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Jardim das Delícias


Segunda-feira, 30.10.17

Caros homens - Bruno Maia

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Bruno Maia  Caros homens

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(Bruno Maia é neurologista no Centro Hosptalar de Lisboa Central)

 

É preciso ser mulher para perceber e sentir todas as formas de opressão, discriminação, subjugação e assédio que nós homens infligimos, na maioria das vezes sem nos apercebermos.

 

esquerda.net, 28 de Outubro de 2017

   É-nos muito difícil falar sobre emoções. Eu sei. Desde bebés que nos dizem que os homens não choram. Que todo e qualquer sentimento que não seja regozijo numa qualquer vitória ou domínio sobre outro ser humano, não é aceitável. Talvez não nos tenham dito explicitamente mas estava lá implícito, nos contos de crianças, na banda desenhada, nos videojogos, nas conversas de recreio, no campo de futebol. Afinal histeria e choradeira são só para meninas. E aprendemos inconscientemente que há deveres que não são nossos: quando a mãe nos dispensava de arrumarmos o quarto, quando a professora “tolerava” o nosso lixo porque “éramos rapazes”, quando a namorada da adolescência passou a escolher a roupa por nós, quando a casa que partilhamos com outros rapazes na faculdade tinha que estar imunda, ou não era uma casa de rapazes. Os mais velhos diziam com frequência que tinham a esperança de um dia encontrarmos uma rapariga com a cabeça no lugar para “tomar conta” de nós (dos tais deveres que aos rapazes não assistem).

Lembram-se dos primeiros dias de vida? Claro que não. Mas vários investigadores já demonstraram que o tom de voz com que os pais tratam os meninos recém-nascidos é muito diferente daquele com que se dirigem às meninas. E lembram-se daquele tio, ou amigo do pai, que se ria e divertia sempre que dizíamos asneiras? Ou que nos incentivavam, ainda com 3 anos, quando agarrávamos a menina lá no infantário para dar um “inocente” beijo, quer ela quisesse ou não?

Lembram-se de todas aquelas vezes em que, para nos insultarem, os outros rapazes diziam: “pareces uma menina”? E certamente lembram-se do que pensávamos todos de uma rapariga com muitos namorados… E um rapaz com muitas namoradas? Era o quê? Lembram-se?

Todos crescemos para sermos campeões. Bem-sucedidos. Décadas nisto tornaram o nosso inconsciente impermeável a “emoções frágeis” e o nosso ego imbatível. Convenceram-nos (consciente e inconscientemente) que nós “temos direito” a uma série de coisas. Os privilégios de sermos homens. De vivermos com regalias das quais nem temos noção no dia-a-dia que elas existem! Já participaram em reuniões certamente – do trabalho, políticas, qualquer coisa onde estejam homens e mulheres. Na próxima reparem no número de vezes que os homens falam por cima delas e ninguém se importa – afinal temos a voz mais grossa, impomos a nossa presença, enfim, somos homens! E sempre que uma mulher fala mais alto reparem naquela vossa voz interior que vos diz: “é uma histérica” – porque nem pensar aceitar que uma mulher pode simplesmente ter razão.

Por tudo isto é tão difícil que alguém venha pôr em causa estes nossos privilégios. Mexemos na cadeira, ficamos incomodados, espumamos de raiva, sentimo-nos frustrados. Mas não podemos chorar que isso não é de homem – temos de bater em alguém, insultar, provocar, assediar uma rapariga qualquer que esteja por ali a passar. Chorar e falar sobre as nossas emoções é que não. Gritar não dá porque é para “histéricas”. Que coisa mais efeminada.

Tudo isto poderia ser apenas um problema nosso – uma coisa que nós resolvêssemos com o tempo, com a mudança de mentalidades. Mas não é um problema só nosso por esta pequena mas importantíssima razão: os nossos privilégios existem à custa das mulheres!

Façam agora um pequeno exercício: invertam tudo o que está descrito acima para nós homens e ponham-se no lugar das mulheres! Já se colocaram? Pois, não chega! Porque para termos sequer um vislumbre do que é ser mulher nesta sociedade não bastam 2 minutos de pensamento solidário – é preciso viver como mulher todos os dias desde o momento em que nascemos. É preciso ser mulher para perceber e sentir todas as formas de opressão, discriminação, subjugação e assédio que nós homens infligimos, na maioria das vezes sem nos apercebermos.

Para terminar deixo dois conselhos:

  1. Não falem por elas! Nós sabemos lá o que é ser assobiado na rua dia sim, dia não, ou ter o chefe constantemente a colocar a mãozinha no ombro. Se tantas mulheres se revoltam porque um juiz atenua uma agressão a uma mulher por adultério, não fiquem presos no vosso umbigo a pensar: “mas eu não quero ser traído, também me ia sentir revoltado…”; elas lidam com o problema da violência diariamente, sabem que podem ser agredidas ou até mortas por quem mais amam – nós nunca sentimos isto, não sabemos o que é!
  2. Têm filhos rapazes? Pois comecem a mudar o mundo – ensinem-nos a expressar as emoções, a chorar quando é preciso, a aceitar a vulnerabilidade como normal, caso contrário anos de repressão emocional costumam desabar em violência.

Ah e já me esquecia: feminismo quer dizer igualdade entre os géneros. Por isso, se não és feminista és um porco machista e estás na mira para ser aniquilado a curto prazo! Passem bem!

 

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por Augusta Clara às 16:08

Quarta-feira, 29.06.16

O Senhor Erdogan e os sarilhos que ele provoca - António Ribeiro

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António Ribeiro  O Senhor Erdogan e os sarilhos que ele provoca

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   Não, meu caros, eu não defendi o terrorismo como instrumento político, a propósito do Presidente Erdogan, que classifiquei como "islamo-fascista". Porque é disso que se trata; e os problemas que a sua ideologia política e religiosa coloca aos Europeus - a existência de um islamismo autoritário que fica apenas ligeiramente aquém dos exegetas do Corão e dos adeptos da Sharia - são imensos!

O Estado Turco tem quase oitenta milhões de pessoas, das quais cerca de 15 milhões são Curdos. Só os curdos-turcos são mais 50 por cento do que os Portugueses europeus! Concentram-se sobretudo no Sudeste da península da Anatólia (a parte asiática da Turquia). Acontece que o resto da Nação Curda está em parte na Síria e também no Norte do Iraque (e tem franjas em países limítrofes). De Mossul e Al-Raqqa, Síria Setentrional e até à Turquia tudo é Curdistão, uma nação e um povo de guerreiros que lutam legitimamente pela sua independência. A queda do decrépito Império Otomano, no final da Primeira Grande Guerra, permitiu ao imperialismo ocidental redesenhar os mapas da região e consagrar fronteiras que não correspondiam às realidades nacionais e culturais. Isso foi feito em torno (e por causa) dos então emergentes interesses petrolíferos, que ainda hoje envenenam toda a região. Foi neste contexto que nasceu o actual "Iraque", nos bíblicos deltas do Tigre e do Eufrates, a Mesopotâmia antiga do Velho Testamento.

| Foi nessa época que um arménio astuto, o Sr. Calouste Sarkis Gulbenkian, cuja família conseguiu escapar aos vários genocídios do início do século passado (que os Turcos negam ter existido, mas que o Papa Francisco já validou como tal), conseguiu construir o seu imenso império petrolífero, ora em disputa, ora em colaboração, com a British Petroleum (BP), de cujos frutos hoje tanto beneficiamos, em termos culturais e científicos, com a Fundação Gulbenkian, que os acasos da História e a sageza de Salazar atraíram para Portugal. |

O presidente Necip Erdogan tem um projecto para a Turquia: destruir paulatinamente a laicidade do país e impor-lhe um regime baseado numa visão musculada do Islão. Por enquanto sem "sharia", mas as dinâmicas que ele cria podem degenerar nisso.

O Ocidente devia apostar mais nos curdos e não apenas servir-se deles quando lhe convém. Um Curdistão independente permitiria conter a Turquia e federar franjas do Norte da Síria e o Norte do Iraque onde a ausência de um tal "Estado" foi aproveitada pelos radicais para "fundarem" o famigerado ISIS que tanto nos apoquenta.

É neste "caldo" de circunstâncias maçadoras e infelizes que escrevi, e com muita honra, que esta Turquia, que tanto queria ser "europeia", pretensão que há dez anos eu ainda apoiava, que Erdogan é o grande problema e o grande obstáculo e que me é rigorosamente indiferente a sua sorte e a do seu partido de regime.

Ele é um canalha que começou por apoiar o chamado "estado islâmico", porque o ISIS combatia os "seus" curdos, para agora, a troco de dinheiro, vir dizer-nos que o combate, em aliança com Bruxelas e os Americanos. Pura hipocrisia! Ele só pensa no Islão e nos interesses do seu partido. Tendo suporte eleitoral para alcançar maiorias absolutas, como tem tido, ele desmerece a Europa e não pode almejar à integração.

Como podemos aceitar um país na UE que fez regredir as mulheres para o estatuto de há muitas décadas? Uma mulher turca andava há vinte anos pelas ruas de Istambul de cabeça inteiramente destapada e em trajes ocidentais, mas hoje sente-se coagida a vestir o hijab, sob pena de ser desconsiderada socialmente e apelidada de "puta". Essa é a obra do Sr. Erdogan. E por isso, não obstante algumas vítimas "colaterais", não consigo ser excessivamente piedoso com as desgraças que lhe acontecem, como a desta terça-feira. Claro que lamento a má-sorte das vítimas, mas temos de contextualizar e de entender as razões profundas disto. Ele só está a provar do seu próprio veneno, não deve ser validado por Bruxelas e todos ganharíamos se o varressem do mapa!

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por Augusta Clara às 18:00

Quinta-feira, 14.04.16

A agitação nas Forças Armadas - Augusta Clara

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Augusta Clara  A agitação nas Forças Armadas 

 

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   Porque não sou militar e, como tal não tenho competência para me pronunciar sobre questões de organização e disciplina interna dessa área da sociedade portuguesa, como os militares não as têm sobre outras áreas, não pronunciei até agora qualquer palavra sobre o incidente acontecido num estabelecimento escolar militar e respectivas consequências, nem agora o vou fazer.

Mas, ao aperceber-me duma certa reacção de urticária que atacou alguns militares pela ingerência do Ministro da Defesa no conflito e ao constatar que já por aí se fala em pronunciamentos militares, a coisa muda de figura.

Primeiro há aquele pormenor do Ministro da Defesa ser um civil. Que me recorde, há muito tempo que assim é. Já nem tenho a certeza se não o foi sempre desde o 25 de Abril quando os militares entregaram o poder aos civis.

Numa democracia todos os sectores estão submetidos ao poder político que define o rumo a seguir pelo país e as respectivas estratégias de organização e funcionamento. As Forças Armadas são um sector executivo dentro do conjunto dos cidadãos. Compete-lhes a defesa do território em caso de ameaça e/ou agressão e, com essa incumbência, desenvolvem as suas competências tal como os médicos aprendem a defender-nos da doença, e como todos os outro sectores de actividade põem, de acordo com os seus saberes, um país a funcionar.

Em todos eles acontecem contestações e, por vezes, rebeliões em lutas por interesses específicos. Mas nunca ameaças de pronunciamentos violentos porque não têm armas.

Temos verificado vezes de mais como dirigentes dos sectores económico e financeiro lutam para se eximirem às directrizes de legislação aprovada pelos governos eleitos, como se o normal fosse a economia e a finança dominarem a política e não esta determinar as opções que os devem guiar em prol da condução dos caminhos exigidos ao respeito pela soberania e ao aumento do bem estar e da felicidade de todo o povo.

As Forças Armadas não podem ter essa veleidade. Os regimes em que as forças armadas dão o braço ao poder económico e se rebelam contra o político têm dado ferozes ditaduras de que tivemos conhecimento ainda não há assim tantas décadas.

Por isso, o que se pede aos nossos militares é que reflictam e não se lancem em acções precipitadas por ninharias - agora até a gravata, ou ausência dela, do Ministro se tornou um assunto de lesa pátria -, se lembrem da nobre missão que desempenharam há 40 anos e se empenhem em manter-nos a paz de que tanto precisamos para reconstruir o país que outros danificaram.

Se nós, os civis, temos direito a imiscuirmo-nos nestas questões? Ai, temos, pois. Era o que faltava que uma geração tão massacrada por uma guerra colonial não tivesse esse direito.

Para erro já chegou o 25 de Novembro, quer por parte dos vencedores quer dos vencidos. Ao fim deste tempo todo já não me interessa tomar partido. Só quero que não se repita.

 

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por Augusta Clara às 08:00

Quarta-feira, 26.11.14

Presidente da Turquia: “as mulheres servem para ser mães" - Lourdes Hubermann, Istambul” -

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http://www.jornalistassemfronteiras.com/index.php

 

Lourdes Hubermann, Istambul  Presidente da Turquia: “as mulheres servem para ser mães"

 

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25 de Novembro de 2014

O chefe do regime islamita da Turquia, Recep Tayyp Erdogan, negou a possibilidade de existir uma igualdade de géneros, uma vez que as mulheres servem “para ser mães”. “Não se pode dar uma pá e picareta a uma mulher e mandá-la trabalhar”, declarou.
As declarações do presidente turco, cujas acções tanto como primeiro ministro como já no actual cargo têm feito “regressar socialmente a Turquia aos tempos do Império Otomano”, segundo organizações de mulheres, estão a provocar uma onda de indignação no país.
“Não podemos querer que as mulheres façam os mesmos trabalhos que os homens, como aconteceu nos regimes comunistas do passado”, disse Erdogan numa conferência dirigida à Associação Democrática das Mulheres Turcas. Concedeu que “as mulheres devem ser iguais perante a lei”, mas não no seu papel na sociedade.
“A nossa religião destinou um lugar à mulher”, disse o chefe de um regime constitucionalmente laico. “Qual é esse lugar? O da maternidade”, estipulou.
“A Turquia está a transformar-se gradualmente num regime fundamentalista islâmico, o que contraria o espírito de modernidade, a laicidade e a Constituição que nos foram deixados ainda no início do século passado”, denunciou Ceyde Kortmaz, professora e mãe de três filhos. “As pressões religiosas, instituídas como política de regime, estão em todo o lado, principalmente na educação, na vida laboral e na crescente repressão dos costumes”, acrescentou.
“Erdogan não fez mais do que confirmar a regressão social que pretende e está a impor na Turquia”, alega Emine Sevim, membro de uma organização de mulheres, operária de telecomunicações e sindicalista. “A maior parte da Europa conhece Erdogan devido ao seu autoritarismo e às vagas de repressão ordenadas em Istambul, Ancara e Esmirna, mas as consequências da sua acção permanente são muito mais profundas e retrógradas”, denunciou. “Sou mãe, esposa e trabalho, mas sinto que o ambiente no país se parece cada vez com o que era o pensamento social oficial no Império Otomano”, acrescentou.
“É mentira que as feministas sejam contra a maternidade, é mentira que a igualdade perante o trabalho seja uma característica apenas dos antigos regimes comunistas, mas esse tipo de discurso faz parte de uma propaganda insidiosa com que o regime vai minando a sociedade laica”, explicou Ceyde Kortmaz. “O fundamentalismo começa a ser asfixiante neste país e em minha opinião deveria ser esse o motivo para que a União Europeia marginalizasse o regime turco. Já não é apenas a falta de democracia, é o fundamentalismo, é também o apoio ao terrorismo islâmico, isso sim deveria preocupar os difigentes europeus”, prosseguiu Ceyde Kortmaz. “Para que saibam”, advertiu: “não são apenas os talibãs e outros que tais que perseguem as mulheres; na Turquia o regime vai pelo mesmo caminho, com uma aparência mais moderada mas o objectivo é o mesmo”.

Lourdes Hubermann, Istambul

 

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por Augusta Clara às 08:00



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