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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 22.04.19

Que democracia é esta? - Augusta Clara de Matos

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Augusta Clara de Matos  Que democracia é esta? 

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   Afinal vivemos numa democracia e num Estado de Direito ou numa ditadura?

Então como se entende que tenha sido convidado para intervir num fórum onde se debaterão exactamente estes temas o Ministro da Justiça de um Estado que, neste momento, é tudo menos uma democracia, um Estado com um presidente que elogia os torturadores da ditadura militar, onde se destroem em ritmo acelerado todos os preceitos legais e todas as instituições que pretendiam uma aproximação social dos direitos dos cidadãos brasileiros, um Estado onde reina a injustiça e o terror diários?

Como pôde a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa fazer este convite a Sérgio Moro e como pode o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, acolher tão nefasto hóspede?

Nesta altura do ano, ao comemorar-se o aniversário da Revolução dos Cravos, é da praxe os jornais e televisões entrevistarem Otelo Saraiva de Carvalho e é sempre com um sorriso complacente que os entrevistadores voltam a ouvir a sua manifestação do desejo de que uma sociedade de democracia directa se tivesse construído a partir da queda da ditadura. E é, igualmente, com um esgar de bonomia, como quem faz a pergunta a um puto da escola, que o interrogam sobre se conhece algum país onde isso tivesse acontecido. A resposta certeira não pode ser mais do meu agrado: - “Construíamo-la nós!”. É isto a utopia. E são as utopias que têm feito o mundo dar saltos.

Eu não posso ser contra os partidos porque sei que a minha vida já não dá tempo para grandes mudanças. Mas os verdadeiros democratas estão a ser submergidos por uma avalanche de nepotismo e de total ausência de nobreza na condução da causa pública, isto é, dos interesses fundamentais de todos nós. Espero que esses, os poucos que no exercício do poder têm essa verdadeira vocação, lá se mantenham. Quanto a nós, os outros todos, SOMOS LIVRES desde o 25 de Abril para podermos formular perguntas como por exemplo, esta:

- O que vem cá fazer um fascista igual àqueles que expulsámos há 45 anos?

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por Augusta Clara às 16:47

Sábado, 07.04.18

O GRANDE DISCURSO HISTÓRICO DE LULA DA SILVA NA ÍNTEGRA

 

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Lula aos ombros da multidão

 

Pragamatismo Político, 8 de Abril de 2018

 

   Na tarde deste sábado (7), em São Bernardo do Campo (SP), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizou seu último discurso antes de entregar-se à Policia Federal para cumprir o mandado de prisão emitido pelo juiz de primeira instância Sérgio Moro nesta semana.

A milhares de pessoas que o acompanhavam desde sexta-feira em vigília, Lula, emocionado, relembrou o início de sua vida política no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e enviou uma mensagem de motivação para os que acreditam em seu projeto político.

 

Confira abaixo a transcrição do discurso histórico:

“Em 1979, esse sindicato fez uma das greves mais extraordinárias. E nós conseguimos fazer um acordo com a indústria automobilística que foi talvez o melhor possível. E eu tinha uma comissão de Fábrica com 300 trabalhadores. O acordo era bom. E eu resolvi levar o acordo para Assembleia. E resolvi pedir pra comissão de fábrica ir mais cedo para conversar com a peãozada. E eu fazia assembleia de manhã pra evitar que o pessoal bebesse um pouquinho a tarde, porque quando a gente bebe um pouquinho, a gente fica mais ousado.

Mesmo assim não evitava porque o cara levava litro de conhaque dentro da mala e quando eu passava tomava uma ‘dosinha’ para a garganta ficar melhor – coisa que não aconteceu hoje.

Pois bem, nós começamos a colocar o acordo em votação e 100 mil pessoas no Estádio da Vila Euclides não aceitavam o acordo. Era o melhor possível. A gente não perdia dia de férias, não perdia décimo terceiro e tinha 15% de aumento. Mas a peãozada ‘tava’ tão radicalizada que queria 83% ou nada. E não conseguimos. E passamos um ano sendo chamado de pelego pelos trabalhadores. A gente, Guilherme, ia na porta de fábrica… [Lula começa a fazer saudações diversas]. Então companheiros e companheiras, nós conseguimos… os trabalhadores não aprovaram o acordo… [interrupção para atendimento médico à pessoa na multidão].

Eu ia dizendo pra vocês que nós não conseguimos aprovar a proposta que eu considerava boa e o pessoal então passou a desrespeitar a diretoria do Sindicato. Eu ia na porta da fábrica ninguém parava.

E a imprensa escrevia: “Lula fala para os ouvidos moucos dos trabalhadores”.

Nós levamos um ano para recuperar o nosso prestígio na categoria. E eu fiquei ṕensando com ar de vingança: “Os trabalhadores pensam que eles podem fazer 100 dias de greve, 400 dias de greve, que eles vão até o fim. Pois eu vou testá-los em 1980”.

E fizemos a maior greve da nossa história. A maior greve. 41 dias de greve. Com 17 dias de greve fui preso e os trabalhadores começaram depois de alguns dias a furar greve e nós então – eu sei que Tuma, eu sei que o doutor Almir eu sei que Teotônio Vilela ia dentro da cadeia e falava assim pra mim: “Ô Lula cê precisa acabar com a greve, cê precisa dar um conselho para acabar com a greve”. E eu dizia: “Eu não vou acabar com a greve. Os trabalhadores vão decidir por conta própria”.

O dado concreto é que ninguém aguentou 41 dias porque na prática o companheiro tinha que pagar leite, tinha que pagar a conta de luz, tinha que pagar gás, a mulher começou a cobrar o dinheiro do pão, ele então começou a sofrer pressão e não aguentou. Mas é engraçado porque na derrota a gente ganhou muito mais sem ganhar economicamente do que quando a gente ganhou economicamente. Significa que não é dinheiro que resolve o problema de uma greve, não é 5%, não é 10%, é o que está embutido de teoria política de conhecimento político e de tese política numa greve.

“Significa que não é dinheiro que resolve o problema de uma greve, não é 5%, não é 10%, é o que está embutido de teoria política de conhecimento político e de tese política numa greve”

Agora, nós estamos quase que na mesma situação. Quase que na mesma situação. Eu tô sendo processado e eu tenho dito claramente: “O processo do meu apartamento, eu sou o único ser humano que sou processado por um apartamento que não é meu”. E ele sabe que o Globo mentiu quando disse que era meu. A Polícia Federal da Lava Jato quando fez o inquérito mentiu que era meu, o Ministério Público quando fez a acusação mentiu dizendo que era meu e eu pensei que o Moro ia resolver e ele mentiu dizendo que era meu e me condenou a nove anos de cadeia.

É por isso que eu sou um cidadão indignado, porque eu já fiz muita coisa com meus 72 anos. Mas eu não os perdoo por ter passado para a sociedade a ideia de que eu sou um ladrão. Deram a primazia dos bandidos fazerem um pixuleco pelo Brasil inteiro. Deram a primazia dos bandidos chamarem a gente de petralha. Deram a primazia de criar quase um clima de guerra negando a política nesse país. E eu digo todo dia: nenhum deles, nenhum deles, tem coragem ou dorme com a consciência tranquila da honestidade, da inocência que eu durmo. Nenhum deles [aplausos].

Eu não estou acima da Justiça. Se eu não acreditasse na Justiça, eu não tinha feito partido político. Eu tinha proposto uma revolução nesse país. Mas eu acredito na Justiça, numa Justiça justa, numa Justiça que vota um processo baseado nos autos do processo, baseado nas informações das acusações, das defesas, na prova concreta que tem a arma do crime.

O que eu não posso admitir é um procurador que fez um Powerpoint e foi pra televisão dizer que o PT é uma organização criminosa que nasceu para roubar o Brasil e que o Lula, por ser a figura mais importante desse partido, o Lula é o chefe, e portanto, se o Lula é o chefe, diz o procurador, “eu não preciso de provas, eu tenho convicção”. Eu quero que ele guarde a convicção deles para os comparsas deles, para os asseclas deles e não para mim. Certamente um ladrão não estaria exigindo prova. Estaria de rabo preso com a boca fechada torcendo para a imprensa não falar o nome dele.

Eu tenho mais de 70 horas de Jornal Nacional me triturando. Eu tenho mais de 70 capas de revista me atacando. Eu tenho mais de milhares de páginas de jornais e materias me atacando. Eu tenho mais a Record me atacando. Eu tenho mais a Bandeirantes me atacando, eu tenho a rádio do interior me atacando. E o que eles não se dão conta é que quanto mais eles me atacam mais cresce a minha relação com o povo brasileiro.

“E o que eles não se dão conta é que quanto mais eles me atacam mais cresce a minha relação com o povo brasileiro”

Eu não tenho medo deles. Eu até já falei que gostaria de fazer um debate com o Moro sobre a denúncia que ele fez contra mim. Eu gostaria que ele me mostrasse alguma coisa de prova. Eu já desafiei os juízes do TRF4 que eles fossem prum debate na universidade que ele quiser, no curso que ele quiser, provar qual é o crime que eu cometi nesse país. E eu as vezes tenho a impressão e tenho a impressão porque eu sou um construtor de sonhos. Eu há muito tempo atrás sonhei que era possível governar esse país envolvendo milhões e milhões de pessoas pobres na economia, envolvendo milhões de pessoas nas universidades, criando milhões e milhões de empregos nesse país, eu sonhei, eu sonhei que era possível um metalúrgico, sem diploma universitário, cuidar mais da educação que os diplomados e concursados que governaram esse país e cuidaram da educação. Eu sonhei que era possível a gente diminuir a mortalidade infantil levando leite feijão e arroz para que as crianças pudessem comer todo dia. Eu sonhei que era possível pegar os estudantes da periferia e colocá-los nas melhores universidades desse país para que a gente não tenha juíz e procuradores só da elite, daqui a pouco vamos ter juízes e procuradores nascidos na favela de Heliopólis, nascidos em Itaquera, nascidos na periferia. Nós vamos ter muita gente dos Sem Terra, do MTST, da CUT formados.

Esse crime eu cometi.

Eu cometi esse crime e eles não querem que eu cometa mais. É por conta desse crime que já tem uns dez processos contra mim. E se for por esses crimes, de colocar pobre na universidade, negro na universidade, pobre comer carne, pobre comprar carro, pobre viajar de avião, pobre fazer sua pequena agricultura, ser microempreendedor, ter sua casa própria. Se esse é o crime que eu cometi eu quero dizer que vou continuar sendo criminoso nesse país porque vou fazer muito mais. Vou fazer muito mais. [Povo começa a gritar “Lula, guerreiro do povo brasileiro]

“Eu sonhei que era possível pegar os estudantes da periferia e colocá-los nas melhores universidades desse país para que a gente não tenha juíz e procuradores só da elite”

Companheiros e companheiras, eu em 1986 eu fui o deputado constituinte mais votado na história do país. E, na época, havia uma desconfiança que só tinha poder no PT quem tinha mandato.. Quem não tivesse mandato era tido… [começa a fazer saudações]. Então companheiros, quando eu percebi que o povo desconfiava que só tinha valor no PT quem era deputado, Manoela e Guilherme sabe o que eu fiz? Deixei de ser deputado. Porque eu queria provar ao PT que ia continuar sendo a figura mais importante do PT sem ter mandato porque se alguém quiser ganhar de mim no PT só tem um jeito: é trabalhar mais do que eu e gostar do povo mais do que eu, porque se não gostar não vai ganhar.

Pois bem: nós agora estamos num trabalho delicado. Eu talvez viva o momento de maior indignação que um ser humano vive. Não é fácil o que sofre a minha família. Não é fácil o que sofrem meus filhos. Não é fácil o que sofreu a Marisa e eu quero dizer que a antecipação da morte da Marisa foi a safadeza e a sacanagem que a imprensa e o Ministério Público fizeram contra ela. Eu tenho certeza. Essa gente eu acho que não tem filho, não tem alma e não tem noção do que sente uma mãe ou um pai quando vê um filho massacrado, quando vê um filho sendo atacado.

Eu então, companheiros, resolvi levantar a cabeça. Não pense que eu sou contra a Lava Jato não. A Lava Jato, se pegar bandido, tem que pegar bandido mesmo que roubou e prender. Todos nós queremos isso. Todos nós a vida inteira dizíamos: “A Justiça só prende pobre, não prende rico”. Todos nós dizíamos. E eu quero que continue prendendo rico. Eu quero. Agora qual é o problema? É que você não pode fazer julgamento, subordinado à imprensa. Porque no fundo, no fundo, você destrói as pessoas na sociedade, na imagem da pessoas e depois os juízes vão julgar e vão dizer “eu não posso ir contra a opinião pública tá pedindo pra caçar”. Quem quiser votar com base na opinião pública largue a toga e vá ser candidato a deputado, escolha um partido político e vá ser candidato. Ora, a toga ela é o emprego vitalício. O cidadão tem que votar apenas com base nos autos do processo, aliás eu acho que ministro da Suprema Corte não deveria dar declaração de como vai votar. Nos EUA termina a votação e você não sabe em quem o cidadão votou exatamente para que ele não seja vítima de pressão.

“Quero dizer que a antecipação da morte da Marisa foi a safadeza e a sacanagem que a imprensa e o Ministério Público fizeram contra ela”

Imagina um cara sendo acusado de homícidio e não tenha sido ele o assassino. O que a família do morto quer? Que ele seja morto, que ele seja condenado. Então o juíz tem que ter, diferentemente de nós, a cabeça mais fria, mais responsabilidade de fazer a acusação ou de condenar. O Ministério Público é uma instituição muito forte. Por isso esses meninos que entram muito novo fazem um curso direito e depois faz três anos de concurso porque o pai pode pagar, esses meninos precisavam conhecer um pouco da vida, um pouco de política para fazer o que eles fazem na sociedade brasileira.

Tem uma coisa chamada responsabilidade. E não pense que quando eu falo assim [quer dizer que] eu sou contra. Eu fui presidente e indiquei quatro procuradores e fiz discurso em todas as posses e eu dizia: “Quanto mais forte for a instituição mais responsável os seus membros tem que ser”. Você não pode condenar a pessoa pela imprensa para depois julgá-la. Vocês estão lembrados de que quando eu fui prestar depoimento lá em Curitiba, eu disse para o Moro: “Você não tem condições de me absolver porque a globo tá exigindo que você me condene e você vai me condenar.

Pois bem, eu acho que tanto o TRF4, quanto o Moro, a Lava Jato e a Globo, eles têm um sonho de consumo. O sonho de consumo é que primeiro: o golpe não terminou com a Dilma. O golpe só vai concluir quando eles conseguirem convencer que o Lula não possa ser candidato a presidência da república em 2018. Não é que eu não vou ser, eles não querem que eu participe porque existe a possibilidade de cada um se eleger, eles não querem o Lula de volta porque pobre na cabeça deles não pode ter direito. Não pode comer carne de primeira. Pobre não pode andar de avião. Pobre não pode fazer universidade. Pobre nasceu, segundo a lógica deles, para comer e ter coisas de segunda categoria.

“Eles não querem o Lula de volta porque pobre na cabeça deles não pode ter direito”

Então, companheiros e companheiras, o outro sonho de consumo deles é a fotografia do Lula preso. Ah, eu fico imaginando o tesão da Veja colocando a capa comigo preso. Eu fico imaginando o tesão da Globo colocando a minha fotografia preso. Eles vão ter orgasmos múltiplos.

Eles decretaram a minha prisão. E deixa eu contar uma coisa pra vocês: eu vou atender o mandado deles. E vou atender porque eu quero fazer a transferência de responsabilidade. Eles acham que tudo que acontece neste país acontece por minha causa. Eu já fui condenado a 3 anos de cadeia porque um juiz de Manaus entendeu que eu não preciso de arma, eu tenho uma língua ferina, então precisa me calar, porque se não me calar, ele vai continuar falando frases como eu falei, tá chegando a hora da onça beber água, e os camponeses mataram um fazendeiro e eles achavam que era a senha.

Eles já tentaram me prender por obstrução de justiça, não deu certo. Eles agora querem me pegar numa prisão preventiva, que é uma coisa mais grave, porque não tem habeas corpus. O Vaccari já tá preso há três anos. O Marcelo Odebrecht gastou R$ 400 milhões e não teve habeas corpus. Eu não vou gastar um tostão. Mas vou lá com a seguinte crença: eles vão descobrir pela primeira vez o que eu tenho dito todo dia. Eles não sabem que o problema deste país não chama-se Lula, o problema deste país chama-se vocês, a consciência do povo, o partido dos trabalhadores, o PCdoB, o MST, o MTST, eles sabem que tem muita gente.

E aquilo que a nossa pastora disse, e eu tenho dito em todo discurso, não adianta tentar de me impedir de andar por este país, porque tem milhões e milhões de Boulos, de Manuelas, de Dilmas Rousseffs neste país para andar por mim.

Não adianta tentar acabar com as minhas idéias, elas já estão pairando no ar e não tem como prendê-las.

Não adianta parar o meu sonho, porque quando eu parar de sonhar, eu sonharei pela cabeça de vocês e pelos sonhos de vocês.

Não adianta achar que tudo vai parar o dia que o Lula tiver um infarto, é bobagem, porque o meu coração baterá pelos corações de vocês, e são milhões de corações.

Não adianta eles acharem que vão fazer com que eu pare, eu não pararei porque eu não sou um ser humano, sou uma idéia, uma idéia misturada com a idéia de vocês, e eu tenho certeza que companheiros como os sem-terra, o MTST, os companheiros da CUT e do movimento sindical sabem, e esta é uma prova, esta é uma prova, eu vou cumprir o mandado e vocês vão ter de se transformar, cada um de vocês, vocês não vão se chamar chiquinho, zezinho, joãozinho, albertinho… Todos vocês, daqui pra frente, vão virar Lula e vão andar por este país fazendo o que você tem que fazer, e é todo dia! Todo dia!

Eles tem de saber que a morte de um combatente não para a revolução.

Eles tem de saber. Eles tem de saber que nós vamos fazer definitivamente uma regulação dos meios de comunicação para que o povo não seja vítima das mentiras todo santo dia.

Eles têm de saber que vocês, quem sabe, são até mais inteligentes que eu, e queimar os pneus que vocês tanto queimam, fazer as passeatas, as ocupações no campo e na cidade; parecia difícil a ocupação de São Bernardo, e amanhã vocês vão receber a notícia que vocês ganharam o terreno que vocês invadiram.

“Não adianta parar o meu sonho, porque quando eu parar de sonhar, eu sonharei pela cabeça de vocês e pelos sonhos de vocês.”

Companheiros, eu tive chance, agora, eu estava no Uruguai, entre Livramento e Vera, e as pessoas diziam assim, ô, Lula, você finge que vai comprar um “uisquizinho”, e você vai para o Uruguai com o Pepe Mujica e vai embora e não volta mais, pede asilo político. Você pode ir na embaixada da Bolívia, do Uruguai, da Rússia, e de lá você fica falando… Eu não tenho mais idade. Minha idade é de enfrentá-los com olho no olho e eu vou enfrentá-los aceitando cumprir o mandado.

Eu quero saber quantos dias eles vão pensar que tão me prendendo e quantos mais dias eles me deixarem lá mais lulas vão nascer neste país e mais gente vai querer brigar neste país, porque numa democracia, não tem limite, não tem hora para a gente brigar. Eu falei para os meus companheiros: se dependesse da minha vontade eu não ia, mas eu vou porque eles vão dizer a partir de amanhã que o lula tá foragido, que o lula tá escondido, e não! Eu não to escondido, eu vou lá na barba deles pra eles saberem que eu não tenho medo, que eu não vou correr, e para eles saberem que eu vou provar minha inocência.

Eles têm de saber isso.

E façam o que quiserem. Façam o que quiserem. Eu vou pegar uma frase que eu peguei em 1982 de uma menina de 10 anos em Catanduva, e essa frase não tem autor. Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas, mas jamais poderão deter a chegada da primavera.

E a nossa luta é em busca da primavera.

Eles tem de saber que nós queremos mais casa, mais escola, nós queremos menos mortalidade, nós não queremos repetir a barbaridade que fizeram com a Marielle no Rio de Janeiro.

Não queremos repetir a barbaridade que se faz com meninos negros neste país.

Não queremos mais a mortalidade por desnutrição neste país. Não queremos mais que um jovem não tenha esperança de entrar numa universidade, porque este país é tão cretino, que foi o ultimo país do mundo a ter uma universidade. O último! Todos os países mais pobres tiveram, porque eles não queriam que a juventude brasileira estudasse.

E falavam que custava muito. É de se perguntar: quanto custou não fazer há 50 anos atrás?

Eu quero que vocês saibam que eu tenho orgulho, profundo orgulho, de ter sido o único presidente da República sem ter um diploma universitário, mas sou o presidente da república que mais fiz universidade na história deste país para mostrar para essa gente que não confunda inteligência com a quantidade de anos na escolaridade, isso não e inteligência, é conhecimento.

Inteligência é quando você tem lado, inteligência é quando você não tem medo de discutir com os companheiros aquilo que é prioridade, e a prioridade é garantir que este país volte a ter cidadania. Não vão vender a Petrobras! Vamos fazer uma nova constituinte! Vamo revogar a lei do petróleo que eles tão fazendo! Não vamos deixar vender o BNDES, não vamos deixar vender a Caixa, não vamos deixar destruir o Banco do Brasil! E vamos fortalecer a agricultura familiar, que é responsável por 70% do alimento que nós comemos neste país.

E com essa crença, companheiros, de cabeça erguida, como eu tô falando com vocês, que eu quero chegar lá e dizer ao delegado: estou à disposição.

E a história, daqui a alguns dias, vai provar que quem cometeu crime foi o delegado que me acusou, foi o juiz que me julgou e foi o Ministério Público que foi leviano comigo.

Por isso companheiros, eu não tenho lugar no meu coração pra todo mundo, mas eu quero que vocês saibam que se tem uma coisa que eu aprendi a gostar neste mundo é da minha relação com o povo.

Quando eu pego na mão de um de vocês, quando eu abraço um de vocês… porque agora eu beijo homem e mulher igualzinho, não mistura mais… Quando eu beijo um de vocês, eu não to beijando com segundas intenções, eu to beijando porque quando eu era presidente, eu dizia:

“Eu vou voltar pra onde eu vim”.

E eu sei quem são meus amigos eternos e quem são os eventuais. Os de gravatinha, que iam atrás de mim, agora desapareceram. E quem está comigo são aqueles companheiros que eram meus amigos antes de eu ser presidente da república. É aquele que comia rabada no Zelão, que comia frango com polenta no Demarchi, é aquele que tomava caldo de mocotó no Zelão, esses continuam sendo nossos amigos. São que tem coragem de invadir terreno pra fazer casa, são aqueles que têm coragem de fazer uma greve contra a previdência, são aqueles que ocupam no campo pra fazer uma fazenda produtiva, são aqueles que na verdade precisam do estado.

Companheiros, eu vou dizer uma coisa pra vocês: Vocês vão perceber que eu vou sair desta maior, mais forte, mais verdadeiro, e inocente, porque eu quero provar que eles é que cometeram um crime, um crime político de perseguir um homem que tem 50 anos de história política, e por isso eu sou muito grato.

Eu não tenho como pagar a gratidão, o carinho e o respeito que vocês tem dedicado a mim nesses anos todos. E quero dizer a vocês Guilherme, e à Manuela, a vocês dois, que para mim é motivo de orgulho pertencer a uma geração, que está no final dela, ver nascer dois jovens disputando o direito de ser presidente da república neste país. Por isso, grande abraço, e podem ficar certos: esse pescoço aqui não baixa, minha mãe já fez o pescoço curto pra ele não baixar, e não vai baixar, porque eu vou sair de lá de cabeça erguida e de peito estufado porque eu vou provar a minha inocência.

Um abraço companheiros, obrigado, mas muito obrigado, pelo que vocês me ajudaram, um beijo, querido, muito obrigado!”

 

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por Augusta Clara às 23:58

Sexta-feira, 04.12.15

A lição que retirei destes últimos dias - Amadeu Homem

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   Se alguém tivesse dúvidas sobre o que é e como pode actuar a Direita portuguesa, bastaria que tivesse seguido os debates parlamentares dos dois últimos dias sobre o programa do novo governo para que ficasse inteirado sobre as suas características.

Esta Direita só é civilizada porque usa gravata. Por debaixo encontra-se o trauliteirismo do Senhor D. Miguel I e do Padre José Agostinho de Macedo; a brutalidade dos esbirros da Santa Inquisição e da PIDE; a arrogância de "senhoritos" recém promovidos que nunca saberão, por mais que tentem, ser Senhores. Só se coíbem de insultos despudorados ao Primeiro-Ministro, aos Ministros, aos Deputados oponentes e a todos os que ostentem opiniões diferentes das deles porque ainda há neles uns restos de temor relativamente aos instrumentos jurídicos de punição.

Ter ouvido falar um Portas, um Montenegro ou um Telmo Correia da forma como o fizeram foi ter tido um vislumbre do perigo que esta gente ( será que o é ?) poderá ser para a Justiça e para a Liberdade, quando e se eles puderem suprimir uma e outra, como desejariam.

Estou-lhes muito agradecido, apesar de tudo. E isto porque me ensinaram que com eles não há margem nenhuma para qualquer diálogo. Sobra apenas o empenho em os vencermos uma vez, cem vezes, mil vezes, em actos eleitorais que sejam fiáveis. Repito : que sejam fiáveis, pois, caso eles possam, irão falsificá-los sem a menor hesitação.

A Esquerda tem de ser radicalmente irredutível para com estes espécimes.

 

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por Augusta Clara às 11:00

Sexta-feira, 13.11.15

Os bárbaros estão a chegar - Carlos de Matos Gomes

 

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Carlos de Matos Gomes  Os bárbaros estão a chegar

 

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   "Um governo de esquerda vai levar-nos a um novo resgate"- João Salgueiro

“Prefiro mil vezes os credores aos comunistas” - António Barreto

“Anticomunista, obrigada!” – Clara Ferreira Alves

Li, não sei onde, nem quando, talvez a propósito das invasões francesas, quando investigava para “A Estrada dos Silêncios”, uma história muito interessante sobre a necessidade do medo. De ter medo e de transmitir o medo. De uma sociedade cujos sacerdotes não sabem, nem podem viver sem o medo. Sem pregarem o medo.

Num local e num tempo que já não recordo, ao receberem a notícia de que um bando de bárbaros estava a preparar-se para invadir a sua cidade, ou vila, os habitantes entraram em pânico. “Os bárbaros estão a chegar! E agora? O que faremos?!” Tocaram os sinos a rebate. Parou tudo e as pessoas passaram a viver desaustinadamente, alimentando-se desse pânico. Nada valia a pena, porque os bárbaros estavam para chegar e seria um caos. Só que os anunciados invasores não apareceram. Era boato, ou desistiram de invadir aquela cidade. E o que antes era pânico tornou-se perplexidade: “Mas então os bárbaros não estão a chegar? E agora? O que faremos?”

O verdadeiro medo não está no novo, mas naquilo que deixamos para trás quando somos obrigados a mudar. É este o medo da direita representada pela PAF.

E, quando não somos obrigados a mudar, demoramos muito a decidir, ou a aceitar a mudança. É o caso de Cavaco Silva, perdido no seu labirinto de incapacidades e de congénita mesquinhez, sem saber o que fazer se os bárbaros estiverem a chegar, nem se, afinal, não houver bárbaros.

O que os textos destes representantes da intelligentsia nacional revelam é que eles vivem do medo. Nada de extraordinário numa civilização em que o poder assenta no convencimento da existência de um pecado original que diferencia ricos dos pobres, senhores e servos, no castigo terreno em nome de Deus para os recalcitrantes e no temor do Inferno após a morte.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quinta-feira, 12.11.15

Um teste à União Europeia - José Goulão

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José Goulão  Um teste à União Europeia

 

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Mundo Cão, 11 de Novembro de 2015

 

   Depois da Grécia, e em condições com alguns pontos de contacto e abundantes dissemelhanças, Portugal está a deixar a União Europeia perante um novo teste ao conceito de democracia que pretende tornar único no universo dos 28 Estados membros. Na Grécia, por razões que agora não vêm ao caso uma vez que, como costuma dizer-se, “quem mora no convento é que sabe o que lá vai dentro”, os tecnocratas à solta em Bruxelas e que ninguém elegeu conseguiram fazer vingar as suas vozes de pequenos gauleiters do grande reich do mercantilismo.

Como será em Portugal no caso de os acordos estabelecidos à esquerda se transformarem num governo legítimo acima de qualquer suspeita, imaculado nos termos da mais elementar democracia?

Uma primeira dedução creio não levantar dúvidas. As afirmações de soberania popular contra a crueldade autoritária de Bruxelas começaram pelos dois países mais fustigados e destratados pela arbitrariedade austeritária. O que não acontece por acaso: os povos, por mais conformados que pareçam, não aceitam eternamente as cangas com que lhes carregam os corpos e, mais tarde ou mais cedo, lá chega o dia das surpresas.

Surpresas para alguns, sem dúvida: os partidos portugueses até agora governantes – e os seus gémeos em escala europeia - ainda não recuperaram do choque com o que lhes está a acontecer através da derrocada do “arco da governação”, erguido sobre caboucos de segregação e apartheid político que supostamente lhes outorgava o direito natural, quiçá divino, de governarem ad aeternum como se as eleições não passassem de pró-formas.

Agora, a maioria parlamentar portuguesa, unida em torno de objectivos muito claros e democráticos, propõe-se governar pondo as pessoas em primeiro lugar, privilegiando os direitos destas e não as supostas legitimidades dessa entidade arrogante mas volátil, cruel mas cada vez mais difusa conhecida como “mercado”. Nada, afinal, de muito surpreendente: a maioria parlamentar portuguesa limita-se a seguir os caminhos livres da democracia e a fazer funcionar a soberania do voto popular genuinamente expresso, tudo aquilo que Bruxelas, respectivos mentores e súbditos pregam mas não praticam.

De modo que a declaração de soberania que devolve a Portugal um orgulho e uma esperança que se julgavam perdidos vem questionar, no fundo, a essência actual da própria União Europeia, sobretudo a partir do momento em que instaurou a austeridade como política única a cargo de um sistema de falsificação da democracia através de um partido único com dois polos, o tal “arco da governação”.

O sr. Rajoy, um neofranquista que trata os povos do Estado espanhol como lacaios que o servem e à casa real, diz que “não gosta” do que acontece em Portugal. Em boa verdade, ninguém lhe pediu opinião, mas já que a dá serve para entender o espírito que percorre o espaço da União, provavelmente desde a Península até aos revanchistas fascistoides do Báltico, pequeninos mas com os dentes bem aguçados pelos donos em Berlim. Ao ponto de Bruxelas parecer mais incomodada com o governo que ainda não existe em Portugal e as suas previsíveis declarações de soberania perante os mercados do que com as preocupações da senhora Le Pen, aterrorizada com “a epidemia bacteriana da imigração”, isto é, as supostas doenças contagiosas trazidas pelos refugiados e que mancham a pureza sanitária dos franceses, um mal que ela promete erradicar se lhe entregarem os bastões governamentais.

De qualquer modo deixemos o teste no ar. O que mais tira o sono aos tecnocratas austeritários de Bruxelas? O eventual governo de esquerda em Portugal construído segundo as normas básicas da democracia e da soberania nacional? Ou declarações racistas e incendiárias, potencialmente pré governamentais, proferidas por uma dirigente política de um dos dois mais poderosos países da União que não esconde o seu programa fascista mas respeita sabujamente “o mercado”?

Creio que sabemos a resposta. Por isso a União Europeia deu no que deu.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 16.05.14

Vamos ter eleições - Adão Cruz

 

Adão Cruz  Vamos ter eleições

 

 

   Os jornais de hoje dizem que as grandes fortunas aumentaram milhares de milhões durante a colonização da Troika. E trazem a fotografia de alguns dos figurões, que até parecem seres humanos normais. A palavra escândalo é demasiado leve para traduzir aquilo que não é traduzível pelo mais abjecto dos palavrões.

Vai haver eleições, ainda não sei bem de quê e para quê. Talvez para ajudar a aumentar mais uns milhares de milhões a pilha de notas em que esses abutres se sentam, à custa dos milhões de pobres e miseráveis que vão votar para que eles lá se mantenham na sua vampiresca e inacessível pirâmide.

Vamos ter eleições. Deixa-me rir. Eleições! Estupidez, ignorância, fé, não sei como se define a plataforma em que assenta aquilo que chamam consciência política de um povo. Um povo que se deixa enganar e conduzir irracionalmente como um rebanho de ovelhas, expressão tão cara aos clérigos da igreja. Um povo que não é só o povo mais ou menos analfabeto, mas também parte daquele povo que se diz culto e se reclama de intelectual. Deixa-me rir, ainda que amargamente.

A direita aí está desde sempre!, Escarrapachada, retinta, varrendo para o lixo os restos da democracia, abocanhando o prato dos outros, como instinto natural e desumana mal-formação genética, enxertada não sei em que malfadado braço da Evolução, cuja missão soberana é aumentar cada vez mais a fortuna dos que tudo têm à custa dos que pouco ou nada têm. Com a Troika, o país, ou seja a quinta, ou seja a coutada, está melhor, o povo que nela vive e vegeta é que está pior. A pilha de notas em que os donos do país se sentam é cada vez mais alta, para fugir ao monte de merda cada vez maior que se estende a seus pés.

A direita aí está desde sempre, cuspindo na Constituição, porque ainda não pôde rasgá-la aos bocadinhos. A direita aí está, usando a lei ou a ilegalidade conforme convém, a sua Justiça e os buracos da lei como o seu mais seguro tira-nódoas e os buracos da nação como esconderijo dos seus roubos e assaltos. A direita aí está de portas escancaradas a todos os Passos e Portas que sejam as portas e os passos para a descarada mentira de todas as promessas. E a maioria silenciosa lá vai engolindo, como incontornável destino e divina resignação, a consagrada hóstia de todas as traições.

Sem consciência a democracia é um barrete, com olhos fechados a democracia é um barrete, sem cultura a democracia é um barrete, sem coragem a democracia é um barrete, sem revolta a democracia é um barrete, sem Constituição a democracia é um barrete, sem Justiça a democracia é um duplo barrete, sem povo, ou melhor, sem cidadãos a democracia é um triplo barrete, sem cidadãos, a democracia não existe.

Por isso a direita não quer cidadãos. A direita só quer povo, se for uma direita com rótulo. Se não tiver rótulo, se for supranacional, profissional ou mesmo artesanal, nem de povo precisa. Por isso eu não acredito no povo, eu não acredito no povo despido da sua dignidade de cidadão, no povo que beija a mão aos que o fazem povo, aos que o utilizam como povo e não como gente ou como sociedade de cidadãos.

Um imenso lençol de mortos jaz debaixo da terra carcomidos pela exploração e pela injustiça, e um imenso mar de vivos (mortos-vivos?) deambula à flor da terra. Os de baixo expiraram. Nós, os de cima, ainda inspiramos alguma coisa, mas não conseguimos respirar, asfixiados que estamos pelo garrote do poder e da desonra. O povo, em vez de abrir a janela de par em par para respirar ar puro, vai aceitando como esmolas e caridades, as máscaras de oxigénio que a direita lhe estende.

Por isso eu não acredito no povo. Só acredito em cidadãos. Sem cidadãos a democracia é um barrete. Sem cidadãos não há eleições. Deixa-me rir. Sem cidadãos as eleições, sejam daqui ou europeias, são um pedido da sua bença, e o desejo de um feliz regresso da madrinha Troika.

O país está infestado de ratos. Os ratos roeram os embriões da democracia e da justiça, os ratos roeram tudo, os ratos roeram o país, os ratos deixaram o país em buracos. Mil e tal milhões de buracos, sessenta milhões de buracos, trinta milhões de buracos, vinte milhões de buracos, dez milhões de buracos… Os ratos comeram tudo e também os olhos do povo. O povo de Abril sempre teve um frasco de raticida na mão, mas em vez de o atirar para cima dos ratos deitou-o pela retrete abaixo. O povo cegou, e quanto mais cego, menos o povo é capaz de ver quem o cegou.

O povo sempre foi avesso à cidadania, ou melhor, a direita, que não quer cidadãos, sempre procurou secar as fontes onde o povo pudesse beber a fresca água da cidadania. E ao povo sempre foi vedada a luz da cultura, do conhecimento e da lucidez mental com que se faz um cidadão.

Por isso eu não acredito no povo que quer como amigos os seus inimigos. Só acredito em cidadãos, e os cidadãos não são muitos e não acreditam nos inimigos. A direita e o capitalismo selvagem não sobrevivem com cidadãos. Se houver muitos cidadãos a direita impõe uma ditadura. Sempre assim foi. Como não sobreviveriam se o conhecimento e a cultura fossem o sangue da sociedade.

O país cheira mal que tolhe. Cheira a fraude, cheira a roubo, cheira a corrupção, cheira a merda por todo o lado. Quando ao fim de quatro anos a fossa está cheia, a falsa democracia pede ao povo para a despejar, e o povo, em vez de a lavar bem lavada e encher de água limpa, oferece-a de mão beijada a uma nova equipa de cagadores. Em vez de lhes atirar com a trampa à cara, varre-a para debaixo do tapete e com o ar mais cândido diz: não é merda o que fizeram, senhores, são rosas!

Os que antecederam Cavaco e seus acólitos, desenraizados personagens de divina comédia, nada-tudo-nada deste pobre país, andaram por aí, por essa Europa, a tentar fazer disto um cemitério. Cavaco adiantou-se como coveiro, começou a abrir a cova para enterrar Portugal, e os ”boys” que o povo foi acariciando carregaram o caixão às costas, alternando com outros “boys” de outras equipas desta fossa democrática. E o povo ingénuo, sempre a pensar que ia numa procissão do Senhor dos Passos, com a Igreja à frente aspergindo água benta! Deo Gratias! Gloria in Excelsis Deo!

Por isso eu não acredito no povo, o principal responsável pelo aumento dos mil e tal milhões nas fortunas dos figurões que hoje vêm escarrapachados nos jornais, e que até parecem seres humanos normais.

Por isso eu não acredito nas eleições sem cidadania, borbulhando de quando em vez como emanações de gazes, simulacro de vida, na imunda fossa desta “democracia”.

 

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por Augusta Clara às 16:00

Terça-feira, 03.12.13

Democracia y geopolítica - Santiago Alba Rico

 

Santiago Alba Rico  Democracia y geopolítica

 

Santiago Alba Rico (Madrid, 1960) estudió filosofía en la  Universidad Complutense de Madrid. Entre 1984 y 1991 fue guionista de tres  programas de televisión española (el muy conocido La Bola de Cristal entre  ellos). Ha publicado artículos en numerosos periódicos y revistas y, entre sus  obras, se cuentan los ensayos "Dejar de pensar", "Volver a pensar", "Las reglas  del caos" (libro finalista del premio Anagrama 1995), "La ciudad intangible",  "El islam jacobino", “Vendrá la realidad y nos encontrará dormidos”, “Leer  con niños”, “Capitalismo y nihilismo” y "El naufragio del hombre", así como dos antologías de sus guiones:  “Viva el Mal, viva el Capital” y “Viva la CIA, viva la economía”. Es también  autor de un relato para niños de título "El mundo incompleto" y ha colaborado en  numerosas obras colectivas de análisis político (sobre el 11-S, sobre el 11-M,  sobre Cuba, sobre Venezuela, Iraq, etc.). Desde 1988 vive en el mundo árabe,  habiendo traducido al castellano al poeta egipcio Naguib Surur y más  recientemente al novelista iraquí Mohammed Jydair. Fue asimismo guionista de la película Bagdad-Rap (2004) y es autor de una obra teatral, "B-52", estrenada en 2010. En los últimos años viene  colaborando en numerosos medios, tanto digitales como en papel (la conocida web  de información alternativa Rebelión, Archipiélago, Ladinamo, Diagonal etc.). En  Venezuela ha publicado junto a Pascual Serrano el libro “Medios violentos  (palabras e imágenes para la guerra)” (El Perro y la Rana, 2007). En Cuba ha  publicado “La ciudad intangible” y “Cuba; la ilutración y el  socialismo”. Su último libro, "Noticias", se ha publicado en la editorial "Caballo de Troya" en mayo de 2010. En marzo de 2011 publica "Túnez, la revolución", donde recoge las crónicas escritas bajo el nombre de Alma Allende durante la revolución tunecina del 14 de enero.  

   Rebelión, 25 de Novembro de 2013
   La geopolítica existe sin duda, como existen las trampas para pájaros y las alambradas electrificadas; y estamos obligados a ceñir nuestro análisis y nuestras decisiones a sus severas leyes. Eso se llama realismo y una cierta dosis de realismo es siempre necesaria, a condición de que recordemos que la realidad es aquí un resultado histórico -una trampa para pájaros y no un dato meteorológico- y que sus severas leyes tienen que ver con la conservación y soberanía de los Estados y no con la liberación y soberanía de los pueblos. Quiero decir que no puede haber política exterior de izquierdasen un mundo en el que la soberanía nacional, permanentemente negociada y cuestionada, debe acomodarse a relaciones de fuerza desiguales e injustas. Cuanto mayor es la determinación geo-estratégica, menor es la autodeterminación democrática.

Si se trata sólo de proteger la existencia de un linaje o un régimen, como en Arabia Saudí o en Siria, política interior y política exterior coinciden hasta el punto de que los gobiernos tratan a sus propios ciudadanos como a extranjeros, fichas negociables o sacrificables en la partida geoestratégica de la que depende su supervivencia. Si se trata de proteger un régimen económico, como en el caso de los EEUU, la dimensión imperialista tiende a interiorizar los otros territorios y los otros pueblos como medios para asegurar los intereses “nacionales”. Pero incluso los gobiernos más representativos y democráticos -los de América Latina- se dejan imponer el criterio de la conservación -volviéndose por tanto conservadores- y sucumben al realismo de las trampas para pájaros. No digo que no haya que hacerlo; digo que no hay ninguna diferencia ideológica entre afirmar, como hace EEUU, que Pinochet en otro momento o ahora el general Sissi “están dando pasos hacia la democracia” y apoyar a Bachar Al-Assad, como hace Venezuela, por su “heroico anti-imperialismo”. Las razones geo-estratégicas son siempre de derechas porque ignoran o impiden la autodeterminación de los pueblos; por eso, este modo de razonar resulta particularmente chirriante cuando se utiliza desde la izquierda, y más si no se presenta como el inevitable reconocimiento de una derrota soberana de los propios principios en un contexto de dilemas y peligros sino como una defensa de los mismos pueblos que esta política exterior conservadora desprecia y sacrifica.

 

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sábado, 30.11.13

Décima carta às esquerdas: Democracia ou Capitalismo? - Boaventura de Sousa Santos

 

 

Boaventura de Sousa Santos  Décima carta às esquerdas: Democracia ou Capitalismo?

 

 

 

Depois de um século de lutas que fizeram entrar o ideal democrático no imaginário da emancipação social seria um erro grave desperdiçar essa experiência.

 

   Publicado em Carta Maior em 26 de Novembro de 2013 

   No início do terceiro milênio as esquerdas debatem-se com dois desafios principais: a relação entre democracia e capitalismo; o crescimento econômico infinito (capitalista ou socialista) como indicador básico de desenvolvimento e de progresso. Nesta carta, centro-me no primeiro desafio.

Ao contrário do que o senso comum dos últimos cinquenta anos nos pode fazer pensar, a relação entre democracia e capitalismo foi sempre uma relação tensa, senão mesmo de contradição. Foi-o certamente nos países periféricos do sistema mundial, o que durante muito tempo foi chamado  Terceiro Mundo e hoje se designa por Sul global. Mas mesmo nos países centrais ou desenvolvidos a mesma tensão e contradição esteve sempre presente. Basta lembrar os longos anos do nazismo e do fascismo.

Uma análise mais detalhada das relações entre capitalismo e democracia obrigaria a distinguir entre diferentes tipos de capitalismo e sua dominância em diferentes períodos e regiões do mundo e entre diferentes tipos e graus de intensidade de democracia. Nesta carta concebo  o capitalismo sob a sua forma geral de modo de produção e faço referencia ao tipo que tem vindo a dominar nas últimas décadas, o capitalismo financeiro. No que respeita à democracia centro-me na democracia representativa tal como foi teorizada pelo liberalismo.

O capitalismo só se sente seguro se governado por quem tem capital ou se identifica com as suas “necessidades”, enquanto a democracia é idealmente o governo das maiorias que nem têm capital nem razões para se identificar com as “necessidades” do capitalismo, bem pelo contrário. O conflito é, no fundo um conflito de classes pois as classes que se identificam com as necessidades do capitalismo (basicamente a burguesia) são minoritárias em relação às classes (classes médias, trabalhadores e classes populares em geral) que têm outros interesses cuja satisfação colide com as necessidades do capitalismo.

 

 

 

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por Augusta Clara às 08:00

Sexta-feira, 05.07.13

O Egito, o Islão e a democracia - Carlos Esperança

 
Carlos Esperança  O Egito, o Islão e a democracia
 
   Os berberes já habitavam o território da atual Argélia dez mil anos antes da era vulgar e, quando a lepra islâmica alastrou como mancha de óleo, no século VIII, ainda resistiram, mas acabaram por converter-se ao mais primário e belicista dos monoteísmos.
 
A sedução dos cinco pilares islâmicos é ajudada pelo assanhado proselitismo e profundo constrangimento social. O monopólio da educação, assistência médica e distribuição de alimentos, em sociedades saídas do colonialismo, ajudam à difusão do manual terrorista que dá pelo nome de Corão.
 
Junte-se a fanatização, que começa na infância, nas madraças e mesquitas em países que não conheceram o Iluminismo e vivem numa civilização falhada – a civilização árabe –, e temos a perversão que teimamos em julgar paradigma de grupos isolados, sem darmos conta das ambições prosélitas prosseguidas à bomba por voluntários que esperam ter 72 virgens a aguardá-los no Paraíso.
 
Foi assim que, em dezembro de 1991, a Frente Islâmica de Salvação (FIS) teve uma vitória estrondosa  na 1.ª volta das eleições e, perante o terror da sharia, a Frente de Salvação Nacional (FSN) cancelou a 2.ª volta. Perante a ditadura, a Europa sossegou e desinteressou-se dos 150 a 200 mil mortos da guerra civil que se seguiu.
 
Recordo aos mais desatentos o que está a suceder no Egito e ao que acontecerá, a prazo, na Turquia, os dois maiores e mais influentes países de maioria islâmica, que a vontade de Maomé pretende submeter à vontade de Alá, tendo a sharia como horizonte.
 
No Cairo, cristãos, democratas e diversos grupos sem consistência ou até antagónicos, motivados pela crise económica, uns, e pelo medo da sharia, quase todos, expuseram-se à repressão numa corajosa resistência à liturgia das 5 orações diárias e à imposição de se virarem para Meca.
 
Uma vez mais triunfou a ditadura que estava escrita nos astros. Um golpe militar nunca garante a democracia, mas adia a consolidação da teocracia. Muitas vidas se perderão na guerra civil que se adivinha e os muçulmanos não são piores do que os cristãos ou ateus. O que é efetivamente pior é o Islão, na sua obstinada demência, comum ao cristianismo, de tentar impor aos outros o Deus que deviam guardar para si.
 
Os países democráticos, mais interessados no mercado de matérias primas, sobretudo do petróleo, descuram a exigência do respeito pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. E a laicidade continua a ser adiada onde se erguem mesquitas e almenaras.

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por Augusta Clara às 11:00

Sábado, 29.12.12

A União Europeia em negação da democracia - José Goulão

   Economia estagnada ou mesmo em recessão em numerosos países, desemprego galopante que ultrapassou já os 26 milhões de pessoas, tensão social crescente, agravamento constante da crise financeira e das dívidas soberanas são alguns dos aspetos que marcaram na União Europeia um ano de 2012 que deve considerar-se nefasto, sobretudo para as cada vez mais vastas camadas das populações desfavorecidas.

A principal responsabilidade dos sinais enumerados é atribuída simplisticamente pelos dirigentes europeus, por sua conveniência, aos efeitos da crise financeira de 2007-2009 nascida nos Estados Unidos da América, aos supostos gastos excessivos de alguns países periféricos em relação às suas reais possibilidades e a uma suposta indisciplina orçamental de muitos dos 17 países da Zona Euro, com repercussões negativas na estabilidade da moeda única.

Todos estes aspetos têm inegável influência na situação de caos e deriva em que se encontram os 27 países da União Europeia, que serão 28 a partir de 1 de janeiro com a entrada da Croácia. Há que ressalvar, para já, que a acusação de gastos excessivos feita em relação a alguns países poderá ser de alguma forma procedente desde que se tenha em conta que esse dito despesismo não foi sequer destinado às populações que agora sofrem as principais consequências; isto é, o dinheiro em causa não serviu em primeiro lugar para o desenvolvimento do Estado social mas sim negócios opacos, corrupção e procedimentos faraónicos de classes dirigentes degeneradas pelo exercício do poder.

Feita esta ressalva, essencial, e reconhecendo que tanto a crise financeira do fim da década anterior como a indisciplina orçamental poderão ter a sua quota parte de responsabilidade na situação, elas não representam, porém, a causa profunda do beco para já sem saída em que entrou a União Europeia.

Não é novidade que o chamado projeto europeu há muito tem vindo a ser adulterado pelos que sucessivamente o vão dirigindo, com vertiginosa aceleração a partir do início da década de noventa ecoando a euforia resultante da queda da União Soviética e respetiva zona de influência, aproveitada pela ortodoxia neoliberal europeia e mundial para assaltar e tomar conta dos centros de decisão da União e do mundo em geral. O Tratado de Maastricht, a criação do Euro como moeda única à imagem e semelhança do antigo marco alemão e a assimilação descontrolada e sem cuidar de princípios mínimos de numerosos países da zona que estava para lá do muro de Berlim, incluindo o take-over do capitalismo alemão sobre a antiga RDA, colocaram num ápice a União Europeia na rota neoliberal, a anarquia capitalista.

O ano de 2012 foi uma réplica agravada do ano anterior como 2013 será uma sequela ainda mais nociva do que 2012 para aqueles, a grande maioria, que são as vítimas da política única exercida na União - ainda que os partidos dirigentes possam ter diferentes designações. A União Europeia é dirigida, em traços gerais, por uma coligação de conservadores e sociais democratas, uma elite governante que fechou as portas a quaisquer outras opções e impõe uma política única decorrente da aplicação do ultraliberalismo económico.

A crise dos défices públicos e das dívidas soberanas, que dizem ser a raiz principal, ou única, da situação dramática e eventualmente irreversível em que a União Europeia se encontra, são circunstâncias empoladas de modo a atingir objetivos que se vão tornando cada vez mais claros: a implantação generalizada do neoliberalismo puro e duro no qual os interesses dos mercados se impõem irremediavelmente aos das pessoas; a sobrevivência e primazia do Euro como moeda única servindo a qualquer preço os interesses alemães; a desvalorização contínua do valor e da dignidade do trabalho na sociedade.

Estes objetivos caracterizam, como foi visível durante todo o ano de 2012, as políticas impostas aos governos para combater as crises das dívidas e dos défices e que em casos extremos, como na Grécia, na Irlanda, em Portugal e em breve noutros países como a Espanha, a Itália, Chipre, são desenvolvidas sob regimes de protetorado exercidos pela troika – conjugação da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A estratégia de ataque à atividade laboral é exemplar quanto ao espírito desumano e mercantilista que está na origem desta política. A liquidação de direitos laborais, a liberalização forçada de horários, a supressão dos vínculos, substituídos pela precariedade, a facilidade de despedir, a redução praticamente a zero das indemnizações por despedimento transformam os trabalhadores em objetos ao dispor da vontade arbitrária das entidades patronais. Estes recuos, que chegam a atingir 150 anos na história do movimento social europeu, farão com que em breve cada cidadão tenha de ficar eternamente grato a um empresário que lhe ofereça um emprego em quaisquer condições. Na União Europeia de 2012 caminhou-se velozmente para que o trabalho deixe de ser um dever para se transformar numa dádiva de alguém a quem apetece ou não ser “generoso”.

O ano de 2012 foi o período em que se tornou evidente que as medidas aplicadas por Bruxelas não apenas não resolvem como até agravam os problemas que dizem combater. As dívidas soberanas continuam a crescer, os défices não descem apesar dos cruéis sacrifícios sociais impostos, o desemprego disparou, as economias mergulharam em recessão profunda. Para alcançar esses resultados, afinal negativos, cortaram-se salários, incluindo os mínimos, eliminaram-se subsídios sociais, amputaram-se violentamente reformas e pensões sociais, liberalizaram-se os despedimentos, provocaram-se subidas brutais de impostos, feriram-se de morte setores económicos vitais em vários países. Além disso, quando os bancos se queixam de dificuldades, os governos da União obrigam imediatamente os cidadãos a contribuir, seja através de medidas fiscais seja de reforço da austeridade, para que tais entidades se reequilibrem, mantendo os seus responsáveis regalias e mordomias de que nunca abdicam seja qualquer for o grau de crise.

Este é, em termos globais, o preço de centenas de milhões de europeus pagam para que a Alemanha, o único país que exporta mais do que importa, possa beneficiar de um Euro que lhe permita tirar dividendos dessa vantagem.

A crueldade social tornada regime político é a face mais visível de uma dramática degeneração de valores que contraria tudo quanto é o discurso oficial dos dirigentes da União Europeia. A política oficial da União Europeia põe em causa os mais elementares direitos humanos dos seus cidadãos, incluindo o direito à vida porque a miséria, a fome e os problemas no acesso à saúde são atualmente flagelos que matam impiedosamente.

A maior de todas as vítimas da situação europeia é, por tudo isto, a democracia. De tempos a tempos os cidadãos votam, mas o destino imediato das suas vontades assim expressas, com base em programas que lhes são apresentados, é o caixote do lixo. O programa das organizações com “vocação para governar” são chorrilhos de mentiras e os eleitos, tanto nos parlamentos como nos governos, ignoram em absoluto o que prometeram anteriormente, ou fazem mesmo o contrário do que ficou estabelecido nesses compromissos com o povo. A União Europeia está em negação da democracia não apenas porque já tolera governos formados por pessoas que nem sequer se apresentaram às urnas, como aconteceu na Grécia e em Itália durante 2012. O caso é muito mais grave e epidémico: nenhum governo da união Europeia atua de acordo com o que prometeu aos seus cidadãos – o mesmo acontecendo aliás com o Parlamento Europeu, único órgão pan-europeu eleito por sufrágio direto.

O ano de 2012 fica para a História como aquele em que se confirmou que a União Europeia não vive já em democracia apesar de continuarem a existir – e com capacidade de decisão ínfima – instituições decorrentes do sufrágio universal que agem como se não estivessem vinculadas à vontade dos eleitores, agredindo-os em vez de lhes proporcionarem uma sociedade digna para viver.

Absurdo dos absurdos, 2012 foi o ano em que o Comité Nobel de Oslo decidiu atribuir o Prémio Nobel da Paz à União Europeia – mancha negra e definitiva sobre quem outorgou e quem recebeu.

O escândalo não resulta apenas do facto de países da União Europeia, e em alguns casos a própria União, estarem envolvidos em guerras como a do Afeganistão, a do Iraque, a da Líbia, agora a da Síria acompanhando a política imperial norte-americana. A União Europeia é igualmente parte das ameaças bélicas contra o Irão, da liquidação das possibilidades de paz na Palestina dando de facto cobertura às ilegalidades de Israel, da manutenção da ocupação ilegal do Saara Ocidental por Marrocos.

O escândalo do Nobel resulta em primeiro lugar da arbitrária e cruel guerra social que as estruturas dirigentes da União Europeia conduzem contra as esmagadoras maiorias das populações dos países membros. Este é o lado mais negro e visível do estado de negação da democracia e de vigência de um regime global autoritário em que vive a União.

 

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por Augusta Clara às 18:00



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