao lado do burro, bem em frente ao Menino Jesus. E o mais curioso é que não muda de lugar, e ao acenar da noite, lá está ele todo enroladinho sempre na mesma posição.

Não faço a mínima ideia do que vai na cabeça do gato. Não sei se foi atraído pelas luzinhas, pelo aconchego, pela beleza do presépio, pela companhia, por achar que dele se esqueceram na tradição, ou se até cumpre alguma intuição religiosa.

Fiquei a pensar.

Nos tempos que correm, há pessoas que têm tanto apego aos animais que os tratam como gente. Há quem lhes dê beijinhos na boca, quem durma com eles, quem os vista com roupa de marca, quem lhes pinte as unhas e lhes faça madeixas no pêlo… eu sei lá!

Não admira, pois, que os gatos comecem a entender e a reivindicar alguma coisa sobre direitos dos animais, nomeadamente comer à mesa do dono, dormir na cama do dono ou mesmo fazer parte integrante de um presépio.

Gosto de animais, trato-os bem, mas animais são animais, não são seres humanos. No entanto, confesso que me encanta ver aquele gato a dormitar e a ronronar todas as noites ali ao lado do Deus Menino.

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por Augusta Clara às 22:17

Segunda-feira, 23.12.19

O limoeiro - Eva Cruz

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Eva Cruz  O limoeiro

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(fotografia de Adão Cruz)

   A florescência prometia muitos frutos mas não tantos como os que o limoeiro veio a carregar. Dizem que é aneiro, ano sim, ano não, produz mais limões ou menos limões. Logo a seguir à flor, a pequena árvore começou a mostrar muitos botões pequeninos que pareciam piorras de eucalipto. Foram crescendo ao ritmo da natureza e deram tantos, tantos frutos que pareciam mais do que as folhas. A pobre da árvore acabou por derrear e alguns ramos esgaçaram e ficaram pousados no chão, alimentados apenas por uma pequena tira de casca. Logo a sabedoria popular escorou o limoeiro com cinturas de arame sobre bocados de borracha, a fim de impedir que o ferro se enterrasse no seu corpo. Mesmo assim, era o ver dos olhos, e nas rancas pousadas no chão lá iam amarelecendo os limões, inclinados para o sol que lhes dava de nascente.

Nestes últimos dias, a natureza revoltada fustigou a terra com chuva e ventos fortes, a que deram nomes de mulher e homem, talvez para tentar pôr culpas em alguém. Rajadas mais violentas levaram pelos ares a cobertura de um casebre, antes feita de linda e velha telha, posteriormente substituída por folha de zinco. Por acasos que ninguém entende, levou o pobre do limoeiro com a folha de zinco em cima, a qual abateu limoeiro e limões.

Um fenómeno como qualquer outro, nada de tragédias, mas que me impressionou pelo facto de nunca antes ter visto aquele limoeiro assim tão carregadinho de frutos. Até mereceu uma fotografia pela sua imponência.

A chapa de zinco foi retirada, deixando a descoberto os destroços da árvore com seus frutos. Completamente derreado e depenado, ficou o limoeiro apenas com o tronco e dois bracitos com alguns limões ao dependuro. Espero que mesmo assim resista, e, apesar de aneiro, dê para o ano alguns limões, ainda que poucos.

Se não resistir, assim se despede, como tudo na vida, daquele cantinho de terra onde há tantos anos estava enraizado. Aconteça o que acontecer, esta será sempre para mim a apoteose e o apogeu do meu velho limoeiro.

 

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por Augusta Clara às 17:02

Segunda-feira, 04.11.19

“Tartulhos” - Eva Cruz

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Eva Cruz  “Tartulhos”

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   Aproveitando uma aberta de sol, entremeando estes dias pardacentos de chuva e nevoeiro, fui visitar o cemitério, não por me apetecer mas para respeitar a memória de alguém que não gostava que os mortos fossem desprezados. Passeei-me por entre túmulos e jazigos recentes, à procura de alguns nomes desaparecidos há pouco e que me diziam muito. Fiquei impressionada com a fealdade de tanta negritude luzidia e retratos esfumados, pelos vistos em moda. Muitas eram as flores, tinha sido dia de “Finados”, compostas em arranjos deveras estilizados e arrevesados que também pouco contribuíam para encobrir o que aos meus olhos se apresentava simplesmente medonho. No meio de todo aquele cenário vislumbrei uma campa rasa, estreita e coberta de relva verdinha ainda com gotas da chuva, tendo ao cimo uma pedra do rio com duas fotografias encrustadas. Destoava.

Fui para casa, o meu recanto da aldeia, e corri os campos a deleitar-me com as cores outonais e os resquícios do Verão. Deparei com um mar de tortulhos de vários feitios e cores. Chamaram-me a atenção uns cogumelos de um vermelho retinto, alguns do tamanho de um palmo, redondos ou quadrados, com pintinhas brancas. Lindíssimos! Em criança vira muitos “tartulhos” nos matos, nos sítios apodrecidos, nos pés das videiras velhas, mas como aqueles nunca. Dizem que são venenosos e conhecidos por Amanita Muscaria.

Como gosto de perscrutar e entender a natureza, procurei perceber a razão pela qual apareciam aqueles cogumelos só em determinados sítios, debaixo de coníferas, velhas árvores de Natal que durante anos ali fora plantando. Lembrei-me então dos contos dos irmãos Grimm e da Schwarzwald- a Floresta Negra, esse paraíso de verdura de milhares de espécies de árvores, de casinhas de madeira, dos relógios de cuco, de sulcos e regatos, de lendas de duendes e magia, e também de cogumelos vermelhos com pintinhas brancas.

Desfez-se a imagem do cemitério. Imaginava-o agora coberto de relva com cogumelos vermelhos de pintinhas brancas a desafiar a negritude tumular. Ainda por cima, venenosos. Talvez assim envenenassem a morte e acabassem com ela de uma vez para sempre.

 

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por Augusta Clara às 15:45

Sexta-feira, 11.10.19

O prémio "em obséquio ( ex aequo)" - Eva Cruz

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Eva Cruz  O prémio em obséquio ( ex aequo)

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(Adão Cruz)

   O tempo estava abafado e o ar sufocava. O céu toldado ameaçava trovoada. Gaivotas, coisa ali nunca vista, soltavam pios estranhos e roucos. O posto médico estava cheio, cheio de gente e de doença. A doença por si só é deprimente, mas a granel sufoca ainda mais do que o ar abafado. Todos se queixavam disto ou daquilo e também do tempo destemperado e do tempo de espera pela vez tardia. O mau humor era visível nos rostos e nos modos. Apenas as empregadas de atendimento mostravam alguma simpatia natural ou humanamente forçada. É preciso salvar o posto de trabalho, e nestas situações o que há mais é gente a reclamar. O vigor com que se defendem os direitos, perante alguém que pouco tem a ver com o sistema, é bem diferente da covardia manifesta perante a luta que se impõe, quando esta é a sério. As conversas encadeavam-se como as cerejas, e entre as banalidades normais de uma sala de espera, um homem de meia-idade tinha como interlocutora uma mulher que aparentava ser um pouco mais velha. Dizia-lhe ele que tinha uma nora muito prendada, técnica de maquillage. Maquilhava tudo, gente do jet-set e noivas. Era tão boa na matéria que até ganhou um prémio juntamente com outra, em obséquioUm kit de maquillage.

Observei todos os companheiros de espera.

Sempre amei a beleza, mesmo quando ela se esconde por detrás dos conceitos. Por ali tudo era feio, os rostos e os corpos. No ar, um cheiro a pobreza e a doença. Predominava o cinzento. Algumas manchas de cor em T-shirts garridas, provável presente de algum parente emigrado que veio de férias. À toi pour toujours, escrito no meio de muitas flores, New York forever e a  Estátua da Liberdade em fundo.

A voz do altifalante soou e fez erguer um idoso trémulo, apoiado numa canadiana, sem ninguém para o ajudar. Seguiu com dificuldade pelo corredor fora, deixando ver nas costas da sua T-shirt preta, a palavra Fuck. Tudo levava a crer que não fazia a menor ideia do que significava.

Sorri.

Naquela palavra feia encontrei a real beleza do preto e branco de uma sombria sala de espera.

 

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por Augusta Clara às 12:58



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