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Jardim das Delícias


Sábado, 21.10.17

Matança - José Goulão

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José Goulão  Matança

 

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abrilabril, 19 de Outubro de 2017

Ora a perda de cem vidas humanas, nas circunstâncias em que ocorreu – dois picos de vagas incendiárias muito concentradas no tempo e imprevisivelmente diversificadas no espaço –, não é um acidente: é uma matança, um selvático assassínio em série.

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 Ricardo Graça / Agência Lusa

 

   Anuncia-se que, por ora, as chamas estão extintas; fazem-se os enterros, recolhem-se os salvados, secam-se as lágrimas, respeita-se o luto, limpam-se os destroços, recontam-se as poupanças – se ainda as há – deitam-se mãos à obra porque a vida continua e sempre é menos dura sob o abrigo de um tecto. Até à próxima.

Sem surpresa, e como já percebemos, agora segue-se a campanha feroz contra o governo, exigem-se cabeças de ministros, sobe de tom a troca de soundbites como balas, exercita-se a caridadezinha público-privada, provavelmente teremos de assistir às repugnantes práticas de necrofilia política dos que, habituados a tratar mal os vivos jamais respeitarão os mortos.

Cem mortos e dezenas de feridos é o rescaldo provisório da hecatombe dos incêndios deste ano em Portugal. Ano após ano, fogos florestais sempre houve; mas não há memória de uma tragédia humana com esta envergadura, de uma insegurança, de um sentimento de fragilidade e de terror que se estende a todos os cidadãos que habitam no território português.

Onde havia jogos sujos de madeireiros e se apostavam grandes interesses imobiliários e florestais tornou-se este ano comum o sacrifício de vidas humanas. Salta à vista, sente-se no peito, que o País ficou desestabilizado num tempo em que, finalmente, recomeçava a olhar em frente.

Escrevi há dois meses que as circunstâncias qualitativamente diferentes dos fogos deste ano exigiam abordagens, medidas e respostas diferentes. Lembrei o caso, também único, do Verão de 1975, quando a multiplicação de incêndios, então centralizados no Alentejo, tinha como objectivo político não apenas a destruição da Reforma Agrária mas também a expansão de um clima de pânico que forçasse o país e os seus habitantes a desejarem um recuo drástico na Revolução.

E admiti a hipótese de estarmos agora perante uma desestabilizadora operação de terrorismo puro e duro, uma prática que, embora não pareça a quem se regula pela comunicação social dominante, não se cinge às malfeitorias do Daesh, nem sequer ao universo do radicalismo islâmico.

A menção ao terrorismo incomodou algumas pessoas, que logo a catalogaram na imensa pasta da «teoria da conspiração», onde afinal cabe tudo o que não corresponde às medidas autorizadas e padronizadas de análise político-militar-económica-financeira.

Ora a perda de cem vidas humanas, nas circunstâncias em que ocorreu – dois picos de vagas incendiárias muito concentradas no tempo e imprevisivelmente diversificadas no espaço –, não é um acidente: é uma matança, um selvático assassínio em série.

Figuras governamentais como o secretário de Estado da Administração Interna, mas principalmente os testemunhos doridos dos bombeiros e de serviços de protecção civil, dão-nos a certeza de que muitos dos focos de incêndio foram provocados por mãos humanas.

Nem poderia ser de outra maneira: milhares de fogos acumulados em quatro dias (grosso modo) – mais de 700 só no passado domingo – e tocando desordenadamente grande parte do território nacional, tornando insuficientes as desmultiplicações possíveis dos serviços e meios de socorro existentes, só podem ser fruto de uma estratégia coordenada movendo centenas de piões; ou então Portugal é um perigoso ninho de pirómanos adormecidos os quais, movidos por um misterioso surto epidémico, e cada um por si, decidem atear e reacender fogos praticamente ao mesmo tempo e em sítios diferentes. Só acredita nesta delirante saga hollywoodesca quem quiser.

Além disso, não há circunstâncias climáticas, por muito duras que sejam e alteradas que estejam, susceptíveis de se combinarem de forma nociva e convergente para provocarem os efeitos trágicos registados, porque se fazem sentir de maneiras diferentes em zonas distantes e diversificadas como as que foram atingidas pelos incêndios, principalmente na vaga mais recente.

«(...) o executivo arrisca-se agora a queimar grande parte do capital de prestígio que amealhou.»

Quando se escuta o primeiro-ministro de Portugal, porém, verifica-se que não existe intenção de abordar a hecatombe dos incêndios deste ano de acordo com particularidades específicas que saltam à vista – a menos relevante das quais não é, por certo, a matança de uma centenas de cidadãos portugueses.

Para o governo, tudo continua a acontecer devido às insuficiências do ordenamento florestal, em circunstâncias que são «estruturais e não conjunturais». Isto é, a «época de incêndios» deste ano foi igual às de há cinco, dez ou vinte anos, resultante das mesmas causas, ainda que as consequências tenham sido muito diferentes e mais graves. Assim sendo, apenas conseguimos observar o Estado a fugir da definição e da denúncia de um inimigo que não olha a meios, que manipula e liquida a vida de cidadãos portugueses desde que isso sirva os seus fins.

Num país onde os serviços de espionagem se entretêm a espiolhar os cidadãos porque cada um de nós pode ser um terrorista islâmico em potência, quiçá um perigoso anti-neoliberalista, ou em que os detidos por atear incêndios são olhados como «lobos solitários», e depois quase sempre libertados, parece não haver condições para investigar o que poderá existir por detrás de cada alegado pirómano.

Ou será que os serviços de segurança e de investigação criminal não terão disponibilidade para se ocuparem de todas as possíveis pistas que possam esclarecer a morte de uma centena de portugueses? Mortes que foram assassínios, pois, segundo tantos testemunhos, houve fogos desencadeados de modo a dificultar ao máximo, ou até tornar impossíveis as operações de salvamento.

Este quadro deixa-nos a sensação de que a palavra «terrorismo» aplicada aos incendiários queima os sofisticados circuitos dos gadgets dos agentes de espionagem. Ora basta que alguém dê um piparote num bobby no Hide Park de Londres ou um sopapo num flic à entrada do Jardim das Tulherias, em Paris, para que estejamos perante atentados terroristas que dão instantaneamente a volta ao mundo e suscitam novas e cada vez mais apertadas medidas de segurança afectando comunidades inteiras; em Portugal, eventuais teias incendiárias assassinam cem pessoas e parece não haver interesse da comunidade de investigação, ou vontade política para esquadrinhar todas as circunstâncias até à mais recôndita hipótese.

As medidas de reordenamento florestal são essenciais, os pareceres científicos de uma laureada Comissão Técnica Independente serão valiosos; esses resultados, porém, seriam mais úteis e de efeito geral maximizado se acompanhados pelo despiste de todas as eventualidades criminosas, incluindo a hipótese terrorista, associadas aos incêndios em Portugal.

Se, por um acaso tão frequente por essa Europa afora, um qualquer indivíduo fizesse um telefonema reivindicando para o Daesh a autoria da vaga de fogos no território português, não faltaria quem gritasse «terrorismo, terrorismo!».

Porém, tal não aconteceu, e ainda bem: a tragédia é um acontecimento entre portugueses e qualquer manobra desse tipo criaria um ruído que nos deixaria ainda mais longe da realidade. Já é suficientemente gravoso que o Estado se exima de fazer aquilo que o mais comum dos sensos aconselharia para segurança dos portugueses: uma exaustiva investigação criminal.

A ausência de uma acção enérgica de investigação e a insistência numa gestão comum de circunstâncias recorrentes fragilizam o governo, transformam-no em bombo da festa que se põe a jeito, à mercê dos políticos sem escrúpulos que se movimentam na oposição, dos pescadores de águas turvas que medram no lodo da instabilidade, e, sem dúvida, dos que estão por detrás da estratégia incendiária.

É fartar vilanagem, com a comunicação social na dianteira, tocando a rebate, usando os mortos para disseminar recados exigindo demissões ministeriais, ou até de todo o governo. O terror, o boato e a mentira sempre foram pilares da desestabilização. Existe, porém, um facto dispensando apresentação de prova: o agravamento do fenómeno incendiário que se regista em Portugal coincide com a vigência de um governo que, além de ser uma lufada política de ar fresco, quebrou tabus, pôs em causa doutrinas manipuladoras que apodreciam a democracia portuguesa.

Um governo que, apesar das suas enormes limitações e das flagrantes tibiezas, como a situação presente demonstra, inquieta sistemas e poderes instalados, inventores de normas arbitrárias que lhes garantem privilégios por uma espécie de usucapião.

Porém, encolhido e defensivo quando teria tudo a seu favor, incluindo o apoio das populações, se optasse por uma estratégia determinada e enérgica que conduzisse ao levantamento da realidade incendiária até às últimas consequências, o executivo arrisca-se agora a queimar grande parte do capital de prestígio que amealhou.

Vulneráveis a campanhas de propaganda sem escrúpulos, enredados numa teia de insegurança e até de terror, os portugueses poderão não perdoar ao governo os efeitos da gestão burocrática de uma situação que adquiriu uma gravidade excepcional. Entretanto, moções de censura contra o executivo entram no Parlamento; algures, por detrás da teia de «lobos solitários», os verdadeiros pirómanos terroristas agradecem as hesitações de uns, o descaramento de outros, enquanto esfregam as mãos. E continuarão a matança, até que se sintam recompensados e satisfeitos.

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por Augusta Clara às 15:41

Sexta-feira, 27.01.17

O polimento da tragédia Obama - José Goulão

 

 

   Recordemos palavras de Barack Obama no seu último discurso sobre o Estado da União: «A América é a nação mais forte da Terra. As nossas despesas militares são superiores às despesas conjuntas das oito nações que nos seguem. As nossas tropas formam a melhor força combatente da história do mundo».

 
Poderia chamar-lhe o discurso do imperador, mas não façamos disso um cavalo de batalha quando há tanta gente empenhada em descobrir um Obama que não existiu, como forma de esconjurar os legítimos receios com a entrada na Casa Branca de um sujeito como Trump.

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Obama não é melhor presidente do que alguma vez foi porque Donald Trump escancarou as portas da mansão presidencial como as de um saloon, semeou dourados pela decoração e pôs as botifarras em cima da mesa oval para assinar a sentença de morte do «Obamacare» e ditar que, para ele, o comércio livre é outra coisa.

Poucos dias antes de pronunciar as citadas palavras imperiais, o então ainda presidente Obama anunciara que o mais recente pacote de despesas militares inclui novos poderes para as 17 agências federais de espionagem, de modo a «contrariar a desinformação e propaganda», alegadamente fomentadas por outras potências; desse esforço, 17 mil milhões de dólares são dedicados à cibersegurança, isto é, à espionagem informática universal – as lendas sobre o papel da Rússia na eleição de Trump serviram assim de pretexto mais actual, como fato feito por medida.

Expansão militar universal, mentira e propaganda foram, portanto, as derradeiras mensagens deixadas pelo presidente Obama, o que torna ainda mais surpreendente o escândalo de tantas boas almas mainstream com a capacidade de Trump para entrar em funções logo a mentir descaradamente. Não descobriram ainda que a mentira é um comportamento inerente ao cargo de presidente dos Estados Unidos da América (e de outros, claro)? Um mentiroso pode ser mais ou menos boçal, mas não deixa de mentir.

«É relevante notar que enquanto tratava assim, e mal, da saúde dos seus compatriotas, Barack Obama e a sua administração tornavam-se responsáveis por massacres massivos de seres humanos em todo o mundo, que não andarão muito longe de um milhão de vítimas.»

Por isso, antes de nos dedicarmos a Donald Trump – infelizmente razões não faltarão nos tempos que aí vêm – passemos uma sintética vista de olhos sobre o testamento político de Obama, esse sui generis Nobel da Paz, quanto mais não seja como antídoto perante a campanha de mistificação e de polimento dos seus catastróficos mandatos.

É sintomático que venha imediatamente à superfície uma única realização quando pretendem passar-se em revista as supostas preocupações «sociais» da gestão Obama/Hillary Clinton/John Kerry: «Obamacare». Além de não ser, no final, nada daquilo que esteve para ser no início, a suposta reforma do sistema de saúde em benefício dos mais desfavorecidos foi, essencialmente, um bónus para as companhias seguradoras e para o totalitário sistema privado de saúde à custa dos contribuintes – incluindo os mais desfavorecidos – e dos cofres públicos federais.

É relevante notar que enquanto tratava assim, e mal, da saúde dos seus compatriotas, Barack Obama e a sua administração tornavam-se responsáveis por massacres massivos de seres humanos em todo o mundo, que não andarão muito longe de um milhão de vítimas.

Às guerras do Afeganistão e do Iraque – com que não acabou, antes alimentou – somam-se a destruição terrorista da Líbia, a catástrofe humanitária gerada na Síria, a tragédia no Iémen, os golpes e contragolpes no Egipto, as fraudes da suposta guerra contra o terrorismo, incluindo comprovados patrocínios da actividade de grupos de mercenários como a al-Qaida e o Daesh, a realização do golpe fascista na Ucrânia e da sequente guerra civil, o estabelecimento do recorde de execuções extra judiciais através de drones e outros métodos de liquidação.

Sem esquecer o constante apoio à transformação de Israel num Estado confessional e fascista que tornou de facto impraticável a tão falada «solução de dois Estados» na Palestina; ou a manutenção da vergonha torcionária de Guantánamo, enquanto dava passos em direcção a um aparente fim do bloqueio a Cuba – que, afinal, se mantém inquebrável.

A tão recente e celebrada abstenção norte-americana permitindo ao Conselho de Segurança da ONU aprovar uma moção condenando o colonialismo israelita não passa de uma manobra cínica e hipócrita. Se Obama tivesse tomado a mesma atitude há oito anos, talvez ainda houvesse margem de pressão internacional susceptível de forçar o fascismo sionista a corrigir o rumo. Mas Barack Obama, quando teve poder real, alinhou sempre, em última análise, no jogo anexionista de Israel; agora, conhecendo o que vai ser a prática de Trump nessa matéria, o gesto é inconsequente, apenas destinado a entrar na História sem fazer História.

Sob a gestão de Barack Obama, o número de países onde as forças especiais dos Estados Unidos fazem guerra passou de 75 para 135. Há meia dúzia de dias, tanques de última geração, mísseis de cruzeiro de longo alcance preparados para transportar ogivas nucleares e uns milhares de soldados norte-americanos foram instalados em nova base militar na Polónia.

A produção e o tráfico de heroína atingiram novos máximos nos últimos anos, graças às condições extremamente favoráveis criadas no Afeganistão e no Kosovo, territórios onde se vive sob a bandeira tutelar da NATO.

E o insuspeito The New York Times revelou que grupos como a al-Qaida e o Daesh foram financiados em milhares de milhões de dólares pelas petroditaduras do Golfo, fortunas essas canalizadas através de uma rede internacional gerida pela CIA.

Expansão, mentira e terror são pilares de qualquer doutrina económica e financeira fascista; pilares esses em que a administração Obama se apoiou sem reservas. Por isso, é injusto acusar Donald Trump de a eles recorrer como se fossem coisas inerentes a um tipo de gestão pessoal e exclusivo.

Democrata ou republicano, neoliberal ou ultranacionalista, deixemos os rótulos de lado. À primeira vista estamos perante duas abordagens diferentes da gestão presidencial, mas não apostemos em qualquer engano do establishment. Obama e Trump: cada um chegou em seu tempo e em determinadas circunstâncias para defender os mesmos interesses.

Podemos estar, porém, perante a explosão de grandes contradições associáveis a um capitalismo mergulhado numa crise a que nem sequer tem valido a fé inabalável no autocontrolo do mercado e na teoria dos ciclos sucessivos. O neoliberalismo puro e duro, assente na globalização, terá atingido os seus limites? Serão necessárias outras receitas, velhas ou renovadas?

Temos pela frente a procura de respostas e a definição de acções perante um novo cenário – mas que não sejam inconsequentes ou folclóricas. Para trás ficou Obama, no cumprimento da sua missão, tão hipócrita como sinistra e sangrenta, na «defesa da democracia». Não será a truculência de Trump – óbvia mas de consequências imprevisíveis – que fará do antecessor um presidente menos péssimo e nefasto do que foi.

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por Augusta Clara às 15:15

Sábado, 06.08.16

Líbia, uma obra-prima da NATO - José Goulão

Este Daesh líbio que agora o Pentágono combate é o mesmo de que a NATO se serviu para silenciar Khaddafi

Este Daesh líbio que agora o Pentágono combate é o mesmo de que a NATO se serviu para silenciar Khaddafi

Foto de Ilustração de Amjad Rasm

 

 

AbrilAbril, 4 de Agosto de 2016

 

   Quem desejar conhecer os exemplos dos resultados mais relevantes da cruzada democratizadora que a NATO desenvolve um pouco por todo o mundo poderá estudar a democracia afegã – e não ficará mal servido. Eleições falsificadas para manter os políticos convenientes nos cargos públicos, uma guerra interminável e cada vez mais privatizada, para gáudio das multinacionais de segurança, mercenários e armamentos, e, acima de tudo, o paraíso monopolista da indústria mundial de heroína, fazendo empalidecer a Colômbia como Meca da coca e derivados, transformando os barões mexicanos da droga em pouco mais que merceeiros.

Ou poderia analisar os case studies da Polónia e da Ucrânia – e outros com inegáveis afinidades; a Polónia sob ocupação militar da própria NATO, tal é a parafernália guerreira ali instalada; a Ucrânia transformada em campo de formação de grupos de assalto nazis e de bandos de mercenários islâmicos treinados por oficiais norte-americanos «na reserva», com o pretexto de que a ameaça putinista não abranda enquanto o mundo não se transformar numa gigantesca Crimeia; e ambos os países demonstrando como a democracia moderna, a favorita da Aliança Atlântica, convive com o fascismo tal e qual Deus e os anjos.

Tratando-se todos eles de casos meritórios, permitam-me, contudo, que escolha a Líbia de hoje como obra-prima da NATO. É que nunca qualquer ideólogo, por mais retorcido e criativo que fosse ou seja, conseguiu imaginar algo tão democrático.

Na Líbia, ao que consta, aviões militares norte-americanos, isto é, da NATO, travam a guerra final contra o Daesh, ou pelo menos para retirar a estes mercenários ambulantes o controlo do Golfo e da costa de Sirte, por acaso – por mero acaso – o maior centro da indústria petrolífera líbia. Na Líbia, pelo menos agora, o Pentágono pode dar largas à sua tão propagandeada batalha «contra o Daesh» sem estar obrigado a conter-se, como acontece por exemplo na Síria. Aqui, tal ofensiva não pode ser plena para não se transformar em «fogo amigo» e vitimar os terroristas «moderados» que lutam ao lado do Daesh e da al-Qaida, ou para não prejudicar o objectivo prioritário de aniquilar o governo da Síria, ou ainda para não aborrecer Israel, que «não quer a derrota do Isis na Síria», segundo o seu chefe da espionagem militar. Este Daesh líbio que agora o Pentágono combate é o mesmo de que a NATO se serviu para silenciar Khaddafi – como os dirigentes de Paris tanto queriam – e no qual a CIA e correlativos recrutaram os chefes para infiltrar o terrorismo islâmico na Síria, por exemplo Abelhakim Belhadj, identificado pela Interpol como «chefe do Estado Islâmico no Magrebe».

Na Líbia, o país maior produtor de terroristas islâmicos per capita, confrontam-se hoje vários governos, numerosas milícias e hordas de mercenários, dezenas de senhores da guerra e respectivos exércitos tribais. Isto é, poucas democracias serão tão ricas, multifacetadas e plurais como a que a NATO criou na Líbia.

Há o governo do Congresso Geral Nacional (CGN) em Trípoli, assente numa coligação islamita «de salvação nacional» que não aceitou os resultados gerais das eleições de 2014, por um lado porque as perdeu; por outro lado, invocando uma razão óbvia: alguém no seu juízo perfeito pode ter como referência eleições feitas numa situação caótica e de terror como a líbia?

«Enfim, cinco anos e mais de duas centenas de milhares de mortos depois, a Líbia tem um "governo unificador" com mandato da ONU em Trípoli (...).»

A coligação islamita assenta na Irmandade Muçulmana, com apoio mais ou menos tácito do Ansar al-Sharia (heterónimo líbio da al-Qaida) e sustentada internacionalmente por reconhecidas democracias como o Qatar, o Sudão, a Turquia de Erdogan e, na sombra, a Arábia Saudita. Esta coligação tem como inimigos jurados o Egipto dos generais e os Emirados Árabes Unidos, que de vez em quando a bombardeiam por motivos também inspirados na transparente democracia que ambos os Estados praticam – de tal modo que os Emirados se transformaram num farol para alguns dirigentes europeus, como o actual primeiro-ministro italiano Matteo Renzi.

O CGN de Trípoli, no entanto, parece já não estar apenas por conta própria e dos países que o apoiam. Testemunhou recentemente o seu apoio ao Governo do Acordo Nacional, uma descoberta da ONU que simula um entendimento entre muitas facções para a formação de um «governo unido» em Trípoli. Neste momento, portanto, a diplomacia da ONU e o «islamismo» moderado flirtando com a al-Qaida e apoiado pelo democrata Erdogan fingem que existe uma rota de unificação na Líbia que todos percorrem.

Porém, na Cirenaica, em Tobruk, existe o governo do «Conselho dos Deputados». Junta forças vitoriosas das eleições de 2014, usufrui, em princípio, do reconhecimento internacional e beneficia dos apoios do Egipto, dos Emirados Árabes Unidos e dos serviços secretos de grandes potências da NATO como a França, o Reino Unido e os Estados Unidos. A morte de três espiões franceses na Líbia, em 17 de Julho, escancarou o tipo de envolvimento da espionagem internacional no apoio a esta facção. Como se percebe, nem todas as aventuras dos expeditos agentes secretos acabam em glória como as do James Bond.

A par do «Conselho de Deputados» em Tobruk existe uma espécie de exército regular líbio, também reconhecido internacionalmente, comandado pelo general Khalifa Haftar, um antigo dissidente da estrutura dirigente de Khaddafi. Nesse cenário emerge agora a figura de Saif Islami, o filho sobrevivente de Khaddafi, recentemente libertado da prisão e que vai mobilizando mais apoios políticos do que seria de supor.

Enfim, cinco anos e mais de duas centenas de milhares de mortos depois, a Líbia tem um «governo unificador» com mandato da ONU em Trípoli, ao qual se associou a coligação islamita «moderada», discretamente apoiada pela al-Qaida, Qatar, Arábia Saudita e por um membro da NATO como a Turquia; caças norte-americanos, logo da NATO, usam o espaço aéreo do país como coisa sua para combaterem um grupo terrorista que vão poupando noutros lados, por exemplo na Síria; entretanto, o governo reconhecido internacionalmente, que não é o da ONU, continua instalado em Tobruk com o apoio exposto do Egipto e dos Emirados Árabes Unidos e encoberto dos serviços secretos das principais potências da NATO – Estados Unidos, França e Reino Unido. A alegada legitimidade eleitoral e o apoio da ONU estão em campos opostos enquanto os membros da NATO distribuem o seu apoio por várias facções, incluindo a do filho do dirigente que derrubaram e silenciaram.

A democracia da NATO brilha na Líbia em todo o seu esplendor.

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por Augusta Clara às 08:00

Segunda-feira, 01.08.16

Israel sofre as dores do DAESH - José Goulão

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José Goulão  Israel sofre as dores do DAESH

 

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Mundo Cão, 31 de Julho de 2016

   O general Herzi Halevy, chefe dos serviços de espionagem militar do Estado de Israel, declarou recentemente, numa conferência em Herzlia, que “não queremos a derrota do Daesh (ou Isis, ou Estado Islâmico) na Síria”. Os seus “actuais insucessos colocam Israel numa posição difícil”, lamentou, de acordo com uma transcrição publicada no jornal Maariv, conotado com a direita política sionista.

A última coisa de que o general Halevy pode ser acusado é de usar uma linguagem hermética, hipócrita, ao contrário de tantos dirigentes políticos mundiais, de Hollande a Obama, de Mogherini a Hillary Clinton, do secretário-geral da NATO aos autocratas da União Europeia. Ele é directo, fala com clareza, respeitando, aliás, a prática do seu primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, que se deixa fotografar em hospitais israelitas visitando terroristas da Frente al-Nusra (al-Qaida) feridos durante a agressão à Síria soberana.

“Está fora de questão” que o Daesh “venha a ser derrotado na Síria”, prosseguiu o general Herzi Halevy, embora sem explicar o que tencionam fazer Israel e os seus aliados para evitar que os terroristas, ao que se diz combatidos pela “coligação internacional” onde se juntam os principais parceiros políticos e militares do exército israelita, sejam sacrificados pelas instituições sírias. Também não devemos esperar que um militar com tão secretas funções seja um boquirroto.

As declarações do chefe da espionagem militar israelita apenas devem ser consideradas intrigantes num aspecto: de que modo podem ser conjugadas com a propaganda norte-americana – e a europeia, por arrastamento – à luz da “aliança indestrutível” entre Israel e os Estados Unidos, na verdade dois países geminados nos termos dos famosos postulados de Henry Kissinger? O general Halevy foi factual, mas a sua franqueza confirma ao mundo que o envolvimento dos Estados Unidos e dos seus aliados da NATO na guerra contra o Daesh, pelo menos na Síria, não passa de um conto da carochinha para tentar amainar a revolta da opinião pública perante os atentados terroristas, principalmente na Europa.

Nas últimas semanas, a imprensa norte-americana, designadamente o New York Times, tem vindo a explicar que o pretenso combate apoiado militarmente pelos Estados Unidos contra o Daesh sofre de duas condicionantes de vulto: por um lado, tem de levar em consideração que os terroristas “moderados” sustentados pelo Pentágono e a NATO combatem quase sempre sob o comando operacional ou do Daesh ou da al-Qaida, pelo que, nestas circunstâncias, a “coligação internacional” não pode actuar em pleno, mesmo que queira, o que também ninguém garante; em segundo lugar, a mesma “coligação” abstém-se de agir contra o seus alegados inimigos sempre que estes estejam em posições que lhes permitam contribuir para a derrota do governo sírio, objectivo que parece ser a prioridade comum. De Washington, das principais capitais europeias e dos meios financeiros e mafiosos que manipulam a constelação mercenária do terrorismo dito islâmico.

Chegados a este ponto, as coisas fazem todas sentido e não existe qualquer contradição entre as declarações do superespião israelita e a prática dos principais aliados de Israel. Halevy diz o que todos pensam e executam, embora só ele possa expressar-se sem papas na língua. Israel não tem necessidade alguma de apregoar o seu empenho no combate ao terrorismo, uma vez que a sua intimidade com a conspiração e a prática terrorista é histórica, faz parte da essência do próprio Estado.

Já os Estados Unidos, tal como a França, o Reino Unido e outros aliados estão oficialmente do lado do combate ao terrorismo – originalmente a “guerra contra o terrorismo” de George W. Bush – e, por isso, sentem necessidade de, a cada passo, disfarçarem as suas evidentes cumplicidades com o Daesh e afins, tentando não ser vergonhosamente manchados com o sangue dos seus concidadãos vítimas do terrorismo. O êxito é limitado, mas o terrorismo mediático vai conseguindo esconder a verdade de grandes sectores da opinião pública.

No entanto, o que verdadeiramente conta para todos, em primeiro lugar e neste momento, é derrubar o governo legítimo e soberano da Síria, fazendo esse grande favor a Israel mesmo que isso signifique entregar o todo ou parte do território sírio ao Daesh, al-Qaida e parentes. Uma tal estratégia faz gato-sapato da ONU, do direito internacional e dos direitos humanos, mas quem os leva ainda a sério?

O general Halevy falou por todos: “A derrota do Isis na Síria está fora de causa”. Ou seja, destruir a Síria soberana é o objectivo último dos terroristas e dos que dizem combatê-los

Está dito e ficamos informados. Melhor do que nunca.

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 23.07.16

O terrorismo que Deus nos mandou - Augusta Clara de Matos

 

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   Há coisas que me deixam de boca aberta pelo inacreditável do que oiço. Que estes ataques isolados não têm solução, dizia há bocado um militar de alta patente (reformado) em comentário televisivo; que o presidente Hollande não pode fazer nada perante este tipo de terrorismo - afinal sempre serão islâmicos e ele acha que uma sanção moral (feita por quem?) será mais eficaz para os combater do que outros meios -; que têm uma analogia com a guerra de guerrilha.

Bom, eu não sou nem nunca fui militar mas, tanto quanto todos sabemos, as guerras de guerrilhas, apesar de usarem métodos de combate diferentes das guerras clássicas, não se fazem sem comandos que os adversários procuram atingir.

E, então, agora não há nada a fazer? Estas acções não têm por detrás uma ideologia politico-civilizacional-religiosa expansionista cuja inspiração e incentivo vem do tal Estado Islâmico ou DAESH neste momento com fronteiras estabelecidas numa determinada região? Alguma vez se registariam diariamente os crimes que estão a acontecer sem haver um direcção que encaminhasse e encorajasse todos os descontentamentos?

O que é impossível é que este ambiente de terror passe a ser a vida do dia-a-dia dos cidadãos de qualquer país, enquanto os incapazes governantes, mais responsáveis que ninguém do seu terramoto vivencial, vão fazendo as suas fictícias guerras privadas às origens do fenómeno, com alta penalização em número de vidas das populações da Síria, por exemplo, em vez de concertarem entre eles a derrota do que armaram no verdadeiro sentido do termo. Ou querem entregar-nos a todos de mão beijada e partirem de reforma para algum paraíso, fiscal já agora?

Na minha opinião, e estando consciente do aproveitamento que a extrema-direita faz desta situação, era o que os cidadãos europeus deviam começar a exigir: desfaçam o nó que nos ataram ao pescoço!

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por Augusta Clara às 10:00

Sábado, 16.07.16

"O presente de Deus" a Erdogan - José Goulão

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José Goulão  "O presente de Deus" a Erdogan

 

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Mundo Cão, 16 de Julho de 2016

 

   O presidente da Turquia, Recep Payyp Erdogan, afirma que a tentativa de golpe militar de sexta-feira foi um “presente de Deus”: vai permitir-lhe “limpar” as forças armadas.

Quem fala verdade não merece castigo, pelo que todos os deuses evitarão punir o autocrata turco, embora sabendo que muitos são os seus pecados.

E “limpezas” são a especialidade deste padrinho e protector de uma miríade de grupos de mercenários e terroristas entre os quais se destacam, para os que não estão lembrados ou o ignoram, o Daesh ou Estado e Islâmico e a Al-Qaida nos seus muitos e variados heterónimos.

Limpou o país da oposição, acusando os principais adversários de servirem os direitos nacionais curdos e ameaçando privá-los da nacionalidade turca. Para que não surgissem obstáculos à sua ascensão ao topo presidencial do poder fez manipular actos eleitorais através da propaganda, da censura e do medo, de tal modo que nem os observadores do Conselho a Europa e da OSCE, embora reconhecendo as irregularidades em privado, ousaram torná-las públicas e definitivas.

Limpou o aparelho judiciário e militar saneando centenas de juízes e os procuradores que denunciaram a corrupção governamental e da família Erdogan, designadamente a sua familiaridade pessoal e financeira com o banqueiro saudita Yassim al-Qadi, próximo de Bin Laden e conhecido internacionalmente como “o tesoureiro da Al-Qaida”. Por essa razão, está sob a mira da ONU, o que não o impede de deslocar-se a Ancara em avião privado para conviver e gratificar generosamente a família presidencial.

Vem limpando paulatinamente as forças armadas, mas este “presente de Deus”, como admitiu o próprio Erdogan, proporciona-lhe uma oportunidade de ouro para acelerar o processo. A partir de agora ruirá o maior obstáculo secular à confessionalização de um regime turco formatado em estrutura ditatorial e em teor fundamentalista islâmico.

Erdogan fala claro, disso não tenhamos dúvidas. Há 20 anos, em plena ascensão na carreira política, iniciada entre os fascistas e supremacistas “lobos cinzentos”, definiu a democracia como “um eléctrico que abandonamos quando chegamos à nossa paragem”. Recentemente falhou a consulta para impor uma Constituição “inspirada em Hitler” – as palavras são suas – de modo a consolidar um poder presidencial absoluto.

A seguir a esse intuito por ora fracassado, Erdogan começou então a receber “presentes de Deus”.

O atentado contra o aeroporto de Istambul parece ter sido um deles. Apear da autoria não ter sido reivindicada, Erdogan atribuiu-o ao Daesh, por conveniência da sua própria imagem internacional; mas por que razão os protegidos iriam atacar no coração do protector? Provavelmente por convergência de interesses – uma mão lava a outra, não é o que se diz? Um atentado é, sem dúvida, oportunidade de ouro para reforçar poderes de excepção e perseguir inimigos internos vários, mesmo que nada tenham a ver com a violência.

Quando ainda decorre o rescaldo do acto terrorista surge o golpe militar, com inegáveis debilidades de amadorismo num exército dos mais poderosos da NATO, precisamente com Erdogan ausente, “de férias”, circunstância excelente para um regresso triunfal, afirmativo, justificando limpezas. Deus não poderia ter sido mais generoso, em boa verdade.

Enfim, é a este ditador turco que a União Europeia paga anualmente três mil milhões de euros confiscados aos nossos impostos para impedir que cheguem à Europa os refugiados das guerras que os donos da Europa provocam. Para que conste, não há um vínculo formal entre o conselho Europeu e Erdogan sobre esta verba; foi estipulada apenas em comunicado de imprensa dos chefes de Estado e de governo da União Europeia.

Foi com este presidente turco que o governo francês negociou a garantia de não haver atentados do Daesh durante o Euro 2016, em troca do apoio à criação de um Estado curdo no Norte da Síria. Constatámos, da maneira mais trágica, que ao Daesh bastaram apenas quatro dias para se libertar do período de nojo, fazendo gato-sapato do securitarismo fanático e inconsequente de Hollande e Valls.

É a este presidente turco que a União Europeia ainda reconhece credenciais de democrata, apesar de o próprio rei Abdallah da Jordânia ter revelado o seu apoio ao Daesh, à Al-Qaida, ao contrabando de petróleo que serve de financiamento ao Estado Islâmico e de enriquecimento à mafia familiar de Erdogan.

Foi comovente – e patético – o apoio de grande parte da comunidade mediática a Erdogan durante as vicissitudes da tentativa de golpe e ao uso dos seus apoiantes como escudos humanos e carne para canhão nas ruas, praças e pontes das principais cidades da Turquia.

Entre a componente militar e a mafia governamental de Erdogan estavam em luta, durante a tentativa de golpe, dois conceitos de regime autoritário: um secular, outro fundamentalista islâmico. A democracia e os interesses populares não tinham nada a ver com aquela guerra entre elites interesseiras e pouco ou nada preocupadas com as pessoas.

O terrorismo islâmico, a guerra e a anarquia no Médio Oriente, porém, têm muito a ganhar com a absolutização do poder de Erdogan em Ancara. Ou seja, é impossível estar simultaneamente contra o terrorismo islâmico e temer pelo futuro político de Erdogan. A democracia não passa por aí, mas também já pouco se sabe dela nesta União Europeia.

Porém, quando a vida das pessoas está à mercê destes “presentes de Deus” é possível testemunharmos os acontecimentos e os ditos mais bizarros.

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por Augusta Clara às 20:00

Sexta-feira, 20.11.15

Terrorismo verbal - José Goulão

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José Goulão  Terrorismo verbal

 

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Mundo Cão, 19 de Nobembro de 2015

 

   O presidente dos Estados Unidos da América aconselha o presidente da Rússia a “focar-se” nos ataques ao Estado Islâmico, ou ISIS, ou Daesh, ou Al-Nusra ou Al-Qaida; o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, propôs que haja uma frente internacional contra o terrorismo.

Disseram-no com ar de grandes estadistas possuidores das soluções para os males do mundo.

Barack Obama queixoso pelo facto de as forças aéreas e navais russas actuando na Síria parecerem “mais preocupadas” em defender o regime de Assad, ao que diz sem poupar os alibis bonzinhos de Washington, Paris, Londres e NATO - a meia dúzia de terroristas “moderados” que servem de interface para abastecer com armas, munições e dólares os terroristas “extremistas”. “Moderação” em que deve confiar-se piamente, sobretudo sabendo que um dos principais fundadores operacionais do grupo foi o chefe em exercício do Estado Islâmico no Magrebe, Abdelhakim Belhadj.

Netanyahu, por seu lado, convencido de que o mundo não conhece a sua generosidade para com o Estado Islâmico ao ceder-lhe os Montes Golã – ocupados à Síria – como rectaguarda, ao facultar-lhe hospitais israelitas para cuidar os terroristas feridos com maior gravidade.

Procurei uma qualificação adequada à gravidade e à irresponsabilidade destas declarações de dois aliados, que se confessam unidos haja o que houver, e só encontro uma: terrorismo verbal. Porque as suas palavras não passam de manobras de diversão que desviam as atenções da essência do terrorismo; porque mentem sobre a realidade gerando propaganda que, em última análise, serve o terrorismo; porque pretendem fazer crer que estes dois seres nada têm a ver com os grupos sanguinários que fingem combater. Obama e Netanyahu aconselham soluções mas continuam a ser a parte essencial do problema.

As forças militares russas colaboram com as forças armadas sírias no combate ao terrorismo? Não existe outra maneira legal de o fazer nos termos da Carta da ONU. A Síria é um Estado soberano, não é um território neutro onde qualquer um pode fazer operações militares quando e como lhe apetece, muito menos invocando argumentos distorcidos. Como é o caso do Pentágono que directamente – agora com tropas no terreno – ou por interpostos terroristas afirma ter como objectivo combater simultaneamente o Estado Islâmico e Bachar Assad, patranha em que nem os autores acreditam porque sabem, melhor que ninguém, que o objectivo é mudar o regime sírio e desmantelar o país. Por isso a “guerra” que Washington e aliados têm alegadamente conduzido contra o Estado Islâmico há mais de um ano deixou os terroristas mais fortes, mais armados, mais endinheirados; à Rússia, porém, bastou pouco mais de um mês para destruir centenas de centros de comando e outros alvos estratégicos do Daesh, libertar aldeias, vilas e aeroportos, estando agora em vias de cortar o eixo terrestre que garante a ligação terrorista entre a Turquia e o Iraque. Até a França, a duras penas, é certo, parece entender que essa é a maneira certa e credível de combater os grupos mercenários, pelo menos tem-no feito nos últimos dias. Sem complexos de coordenar esforços com Moscovo, ou de que tais operações sustentem Assad, na verdade um dos ódios de estimação de Paris. Aliás, a nova opção francesa parece ser a mais eficaz e certeira. Porque, segundo fontes citadas pela imprensa dos Estados Unidos, o ataque gaulês contra o Estado Islâmico lançado no dia seguinte ao dos atentados de Paris, feito ainda em coordenação com sistemas de informações norte-americanos, destruiu várias clínicas e um museu na cidade de Raqqa como sendo assustadores alvos terroristas.

O Obama dos conselhos e acusações à Rússia é o mesmo que contribuiu para destruir a Líbia, que desencadeou a guerra civil na Síria com recurso a mercenários de todos os matizes, que tornou praticamente irreversível o desmantelamento do Iraque. E que agora, de braço dado com Netanyahu, tolera limpezas étnicas no norte do território sírio para criar aí um Estado curdo artificial que lhes garanta o controlo dos manás petrolíferos de uma região que se estende ao país que já se chamou Iraque.

Quanto a Netanyahu e aos seus apelos contra o terrorismo, não há que gastar muito espaço. O mundo sabe que o seu nome se tornou um sinónimo desse mesmo terrorismo.

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 14.03.15

Uma prova dos nove - José Goulão

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José Goulão  Uma prova dos nove

 

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   No Médio Oriente abundam os indícios de que o exército regular da Síria prepara uma ofensiva para se reapoderar das regiões do nordeste do país envolvendo Raqqa, onde se diz estar instalado o quartel-general dos mercenários do Estado Islâmico, ou Isis, ou Daesh, a designação é o que menos interessa.

Uma acção com este objectivo estratégico apenas se torna possível depois de o regime sírio ter retomado gradualmente o controlo da região de Alepo e da fronteira com o Líbano, o que traduz igualmente uma contrariedade muito forte para todos os que, internacionalmente, se empenharam no desmantelamento da Síria através de uma grande coligação entre os Estados Unidos da América, a União Europeia e os regimes fundamentalistas islâmicos do Golfo.

Olhando e ouvindo o que através do mundo se diz sobre o Estado Islâmico seria de prever que começassem agora a surgir elogios à barreira que Damasco tem erguido ao terrorismo agindo sob a cobertura abusiva do islamismo, tanto mais que ainda há poucas horas o exército sírio tirou definitivamente de circulação o chefe da frente Al-Nusra, uma das muitas designações dessa rede de terror.

Porém, olhando e ouvindo o que se diz pelo mundo tudo leva a crer que muitos dirigentes investidos de altas funções no regime global mais não são do que fala-baratos, cínicos e mentirosos.

Porque este é o preciso momento em que o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, diz que é preciso reforçar a componente militar internacional para derrubar o governo da Síria.

Este é o preciso momento em que o governo do Iraque anuncia o derrube de aviões militares norte-americanos e britânicos que transportavam armas para o Estado Islâmico.

Este é o preciso momento em que são mais claras do que nunca, reconhecidas pela própria comunicação social israelita, as cumplicidades entre Israel e o terrorismo islâmico sob a designação Estado Islâmico, que têm o seu santuário nos Montes Golã, ocupados por Israel à Síria.

Este é o preciso momento em que Abdelhakim Belhadj, terrorista líbio que chefia a coligação “Aurora Líbia”, anuncia que coloca as suas milícias ao serviço do Estado islâmico. Para quem não se lembre, Abdelhakim Bellhadj foi um dos pivots da aliança entre o terrorismo islâmico e a NATO que derrubou e assassinou Khaddafi e desmantelou a Líbia. No caso de haver dúvidas – ainda há quem as tenha – recorda-se que a recompensa dada pela NATO a Belhadj, e prova de reconhecimento pelos serviços prestados, foi a sua designação como primeiro comandante da região militar de Tripoli a seguir à “libertação” e àquilo a que insistem chamar a “instauração da democracia”.

Perante estes factos, por favor não levem a sério os ares circunspectos dos papagaios que vão desfilando pelas televisões falando da suposta guerra dos Estados Unidos e da União Europeia contra o terrorismo islâmico.

Mesmo assim, e havendo quem duvide desta vergonhosa teia de cumplicidades entre o tão civilizado ocidente e o tão bárbaro terrorismo islâmico, preparemos uma prova dos nove. Estejamos de olhos e ouvidos bem atentos às reacções ocidentais quando a Síria se lançar na ofensiva pela recuperação dos seus territórios submetidos à internacional terrorista. Antes disso é ainda é provável que tenhamos mais uma vaga de horror israelita em Gaza – são contas do mesmo rosário – tudo servindo, ao-fim-e-ao-cabo, para identificar, um por um, os membros do bando de irresponsáveis que governa o mundo. 

 

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por Augusta Clara às 08:00



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