Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Jardim das Delícias


Sábado, 21.11.20

Castanhas - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  Castanhas

giacomo ceruti, 1698-1767a.jpg

(Giacomo Ceruti, 1698-1767)

 

   As castanhas são castanhas, de um castanho retinto, a cor em toda a plenitude. São lindas e femininas. Fruto e semente no mesmo coração. Nascem de um parto, às vezes prematuro, outras vezes natural, outras vezes com ajuda. O ouriço, o capote, abre-se e deixa ver dentro o casaco, adivinhando-se a camisa coladinha ao corpo. As castanhas aninhadas no útero, brilhantes e a sorrir. Umas soltam-se lá de cima do castanheiro, caem ao chão e abrem-se naturalmente, ou são abertas com os tacões dos sapatos de quem as quer apanhar. As mais renitentes só vêm a luz do dia depois de uns tempos na choça, quando os ouriços abrem de livre vontade. Para além das nozes e dos dióspiros, as castanhas são talvez o fruto mais tardio, e talvez por isso, o menos atacado pelos pássaros rabaceiros que tudo comem e tudo picam.
 
Um mar de castanhas espalha-se pelo chão. O ritual de as apanhar faz doer as costas, mas a beleza das cestas cheias de brilho recompensa. Estendidas na varanda, abertas ao sol da manhã, tornam-se menos inchadas, mais baças e mais doces, prontas para assar, para cozer ou mesmo roer. Algumas são gémeas e quando alguém encontra uma diz - "Bom dia filipina", com o sobressalto de quem ganha e o sorriso de quem perde. Jogo infantil de grande ingenuidade, na memória dos que há muito foram crianças. Parece que teve origem na Alemanha – Vielliebchen ou Phillipchen e serviu de inspiração a alguns poetas.
 
Da chaminé sai fumo com cheiro a resina. A lareira está acesa e bem cheia de lume. Às achas grossas, junto lenha seca de vide que a tudo dá um calor diferente. Quando a fogueira acalma, puxo com a tenaz umas brasas ao rubro para a boca da lareira. Dou um golpe nas castanhas, escolho as que me parecem mais sãs, e coloco-as sobre as brasas. Cubro-as de cinza branca e deixo-as assar lentamente. Enquanto espero, os meus olhos param naquele lume quase tão antigo como o tempo, e o pensamento voa em todas as direcções. E vejo a cidade, onde fumegam os carrinhos do assador e o cheiro adocicado se espalha pelo ar do Inverno, numa mistura de fumo e nevoeiro. Cobertas de cinza branca, vendidas em cartuchinhos de jornal, fazem a delícia de quem as saboreia ao longo da rua.
 
Com a tenaz, vou-as descobrindo uma a uma, fazendo-as pular nas mãos para arrefecerem, abro-as ao meio e ponho dentro uma pitada de manteiga, como fazia minha mãe. A camisa sai facilmente e o sabor…não tenho dúvidas de que é a saudade.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 16:00

Terça-feira, 17.11.20

A bateira submersa - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  A bateira submersa

bateira submersa.jpg

bateira submersa1.jpg

 

(fotografias de Adão Cruz)

   Desta vez não fomos só ver a Ria e espreitar os flamingos se os houvesse. Movia-nos a ideia de petiscar umas enguias fritas na célebre Taberna d’Alcina. Como estava uma bela tarde de Verão de S. Martinho, caminhámos um pouco até à ponta do cais da Béstida, saboreando a frescura das águas antes de saborear a nossa merenda.
 
Entretanto, a paz que por ali costuma reinar foi perturbada por um vozear de pescadores, de um lado e outro do cais. Um pequeno barco a motor tentava a todo o custo levantar do lodo uma bateira submersa que nem se mexia. Mas era tão grande o esforço do barco e a teimosia da barcaça afundada que a corda partiu. Sugestões e ordens de todo o lado, quer dos homens dentro de outros barcos quer dos veteranos displicentes que, de mãos nos bolsos passeavam as horas pela beira do cais, de nada valeram. A bateira estava como que amarrada ao fundo da ria.
 
Foi então que demos conta de um homem novo e corpulento, uma figura hercúlea vestida de fato impermeável de borracha, que desceu o paredão e se enfiou na água escura e lodosa, agarrando-se à ponta da proa e tentando movê-la com força de gigante. A bateira deu de si, ao som do ela aí vai, de todos os circunstantes, deixando a descoberto um dos lados. No meio daquela vozearia, o homem pede um canedo e começa a retirar o lodo do fundo da barcaça para aliviar o peso, quase enfiando a cabeça dentro de água. Depois de muito tempo de luta em vão, surge um novo barco de motor mais potente, amarra de novo a corda e consegue arrastá-la vagarosamente pelas águas fora, com o homem de pé, metido na água até ao pescoço, a empurrar e orientar a bateira. Parou na rampa por onde os barcos acedem à Ria e ali ficou, esburacada e velha à espera de nova sepultura.
 
No fim da merenda regressámos à contemplação da ria, batida pelo sol da tarde reflectido nas águas mansas, em suaves jogos de luz dourados e prateados. Rodámos lentamente pela margem, e poucas aves vimos nos sapais. Uns passaritos, uma ou outra garça pousada ou abrindo as asas e voando suavemente com a elegância própria de uma dança. Flamingos, apenas um, solitário. Eles vêm em tempo mais agreste, já nos tinha dito o pescador, e aquele dia era um dia de Verão em pleno Outono. O que terá levado aquele flamingo a ficar por ali sozinho? Saudades da Ria, como nós, ou já não ser capaz de “ O último voo do flamingo”, e por ali morrer como a bateira. Mia Couto talvez saiba, quando diz, na voz dos que falam dentro dos seus livros, que há-de vir um outro tempo e um outro…até que os flamingos empurrem o sol do outro lado do mundo.

<

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 15:07

Sábado, 14.11.20

Ser médico. Observar e tratar doentes - Adão Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Adão Cruz  Ser médico. Observar e tratar doentes

 

001a.jpg

 

   O exercício da medicina é, sem dúvida, uma arte. Uma arte nobre e extremamente delicada. Assenta num pilar central e fundamental: a Competência. Mas a competência é multifactorial. Para além do inegável factor saber-conhecimento, outros há, sem os quais a competência poderá, simplesmente, não existir. Estes são muitos, mas podemos destacar como mais importantes uma sólida estrutura da consciência, a dignidade, a honestidade, o espírito de sacrifício, a humanidade e o BOM SENSO, indispensável em toda esta integração. Sabemos que o médico, como ser humano que é, está sujeito a erros, vicissitudes e até desvirtudes. Mas como todo o ser humano, tem direito a compreensão e perdão, quando as suas falhas são desvios meramente incidentais. O mesmo não acontece, como é óbvio, quando a sua conduta entra no campo lamacento da desonestidade, da irresponsabilidade e da perda dos valores éticos que integram esta incomparável profissão.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 19:37

Quarta-feira, 11.11.20

O relógio e o chá - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  O relógio e o chá

a. still1.jpg

(A. Still)

   Quando poiso os olhos naquele mostrador muito branco com algarismos muito negros é como se abrisse a cortina de um palco e a memória reencarnasse real e viva num horizonte de luz crepuscular sem princípio nem fim. Sempre mexeu comigo aquele relógio preto pendurado na parede da sala grande. Talvez por me fazer pensar que o tempo não pára. Recordo o meu pai a acertá-lo à noite antes de se deitar, ouço o rodar rezingão do torniquete a dar corda, o ranger leve dos ponteiros e o bater das horas a cada hora. E Invade-me nessa altura uma espécie de saudade sonâmbula, embalada pelo tic-tac do relógio que me leva a qualquer recanto da minha infância.
Esta tarde estou só. A minha única companhia é a lareira que acendi este ano pela primeira vez. A chama das vides é mais brilhante e parece conversar comigo. Em cima da mesa antiga, a toalhinha de linho muito lavada e bem passada a ferro. Do velho bule de porcelana vermelha acastanhada solta-se um cheirinho a saudade e a limonete. Lá fora, cai uma chuva miudinha em fios tão finos que lembram uma cortina de renda. Os ténues raios de sol parecem brincar às escondidas com a chuva, e ao longe um arco-íris atravessa a serra de lés-a-lés. A chover e a dar sol na cabeça do rouxinol.
E, com isto, se aconchegou a hora do chá. A hora do chá foi sempre, para mim, sagrada. Mais do que uma pausa, é um ritual. Desde pequenina que gosto de chá. Detestava leite, e minha mãe via-se aflita para o substituir por outra bebida. Fazia-me banacau (farinha feita à base de banana e cacau), cacau com limão e canela, cevada fervida à lareira numa infusa de barro, com tempo de espera para a mistura assentar. Mas a única bebida de que muito gostava era o chá. Naquele tempo, chá de hortelã ou cidreira, ervas secas ou verdes, colhidas de madrugada antes das orvalhadas, ou até de cascas secas de cebola. De manhã, acompanhava o chá um pãozito com manteiga feita em casa, batida num cântaro de barro e depois guardada em papel vegetal. Comia pouco, era muito biqueira, como diziam na aldeia. Por isso, ia trincando o pão ao longo do carreiro da escola que atravessava o mato, mais directo e menos perigoso, acompanhada da minha gata com quem repartia o pão aos bocadinhos. À tarde voltava ao meu chá.
Tenho uma variedade enorme de chás em caixas ou latinhas, desde os verdadeiros chás pretos, blended or not, infusões e tisanas. Os meus preferidos são o Earl grey, o chá de limonete e o de erva de príncipe. Ainda hoje me dá um prazer enorme prepará-lo com toda a beleza e requinte que ele merece. Basta-me, porém, tomá-lo com pão e manteiga, mel e compota, para ser um manjar. E se for com as amigas, muito maior é o prazer. Mas hoje estou só. Lá fora deixou de chover e a noite começou a cair. Dentro de mim e à minha volta, só silêncio e solidão. Apenas o crepitar da fogueira e o tic-tac do velho relógio preto na parede, a iludir-me, dizendo que o tempo não passou e parou na minha infância.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 16:29

Quarta-feira, 28.10.20

O reino das aves - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

 

Eva Cruz  O reino das aves

a garça do cais do Ouro1.jpg

 

(Adão Cruz)

   Um dia frio e baço de Outono. A tarde estava pardacenta, e a Ria, na sua praia-mar ou maré alta, reflectia a cor de chumbo do céu que de vez em quando deixava cair sobre ela grossas cordas de chuva. A ondulação da água batia suavemente nas margens a um ritmo musical sincopado, quase silencioso, que se esbatia pelos campos depenados. Em frente, ao longe, na outra margem, o casario pintalgava de branco a paisagem, quebrando a linha do horizonte. Do lado de cá, pela pouca profundidade, pequenos baixios lodosos deixavam a descoberto lamas e cascalho. O reino das aves. Aves sem conta.

Pousavam e esvoaçavam ao longo da ria à procura de pequenos animais marinhos, ou sobre os campos recentemente lavrados, à procura de vermes e insectos que saíam da terra revolvida. Gaivotas grandes e pequenas, pombos, maçaricos, estorninhos, uma garça- real aqui e além, isolada e contemplativa, corvos marinhos mergulhando nas águas turvas, todas as aves me eram familiares, embora não as esperasse em tal abundância. Outros pássaros, que me eram estranhos, de asas coloridas ou muito brancas, planavam à superfície das águas, dando a impressão de que eram os senhores daquele reino.

Não muito longe da margem, avistei uma mancha branca, poisada em pernas altas e escuras que lembravam estacas. Supus ser um bando de cegonhas, que as há por ali também, mas logo me apercebi, com grande espanto, de que era uma colónia de flamingos brancos. Por uma pequena estrada bordando a margem, aproximámo-nos o mais possível e vimos outros bandos, uns maiores outros mais pequenos, uns brancos e outros rosados. Ainda pensei que a cor se deveria a um raio de sol que espreitava por entre as nuvens cinzentas, mas logo vi que se tratava de bandos diferentes. Como são aves gregárias, organizam-se em pequenas colónias, que na presença de qualquer coisa estranha, se juntam e apertam de tal modo, que fazem lembrar pequenas manchas à tona de água.

Com esta imagem singular na cabeça, tentei recolher alguma informação e fiquei a saber que estes flamingos são oriundos da bacia do Mediterrâneo e migram no Outono e Inverno à procura de alimento e talvez nidificação. A foz dos rios, os estuários, os deltas, as lagoas pouco profundas, os sapais são o santuário dos flamingos. Desde há uns anos, a Ria de Aveiro, talvez devido às águas do Vouga, passou a ser também procurada por eles. A cor rosada das suas pernas e asas deve-se a um pigmento vermelho de crustáceos ou algas que fazem parte do seu alimento.

Soube bem sentir a paz desta ria e destas águas, e entrar assim no reino das aves em plena tarde de Outono. Mas para lá desta linda paisagem, impressionou-me sobretudo a beleza inspiradora daquelas manchas brancas ou rosadas pintando a tarde pardacenta. Mais do que o lirismo apaziguador desta vivência, aqueles plácidos bandos de flamingos incutiram em mim um sentimento de luz, de paz, de ascensão e de fuga desta mancha escura que estamos a viver.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 16:16

Sábado, 10.10.20

"Graffiti" - Eva Cruz

ao cair da tarde 5b.jpg

Eva Cruz  Graffiti

the ruffians, 1982a.jpg

(Jean-Michel Basquiat)

 

   Graffiti, nome plural vindo do Latim. Grafitos transformou-se numa arte que nasceu nas ruas e chegou às grandes galerias, incluindo a própria fachada da Tate Modern. Deu asas à imaginação e à criatividade nas paredes, nos muros, nas escolas, nas portas, nas casas de banho. Uma arte de aprendizagem associada a experiências transformadoras. O Maio de 68 serviu-se dessa linguagem internacional de intervenção política, nos muros de Paris. O 25 de Abril foi fértil no aproveitamento desse potencial, sobretudo na pintura de escolas deterioradas e sombrias, transformando-as, pela força da motivação e das ideologias, em lugares mais atractivos e coloridos. Era a Escola comprometida no sonho de uma vida nova. Através desses gestos e pinturas se procurava transmitir mensagens poéticas, filosóficas e de protesto. Em tempos de um predominante analfabetismo, estes graffiti eram conhecidos como bíblia política dos analfabetos, como acontecera com as pinturas de Cranach, as quais ajudaram a entender a Bíblia de Lutero e por isso ficaram conhecidas pela Bíblia dos pobres.
Infelizmente, como em tudo na vida, as boas intenções nem sempre são aproveitadas como deve ser, e depressa os graffiti passaram, em muitos casos, a puro vandalismo, a pichação associada a transgressão, a estragos de lugares ou bens sociais, incluindo paredes de edifícios públicos, carruagens de metro, e de comboio. Os backjump, pinturas em comboios parados, o end to end, pintura de ponta a ponta, o train, vagão pintado ou o whole car, de alto-a-baixo, sem qualquer critério nem estética, causando danos irreparáveis em bens colectivos.
No meu tempo de professora, muitas foram as circulares e as reformas que tentámos, no sentido de chamar a atenção para a limpeza nas escolas, e longa foi a discussão que à volta disso se gerou. Sempre fui de opinião que, como espaço educativo, a Escola tivesse lugares apropriados para o exercício dessa arte e que até fossem criados concursos e premiados trabalhos. Nunca tive receio de que esta minha opinião se estendesse à sociedade em geral. Mas com a consciência de que não se pode entrar na lei do “vale tudo”. Os bens públicos e colectivos têm de ser respeitados e transgressão é transgressão. Vivemos em sociedade, temos leis que regem o colectivo que somos. Temos uma Constituição que invocamos constantemente no que respeita aos direitos e deveres nela consagrados.
Para mim a anarquia é uma utopia, por mais bem intencionada que seja a sua ilusão teórica. A própria Vida, a Natureza, o Cosmos, o Universo obedecem a leis e às ordens que delas emanam, pois se assim não fosse, o resultado seria o caos.
Sei que é polémico e discutível o que aqui defendo, sobretudo quando se trata de concepções políticas, sociais e artísticas, mas vale o que vale, ou seja, tem o valor de uma opinião. E essa opinião leva-me a considerar que é urgente reparar o que ainda tem solução, evitando, em nome da liberdade, a destruição da verdadeira Liberdade.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 15:44

Quarta-feira, 07.10.20

Águas Passadas Movem Moinhos - Eva Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Eva Cruz  Águas Passadas Movem Moinhos

la sorcière bleue, 1990a.jpg

 

(Leonor Fini) 

   Sobe do rio um murmúrio de águas mansas, coado por entre os verdes plátanos, agarrados às margens pelas grossas e velhas raízes que há séculos por ali os alimentam. Espreguiçando-se pela manhã ou caloroso e manso pelo fim da tarde, o sol sempre se esgueira, aqui e ali, em jogos de luz, brincando ao sabor da brisa nas frondosas copas da árvores ou cintilando como pérolas de luz na água do rio.

Patos bravos seguem ao jeito da corrente, mergulhando em ginástica acrobática, ensinando os filhos ainda pequenitos que lhes vão no encalço, em ninhadas bem ordenadas e conduzidas. Pequenas manchas castanhas, salpicando a nudez do rio animam as águas quase paradas.

O pensamento também cai no rio e os olhos mergulham fundo até às suas entranhas. O mesmo rio, o mesmo leito, as mesmas margens, as mesmas árvores, as mesmas raízes. Só as águas não são as mesmas, apesar de parecerem paradas. Nem é mesma a vida que nelas corre.
 
Os olhos mergulham bem fundo, saudosos de momentos de outros dias. A mesma imagem do palácio cor-de-rosa, reflectido nas águas do rio, toma agora a cor de pedra, simples miragem do passado, iludindo o presente.
 
Assim aconteceu com D. Quixote, lutando contra moinhos de vento. Moinhos que o vento move, águas movidas pela saudade.
 
“Let bygones be bygones”, passado é passado, “it´s just water under the bridge”, é apenas água por baixo da ponte. Águas passadas não movem moinhos, mas nem tudo leva a corrente.
 
 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 22:39

Quarta-feira, 16.09.20

Fleurs de Rocailles - Eva Cruz

a noite fez-se para amar 1a.jpg

 

Eva Cruz  Fleurs de Rocailles

beijo2a.jpg

 

(Adão Cruz)

 

   “Scent of a Woman”, fragrância exalada de flores de jasmim, de cravo, lírio do vale, violeta que eleva os sentidos à frescura e à beleza dos campos e os enche daquela plenitude indefinível que perdura e leva a acreditar que o céu é feito de perfume.

Foi no Musée du Parfum no centro de Paris que recebi o meu primeiro perfume “Fleurs de Rocailles”, tinha eu dezoito anos, e que guardei religiosamente durante uma vida. Um frasquinho pequenino, esguio, da Caron, criado em 1933. Musée du Parfum ou Fragonard  Musée, em homenagem ao pintor hedonista Fragonard do século XVIII da cidade de Grasse, dos campos de lavanda, do ouro azul, abertos ao infinito, que perfumam as terras provençais, paisagens mágicas que seduziram poetas, escritores, pintores como Van Gogh, Cézane, Picasso, Camus e tantos outros artistas, que por ali encheram a alma de alfazema, rosas, lírios e jasmins.

“Fleurs de Rocailles”, quase no fim de “ PERFUME DE MULHER”, mostra bem, sobretudo a partir do olfacto apurado de um cego, o coronel Frank Slade, que um bom perfume é mais do que um cheiro, é parte integrante de uma personalidade.

Como o sofrimento interior pode escamotear a bondade, aprendeu-o até ao desespero o jovem e inexperiente estudante Charlie, aluno de um dos Colleges da Universidade de Princeton.  A abnegação e a força da amizade irascível de um amante dos prazeres da vida em todos os sentidos criaram em Frank, durante uma curta viagem a Nova York para celebrar o feriado de três dias do Thanksgiving , de Acção de Graças, o novo sentido da vida e a utopia dos últimos sonhos. Charlie, com a frescura virgem e pueril da sua bondade e compaixão enternecedoras, abriu-lhe o caminho para o alento e para um novo sentido e uma nova força de viver, traduzido no arrebatamento estonteante e pungente de um tango dançado por um cego à volta de um etéreo perfume.

A dramática beleza da violência poética, terminando com uma preciosa lição sobre a força da escola na estruturação do carácter, pôs a nu a hipocrisia de muitas escolas de elites, onde o dinheiro é deus e senhor, mais empenhadas no amestramento, como paradigma do cidadão formatado para o sistema, do que na educação de gente com coluna vertebral.

A referência a “Fleurs de Rocailles” perfumou-me inesperadamente a memória e caiu como um bálsamo nas minhas longínquas lembranças, fazendo-me recuar ao “Scent of a Woman” dos meus dezoito anos.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 22:59

Quinta-feira, 10.09.20

GUERRA DA GUINÉ – 1967. BEGENE - O nosso corpo clínico - Adão Cruz

o balanço das folhas3a.jpg

 

Adão Cruz  GUERRA DA GUINÉ – 1967. BEGENE - O nosso corpo clínico

corpo clínico.jpg

   O que está do meu lado esquerdo, de barbas, é o furriel Pimentinha, meu furriel enfermeiro, que ainda hoje me telefona uma a duas vezes por ano. A sua profissão, antes de vir para a guerra, era electricista, electricista do Hotel Estoril-Sol. Pois, meus amigos, transformou-se num excelente parteiro e melhor puericultor. Leu e releu a minha sebenta de obstetrícia e deixava os bébés todos perfumadinhos e polvilhados de pó de talco, o que fazia a delícia das mães.
 
Duas histórias sobre o Pimentinha:
 
Primeira:
Um dia de madrugada, apareceu uma parturiente com uma apresentação de pelve, isto é, com o bébé a nascer de rabito em vez da cabeça. É um parto difícil e perigoso. Tentei, quanto sabia, algumas manobras, o mais suaves possível, mas não fui bem sucedido. Virei-me para o Pimentinha e disse: - meu caro Pimentinha, logo que comece a raiar a manhã, peça uma evacuação “Y” (urgente) de helicóptero, para levar esta mulher para Bissau, e fui-me deitar. Algum tempo depois, entra o Pimentinha no meu quarto, dizendo cheio de entusiasmo: - sr. Dr. o catraio já está cá fora. Com muito jeitinho lá consegui tirá-lo.
 
Segunda:
O Pimentinha ia de avioneta a Bissau, acompanhar um soldado que tinha um enorme hidrocelo (líquido nos testículos). Logo pela manhã, a avioneta, uma Dornier levantou voo e meio minuto depois estatelou-se no solo. Felizmente não morreu ninguém, apenas o piloto fracturou uma vértebra. A carlinga da avioneta passou a ser a casota do nosso macaco.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:08

Sexta-feira, 28.08.20

GUERRA NA GUINÉ (PEQUENAS MEMÓRIAS) A Minha Chegada e os Primeiros Três Meses - Adão Cruz

o balanço das folhas3.jpg

 

Adão Cruz  GUERRA NA GUINÉ (PEQUENAS MEMÓRIAS). A Minha Chegada e os Primeiros Três Meses

   O velho Uíge atracou em Bissau no dia 13 de Maio de 1966. Entrámos dentro do forno da cidade. Aí aguardei um mês até ao meu destacamento para o mato. Eu e o meu colega e amigo Gomes Pedro, hoje professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa e Director do Serviço de Pediatria do hospital de Santa Maria. Ele seguiu para Cuntima, no norte da Guiné, perto da fronteira do Senegal, e eu embarquei para Canquelifá, no leste, próximo da fronteira com a Guiné-Conackry.

os primeiros três meses.jpg

Um velho Dakota levou-me até Bafatá. Dentro do avião, além de mim, ia o piloto, o co-piloto que tinha meia cara feita numa cicatriz, uma mulher negra sentada sobre o caixão do filho e um capitão que eu não conhecia de lado nenhum. Este capitão desembarcara momentos antes no aeroporto de Bissalanca, vindo do Porto, e seguia directamente para o mato. Confessou-me que transportava consigo alguma angústia, pois deixara para trás mulher e nove filhos. Três meses depois encontrámo-nos em Begene, no norte. Reconhecemo-nos e tornámo-nos muito amigos. Era o capitão Brito e Faro.

De Bafatá segui numa Dornier (foto) até Canquelifá, fazendo uma curta escala no Gabu-Sara, pequena povoação chamada cidade de Nova Lamego.
Permaneci em Canquelifá durante o terceiro trimestre de 1966. Muitas coisas boas e más aconteceram durante esse tempo. Relatá-las levava um livro. Na foto o “corpo clínico”. Eu, o meu furriel enfermeiro Alvim e maqueiros.

os primeiros três meses1.jpg

Como sempre gostei muito de crianças, deixo aqui apenas três momentos como referência das coisas boas dessa minha estadia, e que são três pequeninos poemas dentre os muitos que em mim floriram nesse tempo.

os primeiros três meses2.jpg

Fátima Demba, a minha companheira de todos os dias.

os primeiros três meses3.jpg

Este miúdo, cujo nome já se me escondeu no fundo da memória, percorria semanalmente cerca de vinte quilómetros pelo meio do mato, para me vir consultar, trazendo-me sempre uma velha lata com meio litro de leite. Tinha um fígado do tamanho da barriga.

os primeiros três meses4.jpg

Os dois gémeos filhos do Anso, dois enternecedores bebés que me preencheram alguns momentos de solidão. O Anso era chefe da milícia integrada na nossa companhia. Emprestava-me, muitas vezes, uma velha espingarda de carregar pela boca, para eu caçar uns patos na bolanha. Constou-me que fora fuzilado após a independência.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Augusta Clara às 17:19



Pesquisar

Pesquisar no Blog  

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Podem me fazer análise do poema? Yema etc

  • Anónimo

    LINDO!!!!

  • Anónimo

    Foi esquecimento a identificação do autor do texto...

  • Anónimo

    Uma beleza o texto, prosa poética com certeza. A E...

  • Augusta Clara

    Olha, Eva, não tinha visto a tua resposta e vim pr...


Links

Artes, Letras e Ciências

Culinária

Editoras

Filmes

Jornais e Revistas

Política e Sociedade

Revistas e suplementos literários e científicos