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Jardim das Delícias


Sábado, 16.07.16

"O presente de Deus" a Erdogan - José Goulão

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José Goulão  "O presente de Deus" a Erdogan

 

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Mundo Cão, 16 de Julho de 2016

 

   O presidente da Turquia, Recep Payyp Erdogan, afirma que a tentativa de golpe militar de sexta-feira foi um “presente de Deus”: vai permitir-lhe “limpar” as forças armadas.

Quem fala verdade não merece castigo, pelo que todos os deuses evitarão punir o autocrata turco, embora sabendo que muitos são os seus pecados.

E “limpezas” são a especialidade deste padrinho e protector de uma miríade de grupos de mercenários e terroristas entre os quais se destacam, para os que não estão lembrados ou o ignoram, o Daesh ou Estado e Islâmico e a Al-Qaida nos seus muitos e variados heterónimos.

Limpou o país da oposição, acusando os principais adversários de servirem os direitos nacionais curdos e ameaçando privá-los da nacionalidade turca. Para que não surgissem obstáculos à sua ascensão ao topo presidencial do poder fez manipular actos eleitorais através da propaganda, da censura e do medo, de tal modo que nem os observadores do Conselho a Europa e da OSCE, embora reconhecendo as irregularidades em privado, ousaram torná-las públicas e definitivas.

Limpou o aparelho judiciário e militar saneando centenas de juízes e os procuradores que denunciaram a corrupção governamental e da família Erdogan, designadamente a sua familiaridade pessoal e financeira com o banqueiro saudita Yassim al-Qadi, próximo de Bin Laden e conhecido internacionalmente como “o tesoureiro da Al-Qaida”. Por essa razão, está sob a mira da ONU, o que não o impede de deslocar-se a Ancara em avião privado para conviver e gratificar generosamente a família presidencial.

Vem limpando paulatinamente as forças armadas, mas este “presente de Deus”, como admitiu o próprio Erdogan, proporciona-lhe uma oportunidade de ouro para acelerar o processo. A partir de agora ruirá o maior obstáculo secular à confessionalização de um regime turco formatado em estrutura ditatorial e em teor fundamentalista islâmico.

Erdogan fala claro, disso não tenhamos dúvidas. Há 20 anos, em plena ascensão na carreira política, iniciada entre os fascistas e supremacistas “lobos cinzentos”, definiu a democracia como “um eléctrico que abandonamos quando chegamos à nossa paragem”. Recentemente falhou a consulta para impor uma Constituição “inspirada em Hitler” – as palavras são suas – de modo a consolidar um poder presidencial absoluto.

A seguir a esse intuito por ora fracassado, Erdogan começou então a receber “presentes de Deus”.

O atentado contra o aeroporto de Istambul parece ter sido um deles. Apear da autoria não ter sido reivindicada, Erdogan atribuiu-o ao Daesh, por conveniência da sua própria imagem internacional; mas por que razão os protegidos iriam atacar no coração do protector? Provavelmente por convergência de interesses – uma mão lava a outra, não é o que se diz? Um atentado é, sem dúvida, oportunidade de ouro para reforçar poderes de excepção e perseguir inimigos internos vários, mesmo que nada tenham a ver com a violência.

Quando ainda decorre o rescaldo do acto terrorista surge o golpe militar, com inegáveis debilidades de amadorismo num exército dos mais poderosos da NATO, precisamente com Erdogan ausente, “de férias”, circunstância excelente para um regresso triunfal, afirmativo, justificando limpezas. Deus não poderia ter sido mais generoso, em boa verdade.

Enfim, é a este ditador turco que a União Europeia paga anualmente três mil milhões de euros confiscados aos nossos impostos para impedir que cheguem à Europa os refugiados das guerras que os donos da Europa provocam. Para que conste, não há um vínculo formal entre o conselho Europeu e Erdogan sobre esta verba; foi estipulada apenas em comunicado de imprensa dos chefes de Estado e de governo da União Europeia.

Foi com este presidente turco que o governo francês negociou a garantia de não haver atentados do Daesh durante o Euro 2016, em troca do apoio à criação de um Estado curdo no Norte da Síria. Constatámos, da maneira mais trágica, que ao Daesh bastaram apenas quatro dias para se libertar do período de nojo, fazendo gato-sapato do securitarismo fanático e inconsequente de Hollande e Valls.

É a este presidente turco que a União Europeia ainda reconhece credenciais de democrata, apesar de o próprio rei Abdallah da Jordânia ter revelado o seu apoio ao Daesh, à Al-Qaida, ao contrabando de petróleo que serve de financiamento ao Estado Islâmico e de enriquecimento à mafia familiar de Erdogan.

Foi comovente – e patético – o apoio de grande parte da comunidade mediática a Erdogan durante as vicissitudes da tentativa de golpe e ao uso dos seus apoiantes como escudos humanos e carne para canhão nas ruas, praças e pontes das principais cidades da Turquia.

Entre a componente militar e a mafia governamental de Erdogan estavam em luta, durante a tentativa de golpe, dois conceitos de regime autoritário: um secular, outro fundamentalista islâmico. A democracia e os interesses populares não tinham nada a ver com aquela guerra entre elites interesseiras e pouco ou nada preocupadas com as pessoas.

O terrorismo islâmico, a guerra e a anarquia no Médio Oriente, porém, têm muito a ganhar com a absolutização do poder de Erdogan em Ancara. Ou seja, é impossível estar simultaneamente contra o terrorismo islâmico e temer pelo futuro político de Erdogan. A democracia não passa por aí, mas também já pouco se sabe dela nesta União Europeia.

Porém, quando a vida das pessoas está à mercê destes “presentes de Deus” é possível testemunharmos os acontecimentos e os ditos mais bizarros.

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por Augusta Clara às 20:00

Quarta-feira, 29.06.16

O Senhor Erdogan e os sarilhos que ele provoca - António Ribeiro

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António Ribeiro  O Senhor Erdogan e os sarilhos que ele provoca

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   Não, meu caros, eu não defendi o terrorismo como instrumento político, a propósito do Presidente Erdogan, que classifiquei como "islamo-fascista". Porque é disso que se trata; e os problemas que a sua ideologia política e religiosa coloca aos Europeus - a existência de um islamismo autoritário que fica apenas ligeiramente aquém dos exegetas do Corão e dos adeptos da Sharia - são imensos!

O Estado Turco tem quase oitenta milhões de pessoas, das quais cerca de 15 milhões são Curdos. Só os curdos-turcos são mais 50 por cento do que os Portugueses europeus! Concentram-se sobretudo no Sudeste da península da Anatólia (a parte asiática da Turquia). Acontece que o resto da Nação Curda está em parte na Síria e também no Norte do Iraque (e tem franjas em países limítrofes). De Mossul e Al-Raqqa, Síria Setentrional e até à Turquia tudo é Curdistão, uma nação e um povo de guerreiros que lutam legitimamente pela sua independência. A queda do decrépito Império Otomano, no final da Primeira Grande Guerra, permitiu ao imperialismo ocidental redesenhar os mapas da região e consagrar fronteiras que não correspondiam às realidades nacionais e culturais. Isso foi feito em torno (e por causa) dos então emergentes interesses petrolíferos, que ainda hoje envenenam toda a região. Foi neste contexto que nasceu o actual "Iraque", nos bíblicos deltas do Tigre e do Eufrates, a Mesopotâmia antiga do Velho Testamento.

| Foi nessa época que um arménio astuto, o Sr. Calouste Sarkis Gulbenkian, cuja família conseguiu escapar aos vários genocídios do início do século passado (que os Turcos negam ter existido, mas que o Papa Francisco já validou como tal), conseguiu construir o seu imenso império petrolífero, ora em disputa, ora em colaboração, com a British Petroleum (BP), de cujos frutos hoje tanto beneficiamos, em termos culturais e científicos, com a Fundação Gulbenkian, que os acasos da História e a sageza de Salazar atraíram para Portugal. |

O presidente Necip Erdogan tem um projecto para a Turquia: destruir paulatinamente a laicidade do país e impor-lhe um regime baseado numa visão musculada do Islão. Por enquanto sem "sharia", mas as dinâmicas que ele cria podem degenerar nisso.

O Ocidente devia apostar mais nos curdos e não apenas servir-se deles quando lhe convém. Um Curdistão independente permitiria conter a Turquia e federar franjas do Norte da Síria e o Norte do Iraque onde a ausência de um tal "Estado" foi aproveitada pelos radicais para "fundarem" o famigerado ISIS que tanto nos apoquenta.

É neste "caldo" de circunstâncias maçadoras e infelizes que escrevi, e com muita honra, que esta Turquia, que tanto queria ser "europeia", pretensão que há dez anos eu ainda apoiava, que Erdogan é o grande problema e o grande obstáculo e que me é rigorosamente indiferente a sua sorte e a do seu partido de regime.

Ele é um canalha que começou por apoiar o chamado "estado islâmico", porque o ISIS combatia os "seus" curdos, para agora, a troco de dinheiro, vir dizer-nos que o combate, em aliança com Bruxelas e os Americanos. Pura hipocrisia! Ele só pensa no Islão e nos interesses do seu partido. Tendo suporte eleitoral para alcançar maiorias absolutas, como tem tido, ele desmerece a Europa e não pode almejar à integração.

Como podemos aceitar um país na UE que fez regredir as mulheres para o estatuto de há muitas décadas? Uma mulher turca andava há vinte anos pelas ruas de Istambul de cabeça inteiramente destapada e em trajes ocidentais, mas hoje sente-se coagida a vestir o hijab, sob pena de ser desconsiderada socialmente e apelidada de "puta". Essa é a obra do Sr. Erdogan. E por isso, não obstante algumas vítimas "colaterais", não consigo ser excessivamente piedoso com as desgraças que lhe acontecem, como a desta terça-feira. Claro que lamento a má-sorte das vítimas, mas temos de contextualizar e de entender as razões profundas disto. Ele só está a provar do seu próprio veneno, não deve ser validado por Bruxelas e todos ganharíamos se o varressem do mapa!

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por Augusta Clara às 18:00

Terça-feira, 05.04.16

A Europa à mercê de um padrinho do terrorismo - José Goulão

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José Goulão  A Europa à mercê de um padrinho do terrorismo

 

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Mundo Cão, 3 de Abril de 2016

 

   É provável que ao estabelecerem o recente e vergonhoso acordo com o regime turco sobre os refugiados os dirigentes europeus não se tenham apercebido do longo e trágico alcance da sua medida oportunista. Ao colocarem-se ao dispor do poder de chantagem de Recep Tayyp Erdogan, o presidente da Turquia, deixaram não apenas a União Europeia, mas todo o continente, à mercê de um dos principais patronos do terrorismo islâmico, um ditador que vem seguindo metodicamente uma via de poder absoluto e cujas ondas de choque não serão contidas no interior das fronteiras do seu país.

Erdogan não é um político, é um homem que crê ter uma missão superior. “A democracia é um eléctrico que apanhamos para nos levar até onde queremos, e depois descemos”, disse há 20 anos este homem que chefia um regime de índole totalitária, em relação ao qual a NATO não manifesta qualquer reserva, antes pelo contrário. Agora que chegou à presidência turca, em eleições adulteradas e nas quais dispôs do incentivo de dois milhões de euros doados pela ditadura da Arábia Saudita, Erdogan já suprimiu da comunicação social as vozes incómodas e, do palácio branco das mil e uma noites que fez erguer, prepara-se para consolidar a ditadura islâmica interna e institucionalizar, sem quaisquer limites, a marginalização da minoria curda.

De Erdogan sabemos, por exemplo, que tem um convívio habitual e familiar com Yassin al-Qadi, o príncipe saudita conhecido, pela própria ONU, como o “banqueiro da al-Qaida”, ligação que chegou a ser denunciada pela justiça e a polícia turcas, o que custou o saneamento imediato de todos os envolvidos; sabemos que tem dado guarida à logística do terrorismo no Médio Oriente, “moderado” ou “radical”, assegurando condições para o treino, armamento e infiltração na Síria, ou o transbordo aéreo para outros países, da Líbia ao Iémen, de milhares de mercenários islamitas que tanto podem servir o “Exército Livre da Síria”, como a Al-Nusra, heterónimo da al-Qaida, como o Estado Islâmico e os seus heterónimos, conforme calha ou lhe convém; e também sabemos que a Turquia é o entreposto privilegiado, com envolvimento de navios fretados por Bilal, filho de Erdogan, do petróleo roubado pelo Estado Islâmico, sobretudo no Curdistão iraquiano, e de cujo contrabando tira proveito para financiar os seus massacres.

O que talvez muitos desconheçam sobre Erdogan é de onde vem o seu espírito de missão. Ele é oriundo da milícia Milli Gorus, a organização dos “lobos cinzentos” fascistas a que pertencia, por exemplo, Ali Agca, que tentou assassinar o Papa João Paulo II em 1981. Os supremacistas formados nessa milícia pan-turca consideram-se herdeiros dos hunos de Átila e do espírito duro e insensível do lobo das estepes da Ásia Central, características de uma raça pura e superior que adoptou os Islamismo como instrumento de expansão e afirmação. Entre esta maneira de pensar e o arianismo de Hitler descubra as diferenças.

O espírito pan-turco tem-se manifestado regularmente na História do país pelos massacres de não-turcos, como os cometidos pelo sultão Abdulhamid II, no final do século XIX, e pelos “jovens turcos” – apesar do seu carácter secular – contra os arménios e outras comunidades de cristãos, entre 1915 e 1923. Erdogan crê chegado o seu momento, e o alvo preferencial são agora os curdos.

Foi a este homem, aliás com as costas sempre bem protegidas pela NATO, que os dirigentes da União Europeia entregaram a Europa em troca da contenção dos refugiados e do seu repatriamento à força, violando essas coisas anacrónicas como são o direito internacional e os direitos humanos. Erdogan exigiu a Bruxelas três mil milhões de euros por ano para conter os refugiados da guerra da Síria, mantendo o poder discricionário de lhes abrir ou fechar as fronteiras europeias quando lhe interessa, e a verba foi garantida. Os chefes europeus asseguraram-lhe ainda que vão acelerar a integração turca na União e suprimiram os vistos de circulação com a Turquia. Os operacionais da al-Qaida ou do Estado Islâmico passam, deste modo, a mover-se muito mais facilmente, por exemplo, entre o Oriente e Bruxelas, ou Paris, ou qualquer recanto europeu.

Aliás nota-se que o regime turco dispõe já de um agudo poder premonitório sobre acontecimentos trágicos na Europa. O diário Star, órgão oficial do erdoganismo, encheu a capa com a manchete “A Bélgica Estado terrorista” na manhã de 22 de Março, isto é, em simultâneo com os atentados de Bruxelas. A acusação do jornal baseia-se no facto de a Bélgica acolher comunidades curdas e autorizar as suas manifestações contra a opressão turca.

Enquanto impõe a austeridade feroz contra os povos europeus, a União Europeia passa a entregar três mil milhões de euros por ano ao fascista Erdogan, a fundo perdido e sem garantias. Juncker, Donald Tusk e os chefes dos governos da União não podem garantir-nos, a partir de agora, que esses três mil milhões não sirvam para financiar atentados cometidos pelos protegidos de Erdogan, chamem-se Estado Islâmico, al-Qaida ou “moderados”, algures, a qualquer momento, em qualquer lugar da Europa.

Pelo que somos forçados a concluir que a famosa “guerra contra o terrorismo” nos principais Estados europeus serve, em primeiro lugar, para impor, paulatinamente, uma sociedade policial.

 

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por Augusta Clara às 15:40

Quinta-feira, 16.10.14

Turquia ataca curdos favorecendo o terrorismo islâmico - Charles Hussain, Beirute

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Charles Hussain, Beirute  Turquia ataca curdos favorecendo o terrorismo islâmico

 

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14 de Outubro de 2014

 

   O exército e a força aérea da Turquia estão a combater a guerrilha curda do PKK no Sudeste do país, a única força que se tem oposto militarmente à progressão dos terroristas do Exército Islâmico (EI) no Curdistão Iraquiano. No meio de uma polémica sobre a utilização das bases turcas pelos Estados Unidos alegadamente para combater o EI, as acções militares turcas traduzem, na prática, um apoio ao Estado Islâmico.
Numa ocasião em que numerosos governos do mundo, incluindo alguns da União Europeia, apelam à Turquia para auxiliar militarmente a resistência curda contra os mercenários do Estado Islâmico/Al Qaida e o seu “califado” que ocupa grande parte do Iraque e parte da Síria, “a resposta do presidente e governo turcos respeita a ordem natural das coisas”, de acordo com um deputado turco da oposição contactado telefonicamente em Ancara. “Entre apoiar os curdos, acompanhando a que parece ser, pelo menos em teoria, a posição ocidental, ou os terroristas islâmicos, o governo turco opta pelo Estado Islâmico ao virar-se contra o PKK no meio de um processo de negociações e quebrando um longo período sem combates”, prossegue a mesma fonte. “A trágica situação dos civis curdos iraquianos de Kebane não incomoda, por isso, os dirigentes turcos e lançar-lhes apelos é inútil”, diz.
Os ataques ordenados pelo presidente Recep Tayiep Erdogan e o primeiro ministro Ahmet Davutoglu representam um revés para o processo das negociações tendo em conta as mais recentes declarações do presidente do PKK, Abdullah Ocalan, segundo as quais o reinício das operações militares implicaria “o fim das conversações”.
“É interessante notar que que os contactos entre Ancara e o PKK têm funcionado como uma bandeira para Erdogan, que a exibiu mesmo na recente campanha em que foi eleito presidente, pelo que o recomeço da guerra significa o abandono dessa estratégia ou o fim do que foi uma desonesta manobra de diversão”, afirma Ahmed Kelani, professor turco em Beirute. “Ao combater os curdos numa altura em que estes são a única força que enfrenta realmente o Exército Islâmico – as acções americanas não têm passado de fogo de vista – Erdogan demonstra quão injusto é chamar ‘fundamentalista moderado’ ao regime turco. É fundamentalista, ponto”.
Kelani recordou os recentes escândalos envolvendo o actual presidente turco e alguns dos filhos, quando Erdogan era ainda primeiro ministro, que o fizeram proceder a um profundo saneamento persecutório na polícia e na justiça para silenciar e neutralizar os sectores que se ocupavam das investigações.
“Muita gente, até no Ocidente, acreditou na versão de que eram assuntos relacionados com quebras das sanções internacionais contra o Irão, quando na verdade o que os investigadores turcos apuraram foi um financiamento clandestino, ilegal e com dinheiros públicos do regime de Erdogan à Al Qaida através do tesoureiro saudita desta organização”, explica Ahmed Kelani.
Juntando a repressão histórica dos regimes turcos sobre a comunidade curda do país, as conhecidas relações entre Erdogan e o terrorismo islâmico, as facilidades que são concedidas em território e bases turcas ao recrutamento, treino e infiltração de mercenários islâmicos na Síria para derrubar o regime de Assad “é lógico concluir que a Turquia não está nada interessada em combater o Estado Islâmico, antes pelo contrário, dadas as afinidades que com ele existem”, prossegue Kelani.
O professor Kelani revela que as cumplicidades entre Ancara e o Estado Islâmico têm aspectos “ainda mais inquietantes e muito pouco conhecidos”. Por exemplo, sublinha, o “regime de Erdogan criou uma milícia fundamentalista designada Hezbollah, que nada tem a ver com o grupo libanês homónimo, constituída maioritariamente por mercenários curdos para combater o PKK e criar a sensação de que existe já uma guerra civil curda entre fundamentalistas islâmicos e os grupos nacionalistas laicos”.
Quanto às alegadas divergências sobre as autorizações à força aérea norte-americana para usar bases turcas no suposto combate ao Estado Islâmico, “isso tem muito mais de farsa do que de coisa séria”, diz Leila Qassim, jornalista libanesa relacionada com meios diplomáticos norte-americanos em Beirute. “Os Estados Unidos têm usado essas bases turcas, que estão ao serviço da NATO, para treinar terroristas do Estado Islâmico, da Al Qaida, da Frente Al Nursa e de outros grupos, ditos moderados ou radicais, que fomentam a guerra civil na Síria”, afirma. “Logo, também poderiam utilizá-las noutras missões, por exemplo combater o Estado Islâmico, se houvesse mesmo vontade para isso. Só que a vontade norte-americana é pouca e o Estado Islâmico é, no fundo, um motivo de convergência de interesses dos Estados Unidos, da Turquia, e também de Israel, relacionados com os novos arranjos territoriais que estão em desenvolvimento no Médio Oriente”, acrescenta Leila Qassim.

Charles Hussain, Beirute

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 15.10.14

Porque é que o mundo ignora os revolucionários curdos na Síria? - David Graeber(*)

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David Graeber(*)  Porque é que o mundo ignora os revolucionários curdos na Síria?

 

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Mulheres curdas em armas na defesa de Kobane

 

 

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   Em 1937, o meu pai ofereceu-se para lutar nas Brigadas Internacionais em defesa da República Espanhola. Um possível golpe fascista foi temporariamente interrompido por uma revolta operária, liderada pelos anarquistas e socialistas, a que se seguiu, em grande parte de Espanha, uma verdadeira revolução social, levando a que cidades inteiras fossem geridas de forma directa e democrática, as indústrias ficassem sob o controle dos trabalhadores e tivesse havido uma participação radical das mulheres.

Os revolucionários espanhóis esperavam criar um modelo de uma sociedade livre que pudesse ser seguido por todo o mundo. Em vez disso, as potências mundiais puseram em prática uma política de “não-intervenção” e mantiveram um rigoroso bloqueio à república, mesmo depois de Hitler e Mussolini, os signatários declarados, começarem a fazer chegar tropas e armas para reforçar o lado fascista. O resultado foram anos de guerra civil que terminaram com a repressão da revolução e alguns dos massacres mais sangrentos de um século sangrento.

Nunca pensei que, durante a minha própria vida, iria ver isto acontecer de novo. Obviamente, nenhum facto histórico acontece na realidade duas vezes. Há milhares de diferenças entre o que aconteceu em Espanha em 1936 e que está a acontecer hoje em Rojava, as três províncias de maioria curda do norte da Síria. Mas as semelhanças são tão impressionantes, e tão angustiantes, que sinto que é minha obrigação dizer, como alguém que cresceu numa família cuja acção política era, em muitos aspectos, definida pela revolução espanhola: não podemos deixar que tudo termine, outra vez, da mesma forma.

A Região Autónoma da Rojava, como existe hoje, é um dos poucos pontos brilhantes – ainda que seja muito brilhante – a emergir da tragédia da revolução síria. Depois de expulsar os agentes do regime de Assad, em 2011, e apesar da hostilidade de quase todos os seus vizinhos, Rojava não só manteve a sua independência, como constitui uma experiência democrática notável. Foram criadas assembleias populares enquanto órgãos de decisão final, os conselhos foram constituídos com um cuidadoso  equilíbrio étnico (em cada município, por exemplo, os três principais oficiais têm de incluir um curdo, um árabe e um assírio ou arménio cristão, e pelo menos um dos três tem que ser uma mulher), há mulheres e conselhos de juventude, e, num eco notável da organização “Mujeres Libres” (Mulheres Livres) de Espanha, existe um exército feminista, a milícia “YJA Star” (“União de Mulheres Livres “, a estrela refere-se à antiga deusa mesopotâmica Ishtar), que realizou uma grande parte das operações de combate contra as forças do Estado islâmico.

Como pode uma coisa destas acontecer e ser ainda ignorado quase por completo pela comunidade internacional, e mais ainda, em grande parte, pela esquerda internacional? Ao que parece, principalmente, porque o partido revolucionário de Rojava, o PYD, é aliado do Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK), um movimento de guerrilha marxista, que desde os anos 70 está envolvido numa longa guerra contra o Estado turco. A Nato, os EUA e a UE classificam-no oficialmente como uma organização “terrorista”. Enquanto isso, os esquerdistas, na sua maioria, descrevem-nos como stalinistas.

Mas, na verdade, o próprio PKK já não é absolutamente nada parecido com o velho partido leninista, de cima abaixo, que já foi. A sua própria evolução interna e a transformação intelectual do seu próprio fundador, Abdullah Ocalan, que aconteceu quando estava na preso numa ilha turca desde 1999, levaram-no a mudar completamente de objectivos e tácticas.

O PKK já declarou que nem sequer pretende criar um Estado curdo. Em vez disso, inspirado em parte pela visão do ecologista social e anarquista Murray Bookchin, adoptou a visão de “municipalismo libertário”, apelando aos curdos para criarem comunidades livres de auto-governo, com base nos princípios de democracia directa, que em conjunto podiam ultrapassar os limites das fronteiras nacionais – que se espera que, ao longo do tempo, se tornem cada vez mais sem sentido. Desta forma, a proposta que fazem é de que a luta curda se possa tornar um modelo para um movimento global em direcção a uma democracia genuína, uma economia cooperativa e a dissolução gradual da nação-estado burocrática.

Desde 2005, o PKK, inspirado na estratégia dos rebeldes zapatistas em Chiapas, declarou um cessar-fogo unilateral face ao Estado turco e passou a concentrar os seus esforços no desenvolvimento de estruturas democráticas nos territórios controlados por si. Alguns questionaram quão sério isto seria na realidade. De forma clara, continua a haver traços autoritários. Mas o que tem acontecido em Rojava, quando a revolução síria deu a oportunidade aos radicais curdos de realizarem experiências deste género num grande e contínuo território, sugere que isto é tudo menos uma obra de fachada. Conselhos, assembleias e milícias populares foram constituídos, as propriedades do regime foram entregues a cooperativas geridas pelos trabalhadores – e tudo isto apesar dos ataques continuados por parte das forças de extrema-direita do ISIS (Estado Islâmico). Os resultados vão de encontro a qualquer que seja a definição de uma revolução social. Pelo menos, no Médio Oriente estes esforços têm sido notados: sobretudo depois das forças do PKK e de Rojava terem aberto com êxito uma passagem através do território do ISIS no Iraque para salvarem milhares de refugiados Yezidi, presos no Monte Sinjar, após os peshmerga locais terem abandonado o terreno. Essas acções foram amplamente celebradas na região, mas curiosamente não receberam quase nenhuma atenção por parte da imprensa europeia ou norte-americana.

Agora, o ISIS voltou, com dezenas de tanques e artilharia pesada, de fabrico norte americano, capturados às forças iraquianas, para se vingar de muitas dessas mesmas milícias revolucionárias em  Kobane, afirmando a sua intenção de massacrar e escravizar – sim, literalmente escravizar – toda a população civil. Enquanto isto, o exército turco está na fronteira impedindo que reforços e munições cheguem aos defensores (de Kobane, ndt), e os aviões dos Estados Unidos fazem-se ouvir em ocasionais e simbólicos ataques rápidos – aparentemente, apenas para que não se diga que não fizeram nada quando um grupo, contra o qual afirma estar em guerra, esmaga os defensores de uma das grandes experiências democráticas do mundo.

Se se fizesse um paralelismo hoje com os falangistas de Franco, superficialmente devotos e assassinos, com quem seria senão com o ISIS? Se há um paralelismo com as Mujeres Libres da Espanha, com quem será senão com as mulheres corajosas que defendem as barricadas em Kobane? O mundo – e desta vez da forma mais escandalosa de todas, a esquerda internacional – vai ser outra vez cúmplice ao deixar que a história se repita?

(*) Artigo do antropólogo anarquista David Graeber publicado hoje [9 de Outubro] no “The Guardian”.

Tradução “Portal Anarquista”

sites anarquistas com informação sobre a situação na fronteira sirio-turca: 

https://www.facebook.com/WorkersSolidarityMovement?fref=ts

 http://www.alternativelibertaire.org/?Reportage-Photo-Les-anarchistes

em turco: https://www.facebook.com/anarsihaber

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 O grupo turco Acção Anarquista Revolucionária (DAF) veio reforçar a defesa de Kobane

 

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por Augusta Clara às 08:00



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