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Delícias são tudo o que nos faz felizes: um livro, a magia dum poema ou duma música, as cores duma paleta ... No jardim o sol não raia sempre mas pulsa a vida, premente.
Diário de Notícias, 9 de Outubro de 2015
"Mulher é a pior coisa que se pode chamar a um homem." O sarcasmo é de um entrevistado (homossexual) na primeira reportagem que fiz sobre discriminação dos homossexuais, em 1993, nos EUA, acerca da respetiva exclusão das Forças Armadas e da ideia de que os homossexuais seriam "medrosos" e "incapazes" - "como mulheres", em suma.
Passaram 22 anos, e muita coisa passou: o Massachusetts, onde fiz a reportagem, foi a segunda jurisdição do mundo a legalizar o casamento das pessoas do mesmo sexo, em 2003; em 2011 Obama acabou com a exclusão dos homossexuais das FA e em 2012 assumiu a causa do casamento. No mundo civilizado (há um mundo não civilizado, lamento) a luta pela igualdade independentemente da orientação sexual deixou de ser de "maluquinhos"; tornou-se institucional. E a homofobia - que engloba todas as formas de discriminação em função da orientação sexual - é hoje um labéu temido.
Ainda bem. E ainda bem que ontem, perante a indignação nas redes sociais face à atuação de José Rodrigues dos Santos no Telejornal de quarta - lançou uma peça sobre os novos deputados fazendo referência ao mais velho dentre eles (Alexandre Quintanilha, homossexual) como "eleito ou eleita" -, a RTP se apressou a publicar um comunicado assumindo o ocorrido como "erro" e pedindo desculpas. Denota isso algo de muito importante: a RTP e Rodrigues dos Santos (tenha este feito o que fez deliberadamente ou não) querem certificar que não são homofóbicos.
Infelizmente, esta atitude contrasta com a adotada no caso da promoção (decerto deliberada) do mesmo canal sobre as comemorações da República. Aí, a estátua da dita - feminina - é mimoseada, por voz off masculina em tom grosseiro, com uma série de dichotes sexistas. Como no caso Quintanilha, houve indignação nas redes e queixas à RTP, e esta retirou a promo do ar e até do YouTube. Mas, ao contrário do que se passou com Quintanilha, nenhum comunicado a reconhecer o disparate e a pedir desculpa.
O contraste é tanto mais curioso quando a homofobia é uma derivação do sexismo, vulgo machismo - como bem o meu entrevistado de há 22 anos frisou. Mas, de algum modo, apesar de a luta das mulheres pela igualdade ser muito mais antiga do que a luta contra a homofobia, é como se esta tivesse elidido aquela. A ponto de tanta gente, a propósito do caso Quintanilha, afirmar que chamar mulher a um homem é "insultuoso" sem se dar conta do implícito insulto às mulheres (como se reagiria se alguém, apelidado de homossexual, se dissesse insultado?). A ponto de a RTP correr a pedir (e bem) desculpa pelo "erro" do pivô mas não pela promo. Donde se conclui que se o apodo de homofóbico preocupa o canal público, o de machista fá-lo encolher os ombros: "Lá estão as histéricas das feministas." Afinal, para a RTP (e muitos dos que reclamam?), faz todo o sentido pedir desculpa por ter chamado, mesmo sem intenção, mulher a um homem; é que, como se constata, as mulheres não lhe merecem respeito.
Acabo de ler o artigo O acto revolucionário de contar a verdade.1 Para quando a criação de um TNM/Tribunal de Nuremberga Mediático? Os delinquentes andam à solta por Jornais, Rádios e Televisões e até moldam sondagens ao minuto para cobrir as estratégias e os crimes de lesa-cidadania, ofuscando as mentes com projecções e projectores, atraindo o máximo de votantes para os seus campos de concentração de boletins. O complexo de camuflagem, chantagem e despistagem está rodado. Formou-se nas AMG/Academias da Mentira Global. Especializou-se em parcerias encobertas: público-privadas.
Na Casa Portuguesa, nestas Legislativas, levou-se mais longe do que o habitual a guerra suja, a auscultação encomendada pelo poder mediático partidarizado ou sectarizado e induzida com alarde científico. Emergiu, nesta sequência e por consequência e com plano e orçamento reforçados, um frenético actor: o PFS/Partido-Fábrica de Sondagens. Uma agremiação-unidade produtiva generosa: no dia do escrutínio real, sempre que se verificam desconformidades com os factos, dissolve-se, lava as mãos e as partes baixas. Tudo o que aconteceu passa a ser obra exclusiva dos eleitores e dos talentos das lideranças. Os sondeiros retiram-se. Subcontratação cumprida. Outro ou outros serão lesados ou beneficiarão dos dividendos: do trabalho de sapa e persuasão, da maqui(nação) de vontades, impulsos, tendências, da procriação assistida de resultados. Irrompem, então, os do costume: os leitores do apurado. Os distribuidores de vitórias e derrotas. Os subcontratados à la carte. Eis-nos cercados por tropilhas e pandilhas da In(formatação). Desta vez, o eleitorado votou com parcimónia: deu, com manifesto enfado, uma maioria relativa à coligação de direita e uma maioria absoluta ao conjunto antigovernamental. Teve mesmo um momento subtil, digno das fábulas de Esopo e La Fontaine: concedeu representação parlamentar ao Partido dos Animais, barrando a entrada de Marinho e Pinto na Assembleia da República.
Todavia, estou ansioso por cumprir um dever humanitário e cristão: visitar em qualquer estabelecimento correctivo uma série de experts e pregoeiros da Psico. São um risco para a sanidade mental e cultural. Até para a integridade física de milhões de cidadãos. É pessoal formado nas ERC/Escolas de Redução de Cabeças. Objectivo dos elaboradores de tais painéis e patrocinadores e filosofeirantes de tais campanhas: transformar cada cabeça humana em cabeça de alfinete. Um desígnio ancestral: anterior aos Jornais, às Rádios, Televisões e Empresas de Adivinhos. Sempre houve DDT`s/Donos Disto Tudo. O que não significa que não sejam removíveis e, nalguns casos, reeducáveis. Desde que não se recorra à doçura da Cartilha Maternal.2
Espero que os actos revolucionários proliferem e se institucionalizem e os códigos romanos Dura Lex evoluam, se modernizem, se civilizem, incorporando tipologias penais que dêem resposta ao descaramento infrene e impune da CAS/Comunicação Anti-Social e dos ICP/Institutos de Caução Propagandística. O globo terrestre e naturalmente esta orla do extremo ocidental estão a pedir uma DCM/Didáctica Cívica Musculada. A construção deste modelo democrático (societário e judiciário) vai levar o seu tempo: é uma maratona pejada de barreiras e sinais de trânsito viciados ou trocados. Mas são assim todas as competições de exigência e fôlego.
Saudações revolucionárias!
05/10/2015, 105º Aniversário da República.
CÉSAR PRÍNCIPE
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