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Jardim das Delícias


Sexta-feira, 11.05.18

Escândalos à medida das necessidades - Carlos Esperança

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Carlos Esperança  Escândalos à medida das necessidades

 

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   À medida que os sucessos no campo económico e no emprego se acumulam, esta direita mobiliza todos os ratos do seu esgoto para a orquestração concertada contra o governo, a que não perdoa o apoio parlamentar do BE, PCP e PEV cuja exclusão governamental julgava legítima e definitiva.

Compreende-se a raiva e uma espécie de ressurreição do ELP e do MDLP, agora com as bombas e assassinatos ausentes. Cerca-se o governo com escândalos políticos, reais ou imaginários, reservados há muito para ocultar os seus e denegrir os resultados nos juros de empréstimos, na criação de emprego, na melhoria da média das remunerações, na confiança internacional e na estabilização da banca.

Hoje, em vez de se lançar uma bomba a uma sede do PCP, dispara-se a suspeição de um lugar num desafio de futebol a um ministro; em vez de se matar um padre de esquerda, divulga-se o vídeo do interrogatório a um arguido da área adversária; por cada notícia benéfica solta-se um primata de Poiares a mandar calar o chefe da Proteção Civil; cada dificuldade da direita reativa os incêndios nos telejornais e, na ausência do PR às missas de sufrágio, publicam-se listas de arguidos relacionados com o partido do Governo.

Em vez de um Ramiro Moreira a pôr bombas, temos a D. Cristas a chamar mentiroso ao PM; não podendo dividir o SNS entre privados e Misericórdias, os partidos que votaram contra a sua criação reclamam dos problemas que deixaram e das faltas para que não há orçamento que resista; os fogos e os escândalos políticos, só dos adversários, são armas sempre à mão para saciar a gula de quem sabe que os últimos sempre foram justificação para golpes da direita. António Costa é a Dilma desta gentalha.

A democracia é, para boa parte desta direita, o compasso de espera para um regime que preferiam a um governo que não seja inteiramente seu. A posse da comunicação social e a atração de trânsfugas garantem a propaganda e a corrupção das consciências venais, que passam despercebidas da opinião pública e não são matéria para os Tribunais.

A asfixia do contraditório perante o garrote demolidor das notícias falsas e das verdades que se ampliam é uma ameaça ao pluralismo e a garantia de que, depois de Cavaco, até o Doutor Passos Coelho pode aspirar a PR, agora que Marcelo, depois de ter jurado que faria um único mandato, anunciou de forma ínvia a recandidatura, que só a repetição da tragédia dos incêndios, no próximo ano, inviabilizaria.
Se António Costa dissesse o mesmo, não faltariam incendiários.

É difícil prever por quanto tempo vão abrir os noticiários e ocupar as primeiras páginas dos jornais os escândalos políticos de figuras maiores ou menores que tenham cometido a imprudência de se associarem ao PS, quer por convicção, quer por se encontrarem em trânsito para a direita.

Desde que se esqueçam os ‘papéis do Panamá’, a divulgação da auditoria de Belém aos mandatos precedentes e as funestas privatizações, chegam os incêndios e os escândalos políticos para neutralizar os êxitos do Governo.

A exigência de divulgação dos devedores, legalmente impossível, apenas da CGD, é o ataque soez ao banco público deixando o BES, BPN, Banif e BPP com o rabo de fora.

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por Augusta Clara às 16:26

Terça-feira, 10.04.18

Seita reaccionária de 'comentadeiros' lusitanos contra Lula - Alfredo Barroso

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Alfredo Barroso  Seita reaccionária de 'comentadeiros' lusitanos contra Lula

 

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   A indignidade dos "comentadeiros" reaccionários - que pululam como cogumelos venenosos nas páginas dos jornais e nos canais de TV portugueses - vai ao ponto de comparar Lula da Silva, o ex-presidente do Brasil que se tornou preso político, com o insensato, desbocado e colérico Bruno de Carvalho, futuro ex-presidente do Sporting. O que é o mesmo que, por exemplo, comparar o colunista do "New York Times" e Prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, com o simploriamente reaccionário e sectário "comentadeiro" de última página do "Público", João Miguel Tavares, que se tornou famoso por ter insultado José Sócrates e por isso ter sido levado a julgamento e absolvido.

O que custa a esta "seita" reaccionária, que abunda nos órgãos de Informação lusitanos, é saber que Lula da Silva foi julgado e condenado sem provas, apenas pela "convicção" individual e colectiva dos juízes que quiseram, à viva força, enfiá-lo numa prisão para o afastar da possibilidade de se recandidatar ao cargo de Presidente do Brasil, quando todas as sondagens prevêem que ele seria o vencedor, com larguíssima vantagem sobre o seu mais directo rival, o fascista Jair Bolsonaro...

Claro que a "seita" reaccionária lusitana ainda não chegou ao ponto de fazer como aqueles controladores de voo militares que aconselharam o piloto do helicóptero que transportou Lula para a prisão de Curitiba a "lançá-lo dele abaixo" durante o vôo! Mas talvez não estejam muito longe de desejar a sua morte,,,

São já legião os juristas, não só brasileiros mas também dos quatro cantos do mundo, escandalizados com a condenação, sem provas, e apenas por mera convicção política, de Lula da Silva. O que a mim me faz lembrar aquela anedota do marido que bate sistematicamente na mulher sem qualquer motivo concreto, e que responde a quem lhe pergunta, então, qual é a razão: «Eu não sei, mas ela sabe com certeza!»...

Também custa muito à "seita" reaccionária lusitana ser lembrada do golpe montado por um "exército" de políticos corruptos da direita brasileira decididos a destituir Dilma Rousseff do cargo de Presidente do Brasil sem que a menor suspeita de corrupção incidisse sobre ela, apenas agarrados a um pretexto meramente formal que poderia servir para destituir todos os PR's e chefes de Governo do mundo. Se não houve "conspirata", e das mais vergonhosas, vou ali e já venho. E o que dizer da autêntica "múmia paralítica" que dá pelo nome de Michel Temer, acusado de corrupção em vários processos e um "fantoche" politicamente incompetente que traíu Dilma Rousseff para a substituir?!

Campo d' Ourique, 10 de Abril de 2018"

 

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por Augusta Clara às 17:22

Domingo, 11.03.18

“CAMBADA DE IMBECIS” - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  “CAMBADA DE IMBECIS”

 

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       Foi como nos intitulou ontem o jornalista Pedro Marques Lopes, com anuência dos colegas Clara Ferreira Alves e do exótico Luís Pedro Nunes, no programa “Eixo do Mal” – também não costumo ver mas ontem vi -, a todos aqueles que, nas redes sociais, a espinha encalhada na garganta dos nossos jornaleiros, se têm pronunciado contra a contratação de Passos Coelho como professor catedrático convidado numa instituição da Universidade de Lisboa, Pública.

Sabe-se que as opiniões mudam facilmente de direcção. O pior é quando os valores invertem o sentido ou vão dar uma volta.

Tão forte foi a lixívia neste caso, que até gente de esquerda admite como aceitáveis certas cláusulas do contrato.

Vai daí, Passos Coelho passou a ser a vítima e nós os algozes do rapazinho que nada tinha feito na vida que se conhecesse e se viu alcandorado a Primeiro-Ministro pela mão de Padrinhos, por não lhe concedermos o direito de ser professor catedrático da cadeira, de mestrados e de doutoramentos que só podem visar a crescente especialização num único tema - “Experiência de como se destrói um país”.

Pela minha parte,

- Por todas as pequenas empresas e o pequeno comércio que tiveram de fechar portas durante o seu Governo;
- Pelos milhares de pessoas que ficaram sem emprego e sem saber como dar de comer aos filhos;
- Pelos que caíram na mais profunda miséria e vi a procurar lixo nos contentores para se alimentarem;
- Pelos novos e menos novos que se viram obrigados a emigrar;
- Pelos jovens cuja formação fazia falta ao país e ele mandou embora;
- Pelos cortes na saúde, na educação e na investigação;
- Pelo desprezo com que atacou e roubou os funcionários públicos, pensionistas e reformados para, de gatas, entregar aos bancos alemães o produto desse roubo;
- Pelas grandes empresas património nacional como a TAP. A EDP , os CTT, etc. que entregou de mão beijada ao capital estrangeiro;
- Por todos aqueles que, perante este desastre, desistiram de viver tendo alguns levado filhos consigo;
- Pela indiferença e ausência de compaixão perante os efeitos da destruição que foi causando, e, também, pelo modo maldoso e cínico com que tratou os portugueses como inimigos ;

Pela minha parte, juro com a mão sobre a Constituição da República que ele desrespeitou, que estarei disposta a contribuir com uma fatia dos meus impostos para a sua alimentação … atrás das grades.

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por Augusta Clara às 20:59

Sexta-feira, 23.02.18

Se eu percebo a guerra da Síria? Sim, percebo - Augusta Clara de Matos.

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Augusta Clara de Matos  Se eu percebo a guerra da Síria? Sim, percebo

 

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   Depois de terem invadido o Iraque, morto Sadam, destruído o país e deixá-lo mergulhado numa guerra civil;

Depois de terem chacinado Kadafi e deixado a Líbia esfacelada e nas mãos de gangs e grupos vários;

Passaram a outro país com a intenção de fazer o mesmo, mas aí não tem sido nada fácil nem com o apoio dos terroristas islâmicos do DAESH que se empenharam em equipar e armar. porque o poder sírio não esteve pelos ajustes.

Então, embrulhou-se tudo. Meteram-se mais os curdos pelo meio e não se vê como desembaraçar a meada.

Como a indústria das armas deve andar feliz com a ajuda dos amigos de sempre que, como piolho em costura, vão acicatando os ânimos, picando os guerreiros, divulgando falsas realidades!

Para os telejornais, contudo, não há nada mais simples nesta guerra do que a maldade de Assad, o presidente que mata as suas crianças e não quer entregar o poder aos EUA.

A grande parte da opinião pública mundial seria indiferente assistir a mais uma chacina e outro país do petróleo destruído perante o entorpecimento e acefalia provocados pelas reportagens televisivas com terríveis imagens como são sempre as de qualquer guerra.

Entretanto, no país dos homens com razão acha-se por bem distribuir armamento de guerra aos professores, armá-los contra os alunos.
Alguém meteu a bobine ao contrário!

 

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por Augusta Clara às 20:18

Segunda-feira, 20.02.17

HÁ 100 ANOS, EM VERDUN, A MAIS BRUTAL E CRUEL CARNIFICINA - Alfredo Barroso

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(este texto foi escrito há um ano)

 

   Há exactamente 100 anos, em França, a meio da Grande Guerra de 1914-1918, entre 21 de Fevereiro e 19 de Dezembro de 1916, travou-se uma das mais brutais e sangrentas batalhas da história das guerras (envolvendo 2.400.000 homens), na Região fortificada de Verdun, durante 300 dias e 300 noites, à razão de mil mortos por dia, saldando-se, no final, por mais de 300 mil mortos e desaparecidos (porque a morte em massa e a total pulverização de milhares de corpos fizeram desaparecer no anonimato cerca de 100.00 soldados), e cerca de 400 mil feridos.

Os alemães dispararam em média 100.000 obuses por dia. Nove vilas e aldeias, «mortas pela França», foram definitivamente riscadas do mapa. Das 95 divisões que constituíam o Exército francês, 70 divisões combateram em Verdun.

Quer pela sua longa duração, quer pelos terríveis meios de destruição empregues, quer pelo encarniçamento dos adversários na luta, quer pelo horror dos combates, quer pela gigantesca amplitude das perdas, a batalha de Verdun marca uma viragem histórica na maneira de fazer a guerra, alterando completamente a noção tradicional de batalha como confronto breve e violento, mas decisivo, que se tornou obsoleta.

De realçar, também, a incompetência profissional, a crueldade e a desumanidade de muitos generais, que não hesitavam em mandar escolher à sorte, para serem julgados sumariamente, condenados à morte e fuzilados, a título de exemplo, dois ou três soldados de um pelotão que se recusasse a avançar em campo aberto sob fogo cerrado do inimigo (como é mostrado com toda a crueza no terrível filme «Paths of Glory», de Stanley Kubrick, estreado em 1957, e proibido de ser exibido em França - e em Portugal e Espanha, claro! - durante mais de década e meia)...

...E esta era «a guerra para acabar com todas as guerras»!

Foto a preto & branco: imagem do filme de Stanley Kubrick «Paths of Glory» (de 1957);
Foto a cores: pintura de John Singer Sargent (1865 -1925) intitulada «Gaseados» (1918).

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por Augusta Clara às 17:00

Sexta-feira, 27.01.17

Donald Trump e o Partido Republicano - Carlos Esperança

  

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   O Partido Republicano, fundado por abolicionistas, partido cujo primeiro presidente foi Abraham Lincoln, dificilmente se reconheceria no trajeto iniciado há trinta anos, sob a influência da Direita Religiosa, radicalizado pela chegada do Tea Party e bem-sucedido com o extremista Donald Trump, com o apoio não repudiado da Ku Klux Klan. Aliás, Trump faz a síntese da pior herança das últimas três décadas e acrescenta o exuberante apoio ao sionismo judaico.

Trump não é um risco, que as promessas feitas na campanha presidencial prenunciavam, é uma ameaça trágica pela obstinação em cumpri-las.

Racista, misógino e exibicionista, falta-lhe preparação, sensatez e equilíbrio para dirigir o mais poderoso país. Com a sua vitória eleitoral tornou-se o homem mais perigoso do mundo. Com maioria republicana no Congresso (Câmara dos Deputados + Senado) e no Supremo Tribunal (Suprema Corte), cujos juízes são nomeados pelo PR e confirmados pelo Senado), Trump é o mais poderoso dos Presidentes dos EUA e do Mundo.

Ao fazer da China, o seu maior credor, o inimigo principal, da Palestina um quintal de Israel e do Mundo um espaço de negócios, Trump pode fazer com que a crise de 2008 pareça um incidente perante a previsível catástrofe.
O direito internacional, como sucede com os aprendizes de ditador, é apenas um ligeiro obstáculo à vontade de um narcisista sem ética, cultura e formação política, indiferente ao aquecimento global, ao drama dos refugiados, à pobreza e à saúde dos desvalidos.

Os 8 homens mais ricos do mundo, 6 americanos, 1 espanhol e 1 mexicano, detêm mais riqueza do que a metade mais pobre da Humanidade. Com Trump, tendem a reduzir-se.

Por trás de Trump há uma redefinição geoestratégica. A sua retórica podem ser a cortina de fumo para a real política externa dos falcões que o apoiam e de interesses sectoriais americanos, mas as circunstâncias e o homem não podem ser ignorados.

A União Europeia, avessa à integração económica, social e política, conseguiu tornar-se anã no xadrez mundial, apesar de ter maior PIB e mais população do que os EUA. Está abandonada à desintegração e redefinição de fronteiras.

O ar que se respira lembra o dos ventos que sopraram antes da II Guerra Mundial.

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 11.01.17

A Falácia da República Portuguesa dos Sovietes - Augusta Clara

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Augusta Clara  A Falácia da República Portuguesa dos Sovietes 

 

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   Para terminar a conversa porque amanhã já estamos "noutra", convoquemos à cena aquela indómita fantasia que por aí fez caminho no chamado "Verão quente" de 1975. Fantasia, sim, só para quem dela se convenceu porque quem a congeminou sabia bem ao que vinha. Tinha ela como argumento a existência do perigo da instalação aqui no país duma república soviética do tipo da existente na então URSS.
Ora, partindo da improvável hipótese de que um cérebro de caracol - lembrem-se que Álvaro Cunhal era um homem de grande inteligência e, como ele, outro(a)s dirigentes político(a)s da esquerda da altura - conseguia pôr em prática esse projecto, a tal República Soviética do Portugal dos Pequeninos ficaria obrigada a passar a fazer a grande maioria das suas trocas comerciais com a URSS lá na outra ponta da Europa porque, pela certa, sofreria o maior boicote económico de todos os tempos por parte dos países da Europa Ocidental e Central bem como dos EUA.
A esquerda queria mais poder? Queria, sem dúvida, porque já era mais do que evidente a guerra que os sectores donos do dinheiro faziam a uma política que pretendia estender os benefícios e garantir uma vida digna a toda a população. Coisa que não lhes agradava porque, evidentemente, iriam perder privilégios. Porque se nacionalizaram os bancos? Porque os capitais começaram a fugir do país. Que pena não terem ficado nacionalizados, não andaríamos agora a pagar do nosso bolso os monumentais roubos do banqueiros ladrões.
Foi esse medo, a perda das vidas faustosas, custassem o que sempre tinham custado a tantos e tantos portugueses durante os 48 anos de fascismo salazarista que levou ao golpe da direita reaccionária em 25 de Novembro de 1975 e não uma guerra civil que ninguém tinha em mente nem temia. Esse era apenas um capítulo da fantasia propagada. Medo esse que já se tinha manifestado nos atentados do ELP e do MDLP tutelados pelo general Spínola. Lembram-se dos incêndios das sedes do PCP e da morte do padre Max e da jovem que o acompanhava?
E pronto, assim viemos parar ao que nos aconteceu nos últimos anos e que o Governo de António Costa, com o acordo que fez com os partidos de esquerda, tem tentado emendar.

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por Augusta Clara às 19:50

Sexta-feira, 02.12.16

A respeito de Fidel, ... - Marcos Cruz

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Marcos Cruz  A respeito de Fidel, ...

 

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   A respeito de Fidel, a palavra ditador tem sido a porta que a direita fecha na cara da discussão. Digo a direita não porque lhe assista em exclusivo a condenação do líder cubano, mas quando esta se apresenta sumária e indisponível para revogações (ehehe) não é difícil descortinar-lhe a proveniência. Um dos maiores apologistas nacionais da superficialidade, coincidentemente ou não, vai-se transformando também numa das mais populares caixas de ressonância da direita. Chama-se João Miguel Tavares e hoje, para o bem ou para o mal, dispensa apresentações. Sobre Fidel, cingiu o seu discurso a uma demanda: ensinar-nos a soletrar a palavra ditador.

Gostaria eu, sem estar preso a ideias pré-concebidas, de discutir aspectos que pudessem enquadrar a circunstância de Cuba continuar a ser uma ditadura, mas para ele, João Miguel Tavares, isso equivaleria a um sacrilégio, na medida em que pressuporia a admissão de uma hipótese hedionda: a de que nem a ilegitimidade de uma ditadura deva ser tomada como absoluta.

Circunscrita, portanto, a discussão ponderável ao sim ou não, porque só há quem possa repudiar de cima a baixo qualquer ditadura ou apoiá-la incondicionalmente, aguça-se-me a curiosidade sobre o que terá ele ensinado aos filhos sobre o Robin dos Bosques, esse ladrão que emagrecia o bolso dos ricos para engordar o dos pobres. Por mais que o nosso democrático país faça propagar de geração em geração o ditado “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”, a lógica inflexível de João Miguel Tavares não lhe permitirá esquecer que “um ladrão é um ladrão é um ladrão”, tanto quanto “um ditador é um ditador é um ditador”. Coitados dos miúdos, cerceados tão cedo das maravilhas da relatividade. E logo por um liberal.

Ora, diz-me o bom senso que um pequeno país em contra-corrente com um mundo apostado na ofuscação dos valores pelos preços talvez precisasse de tomar algumas providências para resistir – e sabemos como esta é a palavra-chave quando se fala de Cuba. Tudo o que ali se conseguiu em matéria de saúde, educação, emprego, combate à desigualdade social ou erradicação da fome, apesar dos condicionalismos económicos radicalizados por um bloqueio com mais de meio século e da sujeição permanente a um belicismo mediático que encheu o planeta de baba raivosa contra o regime, merece da minha parte, pelo menos, um olhar curioso, capaz de suplantar a rigidez da moldura para melhor apreciar o quadro. Mais ainda quando, à volta, as tão benfazejas democracias que construímos deram no que se sabe, com outras molduras, outros muros, no horizonte.

Não se infira daqui, como já estou a prever que muita gente faça, qualquer simpatia minha pela ideia de ditadura. Agora, não devemos deixar que os rótulos nos toldem o discernimento, nem a capacidade de enquadrar os factos com as circunstâncias. E em Cuba, apesar das circunstâncias, há factos que falam por si. Alguns até poeticamente, como o de os polícias andarem sem armas. Enquanto isso, ali perto, na democracia de todos os sonhos e liberdades, há mais civis com arma do que carro... 

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por Augusta Clara às 08:00

Domingo, 27.11.16

A violência na política e o politicamente correcto - António Ribeiro

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António Ribeiro  A violência na política e o politicamente correcto

 

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   A violência na Política é um tema recorrente e ganhou presença e intensidade nos Media e nas redes sociais com a morte de Fidel Castro. Não gostava de deixar passar o assunto em claro num momento destes, em que vejo tantos neo-pacifistas a verterem lágrimas sobre algumas vítimas de Castro, tendo eles mesmos branqueado com o seu silêncio as vítimas dos fascismos europeus, as vítimas das primaveras árabes, as vítimas da intervenção imperialista no Médio Oriente e na Líbia, as vítimas do apartheid na África do Sul, as vítimas dos algozes que destruíram as sociedades do Chile, da Argentina e do Brasil há não muitos anos. E nem recordo as nossas próprias vitimas do Tarrafal, de Pidjiguití, de Batepá, de Wiriamu, que são tão discretamente nossas e tão privativas... Onde andavam esses humanistas da 25ª hora quando as tragédias aconteciam e eles se refugiavam no "não sei o que se passou", no "deve ser exagero", ou no famigerado desabafo apaziguador do "a guerra é muito injusta"? Eu sei o que se passava e conto-vos. Desgraças e violências longe da nossa casa são pimenta e refresco no cu dos outros. A nossa cultura judaico-cristã é aliás exímia na segmentação da violência política, ou, melhor dizendo, da "violência na Política". Mas a violência sempre fez parte da Política e não começou propriamente no nosso tempo, com a dureza da ditadura castrista em Cuba, que aliás tinha boas razões para não poder ser muito mansa. Essa violência vem muito de trás. Das Cruzadas. Da Revolução Francesa. Do Colonialismo em África e nas Américas. Do esclavagismo, que é componente fundadora dos EUA modernos e parte integrante da desgraçada história da América Latina. Da revolução soviética e da chinesa. Da luta anti-imperialista. Do sofrimento dos palestinos. E da resistência legítima dos trabalhadores e sindicalistas, dos comunistas perseguidos, dos camponeses sem terra, das mulheres esmagadas pelo machismo, e das minorias LGBT. A violência é uma espécie de legitimação pragmática das soluções políticas de quem não pode ir a votos. Eu sou contra a violência na Política em Democracia, mas não sou contra toda a violência na Política em sistemas que ignoram os direitos mais básicos das pessoas e onde não existem válvulas de escape. Quando um agrário é abatido por um sem-terra nos confins da Rondônia brasileira, depois de ele mesmo ter morto muitos camponeses antes disso, eu também verto por ele uma furtiva lágrima, mas compreendo. Quando Fidel mandou abater o general Ochoa, que andara por Angola a amassar fortunas e a conspirar, eu também verto por ele uma furtiva lágrima, mas acho que só teve o único castigo possível. Mas não me venham agora, a propósito da morte natural de Fidel Castro, com essa conversa de mau-pagador, de quem se esqueceu de que a História avançou com sangue, suor e lágrimas e com muitas vítimas inocentes enterradas em valas comuns. Lembrem-se da Bósnia, lembrem-se de Aleppo, lembrem-se do que se passa agora nas Filipinas, lembrem-se disso tudo e mais do quem aí com Trump & amigos. E denunciem sempre os hipócritas do politicamente correcto e da memória curta. Sou Democrata, mas não sou parvo. A violência é uma coisa muito chata, mas às vezes faz muita falta. Sem ela, a História tinha parado há mil anos e não havia sequer Democracia nos dias de hoje. 

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por Augusta Clara às 14:35

Sábado, 26.11.16

FIDEL... - Luís Sepúlveda

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Luís Sepúlveda  FIDEL...

(No dia da morte de Fidel Castro)

 

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   La noticia llega con las primeras luces del día, tal vez con la misma intensa luminosidad del amanecer que vieron los tripulantes del "Gramma" en la costa de la isla antes de desembarcar y empezar la gesta que inauguró la dignidad latinoamericana.
En las pupilas de ese grupo de hombres y mujeres que tocaron la arena blanca de Cuba, iba también la luz de los caídos en el asalto al cuartel Moncada y, por eso, el brazalete con la leyenda"26 de Julio" era la gran identidad de aquellos que, como más tarde escribiría un argentino al que llamaban simplemente Che, daban el paso a la condición superior del insurgente, del rebelde, del militante, y se convertían en Guerrilleros.
La dignidad latinoamericana se inauguró de verde olivo y con olor a cordita, a pólvora, al sudor de las marchas selva adentro, a la fatiga combatiente que, lejos de cansar, entregaba más ánimo a la vocación justiciera de los guerrilleros, de los combatientes de Fidel, de "los barbudos" vestidos con retazos, armados de machetes zafreros y de las armas arrebatadas al enemigo en cada combate.
Los combatientes de Sierra Maestra, los guajiros, estudiantes y poetas, paso a paso, tiro a tiro, enseñaron a Latinoamérica que la estrella de Comandante Guerrillero era el distintivo del primero en el fragor de la lucha, del que combatía en primera fila, del que sembraba ejemplo y confianza en un destino superior.
Y mientras los guerrilleros del "26 de Julio" avanzaban por las sierras y las selvas, en todo el continente latinoamericano, desde el río Bravo hasta la Tierra del Fuego, los humildes alzaban sus banderas de harapos, "porque ahora la historia tendrá que contar con los pobres de América".
Hoy es un día de recogimiento revolucionario. Hoy es el día del dolor de aquellos que se atrevieron a dar el paso imprescindible, a romper con la existencia dócil y sumisa , y se unieron al camino sin retorno de la lucha revolucionaria.
¡Hasta la Victoria Siempre, Fidel! ¡Hasta la Victoria Siempre, Comandante Guerrillero!
 

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por Augusta Clara às 18:30



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