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Jardim das Delícias


Quarta-feira, 16.09.20

Fleurs de Rocailles - Eva Cruz

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Eva Cruz  Fleurs de Rocailles

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(Adão Cruz)

 

   “Scent of a Woman”, fragrância exalada de flores de jasmim, de cravo, lírio do vale, violeta que eleva os sentidos à frescura e à beleza dos campos e os enche daquela plenitude indefinível que perdura e leva a acreditar que o céu é feito de perfume.

Foi no Musée du Parfum no centro de Paris que recebi o meu primeiro perfume “Fleurs de Rocailles”, tinha eu dezoito anos, e que guardei religiosamente durante uma vida. Um frasquinho pequenino, esguio, da Caron, criado em 1933. Musée du Parfum ou Fragonard  Musée, em homenagem ao pintor hedonista Fragonard do século XVIII da cidade de Grasse, dos campos de lavanda, do ouro azul, abertos ao infinito, que perfumam as terras provençais, paisagens mágicas que seduziram poetas, escritores, pintores como Van Gogh, Cézane, Picasso, Camus e tantos outros artistas, que por ali encheram a alma de alfazema, rosas, lírios e jasmins.

“Fleurs de Rocailles”, quase no fim de “ PERFUME DE MULHER”, mostra bem, sobretudo a partir do olfacto apurado de um cego, o coronel Frank Slade, que um bom perfume é mais do que um cheiro, é parte integrante de uma personalidade.

Como o sofrimento interior pode escamotear a bondade, aprendeu-o até ao desespero o jovem e inexperiente estudante Charlie, aluno de um dos Colleges da Universidade de Princeton.  A abnegação e a força da amizade irascível de um amante dos prazeres da vida em todos os sentidos criaram em Frank, durante uma curta viagem a Nova York para celebrar o feriado de três dias do Thanksgiving , de Acção de Graças, o novo sentido da vida e a utopia dos últimos sonhos. Charlie, com a frescura virgem e pueril da sua bondade e compaixão enternecedoras, abriu-lhe o caminho para o alento e para um novo sentido e uma nova força de viver, traduzido no arrebatamento estonteante e pungente de um tango dançado por um cego à volta de um etéreo perfume.

A dramática beleza da violência poética, terminando com uma preciosa lição sobre a força da escola na estruturação do carácter, pôs a nu a hipocrisia de muitas escolas de elites, onde o dinheiro é deus e senhor, mais empenhadas no amestramento, como paradigma do cidadão formatado para o sistema, do que na educação de gente com coluna vertebral.

A referência a “Fleurs de Rocailles” perfumou-me inesperadamente a memória e caiu como um bálsamo nas minhas longínquas lembranças, fazendo-me recuar ao “Scent of a Woman” dos meus dezoito anos.

 

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por Augusta Clara às 22:59

Quinta-feira, 10.09.20

GUERRA DA GUINÉ – 1967. BEGENE - O nosso corpo clínico - Adão Cruz

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Adão Cruz  GUERRA DA GUINÉ – 1967. BEGENE - O nosso corpo clínico

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   O que está do meu lado esquerdo, de barbas, é o furriel Pimentinha, meu furriel enfermeiro, que ainda hoje me telefona uma a duas vezes por ano. A sua profissão, antes de vir para a guerra, era electricista, electricista do Hotel Estoril-Sol. Pois, meus amigos, transformou-se num excelente parteiro e melhor puericultor. Leu e releu a minha sebenta de obstetrícia e deixava os bébés todos perfumadinhos e polvilhados de pó de talco, o que fazia a delícia das mães.
 
Duas histórias sobre o Pimentinha:
 
Primeira:
Um dia de madrugada, apareceu uma parturiente com uma apresentação de pelve, isto é, com o bébé a nascer de rabito em vez da cabeça. É um parto difícil e perigoso. Tentei, quanto sabia, algumas manobras, o mais suaves possível, mas não fui bem sucedido. Virei-me para o Pimentinha e disse: - meu caro Pimentinha, logo que comece a raiar a manhã, peça uma evacuação “Y” (urgente) de helicóptero, para levar esta mulher para Bissau, e fui-me deitar. Algum tempo depois, entra o Pimentinha no meu quarto, dizendo cheio de entusiasmo: - sr. Dr. o catraio já está cá fora. Com muito jeitinho lá consegui tirá-lo.
 
Segunda:
O Pimentinha ia de avioneta a Bissau, acompanhar um soldado que tinha um enorme hidrocelo (líquido nos testículos). Logo pela manhã, a avioneta, uma Dornier levantou voo e meio minuto depois estatelou-se no solo. Felizmente não morreu ninguém, apenas o piloto fracturou uma vértebra. A carlinga da avioneta passou a ser a casota do nosso macaco.

 

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por Augusta Clara às 17:08

Sexta-feira, 28.08.20

GUERRA NA GUINÉ (PEQUENAS MEMÓRIAS) A Minha Chegada e os Primeiros Três Meses - Adão Cruz

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Adão Cruz  GUERRA NA GUINÉ (PEQUENAS MEMÓRIAS). A Minha Chegada e os Primeiros Três Meses

   O velho Uíge atracou em Bissau no dia 13 de Maio de 1966. Entrámos dentro do forno da cidade. Aí aguardei um mês até ao meu destacamento para o mato. Eu e o meu colega e amigo Gomes Pedro, hoje professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa e Director do Serviço de Pediatria do hospital de Santa Maria. Ele seguiu para Cuntima, no norte da Guiné, perto da fronteira do Senegal, e eu embarquei para Canquelifá, no leste, próximo da fronteira com a Guiné-Conackry.

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Um velho Dakota levou-me até Bafatá. Dentro do avião, além de mim, ia o piloto, o co-piloto que tinha meia cara feita numa cicatriz, uma mulher negra sentada sobre o caixão do filho e um capitão que eu não conhecia de lado nenhum. Este capitão desembarcara momentos antes no aeroporto de Bissalanca, vindo do Porto, e seguia directamente para o mato. Confessou-me que transportava consigo alguma angústia, pois deixara para trás mulher e nove filhos. Três meses depois encontrámo-nos em Begene, no norte. Reconhecemo-nos e tornámo-nos muito amigos. Era o capitão Brito e Faro.

De Bafatá segui numa Dornier (foto) até Canquelifá, fazendo uma curta escala no Gabu-Sara, pequena povoação chamada cidade de Nova Lamego.
Permaneci em Canquelifá durante o terceiro trimestre de 1966. Muitas coisas boas e más aconteceram durante esse tempo. Relatá-las levava um livro. Na foto o “corpo clínico”. Eu, o meu furriel enfermeiro Alvim e maqueiros.

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Como sempre gostei muito de crianças, deixo aqui apenas três momentos como referência das coisas boas dessa minha estadia, e que são três pequeninos poemas dentre os muitos que em mim floriram nesse tempo.

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Fátima Demba, a minha companheira de todos os dias.

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Este miúdo, cujo nome já se me escondeu no fundo da memória, percorria semanalmente cerca de vinte quilómetros pelo meio do mato, para me vir consultar, trazendo-me sempre uma velha lata com meio litro de leite. Tinha um fígado do tamanho da barriga.

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Os dois gémeos filhos do Anso, dois enternecedores bebés que me preencheram alguns momentos de solidão. O Anso era chefe da milícia integrada na nossa companhia. Emprestava-me, muitas vezes, uma velha espingarda de carregar pela boca, para eu caçar uns patos na bolanha. Constou-me que fora fuzilado após a independência.

 

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por Augusta Clara às 17:19

Quarta-feira, 19.08.20

A dívida - Adão Cruz

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Adão Cruz  A dívida

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(Adão Cruz) 

   Adoro ir a restaurantes antigos, clássicos, velhos, modestos mas excelentes, que não troco, de forma alguma, pelo mais requintado gourmet. Há sempre uma cena, uma história que o acaso nos oferece como deliciosa sobremesa. Neste restaurante a que fui com um grupo de amigos, onde a vitela assada no forno não tem comparação com outra qualquer, aconteceu o seguinte: no fim da refeição, pedi a conta, e um dos donos do restaurante disse-me que estava tudo pago. Tanto eu como os meus amigos ficámos de boca aberta. Perguntei o que se passava, quando ele me respondeu: Senhor Doutor, isto não é para pagar nada, mas eu tenho uma dívida para com o Senhor Doutor há mais de vinte anos. O Senhor não se recorda, mas vai lembrar-se depois de eu contar. Há vinte e tal anos diagnosticaram-me, em Lisboa, uma leucemia e deram-me seis meses de vida. Indicaram-me todos os tratamentos e cuidados a ter e mandaram-me para a minha terra, dizendo que gozasse o melhor possível o tempo que tinha de vida. Quando cheguei à minha aldeia alguém me disse para consultar o Dr. Adão, e eu assim fiz. O Senhor Doutor ficou meio triste e disse-me compreender a minha angústia, mas que não eram coisas das suas mãos de cardiologista. No entanto, iria recomendar-me um grande amigo, hematologista, o Prof. Arnaldo Mendonça, pois não via melhor pessoa a quem me entregar.

Abro aqui um parêntesis para dizer que o Arnaldo Mendonça, ainda hoje meu grande amigo, foi meu colega no Internato Geral do Hospital de Santo António, seguindo depois para o Hospital de S. João, onde fez a especialidade de hematologia e se doutorou.

Andei no Prof. Arnaldo Mendonça durante doze anos, continuou o dono do restaurante. Ao fim deste tempo, ele mandou-me para casa e recomendou-me que fizesse a vida normal e tentasse viver o mais possível, nada impedindo, dentro do que lhe dizia respeito, de durar até aos cem anos de idade. Como vê, Senhor Doutor, um almoço não é nada comparado com a minha vida.

A mim, confesso, soube-me muito melhor esta sobremesa do que a oferta de mil almoços.

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por Augusta Clara às 23:31

Quinta-feira, 06.08.20

O Pássaro Azul - Eva Cruz

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Eva Cruz  O Pássaro Azul

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(imagem de autor desconhecido)

   Hoje decidi ir ver nascer o sol.
Braços de uma luz ainda débil espreguiçam-se por entre a serra negra e o céu azul. Lentamente, uma franja de sol ofusca os olhos, e de repente ele nasce como uma criança do ventre da mãe natureza.
Os pássaros e toda a bicharada acordam. Das copas das árvores e dos ninhos sai uma chilreada sem fim, saudando o dia luminoso e quente. Debandam pelo céu fora sobre os campos verdes para os lados do rio à procura de água e comida. Com este afã começa o seu trabalho.
Comtemplo o céu, e o azul tem a transparência da água e é tão fundo que não lhe adivinho o fim. Por mais que prenda os olhos à lonjura, perco-me nesse desconhecido a que chamam infinito.
Passam bandos de estorninhos, de pardais, de pombos e pássaros que nunca vi, pássaros pretos de asas vermelhas. Estarei a sonhar? Eu sei desde criança que mesmo acordada, a natureza sempre nos convidou ao sonho. Mas não, são mesmo asas vermelhas ou então será o sol a dar-lhes de frente. Ou a ilusão a voar. A natureza anda muito estranha, e surgem por ali pássaros que há muito desapareceram e outros nunca vistos.
Os melros são à farta, mas esses voam rasos pelos campos fora. Não precisam de ir mais longe. Têm comida à mão de semear. Algumas carriças, pequeninas e redondas, empoleiradas na ramada, olham-me bem nos olhos, não sei se com estranheza ou simpatia. Pelo menos não se mostram assustadas.
Nos abetos, praguejam as pegas e os gaios numa linguagem estridente que destoa do chilrear ameno dos outros pássaros. Talvez seja um aviso, um alerta, um alarme porque de repente enxergo um milhafre a planar por ali, em voo ameaçador.
No bico da pereira, já a mostrar as peras criadas, os meus olhos dão com um pássaro azul, de papo cinzento, tão lindo e tão diferente que me pareceu um pombo-rolo ainda novinho. Mexia a cabecita, com o bico virado para o meu lado. Aproximo-me da grade do varandim para o ver mais de perto e ele desaparece. Fugiu, pensei. Sento-me de novo e volto a vê-lo poisado no bico da pereira. Repito o mesmo acto e novamente desaparece tornando a vir. Então assento bem os olhos na árvore e reparo que as folhas e os galhos desenham um pássaro azul, tão belo e tão estranho, o mesmo que eu via do meu lugar, sentada. Uma brisa leve agita as folhas, e a luz, dando-lhe vida, faz com que se movimente e vire a cabeça para o meu lado.
Tive plena consciência da ilusão. Mesmo assim, voltei a sentar-me e passei a tarde a contemplar aquele pássaro azul no bico da pereira.

 

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por Augusta Clara às 13:33

Terça-feira, 04.08.20

A Máscara - Eva Cruz

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Eva Cruz  A Máscara

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(máscara dos médicos da peste negra) 

 

   Só de pensar na desilusão ou nihilismo de Shakespeare e Macbeth “… A vida não é mais do que uma sombra errante, um pobre actor que se pavoneia e se esforça no seu momento sobre o palco, e que depois ninguém mais ouve… uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria significando nada…” apetece-me deixar cair a máscara.

Estou cansada deste ritual que me tapa a boca e o nariz e me impede de respirar o ar fresco da manhã e mostrar a cara que a vida me deu. Estou cansada de sentir que não sou eu. Gosto de ser eu, gosto de sorrir e ver o sorriso dos outros. À minha volta todos me parecem iguais, sem expressão, sem rosto, sem dono. A cor pode variar, preta, azul ou branca, mas não deixa de ser … nada.

Protecção, disfarce ou adereço, a máscara esconde a identidade de quem a usa para os fins que entender. A arte também se serve da máscara para, de uma forma catártica ou lúdica, exprimir melhor sentimentos do Bem ou do Mal. Na dança, no teatro é um símbolo de disfarce ou de ajuda para reforçar o carácter da personagem. No teatro grego, são conhecidas as máscaras da Tragédia e da Comédia, a primeira com as comissuras labiais e o canto dos olhos virados para baixo, inspirando sentimentos de tristeza, e a da Comédia com as mesmas marcas faciais viradas para cima, provocando riso e alegria. Em outros rituais religiosos, civilizacionais, rituais fúnebres, a máscara é mais do que disfarce ou acessório, é símbolo de transfiguração da vida. Como protecção, ficou conhecida na História a Máscara da Peste Negra usada na Idade Média, semelhante a uma cabeça de águia com um bico enorme, contendo mirra e cânfora como desinfectante. Uma máscara horrenda, o medo metendo medo a si próprio.

Nos nossos dias, volvidos tantos séculos, julgando nós que o mundo evoluiu ao ritmo da velocidade da luz, vemo-nos todos no mesmo palco, como sombras errantes, como actores da mesma tragédia ou da mesma tragicomédia. Tira máscara, põe a máscara, numa dança e contradança inspiradas pelo medo ou esquecendo o medo para dar asas à vida que assim se nos vai escapando neste teatro infernal.

O medo está associado ao instinto de sobrevivência e é ele que me tira a coragem. Vou ser amiga do medo e, pelo sim e pelo não, lá tenho eu de pôr a máscara.

 

 

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por Augusta Clara às 13:00

Sexta-feira, 03.07.20

Serra Mágica - Eva Cruz

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Eva Cruz  Serra Mágica

   A Serra da Gralheira é uma catedral de pedra e xisto, estendendo-se ao longo dos céus por entre quatro contrafortes, a Serra da Freita, a Serra da Arada, a Serra do Arestal e a Serra de S. Macário. Cordilheira de côncavos e convexos, berço e leito de rios e riachos, tecida de uma rara e abundante fauna e flora, rasgada pela rudeza das lajes e das fragas, vestida pelas mil cores das plantas rasteiras, urze, giesta e carqueja ou pelo manto luxuriante de soutos, carvalhos, pinheiros, medronheiros, azevinhos, em matas cerradas onde quase não entra o sol.

Aninhadas nas dobras dos montes ou nas íngremes encostas, cresceram desde remotos tempos pequenas aldeias ou povoados, junto a ribeiros mansos, ora rebeldes e tumultuosos, que se enroscam e furam por entre pedregulhos e fragas, à procura de irmãos mais velhos que os hão-de levar ao mar. Merujal, Albergaria da Serra, Mizarela, Manhouce, Cabreiros, Bouceguedim, Rio de Frades, Covêlo de Paivô, Regoufe, Drave, Aldeia da Pena, Covas do Monte, Coelheira, Candal são algumas entre as muitas que por lá vivem, algumas recuperadas, bem tratadas e com belos recantos de sossego e lazer.

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Foi Rio de Frades que levou estes quatro amigos a tão longínquas paragens, guiados pelas mãos hábeis do nosso amigo condutor do jeep, subindo e descendo por rendilhados fios de estreitíssimas estradas, profundos vales e altas montanhas, ajudado de mapas e GPS, o qual, no meio de tal labirinto, muitas vezes perdeu o tino, e já baralhado, se reduziu ao silêncio, provavelmente a pensar onde se meteu e a descobrir como sair dali.

Rio de Frades foi um importante Couto Mineiro, no tempo das duas Grandes Guerras Mundiais, essencialmente explorado por alemães. Para ali se deslocaram mineiros, capatazes, exploradores, por caminhos de cabra, a pé, a cavalo ou de carro de bois. Não havia electricidade. Geradores forneciam a energia necessária às minas e à povoação. Munidos de brocas e martelos esventravam as montanhas, cavando galerias e furando túneis, para arrancar às suas entranhas o tesouro branco de quartzo, encastoado de volfrâmio, o minério ou ouro negro como lhe chamavam, usado na têmpera e blindagem de armamentos como canhões e endurecimento de munições. Um quilo de volfrâmio chegava a valer mil escudos, uma verdadeira fortuna para aquele tempo. Muitos lá morreram e por lá sepultaram os seus sonhos. Meu avô materno foi um deles. Era capataz, juntamente com um alemão, e ali perdeu a vida com toda a sua família, incluindo os seus dois filhos mais velhos, ele com dezanove anos e ela com dezassete, vítimas da pneumónica. Salvou-se a menina mais nova, com dez anos, nossa mãe. Ali morreu também o alemão e a família. O nosso avô e o alemão tiveram direito a sepultura. Todos os outros foram enterrados na vala comum. Ainda hoje lá se encontram as casas quase arruinadas onde viveram o meu avô e o alemão.

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Regoufe, não muito longe dali, a cerca de cinco quilómetros, foi outro Couto Mineiro. A Companhia Portuguesa de Minas explorava juntamente com os ingleses os filões do minério. Curiosamente, os alemães e ingleses entendiam-se bem no campo da exploração do volfrâmio, apesar de inimigos. Hoje, Regoufe é uma cidade fantasma feita de esqueletos de casas, lavarias, tanques e túneis. Mais tarde, com a segunda Grande Guerra, foi aberta uma estrada de macadame pelos alemães e levada a electricidade às minas. A iluminação era tal que Rio de Frades e Regoufe pareciam cidades. Enquanto em Rio de Frades as casas já estão muito adulteradas, em Regoufe tudo está mais preservado, conservando a sua autenticidade. Por lá se mantêm ainda de pé muitos esqueletos do passado, quase intactos.

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“À la recherche du temps perdu”, quase tivemos a sensação de recuperar aquele espaço fantasma e encontrar o tempo perdido daquelas ruínas, nos meandros da memória, da lembrança, da reflexão e dos trilhos da arte. Sentir a Arte é também encher a alma de saudade e os olhos de beleza, a beleza daquela Serra Mágica.

Terminámos a viagem, entremeada por um excelente farnel saboreado nas margens cristalinas do Rio Paivô, oferecido pelo casal nosso amigo, assim entoando de novo o hino à amizade de muitos anos.

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por Augusta Clara às 15:03

Sexta-feira, 26.06.20

Cemitério dos livros NÃO esquecidos - Eva Cruz

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Eva Cruz  Cemitério dos livros NÃO esquecidos

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   Todas as mortes chocam e incomodam. São vidas perdidas, irreparáveis, que matam outras vidas que continuam a ter de viver. Há uma sombra permanente que nunca mais deixa o sol ou a lua terem o mesmo brilho. Qualquer perda de uma vida deixa alguém a sofrer, penso eu, mesmo a daqueles que estão sozinhos no mundo, mesmo a dos maus, que por aqui cá andam apenas a fazer estragos. Pelo menos comigo, eu sinto que há sempre algum grau de compaixão que me assiste, talvez por tanto amar a vida e odiar a morte.

Recentemente, houve uma morte que mexeu muito comigo, a do escritor Carlos Ruiz Zafón. Gosto muito de ler. A leitura é e sempre foi um dos maiores prazeres da minha vida. No entanto, há livros e livros, há escritores e escritores. Estudei várias literaturas e li muitos livros. Reconheço que sou muito exigente quanto aos temas e particularmente quanto à forma. A arte literária, a arte da palavra contém em si uma harmonia, uma melodia e uma textura poética muito especial que têm muito que se lhe diga. Sem qualquer presunção, posso dizer que há livros e escritores consagrados que me dizem pouco. Como em qualquer expressão artística, consagra-os um júri ou um qualquer elenco seleccionado por critérios restritos e depois a fama encarrega-se do resto. Assim vivem os consagrados à custa dos consagradores e vice-versa. E quantas vezes apetece gritar que o rei vai nu.

Zafón é e será sempre um ícone, apesar de ter escrito pouco e ter poucos galardões. É um escritor apaixonante, arrebatador, não só pela força da imaginação, pela criação difícil e nada fútil do enredo, mas sobretudo pela forma como constrói a narrativa. Confesso que não gosto muito de livros grandes. Cansam-me. Porém, isto não me acontece com Zafón.

Dos livros que li de Zafón, “A Sombra do Vento” tocou-me particularmente. É um labirinto de emoções e sensações que deixam o leitor apaixonado por uma leitura impossível de parar, que arrebata até ao fim. Carlos Ruiz Zafón é um verdadeiro escritor, um romancista a sério. E o Romance “é uma pequena carta de amor à arte da narrativa, ao ofício de criar e contar histórias, uma homenagem a quem as constrói palavra a palavra”.

Aqui lhe deixo esta singela homenagem, uma flor branca no “Labirinto dos Espíritos “a um “Prisioneiro do Céu” como “o Jogo de um Anjo” na “Sombra do Vento”.

Que os seus livros fiquem para sempre no mágico lugar do” Cemitério dos livros NÃO esquecidos.”

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por Augusta Clara às 13:44

Quinta-feira, 04.06.20

A vida - Eva Cruz

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Eva Cruz  A vida

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(Claudia Tremblay)

   As notícias incomodam. Não basva o vírus associado
aos números funestos, aos doentes, à morte e ainda
todos os dias somos fustigados com casos de
afogamento, suicídio, raptos e assassinatos de violência
extrema. Há uma tal desvalorização da vida que a
substituem, de ânimo leve, pela morte irremediável que
tudo acaba. Matam-se pessoas como quem mata pulgas
ou formigas. Alguns actos são tão estranhos e hediondos
que me tiram o sono. Ainda não estava longe a morte da
pobre pequenita Valentina, já surge o da jovem estudante
de Évora, morta por um colega, também ele na flor da
vida. Gente com o ar mais normal, com um sorriso a
inspirar ternura e compaixão, onde não se vislumbra uma
réstia da maldade que pode levar a tais actos. Não sei o
que será pior para um ser humano se a morte dela se a
destruição da vida dele, já que ela nada mais sentirá, dure
a eternidade o tempo que durar, e ele irá justamente
amargar o sofrimento eterno de uma vida. Estou nestas
cogitações, quando ao lado da minha porta, mesmo à
frente dos meus olhos, em plena luz do dia, um homem
com uma faca espetada na barriga pela mão de alguém,
segundo consta, inundado de álcool ou droga, esperava
pela ambulância. Aparato policial, homens fardados dos
pés à cabeça, uma paisagem lunar na pacatez da rua. Ao
mesmo tempo, na mais indiferente televisão, um polícia a
esmagar o pescoço de um negro como quem esborracha

uma barata, pelo “terrível” crime de querer pagar com
uma nota de vinte dólares, presumivelmente falsa. Muito
para cá da ancestral barbárie, da irracional inquisição, do
inferno do holocausto, nunca pensei ser tão difícil, nos
dias de hoje, entender os fantasmas da mente humana e
delinear as fronteiras entre a sanidade e a loucura.
Para além de todos os factores de ordem genética,
biológica, cultural, social, psicológica e educacional ainda
acredito que a família, a escola, o meio social e laboral
podem ter o mais determinante papel no crescendo ou
na prevenção destes crimes com que nos deparamos.
Porém, a verdadeira causa é muito profunda e radica, a
meu ver, nos crimes de colarinho branco, no abominável
camuflado tráfico de droga por pessoas tidas como gente
de bem, na ganância desenfreada, no obscurantismo de
toda a espécie, muitas vezes acenando e encenando o
Bem para praticar o Mal. Sociedade tão bárbara que me
tira o sono e a vontade de sonhar com um Mundo
Melhor.

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por Augusta Clara às 16:19

Sexta-feira, 22.05.20

Senhora do Desterro - Eva Cruz

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Eva Cruz  Senhora do Desterro

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(Foto de Adão Cruz)

 

   O cansaço invadiu os dias rotineiros que vivemos. Parece que depois do confinamento obrigatório, se perdeu a vontade de sair à rua. O tempo quase sempre chuvoso e cinzento também não convida a pôr os pés fora de casa. Dá ideia que o hábito ao isolamento nos cortou a vontade de manter os laços sociais. Se saímos, ninguém nos conhece e quase não conhecemos ninguém atrás da máscara. Afastamo-nos o mais possível uns dos outros, atravessamos para o outro lado da rua se alguém tosse ou espirra, andamos assustados, temerosos, desconfiados. Passamos os dias colados ao computador ou à televisão esperando números e resultados para matutar sobre a quantidade de mortos e infectados graves.

De vez em quando lá me meto no carro e vou até à aldeia, respirar o ar puro, o cheiro a verde, ouvir os pássaros, ver o nascer e o crescimento de algumas “novidades” há pouco plantadas, e que os pombos-rolos não param de depenicar. Pequenos e grandes prazeres para quem desde criança “se vestiu de sol e despiu de luar.” Oiço as pessoas do campo e outras que por lá encontro e todas ditam sentenças sobre o vírus que nos assusta. Para uns, isto já estava nas Escrituras, para outros, é a Eutanásia que todos desejavam “- queriam a Tanásia, ela aí está”. Há quem acredite que é um castigo de Deus, que eu, em vão, tento contestar. Outros acham que a ciência não sabe nada e que nada resolve. Quando lhes digo que acredito na ciência e só ela nos pode resolver os problemas, por mais argumentos que use, não os convenço. Para eles, só a Senhora do Desterro nos pode valer. Só ela pode desterrar este mal para “monte maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira.” E com isto me calo.

Quando era menina fui muitas vezes à romaria da Senhora do Desterro, uma capelinha no cimo da serra, com meia dúzia de casitas de pedra solta aninhadas ali à volta. O farnel era para mim o ponto alto da festa. Lembro-me de lá ter deixado, a mando de minha mãe, um porquinho de cera para pagar o milagre de ter salvado um porco da peste, uma vez que, nesse tempo, perder um porco era grande prejuízo para a economia familiar. Era de tal modo importante a ceva que me recordo de ouvir contar que uma devota prometera dar os brincos pela salvação de dois porcos. Como só um foi garantidamente salvo, deu apenas um brinco, esperando que o outro sobrevivesse para entregar o par que restava. Antes prevenir que remediar.

Crenças de outros tempos, mas que ainda hoje permanecem. O desânimo e a pouca esperança são de tal ordem que, pelo sim e pelo não, até aconselhei, que, movidos de tal crença, levassem à Senhora do Desterro, não um porquinho, como eu fiz quando era menina, mas uma velhinha de cera, para ver se a Senhora desterra para sempre este vírus que tanto “gosta” de pessoas idosas. Tal como Santa Bárbara com a trovoada, empurrando-a para” lugar maninho onde não haja pão nem vinho, nem raminho de oliveira ou bafinho de menino”.

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por Augusta Clara às 14:47



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